OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (6ª EDIÇÃO) — VÍDEOS: MORAES MOREIRA & ELISA LUCINDA — ENCERRAMENTO
16 de novembro de 2016

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(Moraes Moreira — Foto: Elena Moccagatta.)

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(Foto: Elena Moccagatta.)

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(Elisa Lucinda — Foto: Elena Moccagatta.)

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(Foto: Elena Moccagatta.)

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(Moraes Moreira & Elisa Lucinda — Foto: Elena Moccagatta.)

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(Foto: Elena Moccagatta.)

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(Foto: Felipe Fernandes.)

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(O quarteto fantástico da 6ª edição: Elisa Lucinda, Moraes Moreira, Paulo Sabino & Maria Rezende — Foto: Felipe Fernandes.)
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Aos interessados, os 2 últimos vídeos da 6ª edição do projeto “Ocupação Poética”, ocorrido no dia 2 de agosto (terça-feira), no teatro Cândido Mendes (Ipanema – RJ), com a participação estelar de: Elisa Lucinda, Moraes Moreira & Maria Rezende.

No primeiro vídeo desta publicação, a grande homenageada da noite, a poeta & atriz Elisa Lucinda, bate um papo descontraído com o cantor, compositor, instrumentista, poeta & membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, Moraes Moreira, que fala da sua paixão pelo livro “Fernando Pessoa, o Cavaleiro de Nada”, o primeiro romance da Elisa & finalista do prêmio São Paulo de Literatura 2015, conta a divertidíssima história de composição do seu poema-canção “Sonhei que estava em Portugal”, além de recitá-lo & recitar um outro poema-canção seu, ainda não gravado & ainda pouco conhecido porque composto recentemente, “O samba e a língua”. No segundo vídeo, a homenageada da noite recita um poema do grande homenageado por ela na noite (e por todos nós, participantes), Fernando Pessoa, um poema do seu heterônimo Álvaro de Campos. Ainda de presente, o áudio da canção “Sonhei que estava em Portugal”, na interpretação da abelha-rainha Maria Bethânia.

Mais à frente, publicarei a noite da 7ª edição do projeto, em homenagem aos 70 anos do poeta, letrista & agitador cultural, além de querido amigo, Jorge Salomão, e já aviso que está acertada a data da 8ª edição do projeto (5 de dezembro), a homenageada da 8ª edição & confirmados alguns vários convidados. Em breve maiores informações.

Divirtam-se!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [6ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 02/08/2016. Bate-papo entre Elisa Lucinda & Moraes Moreira. Moraes Moreira recita dois poemas-canções de sua autoria, Sonhei que estava em Portugal & O Samba e a Língua.)

 

 

SONHEI QUE ESTAVA EM PORTUGAL  (Moraes Moreira)

 

Sonhei que estava um dia em Portugal
À toa num carnaval em Lisboa
Meu sonho voa além da poesia
E encontra o poeta em pessoa

A lua mingua e a língua lusitana
Acende a chama e a palavra Luzia
Na via pública e em forma de música
Luzia das, luzíadas, Luzias

 

 

O SAMBA E A LÍNGUA  (Moraes Moreira)

 

O que é que une o Brasil
De norte a sul com certeza?
É o samba
E a língua portuguesa

O samba e suas vertentes
A língua e os seus sotaques
O que é que nos faz diferentes
É ter os mesmos destaques
O samba e os seus poetas
E eu morro, sim, de amores
Por essas obras completas

O samba tem a cadência
A língua a sua sintaxe
O samba é malemolência
A língua diz: não relaxe
O samba é mais popular
A língua é mais erudita
Eu ouço o povo falar
Cantar de forma bonita
O samba tem a cabrocha
A língua sua cachopa
O samba acende uma tocha
A língua muda de roupa
O samba é uma escola
A língua é Academia
No samba a gente rebola
Na língua a gente vicia
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(do site: Youtube. áudio extraído do cd: Ciclo. artista & intérprete: Maria Bethânia. canção: Sonhei que estava em Portugal. versos: Moraes Moreira. música: Moraes Moreira. gravadora: Universal Music. citação da canção: Anda Luzia. autor: João de Barro.)


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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [6ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 02/08/2016. Elisa Lucinda recita Poema em linha reta, de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa.)

 

 

POEMA EM LINHA RETA  (Álvaro de Campos / heterônimo de Fernando Pessoa)

 

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo, neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

É COMO AMAR: O UIRAPURU SABE
1 de dezembro de 2015

Pai

Pai Eu no colo

(Nas fotos, o primeiríssimo Paulo Sabino; no colo, o seu sucessor.)
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se entre nós, um dos responsáveis pela minha existência, o paulo sabino primeiro, venceria, hoje (01/12), as suas setenta & três primaveras.

há onze anos — outubro de 2004 — ele pulava fora deste plano para cair dentro, única & exclusivamente, das minhas lembranças, do meu sentimento, do meu coração.

há onze anos ele veio fazer sua morada, única & exclusivamente, dentro de mim.

porém, o seu legado de amor & bom-humor me habita desde sempre.

filho de um violonista baiano, foi um apaixonado pela língua portuguesa, tinha uma grande queda pela língua francesa, um sambista nato (foi diretor de harmonia de uma escola de samba do rio de janeiro por dez anos) & um piadista irremediável.

e é bacana ver como hoje o seu legado, em todos os níveis & sentidos, ecoa de forma bonita em mim como também na minha mãe.

mora & dorme em mim o meu menino grande.

todo o amor que houver nesta vida para você, sabino pai, e algum veneno antimonotonia para todos nós!

parabéns, pai! vivas ao dia que o trouxe ao mundo!

saravá!

beijo todos!
sabino filho.
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(do livro: Campo de milagres. autor: Thiago de Mello. editora: Bertrand Brasil.)

 

 

O UIRAPURU SABE

 

Não me queixo, antes celebro,
esse dom de florescer
que cada palavra traz
de nascença, por milagre.
Só quis contar como faço,
pondo amor no meu fazer,
como o uirapuru só canta
quando precisa cantar.

 

 

É COMO AMAR

 

Sou poeta, sou simplesmente
um ser limitado e triste,
sujo de tempo e palavras.
Contudo, capaz de amor.
Que este ofício de escrever,
sem tirar nem pôr, é o mesmo
que o ofício de viver;
quero dizer o de amar.

OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (2ª EDIÇÃO): VÍDEO (V)
9 de outubro de 2015

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Eu jurei que a postagem anterior a esta seria a última sobre o projeto em questão.

Só que não.

Me veio o desejo de não deixar passar o registro deste poema que amo de paixão desde que o li pela primeira vez. O poema tem um post neste espaço. Adoro dizê-lo.

E, neste vídeo, que é, de fato, o encerramento da primeira noite da segunda edição do projeto “Ocupação Poética” (09/09), no teatro Cândido Mendes (Ipanema – RJ), eu digo o poema sem errar nada. Percebi há pouco. Isso me deixou feliz. E também me deixou feliz a introdução que faço antes da leitura. Acho que o vídeo vale a publicação.

Como escrevi, para este espaço, uma postagem bonita sobre este poema, resolvi deixá-la aqui — um repeteco — na tentativa de facilitar a absorção dos versos.

Bom, a princípio, ficamos por aqui. (Não serei tão assertivo quanto no post anterior, porque, afinal, estou eu com mais um vídeo…)

Espero que tenham se divertido com os poemas tanto quanto nós, participantes, nos divertimos realizando!

Até uma próxima edição do projeto!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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“Quando em 1500 os portugueses chegaram ao Brasil, na região de Porto Seguro, Bahia, encontraram ali um povo que falava uma língua completamente desconhecida dos europeus. Era o povo tupinaki, que falava a língua tupinambá. A maioria dos povos que viviam ao longo da costa, desde o Rio de Janeiro até o Ceará, falava essa mesma língua. Foi com a língua tupinambá que os colonos portugueses tiveram contato mais estreito durante o século XVI. Para entender-se com os indígenas, a fim de conhecer a nova terra e nela viver, muitos deles tiveram de aprendê-la. Desse contato resultou a grande influência do tupinambá no vocabulário do português do Brasil. Milhares de nomes comuns e nomes de lugares que utilizamos hoje em todo o país são palavras tupinambás.”

“Entre os séculos XVI e XIX foram trazidos para o Brasil entre 4 e 5 milhões de africanos escravizados. Desse total, cerca de 1 milhão foram embarcados nos portos da África Ocidental, entre a Costa do Ouro, atual Gana, e o Golfo de Biafra, na Nigéria. Oriundos dos diversos reinos que existiam na região, começaram a aportar no Brasil a partir da segunda metade do século XVII. Seu principal destino foi a cidade de Salvador e o Recôncavo Baiano, Minas Gerais e o Maranhão. As línguas que eles falavam, como o iorubá e o evé-fon, influenciaram a língua portuguesa no Brasil principalmente no domínio religioso.”

(Textos extraídos de painéis de exposição do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo.)
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a língua portuguesa, por misturar-se, mesclar-se, miscigenar-se, ganhou um rosto novo, abrasileirado: a língua — portuguesa — à brasileira, a língua — portuguesa — repaginada à maneira nossa, a língua à moda brasileira.

língua: também designa o órgão muscular situado na boca, responsável, entre outras coisas, pela produção dos sons.

língua: órgão muscular. língua à brasileira: órgão vernacular, órgão próprio de um país.

língua à brasileira: órgão vernacular alongado, encompridado, feito de muitas misturas (europeu + índio + negro), alongado como o órgão muscular, e por isso mesmo: hábil, móvel, tátil.

amálgama lusa malvada, portuguesa malvada nascida da mistura de elementos heterogêneos (europeu + índio + negro), malvada porque mastiga, come, engole, degusta, deglute, deflora, o que encontrar pela frente, mas qual flora antropofágica, no seu movimento de misturar, de mesclar, de miscigenar, salva a pátria mal amada, salva a nação mal cuidada, salva este país de assassinos, corruptos & desigualdades alarmantes.

“língua-de-trapo”, “língua solta”, “língua ferina”, “língua douta”: expressões idiomáticas muito brasileiras.

língua à brasileira: língua-de-trapo & língua solta (língua para quem fala demais), língua ferina (mordaz, venenosa, língua da injúria, da fofoca), língua douta (língua erudita, de muitos saberes): saravá, língua-de-fogo & fósforo (chama, labareda, língua acesa), saravá, língua viva & declinativa (língua feita de declinação: conjunto das diversas formas que os substantivos, adjetivos, pronomes, artigos e numerais apresentam de acordo com a sua função sintática na oração), saravá, língua fônica (língua sonora, melodiosa) & apócrifa (língua inautêntica, toda misturada), saravá, língua lusófona & arcaica, crioula iorubáica (pela forte presença da língua iorubá na língua à brasileira), saravá, língua-de-sogra (faladeira incorrigível) & língua provecta (língua-mestre, avançada, inovadora), saravá, língua morta & ressurrecta (língua nascida do latim, que é uma língua já extinta, portanto, “morta”, e ressurrecta, isto é, língua renascida, ressuscitada, repaginada), saravá, língua tonal (cheia de tons & matizes) & viperina (língua venenosa, per-versa), saravá, palmo de neolatina (a língua portuguesa integra o grupo das línguas neolatinas, línguas derivadas da língua latina), saravá, “poema em linha reta” (poema elaborado pelo maior poeta da língua, o imensurável fernando pessoa), saravá, lusíadas no fim do túnel (referência a um dos mestres da poesia portuguesa, anterior a pessoa, luís de camões), saravá, caetano não fica mudo (o grande poeta-compositor da língua à brasileira possui um dos mais belos poemas-canções já escritos a respeito, intitulado “língua”), saravá, nem fica mudo o “seo” manoel lá da esquina, um dos tantos portugueses donos de estabelecimento comercial.

por ti, afro-gueixa (língua misturada, mesclada, miscigenada), por ti, guesa errante (referência ao mais célebre poema do poeta maranhense sousândrade, intitulado “guesa errante”, inspirado numa lenda andina em que o índio adolescente chamado “guesa” seria sacrificado como oferenda aos deuses), por ti, língua à brasileira, o mar se abre, o sol se deita. o mar se abre, o sol se deita, por mários de sagarana (“sagarana”, título de uma obra do mestre mineiro guimarães rosa, é um neologismo formado a partir da palavra “saga”, de origem européia, que designa “canto lendário ou heróico”, e da palavra “rana”, de origem tupi, que designa “semelhança”, “proximidade”), por magos de saramago (referência ao grande escritor português josé saramago & à magia concentrada em sua prosa vertiginosa).

viva os lábios! viva a língua da boca, a linguagem oral!
viva os livros! viva a língua da página, a linguagem escrita!

viva os lábios, viva os livros, dos rosas, campos & netos (de todos os nossos grandes escritores)! viva os léxicos (o vocabulário, o repertório de palavras) & os êxtases alcançados com os andrades — drummond, mário, oswald! viva toda a síntese da sintaxe dos erros milionários, dos erros que resultam em ganhos, em riquezas!

língua afiada a machado, porque cortante, porque precisa, porque ferina, como a ferramenta, e também porque língua afiada a machado de assis, escritor brasileiro afiadíssimo, considerado o maior de todos os tempos. desafinada índia-preta. por cruzas diversas, por misturas divinas (europeu + índio + negro), mil linguageiras, mil maneiras de se escrever & falar a língua.

a coisa mais língua que existe, a coisa mais comunicável que conheço, é o beijo da impureza desta língua que adeja toda a brisa brasileira: por mim, tupi, índio destas matas; por tu, “guesa”, índio da lenda, com nome que também integra a língua que me língua: a língua portuguesa.

a coisa mais língua que existe, a coisa mais comunicável que conheço, é o beijo da impureza desta língua que adeja toda a brisa brasileira: por mim, tupi, índio destas matas; por tu, leitor, tua língua portuguesa.

(a língua é minha pátria.)
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [2ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 09/09/2015. Paulo Sabino recita Língua à brasileira, poema de Luis Turiba.)

 

LÍNGUA À BRASILEIRA  (Luis Turiba)

Ó órgão vernacular alongado
Hábil áspero ponteado
Móvel Nobel ágil tátil
Amálgama lusa malvada
Degusta deglute deflora
Mas qual flora antropofágica
Salva a pátria mal amada

Língua-de-trapo Língua solta
Língua ferina Língua douta
Língua cheia de saliva
Saravá Língua-de-fogo e fósforo
Viva & declinativa
Língua fônica apócrifa
Lusófona & arcaica
Crioula iorubáica
Língua-de-sogra Língua provecta
Língua morta & ressurrecta
Língua tonal e viperina
Palmo de neolatina
Poema em linha reta
Lusíadas no fim do túnel
Caetano não fica mudo
Nem “Seo” Manoel lá da esquina
Por ti Guesa errante, afro-gueixa
O mar se abre o sol se deita
Por Mários de Sagarana
Por magos de Saramago

Viva os lábios!
Viva os livros!
Dos Rosas Campos & Netos
Os léxicos, Andrades, os êxtases
Toda a síntese da sintaxe
Dos erros milionários
Desses malandros otários
Descartáveis, de gorjetas.

Língua afiada a Machado
Afinal, cabeça afeita
Desafinada índia-preta
Por cruzas mil linguageiras
A coisa mais Língua que existe
É o beijo da impureza
Desta Língua que adeja
Toda a brisa brasileira
Por mim,
……………Tupi,
……………………Por tu Guesa

OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES: OS VÍDEOS
11 de agosto de 2015

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(Os poetas participantes do projeto “Ocupação Poética”: Salgado Maranhão, Adriano Espínola, Antonio Carlos Secchin, Alex Varella, Antonio Cicero, Paulo Henriques Britto & Paulo Sabino.)
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Aos interessados, alguns vídeos de algumas leituras realizadas durante o projeto “Ocupação Poética”, no teatro Cândido Mendes, em Ipanema (Rio de Janeiro), ocorrido nos dias 31/07, 01/08 & 02/08.

No dia em que foram feitos estes vídeos, no terceiro & último (domingo, 02/08), com a participação dos grandes Antonio Carlos Secchin & Paulo Henriques Britto, prestei uma homenagem ao maior poeta da língua portuguesa, o imensurável & incontornável português Fernando Pessoa. Recitei três poemas em sua homenagem & um poema de sua autoria sob o heterônimo de Bernardo Soares.

Além da homenagem a Pessoa, esta publicação traz o encerramento do projeto, com o mestre Antonio Carlos Secchin recitando um poema inédito de sua autoria, aprontado especialmente para o nosso recital. Poema de cem versos, todo em redondilha menor (versos de cinco sílabas).

Mais vídeos da nossa “Ocupação Poética” serão disponibilizados neste espaço. É só aguardar.

Divirtam-se!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 02/08/2015. Paulo Sabino recita Dita, poema de Antonio Cicero.)

 

DITA  (Antonio Cicero)

Qualquer poema bom provém do amor
narcíseo. Sei bem do que estou falando
e os faço eu mesmo pondo à orelha a flor
da pele das palavras, mesmo quando

assino os heterônimos famosos:
Catulo, Caetano, Safo ou Fernando.
Falo por todos. Somos fabulosos
por sermos enquanto nos desejando.

Beijando o espelho d’água da linguagem,
jamais tivemos mesmo outra mensagem,
jamais adivinhando se a arte imita

a vida ou se a incita ou se é bobagem:
desejarmo-nos é a nossa desdita,
pedindo-nos demais que seja dita.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 02/08/2015. Paulo Sabino recita A Fernando Pessoa, poema de Antonio Carlos Secchin.)

 

A FERNANDO PESSOA  (Antonio Carlos Secchin)

Ser é corrigir o que se foi,
e pensar o passado na garganta do amanhã.
É crispar o sono dos infantes,
com seus braços de inventar as buscas
em caminhos doidos e distantes.
É caminhar entre o porto e a lenda
de um tempo arremessado contra o mar.
Domar o leme das nuvens, onde mora
o mito e a glória de um deus a naufragar.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 02/08/2015. Paulo Sabino recita Pessoana, poema de Paulo Henriques Britto.)

 

PESSOANA  (Paulo Henriques Britto)

Quando não sei o que sinto
sei que o que sinto é o que sou.
Só o que não meço não minto.

Mas tão logo identifico
o não-lugar onde estou
decido que ali não fico,

pois onde me delimito
já não sou mais o que sou
mas tão-somente me imito.

De ponto a ponto rabisco
o mapa de onde não vou,
ligando de risco em risco

meus equívocos favoritos,
até que tudo que sou
é um acúmulo de escritos,

penetrável labirinto
em cujo centro não estou
mas apenas me pressinto

mero signo, simples mito.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 02/08/2015. Paulo Sabino recita o fragmento 451, de Bernardo Soares, heterônimo de Fernando Pessoa.)

 

451.  (Bernardo Soares – heterônimo de Fernando Pessoa)

Viajar? Para viajar basta existir. Vou de dia para dia, como de estação para estação, no comboio do meu corpo, ou do meu destino, debruçado sobre as ruas e as praças, sobre os gestos e os rostos, sempre iguais e sempre diferentes, como, afinal, as paisagens são.

Se imagino, vejo. Que mais faço eu se viajo? Só a fraqueza extrema da imaginação justifica que se tenha que deslocar para sentir.

“Qualquer estrada, esta mesma estrada de Entepfuhl, te levará até ao fim do mundo.” Mas o fim do mundo, desde que o mundo se consumou dando-lhe a volta, é o mesmo Entepfuhl de onde se partiu. Na realidade, o fim do mundo, como o princípio, é o nosso conceito do mundo. É em nós que as paisagens têm paisagem. Por isso, se as imagino, as crio; se as crio, são; se são, vejo-as como às outras. Para quê viajar? Em Madrid, em Berlim, na Pérsia, na China, nos Pólos ambos, onde estaria eu senão em mim mesmo, e no tipo e género das minhas sensações?

A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 02/08/2015. Antonio Carlos Secchin recita Translado, poema inédito de sua autoria.)

 

TRANSLADO (Antonio Carlos Secchin)

“o lado além do outro lado”

 

Tem um lado com

Tem um lado zen

Tem um lado zoom

Outro desfocado

Tem um lado chão

Outro lado alado

Tem um lado não

Tem um lado vim

Tem um lado voz

Tem um lado mim

Tem um lado algoz

Tem um lado sim

Tem um lado sou

Tem um lado quem?

Tem um lado zero

Tem um lado nem

Do lado de lá

Tem um lado além

Tem um lado lei

Toma então cuidado

Vem para apagar

O teu braseado

Tem um lado solto

Tem lado soldado

Esse lado aí

Te deixa confuso

Pronto pra arrochar

Feito um parafuso

O lado soldado

Me deixa lelé

Me imobilizando

Do pescoço ao pé

Frente à solda dura

Eu virei banido

Preso na armadura

Me senti fundido

Quero me sentir

Desencadeado

Com meu lado em

Tudo quanto é lado, a-

brindo um  contrabando na

Contramão da pista eu

Finjo que sou cego

Pra não dar na vista

Eu procuro enfim

Qualquer endereço

Que não me dê um  nó no

Meio do começo

Tem um lado aquém

Bem descontrolado

Tem um lado assim

Tem um lado assado

Um fermenta ali

Outro deste lado

Tem um lado sem

Mesmo acompanhado

Tem um lado tem

Com mais nada ao lado

No meu lado 1

Não fico à vontade

Ele só me dá o

Dobro da metade

Entre o não e o sim

Não quero o talvez, me-

lhor me embaralhar

Junto com esses três

Tem o lado 3

Lado bem  bacana

Desde que caibamos

Quatro numa  cama

Tem o lado light

Esse me seduz

Pois além de leve

Me cobre de luz

Lá no lado dark

Nada é tão festivo

Mas até no inferno

Eu me sinto vivo

Tem um lado mas

Que chega atrasado

Avisando a mim

Que tudo somado

Só resta a raiz

De um metro quadrado

Todo o resto é lero

Para o boi dormir

Múltiplo de zero

Pra me dividir

Entre o lado bom

E meu  lado B

Entre o aqui e o lá

Fico lá e aqui

Sem saber dizer

Onde vou chegar

Nem tentar saber

Que lado seguir

E neste translado

Eu só quero quem

Queira vir comigo a-

lém do verso 100.

LÍNGUA À BRASILEIRA
7 de julho de 2015

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“Quando em 1500 os portugueses chegaram ao Brasil, na região de Porto Seguro, Bahia, encontraram ali um povo que falava uma língua completamente desconhecida dos europeus. Era o povo tupinaki, que falava a língua tupinambá. A maioria dos povos que viviam ao longo da costa, desde o Rio de Janeiro até o Ceará, falava essa mesma língua. Foi com a língua tupinambá que os colonos portugueses tiveram contato mais estreito durante o século XVI. Para entender-se com os indígenas, a fim de conhecer a nova terra e nela viver, muitos deles tiveram de aprendê-la. Desse contato resultou a grande influência do tupinambá no vocabulário do português do Brasil. Milhares de nomes comuns e nomes de lugares que utilizamos hoje em todo o país são palavras tupinambás.”

“Entre os séculos XVI e XIX foram trazidos para o Brasil entre 4 e 5 milhões de africanos escravizados. Desse total, cerca de 1 milhão foram embarcados nos portos da África Ocidental, entre a Costa do Ouro, atual Gana, e o Golfo de Biafra, na Nigéria. Oriundos dos diversos reinos que existiam na região, começaram a aportar no Brasil a partir da segunda metade do século XVII. Seu principal destino foi a cidade de Salvador e o Recôncavo Baiano, Minas Gerais e o Maranhão. As línguas que eles falavam, como o iorubá e o evé-fon, influenciaram a língua portuguesa no Brasil principalmente no domínio religioso.”

(Textos extraídos de painéis de exposição do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo.)
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a língua portuguesa, por misturar-se, mesclar-se, miscigenar-se, ganhou um rosto novo, abrasileirado: a língua — portuguesa — à brasileira, a língua — portuguesa — repaginada à maneira nossa, a língua à moda brasileira.

língua: também designa o órgão muscular situado na boca, responsável, entre outras coisas, pela produção dos sons.

língua: órgão muscular. língua à brasileira: órgão vernacular, órgão próprio de um país.

língua à brasileira: órgão vernacular alongado, encompridado, feito de muitas misturas (europeu + índio + negro), alongado como o órgão muscular, e por isso mesmo: hábil, móvel, tátil.

amálgama lusa malvada, portuguesa malvada nascida da mistura de elementos heterogêneos (europeu + índio + negro), malvada porque mastiga, come, engole, degusta, deglute, deflora, o que encontrar pela frente, mas qual flora antropofágica, no seu movimento de misturar, de mesclar, de miscigenar, salva a pátria mal amada, salva a nação mal cuidada, salva este país de assassinos, corruptos & desigualdades alarmantes.

“língua-de-trapo”, “língua solta”, “língua ferina”, “língua douta”: expressões idiomáticas muito brasileiras.

língua à brasileira: língua-de-trapo & língua solta (língua para quem fala demais), língua ferina (mordaz, venenosa, língua da injúria, da fofoca), língua douta (língua erudita, de muitos saberes): saravá, língua-de-fogo & fósforo (chama, labareda, língua acesa), saravá, língua viva & declinativa (língua feita de declinação: conjunto das diversas formas que os substantivos, adjetivos, pronomes, artigos e numerais apresentam de acordo com a sua função sintática na oração), saravá, língua fônica (língua sonora, melodiosa) & apócrifa (língua inautêntica, toda misturada), saravá, língua lusófona & arcaica, crioula iorubáica (pela forte presença da língua iorubá na língua à brasileira), saravá, língua-de-sogra (faladeira incorrigível) & língua provecta (língua-mestre, avançada, inovadora), saravá, língua morta & ressurrecta (língua nascida do latim, que é uma língua já extinta, portanto, “morta”, e ressurrecta, isto é, língua renascida, ressuscitada, repaginada), saravá, língua tonal (cheia de tons & matizes) & viperina (língua venenosa, per-versa), saravá, palmo de neolatina (a língua portuguesa integra o grupo das línguas neolatinas, línguas derivadas da língua latina), saravá, “poema em linha reta” (poema elaborado pelo maior poeta da língua, o imensurável fernando pessoa), saravá, lusíadas no fim do túnel (referência a um dos mestres da poesia portuguesa, anterior a pessoa, luís de camões), saravá, caetano não fica mudo (o grande poeta-compositor da língua à brasileira possui um dos mais belos poemas-canções já escritos a respeito, intitulado “língua”), saravá, nem fica mudo o “seo” manoel lá da esquina, um dos tantos portugueses donos de estabelecimento comercial.

por ti, afro-gueixa (língua misturada, mesclada, miscigenada), por ti, guesa errante (referência ao mais célebre poema do poeta maranhense sousândrade, intitulado “guesa errante”, inspirado numa lenda andina em que o índio adolescente chamado “guesa” seria sacrificado como oferenda aos deuses), por ti, língua à brasileira, o mar se abre, o sol se deita. o mar se abre, o sol se deita, por mários de sagarana (“sagarana”, título de uma obra do mestre mineiro guimarães rosa, é um neologismo formado a partir da palavra “saga”, de origem européia, que designa “canto lendário ou heróico”, e da palavra “rana”, de origem tupi, que designa “semelhança”, “proximidade”), por magos de saramago (referência ao grande escritor português josé saramago & à magia concentrada em sua prosa vertiginosa).

viva os lábios! viva a língua da boca, a linguagem oral!
viva os livros! viva a língua da página, a linguagem escrita!

viva os lábios, viva os livros, dos rosas, campos & netos (de todos os nossos grandes escritores)! viva os léxicos (o vocabulário, o repertório de palavras) & os êxtases alcançados com os andrades — drummond, mário, oswald! viva toda a síntese da sintaxe dos erros milionários, dos erros que resultam em ganhos, em riquezas!

língua afiada a machado, porque cortante, porque precisa, porque ferina, como a ferramenta, e também porque língua afiada a machado de assis, escritor brasileiro afiadíssimo, considerado o maior de todos os tempos. desafinada índia-preta. por cruzas diversas, por misturas divinas (europeu + índio + negro), mil linguageiras, mil maneiras de se escrever & falar a língua.

a coisa mais língua que existe, a coisa mais comunicável que conheço, é o beijo da impureza desta língua que adeja toda a brisa brasileira: por mim, tupi, índio destas matas; por tu, “guesa”, índio da lenda, com nome que também integra a língua que me língua: a língua portuguesa.

a coisa mais língua que existe, a coisa mais comunicável que conheço, é o beijo da impureza desta língua que adeja toda a brisa brasileira: por mim, tupi, índio destas matas; por tu, leitor, tua língua portuguesa.

(a língua é minha pátria.)

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Qtais. autor: Luis Turiba. editora: 7Letras.)

 

 

LÍNGUA À BRASILEIRA

 

Ó órgão vernacular alongado
Hábil áspero ponteado
Móvel Nobel ágil tátil
Amálgama lusa malvada
Degusta deglute deflora
Mas qual flora antropofágica
Salva a pátria mal amada

Língua-de-trapo Língua solta
Língua ferina Língua douta
Língua cheia de saliva
Saravá Língua-de-fogo e fósforo
Viva & declinativa
Língua fônica apócrifa
Lusófona & arcaica
Crioula iorubáica
Língua-de-sogra Língua provecta
Língua morta & ressurrecta
Língua tonal e viperina
Palmo de neolatina
Poema em linha reta
Lusíadas no fim do túnel
Caetano não fica mudo
Nem “Seo” Manoel lá da esquina
Por ti Guesa errante, afro-gueixa
O mar se abre o sol se deita
Por Mários de Sagarana
Por magos de Saramago

Viva os lábios!
Viva os livros!
Dos Rosas Campos & Netos
Os léxicos, Andrades, os êxtases
Toda a síntese da sintaxe
Dos erros milionários
Desses malandros otários
Descartáveis, de gorjetas.

Língua afiada a Machado
Afinal, cabeça afeita
Desafinada índia-preta
Por cruzas mil linguageiras
A coisa mais Língua que existe
É o beijo da impureza
Desta Língua que adeja
Toda a brisa brasileira
Por mim,
……………Tupi,
……………………Por tu Guesa

INDÍCIO: O PARADEIRO DO POETA
9 de dezembro de 2014

Coração_Árvore_Tronco

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na noite acesa de um luar certeiro, de um luar altaneiro, o paradeiro do poeta foi a velha mesa de onde foi presa, de onde foi a caça, quando aventureiro do primeiro amor que lhe deu tristeza.

de uma beleza de não ter parceiro, de uma beleza sem par, beleza ímpar, única, o candeeiro branco da princesa (candeeiro: no brasil colonial, chapéu de três pontas, também chamado tricórnio) causou surpresa, espanto, pasmo, ao poeta violeiro, que se deu inteiramente à boniteza da princesa & seu candeeiro branco.

sendo, o poeta, cavaleiro de sua princesa, alteza do seu reino amoroso, o poeta pôs, no tinteiro, a pena com firmeza, e, com presteza, foi o mensageiro de sua alteza, que é o seu amor.

findo, com delicadeza, o roteiro em versos, o poeta deixa, na velha mesa (de onde foi a presa, de onde foi a caça), um verso brasileiro que, no fim das contas, resulta em homenagem ao cancioneiro & à língua portuguesa.

pois, ainda que o poeta desejasse secreta a sua paixão por sua alteza, paixão nenhuma nunca foi secreta.

paixão nenhuma nunca foi secreta: tem sempre um rastro, um rabo, um indício, que vai ser achado. por mais oculta que ela tenha estado, nasce uma luz quando a paixão se projeta.

paixão nenhuma nunca foi secreta: no tronco velho da árvore, um coração cavado; dentro dele, a ponta de uma seta. um simples nome escrito ali, dentro ou próximo ao coração, completa o antigo indício de um apaixonado.

paixão nenhuma nunca foi secreta: tem sempre um rastro, um rabo, um indício, que vai ser achado. por mais que a alma queira ser discreta, o coração quer ser desmascarado: a luz da paixão, do amor, confunde o peito iluminado, iluminado pela luz de um candeeiro, pela luz de um lampião, que vai dentro.

o amor não deixa vida alguma quieta, sossegada: há sempre um arroubo, um desvario, um disparate, a ser cometido.

para o amor não há muitas escolhas: ou morre dele quem ficar calado, abafando-o, sufocando-o, reprimindo-o, ou vive dele quem virar poeta, confessando-o, declarando-o, louvando-o, em versos.

(paulo sabino escolheu viver dele.)

beijo todos!
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(do livro: Sonetos sentimentais pra violão e orquestra. autor: Paulo César Pinheiro. editora: 7Letras.)

 

 

PARADEIRO

 

Na noite acesa
De um luar certeiro
Meu paradeiro
Foi a velha mesa
De onde fui presa
Quando aventureiro
Do amor primeiro
Que me deu tristeza.

De uma beleza
De não ter parceiro
O candeeiro
Branco da Princesa
Causou surpresa
A esse violeiro
Que deu-se inteiro
À sua boniteza.

De Sua Alteza
Sendo cavaleiro
Pus no tinteiro
A pena com firmeza
E com presteza
Fui seu mensageiro.

Findo o roteiro
E com delicadeza
Deixo na mesa
Um verso brasileiro
Ao Cancioneiro
E à Língua Portuguesa.

 

 

INDÍCIO

 

No tronco velho um coração cavado
E dentro dele a ponta de uma seta.
Um simples nome escrito ali completa
O antigo indício de um apaixonado.

Paixão nenhuma nunca foi secreta.
Tem sempre um rastro que vai ser achado.
Por mais oculta que ela tenha estado
Nasce uma luz quando ela se projeta.

A luz confunde o peito iluminado.
Por mais que a alma queira ser discreta
O coração quer ser desmascarado.

O amor não deixa vida alguma quieta.
Ou morre dele quem ficar calado
Ou vive dele quem virar poeta.

LÍNGUA-MAR: O CAVALO-MARINHO & O MAR-EQÜESTRE
2 de julho de 2014

Cavalo Azul

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a língua em que navego, marinheiro, a língua em que viajo, marinheiro, língua por onde me aventuro no exercício da escrita, a língua em que navego, na proa das vogais & consoantes, na parte dianteira da embarcação que conduz vogais & consoantes, é a língua que me chega, em ondas incessantes, à praia deste texto aventureiro, texto que vai sendo construído ao sabor do acaso, com as palavras (e suas vogais & consoantes) que vão se dando no espaço branco do papel ou da tela.

a língua em que navego é a língua portuguesa, a que primeiro transpôs o abismo & as dores velejantes, no mistério das águas mais distantes (os portugueses foram os primeiros, os pioneiros nas grandes navegações marítimas), e que, agora, me banha por inteiro.

língua de sol, espuma & maresia é a língua portuguesa, língua que a nau dos sonhadores-navegantes (como eu, como tantos) atravessa a caminho dos instantes, atravessa a caminho dos momentos, das circunstâncias, cruzando o bojador de cada dia, cruzando as intempéries de cada dia (o cabo bojador encontra-se na costa atlântica da áfrica & originou mitos, como o da existência de monstros marinhos, por conta do desaparecimento de muitos navios portugueses na região).

ó língua-mar, viajando em todos nós, no teu sal singra, errante, no teu sal singra, errática, no teu sal singra, vária, no teu sal singra, viajante, no teu sal singra, sem bússola, a minha voz.

ó língua-mar, ó língua-pátria (a língua é minha pátria), ó língua portuguesa, a minha voz, sem direção, ao sabor dos ventos, singra o teu mar.

a minha voz, sem direção, ao sabor dos ventos, singra, viaja no mar da língua portuguesa.

a minha voz viaja no mar da língua portuguesa: na praia, um cavalo azul imita o mar.

como se o mar fosse, o cavalo azul, com as crinas espumantes, ondula sobre a areia. o cavalo azul arremessa-se, furioso, contra as dunas.

na garupa de alga do cavalo azul, el-rei dom sebastião, rei de portugal desaparecido em batalha no ano de 1578, encantado, já cavalga com a espada na mão.

veloz, o cavalo azul, que imita o mar, busca asas: mito trespassado de sonhos & sargaços. o cavalo azul, veloz, busca asas, como o mito do cavalo alado (pégaso), mito que representa a imortalidade, o tempo sem fim.

o mar, por sua vez, com suas líquidas patas, cavalga na praia. o mar, com os músculos retesados de maré cheia, com os músculos na sua maior potência (pois a maré, do mar, é a cheia), o mar investe, resfolegante, contra a areia. com as crinas de algas, o mar escoiceia a manhã, o mar dá coices na manhã.

encrespa-se todo o mar, buscando o cavalo, mito ondulado de sal & tempo.

ali, na areia, na praia, os dois — cavalo & mar — se enfrentam: o cavalo-marinho & o mar-eqüestre.

indiferente, o sol assiste à peleja perene das criaturas.

afinal, o mar busca o cavalo azul que, por sua vez, busca o mar: assim, misturam-se, amalgamam-se (mar & cavalo), tornam-se um, na viagem que proponho através da língua que me habita, língua onde construo sonhos & lendas.

(a língua é minha pátria. eu canto, falo, declamo, exponho, penso, logo existo, em língua portuguesa.)

salve a língua portuguesa!
salve a sua existência na minha!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Beira-Sol. autor: Adriano Espínola. editora: Topbooks.)

 

 

LÍNGUA-MAR

 

A língua em que navego, marinheiro,
na proa das vogais e consoantes,
é a que me chega em ondas incessantes
à praia deste poema aventureiro.
É a língua portuguesa, a que primeiro
transpôs o abismo e as dores velejantes,
no mistério das águas mais distantes,
e que agora me banha por inteiro.
Língua de sol, espuma e maresia,
que a nau dos sonhadores-navegantes
atravessa a caminho dos instantes,
cruzando o Bojador de cada dia.
Ó língua-mar, viajando em todos nós.
No teu sal, singra errante a minha voz.

 

 

O CAVALO E O MAR

A Fernando Py

 

Na praia, um cavalo azul
imita o mar.

Com as crinas espumantes,
ondula sobre a areia.
Arremessa-se, furioso,
contra as dunas.

(Na sua garupa de alga,
El-Rei Dom Sebastião,
encantado, já cavalga
com a espada na mão.)

Veloz,
busca asas:
mito trespassado
de sonhos e sargaços.

O mar com suas líquidas patas
cavalga na praia.
Com os músculos retesados
de maré cheia,

investe,
resfolegante,
contra a areia.
Com as crinas de algas,
escoiceia
a manhã.

Encrespa-se todo,
buscando o cavalo:
mito ondulado de sal e tempo.

Ali,
os dois se enfrentam:
o cavalo-marinho
& o mar-eqüestre.

Indiferente,
o sol assiste
à peleja perene das criaturas.