OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (15ª EDIÇÃO) — EUCANAÃ FERRAZ & CONVIDADOS
7 de novembro de 2018

(O homenageado desta edição do projeto: o poeta Eucanaã Ferraz)

(Convite)

(Paulo Sabino e Antonio Cicero)

(Eduardo Coelho)

(Bruno Cosentino)

(Capa do livro Hamlet e a lagartixa: uma leitura da poesia de Eucanaã Ferraz, da professora Marlene de Castro Correia)
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Gente poética,
 
Encerrando este 2018, a 15ª edição do projeto Ocupação Poética presta a sua homenagem ao super poeta EUCANAÃ FERRAZ! O Eucanaã, além de ser dono de uma obra linda, é responsável pela antologia de poemas “Veneno antimonotonia – os melhores poemas e canções contra o tédio”, pela reunião de letras das canções do Caetano Veloso, “Letra só”, e da Adriana Calcanhotto, “Pra que é que serve uma canção como essa?”, e pela edição em 2 volumes de toda a obra (música, poesia, prosa e teatro) do Vinicius de Moraes.
 
A noite conta com as participações do poeta, filósofo e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) Antonio Cicero, do cantor e compositor Bruno Cosentino e dos professores Eduardo Coelho e Marlene de Castro Correia. Além da leitura de poemas e apresentação de canções (parcerias do Bruno Cosentino e Eucanaã), haverá o lançamento do livro “Hamlet e a lagartixa: uma leitura da poesia de Eucanaã Ferraz” (editora 7Letras), um ensaio de Marlene de Castro Correia sobre a obra do homenageado.
 
Esperamos vocês!
 
Serviço:
Ocupação Poética – Eucanaã Ferraz e convidados
Com Antonio Cicero, Bruno Cosentino, Eduardo Coelho, Marlene de Castro Correia e Paulo Sabino
12/11 (segunda-feira)
20h
Teatro Cândido Mendes
Rua Joana Angélica, 63 – Ipanema
Tel: (21) 2523-3663
Entrada: R$ 20,00 (inteira) R$ 10,00 (meia)*
Classificação: 14 anos
 
*Nomes no comentário desta postagem entram na lista-amiga e garantem a meia-entrada (R$ 10,00)
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(do livro: Escuta. autor: Eucanaã Ferraz. editora: Companhia das Letras.)

 

 

SIMPLES

 

Se você não sai da minha cabeça,
minha cabeça é seu apartamento.
Já você, sendo você, é um chapéu
que uso dentro, como se usa um caroço.
Porque minha cabeça todo o tempo
está em você, suas pernas não saem
da minha cabeça e sinto seus braços
se formarem nos mesmos escaninhos.
Não tenho cabeça para outro assunto,
guarda-chuva chapéu pernas ou versos
que não sejam você. Devia pensar
noutras coisas — alfinetes perdidos,
convicções perdidas praias desertas
ou novas medidas de segurança
para a cena do atirador de facas.
Perdi a cabeça e já não há remédio.
Mas quem havia de a querer no lugar
se seus dedos brotam em meus cabelos?
Você me subiu à cabeça — forças
belezas alegrias me pertencem.
Havia muito sangue na calçada
dizem. Ai, sou um equilibrista em queda
livre. Desempregado. E se giro
por aí com a cabeça no ar
carregando você, minha cabeça
é um balão bailando então. Sim, daqui
a Cordilheira dos Andes é nítida.
Escute, escreverei uma coisa
tão simples assim: você é meu sol.
Porque você me deixa com a cabeça
quente. E sem juízo, imaginando.
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ESTA PLACA
28 de abril de 2015

Eucanaã Ferraz

(Na foto, o poeta Eucanaã Ferraz.)
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note-se: o nome “eucanaã”, além de iniciar com o pronome da primeira pessoa do singular, “eu”, significa, em hebraico, “terra prometida”, a terra que, segundo a bíblia, deus assegurou aos descendentes de abraão — “canaã”.

esta placa: o nome do poeta: “eucanaã”, que é como se ele mesmo dissesse: “eu, canaã! eu, terra prometida!”

é como se ele próprio afirmasse — afinal, começa com “eu” o nome do poeta — que ele é o que o nomeia: “eu, canaã! eu, terra prometida!”

“canaã”, que é o mesmo que “terra prometida”: lugar de não ser ainda, solo tão só prometido, projeto de geografia para depois de amanhã, para um dia (quem sabe).

o nome do poeta, “terra prometida”, não é o poeta agora, pois ele não é terra que se prometeu a alguém ou a algum feito & a terra que forma o seu nome é uma terra ainda no mundo das promessas, isto é, no mundo futuro.

o poeta não existe no seu nome (o poeta não é terra que se prometeu a alguém ou a algum feito). o nome é uma coisa que vive sem ele.

o nome, terra prometida (“canaã”), se diz sendo o poeta, este nome que o afirma (“eu, canaã!”), mas o que nele — no nome — aponta o poeta é também o que o acusa de não ser o que o nome diz: o poeta não é o que seu nome diz que ele é: terra que se prometeu a alguém ou a algum feito.

o poeta queria viver sem nome, ser o que ele é: ao invés de “eu-canaã”, ao invés de “eu-terra prometida”, ser “eu-ninguém”.

chamarem-no — ei, você! — & o poeta se reconheceria perfeitamente não sendo senão uma coisa livre do que jamais prometeu.

mas à cara, mas no rosto, do poeta está colada esta placa (certas tintas, como as do nome, não se apagam), “eu-canaã”, este engano à beira de “ele-estrada”, esta placa à beira do poeta, que se vê estrada, que se vê caminho & que se faz caminho no andar dos passos.

se terra, como aponta o seu nome, o poeta é terra a terra, como os passos (passo a passo), o poeta é o agora, é o já, é o neste instante, sem vaticínios — sem previsões, sem profecias — de um norte, de um lugar na terra, em que mel & leite jorrassem fáceis, sem dor.

o poeta não existe no nome, não é terra que se prometeu a alguém ou a algum feito. o poeta só existe em chão estreito, em chão delgado, em chão apertado, em chão onde cabem uns versos de amor & morte, palavras ditas no escuro: fósforo (a luz mínima que conseguimos acender com o conhecimento mínimo que alcançamos da existência escura), poço (lugar escuro, sem saída), você (o outro, lugar também escuro, repleto de mistérios).

o poeta é o exilado do nome que carrega, sem ter nunca visto a pátria que mente (a tal “terra prometida”) toda vez que responde: “como é que você se chama?”

o poeta vai aos livros, não encontra a pátria que mente. o poeta pergunta. não está no atlas.

e o infinito infinito: o solo que não é encontrado nos livros, no atlas, a pátria que o  poeta mente, a terra para sempre prometida no nome & que nunca se realizará, a terra que não consta em mapa algum.

a terra está cumprida, a terra está efetivada, a terra está realizada, quando estiver concluída, quando estiver terminada, quando estiver acabada. então, o poeta morrerá ali, por sob a terra, dentro dela, sem ser “eu” (sem ser o que o poeta é), sem “eu” (sem a terra-corpo onde todos pousamos enquanto vivos), puro “não ser”.

sem ser eu, sem eu, não ser mais: eu-canaã.

antes disso, antes de o poeta ir morar por sob a terra, antes de o poeta ir morar dentro dela, que esta sua placa continue a indicar caminhos luminosos a quem quer que a encontre estradafora.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Escuta. autor: Eucanaã Ferraz. editora: Companhia das Letras.)

 

 

ESTA PLACA

 

Como se eu mesmo dissesse,
como se eu próprio afirmasse
(começa com eu, meu nome)
que sou o que me nomeia:

lugar de não ser ainda,
solo tão só prometido,
projeto de geografia
para depois de amanhã.

Meu nome não sou agora,
moro no mundo futuro.
Meu pai me deu esse nome
sem que eu pudesse fazê-lo.

Mal posso escrevê-lo certo
nos documentos que o pedem.
Não existo no meu nome,
coisa que vive sem mim.

Ele se diz sendo eu,
este nome que me afirma,
mas o que nele me aponta
é também o que me acusa

de eu não ser o que ele diz.
Queria viver sem nome,
ser o que sou: eu-ninguém.
Me chamarem — ei, você! —

e eu me reconheceria,
perfeitamente não sendo
senão uma coisa livre
do que jamais prometi.

Mas à cara está colada
(certas tintas não se apagam)
esta placa, este engano
à beira de mim-estrada.

Se terra, sou terra a terra,
o agora sem vaticínios
de um norte em que mel e leite
jorrassem fáceis, sem dor.

Só existo em chão estreito,
nuns versos de amor e morte,
palavras ditas no escuro,
fósforo, poço, você.

Sou o exilado do nome
que carrego, vice-versa,
sem ter nunca visto a pátria
que minto quando me digo

toda vez que respondo:
como é que você se chama?
Vou aos livros, não encontro.
Pergunto. Não está no atlas.

E o infinito infinito.

A terra estará cumprida
quando estiver concluída.
Então, morrerei ali,
sob ela, dentro dela,

sem ser eu, sem eu, não ser.

POR QUE LER POESIA?
31 de março de 2015

Prateleiras_Paulo Sabino

(Algumas das prateleiras do Paulo Sabino.)

Paulo Sabino_Sarau_Por que ler poesia

(Paulo Sabino responde a pergunta solicitada.)
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“Meu caro, muito obrigado. Me sinto lisonjeado. Bela fala e belo blog. Um fraterno abraço desde longe”.  (Márcio-André)

 

a convite da minha querida amiga, e poeta, e professora, e diretora-fundadora do selo vidráguas, carmen silvia presotto, participei, no dia 12 de março, de um sarau de poesia realizado na livraria sabor literário (rio de janeiro), respondendo a pergunta:

“por que ler poesia?”

a carmen, há algum tempo, me fez essa pergunta & agora tive a oportunidade de respondê-la na presença de um público querido & interessado no assunto.

para minha grata surpresa, a idealizadora do sarau literário me enviou o vídeo que segue aos senhores, logo abaixo, vídeo de 6 minutinhos, com trechos editados da minha “fala/resposta”. é um vídeo caseiro, mas nota-se um cuidado, está bem tratado.

como base ao que foi dito, dois textos primordiais: um, chamado “notas de um antologista”, do mestre eucanaã ferraz, onde o poeta enfatiza a potencialidade dos versos justamente por trabalharem com o deslocamento da linguagem em todos os níveis & sentidos; o outro, intitulado “a origem da poesia”, do jovem & talentoso poeta márcio-andré, onde ele afirma que a origem da poesia em nada difere da origem do homem, uma vez que, sem poesia, não há sequer a possibilidade do humano.

(ambos os textos publicados neste espaço, no “prosa em poema”.)

a quem interessar possa.

salve a poesia!
salve a sua existência nas nossas!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do site: Youtube. evento: Esparramando poesia — Vidráguas. local: livraria Sabor Literário. 12/03/2015. idealizadora: Carmen Silvia Presotto. Paulo Sabino responde a pergunta: por que ler poesia?)

BRASIL: UM IMENSO HAITI
18 de março de 2014

Mulher arrastada por camburão da PMERJ

Aperto no peito

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ODEIO o tipo de gente que, como o venerável cardeal, vê tanto espírito no feto (e do alto do seu moralismo conclama o absurdo que é a legalização do aborto no país, não importando o número de mortes anuais de mulheres & todo o estrago que essas mortes levam aos mais próximos) & nenhum no marginal (e do alto do seu moralismo conclama a pena capital, pena de morte, no país, não importando o fato de que, num país como o  Brasil, preconceituoso até o pescoço, muitos morreriam injustamente em cadeiras elétricas, e a ineficiência do Estado poderia aumentar).

Tanto espírito no feto & NENHUM no marginal…

O Brasil, em diversos aspectos, soa-me como uma piada pronta de muito mau gosto. O Brasil me enoja em diversas questões. Às vezes tenho dó deste país, tenho pena da mediocridade deste país — e o sentimento estende-se ao mundo em geral.

A fila de soldados (da Polícia Militar), quase todos pretos, dando porrada na nuca de malandros pretos, de ladrões mulatos. E, outros, “quase brancos”, tratados como pretos só para mostrar, aos outros “quase pretos” (e são quase todos pretos) & aos “quase brancos” pobres como pretos, como é que pretos, pobres & mulatos, e quase brancos “quase-pretos”, de tão pobres, são tratados.

Na TV, uma mulher pobre, preta, que morava em uma favela no bairro de Madureira, zona norte do Rio de Janeiro, subúrbio da cidade, é arrastada por um camburão da P.M., como mostra uma das fotos que ilustra esta publicação.

Na TV, um deputado, em pânico mal dissimulado (no fundo, pouco se importando com o assunto), diante de um plano qualquer de educação, que parece fácil & rápido & que representa uma “ameaça” de democratização do ensino de primeiro grau.

O silêncio  sorridente de São Paulo diante da chacina: afinal, presos são quase todos pretos, ou “quase pretos”, ou quase brancos “quase-pretos” de tão pobres.

(E pobres são como podres. E todos sabem como se tratam os pretos.)

E não importa se olhos do mundo inteiro possam estar, por um momento (seja por causa do carnaval, seja por causa da Copa), voltados para o país. Não importa nada: ninguém é cidadão.

Os direitos civis são violados o tempo inteiro.

O Brasil, em diversos aspectos, é um imenso Haiti. Eu sinto raiva, eu sinto pena, eu sinto cansaço.

Obstruções, trincheiras, impedimentos: são muitas as barreiras: grande o aperto…

(Pense no Haiti, reze pelo Haiti…)

Paulo Sabino.
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(do livro: Letra só. autor: Caetano Veloso. seleção e organização: Eucanaã Ferraz. editora: Companhia das Letras.)

 

 

HAITI

 

Quando você for convidado pra subir no adro
Da Fundação Casa de Jorge Amado
Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
Dando porrada na nuca de malandros pretos
De ladrões mulatos
E outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(E são quase todos pretos)
E aos quase brancos, pobres como pretos
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados
E não importa se olhos do mundo inteiro
Possam estar por um momento voltados para o largo
Onde os escravos eram castigados
E hoje um batuque, um batuque
Com a pureza de meninos uniformizados
De escola secundária em dia de parada
E a grandeza épica de um povo em formação
Nos atrai, nos deslumbra e estimula
Não importa nada
Nem o traço do sobrado, nem a lente do Fantástico
Nem o disco de Paul Simon
Ninguém, ninguém é cidadão
Se você for ver a festa do Pelô
E se você não for
Pense no Haiti
Reze pelo Haiti

O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui

E na TV se você vir um deputado
Em pânico mal dissimulado
Diante de qualquer, mas qualquer mesmo
Qualquer qualquer
Plano de educação que pareça fácil
Que pareça fácil e rápido
E vá representar uma ameaça de democratização
Do ensino de primeiro grau
E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital
E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto
E nenhum no marginal
E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual
Notar um homem mijando na esquina da rua
Sobre um saco brilhante de lixo do Leblon
E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo
Diante da chacina: 111 presos indefesos
Mas presos são quase todos pretos
Ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres
E pobres são como podres
E todos sabem como se tratam os pretos
E quando você for dar uma volta no Caribe
E quando for trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba
Pense no Haiti
Reze pelo Haiti

O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui
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(do site: Youtube. videoclipe da canção: Haiti. produção: Conspiração Filmes. música: Gilberto Gil / Caetano Veloso. letra: Caetano Veloso. intérpretes: Gilberto Gil / Caetano Veloso.)

MATANDO A COBRA & MOSTRANDO O PAU
3 de janeiro de 2013

Prêmio BN

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Biblioteca Nacional lança prêmio de literatura para autores VIVOS & o vencedor é o poeta Carlos Drummond de Andrade.
 
Drummond?? Caramba! Um prêmio, para autor VIVO, recebido pelo Drummond sugere, no mínimo, a descoberta da vida após a morte, correto? Caramba de novo! Alguém me conta: como foi o contato? Mãe Dináh na área? Só espero um convite para uma próxima sessão, adoraria falar com o poeta!
 
Aqui, texto com o que disse o júri:
 
 
“Por que Drummond?
 
A poeta Leila Míccolis, integrante do júri que escolheu ‘Carlos Drummond de Andrade: Poesia 1930-62’, da [editora] Cosac Naify, como vencedor do Prêmio da Biblioteca Nacional de Literatura, diz que preferia ter premiado um poeta vivo. ‘Eu tinha outra escolha, mas respeitei a decisão coletiva.’
 
Seu colega de júri Francisco Orban avalia que caberia à organização decidir se o livro estava habilitado ou não — já que, pelo edital, a inscrição só poderia ser feita pelo autor ou pela editora com autorização por escrito do autor. A BN [Biblioteca Nacional] já manifestou que só analisará o caso se houver recurso de algum concorrente.”
 
 
 E eu, Paulo Sabino, que já escrevi, neste espaço, sobre premiação literária (envolvendo o poeta concretista Décio Pignatari: https://prosaempoema.wordpress.com/2012/12/06/desabafo-acorda-brasil/), concordo (em parte) com o poeta Adriano Nunes:
 
 
“Ora. Ora. Tão absurda a coletiva justificativa como absurda a premiação. O que sinceramente justifica é que os três poetas do júri (diga-se, medianos, com uma poesia já enfadonha e sem acréscimos) optaram (por inveja, claro) não premiar um poeta vivo (mesmo sabendo das regras do concurso) porque é mais fácil e mais óbvio premiar o que já aclamado é.”
 
 
Digo que concordo em parte com o poeta Adriano Nunes apenas porque nunca li nada da poesia dos jurados, de modo que não sei dizer se a poesia deles é enfadonha. Mas, sinceramente: depois desse episódio, VERGONHOSO, não sinto a mínima vontade de ler coisa alguma.
 
O que sei é que o ano de 2012 acolheu uma safra de ÓTIMOS livros de poesia (só para citar alguns): “Porventura”, de Antonio Cicero; “Formas do nada”, de Paulo Henriques Britto; “Sentimental”, de Eucanaã Ferraz; “Céu em cima / Mar em baixo”, de Alex Varella; “Laringes de grafite”, de Adriano Nunes; “Um caderno de capa verde”, de Flávio Morgado.
 
Com tantos LINDOS livros de poesia lançados em 2012, por que a escolha de Carlos Drummond de Andrade (numa premiação especificamente para autores VIVOS)?
 
(Essa é a pergunta que não quer calar…)
 
Acorda, Brasil!

LISBOA
8 de novembro de 2012

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sonhei, um dia, que estava em portugal, por um dia, à toa, num carnaval em lisboa.
 
um carnaval em lisboa: meu sonho voa além da poesia & encontra “o poeta” pessoalmente, meu sonho voa & encontra o poeta em: pessoa.
 
(gosto do pessoa na pessoa.)
 
no sonho, num carnaval em lisboa, a lua míngua, a lua decresce, a lua declina, pouco iluminando a noite, mas a lusitana língua acende a chama, acende o fogo; a lua míngua e, enquanto a lua míngua, pouco iluminando, a lusitana língua chama a palavra que acende, a lusitana língua chama a palavra que inflama, a lusitana língua chama a palavra que arde: chama, fogo, flama.
 
a língua lusitana acende a sua chama, iluminando a noite, clareando o breu, e, acendendo a sua chama, a palavra luzia, a palavra brilhava, luzia a linguagem na via pública, em plena rua, em forma de música (era carnaval em lisboa!), a palavra brilhava, a palavra luzia, em forma de marchinha, como esta aqui, de joão de barro, também conhecido por braguinha:
 
Anda, Luzia
Pega um pandeiro e vem pro carnaval
Anda, Luzia
Que essa tristeza lhe faz muito mal
 
em forma de música, na via pública, a palavra luzia: luzia-das-lusíadas-luzias.
 
a palavra luzia, a linguagem brilhava, nas tantas possibilidades de jogos sonoros & sintáticos.
 
sonhei que estava, um dia, em portugal, à toa, num carnaval em lisboa…
 
e seja o sonho que for, um dia, acorda-se dele. eu acordei.
 
pois bem. num belo dia, um amigo, em lisboa, pergunta o que quero de lisboa.
 
“nada”, respondo, não quero senão o que não vem nos postais, isto é: só quero o que não pode vir junto aos postais, só quero o que não pode ser aprisionado em fotos, mais um ou dois postais de lugares onde nunca fui feliz e, ainda assim (agora & sempre), mesmo postais de lugares onde nunca fui feliz, eu quis (a felicidade).
 
respondo ao meu amigo que não quero, de lisboa, senão o que lisboa não dá, o que ela guarda & é preciso roubar, captar nos seus ares, captar nas frestas da sua arquitetura, captar nas frinchas das suas ruas, abstrata: a secreta alegria que não cabe nos guias de turismo.
 
quero isso (a secreta alegria que não cabe nos guias de turismo), mais uma ou duas coisas que vêm nos guias de turismo.
 
vê esses rapazes & moças de olhos azuis, meu amigo? são holandeses. vê esses deuses & essas flores azuis, meu amigo? são azulejos. como trazê-los? como trazer, meu amigo, na bagagem, de presente a este seu amigo, esses rapazes & moças holandeses de olhos azuis, como trazer, meu amigo, na bagagem, de presente a este seu amigo, esses deuses & essas flores azuis de azulejos?
 
de nada valem os antiquários (as lojas de antiguidades); quando voltamos de lisboa, tudo o que trazemos (dos antiquários), percebemos, está partido, está quebrado, tudo o que trazemos vem faltando um pedaço: o pedaço faltoso: o que lisboa guarda & é preciso roubar, captar nos seus ares, captar nas frestas da sua arquitetura, captar nas frinchas das suas ruas, abstrata: a secreta alegria que não cabe nos guias de turismo nem nas peças dos antiquários.
 
por isso, respondo ao meu amigo, não vale a pena trazer nada, que daí, de lisboa, só trazemos, sem dar conta, o que nos parte, o que nos corta, mal fechamos a mala (no momento do adeus), mal abrimos a porta (no momento do adeus), saudosos de lisboa ainda em lisboa.
 
fechamos mal a mala (de saída), abrimos mal a porta (de saída): por isso, parte-se de lisboa e, no partir, parte de nós, em lisboa, permanece. parte-se de lisboa e, no entanto, parte de nós, em lisboa, prevalece.
 
(em mim, agora & sempre, permanece & prevalece a língua lusitana.)
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Sentimental. autor: Eucanaã Ferraz. editora: Companhia das Letras.)
 
 
 
UMA GAIVOTA VIESSE
 
 
O amigo, em Lisboa, pergunta o que quero de Lisboa;
nada, respondo, não quero senão o que não vem nos postais
mais um ou dois postais de lugares onde nunca fui feliz
 
e, ainda assim, agora e sempre, eu quis, não quero, Alberto,
de Lisboa senão o que ela não dá, o que ela guarda e é preciso
roubar, a secreta alegria que não cabe nos guias de turismo,
 
quero isso, mais uma ou duas coisas que vêm nos guias de turismo.
Vê esses rapazes e moças de olhos azuis? São holandeses.
Esses deuses e essas flores azuis? São azulejos. Como trazê-los?
 
De nada valem os antiquários; quando voltamos de Lisboa, tudo
o que trazemos, percebemos, está partido, por isso, Alberto,
não vale a pena trazer nada, que daí só trazemos, sem dar conta,
 
o que nos parte,
o que nos corta,
mal fechamos a mala, mal abrimos a porta.
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(autor: Moraes Moreira.)
 
 
 
SONHEI QUE ESTAVA EM PORTUGAL
 
 
Sonhei que estava, um dia
Em Portugal
À toa
Num carnaval
Em Lisboa
Meu sonho voa
Além da poesia
E encontra o Poeta em pessoa
 
A lua míngua
E a língua
Lusitana
Acende a chama
E a palavra luzia
Na via
Pública
E em forma de
Música:
Luzia-das-Lusíadas-luzias
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(do site: Youtube. áudio extraído do cd: Ciclo. artista & intérprete: Maria Bethânia. canção: Sonhei que estava em Portugal. versos: Moraes Moreira. música: Moraes Moreira. gravadora: Universal Music. citação da canção: Anda Luzia. autor: João de Barro.)
 

O POEMA: O CAPITÃO E SEU CONVÉS DE FRASES & VERSOS
29 de março de 2011

dizer o que seja na máxima excelência a que chegassem ritmo & conceito?

(sonhar o poema ideal, cuja própria nata de cimento encaixa palavra por palavra…)

não. impossível.

(e o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo. o poema-miragem se desfaz desconstruído.)

o poema perfeito, por sê-lo (por ser perfeito), silenciaria: lugar vazio (o poema), e seu nenhum desejo, azulejo sem qualquer desenho.

sem-par, isto é, ímpar, isto é, extra-ordinário, in-comun: abriria mão da palavra.

o poema perfeito: despossuído de palavra.

pois que: toda palavra é defeito.

“defeito”, pois que toda palavra se dá na errância. a palavra caminha, e, como nós, página afora, “erra”.

por isso o poeta já não sonha o perfeito. toda palavra é defeito.

e, assim, o poeta verruma, o poeta pensa, medita, e brune, lava, escoda, porque o canto é isso mesmo.

e imagina o poeta: haver uma palavra sempre a postos, apta & doce, como se nossa dona fosse, como se um capitão. como se a palavra levasse o poeta. o poeta ser o cão da palavra.

imagina o poeta: nunca mais ser o funcionário da “coisa nenhuma”, que nada mais é do que o “nada” de onde surgem as palavras que se encaixam à formulação dos versos.

imagina: nunca mais o poeta apertar os olhos à cata da palavra nos mais diversos locais — cadernetas de endereços & de telefone, cinema, livro, letreiro. não mais os mimos, como se faz com gatos, leite no prato, à espera.

imagina: uma palavra que ordenasse, e que o poeta, cão fiel, obedecesse. assim, ao poeta o ar jamais faltaria, jamais o sufoco por conta da palavra que não chega, embargada. nunca mais.

ela, a palavra, surgiria como, nas noites marinhas, o farol: estrada certa, às vistas, sem cessar. deste modo seguiria o poeta-cão, fiel & obediente, iluminado pela luz do seu capitão — capitão em seu navio cujo convés seria todo de frases & versos.

imagina: o poeta sem o seu ofício. o poeta sem a palavra.

o ofício do poeta é imaginar, a função do poeta é criar imagem.

portanto, quando alcança o poema, a mão (do poeta) pode mais? pode mais que o ordinário, pode mais que o comum, que o trivial, pode mais a mão porque é capaz de dar voz à poesia?

quando a mão alcança o poema, ela faz minar a água do poço que cava em horas marcadas, durante horas a fio.

um gesto com a mão, que não é de fadiga nem de repouso: simplesmente a palma da mão enxuga o suor, e a imagem poética se faz construída: “rio repentino” é o que surge do ato de secar o suor do rosto, um rio de águas imaginárias (o ofício do poeta é imaginar, a função do poeta é criar imagem), e disso, repentinamente, rio por dentro, rio comigo; com os dentes internos da satisfação à mostra, sorrio repentino.

o poeta: como se narciso, porém, como se um narciso livre de toda maldição (que é amar o mais belo, que é amar o que seja a perfeição), saboreando, no pão-poético conseguido, um paraíso, um lugar em que reina a felicidade.

(felicidade ali, rente dos dedos.)

vamos nos entregar ao reino poético e cavar, e trazer à tona, com ele, com o reino encantado das palavras, as alegrias de viver!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Desassombro. autor: Eucanaã Ferraz. editora: 7Letras.) 

 

DIZER O QUE SEJA

Dizer o que seja
na máxima excelência a que chegassem
ritmo e conceito? Não.

O poema perfeito,
por sê-lo,
silenciaria:

lugar vazio
e seu nenhum desejo,
azulejo sem qualquer desenho.

Sem-par,
abriria mão
da palavra.

E, no ceder das mãos,
não mais:
apagou-se o lenho.

Era o próprio pulso:
fígado,
coração.

 

O POETA INSISTE

O poeta insiste:
brune, lava, escoda.

Mas já não sonha
o perfeito.

Verruma
porque o canto é isso mesmo.

Isso:
toda palavra é defeito.

 

EU, UM VELHO. ELA, UM MENINO

Eu, um velho. Ela, um menino.
Ou o contrário disso, o mesmo:
a palavra me levasse.
Eu ser o cão da palavra.

Seria: não precisar estar assim, nu
(uniforme
de quando se é funcionário
da coisa nenhuma).

E: nunca mais apertar os olhos
em cadernetas de endereço,
de telefones,
cinema, sem,

ou raramente, encontrá-la
(a palavra). Não mais os mimos,
como se faz com gatos,
leite no prato, à espera.

Imagina: haver uma palavra
sempre a postos, apta
e doce como um dono, um capitão
— seu convés de frases e versos.

Palavra que ordenasse até:
nenhum poema! Eu, cão fiel,
calava. Mas o ar jamais faltasse.
Ela surgiria

como nas noites marinhas
o farol: estrada certa,
luzidia, sem cessar.
Vai o cão.

 

QUANDO ALCANÇA O POEMA

Quando alcança o poema,
a mão pode mais? Pois
faz minar a água do poço
que cava em horas marcadas
(quando é tão-só funcionária).

Nem descanso,
nem cansaço: um gesto,
mínimo, a palma
enxuga o suór do rosto e,
nisto, rio repentino.

Livre de toda maldição,
Narciso saboreasse
nesse pão conseguido
um paraíso (ali,
rente dos dedos).

DO AMOR
3 de agosto de 2010

a fruta não dura: madura, consome-se e se esvai.

amoras, amores: assim como a fruta, o amor, maduro, um dia apodrece

e cai.

(um dia, a fruta fratura. o tempo do amor: elã recíproco que, de tão fugaz, não passa de um minuto?)

amor: chover no molhado:

no início, o susto mútuo;

depois, o hábito;

por fim, o cava-rápido, que sepulta e enterra.

(secando lado a lado, como se vê nos mais variados casos, os amantes chovem no molhado.)

porém,

ainda que,

mesmo se,

o amor: como apreendê-lo?

como captá-lo, abeirar-se do seu fundo?

pensar sobre o amor: avistá-lo como bicho? como barco? como flor?

abeirar-se dele, abordar mais, chegar à borda, tocar com o bordo. dobrar as costelas a fim de mirá-lo e admirá-lo.

(e ele, o amor, ele ri de você ao vê-lo assim, curvado, tal qual um sinal de interrogação, tal qual abelha abestalhada vasculhando o que possa ser: bicho-barco-flor.)

o melhor a se fazer:
 
seja o que for o amor, cair, quedar em seu abismo (em admirações tamanhas), que dele, do amor & seu abismo, não se consiga sair.

amar é um grande exercício. amor não é fácil nem chega pronto. entretanto, creio que valha o esforço.

(não esqueçamos que no amor cabe o gozo!)

beijo carinhoso em todos,
o preto,
paulo sabino / paulinho.
____________________________________________________________________________________________
 
(do livro: Enquanto velo teu sono. autor: Adalberto Müller. editora: 7Letras.)
 
 
A FRUTA
 
Amoras, que o nome têm de amores  (Camões)
 
 
A fruta não é
para durar:
madura
consome-se e
se esvai.
Assim esse amor
maduro
um dia apodrece
 
                      e cai.
 
 
(do livro: Parte alguma. autor: Nelson Ascher. editora: Companhia das Letras.)
 
 
Amar não passa de um minuto
(no máximo) de surto mútuo
e, como se converte em hábito,
até que chegue o cava-rápido,
ambos, secando lado a lado,
chover-nos-emos no molhado.
 
 
(do livro: Cinemateca. autor: Eucanaã Ferraz. editora: Companhia das Letras.)
 
 
O AMOR?
 
Não, não é uma flor
(pelo puríssimo prazer
do não-ser). Mas
 
você quer tentar
novamente, está bem.
Pense nele como: bicho.
 
Abeire-se dele, do abdômen,
aborde mais, chegue
à borda, toque
 
com o bordo, dobre
as costelas (algo de barco
no bicho).
 
Ele ri de você
ao vê-lo assim: curvado,
tal qual um sinal
 
de interrogação, abelha
vasculhando abestalhada
o que possa ser bicho-barco-flor
 
ou uma abertura para isso, disso,
fissura, fresta,
furo
 
(você o pensa como: poço?).
Não vale a pena
se abespinhar.
 
Faça melhor:
abisme-se
caindo
 
em admirações tamanhas
que de lá não possa sair.
Afinal, o amor é isso
 
(se fosse), pelo despenhadeiro prazer
de jamais oferecer garantias,
arras, bula.

A MANCHA ESCURA
14 de maio de 2010

queridões & queridonas,
 
há bastante tempo penso em publicar este poema. quando terminei a primeira leitura que fiz, chorava sem conseguir conter as lágrimas (rs). fiquei tão emocionado que, à primeira oportunidade, li-o para minha mãe, a cabocla jurema armond, e ela também se emocionou muito.
 
na verdade, o que desejo é fazer uma espécie de filme com estas linhas. elas são cinematográficas; tenho tudo na cabeça: planos, contraplanos, cortes, ângulos, fotografia, tudo para a realização da película. pela ambição deste que vos escreve, a produção não sairia nada barata (rs), mas o vídeo ficaria lindíssimo (rs).
 
e já que ontem, 13 de maio, foi o dia em que se decretou oficialmente o fim da escravidão, a razão de publicar os versos a seguir surgiu (e caiu) como uma luva.
 
o poema trata da chegada, numa manhã, de uma mancha negra que toma, por completo, tudo o que encontra pela frente. há, na vida de quem vive tal experiência, um grande desconcerto pelo acontecimento. a flor-manhã, que nos chega sempre clara, desabrochou em naco de carvão. cidades inteiras encobertas por essa “estranha” mácula negra que aterrisou por sobre tudo & todos. 
 
junto com a mancha escura, podia-se ouvir, e até mesmo ver, certa música a crescer como o raio daquela nódoa que atingia o centro das coisas, o coração do mundo.
 
de maneira poética (e lindíssima), o poema anuncia a chegada da mancha escura, isto é, anuncia a chegada da marca negra, (im)posta, pela força da cultura africana, no dia-a-dia nosso. no fundo, o poema, liricamente, aponta para a chegada dos traços de uma cultura que se fincou e deu raízes, mesmo contra a vontade de muitos. a introdução, com a chegada forçosa dos negros, da nódoa que esses negros traziam consigo, a nódoa das palavras, a nódoa das religiões, a nódoa dos ritmos musicais, a nódoa da sua existência. 
 
hoje, queiram ou não, a cultura brasileira é tomada por signos que se desdobraram do que trouxeram os africanos. no cancioneiro popular, se pensarmos nos ritmos aqui criados, tal influência é notória. por isso o título da poesia funciona muitíssimo bem: o tambor, instrumento africano percussivo de vários tamanhos e formas, amplamente utilizado na nossa música.
 
muita luta, muito suor, muito sangue derramado, muitas lágrimas & pesares, para que eu, paulo sabino, um preto (com todas as letras – rs), chegasse até aqui.
 
portanto, o meu respeito & a minha reverência a todos os homens & mulheres que dedicaram as suas vidas à causa da liberdade. 
 
somos, ainda, um país racista, bem preconceituoso. como preto, sinto isso “na pele”. porém, como sou abusado & atrevido e não suporto gente burra (rs), ao meu modo faço com que a mancha escura continue a penetrar o coração do brasil.
 
ao toque do tambor, saúdo tal mancha: saravá, negrada!
 
beijo bom & carinhoso em TODOS,
paulo sabino / paulinho.    
____________________________________________________________________
 
(do livro: Cinemateca. autor: Eucanaã Ferraz. editora: Companhia das Letras.)
 
 
TAMBOR
 
Entrada a manhã, açafatas
qual baratas tontas para todos
os lados dobram no cesto negro
de vime negros lenços
 
e toucados. Horas em ponto
em todas as cidades, negro
um ponto surge por sobre todas,
como nas frutas o sinal maduro
 
faz anúncio de que algo ali
se abrevia: negro Coqueiral, negro
Aracaju, negra Laranjeiras, negra
Bocaiúva, negra Buriti dos Lopes,
 
negra Araçatuba. As palmeiras
reais (levam às casas do barão,
do desembargador, do capitão,
do visconde & cia.), rainhas
 
sobre o vasto cafezal, fincadas
ali tais e quais pés de mil-réis,
já não se parecem, para o espanto
de quem por elas passe, colunas
 
gregas, assim, negras. Do paço
a camareira-mor assombra-se
ao ver o luto das roupas de cama,
antes alvas como hóstias;
 
Dignitários da Ordem da Rosa
bravejam indignados com a flor-manhã
que desabrochou em naco de carvão;
os cônegos da Capela Imperial
 
não esperavam por isso, tampouco
os gentis-homens da Câmara, os lentes,
os lírios; a aia depara apavorada
com a água na taça: negra.
 
E pode-se ouvir, pode-se mesmo ver,
certa música a crescer como o raio
daquela mancha escura no centro
de tudo, no coração do mundo.

EMBLEMAS
7 de abril de 2010

O poema ensina a estar de pé.
Fincado no chão, na rua, o verso
não voa, não paira, não levita.
 
Mão que escreve não sonha
(em verdade, mal pode dormir à luz
das coisas de que se ocupa).
 
(Eucanaã Ferraz – “Sumário”)
_________________________________
 
benvindos,
 
começo com uma confissão: impressiona-me o poder que o poeta carlito azevedo possui de me paralisar. inúmeras vezes, lendo um poema de sua autoria inédito aos meus olhos, após a leitura e o entendimento, sou obrigado a parar, a fechar a página, tamanho impacto causado (rs).
 
com o seu mais recente livro, “monodrama”, não seria diferente.
 
ao ler o primeiro poema, o que abre o livro, de cara, de frente: o espanto, o susto. fazendo as conexões que me foram possíveis de fazer, percebendo a plasticidade dos versos, o encadeamento da prosa poética, fiquei tão comovido, tão tocado, que estacionei e demorei um bom tempo até passar para o segundo poema (rs).
 
cada vez mais e mais carlito azevedo acentua, na minha singela opinião, uma característica bem sua, um emblema que se mostra como um belo cartão de visitas: o de paisagista (único, singular) dos versos.
 
a sua poesia é de uma plasticidade tamanha, que a minha impressão é de que estou, em verdade, na frente de grandes telas a óleo, de donairosos quadros pintados com suas tintas poéticas.
 
no texto selecionado, as estrofes (ou, se preferirem, os ‘poemas interdependentes’), a princípio, parecem desconexas, parecem que não se comunicam entre elas. mas só a princípio. aos poucos, as partes que integram todo o poema vão juntando-se, fundindo-se, formulando, dessa maneira, uma única trama, um único drama (dentro de todas as nuances que são desfraldadas), isto é, o monodrama.
 
percebam como o poeta vai unindo, cruzando, no drama desenhado:
 
a garota bonita, de fartos seios, estudante, com sua bolsa-sanduíche, que gosta de fotografar manifestações e que provoca a primeira ereção do dia no segurança de um banco, que a vê pelo monitor da sala de segurança (e que sonha em casar com tal garota de seios apóstolos & ter um bebê, sem livrá-la, eventualmente, de umas boas porradas), em manifestação em frente à instituição financeira;
 
o fotógrafo imigrante, que deseja uma foto da sua filha pequena com seu coelho de pelúcia cor de ferrugem;
 
o jovem lírico, leitor de (patrick) modiano, sempre com cigarros, flores e postais, e que, de pronto, se interessa pelo novo inquilino e seus olhos negros; 
 
o “narra-drama”, que se envolve com a garota bonita, de seios volumosos (e que, às vezes, me parece ser o inquilino do jovem lírico. isso não ficou muito claro para mim);
 
tudo isso (& muito mais) costurado por deslocamentos temporais que dão ao poema a direção (nítida) dos fatos delineados.
 
(percebe-se que ora o poema descreve uma paisagem situada ao sul da rússia, próxima às montanhas caucasianas. aliás, há muitas referências — emblemáticas — a esse país, atentem.) 
 
montar este “quebra-cabeça”, este monodrama — lírico, lindíssimo — pode levar um tempo, todavia, vale a tentativa.
 
ele está aqui, à apreciação de todos.
 
aproveitem o exercício poético!
 
beijo grande em todos!
 
(um especial em carlito, por este presente em versos.)
 
o preto,
paulo sabino / paulinho.
_______________________________________________________
 
(do livro: Monodrama. autor: Carlito Azevedo. editora: 7Letras.)
 
 
EMBLEMAS
 
 
Um imigrante
bate fotos trepado
no toldo de
um quiosque
a multidão grita
em frente ao Banco
aparece um malabar
aparece um pastor
imagens da pura
desconexão
aparecem as montanhas
lilases do Cáucaso
mas na foto buscada só
aparece a imagem
da menina
com seu coelho
de pelúcia
sua dobra
cor de ferrugem
contra a luminosidade
 
Os rostos 
se sucedem
nos monitores 
dentro da
sala de segurança
do Banco
como projeção
de slides
 
todos ali riem
quando veem
um falso
Vladimir Ilitch
bêbado
se engraçando
com a jovem
olhos de guepardo
leitora de Rilke
seios grandes
 
Entre tantos
manifestantes
é ela quem arranca
a primeira
ereção do dia
do segurança
de óculos espelhados:
 
uma pequena
vibração
em um dia cheio
de vibrações
 
Uns olhos negros
que vi na Turquia
reaparecem
no rosto
do novo inquilino
para água quente
basta girar este
disco de cores até
o rubro
o incandescente
 
Ela diz na carta:
não era russa era alemã
e não era cientologia
era tibetologia
mas foi sim do russo
que ela traduziu
a tabuleta em frente
ao prédio:
“Os preceitos de Lênin
são verdadeiros”
 
Agora o empresário
agora o demitido
agora
o secretário-geral
agora
o guarda-florestal
explicando
o cogumelo
vermelho com pintas brancas
a casa de J. M. Simmel
mas um dos monitores
transmite continuamente
a imagem parada
de um deserto
 
A economia já previa
o desabar da chuva
no interstício de algum
cálculo diferencial?
pensa o jovem lírico
em frente à janela 
 
Agora ele está lá
sentado sobre
a máquina de lavar
do subsolo
mastigando pasteizinhos
e lendo De Lillo,
digo, lendo Modiano
ele tem sempre
cigarros ou flores
e envia todo o tempo
cartões-postais
 
“gostei de imediato
do novo inquilino
do seu jeito de
segurar a caneta”
 
No saguão do banco
as paredes estão
cobertas de tapeçarias
representando
bardos célebres
da Ásia central
 
Suba na minha asa esquerda
e eu lhe mostrarei
(vamos voar!)
os mais ocultos recantos
dessa potência comercial
 
Ela tem um sanduíche
e uma bolsa-sanduíche
gosta de fotografar
as manifs
os meetings
me fala de uma
portuguesa
que conheceu
no 1º de maio
e que depois
se deitaram na grama
cheia de esquilos velozes
a vida também era só
velocidade e esquilos
sob os feixes luminosos
do 1º de maio
 
Uma descoberta sexual:
aqui ninguém trepa
depois das manifestações
 
A gente podia
conversar mais vezes
não amigos certamente
mas tampouco inimigos
adorei aquela tarde
no hotel do Cosme Velho
o ponto mágico
do morro na janela
 
“O lírio gravado no
ombro de Milady
permitiu a D’Artagnan
reconhecer nela
uma envenenadora
já punida no passado
pelos seus crimes”
 
Como a irmãzinha
caçula de um conto russo
você saltava da cama
com um cobertor
sobre os ombros
e rosnava imitando
um pinsher
para o ondular das cortinas
na penumbra fluo
do quarto de hotel:
 
Nitidez é um caso dessa luz
seu perigo e
seu desmoronar
 
Sem desgrudar os olhos
do monitor o segurança
pensa que aquela ali
bem merecia
umas porradas
o lírico pensa
é só amor querendo nascer
por vias tortas
se ela o visse
já sonharia com o bebê
que os dois empurrariam
num carrinho pela orla
se ele pudesse
imaginar
como seriam felizes
morando num
prédio de tijolinhos
 
O que não excluiria
as porradas
esporádicas
 
Mas agora quem
tirava fotos no quiosque
toma uma cerveja
no bar em frente
ao quiosque
a menina com o coelho
toma um achocolatado
pelo canudinho
e gira até ficar
completamente
enviesada
na cadeira para ver
a areia da praia
 
Uma menina imigrante
pondo os pés na areia
da praia pode
ser um grande passo
 
Um imigrante tomando
uma cerveja sentado
no meio-fio pode ser
um grande passo
 
Nós os vemos
(você segurando firme
em minha asa)
eles não nos veem
 
Adorei aquela tarde
no Hotel da Lapa
eu nunca imaginei
que você tivesse
seios tão apóstolos
seu coração está aí atrás?
 
Um falso ator
no quarto ao lado
decorava a peça russa
tentava dizer ao outro
com as pontas dos dedos
o que é a fidelidade
do homem que
ele ama
 
Ninguém se chama Soviete
— Alguém se chama Soviete
— Um soviete é um mamífero
— Todo soviete é mortal
 
Qual a palavra
que escrevemos
no vidro do Banco
com as pontas dos dedos
sobre a poeira branca
das bombas
e da espuma
no vidro do Banco?
 
Uma ordem macabra chega
pelos fones de ouvido
do segurança
o lírico pensa
o amor não pode morrer
o amor está seriamente
ameaçado
enquanto admira
uma admirável irrupção
de herpes no espelho
(admirável mundo novo)
ele imagina que alguém
precisa fazer alguma
coisa o amor está querendo
respirar dentro da câmara
de oxigênio do saguão
sem oxigênio algum
para respirar
o segurança chega
ao saguão
e vê agora
por trás
das portas de vidro
e à frente
das lentes espelhadas
um grupo de
manifestantes
 
As balas
são de borracha
o amor
está salvo
 
Nem portuguesas
amantes de esquilos
trepam
depois das manifs
e meetings
ele diz desolé
 
Subimos e subimos
e subimos
mas no alto da escadaria
não havia Templo do Sol
só um falso Cardenal
vendendo sortilégios,
digo, souvenirs
 
Então descemos
e descemos e descemos
paramos no quiosque
para uma Coca-cola
e perguntamos
ao imigrante
que batia fotos
qual o nome de sua filha
com o coelho
ferrugem-dobra
de pelúcia
Ela?
 
Ela se chama Soviete
 
Bônus track:
 
Sua pele 
no hotel do
Cosme Velho
olhada
até à
incandescência
 
(Seu coração está aí, atrás
dos ossos?)