OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (6ª EDIÇÃO) — VÍDEOS: MORAES MOREIRA & ELISA LUCINDA — ENCERRAMENTO
16 de novembro de 2016

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(Moraes Moreira — Foto: Elena Moccagatta.)

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(Foto: Elena Moccagatta.)

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(Elisa Lucinda — Foto: Elena Moccagatta.)

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(Foto: Elena Moccagatta.)

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(Moraes Moreira & Elisa Lucinda — Foto: Elena Moccagatta.)

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(Foto: Elena Moccagatta.)

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(Foto: Felipe Fernandes.)

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(O quarteto fantástico da 6ª edição: Elisa Lucinda, Moraes Moreira, Paulo Sabino & Maria Rezende — Foto: Felipe Fernandes.)
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Aos interessados, os 2 últimos vídeos da 6ª edição do projeto “Ocupação Poética”, ocorrido no dia 2 de agosto (terça-feira), no teatro Cândido Mendes (Ipanema – RJ), com a participação estelar de: Elisa Lucinda, Moraes Moreira & Maria Rezende.

No primeiro vídeo desta publicação, a grande homenageada da noite, a poeta & atriz Elisa Lucinda, bate um papo descontraído com o cantor, compositor, instrumentista, poeta & membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, Moraes Moreira, que fala da sua paixão pelo livro “Fernando Pessoa, o Cavaleiro de Nada”, o primeiro romance da Elisa & finalista do prêmio São Paulo de Literatura 2015, conta a divertidíssima história de composição do seu poema-canção “Sonhei que estava em Portugal”, além de recitá-lo & recitar um outro poema-canção seu, ainda não gravado & ainda pouco conhecido porque composto recentemente, “O samba e a língua”. No segundo vídeo, a homenageada da noite recita um poema do grande homenageado por ela na noite (e por todos nós, participantes), Fernando Pessoa, um poema do seu heterônimo Álvaro de Campos. Ainda de presente, o áudio da canção “Sonhei que estava em Portugal”, na interpretação da abelha-rainha Maria Bethânia.

Mais à frente, publicarei a noite da 7ª edição do projeto, em homenagem aos 70 anos do poeta, letrista & agitador cultural, além de querido amigo, Jorge Salomão, e já aviso que está acertada a data da 8ª edição do projeto (5 de dezembro), a homenageada da 8ª edição & confirmados alguns vários convidados. Em breve maiores informações.

Divirtam-se!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [6ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 02/08/2016. Bate-papo entre Elisa Lucinda & Moraes Moreira. Moraes Moreira recita dois poemas-canções de sua autoria, Sonhei que estava em Portugal & O Samba e a Língua.)

 

 

SONHEI QUE ESTAVA EM PORTUGAL  (Moraes Moreira)

 

Sonhei que estava um dia em Portugal
À toa num carnaval em Lisboa
Meu sonho voa além da poesia
E encontra o poeta em pessoa

A lua mingua e a língua lusitana
Acende a chama e a palavra Luzia
Na via pública e em forma de música
Luzia das, luzíadas, Luzias

 

 

O SAMBA E A LÍNGUA  (Moraes Moreira)

 

O que é que une o Brasil
De norte a sul com certeza?
É o samba
E a língua portuguesa

O samba e suas vertentes
A língua e os seus sotaques
O que é que nos faz diferentes
É ter os mesmos destaques
O samba e os seus poetas
E eu morro, sim, de amores
Por essas obras completas

O samba tem a cadência
A língua a sua sintaxe
O samba é malemolência
A língua diz: não relaxe
O samba é mais popular
A língua é mais erudita
Eu ouço o povo falar
Cantar de forma bonita
O samba tem a cabrocha
A língua sua cachopa
O samba acende uma tocha
A língua muda de roupa
O samba é uma escola
A língua é Academia
No samba a gente rebola
Na língua a gente vicia
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(do site: Youtube. áudio extraído do cd: Ciclo. artista & intérprete: Maria Bethânia. canção: Sonhei que estava em Portugal. versos: Moraes Moreira. música: Moraes Moreira. gravadora: Universal Music. citação da canção: Anda Luzia. autor: João de Barro.)


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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [6ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 02/08/2016. Elisa Lucinda recita Poema em linha reta, de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa.)

 

 

POEMA EM LINHA RETA  (Álvaro de Campos / heterônimo de Fernando Pessoa)

 

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo, neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

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LISBOA
8 de novembro de 2012

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sonhei, um dia, que estava em portugal, por um dia, à toa, num carnaval em lisboa.
 
um carnaval em lisboa: meu sonho voa além da poesia & encontra “o poeta” pessoalmente, meu sonho voa & encontra o poeta em: pessoa.
 
(gosto do pessoa na pessoa.)
 
no sonho, num carnaval em lisboa, a lua míngua, a lua decresce, a lua declina, pouco iluminando a noite, mas a lusitana língua acende a chama, acende o fogo; a lua míngua e, enquanto a lua míngua, pouco iluminando, a lusitana língua chama a palavra que acende, a lusitana língua chama a palavra que inflama, a lusitana língua chama a palavra que arde: chama, fogo, flama.
 
a língua lusitana acende a sua chama, iluminando a noite, clareando o breu, e, acendendo a sua chama, a palavra luzia, a palavra brilhava, luzia a linguagem na via pública, em plena rua, em forma de música (era carnaval em lisboa!), a palavra brilhava, a palavra luzia, em forma de marchinha, como esta aqui, de joão de barro, também conhecido por braguinha:
 
Anda, Luzia
Pega um pandeiro e vem pro carnaval
Anda, Luzia
Que essa tristeza lhe faz muito mal
 
em forma de música, na via pública, a palavra luzia: luzia-das-lusíadas-luzias.
 
a palavra luzia, a linguagem brilhava, nas tantas possibilidades de jogos sonoros & sintáticos.
 
sonhei que estava, um dia, em portugal, à toa, num carnaval em lisboa…
 
e seja o sonho que for, um dia, acorda-se dele. eu acordei.
 
pois bem. num belo dia, um amigo, em lisboa, pergunta o que quero de lisboa.
 
“nada”, respondo, não quero senão o que não vem nos postais, isto é: só quero o que não pode vir junto aos postais, só quero o que não pode ser aprisionado em fotos, mais um ou dois postais de lugares onde nunca fui feliz e, ainda assim (agora & sempre), mesmo postais de lugares onde nunca fui feliz, eu quis (a felicidade).
 
respondo ao meu amigo que não quero, de lisboa, senão o que lisboa não dá, o que ela guarda & é preciso roubar, captar nos seus ares, captar nas frestas da sua arquitetura, captar nas frinchas das suas ruas, abstrata: a secreta alegria que não cabe nos guias de turismo.
 
quero isso (a secreta alegria que não cabe nos guias de turismo), mais uma ou duas coisas que vêm nos guias de turismo.
 
vê esses rapazes & moças de olhos azuis, meu amigo? são holandeses. vê esses deuses & essas flores azuis, meu amigo? são azulejos. como trazê-los? como trazer, meu amigo, na bagagem, de presente a este seu amigo, esses rapazes & moças holandeses de olhos azuis, como trazer, meu amigo, na bagagem, de presente a este seu amigo, esses deuses & essas flores azuis de azulejos?
 
de nada valem os antiquários (as lojas de antiguidades); quando voltamos de lisboa, tudo o que trazemos (dos antiquários), percebemos, está partido, está quebrado, tudo o que trazemos vem faltando um pedaço: o pedaço faltoso: o que lisboa guarda & é preciso roubar, captar nos seus ares, captar nas frestas da sua arquitetura, captar nas frinchas das suas ruas, abstrata: a secreta alegria que não cabe nos guias de turismo nem nas peças dos antiquários.
 
por isso, respondo ao meu amigo, não vale a pena trazer nada, que daí, de lisboa, só trazemos, sem dar conta, o que nos parte, o que nos corta, mal fechamos a mala (no momento do adeus), mal abrimos a porta (no momento do adeus), saudosos de lisboa ainda em lisboa.
 
fechamos mal a mala (de saída), abrimos mal a porta (de saída): por isso, parte-se de lisboa e, no partir, parte de nós, em lisboa, permanece. parte-se de lisboa e, no entanto, parte de nós, em lisboa, prevalece.
 
(em mim, agora & sempre, permanece & prevalece a língua lusitana.)
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Sentimental. autor: Eucanaã Ferraz. editora: Companhia das Letras.)
 
 
 
UMA GAIVOTA VIESSE
 
 
O amigo, em Lisboa, pergunta o que quero de Lisboa;
nada, respondo, não quero senão o que não vem nos postais
mais um ou dois postais de lugares onde nunca fui feliz
 
e, ainda assim, agora e sempre, eu quis, não quero, Alberto,
de Lisboa senão o que ela não dá, o que ela guarda e é preciso
roubar, a secreta alegria que não cabe nos guias de turismo,
 
quero isso, mais uma ou duas coisas que vêm nos guias de turismo.
Vê esses rapazes e moças de olhos azuis? São holandeses.
Esses deuses e essas flores azuis? São azulejos. Como trazê-los?
 
De nada valem os antiquários; quando voltamos de Lisboa, tudo
o que trazemos, percebemos, está partido, por isso, Alberto,
não vale a pena trazer nada, que daí só trazemos, sem dar conta,
 
o que nos parte,
o que nos corta,
mal fechamos a mala, mal abrimos a porta.
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(autor: Moraes Moreira.)
 
 
 
SONHEI QUE ESTAVA EM PORTUGAL
 
 
Sonhei que estava, um dia
Em Portugal
À toa
Num carnaval
Em Lisboa
Meu sonho voa
Além da poesia
E encontra o Poeta em pessoa
 
A lua míngua
E a língua
Lusitana
Acende a chama
E a palavra luzia
Na via
Pública
E em forma de
Música:
Luzia-das-Lusíadas-luzias
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(do site: Youtube. áudio extraído do cd: Ciclo. artista & intérprete: Maria Bethânia. canção: Sonhei que estava em Portugal. versos: Moraes Moreira. música: Moraes Moreira. gravadora: Universal Music. citação da canção: Anda Luzia. autor: João de Barro.)