O QUE PERDURA: O OFERTADO
6 de setembro de 2010

Sei de outro mar mais belo do que este
que contemplo na praia admirada,
e renuncio a tudo o que é antigo
abrindo o coração ao que há de vir
 
e pode, sendo novo, machucar,
como um sapato aperta no começo,
como as mães ao parir choram de dor,
e nos ferimos ao colhermos rosas.
 
(trecho do poema “sei de outro mar mais belo do que este”, de inês cavalcanti)
____________________________________________________________________
 
o amor que dediquei a outros, e dedico, e dedicarei, ecoa no meu peito e sei chorá-lo em mil poesias.
 
dedicar-me incessantemente ao amor e aos seus ineditismos, e às suas novidades, ainda que machuquem: como o sapato novo, que aperta no começo; como a dor do parto, trazendo vida nova, ciclo que inicia; como quando colhemos rosas e nos ferimos nos seus espinhos.
 
aceso pelo amor, inflamado pela chama: o sentimento, de tão poderoso, de tão forte, manifesta-se, inclusive, no que não é prometido e que finda concedido, tornando a ação de amar a mais absoluta.
 
e o que sucede desde então, desde o amor & suas oblatas, não cabe, nem caberia, dizer na poesia. afinal, por mais bem escrita a definição, definição nenhuma consegue abarcar todo o matiz, todo o colorido, que comporta o amor & sua formosura.
 
(um belo início de semana e um ótimo feriado a todos!)
 
beijo afetuoso,
paulo sabino / paulinho.
____________________________________________________________________
 
(do livro: Anawin. autora: Inês Cavalcanti. editora: Ibis Libris.)
 
 
O AMOR QUE EU DEDIQUEI A OUTRA PESSOA
 
O amor que eu dediquei a outra pessoa
E dei a quem nada devera dar
E às vezes no meu peito ainda ecoa
E nas mil poesias sei chorar,
Esse é o amor que eu vou depositar
Aos pés de quem amar a formosura,
Os teus, real senhor desse lugar,
Como se fosse alguma escrava tua.
Toda coberta e já aos poucos nua,
Deitando-me depressa ao pé de ti,
Estarei lá trêmula de ternura
Querendo dar-te o que não prometi
 
E o que acontecerá desde esse dia
Não caberá dizer na poesia.

REGRA
16 de março de 2010

ela me chegou através de um cunhado seu que já foi um cunhado meu (no meu coração, meu eterno cunhadinho – rs). ela é poeta. ela mora em paris. leciona & pesquisa, estuda, literatura em língua portuguesa. ela possui dois livros publicados.
 
via e-mail, recebi esta bonita, singela e sábia “regra” poética, que me levou a pensar numa questão relacionada a escolhas.
 
na vida, para quaisquer tipos de coisas, vejo pessoas fazendo das suas preferências um grande “ranque”, um tipo de “pódio de chegada”. pessoas que precisam afirmá-las — nos termos do “pódio de chegada”, vale o esclarecimento — para mostrarem, aos outros e a si, que têm muita personalidade (rs). se dependerem de mim, imaginarão sempre que sou um “sem personalidade” (rs).
 
eu, sinceramente, parei com esse jogo.
 
“quem é a maior cantora do brasil, gal costa ou maria bethânia?” “qual é a maior banda de todos os tempos, beatles ou rolling stones?” “quem é o mais foda, chico ou caetano?” “você gosta mais de doce ou de salgado?” “prefere o frio ou o calor?” “é mais rueiro ou mais caseiro?” “quem é o maior poeta brasileiro na sua (personalíssima, evidentemente – rs) opinião, drummond ou joão cabral?” “e o maior escritor, machado de assis ou graciliano ramos?”
 
chega!, cansei (rs). não quero ter que preferir entre uma e outra coisa, não quero ter que escolher o primeiro, o segundo e o terceiro lugares. lugares do quê?, da onde?, do sentimento?, do meu sentimento? mas para o meu sentimento não é preciso esse tipo de “escala dos mais-mais”. não! no meu sentimento todos têm espaço, todos têm as suas grandes importância & contribuição.
 
esse tipo de olhar, o que abriga todos, é claro, não nasceu comigo. somos criados num mundo de muitas competições. as pessoas, muitas vezes, perdem o prumo e passam a competir por quaisquer razões. não considero saudável essa postura.
 
observando o entorno, percebi que as belezas são tamanhas e tantas, que se tornam ainda mais belas porque convivem, coabitam, porque: complementares.
 
belezas não nasceram para exclusão, para catalogação de importâncias, ao contrário: belezas: sempre sempre sempre complementares, e complementares porque singulares, únicas, ímpares.
 
(e viva a diversidade!)
 
seguindo esse viés, tenho, por regra, assim como a autora dos versos a seguir, abarcar o todo-encanto, abarcar tudo que comove como: preferências, nada de fora:
 
de dia, sorver a sua transparência, sequioso.
 
de noite, ab-sorver o impenetrável da noite, esta formosura, escura.
 
isto é: (ir) a tudo!
 
inês cavalcanti, muitíssimo obrigado pelo poemeto. agora aguardo o seu livro.
 
(pensem a respeito das suas escolhas.)
 
beijo em você, poeta.
um outro nos senhores.
o preto,
paulo sabino / paulinho.
_____________________________
 
REGRA (autora: Inês Cavalcanti.)
 
De noite absorver a pura
formosura impenetrável
da noite escura.
 
De dia sorver sequiosa
a transparência formosa
do meio-dia.