O NETO DE UM EX-CAPITÃO DA AREIA
11 de novembro de 2015

Eu Vovô

(Paulo Sabino, ainda pequeno, e seu avô, o ex-capitão da areia & violonista baiano Waldemar Sabino.)
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o que me motivou a ler o livro que integra esta publicação foi puro sentimento.

meu avô paterno, pai do meu pai, waldemar sabino, foi um baiano de salvador que, sabia eu, fora menino de rua durante uma parte da sua infância, quando morreram seus pais & sua avó enlouqueceu (diz-se que a velha andava descalça pelas ruas do pelourinho, falando sozinha).

no entanto, sabe-se lá por que, talvez pela minha proximidade de neto & por não constituir exatamente a imagem do meu avô como um menino de rua durante parte da sua infância, fiquei surpreso quando, há pouco tempo, minha mãe, a minha cabocla jurema armond, me contou que, segundo o meu avô, até a reviravolta que deu a sua vida por causa do violão & da música, a sua biografia, no período de abandono, quando perambulava pelas ruas de salvador, é a história retratada no livro, do seu grande & admirado conterrâneo, jorge — mais que — amado.

apesar de fictícios os personagens & o grupo, intitulado “capitães da areia” (são meninos que se abrigam no cais do porto de salvador, num trapiche abandonado, de frente prum areal, e que furtam, roubam, ferem, na luta pela sobrevivência diária), jorge amado dá ao seu romance um tom de veracidade através da construção da sua narrativa, tocando, de forma lírica & contundente, num problema que assola o país desde que chamaram estas terras de brasil: as crianças que são socialmente abandonadas, crianças marginais (porque estão à margem da sociedade, não integradas), crianças alijadas dos deveres & direitos de um estado, de uma nação.

para a sorte de waldemar sabino, num dos dias em que andava pelas ruas de salvador, ouviu uma música que vinha de um bar da rua por onde passava. resolveu parar na porta & ficou completamente fascinado pelo violão que tocava, acompanhado por outros instrumentos, alguns sambas-canções. waldemar sabino voltou ao bar todos os dias, e assistia com gosto à apresentação dos músicos, especialmente à do violonista & seu violão. de tanto aparecer & já demonstrando interesse pelo instrumento, o violonista do bar perguntou se ele gostaria de aprender a tocar o instrumento. waldemar sabino fez que sim & logo na seqüência o violonista tornou-se seu “padrinho” (como ele gostava de chamar) & tutor, o dono do violão que en-cantou seu coração. aos dezoito anos resolveu tentar a sorte numa cidade maior, o rio de janeiro. como todo nordestino pobre & artista, passou por muitas dificuldades, até que, mais uma vez, a sorte lhe sorriu: a oportunidade de integrar a orquestra de uma rádio & ter seu ordenado fixo — além dos extras com as apresentações que fazia quando não tocava na orquestra—. assim waldemar sabino comprou sua casa ampla com um belíssimo & enorme quintal, criou & educou seus filhos, e recebeu a família para almoços aos domingos, onde, sempre após as refeições, ele tocava suas canções preferidas — muito dorival (caymmi), muito herivelto (martins), muito ataulfo (alves), muito cartola, e uns tantos boleros.

foi um baiano orgulhoso de sua história & sua terra — até morrer, seus maiores ídolos foram jorge amado & dorival caymmi, e tinha um respeito imenso por joão gilberto.

(herdei a sua coleção de livros do jorge — mais que — amado & alguns dos seus discos do dorival.)

a lembrança maior que tenho do meu avô é a dele com seu violão para tudo que é lugar, levava-o sempre que podia.

ler este romance pela primeira vez quase aos quarenta anos foi um resgate da minha história, de um passado que resultou em mim & nos que chegam em minha família. terminei o livro muito emocionado, com meu avô muito na cabeça, “a sua biografia”, pensando na sua felicidade por ter alcançado um destino feliz, pensando no que poderia ter-lhe acontecido se ele não passasse por aquela ruazinha da sua velha são salvador, não ouvisse os acordes daquele que se tornou o seu maior amante & não tivesse o acolhimento daquele que se tornou seu padrinho.

porque sabemos que o destino de waldemar sabino, infelizmente, não foi o mesmo da imensa maioria dos capitães da areia.

fica a minha homenagem a estes dois belos baianos: ao waldemar & ao jorge, que, mesmo não sabendo, escreveu a biografia do meu avô, do meu eterno & terno capitão da areia.

beijo todos!
paulo sabino.
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(trechos do livro: Capitães da areia. autor: Jorge Amado. editora: Martins.)

 

 

“Depois o Sem-Pernas ficou muito tempo olhando as crianças que dormiam. Ali estavam mais ou menos cinqüenta crianças, sem pai, sem mãe, sem mestre. Nada possuíam além da liberdade de correr as ruas. Levavam vida nem sempre fácil, arranjando o que comer  e o que vestir, ora carregando uma mala, ora furtando carteiras e chapéus, ora ameaçando homens, por vezes pedindo esmolas. E o grupo era de mais de cem crianças, pois muitas outras não dormiam no trapiche. Se espalhavam nas portas dos arranha-céus, nas pontes, nos barcos virados na areia do Porto da Lenha. Nenhuma delas reclamava. Por vezes morria um de moléstia que ninguém sabia tratar. Quando calhava vir o padre José Pedro, ou a mãe-de-santo Don’Aninha ou também o Querido-de-Deus, o doente tinha algum remédio. Nunca, porém, era como um menino que tem sua casa. O Sem-Pernas ficava pensando.

E achava que a alegria daquela liberdade era pouco para a desgraça daquela vida.”

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“— Não deixam os pobres viver… Não deixam nem o deus dos pobres em paz. Pobre não pode dançar, não pode cantar pra seu deus, não pode pedir uma graça a seu deus. — Sua voz era amarga, uma voz que não parecia da mãe-de-santo Don’Aninha. — Não se contentam de matar os pobres à fome. Agora tiram os santos dos pobres… — e alçava os punhos.”

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“— Ainda não vai dizer? — perguntou o diretor do Reformatório. — Isso é só o começo.

— Não — foi tudo o que Pedro Bala disse.

Agora davam-lhe de todos os lados. Chibatadas, socos e pontapés. O diretor do Reformatório levantou-se, sentou-lhe o pé, Pedro Bala caiu do outro lado da sala. Nem se levantou. Os soldados vibraram os chicotes. Ele via João Grande, Professor, Volta Seca, Sem-Pernas, o Gato. Todos dependiam dele. A segurança de todos dependia da coragem dele. Ele era o chefe, não podia trair. Lembrou-se da cena da tarde. Conseguira dar fuga aos outros, apesar de estar preso também. O orgulho encheu seu peito. Não falaria, fugiria do Reformatório, libertaria Dora. E se vingaria… Se vingaria…

Grita de dor. Mas não sai uma palavra dos seus lábios.

(…)

Ouviu o bedel Ranulfo fechar o cadeado por fora. Fora atirado dentro da cafua. Era um pequeno quarto, por baixo da escada, onde não se podia estar de pé, porque não havia altura, nem tampouco estar deitado ao comprido, porque não havia comprimento. Ou se ficava sentado, ou deitado com as pernas voltadas para o corpo numa posição mais que incômoda. Assim mesmo, Pedro Bala se deitou. Seu corpo dava uma volta e seu primeiro pensamento era que a cafua só servia para o homem cobra que vira, certa vez, no circo. Era totalmente cerrado o quarto, a escuridão era completa. O ar entrava pelas frestas finas e raras dos degraus da escada. Pedro Bala, deitado como estava, não podia fazer o menor movimento. Por todos os lados as paredes o impediam. Seus membros doíam, ele tinha uma vontade doida de esticar as pernas. Seu rosto estava cheio de equimoses das pancadas na polícia, e desta vez Dora não estava ali para trazer um pano frio e cuidar do seu rosto ferido.”

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“A voz o chama. Uma voz que o alegra, que faz bater seu coração. Ajudar a mudar o destino de todos os pobres. Uma voz que atravessa a cidade, que parece vir dos atabaques, que ressoam nas macumbas da religião ilegal dos negros. Uma voz que vem com o ruído dos bondes, onde vão os condutores e motorneiros grevistas. Uma voz que vem do cais, do peito dos estivadores, de João de Adão, de seu pai morrendo num comício, dos marinheiros dos navios, dos saveiristas e dos canoeiros. Uma voz que vem do grupo que joga a luta da capoeira, que vem dos golpes que o Querido-de-Deus aplica. Uma voz que vem mesmo do padre José Pedro, padre pobre de olhos espantados diante do destino terrível dos Capitães da Areia. Uma voz que vem das filhas-de-santo do candomblé de Don’Aninha, na noite que a polícia levou Ogum. Voz que vem do trapiche dos Capitães da Areia. Que vem do Reformatório e do Orfanato. Que vem do ódio do Sem-Pernas se atirando do elevador para não se entregar. Que vem no trem da Leste Brasileira, através do sertão, do grupo de Lampião, pedindo justiça para os sertanejos. Que vem de Alberto, o estudante pedindo escolas e liberdade para a cultura. Que vem dos quadros do Professor, onde meninos esfarrapados lutam naquela exposição da rua Chile. Que vem de Boa-Vida e dos malandros da cidade, do bojo dos seus violões, dos sambas tristes que eles cantam. Uma voz que vem de todos os pobres, do peito de todos os pobres. Uma voz que diz uma palavra bonita de solidariedade, de amizade: ‘companheiros’. Uma voz que convida para a festa da luta. Que é como um samba alegre de negro, como o ressoar dos atabaques nas macumbas. Voz que vem da lembrança de Dora, valente lutadora. Voz que chama Pedro Bala. Como a voz de Deus chamava Pirulito, a voz do ódio o Sem-Pernas, como a voz dos sertanejos chamava Volta Seca para o grupo de Lampião. Voz poderosa como nenhuma outra. Porque é uma voz que chama para lutar por todos, pelo destino de todos, sem exceção. Voz poderosa como nenhuma outra. Voz que atravessa a cidade e vem de todos os lados. Voz que traz com ela uma festa, que faz o inverno acabar lá fora e ser a primavera. A primavera da luta. Voz que chama Pedro Bala, que o leva para a luta. Voz que vem de todos os peitos esfomeados da cidade, de todos os peitos explorados da cidade. Voz que traz o bem maior do mundo, bem que é igual ao sol, mesmo maior que o sol: a liberdade.”

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NO “FLA X FLU”, POESIA: A CASA QUE NÃO É MINHA
22 de outubro de 2014

Chave & Fechadura

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a vida, impreterivelmente, é feita de escolhas.

a fim de alcançar determinado objetivo, muitas vezes, algumas outras possibilidades, possibilidades de outros tantos caminhos, têm de ser deixadas para trás.

escolher é viver. o tempo inteiro, na vida, somos expostos a escolhas, aceitemos ou não. porém, as escolhas, em muitos casos, são inteiramente dispensáveis.

nos casos em que as escolhas são inteiramente dispensáveis & que, mesmo assim, escolhemos, podemos criar, ainda que sem intenção, verdadeiras disputas futebolísticas entre as coisas, onde nos obrigamos a escolher uma delas como quando escolhemos um time de futebol — flamengo OU fluminense — para vibrar & torcer & se emocionar.

determinadas questões não carecem de escolhas.

para determinadas questões, escolhas erguem muros espessos no caminho.

ao meu olhar, as belezas dispostas no mundo não carecem de escolhas. ao meu olhar, as belezas dispostas no mundo nasceram para serem complementares & não excludentes.

costumo dizer isto aqui sempre: a existência é um grande barato pela variedade de belezas que apresenta: variedade de bichos, de plantas, de mares, de rios, de rochas, de cores, de sons, de cheiros, de pessoas.

não seria diferente com as artes: com a arte da palavra, com a arte da música, com a arte do esporte.

portanto, por que escolher:

drummond ou joão cabral? chico ou caetano? anderson silva ou minotauro?

pepê ou rico de souza (dois grandes surfistas brasileiros)? mário de andrade ou oswald de andrade?

pepeu gomes ou armandinho (dois exímios guitarristas)? selton mello ou wagner moura? cartola ou nelson cavaquinho?

nelson piquet ou ayrton senna? clarice lispector ou cecília meireles? paula ou hortênsia (duas feras do basquete)?

mônica ou cebolinha? titãs ou os paralamas do sucesso? joão gilberto ou tom jobim? chacrinha ou sílvio santos? maysa ou elis regina?

antonio cicero ou waly salomão? renato russo ou cazuza? mundo livre s.a. ou nação zumbi?

determinadas questões não carecem de escolhas.

para determinadas questões, escolhas erguem muros espessos no caminho.

ao meu olhar, as belezas dispostas no mundo não carecem de escolhas. ao meu olhar, as belezas dispostas no mundo nasceram para serem complementares & não excludentes.

assim como, na vida, algumas coisas se tratam de escolhas, outras coisas, não; há aquelas para as quais não há o poder de escolha, não há opção: trata-se de sina ou maldição, não se pode afirmar ao certo o que seja.

não fui eu quem escolhi a poesia, não fui eu quem optei por ela. foi a poesia quem me escolheu, foi a poesia quem optou por mim. porque não está nas minhas mãos o poder de decidir quando adentrar a casa da poesia. é a poesia quem escolhe a hora da visita do poeta. não é o poeta o responsável pela decisão.

desse modo, a casa da poesia, essa casa não é minha: a casa da poesia pertence somente à poesia.

minha chave, a chave da minha casa, não serve à casa da poesia, não cabe em sua casa. desconheço a fechadura, desconheço o dispositivo de destrancar a sua porta, e, conseqüentemente, desconheço a metragem, o tamanho, da sua sala (até porque a sala de estar muda de metragem, altera de tamanho, a cada visita realizada).

tudo me é estranho, tudo me é diferente, tudo me é irreconhecível, na casa da poesia.

a cada visita, uma nova casa, uma grande surpresa: nunca se sabe o que encontrar na casa: metragem desconhecida, o teto que nada me diz, o ar estranho da cozinha, o quarto que não é meu, a cama em que nunca dormi, um ambiente que causa certo desconforto — não é certamente confortável estar entre as paredes da casa poética, sem saber se tal construção lírica é segura ou se pode desabar a qualquer momento.

essa casa não é minha.

ser poeta não é opção: é sina ou é maldição.

às coisas que não se tratam de sina, de maldição, nem de escolhas (como quando escolhemos um time de futebol — flamengo OU fluminense — para vibrar & torcer & se emocionar), abrigá-las todas dentro da morada do ser: a existência é um grande barato pela variedade de belezas que apresenta: variedade de bichos, de plantas, de mares, de rios, de rochas, de cores, de sons, de cheiros, de pessoas.

aproveitemos todas!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: A sombra do faquir. autor: Mauro Sta. Cecília. editora: 7Letras.)

 

 

FLA X FLU

 

Drummond ou João Cabral
Caetano ou Chico
Anderson Silva ou Minotauro
Pepê ou Rico

Mário ou Oswald
Pepeu ou Armandinho
Selton ou Wagner
Cartola ou Nelson Cavaquinho

Piquet ou Senna
Clarice ou Cecília
Paula ou Hortênsia
Mônica ou Cebolinha

Titãs ou Paralamas
João Gilberto ou Tom Jobim
Chacrinha ou Sílvio Santos
Maysa ou Elis

FHC ou Lula
Antonio Cicero ou Waly
Renato Russo ou Cazuza
Mundo Livre ou Nação Zumbi.

Escolhas erguem muros espessos no caminho.

 

 

ESSA CASA NÃO É MINHA

 

Minha chave aqui não cabe
desconheço a fechadura
e a metragem desta sala.
O teto não me diz nada
o ar da cozinha é estranho.
Claro que não é o meu quarto
onde me deparo agora.
Nunca dormi nesta cama,
nem me sinto bem aqui
depois de todos esses anos.

Ser poeta não é opção
é sina ou é maldição.

ELIS: A PRIMEIRA DAMA DA CANÇÃO
17 de janeiro de 2012

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O meu QUERIDO amigo & TALENTOSÍSSIMO poeta-compositor PÉRICLES CAVALCANTI me apresentou este BELÍSSIMO texto, escrito por CAETANO VELOSO, sobre a GRANDE DIVA, a SOBERANA ELIS REGINA.

Este ano a maior cantora do Brasil de todos os tempos completa os seus 30 anos de morte.

Seu desenlace existencial se deu em 19 de janeiro de 1982.

Minha mãe, a minha cabocla Jurema Armond, conta que o Brasil parou para chorar a sua partida. Ela mesma diz que ficou muitíssimo triste, abalada, com a notícia.

Eu, como toda & qualquer pessoa com o mínimo de percepção musical, sei que ELIS REGINA foi a MAIOR.

Todos sabem da minha IMENSA ADMIRAÇÃO & PREDILEÇÃO por outra diva, MARIA BETHÂNIA. Mas se pensarmos, em termos acadêmicos, o que é o canto, o que pode a voz, se pensarmos nos estudos que envolvem o instrumento vocal, Elis foi a cantora que abrigou TUDO em seu timbre, com maestria de GÊNIOS profundamente talentosos: ninguém conseguiu, até hoje, condensar tão PERFEITAMENTE técnica & emoção. Quando a ouço, tenho certeza: ela, Elis, não foi, ela, Elis, É A MAIOR.

As linhas do Caetano são LINDAS, e merecem ser lidas.

Ele fala sobre a sua relação de encontros & desencontros com Elis, salientando, sempre, os seus ENORMES carinho & admiração: “eu via Elis cantar exclusivamente para me sentir bem”, declara.

Ao final do seu texto uma frase-chave, com a qual Caetano acaba por ratificar o tom (acertado, afinado, limpo) do ser de Elis: “ela me escreveu um bilhete pedindo perdão pelo que fez com ‘Gente'”.
 
Em seu livro “Sobre as letras” (ed. Companhia das Letras), o poeta-compositor explica o episódio envolvendo a (sua) canção “Gente”:
 
“No show Transversal do tempo, Elis Regina cantava ‘Gente’ como se estivesse debochando da canção, com o arranjo servindo ao deboche, e aparecia ‘Beba Gente’ escrito atrás, como se fosse Coca-cola. (…) Um pouco antes de morrer, ela me escreveu uma carta dizendo que aquilo que ela tinha feito com a minha música em Transversal do tempo tinha sido idéia dos diretores do show, que ela não queria, que, por ela, não faria aquilo, e me pediu desculpas”. 
 
Logo após o texto de Caetano, uma das gravações de Elis que conheci ainda moleque & que me fisgou pelo pé (da cabeça) – rs.
 
Lembro-me do arrepio ao ouvi-la (a referida gravação) pela primeira vez, lembro-me da minha emoção, da beleza que se revelava.
 
Os versos contam a história duma mulher que “aparece” ao mundo, que “surge” à vida, depois de uma grande desilusão amorosa. Mulher que cresceu olhando a vida sem malícia, sem maldades, até que um cabo de polícia despertou seu coração. O policial, cabo (sua patente), fê-la apaixonar-se, para, em seguida, soltá-la na rua, abandoná-la, desprezada como um cão. Depois disso, desiludida, machucada, ferida, a mulher caiu na “orgia” (termo, antes, muito utilizado para noitadas de muita farra, de muita cantoria & bebedeira, sem a forte conotação sexual que ganhou nos dias atuais).
 
Mulher “da virada” (boêmia, mulher que apronta na noite, mal vista, inclusive, por outras mulheres), esquecida por Deus, mulher que irá cada vez mais se esmolambando, cada vez mais arrastando os seus molambos (os seus farrapos) , mulher que seguirá sempre cantando na batucada da vida.

A ela, Elis, pimenta boa de ser degustada, os meus PROFUNDOS carinho & respeito!

SALVE ELIS REGINA, a PRIMEIRA DAMA da canção!
 
Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Conteúdo Livre. autor do texto: Caetano Veloso.)

 

QUEM ENTENDE DE MÚSICA SABE QUE ELA (ELIS) É UMA DAS MAIORES QUE JÁ HOUVE


Ouvi Elis pela primeira vez vendo-a na televisão. Foi em Salvador — e nós, os baianos que chegaram ao eixão na esteira da estreia de Bethânia no Opinião, já tínhamos um esboço de visão da música popular numa perspectiva brasileira. Tive reação semelhante à que muitos tiveram: finalmente uma cantora moderna, em pleno domínio de seus recursos aparecia na cena profissional — e já embalada para alcançar massas de ouvintes. Era indubitavelmente um largo passo dado. Éramos todos, Elis e nós, esforços de criação dentro do universo exigente que foi o imediato pós-bossa nova.

Sempre conto que, na minha imaginação, Bethânia, Gal, Gil e eu faríamos algo marcante. Dos quatro, Gal e eu éramos os mais radicalmente joãogilbertianos. E eu talvez mais do que Gal. Bethânia tinha um temperamento e um talento que a levavam para além das marcas estilísticas do supercool de João. Gil, por ser o que mais era capaz de apreender os acordes e as levadas de violão do mestre, sentia-se livre para cruzar a fronteira. Gal desejava entrar cada vez mais fundo no mundo desdramatizado da bossa pura. Eu, que me julgava um observador útil, capaz apenas de contribuir com acompanhamento crítico e conversas teóricas (o que não me impedia de fazer umas musiquinhas), tinha João como paradigma e, por isso, interessava-me pelo desvelamento do ser da canção como forma. Assim, o canto e violão dele se opunham, dentro de mim, ao samba-jazz dos grupos instrumentais (ou voco-instrumentais) que se desenvolveram no Beco das Garrafas. Elis, cantando na TV, num videotape dos que chegavam de avião às províncias (ainda não havia televisão em rede), era a realização brilhante do estilo que me parecia oposto ao de João.

Mas a evidência de competência, talento e desenvoltura era mais forte do que meus esquemas críticos. O fato bruto de que alguém estivesse dominando divisões complicadas das frases rítmicas e exibindo com espontânea segurança o entendimento de cada nota cantada (o modo como ela instintivamente cuidava da afinação) era em si mesmo um acontecimento na cena brasileira, um acontecimento que me obrigava a pôr tudo em novo patamar. Bem, tudo o que eu imaginava para meus três amigos era algo que tivesse esse poder — mas por outras vias, a partir de outros elementos, sempre nascidos da atenção a João. Assim, vi uma tensão natural entre nosso projeto e o acontecimento Elis. Tive quase um sentimento de ciúme. Sobretudo me senti com maiores responsabilidades e excitado por desafios mais altos.

Nada disso nunca se desmentiu. Depois de Elis, teríamos que fazer algo mais radical. Bethânia esteve sempre fora da questão, já que ela tinha um estilo assombrosamente desenvolvido e totalmente independente da estética da bossa nova. Mas ela mal tinha se decidido pela música: havia sonhado em ser atriz, escrevia e fazia joias de metal. Sua voz e sua intensidade pessoal é que a puxaram para o canto, através do interesse despertado em quem a ouvia. O modo extrovertido, o tom expressionista, que contrastava com a sobriedade da bossa nova, tudo isso ela tinha em comum com Elis. Mas eram figuras opostas. Pôr as duas em comparação, dentro da cabeça, era como contrapor Sarah Vaughan a Edith Piaf. Mas o que acontecia era que, com Elis, eu era levado a pensar assim, em termos mundiais, considerando figuras nascentes de nossa canção com divas do grande mundo.

Bem, o ambiente de criação de música popular no Brasil estava se diversificando. Era a época de Edu — e Nara tinha aberto o leque do repertório, saindo das salas sofisticadas e indo ao morro e ao sertão. Mas, fosse Edu, Nara ou nós, todos parecíamos treinados em ambientes de teatro, cineclubes e diretórios acadêmicos. Elis era uma menina que gostava de Ângela Maria e se tornara um fenômeno infantojuvenil em Porto Alegre. A evidência de seu talento chamou a atenção de produtores que sonharam em fazer dela uma nova versão de Celly Campello, o que resultou em quatro LPs que, depois do estouro de “Arrastão”, foram banidos de sua discografia oficial — não tão diferente assim do que aconteceu com o 78 RPM de João, gravado no início dos anos 50. Seja como for, Elis vinha do mundo da música comercial, enquanto Nara , Edu e nós vínhamos dos ambientes intelectualizados.

O Beco das Garrafas e Armando Pittigliani compuseram a Elis genial que, logo formatada por Solano Ribeiro, veio a ser aquela espantosa explosão de “musician ship” que eu vi na TV.

Todos os encontros e desencontros que tive com Elis tiveram esse histórico como pano de fundo. Rogério, seu irmão, me deu de presente os quatro LPs pré-“Arrastão”, numa época em que eu, deslumbrado pelo prazer que dava assistir aos shows dessa cantora que nunca estava fora de sintonia com a música, via mais de uma vez seus espetáculos. Desde que voltei de Londres (coincidindo, em parte, com o período em que ela mostrou sua versão do cool), eu via Elis cantar exclusivamente para me sentir bem. Ela influenciou gerações de cantores, lançou multidões de autores, briguei com a “Veja” por causa do modo como essa revista publicou a notícia da sua morte (briga que nunca mais achei jeito de desfazer), e hoje a gente sabe que Björk a admira, que quem entende de música no mundo sabe que ela é uma das maiores que já houve. Ela me escreveu um bilhete pedindo perdão pelo que fez com “Gente”. E saúdo sua memória com um amor muito pessoal, particular e cheio de conteúdos peculiares.
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(autores: Ary Barroso / Luiz Peixoto.)
 
 
NA BATUCADA DA VIDA
 
 
No dia em que eu apareci no mundo
Juntou uma porção de vagabundo
Da orgia
De noite teve samba e batucada
Que acabou de madrugada
Em grossa pancadaria
 
Depois do meu batismo de fumaça
Mamei um litro e meio de cachaça
Bem puxado
E fui adormecer como um despacho
Deitadinha no capacho
Na “Porta dos Enjeitados”
 
Cresci olhando a vida sem malícia
Quando um cabo de polícia
Despertou meu coração
E como eu fui pra ele muito boa
Me soltou na rua, à-toa
Desprezada como um cão
 
E hoje que eu sou mesmo da virada
E que eu não tenho nada, nada
Que por Deus fui esquecida
Irei cada vez mais me esmolambando
Seguirei sempre cantando
Na batucada da vida
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(do site: Youtube. canção: Na batucada da vida. autores: Ary Barroso / Luiz Peixoto. intérprete: Elis Regina. áudio extraído do álbum: Elis (1974). gravadora: Universal Music.)

OBSESSÃO
12 de junho de 2010

obsessão:
 
compulsão mania atração fixação motivação.
 
obsessão:
 
a doença no homem.
 
no artista, a saúde.
 
(os temas & assuntos & acontecimentos nas peças de nelson rodrigues, os temas & assuntos & situações nos filmes de woody allen & pedro almodóvar, os traços de picasso, os paradoxos em pessoa, a secura & exatidão nos versos de cabral, a porra-louquice lúcida de waly, o suingue nas músicas de benjor, o esmero nos efeitos poéticos das letras de chico buarque, a precisão das notas na voz & no violão de joão gilberto:
 
a tudo isso: obsessão.)
 
ali a ilha nesse mar tão desmedido, ali a luz no escuro inexpressivo: obsessão diária, renitente, recorrente (minha).
 
 
(a obsessão dos poetas: por mais viciantes o cigarro, o sexo, o álcool, viciam, ainda mais: as palavras.)
 
 
beijo bom & carinhoso em vocês,
paulo sabino / paulinho.
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(do livro: Belvedere [1971-2007]. autor: Chacal. editora: 7Letras / Cosac Nairfy.)
 
 
OBSESSÃO
 
ali a linha
que atravessa
o labirinto
ali o fio
da meada
interminável
 
obsessão
 
(toda peça
— adultérios, incestos, tabus —
a mesma peça
em nelson
todo poema a mesma pancada
em cabral
toda canção a mesma levada
em benjor)
 
obsessão
 
o cara só pensa nisso
a mina não entra em outra
 
obsessão
 
ali a ilha
nesse mar
tão desmedido
ali a luz
no escuro
inexpressivo
 
obsessão