COMEÇA O ANO — NADA COMEÇA: TUDO CONTINUA — EM BUSCA DOS DIREITOS À VIDA
5 de janeiro de 2017

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(Fim de 2016)

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(Início de 2017)

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(Mas nada começa: tudo continua)
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costumamos dizer: no dia primeiro de janeiro, começa o ano.

porém, nada começa: tudo continua.

onde estamos, que lugar do mundo ocupamos, que vemos só passar?…

costumamos dizer: a idade passa. o tempo passa. a vida passa. quando, em verdade, somos nós, seres humanos, quem passamos.

somos nós, seres humanos, quem passamos, porque somos nós os seres transitórios, breves, finitos, na rota das nossas viagens no escuro.

o dia muda, lento, no amplo ar; a água nua flui, múrmura (murmurante), em sombras.

o dia, as suas mudanças, o amplo ar, a água nua que flui em sombras: todas essas coisas vêm de longe; só nosso vê-las, só nosso ver essas coisas, teve começar.

em cadeias do tempo & do lugar, o começo é abismo (quanto mais mergulhamos na busca do começo do universo, ou mesmo do planeta terra, menos alcançamos tal “começo”, pois ninguém, nenhum de nós, esteve na gênese do mundo para afirmar categoricamente como foi que tudo começou) & o começo também é ausência (já que nunca alcançamos o começo do universo, ou mesmo do planeta terra, tal “começo” faz-se ausência aos nossos olhos & conhecimento). em cadeias do tempo & do lugar, o começo é abismo & ausência.

portanto, nenhum ano começa. todo ano é pura eternidade. tudo continua. agora, amanhã, sempre: a mesma eterna idade. a eternidade é o precipício, é o abismo, é o fundo inexplorável, de deus sobre o momento nosso de cada dia vivenciado.

e tudo é o mesmo sendo sempre diferente: na curva do amplo céu, o dia esfria, o dia finda, para a chegada da noite & posterior retorno do dia; a água corre mais múrmura — mais murmurante — & sombria no esfriar do dia.

nada começa: tudo continua & é o mesmo — sendo sempre diferente: e verbo (e palavra, e discurso) o pensamento, como sempre foi desde que começamos a habitar este mundo.

o mundo é mudo. precisamos do verbo, isto é, precisamos do pensamento, da palavra, do discurso, para poder nele — no mundo — habitar.

e precisamos também respeitar o direito à vida de todos que habitamos este planeta. precisamos respeitar as diferenças, respeitar as individualidades, respeitar as vontades. precisamos viver & deixar viver.

que este ano/momento nos venha menos árduo & mais apto a grandes & belas realizações.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Poesia [1918 — 1930]. autor: Fernando Pessoa. editora: Companhia das Letras.)

 

 

COMEÇA HOJE O ANO

 

Nada começa: tudo continua.
Onde ‘stamos, que vemos só passar?
O dia muda, lento, no amplo ar;
Múrmura, em sombras, flui a água nua.

Vêm de longe,
Só nosso vê-las teve começar.
Em cadeias do tempo e do lugar,
É abismo o começo e ausência.

Nenhum ano começa. É eternidade!
Agora, sempre, a mesma eterna Idade,
Precipício de Deus sobre o momento,

Na curva do amplo céu o dia esfria,
A água corre mais múrmura e sombria
E é tudo o mesmo: e verbo o pensamento.

[1-1-1923]
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(do livro: Poeta não tem idade. autor: Moraes Moreira. editora: Numa.)

 

 

CORDEL DOS DIREITOS HUMANOS

 

Há mais de sessenta anos
A grande declaração
Um dia foi proclamada,
Para cumprir os seus planos
Percebe cada nação
Que a luta é cerrada

Tivemos algum avanço
Na dança desses processos
Mudanças a passos lentos,
Mas não teremos descanso
Diante dos retrocessos
Até que soprem bons ventos

Desejos e utopias
Sonhos que não têm idade
Anseios que são antigos
Trafegam por estas vias
Lições de humanidade
Dispostas em seus artigos

Respeito e dignidade
Buscando em todos os pleitos
Nascemos livres, iguais
Nas mãos da fraternidade
Assim por Deus fomos feitos
Moldando o barro da paz

E temos capacidades
Pra gozar sem distinção,
E na condição que for,
Direitos e liberdades
De raça e religião
De sexo, língua e cor

Acima de tudo, a vida,
Que seja ela um troféu
Uma conquista incessante
E nunca submetida
A um tratamento cruel,
Desumano ou degradante

Cientes dos seus deveres
Perante a lei sendo iguais
Mesmo que a todo custo,
Que tenham todos os seres
Diante dos tribunais
O julgamento mais justo,

Que venham lá desses templos
As decisões que respondem
Com força e autoridade,
Que sirvam, sim, como exemplos
Para aqueles que se escondem
Nas sombras da impunidade

Queremos todos os elos
Formando a grande corrente
Da solidariedade,
Rumos assim paralelos
Queremos já, é urgente
A nova sociedade

Que, enfim, sentimentos novos
Formando laços estreitos
Estabeleçam a paz,
Guiando todos os povos
À luz dos nossos direitos
Humanos e universais!

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REINAUGURAÇÃO
26 de dezembro de 2014

Fogos de artifício sobre o mar______________________________________________________

entre o gasto dezembro, o dezembro desgastado, o dezembro usado, o dezembro que encerra o fim de um ciclo de doze meses, e o florido janeiro, o janeiro em flor, o janeiro repleto de desejos, o janeiro que inaugura o início de um ciclo de doze meses, entre a desmitificação (trazida pelo ano que finda, já gasto) & a expectativa (trazida pelo ano que começa, florido), tornamos a acreditar num futuro melhor, voltamos a ser bons meninos, e, como bons meninos, reclamamos a graça dos presentes coloridos, reivindicamos a dádiva dos presentes desejados.

nossa idade — velho ou moço — pouco importa.

importa é nos sentirmos vivos & alvoroçados mais uma vez, uma vez que ânimo & boa disposição são mais que necessários se se deseja enfrentar a cara feia do mundo cruel, importa é nos sentirmos revestidos de beleza, a exata beleza que vem dos gestos espontâneos, a beleza irretocável que vem dos gestos lhanos, dos gestos sinceros, dos gestos puros, dos gestos verdadeiros, e revestidos do profundo instinto de subsistir, de perdurar, de continuar a existir, enquanto as coisas em redor se derretem & somem como nuvens errantes no universo estável, enquanto as coisas em redor findam & somem — como as coisas têm de findar & sumir.

prosseguimos. reinauguramos. abrimos olhos gulosos a um sol diferente — prenhe de desejos luminosos — que nos acorda para os descobrimentos (“o futuro a deus pertence”, diz o dito popular).

esta é a magia do tempo, esta é a colheita particular, a colheita de cada um, a magia & a colheita que se exprimem no cálido abraço & no beijo comungante da virada do ano, a magia & a colheita que se exprimem no acreditar na vida & na doação de vivê-la em perpétua procura & perpétua criação: prosseguir, reinaugurando-se, reinventando-se, reavaliando-se, com olhos gulosos a um sol diferente, que nos acorda para os descobrimentos, para as conquistas, para as realizações.

assim, desse modo, já não somos apenas finitos & sós: somos uma fraternidade, somos um território, somos um país (tamanha força creditamos em nós & no outro), que começa outra vez no canto do galo de 1º de janeiro & desenvolve na luz o seu frágil, o seu delicado, o seu sensível, projeto de felicidade.

flui a vida como água, pois, como água, a vida se renova, a vida passa & não volta: assim como água, é sempre outra a vida a passar.

se a vida me foge, se de mim a vida parece afastar-se, afago-a em cada esperança nova: prosseguir, reinaugurando-se, reinventando-se, reavaliando-se, com olhos gulosos a um sol diferente, que nos acorda para os descobrimentos, para as conquistas, para as realizações.

sigamos bem. sigamos juntos.

um feliz 2015!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Receita de Ano Novo. autor: Carlos Drummond de Andrade. editora: Record.)

 

 

FLUI A VIDA COMO ÁGUA

 

Flui a vida como água,
como água se renova.
Se a vida me foge, afago-a
em cada esperança nova.

 

 

REINAUGURAÇÃO

 

Entre o gasto dezembro e o florido janeiro,
entre a desmitificação e a expectativa,
tornamos a acreditar, a ser bons meninos,
e como bons meninos reclamamos
a graça dos presentes coloridos.
Nossa idade — velho ou moço — pouco importa.
Importa é nos sentirmos vivos
e alvoroçados mais uma vez, e revestidos de beleza, a
exata beleza que vem dos gestos espontâneos
e do profundo instinto de subsistir
enquanto as coisas em redor se derretem e somem
como nuvens errantes no universo estável.
Prosseguimos. Reinauguramos. Abrimos olhos gulosos
a um sol diferente que nos acorda para os
descobrimentos.
Esta é a magia do tempo.
Esta é a colheita particular
que se exprime no cálido abraço e no beijo comungante,
no acreditar na vida e na doação de vivê-la
em perpétua procura e perpétua criação.
E já não somos apenas finitos e sós.
Somos uma fraternidade, um território, um país
que começa outra vez no canto do galo de 1º de janeiro
e desenvolve na luz o seu frágil projeto de felicidade.

POEMA DE NATAL
24 de dezembro de 2013

Luzes de Natal

 

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eis outra vez o fim.

mais um ano que finda.

tudo termina & os meses só se mostram no final, no choro do menino ou da menina (pois somente depois de passados 9, os meses revelam o seu rosto, os meses revelam a sua forma: se 9 meses moldados em choro de menino ou se 9 meses moldados em choro de menina), e na roda de samba do natal, depois de passados 12.

ao final de 12 meses, o rosto, a forma, de 1 ano cumprido. o fim de um, início de outro.

portanto, tudo termina ou tudo recomeça? quem desvenda as imagens das horas, quem desvenda o que a vida nos desenhará de acontecimentos, no papel em branco? quem é capaz de nos traçar, no papel, os passos exatos que engendraremos ao longo dos 12 meses que moldam o rosto, a forma, de 1 ano?

como nada nem ninguém é capaz de nos traçar, no papel, os passos exatos que engendraremos ao longo dos 12 meses que moldam o rosto, a forma, de 1 ano, mais vale acompanhar a moenda do tempo (moenda: conjunto de peças, num engenho, que serve para moer ou espremer certos produtos, como a cana-de-açúcar, por exemplo), mais vale beber o caldo que a moenda do tempo nos oferece cotidianamente, dia após dia, mais vale decifrar o mel, descobrir o doce, existente no caldo que a moenda do tempo nos entorna cotidianamente, dia após dia, mais vale graduar, mais vale dosar, o álcool (aquilo que entorpece, aquilo que entontece, aquilo que embebeda) do líquido que nos entorna a moenda do tempo, que o tempo tem o seu jogo (de acasos & surpresas) & desabafa seu canto de mistério (com as tantas peças & artimanhas que nos prega) & canto pastoril (pois, com o seu canto de mistério, o tempo nos guia & nos leva, como o pastor que conduz o seu rebanho caminhos afora).

ao fim de mais 1 ano que finda, melhor será juntar os nossos cansaços, vestir o nosso lar de caracol, isto é, fazer do nosso lar a nossa concha, concha onde possamos estar bem, possamos estar protegidos, confortáveis, e acompanhar os íntimos compassos, compassos que vão dentro de nós, do que é, em nós, silêncio (quietude paz reflexão) & amor (dos sentimentos o mais nobre).

assim, até o azul — cor do meu delírio — que vem de dentro deste poema que vos ofereço como presente natalino, azul que vem de dentro da rima em “-ul” (formada pelo poema), será o vosso mundo, que já não tem centro (e que nem precisa de um centro. que, no vosso mundo, sejam muitos os focos & interesses), será o azul que vem de dentro deste poema o vosso caminho, já sem norte & sul (e que nem precisa de uma direção. que, no vosso mundo, sejam muitas as setas & os descaminhos).

aceitai o azul deste poema que vos ofereço & o desejo de 12 meses de realizações felizes, para que se revele, ao cabo desses 12 meses, o rosto bonito & sereno de 1 ano bem vivido.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Melhores poemas. seleção: Luiz Busatto. autor: Gilberto Mendonça Teles. editora: Global.)

 

 

POEMA DE NATAL

A Joaquim Inojosa

 

Eis outra vez o fim. Tudo termina
e os meses só se mostram no final,
no choro do menino ou da menina
e na roda de samba do Natal.

Termina ou recomeça? Quem desvenda
as imagens das horas no papel?
Mais vale acompanhar sua moenda,
beber seu caldo, decifrar seu mel

e graduar seu álcool na garrafa
ou nas tábuas de cedro do barril,
que o tempo tem seu jogo e desabafa
seu canto de mistério e pastoril.

Melhor será juntar nossos cansaços,
vestir o nosso lar de caracol
e acompanhar os íntimos compassos
do que é silêncio e amor, sob o lençol.

Assim, até o azul que vem de dentro
deste poema e desta rima em -ul
será teu mundo, que já não tem centro,
e teu caminho, já sem norte e sul.