NÉLIDA PIÑON ENTREVISTA PAULO SABINO — PROGRAMA PRÓXIMA PÁGINA
30 de novembro de 2017

(Paulo Sabino e Nélida Piñon preparando-se para a gravação)

(No Espaço Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras)

(Passeando com Nélida pela Academia Brasileira de Letras)

(No teatro Raimundo Magalhães Júnior, da Academia Brasileira de Letras)

(Paulo Sabino e Nélida Piñon com a talentosa e querida equipe do programa Próxima Página)
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Meu coração não contenta! Imagine-se recebendo uma ligação em que a pessoa do outro lado da linha te convida pra participar de um programa de entrevistas cuja dinâmica é a seguinte: o entrevistado de um episódio vira o entrevistador do próximo episódio. Pois bem, o convite foi pra que eu fosse o entrevistado. Querem saber quem foi a minha entrevistadora? É só olhar as fotos que seguem… Sim sim sim, fui entrevistado pela grande dama da literatura brasileira Nélida Piñon!

A nova série audiovisual da MultiRio, empresa de mídia educativa e cultural do município do Rio de Janeiro, reúne personagens, como a escritora Nélida Piñon, em torno de um tema comum: a paixão pelos livros. Para o programa, intitulado “Próxima página”, eu tive o grande prazer de ser entrevistado por ela, pela grande dama da literatura, na sua “casa”, a Academia Brasileira de Letras (ABL). Uma alegria e uma honra! Os programas mostram bate-papos entre pessoas apaixonadas pela literatura e que trazem à tona as diversas maneiras de entrar nesse mundo e vivenciar a leitura. O lançamento da nova produção aconteceu agorinha, neste final de novembro.

No programa, falo sobre a minha origem poética, os primeiros passos, sobre a nossa formação cultural e lingüística, sobre Machado de Assis, sobre Paulo Leminski, sobre Luis Turiba, sobre Maria Bethânia, sobre Fernando Pessoa, sobre Castro Alves, sobre o meu projeto “Ocupação Poética” e muitas outras coisas. 12 minutinhos, assistam porque tá muito bacana! Uma alegria que levarei para sempre porque não é todo dia que conto com uma entrevistadora deste quilate!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. programa: Próxima Página. Nélida Piñon entrevista Paulo Sabino. local: Academia Brasileira de Letras — ABL. direção: Denise Moraes. produção e realização: MultiRio.)

 

ARS POÉTICA   (autor: Paulo Sabino)

 

 

marcar o papel a palavra
fogo
coisa que queime,
que permita combustão

rasgar a folha a metáfora
faca
coisa que corte,
que sangre emoção

lamber a linha a imagem
língua
coisa que arrepie,
que concentre tesão

molhar o branco a figura
água
coisa que inunde,
que contemple imensidão

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AO NOSSO AMOR, UMA ETERNA ESTRÉIA
19 de outubro de 2016

paulo-sabino-jurema-armond

(Há pouco tempo, indo votar — ela, já desobrigada.)

figa

(A figa, antes do meu pai, agora minha.)
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“PAULO SABINO, meu irmão,

Que lindo o seu poema para a ‘nossa mãe’! Desejo para a ‘CABOCLA JUREMA’ uma longa e boa vida, alegria e… Axé! Muito Axé! Com abraços, MARTINHO DA VILA.”

(Martinho da Vila — cantor & compositor)

 

 

Que alegria! Vê-la completar o seu septuagésimo quarto ano novo (74) lúcida, recém-recuperada de um problema no cérebro.

Em junho, há exatos 4 meses, me perguntava como seria este dia para ela & para mim, com o medo de que ela ainda estivesse doente.

Escrevi o texto que segue em itálico para amigos bem no início do mês de julho:

 

Queridos & Queridas,

Há quase 2 meses, a minha mãe, peça fundamental da minha existência, a grande responsável pelo meu amor à literatura e, mais especificamente, à poesia, a minha cabocla Jurema Armond, não anda bem da saúde.

Estamos na luta para diagnosticar o que, há quase 2 meses, vem causando nela uma fraqueza grande nas pernas & nos braços (precisa de ajuda para absolutamente tudo: para levantar, sentar, deitar, comer, tomar banho) & uns desnorteios de tempo & espaço (agora há pouco tive que consolá-la, ela estava aos prantos, desejando chegar em casa, chegar no lugar de onde ela não sai há quase 2 meses, não contando as saídas para consultas médicas & exames).

Tem sido bem difícil para mim. Sou filho único, meu pai já não está mais entre nós, e sou eu só a tomar as decisões sobre a saúde da minha cabocla, a gerir a casa & as contas. Cansaço emocional & físico imensos.

Hoje, procurando travessas & potes aqui em casa, a fim de organizar a cozinha para a pessoa que me ajudará com a casa duas vezes na semana, me deparei com esta figa de madeira do meu pai, de cuja existência nem mais me lembrava. Chorei tanto ao vê-la, ao tocá-la, tudo tão simbólico neste momento — encontrar na estante da sala uma figa, e que era do meu pai, de quem, pela sensibilidade & humor ímpar, sinto tanta falta, inda mais num momento como este…

Agora ela está na minha mesa de trabalho, acompanhada das minhas outras pequenas preciosidades. Está, na mesa, exatamente de frente para mim.

Tomara que esta figa, antes do meu pai, agora minha, me traga a sorte & o axé necessários na melhoria desta situação.

E conto com as preces & orações & energia positiva de quem acredita em preces & orações & energia positiva. Incluam a minha cabocla Jurema Armond em seus pedidos de saúde & recuperação. Torçam comigo.

E vamos que vamos. A vida urge, o tempo não pára.

 

Depois de muitos medos, muitas incertezas, muitas dificuldades, muitas lágrimas, e muitos exames, no início de agosto conseguimos o diagnóstico & desde então ela só faz melhorar.

O poema que segue, eu o escrevi para ela há muitos anos. Mais do que nunca, faz todo o sentido publicá-lo hoje, 19 de outubro, em homenagem à minha cabocla.

Mais do que nunca, depois deste mau tempo que atravessamos, o sol da saúde desponta com a sua luz & o seu calor, mostrando-nos que a vida renova-se a cada instante, que, por isso, a vida é uma eterna estréia. Nunca sabemos que momento da trama nos aguarda no próximo capítulo; o script/roteiro é escrito no decorrer de cada cena.  Com isso, o amor também faz-se & refaz-se a cada vivência nossa.

Mãe, depois de tanto, depois de tudo, eu só posso desejar que o céu aberto de dias azuis permaneça límpido, sem mudanças tão bruscas.

Mãe, depois de tanto, depois de tudo, a conclusão de que, aqui, o amor existe — firme, forte, em riste.

Graças!

Feliz aniversário! Feliz 74 primaveras vencidas!

Beijo todos & especialmente a minha cabocla Jurema Armond!
Paulo Sabino.
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(autor: Paulo Sabino.)

 

 

ESTRÉIA

 

te  escrevo  porque

te  mereço,

porque  és  diva,

a  dama  divina

—  mulher  maravilha

da  minha  ilha

cercada  de  carinhos

por  todos  os  lados —.

todos  os  cafunés,  todas  as  lágrimas  e  desabafos

é  onde  me  acabo  em  ti.

por  ti  meu  riso  ri,

por  isso  minha  prece,

minha  missa.

minha  oração  se  aquece

em  teus  escaninhos,  teus  desalinhos,  teus  achados.

assim  é  que  te  amasso,

te  acho,

te  cato.

porque  humana  sem  desacato.

eu  te  amo  e  é  outra  estréia,

sem  vida  histérica,

sem  amor  estéril.

pelo  contrário,  é  amor  de  império,

o  carinho  sem  enterro  e  cemitério,

a  poesia  livre  de  impropério.

és  o  meu  hemisfério,

o  meu  norte,

os  versos  sem  corte.

eu  te  amo  e  não  há  miséria,

há  beleza,  há  estética

—  revelação, reverberação

que  insiste

em  mostrar  ao  mundo  triste

que,  aqui,  o amor  existe:

firme

forte

em  riste —.

É COMO AMAR: O UIRAPURU SABE
1 de dezembro de 2015

Pai

Pai Eu no colo

(Nas fotos, o primeiríssimo Paulo Sabino; no colo, o seu sucessor.)
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se entre nós, um dos responsáveis pela minha existência, o paulo sabino primeiro, venceria, hoje (01/12), as suas setenta & três primaveras.

há onze anos — outubro de 2004 — ele pulava fora deste plano para cair dentro, única & exclusivamente, das minhas lembranças, do meu sentimento, do meu coração.

há onze anos ele veio fazer sua morada, única & exclusivamente, dentro de mim.

porém, o seu legado de amor & bom-humor me habita desde sempre.

filho de um violonista baiano, foi um apaixonado pela língua portuguesa, tinha uma grande queda pela língua francesa, um sambista nato (foi diretor de harmonia de uma escola de samba do rio de janeiro por dez anos) & um piadista irremediável.

e é bacana ver como hoje o seu legado, em todos os níveis & sentidos, ecoa de forma bonita em mim como também na minha mãe.

mora & dorme em mim o meu menino grande.

todo o amor que houver nesta vida para você, sabino pai, e algum veneno antimonotonia para todos nós!

parabéns, pai! vivas ao dia que o trouxe ao mundo!

saravá!

beijo todos!
sabino filho.
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(do livro: Campo de milagres. autor: Thiago de Mello. editora: Bertrand Brasil.)

 

 

O UIRAPURU SABE

 

Não me queixo, antes celebro,
esse dom de florescer
que cada palavra traz
de nascença, por milagre.
Só quis contar como faço,
pondo amor no meu fazer,
como o uirapuru só canta
quando precisa cantar.

 

 

É COMO AMAR

 

Sou poeta, sou simplesmente
um ser limitado e triste,
sujo de tempo e palavras.
Contudo, capaz de amor.
Que este ofício de escrever,
sem tirar nem pôr, é o mesmo
que o ofício de viver;
quero dizer o de amar.

O IMPRONUNCIÁVEL: A FÚRIA DA BELEZA
19 de outubro de 2015

Mãe PB

Jurema Armond aos 72 anos

(A fúria da beleza de Jurema Armond: quando jovem, na primeira foto, e atualmente, aos 73 anos.)
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hoje, 19 de outubro, aniversário da minha cabocla jurema.

73 anos de muito carinho, 73 anos de muitas delicadezas, 73 anos de muitas histórias da sua infância.

dona jurema armond, minha mãe, adora contar que, na sua infância, havia flores & frutas que são, hoje, raríssimas. como ninguém, quando caminhando pelas ruas, adora identificar os pés de árvores que encontra pela frente: roseiras, goiabeiras, mangueiras, abacateiros, amoreiras, jasmineiros, pés de manacá, onze-horas & dálias. à sua época de criança, tudo isso era encontrado pelos quintais com muita facilidade. e são estas as belezas que a encantam desde sempre. e são estas as belezas que fazem ser furiosa a beleza que encontro em dona jurema armond.

estupendamente funda, a beleza, quando é linda demais, dá uma imagem feita só de sensações, de modo que, apesar de não se ter consciência desse todo, diante de uma beleza tão estupendamente funda, sabemos não nos faltar nada.

é um “pá”, um tapa, um golpe. um bote que nos paralisa, organiza, dispersa, conecta & completa.

estonteantemente linda, a beleza que enxergo em dona jurema armond doeu profundo no peito esta manhã.

penso, às vezes, que vivo para este momento indefinível, sagrado, material, cósmico, quase molecular, o de me deparar com belezas que, de tão belas, chegam a ser furiosas, violentas, intransigentes, incontornáveis.

dona jurema armond, para quem não conhece, como é que me cabe explicar? difícil explicar essa flor que hoje vence as suas 73 primaveras, descrevê-la, conceituá-la cor, pétalas & caule, com seus merecimentos.

a fúria da beleza de dona jurema armond: no fundo, impronunciável. cabe a mim, apenas, percebê-la & intuí-la.

dona jurema armond é assim: é como as árvores & flores que a própria adora identificar pelas veredas em que caminha: furiosamente bela, violentamente encantadora.

a ela, neste 19 de outubro, todos os meus salves & todas as minhas loas!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: A fúria da beleza. autora: Elisa Lucinda. editora: Record.)

 

 

O IMPRONUNCIÁVEL

 

Na minha infância havia flores e frutas fáceis
que são hoje raríssimas.
Roseira e goiabeira no quintal
eram uma coisa normal.
Veludo era uma planta chique, eu achava,
e sei lá de que família.
Tinha Onze-horas, uma florzinha rosinha-roxeada
que abria só por essa hora,
mulherezinhas que fechavam de noite
e abriam de dia.
E Dália, meu Deus?
Se eu não disser Dália
parece que ela desaparece,
parece que a flor nunca mais existirá,
nunca mais será encontrada.
Dália, pra quem não conhece,
como é que me cabe explicar?
Difícil explicar flor.
Descrevê-la, conceituá-la cor pétalas
e caule com seus merecimentos.
Araçá também sumiu.
Uma frutinha pequena, prima da goiaba,
parecida com, mas diferente de.
E Amora? Uns cachinhos delicadíssimos
que a gente, quando vê no rótulo das geléias,
se não conheceu ao vivo,
fica pensando que a gravura é de algum importado
de um país da ficção
frio e longe, um país que nem se sabe pronunciar o nome.
Na minha memória de olfato e imagem
habitam essas cores,
esse colorido ciclone.
Meu Deus, se eu não disser Dália
a palavra morrerá na minha mão,
a palavra morrerá na minha boca.
Dália!
Ai de mim, Dália não é palavra, é jardim.

 

 

A FÚRIA DA BELEZA

 

Estupidamente bela
a beleza dessa maria sem-vergonha rosa
soca meu peito esta manhã!
Estupendamente funda,
a beleza, quando é linda demais,
dá uma imagem feita só de sensações,
de modo que, apesar de não se ter a consciência desse todo,
naquele instante não nos falta nada.
É um pá. Um tapa. Um golpe.
Um bote que nos paralisa, organiza,
dispersa, conecta e completa!
Estonteantemente linda
a beleza doeu profundo no peito essa manhã.
Doeu tanto que eu dei de chorar,
por causa de uma flor comum e misteriosa do caminho.
Uma delicada flor ordinária,
brotada da trivialidade do mato,
nascida do varejo da natureza,
me deu espanto!
Me tirou a roupa, o rumo, o prumo
e me pôs a mesa…
é a porrada da beleza!
Eu dei de chorar de uma alegria funda,
quase tristeza.

Acontece às vezes e não avisa.
A coisa estarrece e abre-se um portal.
É uma dobradura do real, uma dimensão dele,
uma mágica à queima-roupa sem truque nenhum.
Porque é real.
Doeu a flor em mim tanto e com tanta força
que eu dei de soluçar!
O esplendor do que vi era pancada,
era baque e era bonito demais!

Penso, às vezes, que vivo para esse momento
indefinível, sagrado, material, cósmico,
quase molecular.
Posto que é mistério,
descrevê-lo exato perambula ermo
dentro da palavra impronunciável.
Sei que é dessa flechada de luz
que nasce o acontecimento poético.

Poesia é quando a iluminação zureta,
bela e furiosa desse espanto
se transforma em palavra!
A florzinha distraída
existindo singela na rua paralelepípeda esta manhã,
doeu profundo como se passasse do ponto.
Como aquele ponto do gozo,
como aquele ápice do prazer
que a gente pensa que vai até morrer!
Como aquele máximo indivisível,
que, de tão bom, é bom de doer,
aquele momento em que a gente pede pára
querendo e não podendo mais querer,
porque mais do que aquilo
não se agüenta mais,
sabe como é?

Violenta, às vezes, de tão bela, a beleza é!

4ª EDIÇÃO SARAU DO LARGO DAS NEVES — AGRADECER PROFUNDAMENTE
29 de junho de 2015

Sarau Largo das Neves_Junho 4

Sarau Largo das Neves_Junho 1

Luis Turiba & Paulo Sabino

(Na foto, o poeta Luis Turiba.)

Sarau Largo das Neves_Junho 3
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Gente do meu coração,

É tanta coisa, tanta, que nem sei como começar este texto… Talvez dizendo que fiquei acordado até às 6h da manhã, sem conseguir desligar, depois da 4ª edição do Sarau do Largo das Neves, em Santa Teresa (Rio de Janeiro), revivendo um tanto do encontro onde comemorei os meus 39 anos, tamanha energia boa, alegre, festiva, que tomou conta de todos & contagiou a praça.

A noite foi linda! As escolhas poéticas, as melhores possíveis, e as leituras foram arrasadoras!

A minha mãe, a cabocla Jurema Armond, está numa alegria só! Quando voltávamos para casa, terminado o sarau, ela disparou: “meu filho, procure cultivar sempre o amor & o carinho dos seus amigos, porque essa turma é bonita demais, você não deve se afastar”. Ela realmente ficou impressionada com a vibração, com a energia, que os participantes conseguiram imprimir & deixar em Santa Teresa.

Estou aqui em puro estado de poesia, que é o estado de graça, que é o estado de felicidade plena, o êxtase decantado & tão-só. Amor da cabeça aos pés!

Eu só tenho a agradecer, profundamente!, a existência de cada um que tornou a noite do dia 25/06 das coisas mais emocionadas que eu já vivi.

Agradecer profundamente & especialmente ao grande & admirado poeta Luis Turiba (na foto), que me deu a honra das suas presença & leitura, recitando o seu lindíssimo poema “Língua à brasileira”.

Agradecer profundamente os livros & cadernos que ganhei, adorei todos!

Agradecer, também profundamente, a presença das pessoas que foram ao sarau & que eu não conhecia & que se emocionaram com tudo aquilo que vivenciamos. Obrigadíssimo, gente nova & querida! Espero que, a partir desta última edição, vocês ajudem a engrossar o caldo!

Viva são João!
Viva a poesia!
Viva vocês, meus amigos, irmãos de jornada!

Mês próximo tem mais!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do livro: Estrela da vida inteira. autor: Manuel Bandeira. editora: Nova Fronteira.)

 

 

PROFUNDAMENTE

 

Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?
— Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.

*

Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?

— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.

FIBRILAÇÕES: CANTO PARA COMOVER A VIDA
17 de outubro de 2014

Papai_Mamãe_Eu

Jurema Armond_Rosto

Jurema Armond aos 72 anos

(Nas fotos, a grande homenageada: na primeira, aos cinqüenta & alguns anos, entre os dois grandes homens da sua vida; na segunda, aos sessenta & alguns anos; e na terceira, hoje, à beira dos seus 72 anos.)
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daqui a dois dias, isto é, no dia 19 de outubro (domingo próximo), a responsável por trazer ao mundo este que vos escreve vence as suas 72 primaveras, linda como sempre foi, é só olhar as fotos acima.

dona jurema armond, a minha cabocla jurema, não é a grande diva da minha vida apenas por sua beleza física: antes, esta é o reflexo do que vai no seu íntimo. porque dona jurema armond, intimamente, consegue ser ainda mais linda, ainda mais diva.

com ela, aprendi os passos & os caminhos do amor. antes de mais nada, é preciso que se afirme: dona jurema armond nasceu para o amor, dona jurema armond nasceu para o delicado, dona jurema armond nasceu para o pulsar do coração.

(notem que o seu sobrenome, armond, possui as letras que formam a palavra amor.)

sem dúvida, é das pessoas mais amorosas que conheço, se não for a mais amorosa dentre todas.

se hoje sou um homem amoroso, se hoje prezo pelo delicado da vida, se hoje sei que o que mais importa é o que o coração abriga, sou, prezo, sei, por causa dela.

ela é a grande responsável.

o amor que a envolve, o amor que a possui, é das coisas mais fortes & incomensuráveis que conheço.

os diamantes são indestrutíveis? mais é seu amor.

o mar é imenso? seu amor é maior, seu amor é mais belo porque sem ornamentos, porque sem enfeites, mais belo porque puro amor, sem afetações, mais belo do que um campo de flores.

seu amor, o amor de jurema armond, é mais triste do que a morte (minha cabocla, por ser deveras amorosa, sofre deveras de amor), seu amor é mais desesperançado do que a onda batendo no rochedo (minha cabocla, por ser deveras amorosa, sofre ao ver o mundo sofrer, chocando-se contra o indelicado da vida), seu amor é mais tenaz, mais resistente, mais obstinado, que o rochedo (minha cabocla, apesar de sofrer ao ver o mundo sofrer, chocando-se contra o indelicado da vida, preserva, em si, o seu amor ainda mais firme & ainda mais forte que o rochedo, que a pedra no meio do caminho).

o amor de dona jurema armond tanto ama, que, de tão amoroso, nem sabe mais o que ama.

ama tudo que houver para amar. sem restrições.

a ela, a jurema armond, tanto faz: funeral ou festim, tudo é desejo o que nela percute, tudo é desejo o que nela bate com força.

o seu coração, incansável à ressonância das coisas, o seu coração, incansável à reverberação das coisas, o seu coração, incansável à repercussão das coisas, o seu coração bate no compasso das batidas: “amo, te amo, te amo”.

o seu coração só sabe bater & dizer: “amo, te amo, te amo, ó mundo, mundo feito de maldades mas também de lindezas, ó homem, que de tão belo, por toda a riqueza & complexidade de que se constitui o ser humano, me paralisa, me espanta, me sensibiliza”.

e uma língua só, a linguagem do amor, é a que dona jurema armond aprendeu & sabe falar. um só ouvido, não absoluto, um só ouvido sem a capacidade de distinguir os tantos tons do amor, um só ouvido que sabe somente escutar a voz do amor independentemente das suas gradações.

certa erva do campo tem as folhas ásperas, e, ainda que ásperas, “te amo” é o que diz dona jurema armond à aspereza das folhas.

o seu amor pelo mundo, o seu amor pelo homem, o seu amor pelo amor que as coisas têm: o amor causa fibrilações, o amor causa batimentos descompassados no peito, o amor faz estremecer: a relva estremece com o passar do vento. o amor, para ela (para a relva), é a aragem, é o vento que a faz estremecer, que a faz fibrilar.

o amor de dona jurema armond tanto ama, que, de tão amoroso, nem sabe mais o que ama.

ama tudo que houver para amar. sem restrições.

a ela, musa maior da minha vida, às suas 72 primaveras vencidas no dia 19 de outubro, todos os meus salves & todas as minhas loas!

feliz aniversário, mãe! o melhor a você, sempre!

beijo todos!
paulo sabino.

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(do livro: O pelicano. autora: Adélia Prado. editora: Record.)

 

 

PRANTO PARA COMOVER JONATHAN

 

Os diamantes são indestrutíveis?
Mais é meu amor.
O mar é imenso?
Meu amor é maior,
mais belo sem ornamentos
do que um campo de flores.
Mais triste do que a morte,
mais desesperançado
do que a onda batendo no rochedo,
mais tenaz que o rochedo.
Ama e nem sabe mais o que ama.

 

 

FIBRILAÇÕES

 

Tanto faz
funeral ou festim,
tudo é desejo
o que percute em mim.
Ó coração incansável à ressonância das coisas,
amo, te amo, te amo,
assim triste, ó mundo,
ó homem tão belo que me paralisa.
Te amo, te amo.
E uma língua só,
um só ouvido, não absoluto.
Te amo.
Certa erva do campo tem as folhas ásperas
recobertas de pêlos,
te amo, digo desesperada
de que outra palavra venha em meu socorro.
A relva estremece,
o amor para ela é aragem.

SÓ NOS RESTA: VIVER
14 de maio de 2013

Paulo Sabino e Jurema Armond

(Na foto, Paulo Sabino & sua mãe, a cabocla Jurema Armond: “nada é igual a ela e eu”.)
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(na companhia do orlando, meu camelo azul da cor do mar, as minhas voltas na lagoa rodrigo de freitas. brisa noturna gelada, noite estrelada, espelho d’água refletindo as pedrarias que compõem o lindíssimo cenário. ao passar pelo “espaço lagoon”, que abriga a casa de espetáculos “miranda”, lulu santos, que comemora os seus 60 anos, entoava o célebre refrão: “vamos viver tudo o que há pra viver. vamos nos permitir”. cantei junto.)

(no fim de semana passado, em comemoração ao dia das mães, viajei, na companhia da minha cabocla jurema armond, para um hotel-fazenda no interior do estado do rio de janeiro, só nós dois, juntinhos.)

(pequenos prazeres, grandes satisfações…)

é claro, é óbvio, é evidente, que a vida não é só alegrias. a vida também é pesar, a vida também é dificuldade, a vida também é lágrima. os momentos de dor existem & não podemos negá-los. é importantíssimo vivenciá-los fundo, é importantíssimo vivenciá-los com vontade.

entretanto, algumas pessoas optam, ainda que inconscientemente, por arrastar os seus momentos de angústia. algumas pessoas optam, ainda que inconscientemente, por cultivar os seus momentos de angústia. algumas pessoas optam, ainda que inconscientemente, em persistir nos seus momentos de angústia.

dói, em mim, saber que a solidão existe & insiste no teu coração.

dói, em mim, sentir que a luz que guia o meu dia não te guia, não.

quem dera, a dor que entristece, pudesse fazer os fracos de alma, sem paz & sem calma, compreender, quem dera, a dor que entristece, ajudasse os fracos de alma, sem paz & sem calma, a ver:

que a vida é bela. e única, intransferível, singular.

sendo assim (única, intransferível, singular), o que nos resta? respondo: o que nos resta é viver.

larguemos, solitária, a solidão.
deixemos, no escuro, a escuridão.

a vida — apesar dos pesares — é bela. só nos resta viver.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do encarte do cd: Só nos resta viver. artista: Angela Ro Ro. autora dos versos: Angela Ro Ro. gravadora: Universal Music.)

 

 

SÓ NOS RESTA VIVER

 

Dói em mim saber
Que a solidão existe
E insiste no teu coração
Dói em mim sentir
Que a luz que guia
O meu dia
Não te guia, não

Quem dera pudesse
A dor que entristece
Fazer compreender
Os fracos de alma
Sem paz e sem calma
Ajudasse a ver
Que a vida é bela
Só nos resta viver
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Coitadinha bem feito — as canções de Angela Ro Ro. artista: Vários. canção: Só nos resta viver. autora da canção: Angela Ro Ro. intérprete: Rômulo Froés. selo: Joia Moderna.)

LIVROS
12 de abril de 2013

Real Gabinete Português de Leitura

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o poema — digamos — “livresco”, o poema exclusivamente encontrado em livros, eu conheci & tomei gosto a partir da canção popular.
 
foi a partir de maria bethânia, que não só grava os grandes poetas-compositores (caetano, gil, chico, gonzaguinha, roque ferreira) como também interpreta poemas de grandes poetas, que tive o meu primeiro contato com a poesia (no sentido amplo da palavra), ainda bem menino.
 
portanto, a primeira estrela a luzir no céu poético que me comporta, distraidamente, foi a estrela da canção popular.
 
e, até hoje, sou louco, alucinado, morro de amores, pela canção popular.
 
quem acompanha o meu trabalho, sabe que não faço distinção de tipos, cores & sabores: neste espaço, a poesia livresca convive muitíssimo bem com os versos do poema-canção.
 
chico buarque, gilberto gil, alceu valença, djavan, adriana calcanhotto, péricles cavalcanti, lenine, caetano veloso, são alguns nomes do nosso cancioneiro popular que convivem, muitíssimo bem, aqui neste espaço, com carlos drummond de andrade, armando freitas filho, antonio carlos secchin, nelson ascher, josé almino, eucanaã ferraz, e tantos outros — sem contar, por exemplo, aqueles que transitam entre o poema-canção & o poema-livresco: vinicius de moraes, waly salomão, antonio cicero, arnaldo antunes, alice ruiz s, francisco  bosco, paulo césar pinheiro.
 
a canção popular foi a primeira estrela a luzir no meu céu poético, distraidamente, porque eu amei a canção popular ouvindo-a despretensiosamente, ao lado da minha mãe, a minha cabocla jurema, a grande responsável, pessoa apaixonada — desde que me entendo por gente — pela tradição do cancioneiro popular.
 
a canção popular, na minha existência, foi a estrela entre as estrelas.
 
foi a partir dela que me brotou, que vi nascer, o desejo agudo de conhecer mais & mais tanto o poema-livresco quanto o poema-canção.
 
a canção popular: a estrela entre as estrelas.
 
meus pais nunca tiveram biblioteca em casa. quase não tínhamos livros em casa & o bairro onde cresci não tinha livraria.
 
mas os livros que, já na infância, em minha vida entraram (lembro-me do “círculo do livro” batendo à porta de casa) são como a radiação de um corpo negro apontando para a expansão do universo.
 
a radiação de um corpo negro apontando para a expansão do universo: sabe-se que a teoria mais difundida sobre a criação do universo (big bang) declara que este nasceu a partir da explosão, num tempo passado finito, de uma matéria altamente condensada, a uma temperatura elevadíssima. a radiação produzida pela explosão foi tão absurdamente & absolutamente forte que tal energia ainda desdobra-se espaço afora, produzindo a contínua expansão do universo. o corpo negro — espaço onde cabe o nosso mundo & mais — aponta para a expansão do universo, dilatando-se & lançando, com a sua expansão, novos sistemas, novas galáxias, novos corpos celestes.
 
os livros que em minha vida entraram são como a radiação de um corpo negro apontando para a expansão do universo: porque a frase, o conceito, o enredo, o verso (e, sem dúvida, sobretudo o verso), é o que pode lançar mundos no mundo.
 
a força contida na condensação inteligente de poucas palavras — que é o que forma um verso — é tamanha, que o verso, assim como a matéria altamente condensada que formou o universo & que continua em expansão no corpo negro espacial, é o que pode lançar mundos no mundo.
 
ao me referir ao verso como aquele que, sobretudo, pode lançar mundos no mundo (tal & qual a radiação de um corpo negro), refiro-me tanto ao verso-livresco quanto ao verso-canção, sem distinção de tipos, cores & sabores.
 
a canção popular, estrela primeira a reluzir forte, intensa, no meu céu poético, tropeçava nos astros — revistas livros enciclopédias filmes — desastrada, lúdica, onírica, sem saber que a aventura da ventura (da boa fortuna, da boa sorte) & da desventura (da má fortuna, da má sorte) dessa estrada que vai do nada ao nada (a estrada que vai do nada ao nada: a existência, a vida: não sabemos exatamente de onde viemos & muito menos para onde iremos) são livros & o luar contra a cultura.
 
(os livros são responsáveis por boa parte do conhecimento adquirido nessa estrada que é a vida & que vai do nada ao nada, sem teoria ou ponderação que a justifique claramente. sobretudo aqueles que põem à prova, que questionam, que discutem, o status quo do meio social, sobretudo aqueles que nos fazem pensar os valores culturais que nos são incutidos através das normas & convenções sociais.)
 
os livros são objetos transcendentes, os livros são objetos que ultrapassam a natureza física das coisas (é justamente essa característica que possibilita que o verso, sobretudo, possa lançar mundos no mundo), mas podemos amá-los do amor tátil (amor sem valor transcendental, amor ligado ao tato, ao que é palpável) que votamos, por exemplo, aos maços de cigarro.
 
amando os livros — que são objetos transcendentes, objetos cujo valor não é tangível, não é palpável, valor que possibilita o verso lançar mundos no mundo — com o amor tátil que votamos aos maços de cigarro (amor ligado ao tato, ao que pode ser materialmente aferido, apalpado), acabamos por domá-los, por domesticá-los, amando os livros com o amor tátil que votamos aos maços de cigarro, acabamos por cultivá-los em aquários, em estantes, em gaiolas, acabamos por aprisioná-los & deixá-los à mercê de uma visitação fria, distanciada, de quem os cultiva apenas por causa do amor tátil, apenas por causa do amor ao objeto-livro, ao objeto palpável, material — o que importa, nesse caso, não é o conteúdo que o livro abriga (que é o que confere ao livro o seu caráter transcendental) & sim o “objeto-livro”, o livro enquanto “material palpável”, enquanto mero “enfeite de casa”.
 
amando os livros — que são objetos transcendentes, objetos cujo valor não é tangível, não é palpável, valor que possibilita o verso lançar mundos no mundo — com o amor tátil que votamos aos maços de cigarro, além de domá-los, além de domesticá-los, podemos lançá-los — os livros — para fora das janelas, podemos jogá-los às traças, podemos mandá-los ao lixo, assim como quando amassamos um maço de cigarro que não nos serve mais.
 
lançando os livros para fora das janelas, tendo, pelos livros, apenas o amor tátil, isso, certamente, nos livra do exercício (difícil, complicado) de lançarmo-nos, destemidos, à existência. lançando os livros para fora das janelas, tendo, pelos livros, apenas o amor tátil, isso nos livra de lançarmo-nos ao mundo com as tantas descobertas & achados que nos trazem o conhecimento adquirido através dos livros (porque a frase, o conceito, o enredo, o verso — e, sem dúvida, sobretudo o verso, é o que pode lançar mundos no mundo), ou — o que é muito pior — por odiarmo-los, por odiarmos os livros (odiá-los amando-os do amor tátil, cultivando-os em estantes & gaiolas & fogueiras), podemos, simplesmente, escrever um: encher muitas páginas de vãs palavras, encher páginas & mais páginas de palavras que não acrescentam nada, para, assim, conseqüentemente, encher as prateleiras — das livrarias — de mais confusão, de papo furado, de conversa fiada, de livros que não dizem nada de relevante.
 
pois a grande questão com a leitura é que não devemos nos preocupar somente com a atitude de ler. acima de tudo, temos que nos preocupar com o tipo de literatura que procuramos ler.
 
o tempo todo, o ser humano gaba-se do fato de que cada ser é um, ímpar, único, singular,  o tempo todo, o ser humano gaba-se do fato de que cada ser possui as suas especificidades,  o tempo todo, o ser humano gaba-se do fato de que ninguém é igual a ninguém. e, no entanto, esse ser humano, que se gaba o tempo inteiro do fato de ser um, único, ímpar, singular, busca, em livros, fórmulas gerais — como se fossem receitas de bolo, bulas de remédio —de como alcançar a felicidade, de como obter sucesso no trabalho, 8 dicas para conseguir amigos, 15 passos rumo à felicidade conjugal, 10 maneiras infalíveis de conquistar a pessoa amada, conselhos para bem educar os filhos.
 
isso é, em si, uma enormíssima incoerência: fórmulas & tratados gerais, sobre como obter sucesso & felicidade, para seres únicos, ímpares, singulares, cheios de especificidades?  
 
os livros devem lançar mundos no mundo: eles não trazem respostas prontas; eles incitam a buscas, a descobertas.
 
por amá-los (os livros) de um amor tátil, por domá-los em aquários, estantes, gaiolas & fogueiras, por lançá-los para fora das janelas, ou — o que é muito pior — por odiarmo-los, podemos simplesmente escrever um: encher de vãs palavras muitas páginas & de mais confusão as prateleiras…
 
apesar de todo amor & toda gratidão que possuo pelos livros, no meu céu poético a canção popular foi, é & será, sempre, a (grande) estrela entre as estrelas.
 
eu sou louco, alucinado, morro de amores, pela canção popular. foi ela que, distraída, desastrada, tropeçando nos astros, me abriu as portas da poesia (no sentido amplo da palavra).
 
eternamente grato & em dívida com os nossos poetas-compositores.
 
salve a canção popular!
salve a poesia!
salvem os livros!
 
beijo todos!
paulo sabino. 
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(do livro: Letra só. autor: Caetano Veloso. editora: Companhia das Letras.)
 
 
 
LIVROS
 
 
Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo
 
Tropeçavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São  livros e o luar contra a cultura
 
Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou — o que é muito pior — por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um:
Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras
 
Tropeçavas nos astros desastrada
Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Livro. artista & intérprete: Caetano Veloso. canção: Livros. autor da canção: Caetano Veloso. leitura em francês de um trecho do livro: O vermelho e o negro. autor do livro: Stendhal. gravadora: PolyGram.)
 

UM VERSO & A ESPERA
18 de janeiro de 2013

Azul

(Na rotina, na retina: luza a luz azul!)
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a vida é uma longa espera.
 
espera-se por tudo.
 
espera-se um amor, espera-se um melhor emprego, espera-se a viagem programada há tempos, espera-se um bebê, espera-se passar no concurso, espera-se terminar a dissertação, espera-se o ônibus passar no ponto, espera-se o amigo chegar ao bar.
 
junto à espera, indissociáveis, as expectativas.
 
eu, como todos, espero.
 
espero desde um telefonema — de amigos, do meu amor, da minha mãe — até um poema.
 
eu, como todos, espero. nem que seja um problema: um tema que eu não toco (uma música — cantilena — que eu não toco, que eu não executo), um tema que eu não toco (um assunto sobre o qual prefiro não falar), não porque tema, não porque tenha medo do tema (do assunto), não porque eu tema o tema, e sim porque o tema (o assunto, o problema) não entra em nenhum esquema, o tema-problema não encaixa em nenhum resumo, o tema-problema não encaixa em nenhuma estratégia minha de vida.
 
espero, dentro da noite, algo que faça com que eu gema.
 
espero. e tudo é espera nesta noite amena.
 
tudo é espera. menos teu nome (que chega rapidamente, sem demora, ao meu pensamento & pelo telefone). tudo é espera. menos meu telefone (que chega a mim através do toque & que me traz a tua voz & o teu nome à boca). tudo é espera. menos este verso (que sigo arquitetando nesta noite amena), ou será o verso já um poema?…
 
tudo é espera. menos este verso:
 
quero fazer um verso com todos os elementos: um único verso, verso-síntese, um único verso com todos os meus encantos (com aquilo que prezo em mim), com todos os meus lamentos (com aquilo que des-prezo em mim), quero fazer um verso que atravesse ares & mares, que atravesse um mundo, e te alcance (nome que, rapidamente, sem demora, chega à minha boca), e te arranque de todos os pensamentos que possas ter (nome que, rapidamente, sem demora, chega à minha boca).
 
no meu verso (com todos os elementos), minuto a minuto, quis um dia todo azul no teu dia.
 
(que, no teu dia, azul luza!)
 
meu querer (querido no verso) — quero crer! — azulou teu dia a dia, meu querer — quero crer! — azulou teu dia após dia, tudo o que podia (tua rotina, tua retina), meu querer (querido no verso) — quero crer! — azulou o máximo que pôde teu dia a dia (tua rotina, tua retina).
 
na rotina, na retina: luza a luz azul!
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Dois em um. autora: Alice Ruiz S. editora: Iluminuras.)
 
 
 
espero
desde um telefonema
até um poema
 
espero
nem que seja
um problema
esse tema
que eu não toco
não porque tema
e sim
porque não entra
em nenhum esquema
 
espero
dentro da noite
algo que faça
com que eu gema
 
espero
e tudo é espera
nessa noite amena
 
menos teu nome
menos meu telefone
menos este verso
ou será um poema?
 
 
 
quero fazer um verso
com todos os elementos
meus encantos
meus lamentos
que atravesse
ares e mares
e te alcance
e te arranque
de todos os pensamentos
 
 
 
minuto a minuto
quis
um dia
todo azul
no teu dia
 
meu querer
quero crer
azulou
teu dia a dia
tudo
que podia

QUEM NASCEU?
10 de janeiro de 2013

Bebê

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o mundo visto sem figuras de retórica, a existência entendida sem figuras de linguagem:
 
costumamos dizer: o sol nasceu. a lua nasceu. o dia nasceu.
 
nascer: na acepção literal do verbo, segundo o dicionário houaiss, “passar a ter vida exterior no mundo”.
 
o sol, a lua, o dia, estes não nascem; o sol, a lua & o dia são elementos que compõem o mundo, elementos que estão já no mundo, em sua vida exteriorizada. 
 
portanto: o sol nasceu, a lua nasceu, o dia nasceu: é tudo mentira (tais elementos não nascem). é tudo figura (de retórica): quem nasceu, segundo a acepção literal do termo (“passou a ter vida exterior no mundo”), fui eu; quem nasceu, segundo a acepção literal do termo (“passou a ter vida exterior no mundo”), foi você. somos nós, bichos, quem nascemos.
 
e a gente (que nasce), diferentemente da planta (que brota), não sabe bem como nasceu a raça humana, qual é exatamente a sua origem, a gente (que nasce) não sabe bem como surgiu a vida que gerou as vidas que geraram a vida humana, e a gente nem sabe por que nasceu, e a gente nem sabe se, de fato, existe alguma razão, algum fundamento, que justifique a existência humana.
 
o mundo visto sem figuras de retórica, a existência entendida sem figuras de linguagem:
 
à mãe natureza, o templo do pai.
 
o templo do pai para a mãe natureza.
 
mãe: na acepção literal da palavra, segundo o dicionário houaiss, “mulher que deu à luz, que cria ou criou um ou mais filhos”.
 
pai: na acepção literal da palavra, segundo o dicionário houaiss, “homem que deu origem a outro; genitor, progenitor”.
 
na existência que fundamos, também chamamos “pai” a — suposta — força criadora do universo.
 
no entanto, a natureza não é mãe (na acepção literal da palavra) mas um conjunto de elementos do mundo natural — mares, montanhas, animais etc. 
 
e, caso exista alguma força criadora do universo, tal força não seria pai (na acepção literal da palavra) mas o elemento/agente físico que teria originado o universo que, por sua vez, promove a sua contínua expansão.
 
portanto: para a mãe natureza o templo do pai: é tudo mentira (a natureza não é mãe nem é pai a — suposta — força criadora do universo). é tudo figura (de retórica): quem tem mãe, segundo a acepção literal da palavra (“mulher que deu à luz, que cria ou criou um ou mais filhos”), sou eu; quem tem pai, segundo a acepção literal da palavra (“homem que deu origem a outro; genitor, progenitor”), é você. somos nós quem temos mãe, somos nós quem temos pai, que, embora não fiquem o resto das suas vidas do nosso lado (meu pai já partiu…), é impossível esquecer.
 
(pai & mãe seguem conosco o resto da jornada.)
 
o mundo visto sem figuras de retórica, a existência entendida sem figuras de linguagem:
 
quem nasceu? eu? você? minha mãe? seu pai? o sol? a lua? o dia?
 
quem é mãe? quem é pai? você? eu? a natureza? a — suposta — força criadora do universo?
 
a existência, aos nossos olhos miúdos & erráticos, é uma grande alegoria.
 
(é tudo mentira. é tudo figura.)
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(autor: Péricles Cavalcanti.)
 
 
 
QUEM NASCEU?
 
 
O sol nasceu
A lua nasceu
O dia nasceu
O sol nasceu
 
É tudo mentira
É tudo figura
 
O sol nasceu
A lua nasceu
O dia nasceu
O sol nasceu
 
É tudo mentira
É tudo figura
 
Quem nasceu fui eu
Quem nasceu foi você
E a gente não sabe bem como
E nem sabe por quê
 
Pra mãe natureza
O templo do pai
Pra mãe natureza 
O templo do pai
 
É tudo mentira
É tudo figura
 
Pra mãe natureza
O templo do pai
Pra mãe natureza 
O templo do pai
 
É tudo mentira
É tudo figura
 
Quem tem mãe sou eu
Quem tem pai é você
Que embora não fiquem com a gente
É impossível esquecer 
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(do site: Youtube. áudio extraído do cd: Mulheres de Péricles. artista: Vários. canção: Quem nasceu? intérprete: Laura Lavieri. autor da canção: Péricles Cavalcanti. selo: Joia Moderna.)