LANÇAMENTO — UM PARA DENTRO TODO EXTERIOR (PAULO SABINO) — FLIP 2018
8 de maio de 2018

(O título do livro & o nome do autor)

(A dedicatória do livro)

(Mensagem do Cicero, que assina a orelha do livro)

(Mensagem da Nélida, que assina um dos textos de apresentação do livro)
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Ele está aqui, na companhia do papai, sendo gestado, preparado, ganhando forma, peso, desenvolvendo-se de maneira muito bonita. Ainda não nasceu, ele chega ao mundo no fim de julho, mas papai já é puro orgulho! Expectativa & ansiedade a mil, não vejo a hora de parir o meu rebento poético, meu livro de estreia na poesia!

Um para dentro todo exterior, nome da cria, ganha o mundo dia 26 de julho (quinta-feira), na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que este ano homenageia a mestra, poeta por quem sou absolutamente apaixonado, Hilda Hilst.

Depois do lançamento na Flip, realizo um outro, em agosto (a previsão é de 2 semanas depois da festa literária), na minha cidade, no Rio de Janeiro, na livraria Blooks, localizada na praia de Botafogo. Mais à frente, volto com maiores informações.

Um para dentro todo exterior consta de 42 poemas.

Aqui, embaixo, as pessoas que tenho que agradecer neste momento de gestação:

Pintura da capa: Chico Lobo
Foto da capa e do autor: Thiago Facina
Texto da orelha: Antonio Cicero
Texto da contracapa: Antonio Carlos Secchin
Textos de apresentação (prefácios): Salgado Maranhão e Nélida Piñon
Assessoria de imprensa: Belmira Comunicação
Selo: Bem-Te-Li (Editora: Autografia)
Coordenação do selo: Paulo Sabino e Cris Maza

Tenho que confessar a vocês que, hoje em dia, depois de receber todos os textos que tratam do livro, eu estou mais encantado pelos textos sobre o livro do que com o livro propriamente. Não é que eu considere o livro ruim — muito pelo contrário, amo o meu livro, gosto demais dele —, é que os textos sobre o livro foram escritos por pessoas da minha mais alta admiração. Então me é uma alegria imensa ler o que essas pessoas enxergaram do livro.

Espero a presença de vocês em algum dos lançamentos.

De brinde, um poema — dos tantos & tantos que amo — da grande homenageada da festa literária de Paraty.

Beijo todos!
Paulo Sabino.

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(do livro: Da poesia. autora: Hilda Hilst. editora: Companhia das Letras.)

 

 

I

 

Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse

Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.

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DO DESEJO
24 de março de 2015

Flor de mandacaru

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porque há desejo, porque há arbítrio, porque há querer, porque há vontade, porque há apetite, na poeta, é tudo cintilância, é tudo resplandecência, é tudo luz viva, é tudo clarão.

um dia, a poeta despertou.

antes, o cotidiano da poeta era um pensar alturas, o cotidiano da poeta, antes, era o pensamento na esfera celeste, buscando “aquele outro” decantado, procurando “aquele outro” enaltecido, elogiado, puro, o cotidiano da poeta era, antes, catando “aquele outro” surdo à sua humana ladradura, “aquele outro” mouco ao seu latido humano.

“aquele outro” decantado, enaltecido, elogiado, puro, “aquele outro” que, antes, a poeta buscava: deus, criador das criaturas, arquiteto do universo, senhor nas alturas.

um dia, a poeta despertou.

hoje, o amor da poeta, de carne & osso, de visgo & suor, amor terreno, amor de amante, laborioso, lascivo, toma o seu corpo.

um dia, a poeta despertou.

a poeta, antes, sonhava penhascos, sonhava escalar alturas (buscando “aquele outro” decantado), quando havia o jardim, florido, aqui ao lado, ao alcance dos seus pés. a poeta, antes, pensou subidas onde não havia rastros — afinal, por qual caminho, por qual penhasco, subir aos céus a fim de encontrar “aquele outro” decantado? que rastro levaria a poeta ao encontro daquele que é surdo à sua humana ladradura?

um dia, a poeta despertou.

hoje, extasiada do seu amor, a poeta fode com ele — visgo & suor, que nunca se faziam, hoje se fazem — ao invés de ganir diante do nada, ao invés de grunhir diante daquele que, supostamente, se encontra apenas nas alturas, por sobre subidas & penhascos, surdo à sua humana ladradura, deus mouco ao seu latido humano.

um dia, a poeta despertou.

hoje, dedica-se ao seu amor, terreno, amor de amante, de carne & osso, de visgo & suor: colada à boca do amado, a desordem da poeta, que é o seu vasto querer, querer que, de tão vasto, de tão amplo, de tão ancho, abriga a desordem, a indisciplina, a confusão, a incoerência, a alucinação, a loucura.

por causa do amado, por causa do amor que ama, o incompossível, o incompatível, o inconciliável (a desordem da poeta), se fazendo ordem.

colada à boca do amado está a poeta, mas descomedida, árdua, sôfrega (com o seu vasto querer, o seu amplo desejo), como se o amado fosse morrer colado à sua boca, querer afoito, desesperado, desembestado. como se, morrendo, o amado fizesse nascer a poeta de dentro de si. como se o amado fosse o dia magnânimo, o dia claro, o dia luminoso, o dia límpido, e a poeta, ao nascer, sorvesse extremada a luz do amante à luz do amanhecer, na luz que amanhece um novo dia.

colada à boca do amado está a poeta, e descomedida, árdua, sôfrega (com o seu vasto querer, o seu amplo desejo), examina o amado, construtor de ilusões: pois o amor do amado, tão intenso, tão imenso, deixa a impressão de que será eterno, quando, em verdade, como tudo na vida, um dia acabará, um dia morrerá, um dia extinguirá, queiram ou não queiram os amantes.

assim como o dia, o amado: um construtor de ilusões.

um dia, a poeta despertou.

esqueceu “aquele outro” decantado, enaltecido, elogiado, puro, aquele que não lhe dava ouvidos, e, hoje, dedica-se ao seu amor terreno, amor de amante, de carne & osso, de visgo & suor: colada à boca do amado, que é o dia magnânimo de onde nasce, de onde floresce, de onde desperta, a poeta está.

(a poeta fez do amor a sua casa, a sua morada.)

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Do desejo. autora: Hilda Hilst. editora: Globo.)

 

 

I

 

Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
Tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas. Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado.
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
Ao invés de ganir diante do Nada.

 

 

III

 

Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.

SENDO QUEM SOU, EM NADA ME PAREÇO
13 de setembro de 2013

Paulo Sabino ao pôr do sol

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para César Guerra Chevrand

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sendo quem sou, em nada me pareço.

sou tão diferente do que esta carcaça apresenta, que deveria ter aparência mais próxima à estranheza que me forma.

a aparência do paulo sabino não corresponde — exatamente — ao paulo sabino.

o que pensa, o que faz, o que fala, quando só, só pertence ao paulo sabino.

sendo quem sou, em nada me pareço: pois, ao mundo, aos senhores, pareço uma coisa sendo tantas outras…

desloco-me no mundo, transito pelos lugares, como os senhores vêem, ando a passos, com pés no chão, como todos os senhores, e tenho gestos & olhos convenientes, gestos & olhos de acordo com o que socialmente se ambiciona, gestos & olhos propícios ao convívio social, gestos & olhos adequados à normatização da vida, gestos & olhos à aceitação & aprovação alheias, gestos & olhos no intuito de integrar determinadas rodas sociais.

vivenciando assim a vida, desloco-me no mundo, isto é, no mundo me faço, me sinto, deslocado, coloco-me fora do lugar, coloco-me em contexto inapropriado, desafinado com o que realmente sou (para as pessoas, para o mundo, ando a passos, como toda pessoa comum, e tenho gestos & olhos convenientes).

sendo quem sou, não seria melhor ser diferente (ser fora do padrão, ser estranho às pessoas), e ter olhos a mais (como um ser fantástico, um ser das lendas), olhos visíveis, úmidos?

sendo quem sou, não seria melhor ser diferente: digo: ser diferente do diferente, ser diferente do que é diferente de mim & que, no entanto, os senhores entendem como o paulo sabino?

não seria melhor ser diferente & ter olhos a mais, olhos que, diferentes destes que tenho (que mascaram, que dissimulam, que encobrem o paulo sabino), fossem visíveis, olhos úmidos ao invés de secos (olhos que não revelam, olhos desidratados, vazios, sedentos)?

não seria melhor ser, ao invés de um tipo convencional, de um tipo adequado às rodas sociais, um pouco de tudo, não seria melhor ser um pouco de anjo & de duende? (duende: entidade fantástica, das lendas, que geralmente usa seus poderes em travessuras para assustar os habitantes de uma casa.)

cansam-me estas coisas que digo aos senhores.

são cansativas — estas coisas que digo aos senhores — porque, em mim, as paisagens se multiplicam, em mim as paisagens aumentam em quantidade, em mim, as visões, os panoramas, se multiplicam, e, multiplicando-se paisagens visões panoramas, o sonho nasce & tece ardis tamanhos, o sonho nasce & tece grandes armadilhas, o sonho nasce & tece astúcias perigosas.

é sonhando, projetando, desejando, que as esperanças — sejam no que for — são renovadas.

cansam-me as esperanças renovadas porque, uma vez renovadas, as esperanças fazem o verso no meu peito repetir-se.

o verso, no meu peito, repetido: verso de paisagens que se multiplicam, verso de sonho que nasce & tece ardis tamanhos, verso com desejo de ser diferente — pois sendo quem sou, em nada me pareço.

cansam-me estas vontades variadas, cansa-me ser assim quem sou agora: múltiplo, diverso, de formas avessas: planície/monte; treva/transparência.

são tantos em mim (tantas as formas), e, no entanto, tantos encobertos, tantos (em mim) longe dos olhos que não os do próprio paulo sabino.

(aos senhores, ao mundo, tenho gestos & olhos convenientes. aos senhores, ao mundo, reservo uma sanidade forjada.)

(de perto ninguém é normal.)

cansa-me ser assim quem sou agora: muitos & antagônicos: planície, monte, treva, transparência.

e cansa-me também o amor porque é centelha (partícula ígnea, partícula de fogo, de um corpo em brasa), cansa-me o amor porque é faísca, e queima, e arde, e exige posse & pranto, sal (das lágrimas) & adeus.

ao amor, a sua rima: dor.

o amor que não dói, que não machuca, que não dilacera, não é amor.

cansa-me, por tanto, o amor.

em tudo — nas coisas que vos digo, nas esperanças renovadas, no verso repetido no meu peito, no ser que sou agora, no amor — sempre um cansaço.

ainda assim, ainda que o cansaço perpasse & permeie tudo (as coisas que vos digo, as esperanças renovadas, o verso repetido no meu peito, o ser que sou agora, o amor), os senhores querem, desejam, o verso que aos senhores posso dispor?

se os senhores querem, se desejam, então que assim seja.

mas entendam: viverão suas vidas nesses breus.

pois o verso que aos senhores posso dispor nada esclarece, nada clarifica, nada ilumina: sendo quem sou, em nada me pareço: são tantos em mim (tantas as formas), e, no entanto, tantos encobertos, tantos (em mim) longe dos olhos que não os do próprio paulo sabino…

o verso, aqui, não vivencia a luz: o verso versa sua vida nesses breus.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Exercícios. autora: Hilda Hilst. organização: Alcir Pécora. editora: Globo.)

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Sendo quem sou, em nada me pareço.
Desloco-me no mundo, ando a passos
E tenho gestos e olhos convenientes.
Sendo quem sou
Não seria melhor ser diferente
E ter olhos a mais, visíveis, úmidos
Ser um pouco de anjo e de duende?
Cansam-me estas coisas que vos digo.
As paisagens em ti se multiplicam
E o sonho nasce e tece ardis tamanhos.
Cansam-me as esperanças renovadas
E o verso no meu peito repetido.
Cansa-me ser assim quem sou agora:
Planície, monte, treva, transparência.
Cansa-me o amor porque é centelha
E exige posse e pranto, sal e adeus.

Queres o verso ainda? Assim seja.
Mas viverás tua vida nesses breus.

A MINHA TERRA, A MINHA MÃO
22 de novembro de 2012

(Ofereço-vos, senhores, minha terra, chão primeiro que pisei & berço do que me tornei & tornarei, e minha mão, queimada pelo ardor das palavras & vestida com as roupas & as armas de Jorge.)

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terra, lugar de onde venho, terra, lugar cuja topografia também me forma & molda, terra: por mais distante, este errante navegante: quem jamais te esqueceria.
 
terra: de ti é que vêm essas portas de mim: as entradas & saídas por onde o paulo sabino é acessado, os caminhos por onde caminha o paulo sabino.
 
a terra onde nasci, chão primeiro que pisei, berço do que me tornei & tornarei, revela um bocado do que revelo em mim. a língua, os hábitos, o clima, a geografia: a terra onde nasci — chão primeiro que pisei, berço do que me tornei & tornarei — cabe toda em mim com as suas características.
 
terra: sendo de sol, sendo de luz & calor, a planície (da minha terra), os cômodos da casa onde me criei, o dorso que também foi meu, fecho-me, introspectivo, conectado apenas à terra de onde venho, porque em tudo te vejo, terra, como se fosses de água & derramasses teu corpo escurecido (teu corpo não claro, teu corpo nada fulgente, terra, aqui & agora, feita de ar & memória) na paisagem ao meu redor.
 
quis, para o canto que cantas através da minha garganta, terra, a mais viva palavra, a mais pulsante, a mais vibrante, a mais brilhante palavra: um só templo: o mais nítido templo-palavra sobre a colina, o mais limpo templo-palavra (a mais viva palavra, palavra que também seja templo, que também seja lugar erguido em homenagem a uma ou mais divindades) na luminosidade da hora.
 
meu rosto será aquele de todos os teus mortos, terra, isto é: rosto nenhum. meu rosto será aquele de todos os teus mortos quando me tiveres inteiro dentro de ti, terra: mais um rosto passado, anônimo, desconhecido: rosto nenhum.
 
e, no entanto, mesmo o meu rosto, no futuro, sendo aquele de todos os teus mortos (mais um rosto passado, anônimo, desconhecido: rosto nenhum), te amo como se eu mesmo fosse unicamente terra, te amo como se eu mesmo fosse tecido unicamente da tua matéria, terra, te amo como se eu mesmo fosse, ao mesmo tempo, teu pai (como se, de mim, saísses), teu filho (como se, de ti, saísse) & teu irmão na memória (porque em tudo te vejo, terra, como se fosses de água & derramasses teu corpo escurecido, teu corpo não claro, teu corpo nada fulgente, teu corpo, aqui & agora, feito de ar & memória), teu pai filho & irmão multíparos & claros, nascidos (o pai, o filho & o irmão que sou da minha terra) de uma só matriz, nascidos todos de uma única fonte, sofridos de uma só matéria: da matéria terra, terra de onde venho, terra onde nasci, terra que cabe em mim com as suas características.
 
terra: por mais distante este errante navegante: quem jamais te esqueceria.
 
e, sem heroísmo nem queixa, além de oferecer a minha terra, ofereço aos senhores esta minha mão que, neste instante, vos escreve.
 
sem heroísmo nem queixa, sem achar bom nem ruim, ofereço-vos minha mão aberta. agora a minha mão, senhores, vos pertence, queimada de uma luz tão viva, tão vibrante, tão pulsante, como se viva ardesse sob o sol.
 
olhai, senhores, se possível, a mão que se queimou de coisas limpas, olhai, se possível, a mão que se queimou de coisas isentas de qualquer sujidade, impureza ou mácula, mão chamuscada pelo calor & pela luz que saem das palavras desenhadas por ela.
 
e se souberdes, senhores, o que em vós é justiça, e se souberdes, senhores, o que em vós é mérito, é merecimento (afinal, ofereço-vos a mão que se queimou de coisas limpas, mão isenta de qualquer sujidade, impureza ou mácula), podereis refazê-la como a vossa mão. e, depois de igualada a minha mão à vossa, tornando-se, desse modo, a mão dos senhores, aproveitá-la (aproveitar minha mão aberta, mão que se queimou de coisas limpas, mão chamuscada pelo calor & pela luz que saem das palavras por ela desenhadas), a cada hora do vosso dia & para o vosso pão, para o vosso alimento.
 
(que assim seja.)
 
beijo todos!
paulo sabino.     
_____________________________________________________________
 
(do livro: Exercícios. autora: Hilda Hilst. organização: Alcir Pécora. editora: Globo.)
 
 
 
4
 
 
Terra, de ti é que vêm essas portas de mim. E sendo 
                                                                                                [de sol
A planície de pedra, de sol o vestíbulo da casa, de sol
O dorso que  também foi meu, impaciente das aves,
                                                                                           [fecho-me 
Porque em tudo te vejo como se fosses de água, e
                                                                                     [derramasses
Teu corpo escurecido, na paisagem. Quis para teu canto
A mais viva palavra: um só templo:
Nítido sobre a colina, limpo na luminosidade da hora.
 
Meu rosto será aquele de todos os teus mortos. E no
                                                                                                [entanto
Te amei como se eu mesma fosse unicamente terra,
                                                                                          [mãe, filha
Irmã na memória, multíparas e claras, nascidas de
                                                                                    [de uma só matriz
Sofridas de uma só matéria.
 
 
 
6
 
 
Sem heroísmo nem queixa, ofereço-vos
Minha mão aberta. Agora vos pertence.
Queimada de uma luz tão viva
Como se ardesse viva sob o sol. Olhai se possível
A mão que se queimou de coisas limpas.
E se souberdes o que em vós é justiça
Podereis refazê-la como a vossa mão. E depois igualada
Aproveitá-la. A cada hora, a cada hora
E para o vosso pão.

PENSANDO DEUS
1 de fevereiro de 2011

DEUS  (Paulo Sabino)
 
a  mente
do  ente:
demente
mente
que nem sente
 
 
(do livro: Poemas malditos, gozosos e devotos. organização: Alcir Pécora. editora: Globo.)
 
 
NOTA DO ORGANIZADOR  (texto: Alcir Pécora)
 
(excerto)
 
 
A publicação original de Poemas malditos, gozosos e devotos, que ora fecha a coleção de poesia das Obras reunidas de Hilda Hilst pela Editora Globo, deu-se em 1984, novamente graças ao seu amigo e editor Massao Ohno, dessa vez com a colaboração de Ismael Guarnelli. O livro reúne um conjunto de 21 poemas, todos eles compostos na forma de apóstrofes a Deus, isto é, discursos que o interpelam diretamente, como único interlocutor privilegiado do poeta, ainda que se trate de um interlocutor inexistente ou retraído face ao intenso desejo que o busca.
 
São apóstrofes com pleno direito de se nomear “devotas”, como anuncia o título, em função da sincera e empenhada interrogação de um sentido para a ideia de Deus, e, especialmente, do sentido que essa ideia toma na determinação desta poesia em particular. Entretanto, tal interrogação jamais é pacífica ou contemplativa. Se é verdade que grande parte da poesia de Hilda Hilst é largamente construída em torno de uma ideia de Deus, também o é que ela jamais toma a forma de fé, e especialmente jamais a forma do discurso do crente satisfeito com o que conhece ou intui de seu Deus. Nos poemas deste livro, em particular, Deus não é senão dúvida, dor e ameaça do vazio.   
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deus:
 
pés burilados, luz-alabastro, fino formão, dedo alongado que agarra homens & galáxias:
 
mandou seu filho ser trespassado nos pés de carne, nas mãos de carne, no peito vivo, de carne.
 
deus: vive do grito de seus animais feridos, vive do sangue de poetas, do sangue de crianças, e do martírio de homens & de mulheres santas. cuidado (com ele).
 
se tenho a pedir, não peço. contente, eu mais lhe agradeço quanto maior a distância, e só porisso uma dança, vezenquando, se faz nos meus ossos.
 
quanto mais esquecido por deus, mais agradecido fico.
 
(mandou seu filho ser trespassado no corpo vivo, de carne.)
 
cuidado (com ele).
 
deus: é rígido e mata com seu corpo-estaca. ama, mas crucifica. é sedoso, porém com garras.
 
deus: mastiga o gozo nosso, deixando-nos desamparados de prazer. deus é fel. quase sempre assassino, permitindo a morte dos seus filhos.
 
um tanto da loucura, um tanto da demência divina: cria-nos para o futuro aniquilamento — afinal, foram-me dadas vida & morte —.
 
(eu preferia a grande noite, preferia o silêncio profundo das galáxias, do espaço negro infindo, a esta luz irracional da Vida, sucessão de acasos que resultou no que é a existência hoje.)
 
viver é dorido. viver é difícil. viver é barra, pesa.
 
será que deus, se existe, sente doer-lhe a razão?
 
será que deus, se existe, sente doer-lhe o peito?
 
penso que deus cresce, penso que deus toma vulto, quando o penso. afirmo, sem cerimônias, que vive deus porque eu o penso.
 
se, acaso, não o pensasse, que fogo se avivaria não havendo lenha?
 
sem alguém para pensar deus, ele não existe. a lenha é o que permite a existência do fogo. o homem é quem permite a existência de deus.
 
deus é um pensamento, é um conceito, criado pelos homens, de acordo com o modo destes vingarem o seu tempo neste mundo. portanto, o alimento de deus são os seus servos, são aqueles que se preocupam em manter vivas a imagem & a idéia do que é “divino”.
 
deus é um pensamento, é um conceito, criado pelo homem, isto é: uma idéia deveras pessoal. por ser deveras pessoal, deus é este meu nome que o cria, e que busca evidenciá-lo, no mundo: deus, alá, oxalá, jeová, adonay, eloah, zambi, olorum, …
 
pensar deus, porque uma experiência pessoal, intransferível, é estar só na empreitada.
 
de deus, o que se tem é o silêncio absoluto, silêncio do mundo, silêncio que não nos evidencia a sua existência. não temos dados sobre ele, nem sabemos a sua vizinhança. se existe, então se esconde em sumidouros & cimos, em nomenclaturas não evidenciadas pela lógica matemática. não há provas cabais sobre o seu paradeiro, sobre o seu logradouro.
 
todavia, o que me aconteceria se ganhasse, se conquistasse, deus? minh’alma se esvaziaria? uma hora, como acontece com os homens que ganho, que conquisto, cansaria de deus? se o conquistasse, que coisas ainda desejaria minh’alma?
 
que luz seria, em mim, mais luminosa? que negrume mais negro?
 
se ganhasse deus, não haveria mais sedução, nem ânsias. ele acabaria partindo, partindo lasso em abastanças minhas, isto é, em abastanças do sentir humano, e de novo dormiria.
 
um romance vivido com deus, para que a relação findasse a mesma, de nada valeria (deus, novamente, no seu sono profundo, no seu silêncio mais absoluto).
 
porisso agradecer quanto maior a distância entre mim & ele.
 
deus: criador maior: portanto, criador do mundo:
 
o mundo, feito de ocos, de vazios, de hiatos, feito de moitas estufadas por serpentes, prontas a destilar o seu veneno.
 
deus: o criador de tudo isto: do oco, da moita, da serpente de versos da minha boca.
 
meu deus: a vida não desenhada da minha sede de céus.
 
meu deus: divino nada montado sobre este touro que sou.
 
meu deus: a vida não desenhada do meu desejo de alturas (vôos altos na terra, ambições altivas).
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Poemas malditos, gozosos e devotos. autora: Hilda Hilst. editora: Globo.)
 
 
I
 
Pés burilados
Luz-alabastro
Mandou seu filho
Ser trespassado
 
Nos pés de carne
Nas mãos de carne
No peito vivo. De carne.
 
Pés burilados
Fino formão
Dedo alongado agarrando homens
Galáxias. Corpo de homem?
Não sei. Cuidado.
 
Vive do grito
De seus animais feridos
Vive do sangue
De poetas, de crianças
 
E do martírio de homens
Mulheres santas.
 
Temo que se aperceba
De umas misérias de mim
Ou de veladas grandezas.
 
Soberbas
De alguns neurônios que tenho
Tão ricos, tão carmesins.
Tem esfaimada fome
Do teu todo que lateja.
 
Se tenho a pedir, não peço.
Contente, eu mais lhe agradeço
Quanto maior a distância.
E só porisso uma dança, vezenquando
Se faz nos meus ossos velhos.
 
Cantando e dançando, digo:
Meu Deus, por tamanho esquecimento
Desta que sou, fiapo, da terra um cisco
Beijo-te pés e artelhos.
 
Pés burilados
Luz-alabastro
Mandou seu filho
Ser trespassado
 
Nos pés de carne
Nas mãos de carne
No peito vivo. De carne.
 
Cuidado.
 
 
IV
 
Doem-te as veias?
Pulsaram porque fizeste
Do barro os homens.
E agora dói-te a Razão?
Se me visses fazer
Panelas, cuias
 
E depois de prontas
Me visses
Aquecê-las a um ponto
A um grande fogo
Até fazê-las desaparecer
 
Dirias que sou demente
Louca?
Assim fizeste aos homens.
 
Me deste vida e morte.
Não te dói o peito?
Eu preferia
A grande noite negra
A esta luz irracional da Vida.
 
 
VII
 
É rígido e mata
Com seu corpo-estaca.
Ama mas crucifica.
 
O texto é sangue
E hidromel.
É sedoso e tem garra
E lambe teu esforço
 
Mastiga teu gozo
Se tens sede, é fel.
 
Tem tríplices caninos.
Te trespassa o rosto
E chora menino
Enquanto agonizas.
 
É pai filho e passarinho.
 
Ama. Pode ser fino
Como um inglês.
É genuíno. Piedoso.
 
Quase sempre assassino.
É Deus.
 
 
XII
 
Estou sozinha se penso que tu existes.
Não tenho dados de ti, nem tenho tua vizinhanhça.
E igualmente sozinha se tu não existes.
De que me adiantam
Poemas ou narrativas buscando
 
Aquilo, que se não é, não existe
Ou se existe, então se esconde
Em sumidouros e cimos, nomenclaturas
 
Naquelas não evidências
Da matemática pura? É preciso conhecer
Com precisão para amar? Não te conheço.
 
Só sei que me desmereço se não sangro.
Só sei que fico afastada
De uns fios de conhecimento, se não tento.
 
Estou sozinha, meu Deus, se te penso.
 
 
XIII
 
Vou pelos atalhos te sentindo à frente.
Volto porque penso que voltaste.
Alguns me dizem que passaste
Rente a alguém que gritava:
 
Tateia-me, Senhor,
Estás tão perto
E só percebo ocos
Moitas estufadas de serpentes.
 
Alguém me diz que esse alguém
Que gritava, a mim se parecia.
Mas era mais menina, percebes?
De certo modo mais velha
 
Como alguém voltando de guerrilhas
Mulher das matas, filha das Ideias.
 
Não eras tu, vadia. Porque o Senhor
Lhe disse: Poeira: estou dentro de ti.
Sou tudo isso, oco moita
E a serpente de versos da tua boca.
 
 
XIV
 
Se te ganhasse, meu Deus, minh’alma se esvaziaria?
Se a mim me aconteceu com os homens, por que não
                                                                                       [com Deus?
De início as lavas do desejo, e rouxinóis no peito.
E aos poucos lassidão, um desgosto de beijos, um
                                                                                             [esfriar-se
 
Um pedir que fosse, fartada de carícias.
Se te ganhasse, que coisas ainda desejaria minh’alma
Se ficasses? Que luz seria em mim mais luminosa?
Que negrume mais negro?
 
Não haveria mais nem sedução, nem ânsias.
E partirias. Em vazia de ti porque tão cheia.
Tu, em abastanças do sentir humano, de novo
                                                                                 [dormirias.
 
 
XV
 
Desenho um touro na seda.
Olhos de um ocre espelhado
O pelo negro, faustoso
Seduzo meu Deus montado
Sobre este touro.
 
Desenhas Deus? Desenho o Nada
Sobre este grande costado.
Um rio de cobre deságua
Sobre essas patas.
Uma mulher tem nas mãos
Uma bacia de águas
 
Buscando matar a sede
Daquele divino Nada.
 
O touro e a mulher sou eu.
Tu és, meu Deus,
A Vida não desenhada
Da minha sede de céus.
 
 
XVII
 
Penso que tu mesmo cresces
Quando te penso. E digo sem cerimônias
Que vives porque te penso.
Se acaso não te pensasse
Que fogo avivaria não havendo lenha?
E se não houvesse boca
Por que o trigo cresceria?
 
Penso que o coração
Tem alimento na Ideia.
Teu alimento é uma serva
Que bem te serve à mão cheia.
Se tu dormes ela escreve
Acordes que te nomeiam.
Abre teus olhos, meu Deus,
Come de mim a tua fome.
 
Abre a tua boca. E grita este nome meu.

ÀS MULHERES
8 de março de 2010

Mulheres_PB
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o dia de hoje, 8 de março, é reservado internacionalmente a uma homenagem às mulheres. por essa razão, segue este poema-canção, lindíssimo, que se encaixa perfeitamente ao laurel proposto: versos que falam de mulheres, mais especificamente das mulheres do meu brasil varonil, porém possíveis de serem estendidos a todas as demais mulheres, debuxados por uma grande cantora & compositora & interpretados por outra grande companheira de profissão. eu, desde sempre, desde a minha mãe, desde as minhas tias, sou louco por mulheres, um grande fã. as que conheço & estão ao meu lado são habituadas a delicadezas. inteligentes, protetoras, perspicazes.

gosto muito de gente. gosto de escutar gente, de saber o que pensa, como anda. não seria diferente com as mulheres.

a elas, a capacidade não só de gerar, mas também de armazenar vida latente, vida pulsante. acho comovente mulher barriguda que vai ter menino.

à jurema, nely, joyce, maria, clarice, lya, lygia, marly, nélida, adélia, rachel, orides, cora, cecília, sophia, natália, florbela, cacilda, fernanda, marília, bibi, dolores, clara, gal, nana, rita, elis, elisa, alice, hilda, claudia, patrícia, zélia, e assim sucessivamente, em espiral vertiginosa: muitíssimo obrigado. por tanto, por tudo, agradeço a vocês, mulheres da minha trilha, irmãs porque a mãe natureza fez todas tão belas.

parir, gerar, criar: existir: eis a prova de destino tão valoroso.

a mulher brasileira, no alto a sua bandeira, saúda o povo & pede passagem!

que vocês, mulheres, de um modo bonito, de um modo delicado, conquistem o mundo!

um brinde a elas!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do encarte do cd: Maria. artista: Maria Bethânia. autora dos versos: Joyce. gravadora: BMG Ariola.)

 

 

MULHERES DO BRASIL

 

No tempo em que a maçã foi inventada
Antes da pólvora, da roda e do jornal
A mulher passou a ser culpada
Pelos deslizes do pecado original
Guardiã de todas as virtudes
Santas e megeras, pecadoras e donzelas
Filhas de Maria ou deusas lá de Hollywood
São irmãs porque a Mãe Natureza fez todas tão belas
Tão belas
Ó Mãe, ó Mãe, ó Mãe
Nossa Mãe, abre teu colo generoso
Parir, gerar, criar e provar nosso destino valoroso
São donas de casa, professoras, bailarinas
Moças, operárias, prostitutas, meninas
Lá do breu das brumas vem chegando a bandeira
Saúda o povo e pede passagem a mulher brasileira
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Maria. artista & intérprete: Maria Bethânia. canção: Mulheres do Brasil. autora da canção: Joyce. gravadora: BMG Ariola.)

O ESTRANGEIRO
28 de agosto de 2009

queridos,
 
as linhas que seguem para vocês me chegaram através de associações as mais curiosas (curiosas para mim, que, até agora, não entendo exatamente como foram surgindo…).
 
primeiro pensei num comentário que li, da marina lima, sobre a peça “o estrangeiro”, baseada no livro homônimo de albert camus, em cartaz no rio de janeiro. depois me surgiu uma conversa que mantive com um grupo de pessoas, onde o meu amado amado amado thiago facina, também conhecido como “abel”, fizera uma observação sobre esta mesma personagem, o “estrangeiro”, a personagem da peça comentada por marina, personagem, inclusive, bastante conhecida por estudos filosóficos e psicossociais.
 
“estrangeiro” é aquele indivíduo que não pertence ao lugar em que está; é o diferente, o que se localiza à parte. o “estrangeiro” de camus é um homem que desaceita o jogo social moralista e rompe com as convenções. é um homem que se vê distanciado, esquivo àquela conjuntura do seu círculo social. e paga o preço por sua ousadia. 
 
deste modo, pensando em camus e na sua personagem, cheguei a hilda hilst e ao seu livro intitulado “kadosh”, termo hebraico que dá sentido ao que se faz separado, ao que é diferente, ao que é distanciado do grupo, sendo “a diferença” — “a particularidade” que causa a diferença — associada a uma característica sagrada, santificada. porém, na obra de hilst, o que importa é o sentido que esta palavra, “kadosh”, abriga para nomear aquilo que se encontra à parte, à distância, em destaque.
 
daí, saltando de hilda, agarrei-me ao autor das palavras abaixo. porque ele foi, de algum modo, por sua postura ante a vida e pelo preço que pagou por causa desta sua postura, um “estrangeiro”. um homem que quebrou algumas importantes convenções sociais da sua época, as convenções que, segundo o próprio, estariam na categoria das “ações más que não podemos cometer”. um escritor que experimentou a fama e a difamação de forma vertiginosa. um intelectual que nos tem muito a dizer, a notar pela seleção de frases e trechos aqui deixados.
 
aproveitem-no!
 
beijo em vocês.
paulinho / paulo sabino.
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(livro: As obras-primas de Oscar Wilde. editora: Ediouro. capítulo: Frases, Citações e Aforismos. tradução: Dilermando Duarte Cox)
 
Todo meu gênio coloquei em minha vida;
no trabalho, tudo o que pus foi meu talento.
 
 
Experiência é algo que você não pode obter em troca de nada.
 
 
É uma pena que só levemos a sério as lições da vida
quando elas já não nos servem mais.
 
 
A beleza é a única coisa contra a qual a força do tempo nada pode.
As filosofias se desfazem como areia, as crenças sucedem-se
umas após outras, mas o que é belo é uma alegria a qualquer tempo,
algo que pertence a toda humanidade para sempre.
 
 
Eu não sou jovem suficiente para saber de tudo.
 
 
Não há outro jeito de livrar-se de uma tentação
a não ser sucumbindo a ela.
 
 
O mundo classifica as ações segundo três categorias: as ações boas, as ações más que podemos cometer, e as ações más que não podemos cometer. Se vocês se limitarem às boas ações, merecerão o respeito dos bons. Se ficarem apenas com as más ações que podem ser cometidas serão respeitados pelos maus. Mas se realizarem as más ações que não podem ser cometidas, os bons e os maus se juntarão contra você e não haverá mais coisa alguma que possa salvá-lo. 
 
O egoísmo não está em vivermos conforme nossos desejos,
mas em exigirmos que os outros vivam da mesma forma.
O verdadeiro altruísmo é deixar cada um viver
do modo que lhe parecer melhor.  
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(trecho extraído de: O retrato de Dorian Gray. tradução: Marina Guaspari. livro: As obras-primas de Oscar Wilde. editora: Ediouro.)
 
O prazer é a única coisa merecedora de que se lhe dedique uma teoria (…). Mas desconfio de que não posso reivindicar a qualidade de autor desta teoria. Ela pertence à natureza e não a mim. O prazer é o teste da natureza, o seu sinal de aprovação. Quando somos felizes, sempre somos bons, mas, por sermos bons, nem sempre seremos felizes.
 
(…)
 
Ser bom é estar em harmonia consigo mesmo (…). A discordância está em sermos forçados a viver em harmonia com os outros. A nossa vida: eis o que importa. A vida dos nossos semelhantes… quem quiser dar-se ares de pedante ou de moralista poderá julgá-la pelos seus critérios morais, mas a vida alheia não é da nossa conta. (…) A moral moderna consiste em aceitar o padrão da nossa época. Ora, a meu ver, um homem de cultura aceitar o padrão da sua época é uma forma da mais crassa imoralidade.