A IDADE DO CÉU
13 de janeiro de 2010

bacanas,
 
“o rei na barriga”, sabemos, é uma expressão que não existe à toa.
 
às vezes me impressiona o quanto conseguimos ser arrogantes & presunçosos & soberbos & autoritários & prepotentes, sem darmos conta da nossa pequenez, da nossa insignificância, ante a grandeza do mundo.
 
frente a ele, frente ao mundo, podemos quase nada. não damos pé.
 
o poema “pergunta e resposta”, do magistral ferreira gullar, já publicado neste espaço (https://prosaempoema.wordpress.com/2009/11/05/pergunta-e-resposta/), consegue dimensionar essa verdade incontestável. o artigo do historiador josé augusto pádua, “civilização do risco”, também consegue.
 
não somos o que queríamos ser.
 
somos, dentro de um antigo silêncio, dentro de um silêncio com a mesma idade do céu, um breve pulsar. somos um capricho do sol. somos a piada de deus. formigas facilmente esmagadas pelos dedos. (a natureza os dedos são.) um grão de sal no imenso mar celeste.
 
é preciso um tanto mais de paciência.
 
é preciso um tanto mais de: calma. deixe que o beijo dure. deixe que o tempo cure. deixe que a alma tenha a mesma idade que a idade do céu.
 
abaixo, versos bosquejados por um grande compositor latino-americano, que merece ser mais conhecido por nós, brasileiros, seus vizinhos. linhas vindas de montevidéu, chegadas das mãos do uruguaio jorge drexler. a versão ficou por conta de um outro jovem grande compositor, o (paulinho) moska. 
 
conheçam a canção e cantem-na contra quaisquer sentimentos — sempre mesquinhos — de desmesura que nos assaltem a alma.
 
fiquem bem, e, se possível, em paz.
o preto,
paulo sabino / paulinho.
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(extraído do cd: Tudo novo de novo. artista: Moska. gravadora: EMI.)
 
 
A IDADE DO CÉU  (letra: Jorge Drexler — versão: Moska)
 
Não somos mais
Que uma gota de luz
Uma estrela que cai
Uma fagulha tão só
Na idade do céu
 
Não somos o que queríamos ser
Somos um breve pulsar
Em um silêncio antigo
Com a idade do céu
 
Calma
Tudo está em calma
Deixe que o beijo dure
Deixe que o tempo cure
Deixe que a alma
Tenha a mesma idade
Que a idade do céu
 
Não somos mais
Que um punhado de mar
Uma piada de Deus
Ou um capricho do sol
No jardim do céu
 
Não damos pé
Entre tanto tic tac
Entre tanto Big Bang
Somos um gão de sal
No mar do céu
 
Calma
Tudo está em calma
Deixe que o beijo dure
Deixe que o tempo cure
Deixe que a alma
Tenha a mesma idade
Que a idade do céu

CIVILIZAÇÃO DO RISCO
12 de janeiro de 2010

prezados,
 
achei de extrema relevância & pertinência a publicação, neste espaço, do artigo que segue, saído do caderno “mais!”, do jornal “folha de são paulo”, artigo escrito pelo historiador josé augusto pádua. trata-se de uma análise das tragédias ocorridas no fim do ano último, com as chuvas que desabaram em diversas regiões do país, deixando cidades inteiramente destruídas e causando a morte de muitas pessoas. preocupa-me deveras, como preocupa o autor das linhas abaixo, a nossa situação futura neste planeta azul.
 
lembrem-se: a natureza possui forças maiores que a nossa. não podemos com ela. somos parte dela, e, como tais, devemos respeitá-la. vamos deixar de ferir, porque sofremos as conseqüências dos nossos atos.
 
vamos cuidar seriamente desta questão, pessoas.  
 
beijo com olhos de cuidado & atenção,
o preto,
paulo sabino / paulinho.
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(do caderno: Mais!. jornal: Folha de São Paulo. autor: José Augusto Pádua. em: 10/01/10.)
 
 
CIVILIZAÇÃO DO RISCO  
 
Ao ver as imagens recentes de encostas desabando, pontes caindo e águas invadindo o interior de tantas casas e vidas, não pude deixar de pensar, até por ranço de historiador, que cenas semelhantes vêm se repetindo desde os primórdios do longo e difícil processo de construção do que hoje chamamos de território brasileiro. Basta lembrar que São Vicente [no litoral paulista], a primeira povoação oficialmente criada na América portuguesa, teve seu núcleo urbano destruído por uma combinação de tempestades e ressacas em 1541. O mar tragou a Casa do Conselho, a fortaleza e a igreja matriz, edificadas sobre solos arenosos.

Antes disso, o porto da ilha de São Vicente já sofria com o assoreamento provocado pelas enxurradas que desciam as encostas parcialmente desmatadas pelas primeiras plantações. Em uma carta de 1560, escrita naquela região, o padre José de Anchieta descreveu uma tempestade que “abalou as casas, arrebatou os telhados e derribou as matas”.

Paradoxo da modernidade

É claro que não se pode estabelecer uma sequência simples entre esse passado longínquo e as tragédias que ocorrem diante dos nossos olhos. Mas a história é sempre um jogo de continuidades e descontinuidades.

O contexto atual é muito diferente em termos de tamanho dos assentamentos e de complexidade dos meios tecnológicos. O litoral brasileiro está hoje inserido, mesmo que de forma desigual, no que Patrick Lagadec [diretor de pesquisas na Escola Politécnica de Paris, na França] chamou de “civilização do risco”. Um paradoxo da modernidade.

Em certos aspectos, o mundo urbano-industrial fornece mais segurança do que no passado.

Em outros, ele é incomparavelmente mais arriscado.

Sua densidade, suas escalas e sua alta dependência de energia são também as causas da sua fragilidade. Foi significativo o temor de que os desabamentos inviabilizassem o plano de evacuação da usina nuclear de Angra [dos Reis]…

No século 16, no entanto, alguns elementos já estavam aqui presentes: as encostas, as matas e os aguaceiros tropicais.

E também a dificuldade humana em reconhecer que nossa vida é, de fato, um jogo permanente com forças naturais que não criamos, e cujos movimentos não dependem do nosso arbítrio. Hoje, sabemos que a Terra é um planeta antigo, poderoso e muito diversificado.

Sua existência se funda em ciclos biogeoquímicos que movimentam fluxos de matéria e energia muito superiores aos que nossa tecnologia é capaz de produzir.

Medidas urgentes

Em cada região existem realidades específicas com as quais interagir. Daí o tema fundamental da “localização” (que ganha mais importância no mundo da “globalização”).

É preciso superar a tradição arrogante de construir espaços sociais sem atenção à realidade natural através da qual existimos. A sustentabilidade consciente requer que as sociedades se territorializem de maneira ecologicamente inteligente.

Algo que, por certo, não é nada fácil, ainda mais no contexto de sociedades abertas e dinâmicas, que conseguem burlar cotidianamente as leis estabelecidas para ordenar o uso dos solos.

A desocupação das áreas de risco, porém, não pode mais ser adiada.

As florestas representam a melhor proteção das encostas, e sem elas o desastre seria incomensurável. É preciso que a sociedade defenda o Código Florestal das forças políticas retrógradas que o atacam no Congresso Nacional.

As áreas de preservação permanente e de reserva legal, determinadas pelo código, são essenciais para estimular um modelo de desenvolvimento cuidadoso e tecnologicamente intensivo (superando a velha tradição de crescimento horizontal e devastador).

Em regiões de forte densidade urbana, especialmente, as áreas de preservação permanente (vegetação que protege os recursos hídricos, a estabilidade geológica etc.) devem ser consideradas um pressuposto da segurança coletiva.

Aqui é preciso levar em conta um problema que também se observa na Amazônia. As florestas parcialmente exploradas, mesmo por um número limitado de atividades, perdem grande parte da sua capacidade sistêmica de estabilizar solos e reter umidade.

As áreas de preservação permanente, portanto, necessitam ser respeitadas na sua totalidade.

As intervenções de engenharia geotécnica, por outro lado, precisam ser democráticas, suplantando a prática elitista de concentrá-las nas áreas habitadas pelos mais ricos.

A existência de “zonas de sacrifício”, onde se considere normal que populações pobres convivam com espaços degradados e de grande risco, dotados de baixíssimo investimento público, constitui uma injustiça ambiental inaceitável no contexto de uma ordem verdadeiramente republicana.

A adoção de boas políticas e práticas, diante dos problemas específicos que estão sendo tratados aqui, pode ser vista como um aprendizado coletivo para o futuro. A tendência geral é que nossa vida no planeta se torne cada vez mais difícil nas próximas décadas, com o avanço das mudanças climáticas.

É bom começar a tratar do assunto com a maior seriedade.

Se não aprendermos a enfrentar problemas climáticos com os quais convivemos há séculos, como agiremos diante dos riscos bem maiores que se delineiam no horizonte?