RELEASE “QUE PAÍS É ESTE?” – AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA
28 de abril de 2010

benvindos,
 
através da minha GRANDE & QUERIDA amiga danielle borges, fui chamado, a convite da editora rocco, para escrever o release (texto enviado para a imprensa) do relançamento da obra poética “que país é este?”, do magistral poeta affonso romano de sant’anna.
 
o livro foi originalmente lançado na década de 60, período conturbado da política nacional.
 
junto ao texto, solicitaram-me também uma entrevista pequenina para ser feita com o autor. bolei 8 perguntas que ainda não foram respondidas. quando tiver as respostas, a entrevista será devidamente publicada neste espaço.
 
o texto ainda não foi liberado à imprensa, mas a chefia da editora rocco super me liberou de postá-lo no “prosa em poema” quando quisesse. soube que acharam (palavras que me chegaram) “o texto lindo” (rs), que as linhas foram muito bem recebidas. isso muito me alegra, obviamente.
(o relançamento do livro está previsto para o mês de maio.)
 
enfim, segue o release, à apreciação de todos.
espero que também gostem. 
 
quem quiser maiores informações sobre o relançamento do livro “que país é este?”, do affonso romano de sant’anna, deixo aqui o endereço do blog que foi criado pela editora do livro: www.quepaiseesteolivro.wordpress.com   
 
um beijo bom em vocês!
paulo sabino / paulinho.
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(Texto de apresentação do livro: “Que país é este?”. autor: Paulo Sabino.)
 
Em um dos seus poemas, Eucanaã Ferraz afirma: “O poema ensina a estar de pé. / Fincado no chão, na rua, o verso / não voa, não paira, não levita.”

A poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen escreveu num poema seu intitulado “Poema”: “A minha vida é o mar o Abril a rua / o meu interior é uma atenção voltada para fora”.

 Seguindo esses preceitos, o poeta Affonso Romano de Sant’Anna, com a sua poesia de pé, fincada ao chão, com o seu interior sendo uma atenção voltada para fora, traça, de maneira lírica, o panorama do Brasil nos anos 60, sob o jugo de uma ditadura militar.
 
Foi um tempo difícil, de desaparecimento de pessoas ligadas à esquerda política, pessoas que se mobilizavam contra o estado das coisas, contra o governo, tempo de torturas veladas, de cassação dos direitos civis, de censura à imprensa e às artes, tempo de exílios.
 
Affonso Romano de Sant’Anna, antena da raça, captava os acontecimentos do seu entorno, os acontecimentos entornados diante das suas retinas atentas.
 
Transforma em poesia, com sofisticação e esperteza, o seu descontentamento com um país autoritário, ditatorial. Daí, a pergunta-título: “que país é este?” Afinal de contas, por todos os problemas, por todas as mazelas, “que país é este?” E faz as suas considerações: uma coisa é um país, outra, um regimento, um aviltamento, um fingimento, um confinamento, ciente de que há 500 anos caçamos índios e operários, queimamos árvores e hereges, estupramos livros e mulheres, sugamos negros e aluguéis.
 
Um país, um aviltamento, um confinamento. O bardo também canta a tristeza de ver sua geração (des)fazendo-se em terços: um terço exilada, outro terço fuzilada e mais um terço desesperada. Canta a sua canção do exílio, a sua desolação de não ter um país, de não comandar a sua vida – em termos políticos. E ironiza o mito do “povo brasileiro” – caracterizado como gentil, alegre, cordato, solícito -, dizendo, com propriedade, que povo também são os falsários, os corruptos, os injustos, os sifilíticos, os artistas, e propondo a complexificação do termo.
 
Dentro do seu balaio poético, cabe o olhar para a violência gerada pelas desigualdades sociais, pelas diferenças econômicas – a miséria material indigna, que transforma homens em seres duros, isto é, em pessoas sem poder aquisitivo que lhes permita diversão e arte, em seres duros, isto é, em pessoas insensíveis, sórdidas, empedernidas, capazes de atrocidades, atrocidades gestadas, nascidas, criadas, das atrocidades que acompanham a miséria material indigna à qual está sub-metida parte (grande) da população brasileira.
 
Ante o quadro debuxado nos versos, Affonso Romano de Sant’Anna, um homem amoroso, nutre, então, pelo Brasil, um amor lúcido, digo, um amor melancólico, um amor triste, ao mesmo tempo em que esse amor é terno, carinhoso, amor “de alma num carro de bebê” que é levada “ao sol da praça”. Amor que verifica todas as falhas e faltas, porém, que não deixa de reconhecer o que existe (e insiste) de saboroso e frutífero neste país, o que acaba por alimentar a alma e a memória de passagens/vivências boas.
 
E como um homem amoroso, um homem que bem sabe amar, “Que país é este?” dedica-se a um belo apanhado de textos devoto ao amor pelas mulheres, sejam elas deusas ou feras que se transmutam em belas quando atiçadas pelos prazeres corpóreos, pelo “amor natural”, como bem intitulou Carlos Drummond de Andrade o amor de deleites em pele digitados – amor dos toques e retoques. Um sentimento delicado, sensível e sexualizado. Um amor de admiração e desejo. 
 
A poética de Affonso Romano de Sant’Anna é calcada, sedimentada, na escrita da existência, na materialidade da vida, nos acometimentos que vão se dando ao seu redor, na realidade à qual se vincula. O poeta estabelece: “É texto tudo o que vejo / é texto tudo o que piso”.