O QUE DIZEM OS POETAS SOBRE O BLOG “PROSA EM POEMA”
10 de fevereiro de 2011

prezados,

abaixo,

depoimentos, de alguns dos poetas que mais admiro, poetas a quem, merecidamente, rendo as minhas loas, sobre o blog “prosa em poema”.

as palavras a seguir me enchem de satisfação e ânimo. sim, porque não é fácil a manutenção deste espaço. é muito prazeroso (afinal, poesia é das coisas mais importantes na minha existência), porém não é fácil.

escolher os poemas, pensar os textos de apresentação, tudo isso requer um tempo que, às vezes, é difícil de conciliar com as tarefas do quotidiano.

todavia, como a poesia é das mais importantes coisas na minha existência, este que vos escreve vai cavando tempo para dedicar-se a ela (não só à leitura como à preparação deste espaço).

portanto, quero compartilhar com os senhores palavras que me fazem não desistir, que me fazem crer que a poesia é importante e precisa de espaço, espaço para alçar vôos, espaço para acolhimento, espaço para divulgação.

linhas de poetas publicados ou citados neste espaço, de poetas a quem devo o meu respeito & a minha admiração GRANDES.

pelo apoio ao trabalho que venho desempenhando, o meu muitíssimo obrigado!

paulo sabino & o “prosa em poema” agradecem a todos vocês, poetas da minha vida, pessoas que transformam olhares & me ajudam trilhafora.

sempre digo que a poesia é, para mim, um barco de salvação em meio a tantas turbulências mundanas.

poesia: aufúgio seguro, embarcação uterina, logradouro aprumado.

continuemos juntos nesta grande aventura que é o universo poético!

beijo bom nos senhores!
um, mais que especial, em todos os poetas!
paulo sabino.
_________________________________________________________________________

O QUE DIZEM OS POETAS SOBRE O BLOG “PROSA EM POEMA”:

 

ANTONIO CICERO (poeta, letrista & filósofo):

Paulinho, é sempre um grande prazer e um grande luxo me encontrar no seu blog. Beijo, Antonio Cicero.

 

ARMANDO FREITAS FILHO (poeta):

Caro Paulo: muito obrigado por tudo. Por toda essa saudação que me acompanhará, e que me comove tanto. Muito obrigado pela sua presença tão calorosa e pela sua amizade nova em folha. Com o abraço e o aplauso do Armando.

 

FABIANO CALIXTO (poeta):

Muito gentil, da sua parte, em publicar os poemas em seu belo blog. Ficou muito legal! Muito obrigado. Fique com meu maior abraço de agradecimento, Calixto.

 

CARLOS RENNÓ (poeta & letrista):

Paulo, seu blog é ótimo! acho que eu é que vou ganhar alguns dias com você – lendo seu blog. espero que tenha tempo na maioria das vezes… ah como seria bom se o dia tivesse pelo menos + 2 horas, vai. grato. um abraço. CR.

 

CLAUDIA ROQUETTE-PINTO (poeta):

paulo, muito obrigada pelas suas palavras! adorei ter sido incluída no seu blogue. e de agora em diante pretendo visitá-lo sempre. um grande abraço!

 

PÉRICLES CAVALCANTI (poeta & compositor):

Oi Paulo, amigo, muito obrigado! É um prazer pra mim também tê-lo aqui nesta ”vizinhança”. Um beijo.

 

PAULA CAJATY (poeta):

fiquei encantada com o seu trabalho minucioso, de comparar poemas, inspirações e trabalhos. tomara que mantenhamos contato. um beijo grande, Paula.

 

CARLITO AZEVEDO (poeta):

Puxa, adorei o blog e fiquei honradíssimo com seu “post” sublunar! Vou passar o endereço para algumas pessoas bacanas. Parabéns e abraços, Carlito.

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SANGÜÍNEA POESIA
22 de julho de 2010

O que é poesia para você?
  
A arte da vida. A arte da palavra. Uma gaúcha linda por quem estou apaixonado. Na verdade, as três coisas juntas. O resto é literatura. 
 
(resposta do poeta Fabiano Calixto à pergunta de Edson Cruz)
_______________________________________________________________________
 
benvindos,
 
abaixo,
 
uma seleção de poesias de um poeta com quem compactuo uma série de afinidades.
 
fabiano calixto é um autor de inteirezas. sua poética sabe o lado bom e doce da vida, sabe o jeito delicado das coisas, mas o seu olhar não perde de vista o lado cariado e violento do mundo.
 
calixto sabe que a vida é bela, que é linda, mas que, para vivê-la, precisa de uns tantos “band-aids” para os machucados & cortes & feridas que surgem durante os nossos percursos.
 
o poeta entende que o gosto amargo de determinadas coisas não invalida o gosto saboroso de tantas outras. é como se calixto, como diz um verso do caetano veloso, arquitetasse uma estrutura poética sempre buscando o belo e o amaro.
 
(sempre buscando a inteireza, buscando a totalidade dos acontecimentos: a existência não é somente boa como também não é de todo ruim. a existência é uma mescla dessas duas vertentes.)
 
portanto, na obra deste jovem e belo poeta tudo cabe:
 
o descaso social, a pobreza material, a indiferença de alguns bem abastados (economicamente) para com aqueles que moram do lá de lá do quarteirão, fodidos e sem muitas perspectivas de melhoria sócio-econômica. (a tal democracia: a quem serve?)
 
a beleza de amar, em poemas dedicados ao amor de amantes, dedicados à atenção (redobrada) que nos desperta o objeto de desejo (um maravilhoso escândalo!).
 
a saudade de quem partiu, num belíssimo poema intitulado “juntando gravetos”, que aproveito para dedicar ao meu pai, o grande paulo sabino, o homem mais bem humorado que conheci (com quem não encerro diálogo), pois me vejo muito nos versos e, de certa maneira, ao meu papai também. 
 
a admiração por artistas que o comovem, que comovem o bardo, como no lindíssimo “e-mail para adriana calcanhotto”, uma prosa cheia de janelas abertas a várias paisagens, um canto extra-ordinário, onde calixto confessa enxergar a canção como um poderoso antídoto contra a melancólica existência.  
 
o fascínio pela palavra no alegórico “obtuário literário com figuras de gatos e ratos”, em que é decretada a morte dos poetas, abocanhados pelos tantos “ratos” que existem mundo afora, sempre dispostos a atenazar e a azedar a poesia da vida. (porém, por sorte, à quantidade de “ratos”, há uma demanda de “gatos” com colmilhos afiados, prontos para abocanhar os roedores orates e deixar vazar, das suas tripas, as tropas de versos antes aprisionadas.)
 
 
nesta seleção, há um poema cujos versos primeiros viraram um lema para mim, porque eles dizem, melhor, porque eles gritam, aquilo que espero de mim:      
 
se eu quebrar com meus sonhos / e só restar o tédio

medonho, / a decrepitude, a tristeza infinita / o monturo
(na vida, na escrita) / nenhuma cia. de seguros / vai ar-
car com o prejuízo / então, / dou um basta à bosta toda
/ redesenho o traço da boca / deito um sorriso lindo para
o mundo / respiro fundo, vou com tudo / porque é assim
(e só assim) que se tem que ir
 
assim eu vou, senhores. (e assim irei sempre.)
 
beijo bom, saboroso, em todos!
o preto,
paulo sabino / paulinho.
______________________________________________________________________
 
(do livro: Sangüínea. autor: Fabiano Calixto. editora: Editora 34.)
 
 
BALADETA À MALEDETA
 
ó vida, minha vida linda
já te botei muito band-aid
já te dei muita colher de chá
muito pão-de-ló
agora só te darei veneno
                               
                                             on the rocks
 
 
DE SANTO ANDRÉ AO CAMPO LIMPO: O BRASIL (para Heitor Ferraz)
 
esta manhã está linda
sob este sol que desliza
sobre os capôs dos automóveis
a quentura alastra por todo o ar
a imundície dessa cidade
(e depois de passar por três,
quatro, talvez cinco mundos diferentes
no estômago carcinomatoso da mesma cidade,
uma pergunta põe sal no café:
que tipo de futuro tem um país como este?)
 
o festival do morango
regado com o sangue de mais
uma chacina
os ônibus queimados, os olhos inchados de choro
o medo de não ter
o que pôr na marmita
ou o que pôr no caixão
 
a linha amarela em construção
(sepultando a plebe às pressas)
o Hyundai blindado, o Toyota
a fila imensa de carrinhos de papelão
com seus condutores e seus cães
tecem o trânsito, tramam
o inferno de sua mais 
profunda estima
 
— realmente não sei que futuro isso terá…
 
estou indo longe demais
da minha cidade, de mim mesmo
sonho demais —
na telinha LCD se vê
uma flor cor de toalha
exalando perfume a um operário gordo
atrás do bigode
com luvas verdes e capacete marrom
 
os assassinos estão livres
o patrimônio do excelentíssimo senhor presidente da
                                                                 [república
dobrou
é ano de eleição, tempo de monturo
minha ânsia de vômito dá potentes sinais de vida
meu nojo
não cabe na urna
 
(mendigos vomitam tíner
na Galiléia do apóstolo)
 
Estrada do Campo Limpo — julho gélido
muitos olhos tristes dentro do ônibus
(tantos ladrões com filhos pequenos para criar
tantas donas-de-casa com tesão insaciável
a estudante caligrafando a cola
nas deliciosas coxas grossas
de colegial cavala)
será que
quando vêem uma maçã
têm noção de sua gestação
de sua sugestão
do esforço de seu doce suor?
 
(duas garotas no banco de trás:
“a grávida entrou, né,
e eu nem aí, meu,
gravidez não é doença
quem mandou dar?”)
 
somos mesmo uns boçais
o real nos doerá para sempre
 
em tempo de eleição
vomitar tornou-se uma higiene
 
três idas ao banco implorar pelo assalto
já me pediram voto
não respondi
 
desviando o rosto de qualquer
em especial a memória
não exalava nem colônia nem canard
 
chego à Perimetral
a noite continua veloz
ouço um prantear, chove às bicas
 
ruga ínsita
 
 
PEDAÇOS DO ESQUELETO
 
/ se eu quebrar com meus sonhos / e só restar o tédio
medonho, / a decrepitude, a tristeza infinita / o monturo
(na vida, na escrita) / nenhuma cia. de seguros / vai ar-
car com o prejuízo / então, / dou um basta à bosta toda
/ redesenho o traço da boca / deito um sorriso lindo para
o mundo / respiro fundo, vou com tudo / porque é assim
(e só assim) que se tem que ir // a av. Paulista correndo é
tão engraçada / parece uma cobra de marshmallow / uma
viagem de ácido / uma enguia eletrocutando a língua / os
olhares, os colares, tristes demais / estupefatos, oleosos,
covardes e sem razão / a cavoucar a cidade atrás de um
tostão / ou de um milhão / pobres diabos e diabos ricos
a rastejar / quarteirão a quarteirão / uns com ar condicio-
nado, mp3, Honda, / apartamento mobiliado, aulas de
inglês / outros não / a gente que tem / heliporto / vinho
do Porto / trabalha no Horto / não passa fome nem mor-
to / e a gente que / disfarce a disfarce / ganha apenas o
necessário / para endividar-se /
 
 
MUSIKKA (SCRITTI POLITTI)
 
nenhuma lágrima
desce dos olhos
do mundo pasmo
indiferença
brutal de quem
se orgulha tão
cheio de brio
(e de dinheiro)
filho de deus
enquanto a morte
apenas ronda
a tela da
televisão
e o problema
apenas vive
no lá de lá
do quarteirão
saber viver
mas para quê?
se aquele sábio
grande poeta
um dia disse:
nada é mais belo
do que o que não
existe
 
 
UMA HISTÓRIA DE AMOR
 
Take 1:
Desmond pergunta
jogado no sofá da sala
nocauteado por um litro e meio de conhaque
por onde andará seu amor
 
Molly tenta arrumar os livros,
os discos, os dísticos
em seu quarto e
indaga ao espelho
a quem serve
a tal da democracia
 
Take 2:
desaba na cama nem vê que o lençol
é xadrez e que não há mais
cigarros dentro da gaveta
do criado-mudo
 
interiores habitados por
violência de dissoluções
e ternura
 
ela caminha na neve
lábios russos e rachados
 
a água cai e estoura o estuque
repete-se (elegia voz)
a morte
nas trincheiras
(o silêncio é um
único grito de dor
it is said to represent a mirror
 
 
E-MAIL PARA ADRIANA CALCANHOTTO
 
o encanto de quem canta
é o canto que canta na garganta
— algo assim escreveu Goethe
(só que o grande gênio alemão
usou, pelo que li, em vez de encanto,
prêmio (com sentido de pagamento),
no que achei mais delicado
e canoro, usar o substantivo masculino
mais feminino da língua.
até porque encantar, no que
canta o meu pequeno dicionário, pode
ser transformar (pessoa) em outro
ser e quando alguém canta
parece mesmo mudar o rumo
de sua existência, enchendo-se
de um entusiasmo, como se
possuído por deuses — como
disse, em silêncio, Domeneck
o que um amigo lhe dissera
um dia —, incha-se de alegria
por talvez saber-se portador
de um poderoso antídoto
contra a melancólica existência
cantando eu mando a tristeza embora.
e, como não se crê no que não canta,
tentei fazer com que este poema
cantasse, mas que não fosse
óbvio seu canto (visto que visto-
lhe com uma prosa cheia de janelas),
mas sim um tema extraordinário
a blackbird singing in the dead of night
e, quieta e sangüínea, ao lado,
uma violeta
 
 
UM POEMA PARA ELA
 
sentada no sofá, lendo Greimas,
você se parece com uma garota
da Nova Inglaterra, que testa, com
a ponta do dedo indicador,
num dos vidros da janela (enquanto
os flocos de neve lá fora
parecem seguir os movimentos de seu
raciocínio), uma dificílima
questão matemática,
e ao lado desenha um coração
 
que nobreza você tem
quando caminha, quando escreve
um artigo e fica me fazendo mil perguntas
que nunca posso responder (você
não deve ter notado que, ao seu lado,
estou sempre com os pés num lago,
onde os peixes vermelhos nadam
sobre enormes rãs e moedas
de prata são lágrimas da civilização
fixas no fundo da água; ou talvez tenha
notado, e, quando me apressa no banho,
dizendo que há de se economizar água
e energia elétrica (um absurdo! — você diz)
e que estamos atrasados para um encontro
com Molly & Desmond, ou para o jantar,
ou algo assim, quem sabe seja a sua forma
de dizer isso
 
(quando passeamos de mãos dadas
pelas ruas de São Paulo, meu coração
movimenta-se como atravessasse uma
larga avenida na iminência do erro que
faria com que os carros lhe deformassem
para sempre a estúpida geometria, ou,
tal excitação e combate, como se
atravessando um cúmulo-nimbo
almejando alcançar a la décima
esfera de los cielos concéntricos)
 
seu olhar, não pode imaginar quem
não o prova
 
a fascinação, o silêncio
flutuantes
numa operação de rigor
 
 
DUAS PAISAGENS
(UMA SEM E OUTRA COM VOCÊ)
 
o gramado verde, árvore imensa
a luz do sol se deita toda aberta
tornando a sintaxe da paisagem
comunicação delicada — fugidia?
talvez a compor entretons
que se indagam (onde sombras
se guardam e depois se saciam),
como das mãos de um
improvável pintor
ponteando seus megapixels
 
e se você estivesse ali?
 
se você ali estivesse, então
a luz do sol, ao atravessar
o gramado e despriguiçar-se
sobre seu corpo
tornar-se-ia presa
fácil de pela (maçã
polida no orvalho), e
faria o desespero dos sentidos
de qualquer coisa que a observasse
 
maravilhoso escândalo
 
não mais que de repente
deslocamentos monumentais
abririam insensatas crateras
pelas calçadas,
tirariam o fôlego das flores,
destruiriam vidraças,
espremeriam o dia até sua derradeira
gota de suor e magenta
e a máquina do mundo
pararia
 
diante do seu
sorriso
 
 
JUNTANDO GRAVETOS  (para Antonio Calixto, com carinho e muita saudade)
 
Faz um tempo eu quis
Fazer uma canção
Pra você viver mais
 
John Ulhoa
 
 
o silêncio de hoje
toca a quaresmeira lá fora
e, hóspede da perfeição,
torna-se igualmente lilás
 
é com esse silêncio
que leio suas palavras potáveis
recém-chegadas de longe
— de onde? —
 
(a dor nos traz anseios
tolos — como fazer a Terra
voltar meses, anos atrás, como fez
aquele herói extraterrestre
do filme e do álbum de figurinhas
que juntos colávamos
em muitas manhãs de domingo —
ou olhar uma estrela
e imaginar que você
dorme em algum lugar
ali por perto —
e nos dá a medida do tempo
e continuamos sem entender
medida alguma, aguardando
o barco retornar de Delfos
para que possamos, também,
nos despedir definitivamente
desse nosso
bosque liliputiano)
 
dizem que é a última canção
mas eles não nos conhecem
 
por dentro da tarde
as flautas tomam fôlego
para que canções flutuem
ao redor das árvores
que fazem sombra
para os que se despedem
 
 
OBITUÁRIO LITERÁRIO 
COM FIGURAS DE GATOS E RATOS
 
os ratos roeram a vida dos poetas
— livres do peso das letras, os estetas
 
em outras esferas escreverão, pois,
no cavo, vácuo profundo, sem voz, à foice
 
(esta persiana a zerar o ar dos distraídos),
não mais poemas, já que lidos os labirintos,
 
nada mais resta, nada, nem a quem se
amar ou refutar, não esfria, nem aquece,
 
a luta com palavras já não faz parte de
paixões ou razões puras, nenhum alarde,
 
nada de metáforas, nenhuma metonímia 
— a menina de lá não dá mesmo a mínima.
 
os ratos, rudes e arrogantes orates,
gorjeiam na goela os corpos dos vates
 
e, ainda assim, nas estantes, talhados,
ficam os poemas — como nos telhados
 
gatos de gostos e colmilhos afiados, à leitura
nasal do rastro dos ratos, vigiam venturas.
 
de um pulo a outro salto, uma gangue
de gatos retalha a noite com sangue
 
de restos de ratos que das tripas, as tropas
de versos, vazam as mais soberbas sopas.

O QUE É POESIA? (2)
13 de julho de 2010

(trecho do texto de apresentação do livro: O que é poesia?. organização: Edson Cruz. editora: Confraria do Vento / Caliban.)
 
 
POETAS À QUEIMA ROUPA (autor: Edson Cruz)
 
As perguntas mais ingênuas, e legítimas, são sempre as mais espinhosas e difíceis de responder. Quando você pergunta a um marceneiro o que é marcenaria, ele, quase sempre, sorri satisfeito com a possibilidade de discorrer sobre sua arte e, quem sabe, seduzir mais um neófito para seu ofício tão amado. O mesmo pode ser válido para outros artistas, por exemplo, um ator. O que é teatro?, você dispara, e ele mata a bola no peito e ainda faz várias embaixadinhas antes de responder, falastrão.
 
Ainda que todas as artes tenham a sua especificidade e complexidade, os escritores — e, particularmente, os poetas — acreditam que a sua seja a mais complexa e inescrutável de todas. Bafejados pelas musas, os escritores são os seres mais suscetíveis do planeta. E os poetas, minha turma preferida, são a essência cintilante do que denominamos escritor. E dá-lhe suscetibilidade, pois eles carregam a responsabilidade, ou a pretensão, de serem a antena da raça. E, cá pra nós, muitos realmente o são.
 
(…)
 
A poesia é de longe, pelo menos para os poetas, a linguagem de maior potência de significação (“a mais condensada forma de expressão verbal”, dizia Pound), e não é de espantar a variedade de percepções, de leituras, de idiossincrasias, de práticas que permeiam a poética contemporânea e, evidente, a sua recepção. Tão diversas como o são os próprios seres e seus interesses.
 
(…)
_________________________________________________________________________
 
queridos,
 
há algum tempo, foram publicadas, no “prosa em poema”, cinco entrevistas retiradas do livro em questão. para quem não as conferiu e deseja acessá-las, segue o link: 
 
https://prosaempoema.wordpress.com/2010/04/09/o-que-e-poesia/
 
nesta outra seleção, três outros (super) poetas: aníbal beça, fabiano calixto e glauco mattoso.
 
aproveitem-nos!
 
beijo nocês!
paulo sabino / paulinho.
_________________________________________________________________________
 
(do livro: O que é poesia? autores: Vários. organização: Edson Cruz. editora: Confraria do Vento / Calibán.)
 
 
ANÍBAL BEÇA
 
 
O que é poesia para você?
 
A poesia, se há uma função para ela, é a de ter o poder de transformar o irreal no real e o real no imaginário. Tem o poder de humanizar um mundo que está zangado consigo. Este mundo em que vivemos em meio a tanta barbárie.
 
Creio no poder da poesia, que me dá razões para ver adiante e identificar um clarão de luz. Eu sou um trabalhador de metáforas, não um trabalhador de símbolos.
 
Eu considero a poesia uma medicina espiritual. Posso criar com palavras o que não encontro na realidade. É uma tremenda ilusão, mas positiva: não tenho outra ferramenta com que encontrar um sentido para minha vida ou para a vida daqueles do meu chão (vide Filhos da várzea). Tenho o poder de outorgar-lhes beleza por meio de palavras e plasmar um mundo belo expressando também sua situação. No feio também há beleza. Tudo é matéria para o poema.
 
O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
 
ler muita poesia. No café, no almoço, no jantar. Ler sobre poesia. Imitar os mestres num primeiro momento. Depois saber cortar o umbigo. Poderia sugerir algumas leituras como pré-requisito: A poética de Aristóteles, Poesia de Massaud Moisés, As Vanguardas e seus manifestos de Gilberto Mendonça Teles, Poesia experiência de Mario Faustino, Poesia de T.S. Eliot, ABC da literatura e Poesia de Ezra Pound, Cartas a um jovem poeta de Rainer Maria Rilke, Itinerário de Pasárgada de Manuel Bandeira, entre muitos outros.
 
Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?
 
Mario Quintana, Cecília Meireles, Manuel Bandeira e Jorge de Lima. O primeiro, pela descoberta da poesia, pela criatividade e por saber manejar com o mínimo um vasto universo poético. O segundo, pela musicalidade, pelo ritmo do verso, aliados às imagens, às ideias e pensamentos de modo singular. O terceiro, pelo lirismo do cotidiano, das coisas banais, tratados na simplicidade com maestria. E por último, não nessa condição, senão o primeiro dos primeiros, pela genialidade.
 
“O modernismo e três de seus poetas”, “Razão do poema”, “A volta do poema”, “O fantasma romântico”, ensaios críticos de José Guilherme Merquior; Signo e sibila e os dois volumes de Ensaios escolhidos, de Ivan Junqueira e Poesia e desordem, Romantismo, João Cabral — a poesia de menos e Escritos sobre poesia e alguma ficção, de Antonio Carlos Secchin. Pelo rigor, pela atualidade, pela discussão de ideias centradas na modernidade sem perder o seu vínculo com a tradição.
 
 
FABIANO CALIXTO
 
 
O que é poesia para você?
  
A arte da vida. A arte da palavra. Uma gaúcha linda por quem estou apaixonado. Na verdade, as três coisas juntas. O resto é literatura. 
 
O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
 
Deve perseguir a leitura incessante e crítica. Desconfiar das “bulas estéticas”, dos mestres da literatura universal, dos críticos e da própria poesia. Ser desconfiado e curioso como um detetive de HQ noir.
 
Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?
 
Poetas: Charles Baudelaire, Murilo Mendes e Chico Buarque. Porque são os poetas que fazem chover no endomingado piquenique, que encantam, não só pela surpresa, mas pela extrema beleza de suas obras. Porque operam imensas revoluções nas coisas da vida.
 
Textos:
 
“The man with the blue guitar” (Wallace Stevens): É um poema que tem um fôlego raro, musical, que propõe novos modos de respiração e que emociona o coração e o cérebro.
 
The Cantos (Ezra Pound): A liberdade e a inteligência numa aglutinação perfeita.
 
Galáxias (Haroldo de Campos): Porque nos ensina a ler.  
 
 
GLAUCO MATTOSO
 
 
O que é poesia para você?
 
Já dei várias respostas a essa pergunta, mas acho que a melhor foi aquela que usei numa oficina que ministrei na Casa das Rosas: a poesia é uma metralhadora na mão dum palhaço. Seu poder de fogo pode ser apenas intencional, e seu efeito apenas hilário, mas o franco-atirador, ao expor-se em sua ridícula revolta, no mínimo consegue provocar alguma reação, ainda que meramente divertindo o público, e alguma reflexão sobre o papel patético dos idealistas e visionários, que, no fundo, somos todos nós.
 
O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
 
Depende justamente da concepção poética que ele adotou. No meu caso, trata-se de vomitar algo visceral, de me expor, me devassar e desabafar uma biografia excêntrica para me identificar com outros excêntricos e tirar, dessa diversidade de individualidades, o traço de humanidade que nos une, isto é, o sofrimento e a revolta contra as opressões e repressões. Uma das “missões” do poeta — mas não a única — é ser porta-voz dos perseguidos, injustiçados, excluídos, rejeitados e humilhados, ainda que tais angústias sejam meramente sentimentais ou emocionais — frustrações amorosas, por exemplo. Voltando à questão do iniciante, eu recomendaria três coisas: primeiro, muita leitura, poesia de várias épocas e estilos, para estabelecer preferências e simpatias; segundo, fidelidade à própria biografia, nada de fingir demais, ainda que o poeta seja um fingidor, como dizia Pessoa; terceiro, estudar versificação, mesmo que o cara não pretenda fazer poesia rimada nem metrificada. Assim, ele estará minimamente instrumentado para o “ofício”. 
 
Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?
 
Isso é sempre muito pessoal e intransferível, mas vamos lá. Gregório de Matos, por ser pioneiro na nossa história e por ter praticado duas coisas que utilizo: os jogos verbais barrocos (antíteses, paradoxos, paronomásias, paródias, trocadilhos) e sátira desbocada (inclusive enveredando pelo fescenino); Bocage, por duas características que adotei: apuro formal do soneto e deboche obsceno; Bandeira, por uma única e fundamental razão: provar que é perfeitamente possível praticar todas as modalidades poéticas, desde o verso mais rimado e rimado até o experimentalismo mais iconoclasta e anárquico, sem perder de vista o lado humano, confessional e emocional. Quanto aos textos referenciais, sugiro, primeiro, Os Lusíadas, não para ler de cabo a rabo, mas para passear nele, viajar no ritmo, ir se acostumando a discorrer, raciocinar metrificando, pensar em decassílabo; segundo, Eu, de Augusto dos Anjos, para, ao contrário dos “Lusíadas”, percorrer, num único e curto livrinho, toda a obra duma vida, o que nos dá noção de que o poder de síntese pode ser essencial e suficiente; terceiro, Poesia completa e prosa, a obra reunida de Manuel Bandeira, que tenho em papel-bíblia mas que existe em diferentes edições, incluindo o Itinerário de Pasárgada, roteiro autobiográfico-intelectual, e a Apresentação da poesia brasileira, que, embora incompleta e parcial, dá uma visão panorâmica.