SOMOS TROPICÁLIA — 50 ANOS DO MOVIMENTO — 9° CICLO: PATRICIA MELLODI, CHRISTOVAM DE CHEVALIER E ALEXANDRE RABELLO — FOTOS, TEXTO SOBRE O EVENTO E POEMA (CHRISTOVAM DE CHEVALIER)
17 de outubro de 2017

(Todas as fotos: Luciana Queiroz)

(Alexandre Rabello, Patricia Mellodi e Christovam de Chevalier)


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*** Nesta edição a cantora e compositora Patricia Mellodi e o multi-instrumentista Alexandre Rabello apresentarão músicas do repertório tropicalista com ênfase nas canções de Torquato Neto, com intervenções do poeta Christovam Chevalier ***
 
Nos dias 25 e 26 de outubro (quarta e quinta-feira), a partir das 20h, acontece a nona (9ª) etapa do ciclo de encontros “Somos Tropicália – 50 anos do movimento”, no Gabinete de Leitura Guilherme Araújo, em homenagem aos 50 anos da Tropicália: as surpreendentes e eletrificadas apresentações de Caetano Veloso e Gilberto Gil no Festival da TV Record em 1967 são consideradas o marco inicial do movimento na música, que se consolidou com a gravação de “Tropicália Ou Panis Et Circenses”, álbum-manifesto lançado no ano seguinte.
 
Para a nova edição, inédita, desta celebração poético-musical, os artistas foram convidados a montar um roteiro no qual interpretarão alguns clássicos da Tropicália, incluindo, também, obras autorais que se inspiram ou conversem com as influências do movimento. Junto às canções, poemas onde percebemos o legado constituído pelo Tropicalismo.
 
Para esta edição de outubro, o projeto traz a cantora e compositora Patricia Mellodi, que vai explorar o repertório deixado pelo seu conterrâneo Torquato Neto, um dos principais autores e compositores da Tropicália, morto prematuramente. “Somos todos filhos da Tropicália, e participar de um evento que homenageia essa geração, esse movimento, não só nos enriquece como renova o novo compromisso em ousar, em inovar, em fazer da nossa obra algo mobilizador e novo. Minha intenção é representar o meu conterrâneo Torquato Neto dentro desse projeto tão bacana, porque sou uma artista piauiense tropicalista por formação e inspiração”, declara a artista, que em 2014 apresentou o show “Anjo Torto – Patricia Mellodi canta Torquato Neto”, com apresentações no Rio e no Piauí, e que agora volta a entrar em turnê.
 
Junto com ela estará o poeta e jornalista Christovam de Chevalier, que ao longo da apresentação fará intervenções poéticas com textos autorais e tropicalistas. Ambos serão acompanhados pelo multi-instrumentista Alexandre Rabello: “É bom reacender o tropicalista que vive em cada um de nós. Contra a caretice, fazendo arte, provocando, questionando sempre os caminhos estéticos e conceituais do fazer artístico. Viva o Brasil, viva a loucura tropical!”, diz o músico.
 
 
Serviço:
Gabinete de Leitura Guilherme Araújo
SOMOS TROPICÁLIA – 50 anos do movimento
Outubro (9ª edição): com Patricia Mellodi, Christovam de Chevalier e Alexandre Rabello / Pocket-show e leitura de poesias
Dias 25 e 26/10 (4ª e 5ª-feira)
A partir das 20h
Rua Redentor, 157 Ipanema
Tel infos. 21-2523-1553
Entrada: R$ 1,00
Lotação: 60 lugares
Classificação: livre
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Aos interessados, abaixo, um poema do Christovam, acerca dos dias e de tudo que passa e morre com o passar dos dias: a barba, as unhas, a gengiva, a pele, os olhos, o coração, o homem que morre a cada dia em mim.
 
Beijo todos!
Paulo Sabino.
(do livro: No escuro da noite em claro. autor: Christovam de Chevalier. editora: 7Letras.)
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SOMOS TROPICÁLIA — 50 ANOS DO MOVIMENTO — 8° CICLO: ALINE PAES, ANTONIO GUERRA, ELISIO FREITAS E NUNO RAU — FOTOS, TEXTO SOBRE O EVENTO E POEMA (NUNO RAU)
17 de outubro de 2017

(Antonio Guerra, Aline Paes, Elisio Feitas e Nuno Rau — Foto de divulgação: Luciana Queiroz)

(Foto de divulgação: Luciana Queiroz)

(Foto de divulgação: Luciana Queiroz)

(Foto: Luciana Queiroz)

(Foto: Luciana Queiroz)

(Foto: Luciana Queiroz)

(Foto: Luciana Queiroz)

(Foto: Luciana Queiroz)

(Foto: Luciana Queiroz)

(Foto: Luciana Queiroz)

(Foto: Luciana Queiroz)

(Nuno Rau, Paulo Sabino, Rafael Millon, Aline Paes, Antonio Guerra e Elisio Freitas — Foto: Luciana Queiroz)
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Algumas lindas fotos de divulgação e da linda noite da 8ª edição do projeto Somos Tropicália, ocorrida no dia 27 de setembro, que reuniu esta turma divina-maravilhosa no Gabinete de Leitura Guilherme Araújo: a cantora Aline Paes, o pianista Antonio Guerra, o multi-instrumentista Elisio Freitas (na guitarra) e o poeta Nuno Rau nas intervenções poéticas! Artistas incríveis, que fizeram mais uma noite desbunde na homenagem à Tropicália! Amor da cabeça aos pés! É muito orgulho deste projeto! Nos dias 25 e 26 de outubro (quarta e quinta) voltamos com mais uma edição. É só aguardar! Oba! Junto aos artistas, os produtores e curadores do projeto Rafael Millon e Paulo Sabino.

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“Queridos e lindos e bem vindos, aqui apenas para agradecer agradecer e agradecer a presença e o talento de vocês no projeto! A minha vontade é de correr pra produzir alguma coisa com vocês, pra não perder o ‘feeling’! Tô muito feliz. E eu, já fã do trabalho de cada um, tirando o Nuno, que conheço e é um amigo, virei fã das pessoas que vocês são. Que galera mais maravilhosa e gente boa! Que alegria trabalhar assim! Como se não bastassem talentosos, também são simpáticos, calorosos e generosos! É muita lindeza, ô gloria!

Aline Paes, Antonio Guerra, Elisio Freitas e Nuno Rau, por causa de vocês, hoje eu sou amor da cabeça aos pés! Valeu demais!

Beijo nocês tudo! Agradecer e abraçar!”

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Aos interessados, o poema do Nuno que li nesta noite do projeto e que é uma pérola em forma de versos, que trata do grande silêncio que é o mundo, o mundo mudo, a existência que, por uma necessidade vital, temos que organizar em sentidos, signos e significados. Pura sofisticação!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do livro: Mecânica aplicada. autor: Nuno Rau. editora: Patuá.)

 

POR DENTRO, POR FORA

 

BABY TE AMO — TRIBUTO A LUIZ MELODIA: FOTOS, TEXTO E VÍDEO (PAULO SABINO)
3 de outubro de 2017

(Flyer do evento)

(No camarim, a turma muito divertida reunida — Foto: Valéria Martins)

(Turma linda, divertida e talentosa)

(Com Mary Blue)

(Com Flávia Bittencourt)

(Com Maíra Freitas)

(Com Simone Mazzer)

(Com Tyaro Maia, Taís Feijão, Jonathan Ferr e João Mantuano)

(Com Laura Lavieri, Doralyce, Ana Bispo e Tyaro Maia)

(Ingressos esgotados, casa lotada, público quente, participantes feras: Melodia curtiu — Foto: Valéria Martins)

(Paulo Sabino — Foto: Valéria Martins)

(Chamando ao palco o grande parceiro de música e vida, o grande amigo do homenageado e mestre Renato Piau — Foto: Valéria Martins)

[Todos no palco para o grande final e a grande homenagem conjunta — da esquerda pra direita: Chico Chico, Tyaro Maia (sentado), João Mantuano, Paulo Sabino, Simone Mazzer, Maíra Freitas, Silvia Machete, Jonathan Ferr, Taís Feijão, Mihay (o organizador e grande produtor da noite), Renato Piau, Raquel Coutinho, Mari Blue, Fávia Bittencourt, Duda Brack, Katia Jorgensen, Mario Wamser, Ana Bispo, Doralyce e Vandro Augusto — Foto: Valéria Martins]

(Super festa no palco ao final da apresentação — Foto: Valéria Martins)

(Da esquerda, bem no cantinho, pra direita: Jonathan Ferr, Paulo Sabino, Mihay, Taís Feijão, Tyaro Maia, Renato Piau, Raquel Coutinho, Mari Blue, Flávia Bittencourt, Katia Jorgensen e Ana Bispo — Foto: Valéria Martins)
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Coisa “marlinda” de se ver e de se viver!

A grande alegria de fazer parte do tributo em homenagem ao pérola negra do Estácio e da música popular brasileira, o imensurável Luiz Melodia!

Ingressos esgotados, casa lotada, público quente, que foi conquistado pelo talento imenso de cada participante. 30 de setembro de 2017: pra guardar na memória e no coração!

Antes de começarmos, aquecendo os gogós e absorvendo a energia linda que nos envolveu a todos neste sábado 30 de setembro, com direito à chegada do mestre dos mestres João Donato justo nesta hora!

Uma honra e um grande barato subir ao palco ao lado destas feras todas para cantar e reverenciar a obra do Luiz Melodia: o mestre João Donato, Simone Mazzer, Maíra Freitas, Silvia Machete, Taís Feijão, Mari Blue, Laura Lavieri, Duda Brack, Chico Chico, João Mantuano, Tyaro Maia, Ana Bispo, Doralyce, Ithamara Koorax, Flavia Bittencourt, Katia Jorfgensen, Jonathan Ferr, Vandro Augusto, Mihay (o grande organizador e produtor da noite), Mario Wamser (o grande músico da noite junto ao Renato Piau) e Renato Piau (parceiro de músicas e de vida do Melô): das experiências mais intensas! A gente SÓ foi feliz no palco e fora dele!

Se alguém quer matar-me de amor, que me mate no Estácio! Pérola negra, te amo, te amo!

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A semana passada foi de imersão na sua obra. Tratei de pegar todos os discos, reouvir quase todas as canções, e, encharcado, escrever um texto-homenagem feito de colagens — trechos de canções, referências e título dos álbuns — para abrir o tributo, na Sala Baden Powell, sábado passado (30/09), todo dedicado a ele. Foi assim que nasceu:

 

TEXTO PARA LUIZ MELODIA
(Paulo Sabino)

 

O negro gato de arrepiar do Estácio. A pérola negra do Lácio. O malandro-poeta, a voz do morro, o entendedor do auxílio luxuoso de um pandeiro. O ébano de nome, forte feito cobra coral, semente que brota em qualquer local – na escola de samba do largo do Estácio, no clarão do dia da ilha longa de Paquetá, em torno da cidade, trajes elegantes, vendo vitrines e boutiques, caminhando um pouco mais atrás da lua e da rua, voando na asa de um avião, no bico de um pássaro daqui; girando, por aí, como a bola e o peão, o seu coração. Malandro não tem salto alto, porém, no salto alto, um felino negro é bom de se ver – lá no asfalto, um momento negro de se viver. Felino que dá no calo, mas que também tem amor e muito carinho a ofertar – as pessoas que ama, ama bastante. O filho e o “feeling” da música: Melodia na voz, no canto, no nome. O poderoso gângster com as suas metralhadoras armadas de acontecimentos. Vale quanto pesa: sua voz, seu canto, suas canções, o seu legado imensurável e inestimável à música popular brasileira: 14 quilates de puro preciosismo. O Estácio, eu e todos aqui presentes podemos e queremos lhe querer. Gotas de saudade – vozes do passado vêm do coração. Escrevo num quadro em palavras gigantes: PÉROLA NEGRA, TE AMO, TE AMO.

[do site: Youtube. Texto para Luiz Melodia. autor e dizedor: Paulo Sabino. data: 30/09/2017. local: Sala Baden Powell (Rio de Janeiro). evento: Baby te amo — tributo a Luiz Melodia. direção artística: Mihay. direção musical: Renato Piau.]

FESTIVAL CCBB (BRASÍLIA) — QUANTO MAIS TROPICÁLIA, MELHOR — FOTOS (RIO DE JANEIRO & BRASÍLIA), ROTEIRO & TEXTO SOBRE O FESTIVAL
5 de setembro de 2017

(Paulo Sabino — Foto: Rogério von Krüger)

(Com Gilberto Gil ao fundo — Foto: Karina Zambrana)

(Com Gilberto Gil ao fundo — Foto: Karina Zambrana)

(Foto: Karina Zambrana)

(Foto: Luis Turiba)

(Foto: Luis Turiba)

(Céu — Foto: Rogério von Krüger)

(Foto: Rogério von Krüger)

(Fernanda Takai — Foto: Rogério von Krüger)

(Pato Fu — Foto: Rogério von Krüger)

(Pedro Luís — Foto: Rogério von Krüger)

(Foto: Rogério von Krüger)

(Tom Zé, sua banda e equipe do festival — Foto: Karina Zambrana)

(Tom Zé, a banda e o público de 3 mil pessoas)
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Imagine-se subindo ao palco de um festival de música para dizer poesia para uma platéia de 3 mil pessoas e ver, lá de cima, as 3 mil pessoas comprando o seu barulho… Gente, é lindo demais, meu coração realmente não contenta! Brasília, te amo! Obrigadíssimo por tudo! Por cada olhar, por cada abraço, por cada aperto de mão, por cada palavra de felicitação, por cada pergunta a respeito do meu trabalho com a literatura. Isso me abastece de ânimo e coragem pra persistir e prosseguir neste caminho que venho trilhando. Sim, não é só a “carcaça” do poeta que brilha com a purpurina, a alma também!

Tantas lindas lembranças eu trago comigo, momentos mágicos, de muita beleza, que não fugirão de mim. Valeu demais, Brasília! 2 dias lindos pra este poeta que deseja apenas dividir as coisas que realmente importam na sua vida. Valeu, Rio de Janeiro! Valeu, “Festival CCBB Quanto mais Tropicália, melhor”! Valeu, Monica Ramalho! Valeu, equipe Baluarte Cultura! Valeu, Tom Zé, mestre dos mestres! Valeu, Pato Fu! Valeu, Céu! Valeu, Pedro Luís e A Parede! Valeu, público, que me mostrou que poesia dá pé, sim! Valeu, Poesia, minha Musa maior! Eu quero mais! Eu quero sempre!

(É preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte.)

Aos interessados, o roteiro e os poemas das noites do festival.

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(roteiro das noites do Festival CCBB Quanto Mais Tropicália, Melhor. datas e locais: 18 e 19/08 — Rio de Janeiro; 02 e 03/09 — Brasília. artistas: Pato Fu, Céu, Pedro Luís e A Parede e Tom Zé. roteiro e seleção de textos: Paulo Sabino. autores dos textos: Rogério Duarte e Alberto Pucheu.)

 

 

O meu boa noite a todos. Pra quem não me conhece, me chamo Paulo Sabino, sou poeta e farei às honras de mestre de cerimônias do festival.
 
Lerei pra vocês um texto do designer gráfico, escritor, músico e um dos pensadores e criadores da Tropicália, Rogério Duarte, publicado na contracapa do disco tropicalista de Gilberto Gil, de 1968, onde, na capa, o Gil veste o fardão dos membros da Academia Brasileira de Letras.

 

TEXTO DE GILBERTO GIL PSICOGRAFADO POR ROGÉRIO DUARTE

Eu sempre estive nu. Na Academia de Acordeão Regina tocando La Cumparsita, eu estava nu. Eu só sabia que estava nu, e ao lado ficava o camarim cheio de roupas coloridas, roupas de astronauta, pirata, guerrilheiro. E eu, do mais pobre da minha nudez, queria vestir todas. Todas, para não trair minha nudez. Mas eles gostam de uniformes, admitiriam até a minha nudez, contanto que depois pudessem me esfolar e estender a minha pele no meio da praça como se fosse uma bandeira, um guarda-chuva. Mas não há guarda-chuva contra o amor, contra os Beatles, contra os Mutantes. Não há guarda-chuva contra Caetano Veloso, Guilherme Araújo, Rogério Duarte, Rogério Duprat, Dirceu, Torquato Neto, Gilberto Gil, contra o câncer, contra a nudez. Eu sempre estive nu. Com o fardão da Academia, eu estava nu. Minha nudez Raios X varava os zuartes, as camisas listradas. E esta vida não está sopa e eu pergunto: com que roupa eu vou pro samba que você me convidou? Qual a fantasia que eles vão me pedir que eu vista para tolerar meu corpo nu? Vou andar até explodir colorido. O negro é a soma de todas as cores. A nudez é a soma de todas as roupas.

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Agora lerei um poema pra vocês, de um poeta lá do Rio, chamado Alberto Pucheu, poema que adoro ler porque serve muito como metáfora à vida. Porque, assim como acontece no mar, na vida há momentos em que estamos surfando na crista da onda dos acontecimentos, e outros em que tomamos um verdadeiro caldo, um verdadeiro caixote, uma verdadeira vaca, dos acontecimentos. E nesses momentos de turbulência, é preciso calma e paciência para não afogar e morrer na praia. E eu acho que o Brasil e o mundo atravessam, hoje, um momento histórico de caldos e turbulências. Por isso, este poema é dedicado a todos nós, brasileiros e residentes do Brasil, como um sopro de ânimo e resistência a este momento que atravessamos.

 

É PRECISO APRENDER A FICAR SUBMERSO – ALBERTO PUCHEU

 

É preciso aprender a ficar submerso
por algum tempo. É preciso aprender.
Há dias de sol por cima da prancha,
há outros, em que tudo é caixote, vaca,
caldo. É preciso aprender a ficar submerso
por algum tempo, é preciso aprender
a persistir, a não desistir, é preciso,
é preciso aprender a ficar submerso,
é preciso aprender a ficar lá embaixo,
no círculo sem luz, no furacão de água
que o arremessa ainda mais para baixo,
onde estão os desafiadores dos limites
humanos. É preciso aprender a ficar submerso
por algum tempo, a persistir, a não desistir,
a não achar que o pulmão vai estourar,
a não achar que o estômago vai estourar,
que as veias salgadas como charque
vão estourar, que um coral vai estourar
os miolos – os seus miolos –, que você
nunca mais verá o sol por cima da água.
É preciso aprender a ficar submerso, a não
falar, a não gritar, a não querer gritar
quando a areia cuspir navalhas em seu rosto,
quando a rocha soltar britadeiras
em sua cabeça, quando seu corpo
se retorcer feito meia em máquina de lavar,
é preciso ser duro, é preciso aguentar,
é preciso persistir, é preciso não desistir.
É preciso aprender a ficar submerso
por algum tempo, é preciso aprender
a aguentar, é preciso aguentar
esperar, é preciso aguentar esperar
até se esquecer do tempo, até se esquecer
do que se espera, até se esquecer da espera,
é preciso aguentar ficar submerso
até se esquecer de que está aguentando,
é preciso aguentar ficar submerso
até que o voluntarioso vulcão de água
arremesse você de volta para fora dele.

É preciso estar atento e forte
Não temos tempo de Temer a morte***

 

(***Citação de Divino-maravilhoso, parceria de Caetano Veloso e Gilberto Gil.)

OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (8ª EDIÇÃO) — O EVENTO: FOTOS & POEMAS
11 de dezembro de 2016

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(No camarim, antes da apresentação, da esquerda para direita: Cristina Flores, Renata Corrêa, Paulo Sabino, Maria Rezende, Elizeu Braga, Renato Farias, Pedro Mann, Emílio Dantas & Leo Pinheiro — Foto: Rafael Millon)

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(O coordenador do projeto, Paulo Sabino — Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(A grande homenageada da noite, Maria Rezende, e o coordenador do projeto, Paulo Sabino — Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(A homenageada da noite, Maria Rezende — Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(Renata Corrêa — Foto: Elena Moccagatta)

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(Renato Farias — Foto: Elena Moccagatta)

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(Mariza Leão — Foto: Elena Moccagatta)

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(Emílio Dantas — Foto: Elena Moccagatta)

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(Emílio Dantas & Leo Pinheiro — Foto: Elena Moccagatta)

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(Pedro Mann — Foto: Elena Moccagatta)

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(Cristina Flores — Foto: Elena Moccagatta)

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(Elizeu Braga — Foto: Elena Moccagatta)

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(Os agradecimentos ao final — da esquerda para direita: Leo Pinheiro, Emílio Dantas, Maria Rezende, Paulo Sabino, Renato Farias, Cristina Flores, Elizeu Braga, Renata Corrêa & Pedro Mann — Foto: Rafael Millon)

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(Após apresentação, Emílio Dantas, Paulo Sabino & Renata Corrêa — Foto: Rafael Millon)

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(Após apresentação, Paulo Sabino & Pedro Mann — Foto: Rafael Millon)

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(Após apresentação, Elizeu Braga, Paulo Sabino, Renato Farias & Mariza Leão — Foto: Rafael Millon)

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(Após a apresentação, Paulo Sabino & Maria Rezende — Foto: Elena Moccagatta)

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(Após tudo, no lançamento do mais recente livro de poesia da Elisa: Maria Rezende, Elisa Lucinda & Paulo Sabino — Foto: Rafael Millon)
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Uma pessoa nua no meio da rua
sem ser sonho
é o quê?
Pessoa desarmada
apta pra tropeços

Não há maravilha sem carne
Só o que pulsa se espatifa
É preciso estar vivo pra brilhar e pra doer

 

Que noite. Nem sei. Tô astronauta ainda. Transbordada. Agradeço loucamente a todos os convidados que aceitaram estar lá comigo e me emocionaram profundamente. Obrigada Paulinho pelo convite. Eu sou puro amor agora.

(Maria Rezende)

 

 

Queridos & Queridas,

A 8ª edição do projeto Ocupação Poética, no teatro Cândido Mendes (Ipanema), a última de 2016, em homenagem à jovem & talentosa poeta Maria Rezende (agora, ao usar o termo “jovem”, me lembro demais do seu pai, Maria!) & com participantes pra lá de especiais, fechou o ano com chave de ouro maciço! Foi realmente impactante pra todos nós que participamos e que assistimos. Como eu & a Maria resolvemos não “amarrar” muito o roteiro da noite, deixamos a edição bem solta, fluir com o andar dos minutos, e a apresentação colocou-se num lugar inesperadamente lindo & muito emocionante, incrível. Amigos meus que foram a algumas várias edições me confidenciaram que esta foi a mais emocionada & emocionante de todas. Muitos risos, muita alegria, mas a noite, sem que planejássemos, também nos reservou boas lembranças & lágrimas. Foi um deslumbre! Foi um desbunde! Foi uma catarse! Foi de uma delicadeza & sensibilidade ímpares! Teatro cheio, público quente, leve, que se permitiu embarcar na apresentação junto com todas as histórias contadas & todos os poemas lidos. Eu, hoje, como já disse à Maria, estou com os pés acima do chão, hoje certamente caminho numa nuvenzinha, tamanha leveza & tamanho contentamento por todas as vivências no palco. Eu não esperava tanto, não mesmo. Não podia sequer imaginar que o ano de 2016, com a Ocupação Poética, fecharia assim, tão mágico, tão poético! Eu, mais uma vez, por graça & obra da Poesia, Musa Maior na minha vida, sou amor da cabeça aos pés!

Agradecer demais a presença de todos os participantes & envolvidos para que o projeto acontecesse do jeito que aconteceu: Cristina Flores, Elizeu Braga, Emílio Dantas, Mariza Leão, Pedro Mann, Renata Corrêa, Renato Farias & Rafael Millon.

Agradecer sempre ao Adil Tiscatti & à Fernanda Oliveira por acreditarem no potencial do projeto. Agradecer demais à Julia Mendes de Almeida, sempre simpática & solícita nos arranjos & rearranjos das datas pro projeto (Julinha, que bom te conhecer pessoalmente!).

Mariaaaaaa, cola em mim porque agora eu não desgrudo de você!

De bônus, depois da enxurrada de emoções & beleza que foi a apresentação, pertinho do teatro uma diva tanto minha quanto da Maria lançava o seu mais recente livro de poemas, o que, inclusive, a impossibilitou de participar desta 8ª edição como convidada: Elisa Lucinda. No meu exemplar, a dedicatória que conseguiu me deixar (uma coisa que pensava ser impossível) ainda mais feliz do que já estava:

“Paulo Sabino, com meu amor pelo amor com o qual você trata nossa arte. Beijo da Elisa.”

Valeu demais, valeu por tudo, valeu imensamente! Depois dessa injeção de ânimo, que venham as edições de 2017! Já temos poetas espetaculares para o ano que se aproxima, um luxo só! Vamos que vamos!

De brinde, abaixo, deixo aos interessados dois lindíssimos poemas da Maria Rezende que tive o prazer de ler nesta noite mágica.

Até já, até lá, com mais Ocupações Poéticas!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do livro: Bendita palavra. autora: Maria Rezende. editora: 7Letras.)

 

 

ESCREVO PORQUE ESTOU VIVA
escrevo porque é preciso
pra acordar, pra estar despida
porque o mundo não é só isso
que acontece aqui em cima

Escrevo porque não vivo
escrevo porque preciso
dessa roupa, esse colírio
escrevo pra pôr delírio
em tudo que é preto-e-branco

Escrevo pra estar viva
escrevo porque aqui minto
as belezas que não tenho
e as coragens que persigo
escrevo porque assim finjo

Escrevo contra as burrices
contra os medos que hoje sinto
escrevo a favor do sonho
escrevo pra estar livre
escrevo quando consigo
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(do livro: Carne do umbigo. autora: Maria Rezende. Edição do autor.)

 

 

MEU NORTE

 

O amor me deu um susto
o amor me deu um tapa
um soco doce
um sopro na asa
o amor me encheu de porrada

Me empurrou da bicicleta
me pôs de cama
mudou meu rumo
me deu um norte
roubou meu chão

O amor me botou no colo
deu plural pros verbos
curou minha tosse
me encheu de sede
me tirou das ruas
o amor me deu a mão

LEITURA DRAMATIZADA — “BOCA DE OURO” (NELSON RODRIGUES) — FOTOS, VÍDEO & TRECHO
2 de novembro de 2016

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(Casa lotada, público quente)

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(Simone Vidal, Vanessa Gerbelli Ceroni & Andre Martins)

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(Juliana Martins)

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(Gustavo Ottoni)

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(Thiago Lacerda)

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(Thiago Lacerda & Paulo Sabino)

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(Juliana Martins, Thiago Lacerda & Paulo Sabino)

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(Stella de Paula, Juliana Martins, Thiago Lacerda, Vanessa Gerbelli Ceroni, Gustavo Ottoni, Paulo Sabino, Rose Abdallah & Elvis Fidelle)

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(Da esquerda pra direita, de pé: Rose Firmino, Simone Vidal, Vanessa Gerbelli Ceroni, Juliana Martins, Stella de Paula, Thiago Lacerda, Paulo Sabino, Rose Abdallah, Rafael Millon & Gustavo Ottoni / Da esquerda pra direita, embaixo: Elvis Fidelle, Eduarda Senise, Andre Martins & Enildo Dellatorre)
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Gente,

Que delícia a noite de segunda-feira, 31/10, quanta magia, quanta coisa linda recebida!

Casa lotada, pessoas em pé, público quente, na minha estréia no teatro, fazendo a leitura dramatizada da peça “Boca de Ouro”, do genial Nelson Rodrigues, na companhia dos grandes & generosos atores Thiago Lacerda (como o “Boca de Ouro”), Gustavo Ottoni (como o “repórter Caveirinha”), Juliana Martins (como a “dona Guigui”), Vanessa Gerbelli Ceroni (como a “grã fina Maria Luísa”) & este que vos escreve (como o “preto”), a convite do grupo de teatro “Queridos de Guilherme” & da diretora Rose Abdallah.

Muitíssimo obrigado! Rose amada, agora fui mordido pelo vírus do teatro & quero mais! Responsabilidade sua! Mais & mais leituras, mais & mais personagens!

Ainda sob o estado de “graça” que o palco, o teatro, é capaz de proporcionar.

Acima, algumas fotos da noite. Abaixo, um vídeo, com trechos da leitura, realizada no Gabinete de Leitura Guilherme Araújo, e, ao final, depoimento dos convidados — Vanessa Gerbelli Ceroni, Thiago Lacerda, Juliana Martins, Gustavo Ottoni & Paulo Sabino — sobre a participação neste lindíssimo projeto. Abaixo do vídeo, o trecho da peça relativo à minha participação.

Espero estar com todos — convidados + “Queridos de Guilherme” — em breve! Valeu! Foi bom demais!

Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. trechos da leitura dramatizada da peça: Boca de Ouro. autor: Nelson Rodrigues. diretora da leitura: Rose Abdallah. elenco: Queridos de Guilherme. convidados & depoimentos: Vanessa Gerbelli Ceroni, Thiago Lacerda, Juliana Martins, Gustavo Ottoni, Paulo Sabino. local: Gabinete de Leitura Guilherme Araújo. Data: 31/10/2016. imagens, edição & direção do vídeo: Vitor Kruter.)


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(trecho da peça: Boca de Ouro. autor: Nelson Rodrigues.)

 

 

BOCA DE OURO — Preto, tu me conhece?

PRETO — Conheço, sim, senhor!

BOCA DE OURO — Como é meu nome, preto?

PRETO — Vossa Senhoria é o “Boca de Ouro”, sim, senhor!

BOCA DE OURO — E que mais?

PRETO — O povo também diz que “Boca de Ouro” paga o caixão dos pobres!

BOCA DE OURO — Escuta, negro sem-vergonha! Eu vim aqui porque… eu não sei, eu nunca “sub” quem foi a minha mãe… Por isso, diziam que eu não nasci de mulher… Está ouvindo, preto?

PRETO — Sim, senhor!

BOCA DE OURO — Até que ontem, o Zezinho. Tu conhece o Zezinho?

PRETO — O da perna dura?

BOCA DE OURO — O da perna dura. Zezinho, que é vidente, médium vidente, o Zezinho me disse que tu viste minha mãe! Negro, tu viu a minha mãe?

PRETO — Eu?

BOCA DE OURO — Tu!

PRETO — Vi.

BOCA DE OURO — Viu. Agora diz: e como era? Bonita?

PRETO — Alegre!

BOCA DE OURO — Magra?

PRETO — Gorda!

BOCA DE OURO — Gorda! Diz o resto. Conta tudo. Tudinho. Muito gorda?

PRETO — Teve bexiga!

BOCA DE OURO — Ah, a minha mãe tinha o rosto picado de bexiga?

PRETO — Picadinho! Suava muito! Era gorda e suava muito, sim, senhor!

BOCA DE OURO — Tu viu minha mãe rindo, preto?

PRETO — Gostava de uma boa pândega!

BOCA DE OURO — E ria, minha mãe ria, não ria?

PRETO — Ria!

BOCA DE OURO — E, depois, ficava triste, negro?

PRETO — Alegre!

BOCA DE OURO — Preto, que fim levou minha mãe?

PRETO — A falecida morreu!

BOCA DE OURO — Morreu?

PRETO — Riu até morrer, morreu tão alegre!

BOCA DE OURO — E os bacanas foram ao enterro?

PRETO — Só de Jacarezinho, fui eu, o Biguá e o “Cabeça de Ovo”!

BOCA DE OURO — Toma, negro!

PRETO — Quinhentão!

PRETO — “Seu” “Boca de Ouro”!

BOCA DE OURO — Fala.

PRETO — Quando eu morrer, o distinto paga um cachão legal pra o negro?

BOCA DE OURO — Tu é vivo!

PRETO — Negro quer ser enterrado nu como um santo…

AS OFERTAS: PAIOL DE OURO
29 de outubro de 2015

Paulo Sabino_Ilhas Cagarras_por Ana Alexandrino

(Foto acima: Ana Alexandrino.)

Lídice 1
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No peito, Oxum, Oxalá & Xangô.

No pensamento: agradecer & abraçar: o dom, a vocação, para a palavra.

Oxum rege a minha garganta; Oxum, deusa do elemento do meu signo, deusa do elemento natural que mais me fascina: água.

Oxum rege a minha garganta: sua cor é o ouro, o dourado.

O ouro, o dourado: a cor que, na mitologia, representa o orixá.

Oxum: paiol de ouro.

(Paiol: depósito, armazém, compartimento, onde se guardam materiais específicos & variados — de produtos agrícolas a artefatos bélicos.)

Oxum: paiol de ouro: depósito, armazém, compartimento, onde se guarda o ouro, o dourado: a luz, a claridade, a nobreza, a beleza, a riqueza.

Oxum, paiol de ouro: deusa das águas, sereia, cantora rainha: rege a minha garganta de onde nasce este som (o som da minha escrita, o som da minha voz, doado à poesia).

A Oxum, oferto perfumes & flores por ter me dado este dom — o de destinar à palavra o centro da minha vida.

Agradecer & abraçar todos os amigos que me incentivam a continuar de frente, a postos, em guarda, nesta jornada com a poesia. Os incentivos são, sem dúvida, sopros de ânimo nos momentos de aridez.

As ofertas que me atenho a fazer: amar a vida. Não desistir da luta. Recomeçar na derrota. Renunciar a palavras e pensamentos negativos. Acreditar nos valores humanos. Ser otimista. Crer na solidariedade humana. Crer na superação dos erros e angústias do presente. Lutar ao invés de recolher dinheiro fácil. Antes, acreditar do que duvidar.

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do encarte do álbum: Memória da pele. artista: Maria Bethânia. autores: Alexandre Leão / Olival Mattos. gravadora: PolyGram.)

 

 

PAIOL DE OURO

 

Oxum
Deusa das águas
Sereia, cantora rainha
Reges a minha garganta
De onde nasce esse som
Te oferto perfumes e flores
Por teres me dado esse dom
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Memória da pele. artista & intérprete: Maria Bethânia. canção: Paiol de ouro. autores: Alexandre Leão / Olival Mattos. gravadora: PolyGram.)

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(do site: Youtube. Paulo Sabino recita “Ofertas de Aninha (Aos Moços)”, poema de Cora Coralina. Em 28/10/2015.)

 

OFERTAS DE ANINHA  (Cora Coralina)
(AOS MOÇOS)

 

Eu sou aquela mulher
a quem o tempo
muito ensinou.
Ensinou a amar a vida.
Não desistir da luta.
Recomeçar na derrota.
Renunciar a palavras e pensamentos negativos.
Acreditar nos valores humanos.
Ser otimista.

Creio numa força imanente
que vai ligando a família humana
numa corrente luminosa
de fraternidade universal.
Creio na solidariedade humana.
Creio na superação dos erros
e angústias do presente.

Acredito nos moços.
Exalto sua confiança,
generosidade e idealismo.
Creio nos milagres da ciência
e na descoberta de uma profilaxia
futura dos erros e violências
do presente.

Aprendi que mais vale lutar
do que recolher dinheiro fácil.
Antes acreditar do que duvidar.

 

COISA EM SI
16 de maio de 2015

Ovo
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toda & qualquer coisa é composta de outras tantas coisas.

não existe “coisa em si”.

toda & qualquer coisa forma uma identidade. identidade que se forme, que se molde, que se construa, sem que tenda para alguma coisa, sem que sofra a influência de alguma coisa, sem que penda para algum lado, sem que dependa de alguma outra coisa, não existe.

tudo tende, pende, depende.

tudo, até as palavras: não há nenhuma palavra que exista “em si”, que exista sem que haja, nela, algo que também forme, também molde, também construa, outras palavras: tende / pende / depende.

palavra puxa palavra.

o mar, que molha a ilha, molha o continente.

o ar que se respira traz o que recende, o que exala, o que se espalha. o ar que injetamos nos pulmões é o mesmo que, livre, toca o cheiro das coisas & o traz, de longe, até nós.

tudo é rente, é próximo, é contíguo. tudo é tangente, é tocável, é acessível. tudo é inerente, é dependente, é inseparável.

tudo é rente, tangente, inerente.

tudo, até as palavras: não há nenhuma palavra que exista “em si”, que exista sem que haja, nela, algo que também forme, também molde, também construa, outras palavras: rente / tangente / inerente.

palavra puxa palavra.

não existe coisa assim: isenta, sem ambiente, coisa partida do seu próprio pó, sem mistura, coisa sem sombra na parede, coisa sem margem ou afluente que a alcance, que a toque: as coisas existem & necessariamente, obrigatoriamente, estabelecem inter-relações: não há coração sem mente, não há paraíso sem serpente. não existiria som se não houvesse o silêncio. não haveria luz se não fosse a escuridão.

a vida é mesmo assim: dia & noite, não & sim.

“coisa em si” inexiste.

só existe o que se sente, só existe o que é percebido através dos sentidos. uma coisa, mesmo que exista, se não for sentida por nós, isto é, se não for percebida por nós, essa coisa não existe para nós. para que exista para nós, portanto, as coisas precisam, as coisas dependem, as coisas necessitam, as coisas carecem, existir, antes, para os nossos sentidos.

tudo tende, pende, depende. tudo é rente, tangente, inerente.

não existe “coisa em si”.

a miscigenação, a mistura, a mesclagem, a influência, a tendência, a confluência, sempre foi & sempre será o caminho de toda & qualquer coisa.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: ET  Eu  Tu. poemas: Arnaldo Antunes. fotos: Marcia Xavier. editora: Cosac & Naify.)

 

 

coisa em si
não existe

tudo tende
pende
depende

o mar que molha
a ilha molha
o continente

o ar que se
respira traz
o que recende

coisa em si
não existe

tudo é rente
tangente
inerente

pedra
assemelha
semente

sol nascente:
sol poente

coisa em si
não existe

mesmo que
aparente

coisa em si
coisa só
partida do seu
próprio pó

sem sombra
sobre
a parede

sem mar
gem
ou afluente

não existe
coisa assim

isenta
sem ambiente

não há coração
sem mente

paraíso
sem serpente

coisa em si
inexiste

só existe
o que se
sente

OS BENEFÍCIOS DA LUA
26 de abril de 2011

fotógrafo profissional e jornalista científico, o francês laurent laveder criou a série intitulada “moon games”, composta por imagens diversas de pessoas que interagem com a lua. nas fotos, faz parecer que o satélite está ao alcance das mãos. eis, aqui, algumas delas. para aumentar o tamanho, basta clicar em cima do que se deseja ampliar.
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a lua é a imagem do capricho.

ser a imagem do capricho é ser a imagem do esmero, é ser a imagem do cuidado extremo, da dedicação aplicada, da devoção, do empenho em fazer bem feito.

e, a lua, segundo contam, elege as crianças que lhe agradam a fim de que elas sofram, sempre, a influência do seu beijo, a fim de que elas sofram, sempre, com a lufada do seu perfume-luz.

para tanto, a lua desce maciamente a sua escada de nuvens, desliza, sem ruído, através das vidraças, e pousa sobre as crianças escolhidas, com um suave carinho de mãe, as suas cores.

assim, as crianças pela lua preferidas estão fadadas a viverem sob sua influência, amando o que a lua ama e o que a ama:

a água, as nuvens, o silêncio & a noite; o mar imenso & verde; as flores noturnas, monstruosas, que sugerem incensórios (que são recipientes em cujo interior se queima incenso) de alguma religião ignota, isto é, de alguma religião desconhecida, com seus perfumes que turbam, ou seja, com seus perfumes que perturbam os sentidos.

e também a criança eleita pela lua, ao crescer & se transformar em mulher, será amada pelos seus amantes, a criança eleita pelo corpo celeste, ao se tornar uma mulher, será desejada, será cortejada, pelos seus cortejadores, que procurarão, na mulher encantada de lua, o reflexo da terrível divindade.

os amantes  do corpo celeste  buscarão, na mulher enluarada, o reflexo da fatídica madrinha, o reflexo da ama-de-leite (ama-de-leite: aquela que alimenta, que supre a fome de criança alheia), que possui o seu alimento envenenado. e é justamente por causa do veneno contido no leite lunar que são marcados os seus eleitos, que são marcados os seus escolhidos, os seus amantes, amantes que se transformam em lunáticos, isto é, em fanáticos pela lua, ou seja, em amantes vidrados na sua imagem.

a lua: fatídica madrinha, envenenadora de todos os lunáticos.

(creio que o fotojornalista francês laurent lavader, conterrâneo do poeta que escreve as linhas a seguir, seja um dos eleitos pela lua, isto é, um lunático.)

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Poesia e Prosa – Volume único. autor: Charles Baudelaire. organização: Ivo Barroso. tradução: Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. editora: Nova Aguilar.)

 

OS BENEFÍCIOS DA LUA

A LUA, que é a própria imagem do capricho, olhou pela janela enquanto dormias em teu berço, e disse consigo mesma: — “Esta criança me agrada.”

E desceu  maciamente a sua escada de nuvens, e deslizou sem ruído através das vidraças. E pousou sobre ti com um suave carinho de mãe, e depôs as suas cores em tuas faces. Então, tuas pupilas se fizeram verdes, e tuas faces extraordinariamente pálidas. Foi contemplando essa  visitante que os teus olhos se dilataram de modo tão estranho; e ela com tão viva ternura te apertou a garganta que ficaste, para sempre, com vontade de chorar.

Entretanto, na expansão da sua alegria, a Lua invadia todo o quarto, como uma atmosfera fosfórica, como um peixe luminoso; e toda esta luz viva pensava e dizia:

— Tu sofrerás para sempre a influência do meu beijo. Serás bela à minha maneira. Amarás o que eu amo e o que me ama: a água, as nuvens, o silêncio e a noite; o mar imenso e verde; a água informe e multiforme; o lugar onde não estiveres; o amante que não conheceres; as flores monstruosas; os perfumes que fazem delirar; os gatos que desfalecem sobre os pianos e gemem como as mulheres, numa voz doce e enrouquecida!

“E tu serás amada pelos meus amantes, cortejada pelos meus cortejadores. Serás a rainha dos homens de olhos verdes a quem também estreitei a garganta em minhas carícias noturnas; daqueles que amam o mar, o mar imenso tumultuoso e verde, a água informe e multiforme, o lugar onde não estão, a mulher que não conhecem, as flores sinistras que sugerem incensórios de alguma religião ignota, os perfumes que turbam a vontade, e os animais selvagens e voluptuosos que são os emblemas da sua loucura.”

E é por isso, maldita e querida criança mimada, que estou agora prosternado a teus pés, buscando em toda a tua pessoa o reflexo da terrível Divindade, da fatídica madrinha, da ama-de-leite envenenadora de todos os lunáticos.