LANÇAMENTO DO LIVRO “O VOO DAS PALAVRAS CANTADAS”, DE CARLOS RENNÓ
6 de agosto de 2014

Carlos Rennó_O voo das palavras cantadas

(Na foto, a capa do livro “O voo das palavras cantadas”, de Carlos Rennó, editora “Dash”.)
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prezados,

no dia 14 de agosto (quinta-feira), a partir das 19h, na livraria argumento, no leblon (rio de janeiro), o meu querido amigo, o jornalista poeta letrista tradutor & pesquisador musical carlos rennó, lança o seu livro intitulado “o voo das palavras cantadas”, pela editora dash, ao custo de R$ 42,00.

o livro é uma reunião de textos sobre canção que priorizam, dão maior ênfase à poesia da música popular.

como bem anuncia o grande rennó:

 

“Em foco, as obras de grandes compositores-letristas surgidos na primeira metade do século vinte (Orestes Barbosa, Noel, Lamartine, Caymmi; Gershwin, Porter, Berlin); nos anos 1960 (Caetano, Gil, Chico, Tom Zé, Dylan, Lennon etc.); as relações entre poesia literária e de canção; Vinicius; além de uma diversidade de criadores — de Itamar aos Racionais, Peninha a Aldo Brizzi.”

 

a partir das 21h, pocket show com lívia nestrovski & fred ferreira.

abaixo, aos senhores, os textos escritos (só por craques!) à introdução da obra.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: O voo das palavras cantadas. autor: Carlos Rennó. editora: Dash.)

 

 

INTRODUÇÃO

“Um Catulo da canção”

 

O poeta-crítico Carlos Rennó escolheu, para ser fertilizado com seu talento e empenho, o terreno da canção popular. Interessado fundamentalmente em poesia, e convicto de que “é possível se fazer poesia de verdade a partir da conjugação de letras e músicas”, situa-se e transita, de modo tão à vontade como é possível apenas a quem conhece o ofício “desde dentro”, no profundo e pleno vale da palavra cantada, área antiga de confluência — que já foi inseparabilidade — de duas artes irmãs.

Quando comenta letras, composições, compositores ou intérpretes, Rennó o faz como criador que é, dedicado prioritariamente à realização ou ao reconhecimento da “correspondência sempre desejável […] que se pode instaurar entre as frases verbais e musicais”. De certo modo, toda a sua ação, tanto criadora como crítica, volta-se ao “casamento, enfim, de letra e música” e, particularmente, aos “instantes em que uma e outra coisa parecem falar exatamente a mesma linguagem”: para ele, a canção é uma “arte em que palavras e sons devem dizer o mesmo, traduzindo-se”.

Tal encontro buscado reflete-se em outros encontros, realizados: no próprio conteúdo deste livro, em que a reflexão, a sensibilidade e a criação se conjuminam; na noção de poesia que impregna a obra, orientada pela ideia da relação entre som e sentido; nas atividades artísticas do autor, letrista e versionista, poeta que recria como quem cria, e cria como quem recria (cioso da necessidade de diálogo com as tradições e invenções referenciais); ou em sua procura da dissolução dos limites entre o alto e o baixo repertórios e entre a cultura “erudita” e a “popular”: nesse sentido, Carlos Rennó escolheu — para jogar e ser craque — o campo em que a poesia de nosso tempo (e de outros tempos) alcança, no mais amplo público, sua presença plena e indistinta.

Neste trabalho (de um Catulo, ao mesmo tempo latino e Da Paixão), documento de uma vida de elaboração e labor, muito se poderá colher — como fruta madura a ser apreciada — de quase tudo sobre a arte da palavra e da palavra cantada.

Marcelo Tápia (poeta e ensaísta)

 

*

“Erudição popular, leveza e seriedade” 

 

História descontínua da canção popular brasileira e farta fatura do percurso crítico de seu autor, são os dois eixos principais deste livro: a afirmação do valor da invenção e o privilégio dado às obras em que as letras de canção, sem deixar de servirem às melodias com eficácia, ultrapassam-nas, planando no céu da autossuficiência — eis o voo da palavra cantada.

Tomando como modelo crítico os concretistas e Pound, sua matriz valorativa, Carlos Rennó é alheio, entretanto, àquela hybris vanguardista drástica, capaz de ver muito mais e um pouco menos ao mesmo tempo. Sua abertura irrestrita permite-lhe compreender fenômenos estéticos para além dessa matriz, sem preconceitos, mas também sem condescendências.

No fundo de tudo, a convicção de que a canção popular é a gaia ciência capaz de aliar invenção e mercado, vanguarda e massas. Daí o permanente contraponto entre as canções brasileira e americana, lugares máximos desse cruzamento de linguagens.

Sempre atento aos lances de isomorfia das canções — o hoje desvendado mistério de que falava Augusto de Campos —, os textos de Rennó são eles mesmos isomórficos, apresentando qualidades análogas às de seu objeto cultural: erudição popular, alta informação sem esforço, seriedade da leveza e leveza da seriedade.

Francisco Bosco (ensaísta e letrista)

 

*

“A sofisticação da poesia da canção”

 

Carlos Rennó é letrista com uma vasta folha de serviços prestados à canção brasileira. Parceiro de muitos e autor de algumas pérolas a quatro mãos com Arrigo Barnabé, Gil, Lenine ou Chico César, Rennó agora surge com esta boa nova surpresa: pequenos ensaios cujo foco principal é a poesia da canção, em toda a sua sofisticação e magnitude, fazendo ruir o tolo Fla-Flu entre poesia literária e letra de música, discussão que até hoje ocupa espaço nos debates culturais, seja na mesa do bar ou no simpósio acadêmico.

A ênfase de Rennó é no emaranhado de possibilidades criativas e soluções estéticas (instintivas ou calculadas, não importa) que os cancionistas / poetas trazem em sua bagagem. E seu olhar analítico é de um rigor microscópico: “Depois, quase no final, temos essa marcada e marcante sucessão de tês, além de dois efes”, frisa ele, ao discorrer sobre o emprego de aliterações na obra inicial de Chico Buarque (neste caso em especial, fala de “Pedro Pedreiro”).

Assim é Rennó, meticuloso em sua busca sherlockiana pelas tramas e mistérios da música popular — alguns / algumas insondáveis. Instigar é seu papel, e seu objeto de estudo são os grandes craques da canção. Orestes Barbosa, Caymmi, Mautner, Tom Zé, Ira Gershwin e Irving Berlin, entre outros poucos, estão neste seleto escrete.

As palavras cantadas voam longe, Rennó sabe.

Zeca Baleiro (cantor e compositor)

 

*

“Atenção concentrada, cuidadosa e amorosa”

 

Conheço Carlos Rennó há mais de 30 anos e, desde então, me impressionam os seus olhos fundos que, na verdade, depois entendi, significam que sua atenção, para com as coisas para as quais eles se voltam, é sempre concentrada, cuidadosa e amorosa.

Seja nos seus artigos para jornais e livros, sobre música, poesia, cantores, compositores e poetas, seja nas suas letras de canções ou nas suas versões de standards da canção norte-americana, percebe-se o mesmo cuidado. E esse cuidado começa com o uso sempre correto e consciencioso da nossa língua. E é isso tudo que se pode ver neste livro.

Há alguns anos, ele me deu o prazer de escrever o release de imprensa de meu disco Sobre as Ondas e, ali, com as qualidades de sempre de seu texto, ele destacou, no meu estilo de compor e fazer discos, características nunca antes notadas. Também, por isso, espero que este pequeno comentário possa retribuir um pouco da alegria que ele me deu ao escrever aquelas palavras.

Péricles Cavalcanti (cantor e compositor)

 

*

“Uma lupa rigorosa e minuciosa”

 

Conheço Carlos Rennó da época do Lira Paulistana, aquele teatro, etc… Música, festas, vida, trabalho. “Ah, o Rennó faz letras e macrobiótica”, dizíamos. Com o tempo aprendi que o Rennó… faz. Quando o vi brilhando com “Escrito nas Estrelas”, torci junto. Quando lançou Cole Porter — Canções, Versões, torci mais ainda. Vibrei quando ele induziu Itamar Assumpção a cantar Ataulfo Alves. Não sou bom em poesia, fanopeia, melopeia, logopeia. No máximo, Sesc Pompeia. Mas havia algo naquele cara. Trabalhando com ele, entendi que era rigoroso. Lendo-o, percebi que era minucioso, pesquisador, sério. Passei a ouvir o que não havia visto até então. Seu texto é uma lupa macrobiótica que permite dezenas, quiçá centenas, de mastigações de cada palavra, rimas, intenções. E mais, revela o interesse, saudável interesse, em mostrar um pouco disto que chamamos de vida. A reunião de suas matérias, seus escritos, já se fazia imprescindível. Elas juntas num só ser.

Luiz Chagas (músico e jornalista)

ABANDONO
2 de agosto de 2012

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situações de puro abandono: a improdutividade:

o leitor abre & fecha um livro após o outro, sem ler deles mais do que um parágrafo: nada engrena, nada tem graça, todos os livros são chatos — uma depressão semiológica, isto é, uma depressão relacionada à semiologia, relacionada à semiótica.
 
(semiologia: semiótica: numa acepção genérica, o termo indica uma teoria geral das representações, uma reflexão um tanto sistemática sobre os signos — sobre os símbolos —, suas classificações, as leis que os regem, seus usos na comunicação. a semiótica é uma teoria que leva em conta os signos sob todas as formas & manifestações que assumem — lingüísticas ou não.)
 
(a depressão semiológica é uma depressão relacionada aos símbolos; a linguagem é simbologia; portanto, neste caso específico, depressão ligada aos símbolos lingüísticos, depressão ligada às palavras.)
 
cuidado: alerta: (a tal depressão semiológica) pode decorrer de uma compreensão equivocada de homeostase criativa (homeostase: estado de equilíbrio das diversas funções & composições químicas do corpo), isto é, a tal depressão semiológica pode decorrer de uma compreensão equivocada do estado de equilíbrio das diversas funções & composições da criação (do ser que a anima):
 
descansar para repôr forças. repousar a fim de que a força criativa retorne com todo o gás.
 
no entanto, essa compreensão de homeostase criativa (descansar para repôr forças) revela, no corpo, entranhas dialéticas: coisa muito comum no espaço literário: quanto mais se escreve, quanto mais se pratica, maior a vontade de escrever; quanto menos se escreve, quanto menos se pratica, menor a vontade de escrever. isto é: quanto mais se produz, mais se tem força; quanto mais se descansa, mais se fica cansado.
 
descansar para repôr forças pode ser um grande perigo…
 
não falo de “ociosidade” — o ócio é um vazio fértil —, mas de improdutividade: o deserto deserto.
 
a improdutividade: nada engrena, nada tem graça, todos os livros são chatos: uma depressão semiológica: olhos estragados: dias em slow motion.
 
lutar (contra esse estado)? resistir (a esse estado)?
 
chega um momento que não. que não adianta lutar, que não adianta resistir.
 
não adiantando peleja contra a depressão semiológica, o jeito é entregar-se ao fatalismo russo (fatalismo herdado da literatura russa): deite-se na cama & deixe a neve, o torpor de tal estado (o torpor da depressão semiológica), cobrir o seu corpo.
 
situações de puro abandono: no meio da tarde:
 
o leitor não cede. insiste na mesma página por cujas letras o sono escala até os olhos, e uma vez aí entrando (nos olhos), o sono apaga todas as luzes (o leitor se dá conta de que é a terceira ou quarta vez que leu a mesma página sem nada poder reter).
 
o leitor entrega os pontos: cruza os braços sobre o livro, fecha os olhos & adormece.
 
acorda, atordoado, (por sobre o livro) e recomeça a leitura, com um incêndio na testa & um formigueiro nos braços.
 
um incêndio na testa: o fogo da criação. um formigueiro nos braços: o desejo de apreensão daquilo que se lê. 
 
recomeçar a leitura com um incêndio na testa & um formigueiro nos braços: sintomas decorrentes do sono do leitor por sobre o livro (o leitor sentado em sua mesa de estudos), com os braços cruzados & a testa caída por sobre os braços cruzados, testa que pressiona os braços, causando, nela (na testa), a sensação de ardência (de incêndio), e causando, nos braços, uma ligeira dormência, dormência que deflagra a sensação de formigamento.    
 
situações de puro abandono (literário): situações que acontecem ao mais aplicado leitor.
 
o lance é deixar ser & não desesperar (rs).
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Da amizade. autor: Francisco Bosco. editora: 7Letras.)
 
 
 
A IMPRODUTIVIDADE
 
 
1. O leitor abre e fecha um livro após o outro, sem ler deles mais do que um parágrafo:
 
2. nada engrena, nada tem graça, todos os livros são chatos
 
3. — uma depressão semiológica.
 
4. Alerta: pode decorrer de uma compreensão equivocada de homeostase criativa
 
5. — descansar para repôr forças —
 
6. anunciando perigosamente no corpo entranhas dialéticas:
 
7. quanto mais se produz, mais se tem força; quanto mais se descansa, mais se fica cansado.
 
8. A tradução, talvez, apropriada para o désoeuvrement de que fala Blanchot
 
9. (cf. O espaço literário):
 
10. não “ociosidade” — o ócio é um vazio fértil —, mas improdutividade, o deserto deserto.
 
11. Olhos estragados.
 
12. Dias em slow motion.
 
13. Lutar? Resistir? Chega um momento que não
 
14. — fatalismo russo: deite-se na cama
 
15. e deixe a neve cobrir o seu corpo.
 
 
 
NO MEIO DA TARDE
 
 
O leitor não cede. Insiste
na mesma página — que,
 
dá-se conta, é a terceira
ou quarta vez que já leu,
 
sem nada poder reter —,
por cujas letras o sono
 
até os olhos escala,
e uma vez aí entrando,
 
todas as luzes apaga.
O leitor entrega os pontos:
 
cruza os braços sobre o livro,
fecha os olhos e adormece.
 
Acorda, atordoado,
e recomeça a leitura
 
com um incêndio na testa
e um formigueiro nos braços.

O LEITOR
6 de agosto de 2011

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o leitor se depara com uma antiga anotação sua à margem de um livro:
 
é como ouvir a própria voz no gravador, como ver a própria imagem na televisão — uma estranha familiaridade.
 
uma estranha familiaridade: pois a antiga anotação está paralisada, suspensa, gravada, no tempo. diferentemente do leitor, ser em eterna mutação, ser que nunca é aquilo que foi.
 
a antiga anotação revela, somente, o antigo leitor, o leitor que foi, não o leitor que “é”.
 
o antigo leitor é como um espectro, uma imagem separada, descolada, do leitor que “é”; assim como a imagem na televisão não é, apenas representa, a pessoa que reflete aquela imagem; assim como o som da voz no gravador não é, apenas representa, o som que reverbera aquela voz contida em alguém.
 
uma antiga anotação à margem dum livro lido: estranha familiaridade.
 
as anotações à margem de um livro revelam a intimidade do leitor — nunca a do livro.
 
o livro não precisa ser revelado. a obra é o que as linhas contêm e não o que se entende das linhas. o que se entende das linhas revela o olhar do leitor sobre as linhas, as anotações revelam, portanto, a intimidade do leitor.
 
o leitor que “é”, na presença das anotações que representam o leitor que “foi”, isto é, o leitor que “é”, na presença das anotações que representam o “outro” — o leitor anotado.
 
o leitor que “é” (sujeito anotador) a observar o leitor que “foi” (sujeito anotado), a observar o “outro”, a observar o “quanta besteira…”, a observar o “que ridículo!”, a observar o sujeito anotado, sujeito de que não gosta, ou sujeito que, simplesmente, o leitor que “é” não reconhece.  
 
o sujeito anotador pode não reconhecer o sujeito anotado.
 
o sujeito anotador pode renegar o sujeito anotado por não mais se reconhecer ali.
 
a olhos alheios, olhos que não os do sujeito anotador, a olhos de terceiros, o texto sublinhado ou as palavras-chave à margem de um parágrafo escondem a voz do sujeito anotador, protegendo a sua intimidade; pois, a olhos alheios, não fica esclarecido o que querem dizer as palavras-chave nas passagens grifadas.
 
mas basta a voz do leitor em contato com a voz do sujeito anotado para, no livro, o corpo inteiro do leitor, desnudado, pelado; às vistas, tudo o que são as anotações à margem do parágrafo, às vistas, tudo o que, em suma, representa o corpo do sujeito anotado.
 
o sujeito anotador enxerga, com o seu olho de raio-x, o que está por trás das palavras-chave, dissecando, desse modo, o corpo inteiro, pelado, do sujeito anotado.
 
ainda que olhos alheios, ainda que olhos de terceiros, não entendam o que, ao certo, querem dizer as anotações, emprestar um livro a um amigo é sempre “uma questão”…
 
(as anotações revelam a intimidade do leitor.)
 
quando o leitor, habituado a sublinhar o texto, é impedido de fazê-lo — porque se trata de um livro de amigo ou de biblioteca —, percebe alguma coisa lhe escapando — e não são as idéias, que, num caso de livro emprestado, são anotadas em fichas, mas o próprio livro. porque o leitor, habituado a sublinhar e a escrever palavras-chave à margem do parágrafo, rabisca, desse modo, o livro, para ter a ilusão de olhá-lo na estante e, ao mirá-lo, pensar bem satisfeito: “já o li”.
 
a ilusão de pensar que já o leu: pois um instante bastaria, caso o leitor abrisse o livro a fim de ler os seus rabiscos, para na página se espelhar um rosto totalmente deformado, diferente do seu rosto atual.
 
(o sujeito anotador versus o sujeito anotado.)
 
o fato é que: o sonho de ver o livro na estante, rabiscado, repleto de anotações, como “lido”, se verdade fosse, no fundo, seria um grande pesadelo. significaria que o leitor, vendo o seu rosto refletido no rosto do sujeito anotado por todo o sempre, não opera transformações, significaria que o leitor não opera mudanças.
 
(a natureza do sujeito anotado diverge da natureza do sujeito anotador.)
 
(enquanto um — o sujeito anotado — se cristaliza, o outro — sujeito anotador — se transmuta.)
 
pensa o leitor numa existência sem mudanças, pensa o leitor numa existência sem transformações: a casa cheia de espelhos planos (espelhos planos espalhados por entre as páginas dos livros), refletindo o seu sempre mesmo rosto.
 
assim, o leitor enxerga o pesadelo que é o sonho, e, súbito, deseja vestir-se de mulher no carnaval (nem que seja no carnaval, travestindo-se de mulher, mas alguma transformação deve ser feita, algum transformismo realizado…).
 
o leitor é um a cada único instante.
 
o leitor nunca é aquilo que, um dia, foi.
 
o “leitor de si”, idem.
 
o leitor de si: o escritor.
 
o escritor é o primeiro leitor dos seus escritos.
 
o leitor de si (o escritor) vive num pêndulo, de um lado ao outro: vai do entusiasmo (com os escritos) à depressão, do prêmio (que a obra merece) ao fracasso (que a obra merece), do livro (a publicação que os escritos merecem) ao nada (o engavetamento dos escritos, para que ninguém os conheça), em intervalos de inexplicáveis dias.
 
o leitor de si, por ser o seu primeiro leitor, é um crítico, o leitor de si julga, aos seus olhos, a sua obra.
 
todo bom escritor, conseqüentemente, é um bom leitor, o que significa dizer: um bom crítico (assim como todo bom cantor é um bom ouvinte, e todo pintor de talento, um apreciador das belas telas).
 
em decorrência do seu aguçado senso crítico em busca de um claro juízo, o leitor de si se lê seguidamente. de tanto ler-se, acaba por não mais conseguir juízo algum sobre a sua obra. são tantos os prós & tantos os contras, e instáveis, que, depois de dezenas de revisões, o leitor de si acaba perdido — a certa altura o texto perde todo o significado.
 
inseguro, o leitor de si pede uma opinião sincera aos amigos de ofício, amigos a quem o leitor de si rende as mais altas loas em razão dos seus últimos escritos.
 
contudo, a insatisfação, a inquietação & a ansiedade do leitor de si, estados que o levam ao estado de pêndulo (uma hora, bem, outra hora, mal), acabam por transformar todo & qualquer leitor (dos seus escritos) em suspeito:
 
se o amigo-leitor aprova os escritos é porque, cumplicidade, são amigos; se o amigo-leitor critica os escritos é porque, rivalidade, são amigos; se o amigo-leitor se mostra ambígüo, se se mostra vago, indefinido, é porque — eufemismo — são amigos.
 
não há resposta que satisfaça o leitor de si.
 
na relação entre o leitor de si & os seus escritos não existe rival maior que: 
 
a folha branca.
 
 
 
 
para o leitor de si não existe pior inimigo que a folha vazia, imóvel, impassível, dentro da sua austeridade branca, encarando-o, sem a mínima compaixão por ele.
 
é uma luta que se trava com o papel em branco; mais que o apito ou o tiro anunciando o embate, o gongo, instrumento percussivo que marca o início ou o término de uma luta no ringue.
 
e a luta começa. diante do papel oco, horas de concentração máxima, em busca das palavras exatas.
 
nessa luta em caçar palavras, o ouvido permanece colado à folha branca, e, desse modo, é possível ouvir o tropel longínqüo da História: a história dos versos ao longo dos tempos, a história dos versos ao longo da história humana, aglutinada, aglomerada, pulsando no íntimo da folha branca, a história da poesia condensada no dentro do papel vazio, pulsando tudo o que foi feito (em termos poéticos, ao longo das sociedades humanas) e o que ainda está por vir — nas mãos do poeta, em luta no ringue.
 
na folha branca, lutam a medusa (ser mitológico que, através do seu olho cego, cega quem a olhe) & as sereias (seres mitológicos que enfeitiçam aqueles que ouvem os seus belos cantos). na folha branca, lutam a força que paralisa & petrifica ao seu olhar cego e o canto que sopram as sereias, para dentro da página.
 
nesta luta, qual seria o “papel” do poeta?
 
o papel do poeta: entrar com o seus olhos & ouvidos a fim de captar aquilo que, no ringue-papel, pulsa, aquilo que, na arena de luta, lateja: o poema.
 
o poema, ventado pelas musas.
 
as musas: para apreendê-las, um pequeno manual do ócio, pequeno manual com três movimentos de uma hecatombe, de um acontecimento grandioso no seu barulho surdo, duma catástrofe, doméstica:
 
saturar as horas;
 
deixar crescer as unhas;
 
escutar com os pés.
 
movimentos que exigem atenção redobrada, concentração aguda, altíssimo silêncio.
 
(poemas são presentes para atentos. há que saber ouvi-los para que pousem à página.)
 
dão um boi (as musas) para não aparecer, e uma boiada para não ir embora.
 
(as musas demoram a aportar; não são fáceis, são exigentes ao extremo. porém, quando consentem a sua visita, ficam no encalço do poeta o tempo necessário para que este as lance ao mundo exatamente como são: como musas.)  
 
na presença delas não se consegue ler. são exigentes ao extremo (as musas). o centro da atenção ordenam que sejam elas.
 
embora as musas murmurem sempre algo que, indistinto (o embrião do poema), o que murmuram parece ser mais interessante que qualquer livro.
 
têm a distância por norma (elas não são de muita intimidade, elas são chão árido, chão árduo), mas, quando presentes, fazem, do impossível, possível: vazios, números, aspas, tudo ganha conteúdo, tudo ganha forma, ganha projeção:
 
tudo é poesia.
 
(aproveitem a presença das musas em suas vidas! 
 
comemorem comigo a existência deste espaço, que, neste dia 06 de agosto, completa os seus 2 anos de existência!)
 
beijo todos!
paulo sabino. 
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(do livro: Da amizade. autor: Francisco Bosco. editora: 7Letras.)
 
 
 
O OUTRO
 
 
1. O leitor se depara com uma antiga anotação sua à margem de um livro:
 
2. é como ouvir a própria voz no gravador
 
3. ou, pior, ver a própria imagem na televisão
 
4. — uma estranha familiaridade.
 
5. As anotações revelam a intimidade do leitor
 
6. nunca a do livro.
 
7. O sujeito anotado, aos olhos do sujeito anotador: o outro, o “quanta besteira…”, o “que ridículo!”.
 
8. (Ou simplesmente — o irreconhecível.)
 
9. Sublinhar o texto — ou escrever palavras-chave à margem de um parágrafo — protege a intimidade do leitor, escondendo sua voz
 
10. (não se sabe ao certo o quê naquela passagem) 
 
11. mas basta a voz do leitor para, no livro
 
12. — foto, flash, flagra —
 
13. seu corpo inteiro, pelado.
 
14. …um amigo pede um livro emprestado…
 
 
 
TRANSFORMISTA
 
 
Pior do que romance xerocado
— existe alguma coisa mais sem charme? —
 
é o livro que se toma por empréstimo
a um amigo, ou à biblioteca,

depois do implacável “esgotado”.
Habituado a sublinhar o texto,

o leitor, impedido de fazê-lo,
quer seja por pudor, ou obscura

certeza de que nada adiantaria,
percebe alguma coisa lhe escapando

— e não são as idéias, anotadas
em fichas, mas o próprio livro, que

(diante dessa falta ele conclui)
por isso no limite se rabisca:

para se ter a ilusão de olhar
o livro na estante e, ao mirá-lo,

pensar bem satisfeito — “já o li” —
mantendo-o, entretanto, bem fechado,

pois um instante apenas bastaria
para na página se espelhar

um rosto totalmente deformado,
e o sonho da estante viraria

o pesadelo da biblioteca,
não fosse o fato de que o próprio sonho

seria um pesadelo, se verdade:
a casa cheia de espelhos planos

(pensa o leitor, e súbito deseja
vestir-se de mulher no carnaval).

 
 
 
O LEITOR DE SI
 
 
1. O leitor de si vive em um pêndulo:
 
2. vai do entusiasmo à depressão, do prêmio ao fracasso, do livro ao nada
 
3. — em intervalos de inexplicáveis dias.
 
4. O leitor de si é seu primeiro leitor;
 
5. por isso todo escritor é crítico — embora não seja, necessariamente, um crítico — e por trás de um bom escritor há sempre um bom leitor.
 
6. A primeira leitura, no ato da escrita, se dá em boas condições críticas, pois não se conhece bem o que se está a escrever;
 
7. depois tudo se complica: o leitor de si é aquele que lerá dezenas de vezes o que já conhece, e por essa razão é tão difícil de ler.
 
8. O leitor de si se lê seguidamente, em busca de um juízo claro
 
9. — ao contrário: como acontece com as palavras repetidas, a certa altura o texto perde todo significado.
 
10. Inseguro, o leitor de si pede uma opinião sincera aos amigos
 
11. (não sem antes, é claro, exaltar-lhes os últimos escritos):
 
12. se aprovam, é porque — cumplicidade — são amigos;
 
13. se criticam, é porque — rivalidade — são amigos;
 
14. se ambígüos, é porque — eufemismo — são amigos;
 
15. se demoram, é porque — paranóia — não gostaram.
 
16. Todos os leitores são suspeitos.
 
 
 
A FOLHA BRANCA
 
 
1. Mais uma vez um poema, e a promessa de apagar as fronteiras
 
2. — entre mim e o quê?
 
3. Para Cisneros as primeiras palavras lançadas devem ser exatas.
 
4. A tática: não deixar crescer o moral do adversário.
 
5. Por que a folha, não a tela?

6. Para manter a escrita aberta por mais uma etapa;

7. porque da folha à tela ganha-se alguma distância de si.

8. Mais que apito ou tiro: gongo.

9. (Há os que só lutam quando são chamados;

10. há os que só quando bem preparados;

11. há os que sem luva — à mão livre, nua.)

12. Quando se cola o ouvido à folha branca, escuta-se um tropel longínqüo: o rumor da História.

13. Na folha branca lutam a Medusa e as Sereias

14. — entro com meus olhos e ouvidos.

 
 
 
AS MUSAS
 
 
1. Pequeno manual do ócio
 
2. (ou, três movimentos de uma hecatombe doméstica):
 
3. saturar as horas
 
4. deixar crescer as unhas

5. escutar com os pés.

6. “Poemas são presentes para os atentos”.

7. Dão um boi para não aparecer, e uma boiada para não ir embora.

8. Não se consegue ler na presença delas;

9. pois estão sempre murmurando algo que, embora indistinto, parece ser mais interessante que qualquer livro.

10. Têm a distância por norma

11.

12.

13.

14. mas quando estão perto: números, aspas, vazios — tudo torna-se forma.