A POESIA É UM ATENTADO CELESTE
6 de novembro de 2013

Banco vazio com folhas secas

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senhores,

há pouco, passei por dois acidentes graves, em seqüência, cada qual com suas peculiaridades.

num acidente, eu vi a cara da morte, e ela estava viva: voltando de belo horizonte para o rio de janeiro, o ônibus em que viajava bateu na traseira de um caminhão parado no acostamento. uma pessoa morreu na hora, três outras ficaram presas nas ferragens, e não sei quantos mais feridos. por sorte, tive apenas um inchaço no polegar direito & dores nas costas devido à batida. nada mais.

no outro acidente, a dor de ser fisicamente freado pela vida: pedalando com o orlando (meu camelo azul da cor do mar), um ciclista, que vinha na direção oposta à minha, ao tentar ultrapassagem, invadiu a contramão (sem que eu tivesse tempo de desviar) & bateu de frente comigo. resultado: por causa do deslocamento de uma parte óssea (curiosamente chamada “capitulo”) & da fratura de um outro osso, tudo no cotovelo esquerdo, tive de operar, para colocar pinos & parafusos, e de imobilizar o braço. um mês imobilizado & depois — pelo menos — mais um mês de fisioterapia.

estou ótimo, graças. por sorte, não foi o braço direito o atingido, afinal sou destro!

no entanto, querendo ou não, a vida me parou, me pôs quieto no meu canto. com isso, tive de encará-la sem meias verdades.

tais acontecimentos mexem, mexeram, comigo. fichas caíram. prioridades subiram.

re-pensar, re-ver, re-fazer, re-tomar.

tenho que um monte de coisas pendentes, e importantíssimas.

momento de reflexão: dando um tempo para mim. ausente de mim mesmo.

eu estou ausente, porém, no fundo desta ausência, existe a espera de mim mesmo, e esta espera é um outro modo de presença (tenho que um monte de coisas pendentes, e importantíssimas).

à espera de meu retorno, eu estou em outros objetos. ando em viagem (interna) dando um pouco de minha vida a certos livros & a certos discos, objetos que me esperaram muitos anos.

eu não estou & estou: estou ausente & estou presente, mas presente “em estado de espera”.

eles (os objetos a quem dou um pouco de minha vida) queriam minha linguagem para expressar-se. e eu queria a — linguagem — deles para expressá-los: eis o atroz equívoco: o equívoco primordial: a tentativa de interpretação das coisas, herméticas nelas mesmas, sem explicações ou justificativas sobre o que são & desejam.

angustioso, lamentável (pelo atroz equívoco), vou-me adentrando nestes objetos — e deixando minhas roupas, perdendo as carnes: meu esqueleto vai-se revestindo do material que forma os objetos.

estou-me fazendo livros, discos, palavras, som…

(quantas vezes me converti em outras coisas…)

o processo de transformação, por me achar à espera de mim mesmo, é doloroso & cheio de ternura. podia dar um grito, fazer barulho, chamar a atenção às dores das mudanças.

mas para quê?

à transubstanciação (transformação de uma substância em outra) de nada adiantaria o grito.

com o grito, a transubstanciação se espantaria.

(a transubstanciação: a transformação de uma substância, o paulo sabino, em outra.)

há que guardar silêncio. a fim de pensar, refletir, concentrar.

esperar em silêncio.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Pescados vivos. autor: Vicente Huidobro. tradução: Waly Salomão. editora: Rocco.)

 

 

A POESIA É UM ATENTADO CELESTE

 

Eu estou ausente porém no fundo desta ausência
Existe a espera de mim mesmo
E esta espera é outro modo de presença
À espera de meu retorno
Eu estou em outros objetos
Ando em viagem dando um pouco de minha vida
A certas árvores e a certas pedras
Que me esperaram muitos anos

Cansaram-se de esperar-me e sentaram-se

Eu não estou e estou
Estou ausente e estou presente em estado de espera
Eles queriam minha linguagem para expressar-se
E eu queria a deles para expressá-los
Eis aqui o equívoco o atroz equívoco

Angustioso lamentável
Vou-me adentrando nestas plantas
Vou deixando minhas roupas
Vou perdendo as carnes
E meu esqueleto vai-se revestindo de cascas
Estou-me fazendo árvore  Quantas vezes me converti em
………………………………………………………….[outras coisas…
É doloroso e cheio de ternura
Podia dar um grito porém a transubstanciação se espantaria
Há que guardar silêncio  Esperar em silêncio