LÍNGUA À BRASILEIRA
7 de julho de 2015

Brasil_Portugal_Bandeiras
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“Quando em 1500 os portugueses chegaram ao Brasil, na região de Porto Seguro, Bahia, encontraram ali um povo que falava uma língua completamente desconhecida dos europeus. Era o povo tupinaki, que falava a língua tupinambá. A maioria dos povos que viviam ao longo da costa, desde o Rio de Janeiro até o Ceará, falava essa mesma língua. Foi com a língua tupinambá que os colonos portugueses tiveram contato mais estreito durante o século XVI. Para entender-se com os indígenas, a fim de conhecer a nova terra e nela viver, muitos deles tiveram de aprendê-la. Desse contato resultou a grande influência do tupinambá no vocabulário do português do Brasil. Milhares de nomes comuns e nomes de lugares que utilizamos hoje em todo o país são palavras tupinambás.”

“Entre os séculos XVI e XIX foram trazidos para o Brasil entre 4 e 5 milhões de africanos escravizados. Desse total, cerca de 1 milhão foram embarcados nos portos da África Ocidental, entre a Costa do Ouro, atual Gana, e o Golfo de Biafra, na Nigéria. Oriundos dos diversos reinos que existiam na região, começaram a aportar no Brasil a partir da segunda metade do século XVII. Seu principal destino foi a cidade de Salvador e o Recôncavo Baiano, Minas Gerais e o Maranhão. As línguas que eles falavam, como o iorubá e o evé-fon, influenciaram a língua portuguesa no Brasil principalmente no domínio religioso.”

(Textos extraídos de painéis de exposição do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo.)
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a língua portuguesa, por misturar-se, mesclar-se, miscigenar-se, ganhou um rosto novo, abrasileirado: a língua — portuguesa — à brasileira, a língua — portuguesa — repaginada à maneira nossa, a língua à moda brasileira.

língua: também designa o órgão muscular situado na boca, responsável, entre outras coisas, pela produção dos sons.

língua: órgão muscular. língua à brasileira: órgão vernacular, órgão próprio de um país.

língua à brasileira: órgão vernacular alongado, encompridado, feito de muitas misturas (europeu + índio + negro), alongado como o órgão muscular, e por isso mesmo: hábil, móvel, tátil.

amálgama lusa malvada, portuguesa malvada nascida da mistura de elementos heterogêneos (europeu + índio + negro), malvada porque mastiga, come, engole, degusta, deglute, deflora, o que encontrar pela frente, mas qual flora antropofágica, no seu movimento de misturar, de mesclar, de miscigenar, salva a pátria mal amada, salva a nação mal cuidada, salva este país de assassinos, corruptos & desigualdades alarmantes.

“língua-de-trapo”, “língua solta”, “língua ferina”, “língua douta”: expressões idiomáticas muito brasileiras.

língua à brasileira: língua-de-trapo & língua solta (língua para quem fala demais), língua ferina (mordaz, venenosa, língua da injúria, da fofoca), língua douta (língua erudita, de muitos saberes): saravá, língua-de-fogo & fósforo (chama, labareda, língua acesa), saravá, língua viva & declinativa (língua feita de declinação: conjunto das diversas formas que os substantivos, adjetivos, pronomes, artigos e numerais apresentam de acordo com a sua função sintática na oração), saravá, língua fônica (língua sonora, melodiosa) & apócrifa (língua inautêntica, toda misturada), saravá, língua lusófona & arcaica, crioula iorubáica (pela forte presença da língua iorubá na língua à brasileira), saravá, língua-de-sogra (faladeira incorrigível) & língua provecta (língua-mestre, avançada, inovadora), saravá, língua morta & ressurrecta (língua nascida do latim, que é uma língua já extinta, portanto, “morta”, e ressurrecta, isto é, língua renascida, ressuscitada, repaginada), saravá, língua tonal (cheia de tons & matizes) & viperina (língua venenosa, per-versa), saravá, palmo de neolatina (a língua portuguesa integra o grupo das línguas neolatinas, línguas derivadas da língua latina), saravá, “poema em linha reta” (poema elaborado pelo maior poeta da língua, o imensurável fernando pessoa), saravá, lusíadas no fim do túnel (referência a um dos mestres da poesia portuguesa, anterior a pessoa, luís de camões), saravá, caetano não fica mudo (o grande poeta-compositor da língua à brasileira possui um dos mais belos poemas-canções já escritos a respeito, intitulado “língua”), saravá, nem fica mudo o “seo” manoel lá da esquina, um dos tantos portugueses donos de estabelecimento comercial.

por ti, afro-gueixa (língua misturada, mesclada, miscigenada), por ti, guesa errante (referência ao mais célebre poema do poeta maranhense sousândrade, intitulado “guesa errante”, inspirado numa lenda andina em que o índio adolescente chamado “guesa” seria sacrificado como oferenda aos deuses), por ti, língua à brasileira, o mar se abre, o sol se deita. o mar se abre, o sol se deita, por mários de sagarana (“sagarana”, título de uma obra do mestre mineiro guimarães rosa, é um neologismo formado a partir da palavra “saga”, de origem européia, que designa “canto lendário ou heróico”, e da palavra “rana”, de origem tupi, que designa “semelhança”, “proximidade”), por magos de saramago (referência ao grande escritor português josé saramago & à magia concentrada em sua prosa vertiginosa).

viva os lábios! viva a língua da boca, a linguagem oral!
viva os livros! viva a língua da página, a linguagem escrita!

viva os lábios, viva os livros, dos rosas, campos & netos (de todos os nossos grandes escritores)! viva os léxicos (o vocabulário, o repertório de palavras) & os êxtases alcançados com os andrades — drummond, mário, oswald! viva toda a síntese da sintaxe dos erros milionários, dos erros que resultam em ganhos, em riquezas!

língua afiada a machado, porque cortante, porque precisa, porque ferina, como a ferramenta, e também porque língua afiada a machado de assis, escritor brasileiro afiadíssimo, considerado o maior de todos os tempos. desafinada índia-preta. por cruzas diversas, por misturas divinas (europeu + índio + negro), mil linguageiras, mil maneiras de se escrever & falar a língua.

a coisa mais língua que existe, a coisa mais comunicável que conheço, é o beijo da impureza desta língua que adeja toda a brisa brasileira: por mim, tupi, índio destas matas; por tu, “guesa”, índio da lenda, com nome que também integra a língua que me língua: a língua portuguesa.

a coisa mais língua que existe, a coisa mais comunicável que conheço, é o beijo da impureza desta língua que adeja toda a brisa brasileira: por mim, tupi, índio destas matas; por tu, leitor, tua língua portuguesa.

(a língua é minha pátria.)

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Qtais. autor: Luis Turiba. editora: 7Letras.)

 

 

LÍNGUA À BRASILEIRA

 

Ó órgão vernacular alongado
Hábil áspero ponteado
Móvel Nobel ágil tátil
Amálgama lusa malvada
Degusta deglute deflora
Mas qual flora antropofágica
Salva a pátria mal amada

Língua-de-trapo Língua solta
Língua ferina Língua douta
Língua cheia de saliva
Saravá Língua-de-fogo e fósforo
Viva & declinativa
Língua fônica apócrifa
Lusófona & arcaica
Crioula iorubáica
Língua-de-sogra Língua provecta
Língua morta & ressurrecta
Língua tonal e viperina
Palmo de neolatina
Poema em linha reta
Lusíadas no fim do túnel
Caetano não fica mudo
Nem “Seo” Manoel lá da esquina
Por ti Guesa errante, afro-gueixa
O mar se abre o sol se deita
Por Mários de Sagarana
Por magos de Saramago

Viva os lábios!
Viva os livros!
Dos Rosas Campos & Netos
Os léxicos, Andrades, os êxtases
Toda a síntese da sintaxe
Dos erros milionários
Desses malandros otários
Descartáveis, de gorjetas.

Língua afiada a Machado
Afinal, cabeça afeita
Desafinada índia-preta
Por cruzas mil linguageiras
A coisa mais Língua que existe
É o beijo da impureza
Desta Língua que adeja
Toda a brisa brasileira
Por mim,
……………Tupi,
……………………Por tu Guesa

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DECLARAÇÃO: AS PALAVRAS SÃO NOVAS
16 de abril de 2013

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(Na foto, a partir do primeiro plano: Jorge Amado, José Saramago & Caetano Veloso.)

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 declaração: não, não há morte.
 
nem esta pedra é morta, nem morto está o fruto que tombou: o abraço dos meus dedos — na pedra, no fruto que tombou — dá-lhes vida, (a pedra, o fruto que tombou) respiram na cadência do meu sangue, (a pedra, o fruto que tombou) respiram na cadência do bafo que os tocou.
 
também um dia, quando esta mão secar, quando, um dia, não mais estiver entre os senhores esta mão a abraçar com os dedos a pedra & o fruto que tombou, dando-lhes vida, na memória de outra mão perdurará; na memória da mão tocada, afagada, acarinhada, esta minha mão perdurará quando estiver secado (sem gota de sangue que a anime), perdurará à prova de tempo, assim como a boca guardará, caladamente, o sabor das bocas que beijou.
 
também um dia, quando esta mão secar & não mais falarem as palavras por meio dela, que perdurem na memória de quem as lê as palavras aqui dispostas.
 
as palavras, mesmo velhas, são novas: nascem quando as projetamos em cristais de macias ou duras ressonâncias, nascem quando as projetamos em cristais de brandas, suaves, ou de árduas, rígidas, repercussões sonoras.
 
as palavras, mesmo velhas, são novas, porque novas as disposições, novos os encaixes, das palavras na frase ou no verso (as tantas disposições & os tantos encaixes possíveis das palavras na frase ou no verso é o que lhes confere o caráter de “novidade”), e, dependendo da intenção de quem as escreva ou pronuncie, as palavras projetam cristais de reverberações sonoras macias (brandas, suaves) ou reverberações sonoras duras (árduas, rígidas). 
 
somos iguais aos deuses (que, segundo a mitologia, inventaram os homens): inventamos, na solidão do mundo (pois o mundo nada nos diz, nada nos revela: o mundo segue cego & mudo a sua jornada rumo ao nada), estes sinais (os sinais: as palavras, criadas por nós na tentativa de compreender & explicar o mundo), que nos servem de pontes (entre entre a nossa profunda ignorância & o que está fora de nós), pontes que arcam as distâncias; inventamos, na solidão do mundo, estes sinais — as palavras — que nos servem de pontes (entre a nossa profunda ignorância & o que está fora de nós) que tentam nos dar acesso a isto a que chamamos: mundo, o nosso entorno, aquilo que nos cerca — com as palavras, a tentativa (errante) de compreendê-lo, de conhecê-lo, de desvendá-lo.
 
as palavras são pontes que arcam as distâncias: as palavras não encurtam as distâncias entre a nossa profunda ignorância & o que está fora de nós (o mundo, o nosso entorno, aquilo que nos cerca), as palavras mudam as distâncias de perspectiva, as palavras tornam as distâncias mais curvas: apesar de parecer que damos conta, na verdade, não damos conta de muitas coisas — não damos conta da maioria das coisas — com a linguagem: as palavras não solucionam uma série de coisas: mais desconhecemos que conhecemos: fadados — por conta da nossa pequenez & insignificância frente à grandeza do mundo — a uma ignorância atávica abismal.
 
ainda assim, nas nossas tentativas errantes, às palavras devemos muito o pouco que alcançamos. 
 
beijo todos!
paulo sabino. 
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(do livro: Poesia completa. autor: José Saramago. editora: Alfaguara.)
 
 
 
DECLARAÇÃO
 
 
Não, não há morte.
Nem esta pedra é morta,
Nem morto está o fruto que tombou:
Dá-lhes vida o abraço dos meus dedos,
Respiram na cadência do meu sangue,
Do bafo que os tocou.
Também um dia, quando esta mão secar,
Na memória doutra mão perdurará,
Como a boca guardará caladamente
O sabor das bocas que beijou.
 
 
 
“AS PALAVRAS SÃO NOVAS”
 
 
As palavras são novas: nascem quando
No ar as projectamos em cristais
De macias ou duras ressonâncias.
 
Somos iguais aos deuses, inventando
Na solidão do mundo estes sinais
Como pontes que arcam as distâncias.

A RECEITA & A REGRA: UMA DESMEDIDA MEDIDA
24 de maio de 2011

(saramago: o ser mago das palavras)

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com pesos duvidosos, e duvidosos porque a medida dos pesos utilizados eu não sei dizer se é justa, se é correta, me sujeito, sujeito o meu sujeito, à balança até hoje recusada, balança cujos serviços até hoje não utilizei.
 
é tempo de saber o que mais vale: ponho, num prato raso, pois que num raso prato caibo, as matérias que me fizeram; coloco, num raso prato, todas as matérias que me compreendem:
 
os sonhos fugidiços, o desespero de prender ou de deixar solta, livre, a sombra que me vai medindo os dias, ponho na balança a vida, tão pouca, o ruim corpo, as traições naturais, as relutâncias, ponho na balança o que há de amor, a sua urgência, ponho na balança o gosto de passar entre as estrelas, gosto de ser entre seres, gosto de coisa entre coisas.
 
e concluo:
 
a certeza de ser, do ser, esta certeza do ser, de ser, só a teria se a poesia, mestra da minha vida, se a poesia, quem tanto me ensina, se a poesia viesse pesar-me.
 
diante de tal impossibilidade, o melhor é deixar de lado esta balança de pesos & medidas duvidosos & imprecisos e seguir a receita que muito me apetece, sem maiores preocupações:
 
tome-se um poeta não cansado, tome-se um poeta vigoroso em sua escrita, vigoroso na disposição das palavras em versos, tome-se uma nuvem de sonho & uma flor; três gotas de tristeza, um tom dourado, uma veia sangrando de pavor (e de amor); uma pitada da luz dum corpo desejado, e outra pitada se reforce: a de morte, que um amor de poeta assim requer: amor cheio de imagens & dramas existenciais (rs…).
 
junto à receita, uma regra pode jamais ser esquecida:
 
damo-nos tão pouco à vida… quando muito, damo-nos mais na cama, no sexo, ou na mesa pomos, isto é, ou cumprimos algumas obrigações domésticas/familiares. a regra, que pode jamais ser esquecida, pede muito mais:
 
há que nos darmos sem medida, como o sol, imagem rigorosa do que somos.
 
o sol: imagem rigorosa do que somos: tal & qual o astro-rei, nascemos para brilhar, nascemos para iluminar — “gente é pra brilhar, não pra morrer de fome” —, tal & qual o astro-rei nascemos para aquecer, para aquecer a vida, para aquecer o outro, meu irmão, nascemos para arder, nascemos para queimar.
 
afinal,
 
quem é quem é, coração? 
 
quem se dá, quem se recusa?
 
quem procura, quem alcança?
 
quem defende, quem acusa?
 
quem faz os nós, quem os desata?
 
quem duvida & acredita?
 
quem afirma, quem desdiz?
 
quem se arrepende, quem não?
 
quem é feliz, quem é infeliz?
 
quem é quem é, coração? adivinha!
 
(somos nós, coração: eu & você…) 
 
temos, nós & os nossos corações, que nos dar mais à existência.
 
e temos que nos dar mais à existência sem a pretensão de “medir”, de “aferir”, o amor. antes, o amor é quem mede, incorrupto juiz, ao qual não adianta subornos ou chantagens ou mentiras, uma vez que quem mede o amor é o próprio amor, na sua craveira desmedida, isto é, na sua desmedida medida, medida doida, maluca, avariada, medida que só ao amor cabe dizer & entender.
 
chamados (pelo amor) todos somos: no entanto, o amor só elege quantos de nós soubermos converter em chama vertical, em chama profunda, em chama que aquece, em chama que alimenta, em chama que ilumina, a hora consumida, isto é, em chama vertical (em chama profunda) a hora ida, a hora vivida; o amor só elege quantos de nós soubermos converter em mãos de dar, em mãos de doar, os dedos de reter, isto é, converter em mãos de dar os dedos de conter, os dedos de deter, os dedos de reprimir, os dedos de suster, os dedos de guardar, egoístas.
 
o amor é o avesso do egoísmo.
 
o amor não retém, o amor não prende; o amor entrega-se, o amor doa-se, o amor dá-se: o amor liberta.
 
(o amor melhora a existência.)
 
ouçam o mestre. ouçam as vozes dos versos de josé saramago, o ser mago das palavras.
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Poesia completa. autor: José Saramago. editora: Grupo Santillana / Alfaguara.)
 
 
 
BALANÇA
 
Com pesos duvidosos me sujeito
À balança até hoje recusada.
É tempo de saber o que mais vale:
Se julgar, assistir, ou ser julgado.
Ponho no prato raso quanto sou,
Matérias, outras não, que me fizeram,
O sonho fugidiço, o desespero
De prender violento ou descuidar
A sombra que me vai medindo os dias;
Ponho a vida tão pouca, o ruim corpo,
Traições naturais e relutâncias,
Ponho o que há de amor, a sua urgência,
O gosto de passar entre as estrelas,
A certeza de ser que só teria
Se viesses pesar-me, poesia.
 
 
 
RECEITA
 
Tome-se um poeta não cansado,
Uma nuvem de sonho e uma flor,
Três gotas de tristeza, um tom dourado,
Uma veia sangrando de pavor.
Quando a massa já ferve e se retorce
Deita-se a luz dum corpo de mulher,
Duma pitada de morte se reforce,
Que um amor de poeta assim requer.
 
 
 
REGRA
 
Tão pouco damos quando apenas muito
De nós na cama ou na mesa pomos:
Há que dar sem medida, como o sol,
Imagem rigorosa do que somos.
 
 
 
ADIVINHA
 
Quem se dá quem se recusa
Quem procura quem alcança
Quem defende quem acusa
Quem se gasta quem descansa
 
Quem faz nós quem os desata
Quem morre quem ressuscita
Quem dá a vida quem mata
Quem duvida e acredita
 
Quem afrima quem desdiz
Quem se arrepende quem não
Quem é feliz infeliz
Quem é quem é coração.
 
 
 
CRAVEIRA
 
Não deixa amor que o meçam, antes mede,
Incorrupto juiz que tudo afere
Na craveira da sua desmedida.
Chamados todos somos: só elege
Quantos de nós soubermos converter
Em chama vertical a hora consumida,
Em mãos de dar os dedos de reter.  

A JOSÉ SARAMAGO, SER MAGO DAS PALAVRAS
20 de junho de 2010

benvindos,
 
saí do rio de janeiro para buenos aires decidido a achar, em espanhol, alguma edição da obra completa do poeta mexicano octavio paz.
 
daniel oiticica, amigo que estou visitando, na quinta-feira, dia 17, levou-me a uma belíssima livraria que ocupa um teatro inteiro, “el ateneu”, para ver se conseguia o que tanto desejava.
 
para a minha tristeza, nada de octavio paz (em poesia) encontrei. porém, em compensação, topei com um livro que se mostrou, aos meus olhos, um verdadeiro achado: a edição bilíngüe (em português e espanhol) da obra poética completa do grande escritor josé saramago(!!!). fiquei de cara com o que encontrei, pois não fazia a menor idéia de que o saramago era também poeta. foi, verdadeiramente, uma grata & feliz surpresa. 
 
(a surpresa e o contentamento com o saramago suplantaram a frustação de não levar para casa, ainda que não a obra completa, alguma coisa de octavio paz no original.) 
 
no dia seguinte, 18, sou acordado pelo dani com a seguinte pergunta: “sabe quem morreu?” naturalmente respondi-lhe que “não, não sabia”. ele emendou: “de quem é o livro que você comprou ontem e adorou ter comprado?” na ponta da língua estava a resposta: “do josé saramago”. dani ficou quieto, mudo, me olhando, e eu fiquei pasmado com a coincidência dos fatos…
 
josé saramago foi um dos maiores escritores da língua portuguesa de todos os tempos.
 
sua sabedoria lingüística — as imagens fortes & certeiras, suas construções frasais inusitadas & extensas, os temas dos seus romances, as suas opiniões escapulidas das entrelinhas, suas tramas bem como as resoluções e desfechos encontrados — fê-lo um COLOSSO das linhas.
 
abaixo, a minha singela homenagem a josé saramago, ser mago das palavras, com algumas das suas poesias.
 
numa delas, o autor afirma que um poema não é esquecido nem adiado se o “corpo da palavra” que o forma for moldado em ritmo, segurança e consciência, isto é, se, no poema, o trabalho do poeta for sério, for criterioso, se o trabalho do poeta for rigoroso ao realizar o encaixe de suas palavras.
 
essa qualidade, tão cara, saramago tem de sobra, para dar & vender.  
 
deliciem-se com a mesma sagacidade & inteligência de sempre!
 
(saravá, mestre!)
 
um beijo em todos,
paulo sabino / paulinho.
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(do livro: Poesia completa. autor: José Saramago. editora: Grupo Santillana / Alfaguara.)
 
 
ARTE POÉTICA
 
Vem de quê o poema? De quanto serve
A traçar a esquadria da semente:
Flor ou erva, floresta e fruto.
Mas avançar um pé não é fazer jornada,
Nem pintura será a cor que não se inscreve
Em acerto rigoroso e harmonia.
Amor, se o há, com pouco se conforma
Se, por lazeres de alma acompanhada,
Do corpo lhe bastar a presciência.
 
Não se esquece o poema, não se adia,
Se o corpo da palavra for moldado
Em ritmo, segurança e consciência.
 
 
CONTRACANTO
 
Aqui, longe do sol, que mais farei
Senão cantar o bafo que me aquece?
Como um prazer cansado que adormece
Ou preso conformado com a lei.
 
Mas neste débil canto há outra voz
Que tenta libertar-se da surdina,
Como rosa-cristal em funda mina
Ou promessa de pão que vem nas mós.
 
Outro sol mais aberto me dará
Aos acentos do canto outra harmonia,
E na sombra direi que se anuncia
A toalha de luz por onde vá.
 
 
ATÉ A FIM DO MUNDO
 
É tempo já, Inês, o mundo acaba
Em que amor foi possível e urgente;
A promessa talhada nessa pedra,
Ou é cumprida hoje, ou tudo mente.
 
 
METÁFORA
 
Trago nas mãos um búzio ressoante
Onde os ventos do mar se reuniram,
E das mãos, ou do búzio murmurante,
Alastra em cor e som irradiante
A beleza que os olhos te despiram.

O SENTIDO E O SIGNIFICADO
5 de agosto de 2009

pessoas lindas e benvindas, 

a idéia de mandar os trechos que seguem me veio por causa de um poema que refiz há pouco tempo, onde cito e homenageio o autor das linhas abaixo. e também porque me lembrei dos trechos dos livros da clarice lispector que enviei a alguns de vocês, retirados da exposição sobre a obra da autora. achei-os, os trechos dos livros da clarice na exposição, tão fortes, tão bonitos, separados dos seus contextos — ali, chapados nas paredes –, que resolvi pegar alguns livros do escritor cujas letras aqui se fazem presentes e reler algumas das partes por mim destacadas. e pumba!, tal como aconteceu com a clarice, chapei com o que li em destaque! 

o que acho lindo neste autor é o canto de esperança emitido em toda a sua prosa. a todos, mostra a faceta bruta e empedernida da existência, esfrega-a bem em nossos rostos, reflete o horror ao qual nos subjugamos, para, com isso, dizer que “sim, o mundo tem um lado feio, cariado”, todavia, podemos mudar esse lado se optarmos por outros caminhos. visto que a vida é feita, em muitas ocasiões, de opções, de escolhas, e muito da realidade podre que nos cerca é fruto das nossas escolhas porcas e mesquinhas.  

lê-lo é, sempre, a escolha por uma cuca sadia, por uma cuca que deseja, como o autor, a cooperação e o cuidado mútuos.    

por isso, os fragmentos, ei-los aqui, para a apreciação de todos. 

ei-lo aqui, o cara mago das palavras, o josé. 

beijo bom em vocês, com olhos de cuidado, carinho e atenção.

o preto,

paulinho.

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  (Todos os trechos do livro Todos os nomes, de José Saramago) 

“Em geral não se diz que uma decisão nos aparece, as pessoas são tão zelosas da sua identidade, por vaga que seja, e da sua autoridade, por pouca que tenham, que preferem dar-nos a entender que refletiram antes de dar o último passo, que ponderaram os prós e os contras, que sopesaram as possibilidades e as alternativas, e que, ao cabo de um intenso trabalho mental, tomaram finalmente a decisão. Há que dizer que estas coisas nunca se passaram assim. Decerto não entrará na cabeça de ninguém a idéia de comer sem sentir suficiente apetite, e o apetite não depende da vontade de cada um, forma-se por si mesmo, resulta de objetivas necessidades do corpo, é um problema físico-químico cuja solução, de um modo mais ou menos satisfatório, será encontrada no conteúdo do prato. Mesmo um ato tão simples como é o de descer à rua a comprar o jornal pressupõe, não só um suficiente desejo de receber informação, o qual, esclareça-se, sendo desejo, é necessariamente apetite, efeito de atividades físico-químicas específicas do corpo, ainda que de diferente natureza, como pressupõe também, esse ato rotineiro, por exemplo, a certeza, ou a convicção, ou a esperança, não conscientes, de que a viatura de distribuição não se atrasou ou de que o posto de venda de jornais não está fechado por doença ou ausência voluntária do proprietário. Aliás, se persistíssemos em afirmar que as nossas decisões somos nós que a tomamos, então teríamos de principiar por dilucidar, por discernir, por distinguir, quem é, em nós, aquele que tomou a decisão e aquele que depois a irá cumprir, operações impossíveis, onde as houver. Em rigor, não tomamos decisões, são as decisões que nos tomam a nós. A prova encontramo-la em que, levando a vida a executar sucessivamente os mais diversos atos, não fazemos preceder cada um deles de um período de reflexão, de avaliação, de cálculo, ao fim do qual, e só então, é que nos declararíamos em condições de decidir se iríamos almoçar, ou comprar o jornal, ou procurar a mulher desconhecida”. 

“Ao contrário do que em geral se crê, sentido e significado nunca foram a mesma coisa, o significado fica-se logo por aí, é direto, literal, explícito, fechado em si mesmo, unívoco, por assim dizer, ao passo que o sentido não é capaz de permanecer quieto, fervilha de sentidos segundos, terceiros e quartos, de direções irradiantes que se vão dividindo e subdividindo em ramos e ramilhos, até se perderem de vista, o sentido de cada palavra parece-se com uma estrela quando se põe a projetar marés vivas pelo espaço fora, ventos cósmicos, perturbações magnéticas, aflições”. 

“Assim como a morte definitiva é o fruto último da vontade de esquecimento, assim a vontade de lembrança poderá perpetuar-nos a vida”. 

“(…) a memória, que é suscetível e não gosta de ser apanhada em falta, tende a preencher os esquecimentos com criações de realidade próprias, obviamente espúrias, mas mais ou menos contíguas aos fatos de cujo acontecer só lhe havia ficado uma lembrança vaga, como o que resta da passagem duma sombra”. 

“(…) como toda a gente sabe, ou devia saber, a prudência só é boa quando se trata de conservar aquilo que já não interessa”.   

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 (Todos os trechos do livro O evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago) 

“(…) Sim, se existe Deus terá de ser um único Senhor, mas era melhor que fossem dois, assim haveria um deus para o lobo e um deus para a ovelha, um para o que morre e outro para o que mata, um deus para o condenado, um deus para o carrasco (…), não gostaria de me ver na pele de um deus que ao mesmo tempo guia a mão do punhal assassino e oferece a garganta que vai ser cortada (…), Deus não dorme (…), Ainda bem que não dorme, dessa maneira evita o pesadelo do remorso”. 

“(…) espevitar o andamento do burro, resignado animal que, de cansado, só ele sabe como vai, que Deus, se de algo sabe, é dos homens, e mesmo assim não de todos, que sem conta são os que vivem como burros, ou ainda pior, e Deus não tem curado de averiguar e prover”. 

“(…) milagre, milagre mesmo, por mais que nos digam, não é boa coisa, se é preciso torcer a lógica e a razão própria das coisas para torná-las melhores”. 

“(…) a lógica não é tudo na vida, e não é raro que justamente o previsível, que o é por ser o remate mais plausível duma sequência, ou porque, simplesmente, havia sido já anunciado antes, não é raro, dizíamos, que o previsível, levado por razões que só ele conhece, acabe por escolher, para enfim revelar-se, uma conclusão por assim dizer aberrante, quer quanto ao lugar, quer quanto à circunstância (…), considerando a já referida imprevisibilidade a que o previsível recorre algumas vezes”. 

“Mil vezes a experiência tem demonstrado, mesmo em pessoas não particularmente dadas à reflexão, que a melhor maneira de chegar a uma boa idéia é ir deixando discorrer o pensamento ao sabor dos seus próprios acasos e inclinações, mas vigiando-o com uma atenção que convém parecer distraída, como se se estivesse a pensar noutra coisa, e de repente salta-se em cima do desprevinido achado como um tigre sobre a presa”. 

“(…) não é por serem breves as ausências que a alegria será menor, afinal a ausência é também uma morte, a única e importante diferença é a esperança”. 

“(…) o tempo leva-nos até onde uma memória se inventa, foi assim, não foi assim, tudo é o que dissermos que foi”.