FOTOS E O EVENTO — LANÇAMENTO “DO QUARTO” (SANDRA NISKIER FLANZER) + RECITAL DE POESIA (PAULO SABINO)
3 de agosto de 2017

(Paulo Sabino e Sandra Niskier Flanzer)

 

(Casa lotada)

(Nélida Piñon)

(Antonio Carlos Secchin e Antonio Cicero)

(Marcelo Pies)

(A dedicatória pra mim)
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“Paulo, querido:

Sua presença, sua companhia, e mais especialmente sua voz, estão comigo neste lançamento.

Te encontrar foi um presente!

Que a gente lance, se lance, nesse lance, livre e livro, como a vida quer de nós.

Um beijo enorme e muito, muito obrigada!”

(Sandra Niskier Flanzer — 30/06/17)

 

 

A noite de segunda-feira, 31/07, com o lançamento do novo livro de poemas da psicanalista e poeta Sandra Niskier Flanzer, “Do quarto” (ed. 7Letras), na Casa do Saber, foi linda!

A poeta me convidou para fazer um recital de poesia que foi o meu primeiro vôo solo, a primeira vez que me apresentei sem dividir o palco, coisa que AMO fazer. Eu, chato que sou (acredito ser assim pra muita gente), acho que poderia fazer melhor, que não dei conta do recado de uma maneira satisfatória (pra mim). Mas, apesar dessa impressão (minha), recebi palavras muito carinhosas, muito generosas, de quem assistiu e veio falar comigo ao final. A Sandra também me contou que recebeu palavras muy elogiosas sobre o sarau que pensamos juntos e o meu desempenho com as palavras.

Para além disso, soube de uma história bacanérrima: de uma pessoa que não conheço e que estava no recital e que trabalha com um grande amigo meu e que por conta de uma foto do recital no celular do meu grande amigo comentou com ele que esteve nesse recital na segunda-feira (31/07) e que foi “sensacional” (palavra do meu amigo) e um tanto mais de palavras calorosas. Saldo pra lá de positivo. Por isso, por esse retorno do público, estou muito feliz com esta primeira apresentação sozinho.

A Sandra lotou o espaço merecidamente, porque o seu livro, “Do quarto”, é de uma beleza rara na poesia, muito sofisticado, e porque mesclamos as leituras com poemas de grandes autores (Adélia Prado, Drummond, João Cabral, Gullar, Pessoa, Antonio Cicero, Antonio Carlos Secchin, Armando Freitas Filho), desenvolvendo um papo poético bem bacana entre os versos. Por tanto, por tudo, aqui para agradecer demais demais demais o convite da Sandra, a oportunidade deste momento e a confiança depositada na minha voz. Agradecer demais demais demais a presença dos amigos, e, especialmente, dos mestres — também amigos — que lá estiveram: os membros da Academia Brasileira de Letras (ABL) Nélida Piñon, Antonio Carlos Secchin e Antônio Torres, o poeta, letrista e filósofo Antonio Cicero, o membro da Academia Carioca de Letras (ACL) Adriano Espínola e o figurinista de cinema, teatro e publicidade Marcelo Pies. A vontade pede mais momentos como o vivenciado na segunda 31/07.

Valeu demais!
Salve a Poesia!
Salve a sua existência na minha!

De presente, uma poesia incendiária da Sandra, que chama pela chama, pelo calor, pela luz, que a poesia alastra a quem desejar a sua chama, o seu calor, a sua luz.

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do livro: Do quarto. autora: Sandra Niskier Flanzer. editora: 7Letras.)

 

 

CHAMA POESIA

 

Tu estejas aí
Enquanto estiver aqui
Não arredarei pé
Atravessarei feriado
Os ócios do ofício
E o fim da semana
A produzir labaredas
Lavas que atiçam chamas
Centelhas a chamar fogueiras
Estarei no entre flamas,
Laboredas combustíveis
Incinerando o edredom
Queimando a cama parada
Em meio ao fogo cruzado
Assim, tu estejas aí,
Minha cara litera-dura
Segura-me com tua brasa
Aquece-me em minha casa
Pois te apago e a pago
Incendiária e sem diária.

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NOVÍSSIMO ORFEU
11 de novembro de 2014

Orpheus (1894)_Károly Ferenczy (Húngaro)

(Na foto, o quadro Orpheus, 1894, do pintor húngaro Károly Ferenczy.)
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 para Murilo, novíssimo Orfeu, que chegará ao mundo em dezembro

 

 

(do: Dicionário da mitologia grega e romana. autor: Pierre Grimal. editora: Bertrand Brasil.)

 

 

ORFEU. Orfeu é unanimemente reconhecido como filho de Eagro (v. Eagro). As tradições divergem no que respeita ao nome da mãe: passa, mais vulgarmente, por filho de Calíope, que detém a mais alta dignidade entre as Musas; mas por vezes, em vez desta é referida Menipe, filha de Tâmiris. Orfeu é de origem trácia. Como as Musas, habita perto do Olimpo, onde é geralmente representado, cantando, vestido com os trajos dos Trácios. Os mitógrafos fazem dele o rei desta região: dos Bístones, dos Odrísios e dos Macedónios, etc. Orfeu é o Cantor por excelência, o músico e o poeta. Toca lira e “cítara”, instrumento cuja invenção lhe é atribuída. Quando esta honra lhe é negada, admite-se que foi ele que aumentou o número de cordas do instrumento, que não seriam inicialmente mais do que sete e passaram a ser nove, “tantas quanto as Musas”. Seja como for, Orfeu sabia cantar melodias tão suaves que até as feras o seguiam, as árvores e as plantas se inclinavam na sua direcção e os homens mais rudes se acalmavam.

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novíssimo orfeu:

vou onde a poesia me chama, vou onde a poesia me clama.

o amor é minha biografia, o amor é minha história de vida, texto de argila & fogo.

o amor: texto de argila & fogo: de argila, pois, segundo a mitologia cristã, o homem veio do barro, veio da terra, e para a terra retornará, e é na terra que o homem constitui a sua história, a sua biografia; de fogo, elemento que existe a partir da combustão de um corpo, que desprende luz & calor, corpo que arde, que queima, que aquece, que ilumina.

aves contemporâneas, pássaros dos dias atuais, largam do meu peito, alçando vôos & levando recado aos homens, meus irmãos na terra: o amor é dos sentimentos o mais nobre; belezas nasceram para serem complementares & não excludentes; apesar dos pesares, a vida vale o sorriso & o brilho no olhar.

o mundo alegórico se esvai, o mundo repleto de simbolismo & elementos figurados se dissipa, o mundo recheado de mitologias desfalece, o uso da razão & a ciência derrubam as alegorias mundanas & as crenças fantásticas, fica esta substância de luta, real, permanece esta matéria de batalha que travamos por uma existência mais frutífera, menos tacanha, de onde a eternidade se descortina, de onde o tempo se revela.

a estrela azul familiar vira as costas, foi-se embora…

(estrela azul: estrela de luminosidade intensa, de temperatura altíssima, com massa que pode ser até 18 vezes maior que a massa solar, associada, a sua aparição no céu, a épocas de bonança, a momentos de prosperidade, a tempos de mansuetude.)

a estrela azul conhecida, familiar, disse adeus…

mesmo assim, mesmo sem a estrela azul familiar no céu, ainda que esta não mais aponte épocas de bonança, momentos de prosperidade, tempos de mansuetude, a poesia, musa maior na vida, sopra onde quer.

apesar dos pesares, apesar da substância de luta de onde se descortina a eternidade, de onde a realidade se revela, a poesia sopra o seu vento lírico, a poesia sopra o seu vento onírico, a poesia sopra o seu vento alegórico, a fim de que a vida vivida ganhe um brilho ainda mais vívido, ainda mais colorido, ainda mais definido.

salve o sopro sortido & sagaz da poesia!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Antologia poética. autor: Murilo Mendes. editora: Cosac Naify.)

 

 

NOVÍSSIMO ORFEU

 

Vou onde a Poesia me chama.

O amor é minha biografia,
Texto de argila e fogo.

Aves contemporâneas
Largam do meu peito
Levando recado aos homens.

O mundo alegórico se esvai,
Fica esta substância de luta
De onde se descortina a eternidade.

A estrela azul familiar
Vira as costas, foi-se embora…
A poesia sopra onde quer.

TRANS
26 de agosto de 2014

Salgado Maranhão_O mapa da tribo_Capa

(Na foto, a capa do mais novo livro de Salgado Maranhão, “O mapa da tribo”. No meu exemplar, a dedicatória: “Para Paulo Sabino, que vive, sonha e respira poesia. Salgado Maranhão”.)
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trans: prefixo de origem latina que pode significar “através de”, “para além de”, e que engloba, entre outras, a acepção de “mudança”, de “trans-formação”, de “trans-mutação”.

trans: “através de” signos, “através de” determinados símbolos, as mudanças, as trans-formações, as trans-mutações, que operamos caminho afora.

estou grudado à pele, estou colado na superfície, destes signos que me adestram pela noite imêmore, pela noite esquecida, tantas as “noites-trans”, noites de trans-formações, noites de trans-mutações, através dos signos que me adestram.

os signos, os símbolos, que me adestram, que me condicionam, que me habilitam, que me capacitam, pela noite imêmore, esquecida (tantas as “noites-trans”): as palavras, unidades lingüísticas sem as quais não conseguiríamos sobreviver, pois, com elas, organizamos & ordenamos as coisas do mundo para que possamos nele “existir”. o mundo, sem tal ordenamento, sem tais signos, não passaria de um grande caos.

os signos, os símbolos, que me adestram, que me condicionam, que me habilitam, que me capacitam, pela noite imêmore, esquecida (tantas as “noites-trans”): as palavras, matéria do trabalho que realizo através da poesia.

por eles, pelos signos, através deles, me relâmpago, me acendo clarão intenso entre matilhas, me acendo clarão intenso entre agrupamentos ordinários, de pouco valor.

neles, nos signos, através deles, teci minhas ráfias, tramei minhas misérias de luz & sombra (estão nas palavras, na poesia, as minhas dores & as minhas alegrias, os meus dissabores & os meus fascínios).

deles, dos signos, são meus labirintos de safira, dos signos — isto é: das palavras — são meus enredamentos de safira, deles — dos signos — são meus emaranhados de caminhos nos quais me perco, emaranhados de caminhos feitos da pedra preciosa de coloração azul, cor linda & fria.

um dia, uma fênix grafou meu nome em suas asas (fênix: ave lendária, única de sua espécie, e que, por conseguinte, não pode reproduzir-se como todos os outros animais. quando percebe aproximar-se o fim da sua existência, deixa-se arder em um braseiro para, em seguida, renascer das próprias cinzas).

desde então, desde que uma fênix grafou meu nome em suas asas, me encanto (me delicio, me deslumbro, me seduzo, me enfeitiço) apenas, somente, para renascer:

desde então, desde que uma fênix grafou meu nome em suas asas, me en/canto em canto — de poesia — a/penas, a custo das minhas penas & aflições, para renascer:

trans-bordante em cada mim, indo “para além de” cada mim, ultrapassando a minha própria borda:

trans-bordante em cada mim: derramado, entornado, excedido, em cada paulo sabino que renasce “através de” trans-formações, “através de” trans-mutações, que operamos caminho afora.

(trans: prefixo de origem latina que pode significar “através de”, “para além de”, e que engloba, entre outras, a acepção de “mudança”, de “trans-formação”, de “trans-mutação”.)

os signos, os símbolos, que me adestram, que me condicionam, que me habilitam, que me capacitam: as palavras, matéria do trabalho que realizo através da poesia, com quem me relâmpago, com quem me acendo clarão intenso.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: O mapa da tribo. autor: Salgado Maranhão. editora: 7Letras.)

 

 

TRANS

 

Estou grudado à pele
destes signos
………………….que me adestram
pela noite imêmore.

Por eles me relâmpago
entre matilhas; neles
teci minhas ráfias de luz
…………………………………..e sombra; deles
são meus labirintos de safira.

Um dia uma fênix
grafou meu nome
…………………………em suas asas;
desde então me encanto
……………………………………(apenas)
para renascer:

transbordante de mim.

LENDA DE SÃO JOÃO: O MEU TALISMÃ
24 de junho de 2014

Fogueira de São João

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acorda, joão!

acorda, meu santo! hoje é dia de festa, meu menino!

hoje, 24 de junho, é o seu dia & o meu aniversário. exatas 38 primaveras vencidas.

38 primaveras vencidas & muito a agradecer à vida as oportunidades & chances de amadurecimento, de crescimento, muito a agradecer à vida pelas experiências & andanças trilhafora.

acorda, joão, que eu também quero ser batizado nas águas do rio de janeiro!

êta, menino sapeca, capeta! dispara, espoleta!

êta, menino ladino, porreta, danado, divino!

acorda, são joão, e, no dia da tua festa, faz o menino levado saltar de dentro da velha & do velho enferrujado, faz o menino levado saltar de dentro de todo & qualquer enferrujado, mas não faz muita zoada!

joão dorme seu sono em paz, e, se acorda assustado, nem sei do que é capaz… sei não, com a sua fogueira, fogueira de sua festa, incendeia o mundo, e até o meu coração.

acorda, joão, meu santo menino, que eu também quero contigo brincar!

acorda, meu santo, acorda, são joão xangô menino! (xangô, na mitologia afro-brasileira, é o orixá do fogo & da justiça.)

minha boca saliva porque tenho fome, e essa fome é uma gula voraz que me traz cativo, que me traz preso, amarrado, atrás do genuíno grão da alegria, que destrói o tédio & restaura o sol.

no coração do meu corpo, existe um porta-jóia. dentro dele, um talismã sem par, que anula o mesquinho, o feio & o triste, mas que nunca resiste a quem bem o souber burilar.

minha sede não é qualquer copo d’água que mata. essa sede é uma sede que é sede do próprio mar. e tal sede só se desata se minha língua passeia sobre a pele bruta da areia.

(o mar, meu amante maior para todo o sempre.)

sonho colher a flor na maré-cheia vasta; eu mergulho & não é ilusão quando volto, triunfante, feliz, com a fronte coroada de sargaço & sal.

coragem grande é poder dizer sim. dizer sim à existência mundana, com todos os dissabores dentro.

e eu digo: sim.

sim, quem, dentre todos vocês, minha sorte quer comigo gozar?

a quem interessar comigo minha sorte gozar: sigamos juntos nesta bela jornada que é a viagem pelos versos.

salve a poesia!
salve a sua existência na minha!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Poesia total. autor: Waly Salomão. editora: Companhia das Letras.)

 

 

LENDA DE SÃO JOÃO

 

Acorda, João
Que eu também quero ser
Batizado nas águas do Rio Jordão
Êta menino sapeca capeta
Dispara espoleta
Êta menino ladino porreta danado divino
Acorda, São João, e faz o menino levado
Saltar de dentro da velha
E do velho enferrujado
Mas não faz muita zuada
João dorme seu sono em paz
E se acorda assustado
Nem sei do que é capaz
Sei não, incendeia o mundo
E até o meu coração
Sapeca mandureba na fogueira
E acabou-se a brincadeira
Acorda, João
Que eu também quero ser
Batizado nas águas do Rio Jordão

 

 

TALISMÃ

 

minha boca saliva porque tenho fome
e essa fome é uma gula voraz
que me traz cativo
atrás do genuíno grão de alegria
que destrói o tédio
e restaura o sol
no coração do meu corpo
um porta-joia existe
dentro dele um talismã sem par
que anula o mesquinho, o feio e o triste
mas que nunca resiste
a quem bem o souber burilar

sim,
quem dentre todos vocês
minha sorte
quer comigo
gozar?

Minha sede não é qualquer copo d’água que mata
essa sede é uma sede que é sede do próprio mar
essa sede é uma sede que só se desata
se minha língua passeia
sobre a pele bruta da areia
sonho colher a flor na maré-cheia vasta
eu mergulho e não é ilusão
não, não é ilusão
pois da flor-de-coral
trago no colo a marca
quando volto triunfante
com a fronte coroada de sargaço e sal
sim,
quem dentre todos vocês
minha sorte
quer comigo
gozar?

AS APARÊNCIAS ENGANAM
11 de novembro de 2013

Fogo & Gelo

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(Esta é uma das coisas mais lindas que a música popular poderia ter feito por mim, por nós. E, nesta fase, tudo muito à flor da pele, é assim: coloco para escutar, e choro choro choro – rs.)
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As aparências enganam os que odeiam & os que amam: pois o amor & o ódio se tocam em suas extremidades: um amor, quando torna-se mágoa, é o avesso de um sentimento: oceano sem água.

O ódio, em caso de amor, só existe porque, no fundo do ser, existe algum sentimento resguardado pelo outro.

As aparências enganam os que odeiam & os que amam: porque o amor & o ódio se irmanam na fogueira das paixões: os corações pegam fogo e, depois, não há nada que os apague.

Se a combustão os persegue, as labaredas & as brasas são o alimento (aquilo que faz viver), o veneno (aquilo que faz morrer), o pão, o vinho seco (a bebida quente, que aquece & inebria, e que é, ao mesmo tempo, rascante): a recordação dos tempos idos de comunhão, dos tempos idos de união feliz — sonhos vividos de conviver…

As aparências enganam os que odeiam & os que amam: porque o amor & o ódio se irmanam na geleira das paixões: os corações viram gelo e, depois, não há nada que os degele.

Se a neve, cobrindo a pele, vai esfriando por dentro o ser: não há mais forma de se aquecer… não há mais tempo de se esquentar… não há mais nada pra se fazer senão chorar sob o cobertor…

As aparências enganam os que gelam & os que inflamam: porque o fogo & o gelo se irmanam no outono das paixões: o outono das paixões: tempo de recolhimento, tempo de quietude, tempo de reestruturação do ser: pensar & repensar o relacionamento vivenciado, pensar & repensar se o relacionamento vivenciado vale a pena, e, caso não valha mais, aprontar-se para o porvir: os corações cortam lenha e, depois, se preparam para outro inverno.

Mas, apesar dos pesares, o verão que os unira — que unira os corações agora separados — ainda vive & transpira ali (ainda vive & transpira dentro do ser, na recordação dos tempos idos de comunhão, nos sonhos vividos de conviver): nos corpos juntos, na lareira; na reticente primavera, primavera — estação da floração, do renascimento — ainda hesitante; no insistente perfume de alguma coisa — que não sabemos & não podemos definir ao certo — chamada:

AMOR.

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(autores: Tunai / Sérgio Natureza.)

 

 

AS APARÊNCIAS ENGANAM

 

As aparências enganam
Aos que odeiam e aos que amam
Porque o amor e o ódio
Se irmanam na fogueira das paixões
Os corações pegam fogo e depois
Não há nada que os apague
Se a combustão os persegue
As labaredas e as brasas são
O alimento, o veneno, o pão
O vinho seco, a recordação
Dos tempos idos de comunhão
Sonhos vividos de conviver

As aparências enganam
Aos que odeiam e aos que amam
Porque o amor e o ódio
Se irmanam na geleira das paixões
Os corações viram gelo e depois
Não há nada que os degele
Se a neve cobrindo a pele
Vai esfriando por dentro o ser
Não há mais forma de se aquecer
Não há mais tempo de se esquentar
Não há mais nada pra se fazer
Senão chorar sob o cobertor

As aparências enganam
Aos que gelam e aos que inflamam
Porque o fogo e o gelo
Se irmanam no outono das paixões
Os corações cortam lenha e depois
Se preparam pra outro inverno
Mas o verão que os unira
Ainda vive e transpira ali
Nos corpos juntos, na lareira
Na reticente primavera
No insistente perfume
De alguma coisa chamada amor
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Elis, essa mulher. artista & intérprete: Elis Regina. canção: As aparências enganam. autores da canção: Tunai / Sérgio Natureza. gravadora: WEA Music.)

SENDO QUEM SOU, EM NADA ME PAREÇO
13 de setembro de 2013

Paulo Sabino ao pôr do sol

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para César Guerra Chevrand

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sendo quem sou, em nada me pareço.

sou tão diferente do que esta carcaça apresenta, que deveria ter aparência mais próxima à estranheza que me forma.

a aparência do paulo sabino não corresponde — exatamente — ao paulo sabino.

o que pensa, o que faz, o que fala, quando só, só pertence ao paulo sabino.

sendo quem sou, em nada me pareço: pois, ao mundo, aos senhores, pareço uma coisa sendo tantas outras…

desloco-me no mundo, transito pelos lugares, como os senhores vêem, ando a passos, com pés no chão, como todos os senhores, e tenho gestos & olhos convenientes, gestos & olhos de acordo com o que socialmente se ambiciona, gestos & olhos propícios ao convívio social, gestos & olhos adequados à normatização da vida, gestos & olhos à aceitação & aprovação alheias, gestos & olhos no intuito de integrar determinadas rodas sociais.

vivenciando assim a vida, desloco-me no mundo, isto é, no mundo me faço, me sinto, deslocado, coloco-me fora do lugar, coloco-me em contexto inapropriado, desafinado com o que realmente sou (para as pessoas, para o mundo, ando a passos, como toda pessoa comum, e tenho gestos & olhos convenientes).

sendo quem sou, não seria melhor ser diferente (ser fora do padrão, ser estranho às pessoas), e ter olhos a mais (como um ser fantástico, um ser das lendas), olhos visíveis, úmidos?

sendo quem sou, não seria melhor ser diferente: digo: ser diferente do diferente, ser diferente do que é diferente de mim & que, no entanto, os senhores entendem como o paulo sabino?

não seria melhor ser diferente & ter olhos a mais, olhos que, diferentes destes que tenho (que mascaram, que dissimulam, que encobrem o paulo sabino), fossem visíveis, olhos úmidos ao invés de secos (olhos que não revelam, olhos desidratados, vazios, sedentos)?

não seria melhor ser, ao invés de um tipo convencional, de um tipo adequado às rodas sociais, um pouco de tudo, não seria melhor ser um pouco de anjo & de duende? (duende: entidade fantástica, das lendas, que geralmente usa seus poderes em travessuras para assustar os habitantes de uma casa.)

cansam-me estas coisas que digo aos senhores.

são cansativas — estas coisas que digo aos senhores — porque, em mim, as paisagens se multiplicam, em mim as paisagens aumentam em quantidade, em mim, as visões, os panoramas, se multiplicam, e, multiplicando-se paisagens visões panoramas, o sonho nasce & tece ardis tamanhos, o sonho nasce & tece grandes armadilhas, o sonho nasce & tece astúcias perigosas.

é sonhando, projetando, desejando, que as esperanças — sejam no que for — são renovadas.

cansam-me as esperanças renovadas porque, uma vez renovadas, as esperanças fazem o verso no meu peito repetir-se.

o verso, no meu peito, repetido: verso de paisagens que se multiplicam, verso de sonho que nasce & tece ardis tamanhos, verso com desejo de ser diferente — pois sendo quem sou, em nada me pareço.

cansam-me estas vontades variadas, cansa-me ser assim quem sou agora: múltiplo, diverso, de formas avessas: planície/monte; treva/transparência.

são tantos em mim (tantas as formas), e, no entanto, tantos encobertos, tantos (em mim) longe dos olhos que não os do próprio paulo sabino.

(aos senhores, ao mundo, tenho gestos & olhos convenientes. aos senhores, ao mundo, reservo uma sanidade forjada.)

(de perto ninguém é normal.)

cansa-me ser assim quem sou agora: muitos & antagônicos: planície, monte, treva, transparência.

e cansa-me também o amor porque é centelha (partícula ígnea, partícula de fogo, de um corpo em brasa), cansa-me o amor porque é faísca, e queima, e arde, e exige posse & pranto, sal (das lágrimas) & adeus.

ao amor, a sua rima: dor.

o amor que não dói, que não machuca, que não dilacera, não é amor.

cansa-me, por tanto, o amor.

em tudo — nas coisas que vos digo, nas esperanças renovadas, no verso repetido no meu peito, no ser que sou agora, no amor — sempre um cansaço.

ainda assim, ainda que o cansaço perpasse & permeie tudo (as coisas que vos digo, as esperanças renovadas, o verso repetido no meu peito, o ser que sou agora, o amor), os senhores querem, desejam, o verso que aos senhores posso dispor?

se os senhores querem, se desejam, então que assim seja.

mas entendam: viverão suas vidas nesses breus.

pois o verso que aos senhores posso dispor nada esclarece, nada clarifica, nada ilumina: sendo quem sou, em nada me pareço: são tantos em mim (tantas as formas), e, no entanto, tantos encobertos, tantos (em mim) longe dos olhos que não os do próprio paulo sabino…

o verso, aqui, não vivencia a luz: o verso versa sua vida nesses breus.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Exercícios. autora: Hilda Hilst. organização: Alcir Pécora. editora: Globo.)

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Sendo quem sou, em nada me pareço.
Desloco-me no mundo, ando a passos
E tenho gestos e olhos convenientes.
Sendo quem sou
Não seria melhor ser diferente
E ter olhos a mais, visíveis, úmidos
Ser um pouco de anjo e de duende?
Cansam-me estas coisas que vos digo.
As paisagens em ti se multiplicam
E o sonho nasce e tece ardis tamanhos.
Cansam-me as esperanças renovadas
E o verso no meu peito repetido.
Cansa-me ser assim quem sou agora:
Planície, monte, treva, transparência.
Cansa-me o amor porque é centelha
E exige posse e pranto, sal e adeus.

Queres o verso ainda? Assim seja.
Mas viverás tua vida nesses breus.

CANTO MANEIRO
4 de junho de 2013

Rio do Braço

(O ser do rio: nunca nos banhamos no mesmo rio…)
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eis, aqui, o canto maneiro, aqui, um modo de cantar bacana:

eu canto à maneira índia. eu canto à maneira negra. eu canto à maneira grega. eu canto à maneira gregoriana.

eis, aqui, o canto maneiro: todas as maneiras do cantar cabem no meu canto. todas as vozes a minha garganta abriga. porque belezas são complementares, não excludentes. e porque o que é belo ganha mais, fica melhor, porque existe o diferente. o mundo nos estampa isso a toda hora: a quantidade de formas & cores & elementos & texturas da natureza mostra que a beleza — num sentido mais amplo — está na diversidade.

eu canto de todas as maneiras (índia negra grega gregoriana): eis o canto maneiro: todas as vozes a minha voz abriga.

eu canto à maneira de heráclito: o fogo, o transe, a transmigração.

eu canto à maneira de heráclito: o ser do rio — nunca nos banhamos no mesmo rio.

heráclito: filósofo pré-socrático; parte do princípio de que tudo está em movimento, nada pode permanecer estático — tudo se move, tudo se movimenta, exceto o próprio movimento (heráclito é considerado por muitos o pai da “dialética”). heráclito cria no princípio do devir incessante, acreditava no princípio da transformação constante das coisas. aqui, um seu fragmento célebre: “não é possível entrar duas vezes no mesmo rio, nem tocar duas vezes uma substância mortal no mesmo estado; graças à velocidade do movimento, tudo se dispersa  e se recompõe novamente, tudo vem e vai”. o filósofo pré-socrático atribuía a um elemento a responsabilidade da existência de todas as coisas mundanas em mudança: o fogo.

fogo: elemento que ilumina, que tira as coisas da escuridão, elemento que aquece.

somos como o rio: nunca as mesmas águas, sempre outras a passar. nunca somos os mesmos, vamos nos modificando com o passar do tempo (nascimento, infância, pré-adolescência, adolescência, as idades adultas & velhice), sempre metamorfoses ambulantes, sempre na transmigração, na alteração de domicílio — um dia, descobrimos que a “casa” que nos abriga não nos serve mais & precisamos abandoná-la por outra que nos dê a devida guarida, por outra que nos dê a devida acolhida.

o ser do rio: nunca nos banhamos no mesmo rio (nunca as mesmas águas, sempre outras a passar, o rio está em contínuo fluir)…

eu canto à maneira eletrônica, eu canto ao modo moderno de cantar, eu canto para o que é criação da inteligência humana, eu canto para a ciência, eu canto para os avanços tecnológicos & científicos que podem  melhorar a qualidade das nossas vidas.

eis, aqui, o canto maneiro: cantar à maneira índia, negra, grega, gregoriana: cantar a todas as maneiras de cantar.

eis, aqui, o canto maneiro: cantar à maneira de heráclito: o fogo, o transe, a transmigração, o ser do rio (nunca nos banhamos no mesmo rio…).

eis, aqui, o canto maneiro: cantar à maneira eletrônica, utilizar-se de tudo que no mundo está, seja velho, seja novo, seja o que for, a fim de cantar, e cantar bem, cantar com a voz emocionada, para que tudo o que é cantado exista em sintonia com o bem-estar do mundo, para que tudo o que é cantado esteja afinado com o bom da vida. tudo dentro do tom.

o canto maneiro: o canto que abriga, que acolhe, que oferece morada.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do encarte do cd: Mulheres de Péricles. artista: Vários. autor dos versos. Péricles Cavalcanti. selo: Joia Moderna.)

 

 

CANTO MANEIRO

 

Eu canto à maneira índia
Negra, grega, gregoriana
Eu canto à maneira de Heráclito
O fogo, o transe, a transmigração
O ser do rio
Nunca nos banhamos no mesmo rio
Eu canto à maneira eletrônica
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Mulheres de Péricles. artista: Vários. canção: Canto maneiro. autor da canção: Péricles Cavalcanti. intérprete: Juliana Perdigão. selo: Joia Moderna.)