O OBJETO DO MEU MAIS DESESPERADO DESEJO
11 de março de 2013

Entardecer em Ipanema, Rio de Janeiro

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objeto do meu mais desesperado desejo, não seja aquilo por quem ardo & não vejo. não.

objeto do meu mais desesperado desejo, seja aquilo por quem ardo & vejo, e toco, e alcanço:

objeto do meu mais desesperado desejo, seja a estrela que me beija, seja a luz que vem de encontro, objeto do meu mais desesperado desejo, o oriente que me reja (tudo o que há de belo & sábio nas culturas orientais: a apreciação do silêncio; a observação do mínimo, do micro; a observação do micro que acaba nos levando ao macro, ao que é universal, ao que é maior; as técnicas de concentração & esvaziamento da mente), que me reja tudo aquilo que me oriente ao azul (do céu, do mar), que me reja tudo aquilo que me oriente ao amor (pelos meus amigos, pelo meu amante), que me reja tudo aquilo que me oriente à beleza (da flor, da cor, do sorriso).

faça qualquer coisa, contanto que você — a estrela que me beija, oriente que me reja — seja o meu amor em qualquer coisa que faça.

faça qualquer coisa, mas pelo amor de deus, mas por favor, seja — o meu amor.

faça qualquer coisa, mas pelo amor de deus, pelo amor da — suposta — força que nos criou, ou, ao menos, se não pelo amor de deus, se não pelo amor da — suposta — força que nos criou, pelo amor de nós dois, majestades de tão nobre sentimento, seja (o meu amor: a estrela que me beija, oriente que me reja).

(que assim suceda: sorte & sucesso, sobretudo.)

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Toda poesia. autor: Paulo Leminski. editora: Companhia das Letras.)

 

objeto
do meu mais desesperado desejo
não seja aquilo
por quem ardo e não vejo

seja a estrela que me beija
oriente que me reja
azul amor beleza

faça qualquer coisa
mas pelo amor de deus
ou de nós dois
seja 

POSSIBILIDADES: ALGUNS GOSTAM DE POESIA
20 de fevereiro de 2013

Paulo Sabino_Amante da poesia

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 preferência / predileção: ação de escolher uma coisa entre outras.
 
se a preferência / predileção implica em escolha, o escolhido é uma possibilidade entre outras possibilidades.
 
a preferência / predileção implica em possibilidades de escolha:
 
prefiro os parques de área verde.
 
prefiro os cachorros.
 
prefiro chico buarque a cole porter.
 
prefiro-me gostando das pessoas do que amando a humanidade (amar a humanidade é amar todos. e, no mundo, há pessoas de que não gosto, pessoas com quem não simpatizo).
 
prefiro a cor azul.
 
prefiro não achar que a razão é a culpada de tudo (os impulsos & arroubos têm o seu lugar no mundo).
 
prefiro conversar, se encontro algum médico (amigo ou apenas conhecido), sobre outra coisa que não seja doença.
 
prefiro, no amor, os aniversários não marcados — para celebrá-los todos os dias.
 
prefiro a bondade astuta (que não se deixa enganar, esperta, matreira) à bondade confiante demais (a bondade que confia em si demasiadamente não pondera, não questiona, se, de fato, está sendo boa).
 
prefiro a terra à paisana, prefiro a terra sem fardas & armas & toques de recolher.
 
prefiro os países conquistados aos conquistadores.
 
prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem (ao menos no caos estou em ordem com o mundo: confuso desordenado desarrumado inexplicável).
 
prefiro os contos de machado de assis às manchetes dos jornais.
 
prefiro os cães sem a cauda cortada.
 
prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.
 
prefiro muitas coisas que não mencionei aqui a muitas outras também não mencionadas.
 
prefiro os zeros soltos do que postos em fila para formar cifras.
 
prefiro o tempo dos insetos (breve) ao das estrelas (eterno).
 
prefiro desvirar o chinelo com a sola para cima.
 
prefiro não perguntar quanto tempo ainda & quando (desejo apenas viver o quanto me for permitido viver).
 
prefiro, inclusive, ponderar, prefiro questionar, a própria possibilidade do ser ter sua razão: será o homem, de fato, um ser pensante, um ser racional? ou, no fundo, um lunático, ser que fundou um mundo de fábulas & fantasias, recheado de deuses, significações absurdas & acontecimentos desastrosos (guerras, escravidões, fome, depredação do meio ambiente)? 
 
porém, independentemente de tudo & mais um pouco:
 
prefiro o ridículo de escrever poemas ao ridículo de não escrevê-los.
 
alguns gostam de poesia. “alguns” — ou seja: nem todos.
 
e esses “alguns” — que gostam de poesia — não chegam a ser a maioria de todos, mas a minoria.
 
(sem contar a escola, onde o estudo de literatura é obrigatório & os próprios poetas seriam talvez uns dois num universo de mil alunos.)
 
alguns — a minoria de todos — gostam de poesia. mas também se gosta de canja de galinha, gosta-se de galanteios, gosta-se da cor azul, gosta-se de fazer o que se tem vontade.
 
no mundo, gosta-se de inúmeras coisas. a poesia — para muitos dos “alguns” que gostam — está apenas entre as tantas outras coisas de que se gosta. desse modo, a poesia — para muitos dos “alguns” que gostam — pode tornar-se um “item” apreciado porém esquecido no fundo de uma gaveta empoeirada ou de um velho baú.
 
alguns gostam de poesia… mas o que é isso: “poesia”?
 
muita resposta já foi dada a essa pergunta & até hoje não se chegou a um consenso. portanto, qualquer resposta é vaga, qualquer resposta deixa a desejar, qualquer resposta não responde exatamente:
 
o que é isso — “poesia”?
 
pois eu digo que não sei, não sei & não sei, e, mesmo não sabendo a resposta, me agarro a ela como a uma tábua de salvação.
 
(a poesia aguça minha inteligência, a poesia melhora meu humor, a poesia me livra das azias existenciais, a poesia imprime ritmo à minha vida.)
 
salve a sua existência na minha!
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Poemas. autora: Wislawa Szymborska. seleção & tradução: Regina Przybycien. editora: Companhia das Letras.)
 
 
 
POSSIBILIDADES
 
 
Prefiro o cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro Dickens a Dostoiévski.
Prefiro-me gostando das pessoas
do que amando a humanidade.
Prefiro ter agulha e linha à mão.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não achar
que a razão é culpada de tudo.
Prefiro as exceções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro conversar sobre outra coisa com os médicos.
Prefiro as velhas ilustrações listradas.
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não escrevê-los.
Prefiro, no amor, os aniversários não marcados,
para celebrá-los todos os dias.
Prefiro os moralistas
que nada me prometem.
Prefiro a bondade astuta à confiante demais.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro os países conquistados aos conquistadores.
Prefiro guardar certa reserva.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro os contos de Grimm às manchetes dos jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães sem a cauda cortada.
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.
Prefiro as gavetas.
Prefiro muitas coisas que não mencionei aqui
a muitas outras também não mencionadas.
Prefiro os zeros soltos
do que postos em fila para formar cifras.
Prefiro o tempo dos insetos ao das estrelas.
Prefiro bater na madeira.
Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.
Prefiro ponderar a própria possibilidade
do ser ter sua razão.
 
 
 
ALGUNS GOSTAM DE POESIA
 
 
Alguns —
ou seja nem todos.
Nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria.
Sem contar a escola onde é obrigatório
e os próprios poetas
seriam talvez uns dois em mil.
 
Gostam —
mas também se gosta de canja de galinha,
gosta-se de galanteios e da cor azul,
gosta-se de um xale velho,
gosta-se de fazer o que se tem vontade
gosta-se de afagar um cão.
 
De poesia —
mas o que é isso, poesia.
Muita resposta vaga
já foi dada a essa pergunta.
Pois eu não sei e não sei e me agarro a isso
como a uma tábua de salvação.

ESTRELAS
23 de outubro de 2012

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estrelas, eu as quero, eu as desejo, para mim!

estrelas para mim!

para mim: estrelas!

para mim,
para o meu pensamento,
na minha opinião,

estrelas são para mim.

estrelas para mim: estrelas estrelas!

estrelas para mim: “para quê?”

“para quê?”
“para quê?”

oras, “para quê?” para mim!

estrelas para mim, só para mim!

para mim!
para mim!
para mim!

estrelas para mim & a treva entre as estrelas — só para mim!

para mim eu quero, eu desejo: as cintilações & a escuridão entre as cintilações durante o trajeto. assim como na esfera celeste.

beijo todos!
paulo sabino.

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(autores: Arnaldo Antunes / Sérgio Britto.) 

 

 

ESTRELAS

 

Estrelas
Para mim
Para mim
Estrelas

 

São para mim
Estrelas para mim
Estrelas
Estrelas

Para quê?
Para quê?
Para quê?

Estrelas para mim
Só para mim

Para mim
Para mim
Para mim

E a treva entre as estrelas
Só para mim

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(áudio extraído do cd: A fábrica do poema. artista e intérprete:Adriana Calcanhotto. canção: Estrelas. autores da canção: Arnaldo Antunes e Sérgio Britto. gravadora: Epic Records.)