TENTE ENTENDER O QUE TENTO DIZER — POESIA + HIV / AIDS
26 de maio de 2018

(Lançamento da antologia Tente entender o que tento dizer: poesia + hiv / aids, na Livraria da Travessa de Botafogo)

(Convite para o debate + leituras de poemas da antologia, dia 29, terça-feira, na livraria Leonardo Da Vinci, no Centro)
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Gente poética,

Na quarta-feira, 23 de maio, o Rio de Janeiro foi palco de um acontecimento da maior importância: o lançamento da antologia Tente entender o que tento dizer: poesia + hiv / aids, na livraria da Travessa de Botafogo, que reúne poemas de 96 poetas sobre o tema “HIV /AIDS”. Foi a primeira vez que escrevi um poema sob encomenda, a pedido do organizador da antologia, o poeta Ramon Nunes Mello. A programação da noite foi quente: às 19h, mesa de abertura com Eduardo Jardim, que escreveu uma linda orelha pra antologia, e Ramon Nunes Mello, que nos contou a gênese do projeto; às 19h30, ciranda de poesia com Viviane Mosé, Antonio Cicero & Italo Moriconi, em que cada participante leu 4 poemas da obra; às 20h, leitura dos poemas com os poetas que integram a antologia.

Pois bem. Nesta terça-feira, dia 29 de maio, conforme o convite acima, na livraria Leonardo Da Vinci, no Centro, a partir das 19h, a roda de conversa em torno do livro, aprofundando a leitura dos poemas, com Silviano Santiago, Denilson Lopes, Flávia Muniz Cirilo e Ramon Nunes Mello, e leituras de poemas da coletânea com Paulo Sabino, este que vos escreve.

Abaixo, o poema que fiz pra antologia. Ele não integra o meu livro de estreia na poesia, Um para dentro todo exterior, que lançarei na FLIP, dia 26 de julho (quinta-feira). Criado especificamente para este projeto, resolvi deixá-lo apenas no seu lugar de origem.

Diga não à ignorância! Diga sim ao amor, à informação & ao respeito!

Beijo todos!
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(do livro: Tente entender o que tento dizer. poesia + hiv / aids. organização: Ramon Nunes Mello. autor: Vários. autor do poema abaixo: Paulo Sabino. editora: Bazar do Tempo.)

 

 

SÍNDROME DA HUMANA DEFICIÊNCIA ADQUIRIDA

 

O que precisa ser combatido:
A mancha feia da ignorância
Tingindo a palavra intolerância:
Não existe nada pior em ação
— A grande síndrome da deficiência adquirida
É a desinformação —

O que precisa ser banido:
O efeito gerado e causado
Pelo preconceito
Que existe e insiste
Em mostrar a cara dura
Contra o amor:
A verdadeira cura
Para todo e qualquer mal-estar
— A grande síndrome da deficiência adquirida
É o ódio doado na sala de estar —

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LANÇAMENTO DO LIVRO “CÉU EM CIMA / MAR EM BAIXO”, DE ALEX VARELLA
8 de julho de 2012

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Notícia BOA!

Um GANHO para poesia!

O meu QUERIDÍSSIMO amigo, o FILÓSOFO & POETA ALEX VARELLA, lançará o seu terceiro livro de poesias na terça-feira próxima, dia 10 de julho, a partir das 19h, na Livraria da Travessa, em Ipanema, no Rio de Janeiro.

O seu livro chama-se “CÉU EM CIMA / MAR EM BAIXO”.

Alex Varella, entre outras coisas, foi professor de Filosofia da Universidade Federal Fluminense e coordenador de Estética e Teoria de Arte Moderna do Galpão das Artes do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.

O prefácio do livro ficou a cargo de outro POETA & FILÓSOFO, além de LETRISTA & ENSAÍSTA, o meu também QUERIDO amigo ANTONIO CICERO, e os textos para orelha são assinados pelos SOFISTICADOS poetas ARMANDO FREITAS FILHO & ITALO MORICONI.

De todos os grandes poetas com quem mantenho algum contato, o Alex é um dos que mais tenho intimidade. A minha total afinidade com ele surge, dentre outras coisas, do seu fascínio pelo mar. Alex, assim como eu, é um filho das águas marinhas, um apaixonado pela imensidão & mistérios & riquezas que abriga o mar. Não bastasse, Alex é homem simples, que curte um bom papo, sem dificuldades.

Tenho GRANDE admiração por suas pessoa & poesia.

O livro do Alex é um grande acontecimento à literatura nacional.

No sábado (ontem), dia 07, encontrei o Alex porque, para minha alegria, ele desejava me entregar um exemplar antes mesmo do lançamento oficial.

Abaixo, a dedicatória (grata surpresa!) que o Alex preparou para o meu exemplar:

 

“Ao amigo Paulinho, editor do belo blog PEmP e crítico de poesia, pelo aniversário e pela amizade. Alex Varella”.

 

Maravilha!

Aos senhores, o convite para o lançamento.

Vamos?

Beijo todos!
Paulo Sabino.

UM HOMEM PRA CHAMAR DE MEU
26 de março de 2010

o primeiro contato que tive com caio fernando abreu foi através do seu livro de contos intitulado “morangos mofados”. fiquei maravilhado, aturdido, fascinado, louco com aquilo que acabara de ler.
 
de lá para cá minha relação com o escritor foi construída passo a passo, obra a obra, sempre contente com o que era descoberto por mim.
 
porém, foi com o livro de onde provém o texto de hoje que o caio me “ganhou” definitivamente.
 
a obra foi organizada pelo super poeta, pesquisador e professor italo moriconi. trata-se de uma espécie de “biografia”, montada a partir das missivas enviadas por caio fernando abreu a seus amigos (o autor tinha esse hábito, gostava muito de escrever cartas).
 
acho este um dos mais belos livros que já li.
 
como se trata da correspondência pessoal, o escritor desnuda, sem pudores, todas as suas facetas: seus medos e inseguranças, sua lucidez ante a face suja da vida, sua vontade crescente de solidão, suas imensas generosidade, inteligência e irreverência. senti-me tão encantado pela obra, apropriadamente chamada “cartas”, que — santo deus, como estou confessional (rs)… — me enamorei por ele, por caio fernando abreu, pelo que se mostrava nas linhas. sei que é maluquice, que é insano, mas dou-me direito a essas sandices no imaginário. afinal, de perto, senhores, ninguém é normal. 😉
 
enfim, enamorei-me pelo escritor e achava, muito resignado (rs), uma grande sacanagem da vida a minha falta de oportunidade de conhecê-lo.
 
em “cartas”, uma coisa que fica clara é o período (largo) de descrença nas pessoas, de desgosto com as atrocidades mundanas, de desejo cada vez maior de isolar-se de tudo e todos, de isolar-se com seus livros e discos. isso me matava, me doía. pensava: “um homem tão bom, tão bacana, tão do bem, não merecia tanta hostilidade, tanto descuido…” batia-me o ensejo de cuidar dele, de reverter esse quadro (rs).
 
caio fernando abreu adorava uma canção chamada “mesmo que seja eu”, da dupla dinâmica erasmo & roberto carlos, na voz da cantora & compositora marina lima.
 
adoraria dizer para ele, poderia ser brincando, descompromissadamente, um dos versos dessa canção:
 
caio,
 
eis aqui o paulo sabino: um homem pra chamar de seu (rs rs rs).
 
o livro de poemas que pretendo lançar este ano, no segundo semestre, é dedicado a ele, entre outros.
 
hoje em dia, acho engraçado — e bonito, comovente — que tivesse vivenciado desse modo, durante um bom período, o meu carinho, o meu amor, por ele. 
 
a seguir, uma das cartas que mais me emocionam. uma lindíssima declaração de amizade, bondade e inteligência, coberta e recheada do seu divertido humor.
 
caio fernando abreu afirma:
 
Estou sempre preocupado com a ética, com a beleza, com a dignidade.
  
Gosto de pessoas doces, de situações claras.
 
eu também. por isso, por tanto,
 
caio fernando abreu: um homem pra chamar de meu.
 
e de vocês.
 
aproveitem-no!, aproveitem a (despretensiosa, generosa & sábia) lição de vida.
 
beijo bom em todos,
paulo sabino / paulinho.
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(do livro: Cartas. organização: Italo Moriconi. autor: Caio Fernando Abreu. editora: Aeroplano.)
 
 
A Guilherme de Almeida Prado
 
 
 
 
Paris, 12 de abril de 1994
 
 
 
Querido Guila,
 
escrevo “querido” porque — você sabe? — realmente gosto muito de você. Não esqueça disso.
 
Voltei sábado de Saint-Nazaire, de onde te enviei um cartão (pedindo o endereço/ telefone de Gianni em Lisboa). Ao chegar encontrei teu cartão.
 
Eternamente Bambi, abri todo saltitante — foi o primeiro que recebi do Brasil, e desde que saí, há mais de mês, não tive notícias daí. Então levei um choque. Deus, quanta hostilidade! Fechei o cartão e só reabri hoje, depois de muito pensar se devia uma resposta ou não. Porque realmente-gosto-muito-de-você, acho que sim.
 
Ô Guila, calma lá! acho um pouco ridículo um bate-boca transoceânico, mas não consigo ficar com essas coisas atravessadas. Então:
 
1º   fui injusto — um pouco — ou excessivo com você. Ma non troppo.
Como te disse, voltei a SP ano passado, após dez meses de ausência, sem trabalho, sem casa nem nada. Discretamente, enviei sinais de socorro aos amigos. Ninguém ajudou. Me virei sozinho. Isso me endureceu um pouco mais. Não foi só você, não. Foram também pessoas até mais íntimas, como Jacqueline. Eternamente Bambi, me virei sozinho com enormes dificuldades. Não me lamuriei. Mas preciso que as pessoas saibam que isso doeu — exatamente porque algumas destas pessoas, como você ou Jacqueline, importam para mim.
2º   Cheguei em Paris preocupado com a minha violência, o meu “excesso”. Metade pelo menos provocada pelo álcool e pela excitação da viagem.
Pedi desculpas, com doçura,
3º   Você me responde duramente. Escuta:
4º   “Ar blasé” — não sei o que significa isso. Certa vez num grupo de psicanálise (fiz 14 anos, ganhei duas altas: acho que lido mais ou menos bem com meus demônios) uma garota disse que eu era “altivo”. Achei chique. Talvez você queira dizer “ar aristocrático”?
Bivar, que tem um olhar doce sobre o mundo, certa vez disse que eu parecia um príncipe — normando. Não sei por que “normando”, mas também achei bonito. Sou terrivelmente tímido e, na verdade, acho que tenho mais é um ar de cachorro surrado, daquele que levou muita porrada, passou fome, dormiu ao relento.
5º   Eu “não resisto a uma baixaria bem brega”! Resisto sim. Tenho um passado hippie que me deixou muitas coisas boas. Estou sempre preocupado com a ética, com a beleza, com a dignidade. Sou educadíssimo, e fui criado de maneira muito católica, com toda aquela culpa de “maus” pensamentos, “más” ações, e uma terrível nostalgia da “bondade” (como a “Alice” do Woody Allen).
Gosto de pessoas doces, gosto de situações claras — e por tudo isso, ando cada vez mais só. É como me sinto melhor.
6º   A propósito do parágrafo acima, hoje li um Wolinski chamado Les français me font rire que começa com esta frase: “Si tout le monde était comme moi, je n’aurais pas besoin de detester les autres!” (Tradução: “Se todos fossem como eu, eu não precisaria detestar os outros.”)
7º   Amigos não “são para essas coisas”, não. Isso é um clichê detestável, significando quase sempre que amigo é saco de pancadas, é uma espécie de privada onde o outro pode jogar dejetos, detritos imundos e dar a descarga. Amigos são para dividir o bom e o mal, mas também para deixarem as coisas sempre limpas entre eles — amigos devem ser solidários. Um dos meus maiores amigos, […], que vive em Paris há quase 30 anos e é soropositivo há 9 (mas graças a Deus saudabilíssimo), tem sempre a preocupação de ser útil aos amigos. Quase não fala, não envia flores, não escreve cartas — mas quando procurado está sempre ali, firme e cheio de informações práticas para ajudar a gente. Amigos são também para escrever cartas enormes e um tanto idiotas como esta, cheia de carências, porque gostam de outros amigos e não querem que as relações de amizade tombem nesse poço nojento de brutalidade e vulgaridade que viraram os anos 90.
 
É por isso que te escrevo, quase meio-dia, um sol raro lá fora. Guila, não me mande coisas assim raivosas. Eu não tenho anticorpos para esse tipo de coisa. Até hoje, um dos meus truques para sobreviver, mesmo não sendo mulher e nem sequer tendo cabelos, foi fazer o papel de “loura burra”. Deixei passar muita agressividade, muita humilhação — e não me refiro a você, mas estou farto. Fui vivendo minha vida de maneira tão solitária, conquistando minhas coisas tão no braço, tão sempre sem nada, que aprendi a ter uma enorme admiração por mim mesmo. Vou chegando muito perto dos 50 anos sem dever absolutamente nada a ninguém.
 
Então, nos últimos tempos — deve ser a meia-idade — comecei a ter uma sensação, digamos, de “direitos adquiridos”. Não agüento mais desaforo, e vou ficar pior, vou ficar, se Deus quiser, como Odete Lara, Greta Garbo, Fauzi Arap, Helen Lane — americana budista de 84 anos que conheci semana passada, e vive só numa cabana no Perigord, cercada apenas de livros e gatos. Ando exausto de seres humanos.
 
Guilherme, mon cher, precisamos — eu e você e todo mundo — tomar muito cuidado com esses tempos. São tempos de horror. Tudo fica ainda mais grave neste país de là-bas, como é o Brasil, e mais ainda numa cidade como São Paulo — onde a crise econômica, a corrupção, a violência, a falta de futuro, a miséria material foi gerando sem que as pessoas percebessem também uma miséria psicológica, uma miséria espiritual ainda mais terrível e mais patética. São Paulo virou um grande salve-se-quem-puder: ninguém ajuda ninguém. E se as pessoas como nós — os “especiais”, os cineastas, os escritores, os músicos, os poetas: a gente que tenta criar beleza e dignidade — também começarem a agir dessa maneira, então vale mais a pena a casinha pobre de Dulce Veiga no meio do mato, as panelas arrebentadas em que Odete Lara uma vez cozinhou arroz integral para mim. Compreende?
 
Devo estar chatíssimo, mais “blasé” do que nunca, com todo esse texto parecendo discurso do Partido Verde… Et voilá: sou também um pouco tolo, um pouco naive, um pouco pêra — e eternamente Bambi. Quando a barra pesa, compro flores e ouço Mozart. Não creio que isso seja gostar de uma “baixaria bem brega”. Além disso, essa linguagem rasteira absolutamente não combina com você — um von Almeida Prado!
 
Sinto que o Brasil tenha ficado “ainda mais medonho” sem mim. Em compensação, a França parece ter ficado ainda mais encantadora comigo. Os livros caminham lindamente, críticas ótimas nos jornais e revistas mais importantes, rádio, TV. Ontem — foi hilário — dei autógrafo na rua, em Saint-Germain des Prés, para um garoto — estranhamente chamado Damour — que viu um dos programas de TV, comprou os três livros, deu vários de presente. Cheguei na editora rindo: meu Deus, a Laika de São Paulo, a negra sem ter onde morar, vivendo com 500 dólares por mês, lavando roupa num balde sob o chuveiro, fazendo a feira toda sexta — dando autógrafo em Saint-Germain!
 
Por tudo isso, tenho me divertido muito, muito. Ontem, a poderosa de uma editora que recusou Dulce Veiga, após várias najices, me convidou para jantar no “Le Temp Perdu”, o melhor restaurante do Quartier Latin. Eu disse educadamente “não”, muitos compromissos, muitas viagens. Se gostasse de uma “baixaria bem brega”, aprontava uma grosseria em plena mesa de jantar. Mas não sou hipócrita, Guila. Não sei fazer “jogo social”. Até saberia, mas não me interessa, tenho preguiça. Como Dulce V., eu sempre quis só “outra coisa”, e vou chegando a um ponto em que tenho pensado se essa “coisa” não será a solidão mais completa — e se não ela, essa solidão idealizada, porrada de gatos, rosas, Mozart e livros, será quem sabe somente a morte. Há que ter paciência para esperar por ela, que é a única certeza entre todas as nossas ilusões tolas. “Ah, quando virás, cavalinha, montar meu dorso fatigado!” — dizia Hilda Hilst (60 anos no próximo dia 21) num poema de um livro chamado Da morte — Odes mínimas.
 
A propos: você já viu Short Cuts, do Altman? Não sei se chegou aí. Fiquei PARALISADO. Não é um bom filme: é genial, é uma radiografia, um corte tão profundo e impiedoso na sociedade americana e na alma humana que vale por ter vivido uns 20 anos. Ensina muito sobre a nossa loucura, a nossa vulgaridade, a nossa crueldade.
 
São de coisas assim que quero falar com você, meu amigo — cinema, literatura, música, vida. Que enorme desgaste trocar najices — gastar um cartão lindo daqueles (que vou ter que jogar fora, sorry, é muito ofensivo) mais selo, sem falar na produção sempre exaustiva de enfrentar os correios paulistanos — de hemisférios opostos. Ah, Guilherme, não me envie mais coisas assim. Não escreva nada, não nos procuramos mais: um dia nos cruzamos por acaso, de repente, e então vemos o que aconteceu a nossos rancores e reagimos de acordo com isso. Mas se você quiser me contar das suas funduras, e não apenas defender-se — e os amigos são, sim, para trocar abismos — então me escreva 10, 100 páginas, e eu responderei com calor, com carinho, com toda amizade que realmente sinto por você.
 
Continuo a sentir que Dulce Veiga é nossa, minha e sua. Te mando dois recortes simpáticos — um do L’Express, a Veja (com ética, claro) daqui. Outro do Les Inrockuptibles, uma revista chique e cult, um pouco como a A-Z dos bons tempos, mas com circulação bem maior. Divida isso comigo, tem um gosto bom.
 
Ah: se você tiver o endereço/ fone do Gianni seria maravilhoso. Pedi também a Cida Moreira, que precisaria pedir ao Ivan Mattos, que. E aí entra todo aquele mar de lama que você conhece, e que eu prefiro evitar.
 
Beije com carinho a divina Zu Val por mim: Zu, quero te ver cantando, com direito a muito jubão crespo, quando voltar. Diga a ela que, por aqui o Império do Bustiê também tem o seu poder. A diferença é que os bustiês são Gaultier, Channel e Yamamoto — embora para mim bustiê seja bustiê e pronto, no Champ Elysées ou Taboão da Serra.
 
E diga também ao Ricardo que mando um beijo. Cuide-se, fica feliz.
 
Je t’ embrasse
 
Caio F. 

MÁRIO MODERNO, MÁRIO ETERNO
7 de outubro de 2009

rapazes, moças,
 
as linhas que seguem foram escritas por um grande intelectual brasileiro, pertencente a uma geração de escritores que revolucionaram o modo de escrever o português nosso, brasileiro, como também os temas tratados nos textos.
 
lendo os autores da referida geração, tenho certeza de que devo muito a eles o meu modo de utilizar a língua portuguesa: a coloquialidade aliada ao cuidado e ao esmero, consciente dos efeitos que se pretende com as construções frasais.
 
o modernismo contribuiu de forma visceral para que o brasil redescobrisse a sua própria língua, o seu jeitinho de manejar a pena, o seu pincel.
 
tudo, no texto que segue, é revolucionário para época em que fora lançado: o uso mais casual das vírgulas; a utilização duma pontuação menos rígida, mais liberta das convenções normativas; o emprego informal das preposições em sua forma reduzida e coloquial (algumas vezes agrupando-as ao artigo que as acompanha): ao invés de “para”, “para o”, “de uma”, pra, pro, duma; e o tema tratado: a família vista duma perspectiva mais complexa, com as nuances peculiares de sentimentos contraditórios, paradoxais, que convivem e se entrelaçam e se misturam dentro de cada um de nós.
 
certa vez, o poeta carlos drummond de andrade afirmou que deixaria de ser moderno para tornar-se eterno. no entanto, grandes escrevedores, como drummond, como mário de andrade, conseguem o tudo: mário moderno, mário eterno. eterno porque moderno. e moderno, aqui, tem sentido de algo “sempre atual”, sempre atualizado, pois que atemporal, já que os textos desses autores conservam, intacto, o que chamaria de um “frescor literário”.
 
salvem!, salvem! os modernos eternos.
 
beijo grande.
paulo sabino / paulinho.
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(texto extraído do livro Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século, autores: Vários, seleção e organização: Italo Moriconi, editora: Objetiva)
 
O Peru de Natal (Mário de Andrade)
 
O nosso primeiro Natal de família, depois da morte de meu pai acontecida cinco meses antes, foi de conseqüências decisivas para a felicidade familiar. Nós sempre fôramos familiarmente felizes, nesse sentido muito abstrato da felicidade: gente honesta, sem crimes, lar sem brigas internas nem graves dificuldades econômicas. Mas, devido principalmente à natureza cinzenta de meu pai, ser desprovido de qualquer lirismo, de uma exemplaridade incapaz, acolchoado no medíocre, sempre nos faltara aquele aproveitamento da vida, aquele gosto pelas felicidades materiais, um vinho bom, uma estação de águas, aquisição de geladeira, coisas assim. Meu pai fora de um bom errado, quase dramático, o puro-sangue dos desmancha-prazeres.

Morreu meu pai, sentimos muito, etc. Quando chegamos nas proximidades do Natal, eu já estava que não podia mais pra afastar aquela memória obstruente do morto, que parecia ter sistematizado pra sempre a obrigação de uma lembrança dolorosa em cada gesto mínimo da família. Uma vez que eu sugerira à mamãe a idéia dela ir ver uma fita no cinema, o que resultou foram lágrimas. Onde se viu ir ao cinema, de luto pesado! A dor já estava sendo cultivada pelas aparências, e eu, que sempre gostara apenas regularmente de meu pai, mais por instinto de filho que por espontaneidade de amor, me via a ponto de aborrecer o bom do morto.

Foi decerto por isto que me nasceu, esta sim, espontaneamente, a idéia de fazer uma das minhas chamadas “loucuras”. Essa fora aliás, e desde muito cedo, a minha esplêndida conquista contra o ambiente familiar. Desde cedinho, desde os tempos de ginásio, em que arranjava regularmente uma reprovação todos os anos; desde o beijo às escondidas, numa prima, aos dez anos, descoberto por Tia Velha, uma detestável de tia; e principalmente desde as lições que dei ou recebi, não sei, duma criada de parentes: eu consegui no reformatório do lar e na vasta parentagem, a fama conciliatória de “louco”. “É doido, coitado!” falavam. Meus pais falavam com certa tristeza condescendente, o resto da parentagem buscando exemplo para os filhos e provavelmente com aquele prazer dos que convencem de alguma superioridade. Não tinham doidos entre os filhos. Pois foi o que me salvou, essa fama. Fiz tudo o que a vida me apresentou e o meu ser exigia para se realizar com integridade. E me deixaram fazer tudo, porque eu era doido, coitado. Resultou disso uma existência sem complexos, de que não posso me queixar um nada.

Era costume sempre, na família, a ceia de Natal. Ceia reles, já se imagina: ceia tipo meu pai, castanhas, figos, passas, depois da Missa do Galo. Empanturrados de amêndoas e nozes (quanto discutimos os três manos por causa dos quebra-nozes…), empanturrados de castanhas e monotonias, a gente se abraçava e ia pra cama. Foi lembrando isso que arrebentei com uma das minhas “loucuras”:

— Bom, no Natal, quero comer peru.

Houve um desses espantos que ninguém não imagina. Logo minha tia solteirona e santa, que morava conosco, advertiu que não podíamos convidar ninguém por causa do luto.

— Mas quem falou de convidar ninguém! Essa mania… Quando é que a gente já comeu peru em nossa vida! Peru aqui em casa é prato de festa, vem toda essa parentada do diabo…

— Meu filho, não fale assim…

— Pois falo, pronto!

E descarreguei minha gelada indiferença pela nossa parentagem infinita, diz-que vinda de bandeirantes, que bem me importa! Era mesmo o momento pra desenvolver minha teoria de doido, coitado, não perdi a ocasião. Me deu de sopetão uma ternura imensa por mamãe e titia, minhas duas mães, três com minha irmã, as três mães que sempre me divinizaram a vida. Era sempre aquilo: vinha aniversário de alguém e só então faziam peru naquela casa. Peru era prato de festa: uma imundície de parentes já preparados pela tradição, invadiam a casa por causa do peru, das empadinhas e dos doces. Minhas três mães, três dias antes já não sabiam da vida senão trabalhar, trabalhar no preparo de doces e frios finíssimos de bem feitos, a parentagem devorava tudo e inda levava embrulhinhos pros que não tinham podido vir. As minhas três mães mal podiam de exaustas. Do peru, só no enterro dos ossos, no dia seguinte, é que mamãe com titia inda provavam um naco de perna, vago, escuro, perdido no arroz alvo. E isso mesmo era mamãe quem servia, catava tudo pro velho e pros filhos. Na verdade ninguém sabia de fato o que era peru em nossa casa, peru resto de festa.

Não, não se convidava ninguém, era um peru pra nós, cinco pessoas. E havia de ser com duas farofas, a gorda com os miúdos, e a seca, douradinha, com bastante manteiga. Queria o papo recheado só com a farofa gorda, em que havíamos de ajuntar ameixa preta, nozes e um cálice de xerez, como aprendera na casa da Rose, muito minha companheira. Está claro que omiti onde aprendera a receita, mas todos desconfiaram. E ficaram logo naquele ar de incenso assoprado, se não seria tentação do Dianho aproveitar receita tão gostosa. E cerveja bem gelada, eu garantia quase gritando. É certo que com meus “gostos”, já bastante afinados fora do lar, pensei primeiro num vinho bom, completamente francês. Mas a ternura por mamãe venceu o doido, mamãe adorava cerveja.

Quando acabei meus projetos, notei bem, todos estavam felicíssimos, num desejo danado de fazer aquela loucura em que eu estourara. Bem que sabiam, era loucura sim, mas todos se faziam imaginar que eu sozinho é que estava desejando muito aquilo e havia jeito fácil de empurrarem pra cima de mim a… culpa de seus desejos enormes. Sorriam se entreolhando, tímidos como pombas desgarradas, até que minha irmã resolveu o consentimento geral:

— É louco mesmo!…

Comprou-se o peru, fez-se o peru, etc. E depois de uma Missa do Galo bem mal rezada, se deu o nosso mais maravilhoso Natal. Fora engraçado: assim que me lembrara de que finalmente ia fazer mamãe comer peru, não fizera outra coisa aqueles dias que pensar nela, sentir ternura por ela, amar minha velhinha adorada. E meus manos também, estavam no mesmo ritmo violento de amor, todos dominados pela felicidade nova que o peru vinha imprimindo na família. De modo que, ainda disfarçando as coisas, deixei muito sossegado que mamãe cortasse todo o peito do peru. Um momento aliás, ela parou, feito fatias um dos lados do peito da ave, não resistindo àquelas leis de economia que sempre a tinham entorpecido numa quase pobreza sem razão.

— Não senhora, corte inteiro! Só eu como tudo isso!

Era mentira. O amor familiar estava por tal forma incandescente em mim, que até era capaz de comer pouco, só pra que os outros quatro comessem demais. E o diapasão dos outros era o mesmo. Aquele peru comido a sós, redescobria em cada um o que a cotidianidade abafara por completo, amor, paixão de mãe, paixão de filhos. Deus me perdoe mas estou pensando em Jesus… Naquela casa de burgueses bem modestos, estava se realizando um milagre digno do Natal de um Deus. O peito do peru ficou inteiramente reduzido a fatias amplas.

— Eu que sirvo!

“É louco, mesmo!” pois por que havia de servir, se sempre mamãe servira naquela casa! Entre risos, os grandes pratos cheios foram passados pra mim e principiei uma distribuição heróica, enquanto mandava meu mano servir a cerveja. Tomei conta logo dum pedaço admirável da “casca”, cheio de gordura e pus no prato. E depois vastas fatias brancas. A voz severizada de mamãe cortou o espaço angustiado com que todos aspiravam pela sua parte no peru:

— Se lembre de seus manos, Juca!

Quando que ela havia de imaginar, a pobre! que aquele era o prato dela, da Mãe, da minha amiga maltratada, que sabia da Rose, que sabia meus crimes, a que eu só lembrava de comunicar o que fazia sofrer! O prato ficou sublime.

— Mamãe, este é o da senhora! Não! não passe não!

Foi quando ela não pôde mais com tanta comoção e principiou chorando. Minha tia também, logo percebendo que o novo prato sublime seria o dela, entrou no refrão das lágrimas. E minha irmã, que jamais viu lágrima sem abrir a torneirinha também, se esparramou no choro. Então principiei dizendo muitos desaforos pra não chorar também, tinha dezenove anos… Diabo de família besta que via peru e chorava! coisas assim. Todos se esforçavam por sorrir, mas agora é que a alegria se tornara impossível. É que o pranto evocara por associação a imagem indesejável de meu pai morto. Meu pai, com sua figura cinzenta, vinha pra sempre estragar nosso Natal. Fiquei danado.

Bom, principiou-se a comer em silêncio, lutuosos, e o peru estava perfeito. A carne mansa, de um tecido muito tênue boiava fagueira entre os sabores das farofas e do presunto, de vez em quando ferida, inquietada e redesejada, pela intervenção mais violenta da ameixa preta e o estorvo petulante dos pedacinhos de noz. Mas papai sentado ali, gigantesco, incompleto, uma censura, uma chaga, uma incapacidade. E o peru, estava tão gostoso, mamãe por fim sabendo que peru era manjar mesmo digno do Jesusinho nascido.

Principiou uma luta baixa entre o peru e o vulto de papai. Imaginei que gabar o peru era fortalecê-lo na luta, e, está claro, eu tomara decididamente o partido do peru. Mas os defuntos têm meios visguentos, muito hipócritas de vencer: nem bem gabei o peru a imagem de papai cresceu vitoriosa, insuportavelmente obstruidora.

— Só falta seu pai…

Eu nem comia, nem podia mais gostar daquele peru perfeito, tanto que me interessava aquela luta entre os dois mortos. Cheguei a odiar papai. E nem sei que inspiração genial, de repente me tornou hipócrita e político. Naquele instante que hoje me parece decisivo da nossa família, tomei aparentemente o partido de meu pai. Fingi, triste:

— É mesmo… Mas papai, que queria tanto bem a gente, que morreu de tanto trabalhar pra nós, papai lá no céu há de estar contente… (hesitei, mas resolvi não mencionar mais o peru) contente de ver nós todos reunidos em família.

E todos principiaram muito calmos, falando de papai. A imagem dele foi diminuindo, diminuindo e virou uma estrelinha brilhante do céu. Agora todos comiam o peru com sensualidade, porque papai fora muito bom, sempre se sacrificara por nós, fora um santo que “vocês, meus filhos, nunca poderão pagar o que devem a seu pai”, um santo. Papai virara santo, uma contemplação agradável, uma inestorvável estrelinha do céu. Não prejudicava mais ninguém, puro objeto de contemplação suave. O único morto ali era o peru, dominador, completamente vitorioso.

Minha mãe, minha tia, nós, todos alagados de felicidade. Ia escrever “felicidade gustativa”, mas não era só isso não. Era uma felicidade maiúscula, um amor de todos, um esquecimento de outros parentescos distraidores do grande amor familiar. E foi, sei que foi aquele primeiro peru comido no recesso da família, o início de um amor novo, reacomodado, mais completo, mais rico e inventivo, mais complacente e cuidadoso de si. Nasceu de então uma felicidade familiar pra nós que, não sou exclusivista, alguns a terão assim grande, porém mais intensa que a nossa me é impossível conceber.

Mamãe comeu tanto peru que um momento imaginei, aquilo podia lhe fazer mal. Mas logo pensei: ah, que faça! mesmo que ela morra, mas pelo menos que uma vez na vida coma peru de verdade!

A tamanha falta de egoísmo me transportara o nosso infinito amor… Depois vieram umas uvas leves e uns doces, que lá na minha terra levam o nome de “bem-casados”. Mas nem mesmo este nome perigoso se associou à lembrança de meu pai, que o peru já convertera em dignidade, em coisa certa, em culto puro de contemplação.

Levantamos. Eram quase duas horas, todos alegres, bambeados por duas garrafas de cerveja. Todos iam deitar, dormir ou mexer na cama, pouco importa, porque é bom uma insônia feliz. O diabo é que a Rose, católica antes de ser Rose, prometera me esperar com uma champanha. Pra poder sair, menti, falei que ia a uma festa de amigo, beijei mamãe e pisquei pra ela, modo de contar onde é que ia e fazê-la sofrer seu bocado. As outras duas mulheres beijei sem piscar. E agora, Rose!…