O NAVEGANTE & SUA BIOGRAFIA COM PALAVRAS DE PINTAR
15 de janeiro de 2013

Paulo Sabino e Mar

_____________________________________________________________

 inundado de mar, eu não escrevo, eu transcrevo seus poemas.
 
transcrevo os poemas do mar, pois só o mar escreve o mar, só o mar escreve seu manto azul líquido, suas ondulações de variações seqüenciadas, seu perfume de maresia, sua música incessante, seu gosto de sal.
 
só o mar escreve o mar. eu transcrevo seus poemas, pois somente em sua paleta (chapa de madeira sobre a qual os pintores colocam & misturam a tinta), somente na gama de cores disposta na sua paleta, encontro as palavras de pintar:
 
azul a luz o céu a gaivota o barco o peixe a sereia a areia.
 
poeta do olhar poeta (pois, antes de mim, antes do paulo sabino pensante, “poeta” é o olhar que me abriga. antes de mim, “poeta” é o olhar, que enxerga o mundo na estamparia da poesia. é o olhar que olha poeticamente. na verdade, o paulo sabino pensante-poeta é somente um instrumento, um canal, um veículo, para o olhar, poeta essencial & primordial), eu próprio sou da paleta do mar, poeta do olhar poeta, eu próprio faço parte da gama de cores da paleta marinha.
 
poeta do olhar poeta, eu próprio sou da paleta do mar (não só por conta da minha alucinação pelo mar & seus mistérios & imensidão, mas também em última instância: afinal, estudos científicos apontam que os primeiros indícios de vida no planeta vieram da água, vieram da imensidão do mar).
 
pertencendo à gama de cores da paleta do mar, sou também, deste mar, navegante.
 
e, navegante que sou, no ar que me falta, navegador que sou, ainda que, à navegação, me falte vento para navegar, enfuno a vela a boreste, encho a vela da minha embarcação com o ar do meu fôlego, e vou, e sigo, a boreste (sigo do lado direito da embarcação errante), enfuno a vela a boreste, e ergo esquálido estandarte, e ergo minha bandeira de causa nenhuma, estandarte simples, bandeira besta, pessoa marcada que sou aos becos deste mar, pessoa marcada que sou para conhecer os becos deste mar (as ruas estreitas & curtas, em geral sem saída, que povoam o reino marinho): os becos deste mar: onde aves devoram peixes (lâmina de prata fisgada & presa no bico da gaivota), vidas de prata que nadam extáticas no tempo que resta.
 
no fundo, o mar nos serve de metáfora (pessoa marcada que sou para conhecer os becos deste mar): somos como os peixes: nadamos neste mar de caminhos & possibilidades que é a vida, até que, extáticos, num repente, inesperadamente, um beco (uma ruela estreira & sem saída, uma situação difícil, de grande aperto) neste mar em que nadamos: estamos “suspensos no ar”, “fisgados” para fora da água-vida. enquanto não somos “fisgados” para fora da água-vida, seguimos nadando, extáticos, isto é, encantados, maravilhados, em êxtase, no tempo que nos resta.
 
assim a minha biografia: poeta do olhar poeta, eu próprio, paulo sabino, sou da paleta do mar. poeta do olhar poeta, eu próprio, paulo sabino, navegante dos mares de sal & da vida, também sou peixe imerso nas águas deste nosso cotidiano, nadando extático — em êxtase — no tempo que me resta, sujeito a ser “fisgado” & “suspenso” — peixe fora d’água, peixe fora do seu habitat — se capturado pelo anzol de alguma fatalidade. 
 
assim a minha biografia: poeta do olhar poeta, navegante dos mares de sal & da vida, peixe imerso nas águas deste cotidiano, paulo sabino teve amigos, muitos, amigos que morriam, amigos que partiam, amigos que chegavam, outros quebravam o seu rosto contra o tempo, outros geravam gerânios no jardim; paulo sabino odiou o que era fácil, odiou o que se obtém sem dificuldade, pois o paulo sabino gostava das funduras (o mar é feito de abismos abissais); paulo sabino procurou-se na luz no vento no mar.
 
(o navegante & sua biografia com palavras de pintar.)
 
beijo todos!    
_____________________________________________________________
 
(do livro: Céu em Cima / Mar Em baixo. autor: Alex Varella. editora: Topbooks.)
 
 
 
PALAVRAS DE PINTAR
 
 
Inundado de mar,
eu não escrevo, eu transcrevo seus poemas,
pois somente em sua paleta encontro as palavras de pintar.
Poeta do olhar poeta,
eu próprio sou
da paleta do mar.
 
 
 
 
(do livro: A chave do mar. autor: Fernando Moreira Salles. editora: Companhia das Letras.)
 
 
 
NAVEGANTE
 
 
No ar que me falta
enfuno a vela
a boreste
ergo
esquálido estandarte
barão assinalado
aos becos deste mar
onde aves
devoram
peixes derradeiros
vidas de prata
que nadam
extáticas
no tempo
que resta
 
 
 
 
(do livro: Poemas escolhidos. autora: Sophia de Mello Breyner Andresen. seleção: Vilma Arêas. editora: Companhia das Letras.)
 
 
 
BIOGRAFIA
 
 
Tive amigos que morriam, amigos que partiam
Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.
Odiei o que era fácil
Procurei-me na luz, no mar, no vento.
Anúncios

O LEGADO DA TRAVESSIA
13 de outubro de 2011

_____________________________________________________________

madrugada.
 
viajante que sou, homem dado às nuances do mundo, às observações do entorno,
 
parto sem norte, parto sem traçar direção, deixando que o caminho fale por mim, no pouco mar da aurora que nos cabe, mar pouco porque escassas as águas desta nossa vida, vida tão breve, tão curta.
 
viajante que sou, parto, avante, lerda ave, parto, pássaro vagaroso (vagaroso porque sigo a minha rota de olho no meu entorno), fugindo do tempo que não me deixa dele fugir.
 
lerda ave, pássaro vagaroso, o meu sentido, o meu norte, é somente a viagem: nem partida, nem retorno: só o vôo, breve, vôo de uma existência riscando a tarde. 
 
viajo, lerda ave, viajo, senhor das velas, senhor do sextante (instrumento que permite medir, a bordo de um navio, a altura dos astros e suas distâncias angulares), viajo, senhor das estrelas. e, no percurso, o que me falta é chegar, coisa que não almejo, pois o bom da viagem é justamente a estrada, que vamos construindo passo a passo, no dia-a-dia, dia-a-dia que passa como passa o passarinho, dia-a-dia que passa como passam o sonho & o desespero. 
 
a hora, descarnada, a hora, etérea, não lembra, não tarda, não falha: a hora passa. ela nomeia a todos, convoca os deuses (à lida da vida), e, sem demora, vira a página.
 
hora passada, página virada, assunto encerrado, capítulo escrito & deixado para trás, capítulo que não mais pode ser relido.
 
frente ao tamanho do mar existencial, as águas que temos a percorrer são parcas. é pequeno & breve o destino do seu sonho, e do meu.
 
portanto, se pequeno & breve o destino dos nossos sonhos, trilhemos o caminho na certeza de que fazemos o melhor por nós. 
 
este é o único legado nosso à posteridade: mostrar-lhe o quanto tudo pode ser melhor se, de fato, fazemos o melhor por nós.
 
beijo todos!
paulo sabino.
____________________________________________________________
 
(do livro: A chave do mar. autor: Fernando Moreira Salles. editora: Companhia das Letras.)
 
 
 
MADRUGADA
 
 
Viajante
parto
no pouco mar
desta aurora
 
Parto
sem norte
lerda ave
fugindo do tempo
 
 
 
AVE
 
 
Nem partida
nem retorno
o voo breve
riscando a tarde
 
 
 
TRAVESSIA
 
 
Nesta nau
trago imagens
e a brisa
que me sopra
 
Viajo
senhor das velas
do sextante
e das estrelas
      Só me falta
      chegar
 
 
 
DO TEMPO
 
Para José Mindlin
 
 
Hora descarnada
não lembra
não tarda
hora rasa
nomeia a todos
convoca os deuses
e sem demora
vira a página
 
 
 
LEGADO
 
 
Não há dor
partilhável
nem lamento
que se ouça
 
É pequeno
o destino
do teu sonho
e do meu
 
Se alguém
te viu passar
se o caminho
te pertence
    segue
e sorri