OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (6ª EDIÇÃO) — FOTOS & VÍDEO DE ABERTURA: PAULO SABINO
11 de agosto de 2016

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(Instante antes do início — Foto: Felipe Fernandes)

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(Paulo Sabino — Foto: Felipe Fernandes)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Elena Moccagatta)

Paulo Sabino 6ª Ocupação Poética

(Foto: Taís Campos)

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(A homenageada: Elisa Lucinda — Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Felipe Fernandes)

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(Maria Rezende — Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Felipe Fernandes)

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(Moraes Moreira — Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(Maria Rezende & Elisa Lucinda — Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(Moraes Moreira & Elisa Lucinda — Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Felipe Fernandes)

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(Paulo Sabino & Maria Rezende — Foto: Rafael Roesler Millon)

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(Foto: Rafael Roesler Millon)

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(Moraes Moreira & Paulo Sabino — Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Rafael Roesler Millon)

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(O coordenador do projeto — Paulo Sabino — & a homenageada da noite — Elisa Lucinda — Foto: Felipe Fernandes)

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(Foto: Elena Moccagatta)

Paulo Sabino & Elisa Lucinda 6ª Ocupação Poética

(Foto: Singoala Luz)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Felipe Fernandes)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Rafael Roesler Millon)

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(O quarteto fantástico: Elisa Lucinda, Moraes Moreira, Paulo Sabino & Maria Rezende — Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Elena Moccagatta)
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“Meu pretinho, muito obrigada, você é muito querido, espontâneo, foi uma noite mágica. Quero fazer outra o ano que vem, ou quando você puder e quiser, com a obra poética minha. Meu beijo imenso, Paulo, muito obrigada mesmo.”

(Elisa Lucinda)

 

Mensagens de espectadores da 6ª edição do projeto Ocupação Poética:

“Muito bom, ver o trabalho de Elisa Lucinda é sempre transformador, e os convidados Moraes Moreira e Maria Rezende tb colaboraram para florear o ambiente. Parabéns Paulo Sabino”.

“Foi uma noite maravilhosa meu lindo amigo, sou sua fã de seu projeto de carteirinha. Gratidão!”

“Misturar o talento e a luz de Elisa Lucinda com a genialidade de Fernando Pessoa não poderia resultar em nada menos que MARAVILHOSO!”

“Foi demais! Vou devorar o livro nas férias.”

 

 

Só me chegaram registros lindos da 6ª edição do projeto Ocupação Poética, que coordeno no teatro Cândido Mendes de Ipanema, que teve, como homenageada, no dia 2 de agosto (terça-feira), a atriz & poeta & minha diva Elisa Lucinda, que, por sua vez, homenageou o poeta Fernando Pessoa, e as participações para lá de especiais da poeta Maria Rezende & do cantor, músico & compositor Moraes Moreira.

Uma noite linda, descontraída, e cheia de conteúdo.

Todos muito felizes. As fotos traduzem a beleza & a descontração que conseguimos imprimir na apresentação.

Como base das leituras, o mais recente livro — e o primeiro romance — da Elisa Lucinda, intitulado “Fernando Pessoa, o Cavaleiro de Nada”, finalista do prêmio São Paulo de Literatura 2015.

No vídeo desta publicação, a apresentação do projeto, o poema de Carlos Drummond de Andrade em homenagem a Pessoa & o trecho do livro da Elisa escolhido por mim para a minha leitura.

Ao que tudo indica, pela mensagem da Elisa postada acima, teremos a atriz & poeta uma segunda vez no projeto. Elisa já me contou que tem livro inédito de poesia chegando na área; então a idéia é fazermos uma edição focada no seu mais recente livro de poemas! Oba!

Elisa Lucinda merece repeteco! Eu quero Elisa Lucinda mais uma vez na Ocupação Poética!

Agradecer imensamente aos participantes, Maria Rezende & Moraes Moreira, que só fizeram abrilhantar a noite ainda mais!

Mais vídeos desta edição serão publicados! É só aguardar!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [6ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 02/08/2016. Paulo Sabino apresenta o projeto Ocupação Poética, recita As identidades do poeta, poema de Carlos Drummond de Andrade, e lê um trecho do livro Fernando Pessoa, o Cavaleiro de Nada, de Elisa Lucinda.)

 

AS IDENTIDADES DO POETA  (Carlos Drummond de Andrade)

De manhã pergunto:
Com quem se parece Fernando Pessoa?
Com seus múltiplos eus, expostos, oblíquos
em véu de garoa?
Com tripulantes-máscaras de esquiva canoa?
Com elfo imergente
em frígida lagoa?
Com a garra, a juba, o pelo amaciado
de velha leoa?

Quem radiografa, quem esclarece
Fernando Pessoa,
feixe de contrastes, união de chispas,
aluvião de lajes
figurando catedral ausente de cardeais,
com duendes oficiando absconso ritual
vedado a profanos?

Que sina, frustrado destino, foi a coroa
desse Pessoa,
morto redivivo, presentifuturo
no céu de Lisboa?

Que levava (leva) no bolso
Fernando Reis de Campos Caeiro Pessoa:
irônico bilhete de identidade,
identity card
válido por cinco anos ou pela eternidade?

Que leva na alma:
augúrios de sibila,
Portugal a entristecer,
a desastrosa máquina do universo?

Fernando Pessoa caminha sozinho
pelas ruas da Baixa,
pela rotina do escritório
mercantil hostil
ou vai, dialogante, em companhia
de tantos si-mesmos
que mal pressentimos
na seca solitude
de seu sobretudo?

Afinal, quem é quem, na maranha
de fingimento que mal finge
e vai tecendo com fios de astúcia
personas mil na vaga estrutura
de um frágil Pessoa?

Quem apareceu, desapareceu na proa
de nave-canção
e confunde nosso pensar-sentir
com desconforto de ave poesca
e doçura de flauta de Pã?

À noite divido-me:
anseio saber,
prefiro ignorar
esse enigma chamado Fernando Pessoa.
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(trecho do livro: Fernando Pessoa, o Cavaleiro de Nada. autora: Elisa Lucinda. editora: Record.)

 

Abro a janela por onde vejo minha gênese: para revelar que mais tarde eu poderia vir a ser o mais popular, o mais conhecido poeta de língua portuguesa do mundo, nasci numa tarde nítida de fim de primavera quando o sol confirmava três horas e vinte minutos no meio do signo de gêmeos daquela brilhosa hora, no quarto andar esquerdo do número quatro do largo de São Carlos, em frente ao Teatro de Ópera do mesmo bairro. Quem ler o meu mapa astral logo interpretará com facilidade o meu destino mais do que eu fui capaz de fazê-lo. Um mês e uma semana depois houve batizado daquele bebê reluzente ao colo da satisfeita madrinha, tia Anica, na basílica dos Mártires, lá no Chiado. Maria Magdalena Pinheiro Nogueira Pessoa, a minha mãe e primeiro amor de minha vida, minha verdadeira pátria, a quem amei mais do que a minha própria pátria, e o meu pai, Joaquim Seabra Pessoa, funcionário público do Ministério da Justiça durante o dia e crítico musical do Diário de Notícias à noite, encontraram-se. O amor dos dois deu-me este nome porque nasci em 13 de junho, dia de Santo Antônio e também dia de Lisboa. Logo ele que, por batismo, era Fernando de Bulhões, o nome verdadeiro do santo de quem a minha família se afirmava parente mesmo, genealogicamente falando, e do qual reclamava consanguinidade. Pois bem, este homem recebeu, dentro da ordem franciscana, o pseudônimo de Antônio. Assim resultou em mim como Fernando Antônio Nogueira Pessoa, cujo duplo nome havia de gerar várias pessoas, outros eus meus, criados por mim com nome e obra próprios, mas isto é assunto para depois, é outro capítulo. Prefiro que nos detenhamos por agora nesta casa que fica entre uma igreja e um teatro lírico. As cenas de devoção e óperas, eu primeiro as ouvi para depois vê-las. Isto é, depois já de tê-las criado automaticamente em minha imaginação. Êh, êh, êh, êh, minha imaginação, aquela que dá facilmente partida, desde aí, ao pé de fortes impressões sonoras! Veja em que deu tamanha alegórica vizinhança: De um lado, ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia, e cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça. Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso, e as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro. Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidraça e sente-se o chiar da água no fato de haver coro. A missa é um automóvel que passa. Súbito vento sacode em esplendor maior a festa da catedral e o ruído da chuva absorve tudo até só se ouvir a voz do padre água perder-se ao longe, com o som das rodas do automóvel, e apagam-se as luzes da igreja na chuva que cessa. E tudo isto tilintando num coraçãozinho destes como é o meu.

Do outro lado, todo o teatro é meu quintal, a minha infância: o maestro sacode a batuta, aquele dia em que eu brincava ao pé dum muro de quintal, atirando-lhe com uma bola que tinha dum lado o deslizar dum cão verde, ora um cavalo azul com um jóquei amarelo. O teatro é o meu quintal, está em todos os lugares, e a bola vem a tocar a música. Tão rápida gira a bola entre mim e os músicos. O muro do quintal é feito de gestos de batuta. Todo o teatro é um muro branco de música por onde um cão verde corre atrás de minha saudade da minha infância. (…) O maestro agradece, pousando a batuta em cima da fuga dum muro, e curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça, bola branca que lhe desaparece pelas costas abaixo. Prossegue a música, e eis a minha infância.

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OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (4ª EDIÇÃO) — ENCERRAMENTO: GERALDO CARNEIRO & MARTINHO DA VILA
6 de junho de 2016

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(Geraldo Carneiro)

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(Martinho da Vila — Foto: AgNews)

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(Martinho da Vila & Geraldo Carneiro)

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(Martinho da Vila & Geraldo Carneiro — Foto: AgNews)

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(Geraldo Carneiro & Paulo Sabino)

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(Martinho da Vila & Paulo Sabino)

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(Os participantes desta edição do projeto: Paulo Sabino, Flávia Oliveira, Wagner Cinelli, Martinho da Vila, Elisa Lucinda, Zezé Motta, Geraldo Carneiro, Tom Farias, Maria Gal, Ju Colombo, Maíra Freitas — Foto: AgNews)

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(Ao final, Martinho da Vila assinando exemplares do seu livro “Barras, vilas & amores”)

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(A dedicatória do meu exemplar: “Ao Paulo Sabino, este meu ‘Barras, vilas & amores’, com gratidão, Martinho da Vila”)
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“Querido
Saímos todos de alma lavada sim.
A noite foi linda, leve e feliz.
Parabéns pelo seu projeto encantador.
Que venham muitas outras edições…
Bjs
Cléo”

(Mensagem de Cléo Ferreira, esposa do Martinho da Vila, recebida no dia seguinte ao evento)

 

 

Aos interessados, o encerramento da 4ª edição do projeto “Ocupação Poética”, ocorrido no dia 3 de maio (terça-feira), no teatro Cândido Mendes (Ipanema – RJ), com a participação de um elenco estelar: Geraldo Carneiro, Maíra Freitas, Elisa Lucinda, Zezé Motta, Maria Ceiça, Dani Ornellas, Flávia Oliveira, Wagner Cinelli, Ju Colombo, Maria Gal & Tom Farias.

Nos 2 vídeos desta publicação, gravados, montados, editados & produzidos pelo querido músico, produtor & videomaker Felipe Fernandes, a grande surpresa da noite: o poeta, tradutor & dramaturgo Geraldo Carneiro lê “Escuta, cavaquinho!”, a sua primeira parceria com o grande homenageado da noite, Martinho da Vila, parceria até então inédita, integrante do próximo álbum do Martinho, ainda em produção, poema-canção que, segundo o cantor, é a primeira faixa do disco, abre o seu novo trabalho. Na seqüência, Martinho da Vila canta a capella, pela primeira vez em público, “Escuta, cavaquinho!”, apresentando a música ao seu parceiro letrista, que ainda não a conhecia. Notem que o Geraldo Carneiro lê uma versão do poema-canção que, ao virar canção, para caber na melodia desenhada pelo Martinho, sofre algumas transformações/alterações.

Mais uma vez, agradecer imensamente a todos os envolvidos no projeto, e em especial aos participantes desta 4ª edição. Foi linda!

Aproveito para convidá-los para a 5ª edição do projeto, que acontecerá no dia 15 de junho (quarta-feira), a partir das 20h, no teatro Cândido Mendes (Ipanema), com um jovem & talentoso poeta (o mais jovem poeta a integrar o projeto) & participantes muito especiais.

Deixarei, aqui no blog, todas as informações sobre a próxima edição.

Espero que os senhores tenham se divertido tanto quanto nós, participantes, nos divertimos realizando.

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Geraldo Carneiro lê o poema-canção Escuta, cavaquinho!, parceira de Geraldo CarneiroMartinho da Vila. imagens/montagem/edição/produção do vídeo: Felipe Fernandes.)

 

ESCUTA, CAVAQUINHO!   (Geraldo Carneiro/Martinho da Vila)

 

Escuta, cavaquinho, as minhas preces
Senão o tempo passa, a gente esquece
Esquece de aprontar a fantasia
De celebrar a dor e a alegria

Toca comigo pra que o nosso sonho se realize
Ou pelo menos guarde um press-release
Pra que no futuro possam ler
Que houve dois seres que se amaram tanto
Que misturaram a alegria e o pranto

Eu, violão, e você, cavaquinho
Eu, no bordão, e você, no chorinho
Sem saber se era noite ou se era dia
Felicidade?
A gente nem sabia
Só sabia que vivia no presente
Esse país que é todo eternidade
Com esse sol desfilando em céu aberto
E o resto ganhando forma de saudade
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Martinho da Vila canta a capella a canção Escuta, cavaquinho!, parceira de Geraldo CarneiroMartinho da Vila. imagens/montagem/edição/produção do vídeo: Felipe Fernandes.)

 

ESCUTA, CAVAQUINHO!  (Geraldo Carneiro/Martinho da Vila)

 

Escuta, cavaquinho, as minhas preces
Senão o tempo passa e a gente esquece
Esquece de aprontar a fantasia
De celebrar a dor e a alegria.

Toca pra que um sonho realize
Ou pelo menos guarde um press-release
Pra que um futuro possam ler
Que somos seres que se amam tanto
E que misturam alegria e pranto

Eu, violão, você, cavaquinho
Eu, na canção, você no chorinho
Sem acordar se era noite ou se era dia
Felicidade?
Uma utopia
Que a gente curtia e vivia no presente
Desse país que é todo eternidade
Com esse sol desfilando em carro aberto
E o futuro muito incerto mas já cheio de saudade

OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (4ª EDIÇÃO) — VÍDEOS: MARIA GAL, JU COLOMBO, PAULO SABINO & ELISA LUCINDA
2 de junho de 2016

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(Maria Gal)

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(Ju Colombo)

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(Paulo Sabino)

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(Elisa Lucinda)
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Aos interessados, 4 vídeos da 4ª edição do projeto “Ocupação Poética”, ocorrido no dia 3 de maio (terça-feira), no teatro Cândido Mendes (Ipanema – RJ), com a participação de um elenco estelar: Geraldo Carneiro, Maíra Freitas, Elisa Lucinda, Zezé Motta, Maria Ceiça, Dani Ornellas, Flávia Oliveira, Wagner Cinelli, Ju Colombo, Maria Gal & Tom Farias.

Nos vídeos desta publicação, leituras dos trechos do livro “Barras, vilas & amores”, do homenageado da noite, o cantor, compositor & escritor Martinho da Vila, que tratam das histórias de amor que permeiam a trama do início ao fim: a  atriz & produtora Maria Gal lê trecho sobre a história de amor de Helena (Leninha) & o professor Adib; a atriz & arte-educadora Ju Colombo lê trecho sobre as histórias de amor de Helena (Leninha) & Basílio Mendonça, e do professor Adib & Eugênia; substituindo a cantora & compositora Fernanda Abreu, que não pôde comparecer por um compromisso inadiável surgido de última hora, o coordenador do projeto, o poeta Paulo Sabino, lê trecho sobre a história de amor de Josuel Ferreira & Teresi Aláfia; e a poeta, atriz & dramaturga Elisa Lucinda, num vídeo gravado, montado, editado & produzido pelo querido músico, produtor & videomaker Felipe Fernandes, lê trecho sobre a história de amor de Daomé Benino & Iana Smith.

Portanto, aos interessados, 3 histórias cujo assunto é de interesse & conhecimento do Martinho da Vila: as venturas & desventuras de amar, presentes na vida de qualquer homem amoroso.

Mais vídeos chegarão!

Divirtam-se!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Maria Gal lê um trecho do livro Barras, vilas & amores, de Martinho da Vila.)

 

Estácio Adib de Araújo Calvo, sempre chamado de professor Adib, não era calvo. Seus cabelos levemente grisalhos davam uma aparência senhoril às suas trinta e poucas primaveras. De estatura maior que a média brasileira e com tez morena, olhos castanhos, primava por discreta elegância no vestir raramente esportivo. Sem ser nenhum Adônis, causava delírios de amor em muitas moçoilas. Além de professor, era um diretor, membro do conselho administrativo do colégio, que se esmerava em honrar o magistério tratando os alunos com ternura e respeito.

O flerte com Helena — que ele antes se recusava a tratar por Leninha, como todos — levou-o a ter crises de consciência que dificultavam seu sono e causavam-lhe pesadelos pedófilos. Dá pra imaginar?

Despertava sempre ofegante e, mesmo sem ser muito católico, benzia-se. De volta ao sono, tinha belos devaneios oníricos e amanhecia feliz.

(…)

Certos de que não estavam sendo observados, o compromisso foi selado por um beijinho, daqueles que chamamos de selinho.

O combinado foi no encerramento dos festejos juninos, realizado no Dia de Sant’Ana, 26 de julho. Foi difícil despistar os conterrâneos, mas conseguiram ficar uns minutos a sós. Então se entregaram ao primeiro beijo.

Num oito de dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição, no fim da missa noturna das seis, foguetes riscaram o céu, e os morteiros explosivos anunciaram a abertura da festa da padroeira.

(…)

Sorrateiramente nosso casal se esgueirou para a parte de trás da igreja e, naquele recanto ermo, a pupila se abriu como uma flor. E o professor, que tem a mesma responsabilidade de um preceptor, excitadíssimo, arvorou-se.

Sem resistência, Leninha capitulou.

Foi tudo muito rápido, uma entrega prazerosa, apesar de a jovem não ter atingido o ápice, o prazer pleno. Voltaram ligeiros para a praça e, tentando demonstrar naturalidade, separaram-se para disfarçar. Cada um a seu lado, tinham a impressão de que nos olhares de todos havia uma censura pelo que fizeram.

(…)

Mesmo muito apaixonados, devido às dificuldades, calculáveis em uma cidade pequena, o casal se encontrou pouquíssimas vezes. Cópula, só a primeira atrás da Igreja da Conceição, suficiente para a concepção, pois um espermatozoide complicador foi direto ao óvulo e o fecundou.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Ju Colombo lê um trecho do livro Barras, vilas & amores, de Martinho da Vila.)

 

Pouco tempo corrido após a partida de Leninha, Adib passou a assediar Eugênia, como se sabe, sua ex-amante. Ela só correspondeu ao receber um pedido de noivado com proposta de casamento rápido. O enlace do diretor e da pedagoga aconteceu em uma cerimônia simples e lamentosa para o colégio, pois na ocasião eles anunciaram que iriam morar em Brasília.

Quando Leninha chegou de lá com o filho, já registrado como Josuel Wermelingerthal Lutherbach Ferreira, entristeceu-se com a notícia do casório do inesquecível Ernesto Adib, mas alegrou-se ao encontrar seu quarto do jeito que deixou, bem arrumadinho e com todos os seus pertences da infância. Outro foi preparado para Josuel, um aposento espaçoso, pois não havia compartimentos pequenos naquela grande casa, sede da fazenda Barras Três.

(…)

Com a volta dela de Brasília, falsamente viúva, o primo voltou a ficar mais tempo na fazenda. Ao vê-la de prima, não lhe deu novos pêsames. Abriu-lhe um grande sorriso e ela, por ter de demonstrar tristeza teatral, sorriu levemente. Nos seguintes convívios, Mendonça fazia de tudo para distrair Helena, conversando alegremente com ela nos raros momentos em que ficavam sós. Na presença de seu Salvador e dona Úrsula, trocavam olhares cúmplices e sorrisos comprometedores. Nas chegadas e despedidas, discretas carícias manuais.

O namorico foi longo, mas o namoro durou pouco tempo. Começou depois do noivado.

Calma, amigos, explico! No aniversário de 21 anos, o Basílio Mendonça, que já foi “tio Memê” sem nunca ter sido tio e priminho sem ser primo, deu-lhe um anel de pérola e subitamente surpreendeu a todos com um pedido de casamento.

Leninha lacrimejou de felicidade, o choro foi acompanhado pela mãe, que molhou um lenço inteiro. O severo pai manifestou seu desagrado por eles estarem namorando às escondidas, mas aceitou o pedido sob uma condição: teriam de morar na fazenda Barras Três, exigência prontamente aceita.

Eu disse que o namoro foi curto, e foi. Deram logo entrada nos papéis.

Quem não gostou nadinha do casório foi o Josuel. Passou a dormir sozinho, e ainda tinha de dividir as atenções da mãe com o padrasto.

O ciúme aumentou quando nasceu um irmãozinho, paparicadíssimo por todos.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Paulo Sabino lê um trecho do livro Barras, vilas & amores, de Martinho da Vila.)

 

Josuel passou uns anos na Guiana, foi nomeado para a Costa do Marfim e, após três anos, foi transferido para Benim, onde não havia embaixada. Como no Togo e em Gana, a diplomacia era de responsabilidade de um único embaixador, cuja sede ficava em Lagos, na Nigéria.

De todas as cidades onde esteve, a de que mais gostou foi Cotonou, no Benim, antigo Reino de Daomé, que tem uma história incrível. Portugal dominou o país por longo período e de lá foram enviados para o Brasil, mais especificamente para Bahia e Maranhão, um número incomensurável de escravos. Muitos deles, bem como alguns alforriados, conseguiram retornar para sua terra a partir das revoltas antiescravagistas. Formaram uma comunidade de brasileiros na cidade de Ouidah, onde havia um museu da escravatura e muita gente falava português.

A França colonizou o país até 1975. Depois de libertado com a ajuda soviética, o país adotou o nome de República Popular do Benim.

Entretanto, não é por sua história que o cônsul Josuel gosta muito daquele país de comunistas e candomblecistas. É que lá ele conheceu Teresi Aláfia, uma preta descendente da extinta nobreza, pela qual se enamorou. A jovem ficou grávida, e ele recebeu a notícia da gravidez via telefone, quase ao mesmo tempo em que foi informado por ofício que seria reconduzido ao Brasil.

Que situação! O que dizer ao pai da jovem que nem conhecia?

(…)

O casamento foi realizado na ampla residência da noiva, com muitos convidados.

A cerimônia, baseada no cristianismo, ocasião em que todos os presentes envergavam trajes africanos coloridos, tornava o ambiente alegre e emocionante. Tudo muito bonito. Os nubentes, lindos de azul em dois tons, únicos a usar tais cores, penetraram juntos na sala ao som de marimbas e outros instrumentos sonoros, sob aplausos.

Quando o padre, com seus paramentos brancos, os declarou marido e mulher, atabaques estrategicamente colocados nos cantos da sala retumbaram e todos dançaram. Que beleza, imaginem!
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Elisa Lucinda lê um trecho do livro Barras, vilas & amores, de Martinho da Vila.)

 

Desde o primário, sempre foi aluno aplicado, aplicadíssimo mesmo. Sua vida infantil e adolescente sempre foi dedicada aos livros e aos cadernos escolares. Tanto é que não chegou a curtir namoricos infantis como seus colegas, e era queridíssimo das professoras, quase todas jovens e belas, pelas quais seus amiguinhos se trancavam a sós nos banheiros. À boca pequena diziam que ele era afeminado.

No prédio onde morava havia uma bela garota, daquelas que aos 11 anos já sentem os calores vaginais, se masturbam e orgasmam. Chamava-se Iana Smith. Por volta dos 12 já tinha beijado muitos meninos, e com 13 seu corpo já havia sido visitado por mãos de afoitos rapazolas em lascívias pelos cantos do condomínio, que tem lugares muito propícios. No início dos 14 virou mulher, das boas. Mulher boa é a que gosta de transar, que se entrega por gosto.

Filha de sul-africanos de origem holandesa, daqueles que não se misturam, era carioquíssima, porém não muito típica fisicamente. Sem o perfil das cariocas, da gema ou não, atraía os olhares de todos na praia da Barra por sua brancura e trejeitos. Seus cabelos muito louros pareciam fios de ouro, e os olhos de profundo azul ornamentavam seu belo rosto de semblante meigo. De estatura mediana, não tinha a “preferência nacional” chamativa, e a “comissão de frente” não era de grande escola do grupo especial, mas também não era das pequenas do segundo grupo. Entretanto, era muito sexy, sabia que era, gostava de ser paquerada, usava bem sua chamativa sexualidade.

O rapaz que transformou Iana em mulher logo foi dispensado a favor de outro, então chorou muito no colo da mãe, que passou a odiá-la. Este outro se apaixonou perdidamente e, substituído, lacrimejou também. O mesmo aconteceu com não sei quantos, até que ela, intrigada porque Benino não a assediava, pensou em conquistá-lo.

(…)

Os namoros da lourinha eram pouco duradouros, efêmeros. O tempo maior foi o do seu namorico com uma professora sua, mas também não durou muito. Abandonada, a mestra sofreu bastante. Mandou-lhe flores na tentativa de reatar, mas não a sensibilizou.

Surpreendentemente o caso de Iana Smith com Daomé Benino vingou.

A loura dilaceradora de corações foi flechada por Cupido, o Deus do Amor, ou melhor, foi atingida por um anjo e ficou caída por ele.

(…)

Benino já havia sido festejado pelos pais com a boa notícia da nomeação. A mãe já tinha aberto um sorriso com todos os seus dentes de marfim com o par de mãos ao alto, mirando o teto e vendo um céu de olhos fechados, dando graças a Deus, cena ocorrida antes do entendimento com a apaixonada Iana.

Depois fez a comunicação do pedido de casamento, à mesa do jantar, já com postura de diplomata:

— Meus queridos, vocês são os melhores pais do mundo. Nunca nos falamos, mas vocês sabem que eu namoro a vizinha do último andar. Pretendo me casar e levá-la comigo para o Uruguai.

Pai Josuel não se manifestou. Mãe Teresi contraiu a face, franzindo a testa:

— Não simpatizo nem um pouquinho com ela. Sinceramente não aprovo esta sua atitude. Casamento é coisa séria. Dá um conselho a ele, marido!

— Mulher, ele não pediu nossa opinião, está nos comunicando sua decisão. Apesar disso, tenho que dizer que não acredito que a união vai dar certo. Pense bem, filho.

— Tá. Vou pensar.

O pai dele não acreditava que Iana seria uma boa esposa por ter a fama de namoradeira volúvel, mas nada mais falou. A mãe sabia, mas calculava que o nome da moça era uma homenagem a Ian Smith, líder da antiga Rodésia, hoje Zimbábue, adepto do apartheid. Achava que os pais dela deveriam ser racistas, mas silenciou. Nada mais falaram no jantar.

Sabedores da desaprovação mútua, a solução foi o casal pegar sorrateiramente suas certidões de nascimento, dar entrada nos papéis, casar às escondidas e comunicar às famílias que iam morar no Uruguai. Planejado e feito.

Receberam as passagens para Montevidéu como se fora um presente de casamento para viver uma lua de mel.

OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (4ª EDIÇÃO) — VÍDEOS: MARIA CEIÇA, ZEZÉ MOTTA & FLÁVIA OLIVEIRA
26 de maio de 2016

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(Maria Ceiça)

Ocupação Poética_4 edição_55

(Zezé Motta)

Ocupação Poética_4 edição_34

(Flávia Oliveira)
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Aos interessados, 3 vídeos da 4ª edição do projeto “Ocupação Poética”, ocorrido no dia 3 de maio (terça-feira), no teatro Cândido Mendes (Ipanema – RJ), com a participação de um elenco estelar: Geraldo Carneiro, Maíra Freitas, Elisa Lucinda, Zezé Motta, Maria Ceiça, Dani Ornellas, Flávia Oliveira, Wagner Cinelli, Ju Colombo, Maria Gal & Tom Farias.

Nos vídeos desta publicação, leituras dos trechos do livro “Barras, vilas & amores”, do homenageado da noite, o sempre simpático cantor, compositor & escritor Martinho da Vila: no primeiro vídeo, gravado, montado, editado & produzido pelo querido músico, produtor & videomaker Felipe Fernandes (ficou lindo o vídeo, diferentemente dos demais que posto aqui, feitos com a câmera de um celular), a atriz Maria Ceiça lê um trecho do livro em homenagem à Barra da Tijuca, onde atualmente mora o Martinho & que ele chama de sua mais nova namorada; no segundo vídeo, a grande diva Zezé Motta lê um trecho do livro sobre as lutas pelo fim da escravidão/opressão sofrida pelos negros & as lutas pelo fim do racismo, cantando, inclusive, “O mestre-sala dos mares”, de Aldir Blanc & João Bosco; no terceiro vídeo, a jornalista Flávia Oliveira lê um trecho do livro sobre políticas brasileiras de inclusão social, trecho no qual a jornalista & colunista é citada.

Portanto, aos interessados, 3 assuntos que são caros ao Martinho da Vila: a sua nova namorada, a Barra da Tijuca; as lutas pelo fim da escravidão/opressão contra os negros & pelo fim do racismo; e as políticas de inclusão social do Brasil.

Mais vídeos chegarão!

Divirtam-se!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Maria Ceiça lê um trecho do livro Barras, vilas & amores, de Martinho da Vila.)

 

Ela é bonita, muito linda mesmo.
A primeira vez que a vi era ainda muito jovem, quase
virgem. Uma fruta verdinha em todos os sentidos.
Seu verde calmo se confundia com o azul de um imenso 
mar. Hoje está mais madura, imponente como uma
égua de competição.
Vista de cima, de asa delta, de monomotor, parapente…
É deslumbrante. Um avião.
Paquerei sem sonhar, pensando: “É muita areia para o meu caminhãozinho”.
A brisa da sorte, aquela que sopra sempre para o lado
dos poetas, me ventilou e tive a ventura de conhecê-la.
Devagarinho fui me achegando. Flertamos.
Descobri seus outros encantos, seus recantos…
Deixei-me levar nas suas águas e estamos namorando,
bem enamorados.
É certo que vou me apaixonar porque ela é bela, segura,
dominante.
Não é Duas Barras, mas é calma. Não tem vila como a
Vila, mas é tranquila.
Não tem muvuca, tem point. É a Barra da Tijuca.

 

A Barra, como é conhecida popularmente, é um bairro nobre localizado na zona oeste da cidade do Rio de Janeiro. Seus moradores pertencem a uma classe privilegiada. É um bairro considerado centro gastronômico  e de entretenimento da capital, e muitas pessoas de outros bairros cariocas, em especial da zona sul, têm migrado para lá. A Barra possui uma das maiores favelas do Rio de Janeiro, a Rocinha, e é também reconhecida como uma área com alto índice de desenvolvimento humano (IDH), por abrigar população de classe alta e emergente. Possui também a praia mais extensa do Rio de Janeiro, com 18 km de belas areias com águas limpas. Fica ali a lagoa de Marapendi, transformada em Área de Proteção Ambiental a Reserva Biológica.

Um dos pontos mais pitorescos da Barra da Tijuca é a ilha da Gigoia, uma ilhota desconhecida pela maioria dos cariocas, habitada por gente simples. Sem ruas nem carros, todo o percurso é feito por vielas, e é possível cruzá-la em uma caminhada de cerca de meia hora. O acesso à ilha é feito por barcos e pequenas balsas.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Zezé Motta lê um trecho do livro Barras, vilas & amores, de Martinho da Vila.)

 

Adib tinha total razão, queridos leitores, quando disse ao “afilhado” Josuel que a transferência da capital para o Planalto Central, um plano antigo, foi um erro. Nos anos 1950 a aviação de combate e defesa já era primordial, e o perigo passou a ser dos ares. Seria justificável no tempo do Brasil Imperial, quando havia guerras de conquista e os invasores chegavam pelo mar.

A ideia da transferência ganhou força em 1910, ano em que o marinheiro João Cândido tomou a armada brasileira e ameaçou bombardear a cidade em protesto contra o açoite a marinheiros negros no pós-abolição. O episódio, conhecido como a revolta da Chibata, que eu prefiro chamar de revolta da Armada, sempre foi assunto proibido, mas o combativo jornalista e escritor Edmar Morel escreveu, em 1959, um livro sobre o fato que também serviu de inspiração para um antológico samba de João Bosco e Aldir Blanc, poeticamente composto com o subterfúgio da linguagem figurada para driblar a censura:

 

Há muito tempo nas águas
Da Guanabara
O dragão no mar reapareceu
Na figura de um bravo
Feiticeiro
A quem a história
Não esqueceu
Conhecido como
Navegante negro
Tinha a dignidade de um
Mestre-sala
E ao acenar pelo mar
Na alegria das regatas
Foi saudado no porto
Pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por
Batalhões de mulatas
Rubras cascatas jorravam
Das costas
Dos santos entre cantos
E chibatas
Inundando o coração
Do pessoal do porão
Que a exemplo do feiticeiro
Gritava então
Glória aos piratas, às
mulatas, às sereias
Glória à farofa, à cachaça
Às baleias
Glórias a todas as lutas
Inglórias
Que através da
Nossa história
Não esquecemos jamais
Salve o navegante negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais

 

O almirante João Cândido é símbolo das lutas dos militantes do Movimento Negro, iniciado com Ganga Zumba, fundador do Quilombo dos Palmares que acolhia escravos fugitivos perseguidos pelos capitães do mato. Zumbi, o Guerreiro da Liberdade, substituiu Ganga Zumba na chefia do quilombo e o expandiu, recrutando mulheres e brancos injustiçados para intensificar as incursões a fazendas para libertar escravos.

O Quilombo dos Palmares era praticamente um estado independente na serra da Barriga, entre Pernambuco e Alagoas. Os quilombolas de Palmares viviam basicamente da agricultura de subsistência, da pesca e da caça. Plantavam milho, banana, feijão, mandioca, laranja e cana-de-açúcar. Faziam também artesanato com cerâmica, tecido, palha… Tinha uma organização política semelhante aos reinos africanos, ou seja, poder centralizado nas mãos de um líder.

Segundo os dicionários, zumbis são almas penadas que vagueiam à noite, causando arrepios e, na minha concepção, a definição é devida ao medo que os fazendeiros escravagistas tinham de Zumbi dos Palmares, líder que na calada da noite invadia propriedades e arregimentava cativos.

No Rio de Janeiro e em alguns outros municípios, 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, ou Dia de Zumbi, é feriado.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Flávia Oliveira lê um trecho do livro Barras, vilas & amores, de Martinho da Vila.)

 

Uma importante fase da luta foi a agressão verbal, cujo ícone Abdias Nascimento representou. Doutor em economia, escritor, jornalista, artista plástico, ator, diretor teatral e dramaturgo, Abdias foi o primeiro negro a assumir uma cadeira no Senado, onde causava constrangimento ao acusar a República brasileira de discriminatória, porque nas fotos de posses dos governantes não se veem negros.

Tinha total razão o combatente Abdias. Hoje mesmo — escrevo no primeiro dia do ano de 2015 — saiu nos jornais a foto dos ministros do governo da presidente Dilma, e não vi nenhum preto.

A jornalista Flávia Oliveira escreveu em sua coluna de O Globo, na edição de 4 de janeiro, uma crônica intitulada “Mal na foto”, que em certo trecho declara:

Difícil acreditar que não existam no país um engenheiro negro de pensamento ortodoxo, currículo assemelhado ao de Joaquim Levy, para conduzir a Fazenda pelos caminhos do tripé macroeconômico que Dilma abraçou no discurso de posse. Ou que não haja uma brasileira doutora em economia por universidade americana, como Alexandre Tombini, para assumir o Banco Central. Ou uma médica capacitada em gestão e planejamento para, como Arthur Chioro, comandar o ministério da Saúde. Certamente, o Brasil tem gays, negros e mulheres formados em direito, com mandato na Câmara Municipal, cargo executivo em empresa pública e experiência em assessoria parlamentar para estar à frente dos Transportes, cargo de Antônio Carlos Rodrigues.

(…)

Querido leitor ou leitora!

Se você é contra as ações afirmativas para a inclusão social, como sistema de cotas raciais, aqui vai um dado para pensar. O jornal O Dia de 26 de abril de 2015, no caderno Economia, na Coluna do Servidor, de Alessandra Horto com Hélio de Almeida, foi publicada a matéria “União tem apenas 4% de negros em seus quadros”. E informa que “pouquíssimos estão no Poder Executivo e que, mesmo com curso superior, a maioria dos negros ainda está em funções de nível auxiliar”. O argumento tópico tem mais detalhes e foi baseado no Censo Demográfico de 2010, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).