ÀS MULHERES
8 de março de 2010

Mulheres_PB
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o dia de hoje, 8 de março, é reservado internacionalmente a uma homenagem às mulheres. por essa razão, segue este poema-canção, lindíssimo, que se encaixa perfeitamente ao laurel proposto: versos que falam de mulheres, mais especificamente das mulheres do meu brasil varonil, porém possíveis de serem estendidos a todas as demais mulheres, debuxados por uma grande cantora & compositora & interpretados por outra grande companheira de profissão. eu, desde sempre, desde a minha mãe, desde as minhas tias, sou louco por mulheres, um grande fã. as que conheço & estão ao meu lado são habituadas a delicadezas. inteligentes, protetoras, perspicazes.

gosto muito de gente. gosto de escutar gente, de saber o que pensa, como anda. não seria diferente com as mulheres.

a elas, a capacidade não só de gerar, mas também de armazenar vida latente, vida pulsante. acho comovente mulher barriguda que vai ter menino.

à jurema, nely, joyce, maria, clarice, lya, lygia, marly, nélida, adélia, rachel, orides, cora, cecília, sophia, natália, florbela, cacilda, fernanda, marília, bibi, dolores, clara, gal, nana, rita, elis, elisa, alice, hilda, claudia, patrícia, zélia, e assim sucessivamente, em espiral vertiginosa: muitíssimo obrigado. por tanto, por tudo, agradeço a vocês, mulheres da minha trilha, irmãs porque a mãe natureza fez todas tão belas.

parir, gerar, criar: existir: eis a prova de destino tão valoroso.

a mulher brasileira, no alto a sua bandeira, saúda o povo & pede passagem!

que vocês, mulheres, de um modo bonito, de um modo delicado, conquistem o mundo!

um brinde a elas!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do encarte do cd: Maria. artista: Maria Bethânia. autora dos versos: Joyce. gravadora: BMG Ariola.)

 

 

MULHERES DO BRASIL

 

No tempo em que a maçã foi inventada
Antes da pólvora, da roda e do jornal
A mulher passou a ser culpada
Pelos deslizes do pecado original
Guardiã de todas as virtudes
Santas e megeras, pecadoras e donzelas
Filhas de Maria ou deusas lá de Hollywood
São irmãs porque a Mãe Natureza fez todas tão belas
Tão belas
Ó Mãe, ó Mãe, ó Mãe
Nossa Mãe, abre teu colo generoso
Parir, gerar, criar e provar nosso destino valoroso
São donas de casa, professoras, bailarinas
Moças, operárias, prostitutas, meninas
Lá do breu das brumas vem chegando a bandeira
Saúda o povo e pede passagem a mulher brasileira
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Maria. artista & intérprete: Maria Bethânia. canção: Mulheres do Brasil. autora da canção: Joyce. gravadora: BMG Ariola.)

EROS E PSIQUE
21 de agosto de 2009

certa vez, perguntada por um jornalista sobre quem, na sua opinião, é a maior atriz do brasil, fernanda montenegro, uma das maiores, senão a maior atriz do país, respondeu, categórica: maria bethânia.

tenho muito a dizer sobre bethânia, sobre minha mãe e sobre a importância crucial dessas duas mulheres encantadas no meu gosto literário. foi a partir delas, de bethânia e da minha cabocla jurema, que tudo começou. um dia, mais a fundo, farei um texto para homenageá-las, eu sei.

hoje me atenho ao fato de bethânia ser, para mim e para muitos (inclusive para a maioria esmagadora dos poetas), uma das maiores intérpretes da palavra falada.

desde muito cedo, bethânia sentia que a palavra cantada não daria conta do que ambicionava em palco. por isso, tornou-se, talvez, a única (desculpem a minha ignorância, mas, de fato, não conheço nem nunca ouvi falar de outra artista, no mundo, que trabalhasse desta maneira) intérprete de música a levar textos, tanto em poesia quanto em prosa, para os seus espetáculos.

por conseguinte, a cantora é/foi próxima e amiga de grandes escritores: vinicius de moraes, clarice lispector (que inclusive escreveu textos exclusivos para alguns dos seus espetáculos), ferreira gullar, lya luft, waly salomão, arnaldo antunes, antonio cicero, entre tantos outros.

ela é a grande mestre. em 1977, gravou um long-play em estúdio cuja faixa primeira é um dos poemas, na minha humilde opinião, mais lindos do mundo: “eros e psique”, do extraordinário, do maior poeta da língua portuguesa, fernando pessoa. os versos narram o encontro dessas duas frentes, dessas duas forças que compõem e moldam todos nós.

eros, o infante esforçado, rompe o seu caminho, o caminho fadado, predestinado, sem saber que intuito, que razão, possui. a força cega, que segue um chamado sem bem decifrá-lo, a força do sentimento, o amor.

psique, a princesa, a alma, a consciência, que, se espera, espera adormecida o infante, sem nem saber que existe;  e vive, por isso mesmo, num reino distante, para além do muro da estrada.

eros, o infante, alcança psique, a princesa encantada, e desse encontro nasce a descoberta de que, “no fundo”, ele próprio, o infante, é a princesa que dormia.

é o momento, literal, da “tomada da consciência”, do “cair em si”, do “saber-se de si”.

o sentimento ligado à razão. a razão e a sensibilidade, unas.

a minha aposta reside exatamente na mescla dessas duas forças.

na voz de bethânia, com sua interpretação, suas pausas entre versos & palavras, sua dramaticidade, o poema ganha, às claras, a força que concentra e carrega. a primeira vez que ouvi as linhas na sua voz, e as entendi, chorei copiosamente. chorei chorei chorei feito criança que sou (rs).

experimente, quem nunca o fez, ler os versos com a bethânia. é esclarecedor. a intérprete ilumina todas as linhas.

(como caetano veloso, gosto do pessoa na pessoa. injetem-no na veia.)

um beijo nocês tudo,

o preto,

paulinho / paulo sabino.

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EROS E PSIQUE (Fernando Pessoa)
 
Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.   
 
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
 
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
 
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.
 
Mas cada um cumpre o Destino —
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
 
E, se bem seja obscuro
Tudo pela estrada afora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.
 
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.