LÍNGUA À BRASILEIRA
7 de julho de 2015

Brasil_Portugal_Bandeiras
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“Quando em 1500 os portugueses chegaram ao Brasil, na região de Porto Seguro, Bahia, encontraram ali um povo que falava uma língua completamente desconhecida dos europeus. Era o povo tupinaki, que falava a língua tupinambá. A maioria dos povos que viviam ao longo da costa, desde o Rio de Janeiro até o Ceará, falava essa mesma língua. Foi com a língua tupinambá que os colonos portugueses tiveram contato mais estreito durante o século XVI. Para entender-se com os indígenas, a fim de conhecer a nova terra e nela viver, muitos deles tiveram de aprendê-la. Desse contato resultou a grande influência do tupinambá no vocabulário do português do Brasil. Milhares de nomes comuns e nomes de lugares que utilizamos hoje em todo o país são palavras tupinambás.”

“Entre os séculos XVI e XIX foram trazidos para o Brasil entre 4 e 5 milhões de africanos escravizados. Desse total, cerca de 1 milhão foram embarcados nos portos da África Ocidental, entre a Costa do Ouro, atual Gana, e o Golfo de Biafra, na Nigéria. Oriundos dos diversos reinos que existiam na região, começaram a aportar no Brasil a partir da segunda metade do século XVII. Seu principal destino foi a cidade de Salvador e o Recôncavo Baiano, Minas Gerais e o Maranhão. As línguas que eles falavam, como o iorubá e o evé-fon, influenciaram a língua portuguesa no Brasil principalmente no domínio religioso.”

(Textos extraídos de painéis de exposição do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo.)
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a língua portuguesa, por misturar-se, mesclar-se, miscigenar-se, ganhou um rosto novo, abrasileirado: a língua — portuguesa — à brasileira, a língua — portuguesa — repaginada à maneira nossa, a língua à moda brasileira.

língua: também designa o órgão muscular situado na boca, responsável, entre outras coisas, pela produção dos sons.

língua: órgão muscular. língua à brasileira: órgão vernacular, órgão próprio de um país.

língua à brasileira: órgão vernacular alongado, encompridado, feito de muitas misturas (europeu + índio + negro), alongado como o órgão muscular, e por isso mesmo: hábil, móvel, tátil.

amálgama lusa malvada, portuguesa malvada nascida da mistura de elementos heterogêneos (europeu + índio + negro), malvada porque mastiga, come, engole, degusta, deglute, deflora, o que encontrar pela frente, mas qual flora antropofágica, no seu movimento de misturar, de mesclar, de miscigenar, salva a pátria mal amada, salva a nação mal cuidada, salva este país de assassinos, corruptos & desigualdades alarmantes.

“língua-de-trapo”, “língua solta”, “língua ferina”, “língua douta”: expressões idiomáticas muito brasileiras.

língua à brasileira: língua-de-trapo & língua solta (língua para quem fala demais), língua ferina (mordaz, venenosa, língua da injúria, da fofoca), língua douta (língua erudita, de muitos saberes): saravá, língua-de-fogo & fósforo (chama, labareda, língua acesa), saravá, língua viva & declinativa (língua feita de declinação: conjunto das diversas formas que os substantivos, adjetivos, pronomes, artigos e numerais apresentam de acordo com a sua função sintática na oração), saravá, língua fônica (língua sonora, melodiosa) & apócrifa (língua inautêntica, toda misturada), saravá, língua lusófona & arcaica, crioula iorubáica (pela forte presença da língua iorubá na língua à brasileira), saravá, língua-de-sogra (faladeira incorrigível) & língua provecta (língua-mestre, avançada, inovadora), saravá, língua morta & ressurrecta (língua nascida do latim, que é uma língua já extinta, portanto, “morta”, e ressurrecta, isto é, língua renascida, ressuscitada, repaginada), saravá, língua tonal (cheia de tons & matizes) & viperina (língua venenosa, per-versa), saravá, palmo de neolatina (a língua portuguesa integra o grupo das línguas neolatinas, línguas derivadas da língua latina), saravá, “poema em linha reta” (poema elaborado pelo maior poeta da língua, o imensurável fernando pessoa), saravá, lusíadas no fim do túnel (referência a um dos mestres da poesia portuguesa, anterior a pessoa, luís de camões), saravá, caetano não fica mudo (o grande poeta-compositor da língua à brasileira possui um dos mais belos poemas-canções já escritos a respeito, intitulado “língua”), saravá, nem fica mudo o “seo” manoel lá da esquina, um dos tantos portugueses donos de estabelecimento comercial.

por ti, afro-gueixa (língua misturada, mesclada, miscigenada), por ti, guesa errante (referência ao mais célebre poema do poeta maranhense sousândrade, intitulado “guesa errante”, inspirado numa lenda andina em que o índio adolescente chamado “guesa” seria sacrificado como oferenda aos deuses), por ti, língua à brasileira, o mar se abre, o sol se deita. o mar se abre, o sol se deita, por mários de sagarana (“sagarana”, título de uma obra do mestre mineiro guimarães rosa, é um neologismo formado a partir da palavra “saga”, de origem européia, que designa “canto lendário ou heróico”, e da palavra “rana”, de origem tupi, que designa “semelhança”, “proximidade”), por magos de saramago (referência ao grande escritor português josé saramago & à magia concentrada em sua prosa vertiginosa).

viva os lábios! viva a língua da boca, a linguagem oral!
viva os livros! viva a língua da página, a linguagem escrita!

viva os lábios, viva os livros, dos rosas, campos & netos (de todos os nossos grandes escritores)! viva os léxicos (o vocabulário, o repertório de palavras) & os êxtases alcançados com os andrades — drummond, mário, oswald! viva toda a síntese da sintaxe dos erros milionários, dos erros que resultam em ganhos, em riquezas!

língua afiada a machado, porque cortante, porque precisa, porque ferina, como a ferramenta, e também porque língua afiada a machado de assis, escritor brasileiro afiadíssimo, considerado o maior de todos os tempos. desafinada índia-preta. por cruzas diversas, por misturas divinas (europeu + índio + negro), mil linguageiras, mil maneiras de se escrever & falar a língua.

a coisa mais língua que existe, a coisa mais comunicável que conheço, é o beijo da impureza desta língua que adeja toda a brisa brasileira: por mim, tupi, índio destas matas; por tu, “guesa”, índio da lenda, com nome que também integra a língua que me língua: a língua portuguesa.

a coisa mais língua que existe, a coisa mais comunicável que conheço, é o beijo da impureza desta língua que adeja toda a brisa brasileira: por mim, tupi, índio destas matas; por tu, leitor, tua língua portuguesa.

(a língua é minha pátria.)

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Qtais. autor: Luis Turiba. editora: 7Letras.)

 

 

LÍNGUA À BRASILEIRA

 

Ó órgão vernacular alongado
Hábil áspero ponteado
Móvel Nobel ágil tátil
Amálgama lusa malvada
Degusta deglute deflora
Mas qual flora antropofágica
Salva a pátria mal amada

Língua-de-trapo Língua solta
Língua ferina Língua douta
Língua cheia de saliva
Saravá Língua-de-fogo e fósforo
Viva & declinativa
Língua fônica apócrifa
Lusófona & arcaica
Crioula iorubáica
Língua-de-sogra Língua provecta
Língua morta & ressurrecta
Língua tonal e viperina
Palmo de neolatina
Poema em linha reta
Lusíadas no fim do túnel
Caetano não fica mudo
Nem “Seo” Manoel lá da esquina
Por ti Guesa errante, afro-gueixa
O mar se abre o sol se deita
Por Mários de Sagarana
Por magos de Saramago

Viva os lábios!
Viva os livros!
Dos Rosas Campos & Netos
Os léxicos, Andrades, os êxtases
Toda a síntese da sintaxe
Dos erros milionários
Desses malandros otários
Descartáveis, de gorjetas.

Língua afiada a Machado
Afinal, cabeça afeita
Desafinada índia-preta
Por cruzas mil linguageiras
A coisa mais Língua que existe
É o beijo da impureza
Desta Língua que adeja
Toda a brisa brasileira
Por mim,
……………Tupi,
……………………Por tu Guesa

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EUROPA & ÁFRICA: RELAÇÕES
21 de julho de 2014

Mapa_África & Europa

 

(Clique com o mouse no mapa para ampliar o seu tamanho.)
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esta publicação atira numa questão muito relevante, numa questão que tem a ver com o que se discute, hoje, sobre misturas de culturas & etnias.

como já comprovam alguns estudos, a troca entre a áfrica & a grécia antigas, troca cultural, comercial, ocorria de forma intensa desde tempos imemoriais.

tal relação de permuta entre essas culturas, certamente, criava, ajudava a criar, as identidades culturais de ambos os lados.

quando a europa — e o seu cientificismo do século XIX — se apropria de preceitos originários da antigüidade clássica, da grécia antiga, para a edificação de suas “sociedades civilizadas”, de suas sociedades “geneticamente superiores” às demais, a europa dos tempos modernos escamoteia, encobre, esconde, sistematicamente, toda a influência da cultura africana na cultura grega.

segundo o professor de história antiga do instituto de filosofia e ciências sociais (ifcs) da universidade federal do rio de janeiro (ufrj), andré chevitarese, um grande especialista em grécia antiga, a tradução mais fiel para as características de édipo, para o seu biotipo, célebre personagem da tragédia grega “édipo rei”, escrita pelo dramaturgo grego sófocles por volta de 427 a.C., é a de um homem “amorenado”, queimado pelo sol, com um tom de pele mais escuro, e não a do herói de “cútis alva como a neve”, como traduziram maliciosamente os europeus em suas versões para a peça original.

as trocas entre culturas, entre sociedades, por mais que alguns tentem negar, acontecem desde que o mundo é mundo.

inclusive, sabe-se já que, durante um período da história da humanidade, o norte da áfrica foi muito mais desenvolvido do que qualquer sociedade européia à época, concentrando cidades populosas, grandes obras públicas & feitos importantes nas áreas das ciências & das artes.

há claros indícios, em estudos sobre a américa pré-colombiana, de que os nossos índios, muitos localizados na região de minas gerais, mantinham trocas comerciais, culturais, e até científicas (sobre modos de preparo da terra, para o plantio, e também  sobre o cultivo do milho) com os índios que vinham do méxico(!). o intercâmbio que na américa ocorria, entre os residentes pré-colombianos, ia do leste ao oeste (do atlântico ao pacífico) & do norte ao sul.

o reggae maranhense é fruto das trocas culturais com o caribe, trocas que, segundo pesquisadores, existiam desde antes da chegada de colombo às terras americanas.

“cultura pura”, “cultura genuína”, “cultura de raiz”, são termos que não servem para muita coisa; na verdade, creio que não sirvam para nada. pois nada pode ser “genuinamente puro”, “intocado”, “virgem”, “de raiz”, feito, surgido, sob influência nenhuma. não existe um fundo próprio das coisas; na verdade, o fundo, sempre, é falso.

cultura que se deseja viva tem que viver a vida. e viver a vida significa estar inserido nela. o que se nega a trocar, a compartilhar, uma hora, é esquecido. e morre.

ser é visível, ser é estar à vista.

o que faz a vida é a troca. os brancos ensinaram, e ensinam, aos pretos tanto quanto os pretos ensinaram, e ensinam, aos brancos. em pé de igualdade.

isso só prova que o racismo se trata de uma grande burrice, isso só prova que o racismo se trata de uma grande estupidez.

misturar, mesclar, miscigenar: eis a única maneira de criar, eis a única maneira de gerar, eis a única maneira de inventar, coisas no mundo.

(próprio da beleza é o aparecer.)

beijo todos!
paulo sabino.
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(do: Dicionário da antiguidade africana. autor: Nei Lopes. editora: Civilização Brasileira.)

 

 

EUROPA E ÁFRICA: relações. À época da VI dinastia egípcia, por volta do século XX a.C., tempo em que, segundo Anta Diop, a Europa inteira não passava de um continente selvagem, em que Paris e Londres não eram mais que grandes extensões pantanosas, e Roma e Atenas dois lugares desertos, a África contava já, no vale do Nilo, com uma pujante civilização, onde pulsavam cidades populosas; onde o paciente esforço de várias gerações trabalhava o solo e erguia grandes obras públicas; onde as ciências e as artes alcançavam alturas insuspeitas, e onde, inclusive, a fé já havia criado deuses e deusas por muito tempo venerados (cf. Diop, 1979, vol. I, p. 231, nota I, a partir de J. Weulersse, 1934, p. 11). Nesse tempo, as rotas comerciais do vale do Nilo incluíam um ramo que começava no litoral egípcio, estendia-se para o oeste através do Mediterrâneo, e para o norte, ao longo do litoral da Europa ocidental, no mar Báltico, do qual os africanos extraíam âmbar. Segundo Don Luke, essa rota chegava às Ilhas Britânicas e à Escandinávia. Ver CÓLQUIDOS; ROTAS DE COMÉRCIO.

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(do livro: Céu em Cima / Mar Em baixo. autor: Alex Varella. editora: Topbooks.)

 

 

NEGRA GREGA

Negra negra

grega grega

de palavras & mercancias

no Porto das Palavras

de Alexandria

beleza é o ser visível

ser é visível

negra grega

da África Clássica

próprio da beleza é o aparecer

AS ONDINAS
2 de fevereiro de 2013

Ondinas (Heine)_Adriano Sousa Lopes

[Tela do artista português Adriano Sousa Lopes: “Ondinas (Heine)”]
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dia 02 de fevereiro: dia de festa no mar: dia da rainha do manto azul líqüido: dia da sua deusa: dia de iemanjá.

muitas lendas cercam a vida das sereias que habitam as profundezas marinhas.

segundo estudos, o título do poema que segue mostra o conhecimento, por parte do autor, de uma lenda nórdico-germânica: a lenda das “ondinas”, sirenas que habitavam o rio reno (rio que corta a alemanha & deságua nos chamados “países baixos”) cujo canto mágico distraía os marinheiros no manejo da embarcação em trecho considerado perigoso (correspondente ao encontro do rio reno com o rio mosela, na alemanha), causando, assim, uma série de acidentes letais.

o mito da figura feminina habitante das águas, representante das forças da natureza & dotada de um poder sedutor que, ao mesmo tempo, atrai & afasta o elemento humano (afinal, tais seres fantásticos são responsáveis pela morte daqueles que se encantam com seu canto) encontra-se em diversas culturas espalhadas pelo mundo.

isso certamente se deve ao fascínio & à curiosidade que o mar & sua imensidão abissal despertam em nós.

eu, que sou um filho do mar, um amante da imensidão azul, ouço o seu canto porém não atendo ao seu chamado. cuidado & respeito para com as águas marinhas (nada de abusos!) não me faltam.

salve a sereia do mar!
salve dona iemanjá! 

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: A poesia completa. autor: Machado de Assis. organização: Rutzkaya Queiroz dos Reis. editoras: Edusp / Nankin Editorial.)

 

 

AS ONDINAS
(Noturno de H. Heine)

 

Beijam as ondas a deserta praia;
Cai do luar a luz serena e pura;
Cavaleiro na areia reclinado
Sonha em hora de amor e de ventura.

As ondinas, em nívea gaze envoltas,
Deixam do vasto mar o seio enorme;
Tímidas vão,  acercam-se do moço,
Olham-se e entre si murmuram: “Dorme!”

Uma — mulher enfim — curiosa palpa
De seu penacho a pluma flutuante;
Outra procura decifrar o mote
Que traz escrito o escudo rutilante.

Esta, risonha, olhos de vivo fogo,
Tira-lhe a espada límpida e lustrosa,
E apoiando-se nela, a contemplá-la
Perde-se toda em êxtase amorosa.

Fita-lhe aquela namorados olhos,
E após girar-lhe em torno embriagada,
Diz: “Que formoso estás, ó flor da guerra,
Quanto te eu dera por te ser amada!”

Uma, tomando a mão ao cavaleiro,
Um beijo imprime-lhe; outra, duvidosa,
Audaz por fim, a boca adormecida
Casa um beijo à boca desejosa.

Faz-se sonso o jovem; caladinho
Finge do sono o plácido desmaio,
E deixa-se beijar pelas ondinas
Da branca lua ao doce e brando raio.

ACONTECEU: PORTUGAL, MEU AVOZINHO
16 de outubro de 2012

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a língua portuguesa é uma das grandes paixões da minha vida.

  
acho-a linda, sofisticada, elegante, adoro sua sonoridade, as palavras que a moldam.
 
sou, de fato, um seu apaixonado.
 
(a língua é minha pátria. o que penso, o modo de processar as coisas, penso, processo, em português. paulo sabino existe em língua portuguesa. nenhuma pátria me pariu. quem me pariu, e continua parindo, é a língua.)
 
e a herança da língua que tanto me encanta, e que canto tanto, devo a portugal, meu avozinho.
 
só por isso, só pela língua (e por conseqüência: só por camões, por pessoa, por al berto, por eugénio, por sophia, por natália, e por tantos outros), já me é válida a herança portuguesa.
 
o que, hoje, conhecemos como brasil, tem a sua gênese a partir da chegada dos portugueses. portugal, pai do brasil. eu, como filho deste solo, como mais um filho do solo brasileiro, tenho portugal de avô.
 
portugal, pai desta terra conhecida por brasil, portanto, portugal, meu avozinho, como foi que temperaste — qual o ponto? — esse gosto misturado de saudade & de carinho?
 
(ter saudades é viver. e o português é saudades.)
 
portugal, pai desta terra conhecida por brasil, portanto, portugal, meu avozinho, como foi que temperaste — qual o ponto? — esse gosto misturado de pele branca & de pele trigueira — gosto de áfrica & de europa, que é o da gente brasileira?
 
(gosto de samba & de fado, portugal, meu avozinho.)
 
brasil, grande mundo de ternura (& de agrura!), brasil, grande mundo feito da miscigenação de três continentes, de três mundos — tupã, deus, oxalá…
 
foram os portugueses os grandes responsáveis pelo encontro (marcado a ferro fogo luta sangue) dos três continentes no solo que viu nascer este a que chamamos brasil. portugal, pai do brasil, portanto, meu avozinho de carinhos & castigos, meu avozinho de bênçãos & maldições, meu avozinho de amores & açoites.
  
nos dias atuais, passados tantos anos, a relação entre portugal & o seu filho brasil & os filhos do seu filho brasil é de admiração mútua, entendida a força das suas culturas — no teatro, na dança, na música, na literatura.
 
nos dias atuais, passados tantos anos, a relação de admiração mútua aconteceu.
 
a relação de admiração mútua (portugal – brasil) aconteceu com o passar dos anos, com o passar do tempo — só o tempo fez a cama, como em todo grande amor.
 
o amor brasil – portugal foi chegando de mansinho, se espalhou devagarinho, foi ficando até ficar. sem maiores encantamentos — sem um sino para tocar, sem que o chão tivesse estrelas, sem um raio de luar.
 
a relação de admiração mútua (portugal – brasil) simplesmente: aconteceu.
 
a prova está aqui, nesta publicação: manuel bandeira, um neto ilustre, louvando em versos o seu avozinho de além-mar; também o poeta-compositor péricles cavalcanti & um seu poema-canção, em roupagem de fado, na interpretação da cantora portuguesa cristina branco.
 
(gosto de samba & de fado, portugal, meu avozinho.)
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Estrela da vida inteira. autor: Manuel Bandeira. editora: Nova Fronteira.)
 
 
PORTUGAL, MEU AVOZINHO
 
 
Como foi que temperaste,
Portugal, meu avozinho,
Esse gosto misturado
De saudade e de carinho?
 
Esse gosto misturado
De pele branca e trigueira,
— Gosto de África e de Europa,
Que é o da gente brasileira?
 
Gosto de samba e de fado,
Portugal, meu avozinho.
Ai Portugal que ensinaste
Ao Brasil o teu carinho!
 
Tu de um lado, e de outro lado
Nós… No meio o mar profun-
                    do…
Mas, por mais fundo que seja,
Somos os dois um só mundo.
 
Grande mundo de ternura,
Feito de três continentes…
Ai, mundo de Portugal,
Gente mãe de tantas gentes!
 
Ai, Portugal, de Camões,
Do bom trigo e do bom vinho,
Que nos deste, ai avozinho,
Este gosto misturado,
Que é saudade e que é carinho!
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(autor: Péricles Cavalcanti.)
 
 
ACONTECEU
 
 
Aconteceu quando a gente não esperava
Aconteceu sem um sino pra tocar
Aconteceu diferente das histórias
Que os romances e a memória
Têm costume de contar
 
Aconteceu sem que o chão tivesse estrelas
Aconteceu sem um raio de luar
O nosso amor foi chegando de mansinho
Se espalhou devagarinho
Foi ficando até ficar
 
Aconteceu sem que o mundo agradecesse
Sem que rosas florescessem
Sem um canto de louvor
 
Aconteceu sem que houvesse nenhum drama
Só o tempo fez a cama
Como em todo grande amor
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(do site: Youtube. canção: Aconteceu. autor da canção: Péricles Cavalcanti. intérprete: Cristina Branco.)