MATANDO A COBRA & MOSTRANDO O PAU
3 de janeiro de 2013

Prêmio BN

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Biblioteca Nacional lança prêmio de literatura para autores VIVOS & o vencedor é o poeta Carlos Drummond de Andrade.
 
Drummond?? Caramba! Um prêmio, para autor VIVO, recebido pelo Drummond sugere, no mínimo, a descoberta da vida após a morte, correto? Caramba de novo! Alguém me conta: como foi o contato? Mãe Dináh na área? Só espero um convite para uma próxima sessão, adoraria falar com o poeta!
 
Aqui, texto com o que disse o júri:
 
 
“Por que Drummond?
 
A poeta Leila Míccolis, integrante do júri que escolheu ‘Carlos Drummond de Andrade: Poesia 1930-62’, da [editora] Cosac Naify, como vencedor do Prêmio da Biblioteca Nacional de Literatura, diz que preferia ter premiado um poeta vivo. ‘Eu tinha outra escolha, mas respeitei a decisão coletiva.’
 
Seu colega de júri Francisco Orban avalia que caberia à organização decidir se o livro estava habilitado ou não — já que, pelo edital, a inscrição só poderia ser feita pelo autor ou pela editora com autorização por escrito do autor. A BN [Biblioteca Nacional] já manifestou que só analisará o caso se houver recurso de algum concorrente.”
 
 
 E eu, Paulo Sabino, que já escrevi, neste espaço, sobre premiação literária (envolvendo o poeta concretista Décio Pignatari: https://prosaempoema.wordpress.com/2012/12/06/desabafo-acorda-brasil/), concordo (em parte) com o poeta Adriano Nunes:
 
 
“Ora. Ora. Tão absurda a coletiva justificativa como absurda a premiação. O que sinceramente justifica é que os três poetas do júri (diga-se, medianos, com uma poesia já enfadonha e sem acréscimos) optaram (por inveja, claro) não premiar um poeta vivo (mesmo sabendo das regras do concurso) porque é mais fácil e mais óbvio premiar o que já aclamado é.”
 
 
Digo que concordo em parte com o poeta Adriano Nunes apenas porque nunca li nada da poesia dos jurados, de modo que não sei dizer se a poesia deles é enfadonha. Mas, sinceramente: depois desse episódio, VERGONHOSO, não sinto a mínima vontade de ler coisa alguma.
 
O que sei é que o ano de 2012 acolheu uma safra de ÓTIMOS livros de poesia (só para citar alguns): “Porventura”, de Antonio Cicero; “Formas do nada”, de Paulo Henriques Britto; “Sentimental”, de Eucanaã Ferraz; “Céu em cima / Mar em baixo”, de Alex Varella; “Laringes de grafite”, de Adriano Nunes; “Um caderno de capa verde”, de Flávio Morgado.
 
Com tantos LINDOS livros de poesia lançados em 2012, por que a escolha de Carlos Drummond de Andrade (numa premiação especificamente para autores VIVOS)?
 
(Essa é a pergunta que não quer calar…)
 
Acorda, Brasil!

CANÇÃO
10 de dezembro de 2012

Décio Pignatari

(O poeta Décio Pignatari.)
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Em homenagem ao poeta Décio Pignatari, falecido no último dia 02 do corrente mês, sem o devido reconhecimento da sua sofisticada obra poética por parte dos seus pares (jornalistas, críticos literários & poetas), sem, ao menos, quando vivo, 1 prêmio de literatura, poeta à parte de todas as loas & de todos os salves por conta das suas audácia, capacidade & perspicácia criativas, poeta à parte de todas as loas & de todos os salves por conta da inveja & do medo de parte da classe literária (alguns poetas, críticos literários, jornalistas, são tão inseguros que temem a perda dos seus espaços com a chegada de alguém com excesso de talento), em homenagem, portanto, a um poeta rechaçado, quando vivo, por sua pletora de talento (acorda, Brasil!), este poema que, neste momento, chega oportuno, vestindo o “Prosa em poema” tão bem como se uma luva fosse.
 
Décio, com todos os seus feitos poéticos, não deve nada a ninguém.
 
Somos nós quem devemos a ele por tudo & tanto. Uma, apenas uma das provas está aqui, no livro de onde saiu o poema que lhes segue, livro onde Décio Piganatari traduz 214 poemas de 31 poetas diferentes, passando pelos hinos do Rig-Veda, pelos poetas-santos de Xiva, por Safo, por Íbico, por Catulo, pelos poetas da dinastia Tang, até chegar em George Byron, Robert Browning, Arthur Rimbaud & Guillaume Apollinaire, entre outros.
 
Décio Pignatari: uma usina de luz, de sabedoria, de conhecimento. 
 
Com sua espada, que foi sua caneta a disparar versos (arma com a qual lutou), foi um bravo — mas sem ofensa a ninguém.
 
Em mim, ninguém pô-lo-á chinfrim, e deixo este poema como uma espécie de epitáfio à sua vida de braços dados à poesia, coisa que realmente deve importar, coisa com a qual Décio Pignatari se importou durante toda a sua existência.  
 
A ele, os meus agradecimentos por suas imensidão & generosidade.    
 
Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do livro: 31 poetas 214 poemas — Do Rig-Veda e Safo a Apollinaire. autor do poema: Robert Burns. tradução, notas e comentários: Décio Pignatari. editora: Companhia das Letras.)
 
 
 
CANÇÃO
 
 
Tenho mulher só pra mim
Não divido com ninguém
Ninguém vai me pôr chinfrim
Não ponho chifre em ninguém 
 
Tenho um real pra gastar
Graças a quem? A ninguém
Não tenho nada a emprestar
Não empresto de ninguém
 
Eu não sou senhor de escravo
Nem escravo de ninguém
Com minha espada sou bravo
Mas sem ofensa a ninguém
 
Quero ser o alegre amigo
Sem tristeza por ninguém
Ninguém se importa comigo
Não me importo com ninguém

DESABAFO: ACORDA, BRASIL!
6 de dezembro de 2012

Décio Pignatari

(O poeta Décio Pignatari.)
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Escreveu (muitíssimo bem) o poeta Régis Bonvicino:

“A morte do poeta paulistano Décio Pignatari, ocorrida esta semana em São Paulo, aos 85 anos, produziu uma série de manifestações na imprensa, como seria de se esperar. O surpreendente foi o tom nostálgico que marcou a maioria delas, ao mesmo tempo em que, contraditoriamente, também se acentuava certa modernidade essencial de Pignatari. Alguns afirmaram que seu ‘espírito inovador’ faz falta à poesia atual, outros, que Pignatari jamais foi reconhecido como deveria, não tendo, por exemplo, recebido prêmios literários.”
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Um DESABAFO de PAULO SABINO:

sinceramente, às vezes eu não entendo o Brasil. Quer dizer que, agora, depois de falecido, todas as loas & todos os reconhecimentos a Décio Pignatari? De um dia pra outro, todos os salves à obra do poeta?

Vem cá: e quando vivo? e quando entre nós, por que a falta de tantas homenagens & matérias de jornal?

Sabe o que acho? CARETICE, MEDO, INVEJA, por parte de quem compõe a elite literária, CARETICE, MEDO, INVEJA, dos que encabeçam os prêmios & críticas literários. Puxa vida, um poeta de tão altas capacidades… capacidades, aliás, reconhecidas por todos que, de algum modo, mexem com literatura (vide a comoção diante da morte do poeta).

E me pergunto: por que fingir menosprezo, por que fingir certa falta de importância, a uma obra tão cheia de requintes, como é a obra do Décio, enquanto Décio estava vivo, entre nós? Nem 1 prêmio literário com obra tão vasta & festejada? COISA BESTA, ABSURDO PEQUENO, ATITUDE MESQUINHA.

Agora que o bardo se foi, agora que não tem mais jeito (infelizmente o processo de ressurreição morreu com o Cristo na cruz), como vai ser? Um “pipocar”, uma enxurrada, de prêmios ao poeta morto?

Agora, poeta sete palmos abaixo da terra, todos os reconhecimentos à sua fantástica obra…

PAÍS DE MERDA!, que não sabe dar valor ao que tem, PAÍS DE MERDA!, que precisa de aval estrangeiro pra reconhecer o que é valoroso no seu território. TRISTE TRISTE TRISTE, HORROR HORROR HORROR…

Na boa: às vezes penso que o BRASIL, melhor: que alguns BRASILEIROS — falando bem diretamente ao meio literário — NÃO MERECEM alguns filhos deste solo, filhos da grandeza de DÉCIO PIGNATARI.

O que acontece agora com o Décio (MORTO) é recorrente no Brasil. E os senhores não fazem idéia da VERGONHA que sinto…

Agora podem me perguntar: se acho importante que finalmente Décio Pignatari seja reconhecido? que receba prêmios & loas? que seu nome, finalmente, ganhe o país?

Acho, acho super importante, e desejo!, e quero!, que isso aconteça.

Mas, porra!, é preciso que o homem morra sem o devido reconhecimento dos próprios pares (digo: jornalistas, críticos & poetas)?

Caralho!, ele fez pela língua portuguesa, Décio foi um poeta BRASILEIRO! Que medo é esse (o de admitir o grande valor & a grande contribuição literária)? que “protecionismo” babaca é esse?

Isso me REVOLTA! Porque sei que, no caso do Décio, assim como em muitos outros casos, tal fingida desconsideração pela sua obra ocorreu por conta de MEDINHOS & INVEJA de parte da classe literária.

A elite intelectual brasileira precisa CRESCER, precisa AMADURECER.

Jornalistas, críticos literários, poetas: UNI-VOS!

O que importa é a BOA poesia. Belezas nasceram para ser COMPLEMENTARES & não EXCLUDENTES!

 A existência é um grande barato pela variedade de belezas que apresenta: variedade de bichos, de plantas, de mares, de rios, de rochas, de cores, de sons, de cheiros, de pessoas. 
 
Não seria diferente na arte.
 
Pensem a respeito.
 
ACORDA, BRASIL!