FERREIRA GULLAR — UM RAIO AOS CÉUS NO DIA DA RAINHA DOS RAIOS
8 de dezembro de 2016

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(Na foto, a dedicatória do poeta no meu exemplar de “Toda poesia”.)
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No dia de Iansã, dia da rainha dos raios, parte um raio luminoso da poesia brasileira.

Ferreira Gullar, sem sombra de dúvidas, foi dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos. Transitou por todos os estilos poéticos, incluindo o concretismo & o neo-concretismo, com brilhantismo & escreveu artigos & ensaios sobre literatura da maior importância. Um gênio da raça.

Ferreira Gular: 10 de setembro de 1930 / 4 de dezembro de 2016. Oitenta & seis anos de plena poesia.

Salve Gullar!
Salve sua poesia em nossos corações & mentes!

Saravá!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do livro: Em alguma parte alguma. autor: Ferreira Gullar. editora: José Olympio.)

 

 

REFLEXÃO SOBRE O OSSO DA MINHA PERNA

 

A parte mais durável de mim
são os ossos
e a mais dura também

como, por exemplo, este osso
da perna
que apalpo
sob a macia cobertura

ativa
de carne e pele
que o veste e inteiro
me reveste
dos pés à cabeça
esta vestimenta
fugaz e viva

sim, este osso
a mais dura parte de mim
dura mais do que tudo o que ouço
e penso
mais do que tudo o que invento
e minto
este osso
dito perônio

é, sim,
a parte mais mineral
e obscura
de mim
já que à pele
e à carne
irrigam-nas o sonho e a loucura

têm, creio eu,
algo de transparente
e dócil
tendem a solver-se
a esvanecer-se
para deixar no pó da terra

o osso
o fóssil

futura
peça de museu

o osso
este osso
(a parte de mim
mais dura
e a que mais dura)
é a que menos sou eu?

 

 

UMA PEDRA É UMA PEDRA

 

uma pedra
(diz
o filósofo, existe
em si,
não para si
como nós)

uma pedra
é uma pedra
matéria densa
sem qualquer luz
não pensa

ela é somente sua
materialidade
de cousa:
não ousa

enquanto o homem é uma
aflição
que repousa
num corpo
que ele
de certo modo
nega
pois que esse corpo morre
e se apaga

e assim
o homem tenta
livrar-se do fim
que o atormenta

e se inventa

 

 

UM POUCO ANTES

 

Quando já não for possível encontrar-me
em nenhum ponto da cidade
ou do planeta
pensa
ao veres no horizonte
sobre o mar de Copacabana
uma nesga azul de céu
pensa que resta alguma coisa de mim
por aqui
Não te custará nada imaginar
que estou sorrindo ainda naquela nesga
azul celeste
pouco antes de dissipar-me para sempre

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A AÇÃO DOS BLACK BLOCS NESTA HORA
10 de setembro de 2013

Caetano Veloso_Black Bloc

Paulo Sabino_Black Bloc

(Nas fotos, o poeta-compositor Caetano Veloso & o poeta Paulo Sabino.)
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Ah, é? Então quer dizer que você SOFREU na ditadura militar, APANHOU, VIU os maiores absurdos?

Ah, é? Então quer dizer que, à época da ditadura militar, você SENTIU dor, REVOLTOU-se, CLAMOU por justiça?

Pois é, mas tudo isso no passado… Todos os verbos (que denotam AÇÃO), aqui, estão no pretérito.

Vamos parar de legitimar o que pensamos HOJE (que é o que REALMENTE importa) com ações do passado.

Ferreira Gullar também LUTOU & SOFREU na ditadura militar & hoje vai aos jornais para dizer que os empresários são, na área econômica, uma espécie de artistas no modo de conduzir o modelo econômico vigente…

Aí me dá uma tristeza imensa… Artistas?! Empresários?! Só se forem do terror, do horror, das recessões econômicas, das mazelas sociais!

O jornalista Marcelo Rubens Paiva escreveu um texto para o jornal “Estadão” no qual legitima a sua postura anti-black blocs apoiado em ações suas que ficaram no passado. Acho isso o fim.

Mobilização social, por conta de violências praticadas pelo Estado, possui uma dose de violência. Isso tem a ver com aquele conhecimento mais antigo que a vovó: gentileza gera gentileza; e violência, obviamente, violência. Não se pode esperar protestos com flores & bandeiras brancas, por parte de toda a massa que vai às ruas, quando muitos são tratados com extrema violência nos seus cotidianos, quando, TODOS, vivemos num Estado ESCROTO & FILHO DA PUTA como o Brasil em diversos aspectos.

O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), como bem escreveu um leitor do texto do Marcelo Rubens Paiva, “com seu pleito por terra (até certo ponto muito justo), invade propriedades privadas levando nas mãos foices e enxadas e, algumas vezes, depredam a propriedade e o plantio ali feito. Isso é legítimo.”

Fico pensando: possivelmente os que bradam, veementes, contra as ações dos black blocs, se moradores do campo, ficariam indignadíssimos com a postura do campesinato ligado aos movimentos sociais em prol de uma distribuição de terras mais igualitária. Portanto, a “depredação” & o “quebra-quebra” incomodam porque acontecem do ladinho das suas confortáveis residências urbanas. É muito mais bacana apoiar a causa do MST ou a dos índios, quando também reagem de forma violenta aos abusos cometidos por grandes latifundiários, porque tais formas de protestos acontecem lááááááá no “fim do mundo”, sem o perigo & a ameaça de que o sangue jorrado respingue nos belos apartamentos da zona sul do Rio de Janeiro.

Escreve, ainda, o leitor que bem responde ao texto do Marcelo Rubens Paiva: “colocar uma máscara não é sinônimo de vandalismo. Nem todos os mascarados são vândalos. Muitos usam máscaras pra se proteger da pimenta, do gás e do FICHAMENTO CLANDESTINO feito por policiais e militares sem identificação e com seus rostos cobertos.”

Sabemos das ações pra lá de ARBITRÁRIAS, seja no campo, seja na cidade, utilizadas pelas milícias do Estado, demasiadamente VIOLENTAS.

Eu quero a paz. Eu prefiro a paz. Sou um homem de delicadezas, portanto, um homem pacífico. Mas acho a indignação extrema extremamente proporcional ao estado de violência gerado pelo Estado.

A cada ação, a sua devida re-ação.

A população é maltratada pelo Estado (ação) & isso, naturalmente, evidentemente, pode gerar, em alguns, uma re-ação na mesma medida.

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do livro: Poemas escolhidos. autora: Sophia de Mello Breyner Andresen. seleção: Vilma Arêas. editora: Companhia das Letras.)

 

 

NESTA HORA

 

Nesta hora limpa da verdade é preciso dizer a verdade toda
Mesmo aquela que é importante neste dia em que se invoca o povo
Pois é preciso que o povo regresse do seu longo exílio
E lhe seja proposta uma verdade inteira e não meia verdade

Meia verdade é como habitar meio quarto
Ganhar meio salário
Como só ter direito
A metade da vida

O demagogo diz da verdade a metade
E o resto joga com habilidade
Porque pensa que o povo só pensa metade
Porque pensa que o povo não percebe nem sabe

A verdade não é uma especialidade
Para especializados clérigos letrados

Não basta gritar povo é preciso expor
Partir do olhar da mão e da razão
Partir da limpidez do elementar

Como quem parte do sol do mar do ar
Como quem parte da terra onde os homens estão

Para construir o canto do terrestre
— Sob o ausente olhar silente de atenção —

Para construir a festa do terrestre
Na nudez de alegria que nos veste

INÉDITO DE JOÃO CABRAL DE MELO NETO + ARS POETICA
8 de maio de 2012

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INFORMAÇÃO LUXUOSÍSSIMA!

Acho um PRIVILÉGIO o acesso tão direto a ela.

Me disse a sempre benvinda & querida Inez Cabral de Melo:

 

estou organizando uma edição com um manuscrito inédito do véio (estudos para um auto q ele não terminou) e o armando [freitas filho] escreveu a apresentação. ficou D+! em agosto ou setembro nas melhores livrarias…

 

OBAAAAA! Material INÉDITO do mestre João Cabral de Melo Neto com apresentação de Armando Freitas Filho!

Aos fãs, fica a expectativa & a espera!

(Certamente estarei na noite do lançamento! Armando + João Cabral + Inez Cabral = IMPERDÍVEL!)

João Cabral é considerado, juntamente com Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira & Ferreira Gullar, um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos.

A sua poética é conhecida por ser direta, sem floreios, árida, seca, apenas o estritamente necessário, as palavras ponderadas & milimetricamente medidas, explorando ao máximo as potencialidades do mínimo, sem espaço para excessos & verborragia.

Abaixo, aos senhores, um poema lindíssimo do mestre, uma espécie de ars poetica (versos que tratam da natureza da poesia, versos que tratam do processo de criação poética), poema, portanto, que revela o modo de criar poemas utilizado por João Cabral, poema comentado magistralmente pelo meu querido amigo, o poeta & filósofo Antonio Cicero.

Enquanto não chega o lançamento do material inédito de João Cabral, deliciem-se com a bela análise do Cicero e com os belos & clássicos versos do mestre!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do livro: A educação da pedra e depois. autor: João Cabral de Melo Neto. editora: Nova Fronteira.)

 

CATAR FEIJÃO

A Alexandre O’Neill

Catar feijão se limita com escrever:
jogam-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na da folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.

2

Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a com o risco.

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(trecho do livro: Poesia e filosofia. autor: Antonio Cicero. editora: Civilização Brasileira.)

 

No poema “Catar feijão”, o poeta João Cabral de Melo Neto exprime, metafórica porém ostensivamente, algumas ideias sobre escrever: sobre, no fundo, escrever poemas (…).

Tratando-se de uma espécie de ars poetica, esse poema chega bastante perto de ser proposicional, dizendo que o poeta deve livrar-se do que é leve (superficial) e oco (insubstancial), palha (ninharia) e eco (repetição do que já foi dito); e que, longe de buscar uma dicção de musicalidade convencional e fácil, deve criar ruídos, obstáculos, surpresas que obriguem o leitor a se manter acordado e atento, retirando-o, através de usos fonéticos, sintáticos, semânticos inesperados, da sonolência, do torpor e da autossatisfação do habitual, do que já tenha sido digerido. A surpreendente comparação entre catar feijão e escrever um poema faz parte da sua estratégia.

Ora, o próprio poema é admirável, não porque proponha essa ars poetica, mas porque realiza magistralmente aquilo que prescreve. Não é no que diz, mas em como diz o que diz que reside sua poesia. É que o poema iconicamente realiza o que aparentemente prescreve.

HOMEM COMUM
24 de janeiro de 2012

 
(Na foto, a resistência na comunidade do Pinheirinho, em São José dos Campos — SP.)
_____________________________________________________________
 
eu,
 
paulo sabino,
 
sou um homem comum, de carne & de memória, de osso & esquecimento.
 
ando a pé, de ônibus, de táxi, de avião, e a vida sopra dentro de mim, pânica, a vida sopra dentro de mim de modo assustador, feito a chama de um maçarico (chama ameaçadora, que pode ferir), e pode, subitamente, cessar. de uma hora a outra, sem aviso prévio, assustadoramente.
 
eu,
 
paulo sabino,
 
sou como você, feito de coisas lembradas & esquecidas, rostos & mãos, defuntas alegrias, flores, passarinhos, feito de facho de tarde luminosa, feito de nomes que já nem sei, feito de tudo isso misturado.
 
eu,
 
paulo sabino,
 
sou um homem comum: brasileiro, maior de idade, solteiro, reservista.
 
e não vejo na vida, senhores, nenhum sentido (a vida apresenta-se como um grande & silencioso absurdo do acaso), senão lutarmos juntos por um mundo melhor.
 
determinadas agruras deveriam ser extirpadas do convívio social.
 
a poesia é rara, a poesia é incomum, é extra-ordinária, e não se encontra facilmente vidafora. por isso ela não comove, nem move, o pau-de-arara. ela, a poesia, por sua raridade, por não estar disposta por aí, não comove, nem move, a pobreza, o descaso social, a poesia não comove nem move (para fora da existência) a força mantenedora de todos os dissabores mundanos injustificáveis.
 
por isso, quero falar com os senhores, de homem para homens, apoiar-me em vocês, oferecer-lhes o meu braço, que o tempo é pouco e o latifúndio está aí, matando.
 
que o tempo é pouco e aí estão sabe-se lá quantos braços do “polvo”, braços deste sistema econômico, a nos sugar a vida & a bolsa (contendo o nosso parco & suado dinheiro).
 
homem comum, igual aos senhores, cruzo a avenida sob a pressão do imperialismo.
 
sim, sob a pressão do imperialismo: sob a pressão imperiosa exercida por homens como naji nahas, um fraudador que deve milhões em impostos aos cofres públicos, contra cerca de 1.500 famílias da comunidade do pinheirinho, em são josé dos campos (são paulo), que tentam fazer cumprir a “função social da propriedade”, prevista na constituição federal desde 1988 & no estatuto das cidades desde 2001, pressão exercida por um fraudador com o aval & o apoio do estado & sua milícia arbitrária.
 
a sombra do latifúndio mancha a paisagem (de sangue), turva as águas do mar, e a infância nos volta à boca, amarga, suja de lama & fome.
 
mas somos muitos milhões de homens comuns e podemos formar uma muralha com nossos corpos de sonho, corpos de desejo de uma vida mais justa & ajustada às necessidades de cada um, corpos de sonho & margaridas.
 
após os versos, das coisas mais GENIAIS que já ouvi:
 
a canção “brasil com p”.
 
notem que quase todas as palavras que a compõem iniciam com a letra “p”. digo “quase todas as palavras” porque apenas uma única palavra da canção não inicia com a letra “p”: irmão.
 
irmão. o que somos. o que deveríamos ser.
 
letra forte, direta, crua, na medula.
 
retrato em branco & preto do nosso brasil varonil.
 
beijo todos!
paulo sabino.
____________________________________________________________
 
(do livro: Toda poesia. autor: Ferreira Gullar. editora: José Olympio.)
 
 
 
HOMEM COMUM
 
 
Sou um homem comum
               de carne e de memória
               de osso e esquecimento.
               Ando a pé, de ônibus, de táxi, de avião
e a vida sopra dentro de mim
               pânica
               feito a chama de um maçarico
e pode
subitamente
                          cessar.
 
Sou como você
                feito de coisas lembradas
                e esquecidas
                 rostos e
                 mãos, o guarda-sol vermelho ao meio-dia
                 em Pastos-Bons,
                 defuntas alegrias flores passarinhos
                 facho de tarde luminosa
                 nomes que já nem sei
                 bocas bandeiras bananeiras
                                                                          tudo
                  misturado
                                       essa lenha perfumada
                                       que se acende
                                       e me faz caminhar
Sou um homem comum
         brasileiro, maior, casado, reservista,
         e não vejo na vida, amigo,
         nenhum sentido, senão
         lutarmos juntos por um mundo melhor.
Poeta fui de rápido destino.
Mas a poesia é rara e não comove
nem move o pau-de-arara.
          Quero, por isso, falar com você,
          de homem para homem,
          apoiar-me em você
          oferecer-lhe o meu braço
                   que o tempo é pouco
                   e o latifúndio está aí, matando.
 
Que o tempo é pouco
e aí estão o Chase Bank,
a IT & T, a Bond and Share,
a Wilson, a Hanna, a Anderson Clayton,
e sabe-se lá quantos outros 
braços do polvo a nos sugar a vida
e a bolsa
                  Homem comum, igual
                  a você,
cruzo a Avenida sob a pressão do imperialismo.
                 A sombra do latifúndio
                 mancha a paisagem,
                 turva as águas do mar
                 e a infância nos volta
                 à boca, amarga,
                 suja de lama e de fome.
Mas somos muitos milhões de homens
                 comuns
                 e podemos formar uma muralha
                 com nossos corpos de sonho e margaridas.
____________________________________________________________
 
(do site: Youtube. canção: Brasil com p. autor & intérprete: GOG.)
 

O OSSO: A MAIS DURA PARTE DE MIM
14 de março de 2011

a parte mais durável em mim são os ossos, e a mais dura também.

sim, este osso meu: a mais dura parte de mim, dura mais do que tudo o que ouço & penso, mais do que tudo o que invento & minto.

(e agora, luzia, ainda te lembras da dor?…)

este osso meu é, sim, a parte mais mineral e mais obscura de mim.

ossos, varridos pelas águas da enxurrada, quietos, no amparo da pedra, até saltarem (em cacos, em pedaços, “tristes”) à luz do dia, esperaram onze mil e quinhentos anos.

(onze mil e quinhentos anos de espera até saltarem à luz do dia!…)

— e agora, luzia, ainda te lembras da dor?

luzia, em teu breve tempo de existência — luzia à luz do dia, luzia na luz que vai, na luz que ia —, ainda te lembras da dor?

os ossos esperaram 11.500 anos(!), quietos, em cacos, em pedaços, “tristes”.

e tu, luzia, quanto tempo? será, luzia, que ainda te lembras da dor? luzia, quanto tempo, em teu breve tempo, dura a dor?

de fato, o osso é a parte do corpo que mais dura…

o osso: a parte mineral & obscura.

creio eu que o sonho & a loucura irriguem a pele & a carne nossa.

na pele & na carne, algo de nós, transparente & dócil, tende a solver-se, a esvanecer-se, para deixar, no pó da terra, o osso, a parte que perdura, que permanece.

o osso: futura peça de museu — o fóssil —.

o osso, este osso meu, (a parte de mim mais dura, e a parte de mim que mais dura) é o que menos sou eu?…

beijo os senhores com carinho!
paulo sabino.
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(do livro: Em trânsito. autor: Alberto Martins. editora: Companhia das Letras.)

LAPA VERMELHA, LAGOA SANTA

os ossos
varridos
pelas águas
da enxurrada

quietos
no amparo da pedra
esperaram
onze mil e quinhentos anos

até saltarem
em cacos
à luz do dia

— e agora, Luzia,
ainda te lembras
da dor?

(do livro: Em alguma parte alguma. autor: Ferreira Gullar. editora: José Olympio.)

REFLEXÃO SOBRE O OSSO DA MINHA PERNA

A parte mais durável de mim
são os ossos
e a mais dura também

como, por exemplo, este osso
da perna
que apalpo
sob a macia cobertura

ativa
de carne e pele
que o veste e inteiro
me reveste
dos pés à cabeça
esta vestimenta
fugaz e viva

sim, este osso
a mais dura parte de mim
dura mais do que tudo o que ouço
e penso
mais do que tudo o que invento
e minto
este osso
dito perônio

é, sim,
a parte mais mineral
e obscura
de mim
já que à pele
e à carne
irrigam-nas o sonho e a loucura

têm, creio eu,
algo de transparente
e dócil
tendem a solver-se
a esvanecer-se
para deixar no pó da terra

o osso
o fóssil

futura
peça de museu

o osso
este osso
(a parte de mim
mais dura
e a que mais dura)
é a que menos sou eu?

EM ALGUMA PARTE ALGUMA: PENSANDO O UNIVERSO
23 de fevereiro de 2011

uma pedra existe “em si”, e não: “para si”, como nós.

ora, uma pedra é uma pedra: matéria densa, sem qualquer luz. não pensa.

ela é somente sua materialidade de coisa: não ousa, isto é, não se arrisca, não se atreve, não se expõe, isto é, não determina, não delibera, não realiza.

uma pedra é desprovida de razão.

o homem, diferentemente, existe “para si”. pois que o homem está, a todo momento, pensando-se, pensando sobre o mundo à sua volta, e pensando suas atitudes no mundo à sua volta.

o homem é agente. ele age, delibera, a todo instante.

para existir no mundo, o homem precisa interpretá-lo, na tentativa de compreendê-lo & absorvê-lo “para si”.

(o homem vive “para si”.)

o homem é uma aflição que repousa num corpo que ele, de certo modo, nega.

posto que esse corpo — esse corpo morre & se apaga.

no entanto, o homem tenta livrar-se do fim, tenta livrar-se do ponto final, tenta livrar-se da nossa sem-hora; tenta, o homem, livrar-se da morte, da porta onde se entra para nunca mais sair.

o homem tenta livrar-se da morte e se inventa: inventa-se perpétuo, dá continuidade a si no tempo sem ponteiros; transforma-se em eterno, em imorredouro. crê numa vida após o seu fim.

uma pedra, matéria densa sem qualquer luz, é uma pedra, não pensa.

assim como o universo.

todo o universo é treva. todo o universo é inalcançável vastidão escura, vastidão vazia, é espaço & breu.

como pode desejar o homem saber tanto do universo?

ouço dizer que a galáxia demora 250 milhões de anos para fazer um giro completo em torno do seu eixo.

também ouço dizer: o homem existe há pouco mais de 100 mil anos.

agora pensem: a galáxia demora 250 milhões de anos para fazer um giro completo em torno do seu eixo, e a humanidade existe há pouco mais de 100 mil.

ínfimo que somos, existindo há tão pouco tempo, é como se o giro da galáxia jamais se completasse, é como se ela não girasse(!). e ela, a galáxia, gira(!). pergunto-me novamente: como pode o homem desejar saber tanto sobre o universo?

temos que dar o braço a torcer: o mundo é uma GRANDE incógnita.

melhor: o mundo, não. o mundo é, no fundo, sem fundo. o mundo é, no fundo, um exterior de coisas.

a única incógnita é haver quem pense na incógnita (rs).

o cosmo é um vastíssimo silêncio de bilhões & bilhões de séculos.

nenhum ruído.

as estrelas são imensas explosões mudas. um desatino! a matéria estelar é silêncio & energia.

o som é da Terra.

só aqui, neste planeta, pode-se escutar o límpido gorjeio de um passarinho, pequenino cantor em meio a praças & ruas.

no cosmo, nenhum ruído. vastíssimo silêncio.

então, quando já não for possível encontrar-me em nenhum ponto da cidade, ou do planeta, quando a nossa sem-hora, quando o tempo sem ponteiros, já tiver me valido, ao ver uma nesga de céu sobre o corpo azul do mar (de copacabana ou ipanema), pense que estou sorrindo naquela nesga azul celeste, pouco antes de dissipar-me para sempre. não lhe custará nada imaginar, caro leitor.

e ponto final.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Em alguma parte alguma. autor: Ferreira Gullar. editora: José Olympio.) 

 

UMA PEDRA É UMA PEDRA

uma pedra
(diz
o filósofo, existe
em si,
não para si
como nós)

uma pedra
é uma pedra
matéria densa
sem qualquer luz
não pensa

ela é somente sua
materialidade
de cousa:
não ousa

enquanto o homem é uma
aflição
que repousa
num corpo
que ele
de certo modo
nega
pois que esse corpo morre
e se apaga

e assim
o homem tenta
livrar-se do fim
que o atormenta

e se inventa

 

UNIVERSO

O que vi do universo
até hoje foi pouco
mas, se penso em quanto meço,
posso dizer que foi muito.

Sei, de ler, que o universo
é de tais dimensões
que a própria luz só o atravessa
depois de bilhões e bilhões

de anos, e que nele há
multidões de galáxias e sóis
que talvez já morreram, antes
de chegar sua luz até nós.

Deste modo, é correto dizer
que o céu que ora espio é passado
e que até pode ser que
o universo que vejo já se tenha acabado.

Mas, de fato, não vejo
a não ser nas revistas
de astronomia: o lampejo
espantoso de infinitas

constelações a brilhar
num abismo espectral e difuso
de gases e poeira estelar
que me deixa confuso.

E assim, assustado e mudo,
bem menor que um ínfimo
grão de poeira, contudo,
sou capaz de apreender, no meu íntimo,

essas incontáveis galáxias,
esses espaços sem fim,
essa treva e explosões de lava.
Como tudo isso cabe em mim?

O fato é que qualquer vasta nuvem
prenhe de sóis já mortos ou futuros
não possui consciência, esse obscuro
fenômeno surgido aqui na Via Láctea,

ou melhor, na Terra, e talvez
somente nela, não se sabe por que,
mas que permite ao cosmos perceber-se
a si mesmo, e ter olhos pra se ver.

Olhos que são os nossos,
lentes minúsculas mas sensíveis
que captam a luz das nebulosas
vinda de espaço e tempo inconcebíveis.

É o que dizem, pois tudo
o que vejo é, à noite, apenas o brilhar
de distantes luzes no escuro.
São estrelas? planetas do sistema solar?

Somos algo recente e raro
no universo, como rara
é também a própria luz
dos sóis deste sol que nos aclara.

Todo o universo é treva.
Inalcançável vastidão escura
dentro da qual os sóis, as explosões
de gás e luz são exceções.

O universo na sua vastidão vazia
é espaço e treva, é matéria fria
em que não há o mínimo sinal
de vida ou consciência; o que é mental

nele, ao que se sabe, está em nós,
no mínimo do mínimo do existente
e o que também na treva luze é nossa voz
inaudível no espantoso vão silente.

Vi pouco do universo: afora a asa
de luz e pó da via Láctea, o que conheço
são as manhãs que invadem minha casa

 

O TEMPO CÓSMICO

ente minúsculo
num braço da galáxia,
ouço dizer
que ela demora 250 milhões de anos
para fazer
um giro
completo
em torno de seu eixo

e penso:
o homem existe há pouco mais
de 100 mil anos
é como se o giro da galáxia
jamais se completasse

é como se ela não girasse

e o que diria esta mosca
— que na toalha da mesa
pousa agora —
cuja existência talvez dure
pouco mais que uma hora?

 

O SOM

o som é da Terra
não há nenhuma música das esferas
como pensou Aristóteles

música barulho
o trepidar cristalino
da água
sob as folhas
é coisa terrestre

o cosmo é um vastíssimo silêncio
de bilhões e bilhões de séculos

nenhum ruído
as estrelas são imensas explosões mudas
um desatino

a matéria estelar
(a explodir)
é silêncio
e energia

Para outros ouvidos talvez
poderia ser o universo
um insuportável barulho;
não para os nossos
terrenos

Viver na Terra é ouvir
entre outras vozes
o marulho
do mar salgado e azul
ouvir a ventania a rasgar-se nos galhos
antes do temporal

só aqui
neste planeta é que
se pode escutar teu límpido gorjeio,
passarinho,
pequenino cantor
da praça do Lido.

 

UM POUCO ANTES

Quando já não for possível encontrar-me
em nenhum ponto da cidade
ou do planeta
pensa
ao veres no horizonte
sobre o mar de Copacabana
uma nesga azul de céu
pensa que resta alguma coisa de mim
por aqui
Não te custará nada imaginar
que estou sorrindo ainda naquela nesga
azul celeste
pouco antes de dissipar-me para sempre

CONFISSÃO
24 de setembro de 2010

a vocês,
 
belíssima confissão poética, onde o meu (talentosíssimo) poeta das alagoas, adriano nunes, mostra que as diferenças podem & devem ser complementárias, inda mais se tratando de poesia.
 
uma coisa que não canso de proferir (digo & repito aos quatro ventos) é que:
 
belezas não nasceram para exclusão, nasceram para complementaridade
 
sinto que a poesia, os poetas e os leitores só têm a ganhar com as singularidades de cada voz poética.
 
percebo que me torno melhor sendo o eco de tantas vozes divergentes; acumulo saberes.
 
detesto enquadramentos. 
abomino rótulos.
não suporto classificações. 
 
sinto-me fora de tudo: fora de esquadro, fora de foco, fora do centro. o trabalho que desempenho não tem nome, não pede enquadramento, rótulo ou classificação.
 
por isso absorvo tantos vates, sem pré-conceitos. acima de tudo, o que busco é autenticidade. e a autenticidade, senhores, pode ser encontrada em qualquer livro-ambiente. basta o ser: autêntico. 
 
essa “libertinagem literária” (rs), que apoio inquestionavelmente, está presente nas linhas que seguem.
 
nos versos, o poeta revela ao leitor algumas importantes influências literárias suas, as mais díspares (e eu ADORO!):
 
engole ferreira gullar, dorme com carlos drummond, e, tamanha “libertinagem” (rs), é uma pessoa ligada em pessoa (no fernando) e, como o bardo português, repleto de pessoas na pessoa.
 
e continua poemafora:
 
andando a pé (o pé com a dor), pecador de ofício, segue dando bandeira ao lado do manuel. na visão, dois campos (o augusto e o haroldo). na razão, os mil anjos de rilke. às quintas, mário quintana & sua companhia.
 
(uma pausa para verificações: que sabe mais o poeta de si se tudo o que de si sabe está envolto em poesia?) 
 
prossegue, fazendo um divertido jogo poético com a gênese que resultou no que hoje denominamos “brasil”: citação ao descobridor do país, pedro álvares cabral, que, nos versos, acaba por ser descoberto (rs), ao responsável pelo primeiro texto literário de que se tem notícia em terras brasileiras, que é a carta de pero vaz de caminha (famoso escrivão da esquadra de pedro álvares cabral), na qual descreve o seu deslumbramento ante o mundo novo que se descortinava ao seu olhar, e citação ao padre antônio vieira, jesuíta que viveu no brasil no século 17, famoso por seus satíricos sermões contra determinadas práticas da sua época, sermões de suma relevância para a literatura barroca brasileira & portuguesa. 
 
de repente as linhas dão um salto para os modernos: e waly sailormoon?, onde está o navegante luarento? e adélia, será que junto ao seu: prado? e piva, o roberto, o poeta de paranóias da paulicéia desvairada, cadê?
 
são tantos os responsáveis pelo emaranhado de versos… a quem dedicá-los? a circe, a “feiticeira das odisséias”?, ou a cecília, a “poeta das canções”?   
 
ao final, a constatação de que ficam muitos (tantos & tantos & tantos outros) poetas apenas no pensamento e na intenção, à margem desta confissão, e a ressalva, confessando ao último mestre citado, o grande paulo leminski, que lamenta por todos os outros não citados.
 
toda homenagem é um tanto “desfalcada”, um tanto “incompleta”, deixa sempre algo de fora. porém, o fato de deixar, sempre, algo de fora não a torna menos bonita, delicada & inspiradora.  
 
deliciem-se com esta belíssima confissão, ventada das alagoas e devidamente pousada neste espaço!
 
beijo em todos!
um outro, especialíssimo, no meu querido poeta adriano nunes!   
 
o preto,
paulo sabino / paulinho. 
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(do blogue: QUEFAÇOCOMOQUENÃOFAÇO. de: Adriano Nunes.)
 
 
CONFISSÃO  (autor: Adriano Nunes)
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engulo gullar
durmo com drummond
sou uma pessoa
ando muito a pé
pecador de ofício
dou tanta bandeira
na visão, dois campos
na razão, mil anjos
às quintas, quintana
que sei mais de mim?
descubro cabral
conto pra caminha
confesso a vieira
onde está waly?
no ar? nos túneis? nada!
eu, nunca? nem ela,
minha piva, adélia.
pra circe ou cecília?
os outros, os outros…
lamento, leminski!

TEU CORPO
10 de setembro de 2010

benvindos,
 
abaixo,
 
linhas que tratam do corpo, este ser estranho, que muda independentemente das nossas vontades. é um ser estranho que possui o nosso rosto, ri o nosso riso, goza com o nosso sexo, e não nos pergunta se queremos, ou devemos, engordar. se lhe damos de comer, ele fica quieto. penteamos os cabelos do corpo como se fossem nossos.
 
num relance, achamos que apenas estamos dentro dele, dentro do corpo. 
 
mas como estamos “apenas” dentro dele se nele nascemos e, sem ele, não somos? 
 
ao que tudo indica, não estamos “apenas” dentro do corpo que nos cabe. nós SOMOS o corpo que nos cabe:
 
o joelho que tocamos, a mão que olhamos, a forma sentada de bruços na mesa, quem se senta, quem se move, quem leva o cigarro à boca, e o traga, e bate sua cinza, somos nós (que somos nosso corpo).
 
então: se a conclusão é que este corpo, a princípio um ser estranho, na verdade, não nos é estranho, na verdade, nós somos o corpo que nos cabe, então:
 
quem morre? quem decide a hora derradeira? quem diz ao corpo: “morre!”? quem diz a ele: “envelhece!”?
 
se queremos continuar vivos & jovens por infinitas manhãs:
 
quem encerra o jogo? quem cessa o jorro? quem ceifa o joio? 
 
(quem?)
 
beijo saboroso em todos!
paulo sabino / paulinho.
________________________________________________________________
 
(do livro: Toda poesia. autor: Ferreira Gullar. editora: José Olympio.)
 
 
TEU CORPO
 
O teu corpo muda
independente de ti.
Não te pergunta
se deve engordar.
 
É um ser estranho
que tem o teu rosto
ri em teu riso
e goza com teu sexo.
Lhe dás de comer
e ele fica quieto.
Penteias-lhe os cabelos
como se fossem teus.
 
Num relance, achas
que apenas estás
nesse corpo.
Mas como, se nele
nasceste e sem ele
não és?
Ao que tudo indica
tu és esse corpo
— que a cada dia
mais difere de ti.
 
E até já tens medo
de olhar no espelho:
lento como nuvem
o rosto que eras
vai virando outro.
 
E a erupção
que te surge no queixo?
Vai sumir? alastrar-se
feito impingem, câncer?
 
Poderás detê-la 
com Dermobenzol?
ou terás que chamar
o corpo de bombeiros?
 
Tocas o joelho:
tu és esse osso.
Olhas a mão:
tu és essa mão.
A forma sentada
de bruços na mesa
és tu.
Quem se senta és tu,
quem se move (leva
o cigarro à boca,
traga, bate a cinza)
és tu.
Mas quem morre?
Quem diz ao teu corpo — morre —
quem diz a ele — envelhece —
se não o desejas,
se queres continuar vivo e jovem
por infinitas manhãs?

O “X” DA QUESTÃO
7 de maio de 2010

queridos & benvindos & prezados,
 
quando pensei na publicação de um dos poemas que seguem, o outro veio, surgiu no encalço.
 
juntos, sinto que a beleza de um realça a beleza do outro, porque os sinto complementares — em certa medida.
 
dois poemas de dois poetas espetaculares, que merecem a junção aqui proposta.
 
os textos me fazem pensar muito no que me cerca.
 
senhores, nunca se esqueçam disto: o meu interior é uma atenção voltada para fora.
 
uma atenção voltada para fora.
 
amo a vida. sou um homem feliz. aposto na delicadeza para trilhar o caminho. sugiro, sempre, o sorriso e o bem-estar da alma.
 
só que a minha atenção, voltada para fora, me mostra que a trilha de muitos é feita de buracos & barreiras & pedras que deveriam inexistir.
 
buracos & barreiras & pedras de hoje, buracos & barreiras & pedras criados e recriados dentro deste modo de organização social, o de hoje, o de agora, o de já.
 
como louvar, com tantos vivas & salvas, um sistema que, apesar de me proporcionar todos os prazeres dos quais usufruo, de roldão, acarreta tanta dor & sofrimento para tantos outros?
 
se este modo de organização promovesse, DE FATO, EM LARGA ESCALA, a possibilidade dos prazeres dos quais usufruo, aí sim, todas as minhas salvas e todos os meus vivas.
 
portanto, uma organização social que, hoje, que, agora, que, já, que, neste instante, permite homens em lugares distantes, permite homens que não sabem ler e morrem de fome, homens de vida amarga e dura, que produzem o açúcar puro e branco que adoça o meu café nas manhãs de um apartamento da zona sul carioca, terá, apenas em parte, repito: APENAS EM PARTE, os meus vivas & salvas.
 
há quem propale que tal organização social é a “melhor” que já tivemos até hoje, porque garante o uso da razão crítica no seu mais alto grau, com a liberdade que lhe é necessária para que ela, a razão crítica, alcance a sua plenitude. e eu concordo com isso.
 
porém, aos meus olhos, nem sempre o “melhor” me é suficiente. eu não me contento com pouco. não sou homem para pouco. eu sempre quis muito. muito.
 
e, dentro desta organização vivenciada, que permite e cria e deseja homens-zumbis, verdadeiros vivos-mortos, o muito que temos hoje, agora, já, ainda é muito pouco.
 
(luxo para todos. TODOS.)
 
assim sendo, a questão, senhores, reside nisto aqui: se eu acho que vivemos, na história das sociedades humanas, o melhor de todos os tempos até aqui vividos? sim, eu, de fato, acho que vivemos o melhor de todos os tempos.
 
se, porque vivemos o melhor de todos os tempos vividos (até aqui) na história das sociedades humanas, me sinto satisfeito? não, de fato, não me sinto satisfeito com esse melhor. 
 
este o “x” da minha questão, senhores.
 
como resolver a equação? que solução para esse problema? (in)felizmente não a tenho.
 
sugiro construirmos juntos uma solução, através de muitas conversas & debates & esclarecimentos.
 
este “melhor”, mesmo sendo o “melhor”, e eu o reconheço por conta de todos os prazeres dos quais desfruto, ainda não satisfaz.
 
no hoje, no agora, no já, no neste instante: muito é muito pouco.
 
lembremos dos abutres. lembremos dos urubus.
 
lembremos das vidas secas.
 
luxo para todos! TODOS!
 
um beijo em vocês,
paulo sabino / paulinho.
____________________________________________________________
 
(do livro: Toda Poesia. autor: Ferreira Gullar. editora: José Olympio.)
 
 
O AÇÚCAR
 
O branco açúcar que adoçará meu café
nesta manhã de Ipanema
não foi produzido por mim
nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.
 
Vejo-o puro
e afável ao paladar
como beijo de moça, água
na pele, flor
que se dissolve na boca. Mas este açúcar
não foi feito por mim.
 
Este açúcar veio
da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira,
dono da mercearia.
Este açúcar veio
de uma usina de açúcar em Pernambuco
ou no Estado do Rio
e tampouco o fez o dono da usina.
 
Este açúcar era cana
e veio dos canaviais extensos
que não nascem por acaso
no regaço do vale.
 
Em lugares distantes, onde não há hospital
nem escola,
homens que não sabem ler e morrem de fome
aos vinte e sete anos
plantaram e colheram a cana
que viraria açúcar.
 
Em usinas escuras,
homens de vida amarga
e dura
produziram este açúcar
branco e puro
com que adoço meu café esta manhã em Ipanema.
____________________________________________________________
 
(do livro: Parte Alguma. autor: Nelson Ascher. editora: Companhia das Letras.)
 
 
OS DOIS URUBUS
 
Um urubu que, jururu,
avoa com outro urubu
diz-lhe: “Compadre, quede um rango
mais suculento que calango?”.
 
O outro urubu diz ao primeiro:
“Há poucas horas, companheiro,
eu vi um pessoal que, na caatinga
perto daqui, morreu à míngua
 
após comer tudo o que segue:
uma asa branca e o próprio jegue
além de um cadela feia
que eles chamavam de Baleia.
 
Do que terão morrido (como
diria em seu famoso tomo
que também trata de uns sem-teto
o João Cabral de Melo Neto),
 
quer de emboscada, fome, doença,
não faço idéia, não — paciência!
O charque ali será polpudo
se os vermes já não roeram tudo”.
 
Mas, por incrível que pareça,
se os urubus chegam depressa,
vivos que estão, os retirantes
comem os dois urubus antes.

POR VOCÊ, POR MIM
5 de maio de 2010

(Trecho da entrevista do poeta Ferreira Gullar concedida à escritora Clarice Lispector. No livro: Clarice Lispector – Entrevistas, editora: Rocco.)
 
(…)
 
Gullar, vou lhe fazer uma pergunta muito difícil que eu mesma não saberia como responder. É o seguinte: como nasce, em você, o poema, a palavra escrita?
 
— Em mim o poema quase sempre é provocado por um choque emocional qualquer. Por exemplo, quando escrevi o poema sobre o Vietnã, a coisa se deu do seguinte modo: eu acordei, comecei a ler o jornal com suas tremendas notícias sobre a guerra. À porta de minha casa havia uma feira. Quando vi aquelas pessoas se dirigindo para as suas casas, com as cestas carregadas de verduras e frutas, deu-se o choque. Eu pensei: se fosse no Vietnã aquela senhora poderia encontrar a sua casa em chamas. Eu próprio havia marcado para sair de férias, um mês depois. Pensei: num país em guerra deve ser impossível planejar a vida, marcar férias, ir ao cinema, tudo pode ser desfeito de um momento para o outro. É a insegurança total. O choque emocional já por si provoca as palavras, eu em geral não me preocupo em escolhê-las, elas jorram.
 
(…)
_________________________________________________________________________
 
acima, excerto da entrevista que se encontra na íntegra no post anterior, o “clarice entrevista gullar”.
 
abaixo, a poesia em questão, bela & emocionada como relata o poeta.
 
(o poema é bom para sempre pensarmos na maluquice, no desrespeito que é comprometermos vidas com uma ação tão devastadora & destruidora que é a vivência duma guerra.)
 
para você, para mim: a aurora & suas cores vivas. sempre.
 
beijo bom nos senhores.
paulo sabino / paulinho. 
_________________________________________________________________________
 
(do livro: Toda Poesia. autor: Ferreira Gullar. editora: José Olympio.)
 
 
POR VOCÊ POR MIM
 
A noite, a noite, que se passa? diz
que se passa, esta serpente vasta em convulsão, esta
pantera lilás, de carne
     lilás, a noite, esta usina
no ventre da floresta, no vale,
sob lençóis de lama e acetileno, a aurora,
o relógio da aurora, batendo, batendo,
quebrado entre cabelos, entre músculos mortos, na podridão
a boca destroçada já não diz a esperança,
    batendo
Ah, como é difícil amanhecer em Thua Thien.
    Mas amanhece.
 
Que se passa em Huê? em Da Nang? No Delta
    do Mekong? Te pergunto,
nesta manhã de abril no Rio de Janeiro,
     te pergunto,
que se passa no Vietnam?
 
As águas explodem como granadas, os arrozais
se queimam em fósforo e sangue
     entre fuzis
                    as crianças
fogem nos jardins onde açunenas pulsam
como bombas-relógio, os jasmineiros
soltam gases, a máquina
         da primavera
         danificada
         não consegue sorrir.
 
Há mortos demais do regaço de Mac Hoa.
       Há mortos demais
nos campos de arroz, sob os pinheiros,
às margens dos caminhos que conduzem a Camau.
O Vietnam agora é uma vasta oficina da morte, nos campos
        da morte, o motor
        da vida gira ao contrário, não
        para sustentar a cor da íris,
        a tessitura da carne, gira
ao contrário, a desfazer a vida, o maravilhoso aparelho
        do corpo, gira
        ao contrário das constelações, a vida
        ao contrário, dentro
        de blusas, de calças, dentro
de rudes sapatos feitos de pano e palha, gira
ao contrário a vida feita morte.
                                            Surdo
                sistema de álcool, gira
                gira, apaga rostos, mãos,
                esta mão jovem
        que saiba ajudar o arroz, tecer a palha. Há mortos
        demais, há mortes
                demais, coisas da infância, a hortelã, os sustos
        do amor, aquela tarde aquela tarde clara, amada,
        aquela tarde clara   tudo
                tudo se dissolve nas águas marrons
        e entre nenúfares e limos
        a correnteza arrasta para o mar o mar o mar azul
 
É dia feito em Boatafogo.
Homens de pasta, paletó, camisa limpa,
dirigem-se para o trabalho.
Mulheres voltam da feira, as bolsas cheias de legumes.
Crianças passam para o colégio.
As nuvens nuvem
e as águas batem naturalmente em toda a orla marítima.
Nenhuma ameaça pesa sobre a cidade.
                                                          As pessoas
marcam encontros, irão ao cinema, à buate, se amarão
                                                          nas praias
na cama
nos carros. As pessoas
acertam negócios, marcam viagens, férias.
        Nenhuma ameaça
pesa sobre a cidade.
Os barulhos apítos baques rumores
se decifram sem alarma. O avião no céu
         vai para São Paulo.
O avião no céu não é um Thunderchief da USAF
que chega trazendo a morte
         como em Hanói.
Não é um Thunderchief da USAF que chega
seguido de outros
         e outros
         da USAF
carregados de bombas e foguetes
         como em Hanói
que chega lançando bombas e foguetes
         como em Hanói
         como em Haiphong
incendiando o porto
destruindo as centrais elétricas
as estradas de ferro
         como em Hanói 
         como em Hoa Bac
queimando crianças com napalm
         como em Hanói
         como em Chien Tien
         como em Don Hoi
         como em Tai Minh
         como em Vihn Than
         como em Hanói
Como pode uma cidade, como pode
         uma cidade
                          resistir
 
Os americanos estão agora investindo muito no Vietnam
         O Vietnam agora nada em ouro
         e fogo
         Bases aéreas
         Arsenais
         Depósitos de combustíveis
         Laboratórios na rocha
         Radar
         Foguetes
A ciência eletrônica invade a selva
         gases novos, armas novas
         O lazy-dog
lança em todas as direções mil flechas de aço
         o bull-pup
procura o alvo com seus 200 quilos de explosivos
         o olho-de-serpente
pousa sobre uma casa e espera a hora certa de matar
O Vietnam agora está cheio de arame farpado
         de homens louros
         farpados
         armados
         vigiados
         cercados
         assustados
está cheio de jovens homens louros
e cadáveres jovens
         de homens louros
         enganados
 
Próximo à base de Da Nang
         que tudo escuta e tudo vê,
         próximo à base de Da Nang, esgueira-se
         entre árvores um homem,
         próximo à base cheia de soldados,
         metralhadoras, bombas,
         aviões, cheia
         de ouvidos e de olhos
         eletrônicos, um homem, chamado Tram,
entre as folhas e os troncos que cheiram a noite,
cauteloso se move
         entre as folhas da noite, Tram Van Dam,
         cauteloso se move
         entre as flores da morte
         Tram Van Dam
         quinze anos se move
         entre as águas da noite
         dentro da lama 
         onde bate a aurora
         Tram Van Dam 
         onde bate a aurora
         Tram Van Dam
         onde bate a aurora
         com a sua granada
         entre cercas de arame
         entre as minas no chão
         Tram Van Dam
         com o seu coração
         Tram Van Dam
         onde bate a aurora
         por você por mim
         sob o fogo inimigo
         com o grampo no dente
         com braço no ar
         por você por mim
         Tram Van Dam
         onde bate a aurora
         por você por mim
         no Vietnam