F. PESSOA SOBRE F. NIETZSCHE
18 de novembro de 2009

Senhores,
 
Os trechos seguem porque, de vez em quando, ao conversar com queridos amigos, estes suscitam vários dos meus questionamentos e questões.
 
Às vezes, percebo que um leitor “leigo”, ao ler um clássico ou autor reconhecido pela “intelectualidade acadêmica”, tende, pode tender, a concordar com TUDO o que dizem as linhas, por sentir o peso do respeito que o “nome” pode ter, como se tudo o delineado fossem dogmas, conceitos com os quais deve-se concordar, como se os conceitos, no livro, fossem sagrados, como se o livro fosse um “livro sagrado”, qual a Bíblia para os cristãos.
 
Só que devemos ter em mente, ao ler qualquer autor, que ele, por mais brilhante, inteligente e divisor de águas que seja, em determinados aspectos pode cometer alguns equívocos, enunciar idéias que mereçam refutação. É o caso, ao meu ver, de quase todos, senão de todos, os autores das Ciências Sociais e Filosofia.
 
Nietzsche, grande filósofo, extraordinário pensador, não foge à regra. Contribuiu muito com a sua obra, defendendo o uso da razão crítica e a extinção do que se projete de forma obscurantista, como ocorre com as religiões cristãs e seus preceitos. Todavia, ao mesmo tempo, junto com as infinitas e imprescindíveis contribuições e achados, eu, por exemplo, lendo alguns trechos de textos ou textos inteiros, possuo uma penca de críticas e reavaliações, uma série de discordâncias.
 
O que pretendo com este texto é somente alertá-los para o fato de que, por mais bacana, respeitado, unânime e bem intencionado o autor, a sua obra deve ser lida com o senso crítico em puro estado de atenção, porque ninguém está aqui, neste mundo, para escrever “bíblias”, isto é, para escrever livros que não possam ser contestados (contestados completamente ou em determinadas idéias), “livros-dogmas”. Afinal, como reter a verdade no olhar?  
 

Por isso, para ilustrar o que escrevi, trago trechos de três textos do genial Fernando Pessoa, apresentados a mim pelo meu super “guru” Antonio Cicero, algumas verificações do bardo, com as quais concordo inteiramente, sobre o pensador em questão. 

Entendam, queridos: não estou, nem desejo, não é esta a intenção, diminuir a importância de nada nem de ninguém, e sim salientar que as leituras, por mais pertinente o assunto, devem ser feitas com cuidado e senso crítico aguçados. Isso tem a ver com a formação nossa, com a construção nossa, com a estruturação das nossas personas.
 
Ronaldo Pelli, meu queridíssimo amigo, meu amado, o Nietzsche, na minha cuca, devo a você, devo a uma conversa que mantivemos há um bom tempo sobre ele. 
 
Beijo em todos!
O preto.
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“‘A alegria’, diz Nietzsche, ‘quer eternidade, quer profunda eternidade’. Não é nem nunca foi assim: a alegria não quer nada, e é por isso que é alegria. A dor, essa, é o contrário da alegria, como a concebia Nietzsche: quer acabar, quer não ser. O prazer, porém, quando o concebemos fora da relação essencial com a alegria ou com a dor, como o concebe o autor deste livro, esse, sim, quer eternidade; porém quer a eternidade num só momento”.

De: PESSOA, Fernando. “Antônio Botto e o ideal estético em Portugal” (1922). In: Textos de Crítica e de Intervenção. Lisboa: Ática, 1980.
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“O ódio de Nietzsche ao cristianismo aguçou-lhe a intuição nestes pontos. Mas errou, porque não era em nome do paganismo greco-romano que ele erguia o seu grito, embora o cresse; era em nome do paganismo nórdico dos seus maiores. E aquele Diónisos, que contrapõe a Apolo, nada tem com a Grécia. É um Baco alemão. Nem aquelas teorias desumanas, excessivas tal qual como as cristãs, embora em outro sentido, nada devem ao paganismo claro e humano dos homens que criaram tudo o que verdadeiramente subsiste, resiste e ainda cria adentro do nosso sistema de civilização.”

De: PESSOA, Fernando. “Prefácio de Ricardo Reis”. In: Páginas íntimas e de auto-interpretação. Lisboa: Ática, 1996.

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“O próprio Nietzsche asseverou que uma filosofia não é senão a expressão de um temperamento.
Não é assim, suficientemente. As teorias de um filósofo são a resultante do seu temperamento e da sua época. São o efeito intelectual da sua época sobre o seu temperamento. Outra coisa não podia suceder (ser).
Assim, pois, a filosofia de Friedrich Nietzsche é a resultante do seu temperamento e da sua época. O seu temperamento era o de um asceta e de [um] louco. A sua época no seu país era de materialidade e de força. Resultou fatalmente uma teoria onde um ascetismo louco se casa com uma (involuntária que fosse) admiração pela força e pelo domínio. Resulta uma teoria onde se insiste na necessidade de um ascetismo e na definição desse ascetismo como um ascetismo de força e de domínio. Donde a assumpção da atitude cristã da necessidade de dominar os seus instintos, tornada aqui – mercê da contribuição fornecida pela loucura do autor – a necessidade de dominar toda a espécie de instintos, incluindo os bons, torturando a própria alma, o próprio temperamento (noção delirante).”

De: PESSOA, Fernando. Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1966.