FOTOS E O EVENTO — LANÇAMENTO “DO QUARTO” (SANDRA NISKIER FLANZER) + RECITAL DE POESIA (PAULO SABINO)
3 de agosto de 2017

(Paulo Sabino e Sandra Niskier Flanzer)

 

(Casa lotada)

(Nélida Piñon)

(Antonio Carlos Secchin e Antonio Cicero)

(Marcelo Pies)

(A dedicatória pra mim)
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“Paulo, querido:

Sua presença, sua companhia, e mais especialmente sua voz, estão comigo neste lançamento.

Te encontrar foi um presente!

Que a gente lance, se lance, nesse lance, livre e livro, como a vida quer de nós.

Um beijo enorme e muito, muito obrigada!”

(Sandra Niskier Flanzer — 30/06/17)

 

 

A noite de segunda-feira, 31/07, com o lançamento do novo livro de poemas da psicanalista e poeta Sandra Niskier Flanzer, “Do quarto” (ed. 7Letras), na Casa do Saber, foi linda!

A poeta me convidou para fazer um recital de poesia que foi o meu primeiro vôo solo, a primeira vez que me apresentei sem dividir o palco, coisa que AMO fazer. Eu, chato que sou (acredito ser assim pra muita gente), acho que poderia fazer melhor, que não dei conta do recado de uma maneira satisfatória (pra mim). Mas, apesar dessa impressão (minha), recebi palavras muito carinhosas, muito generosas, de quem assistiu e veio falar comigo ao final. A Sandra também me contou que recebeu palavras muy elogiosas sobre o sarau que pensamos juntos e o meu desempenho com as palavras.

Para além disso, soube de uma história bacanérrima: de uma pessoa que não conheço e que estava no recital e que trabalha com um grande amigo meu e que por conta de uma foto do recital no celular do meu grande amigo comentou com ele que esteve nesse recital na segunda-feira (31/07) e que foi “sensacional” (palavra do meu amigo) e um tanto mais de palavras calorosas. Saldo pra lá de positivo. Por isso, por esse retorno do público, estou muito feliz com esta primeira apresentação sozinho.

A Sandra lotou o espaço merecidamente, porque o seu livro, “Do quarto”, é de uma beleza rara na poesia, muito sofisticado, e porque mesclamos as leituras com poemas de grandes autores (Adélia Prado, Drummond, João Cabral, Gullar, Pessoa, Antonio Cicero, Antonio Carlos Secchin, Armando Freitas Filho), desenvolvendo um papo poético bem bacana entre os versos. Por tanto, por tudo, aqui para agradecer demais demais demais o convite da Sandra, a oportunidade deste momento e a confiança depositada na minha voz. Agradecer demais demais demais a presença dos amigos, e, especialmente, dos mestres — também amigos — que lá estiveram: os membros da Academia Brasileira de Letras (ABL) Nélida Piñon, Antonio Carlos Secchin e Antônio Torres, o poeta, letrista e filósofo Antonio Cicero, o membro da Academia Carioca de Letras (ACL) Adriano Espínola e o figurinista de cinema, teatro e publicidade Marcelo Pies. A vontade pede mais momentos como o vivenciado na segunda 31/07.

Valeu demais!
Salve a Poesia!
Salve a sua existência na minha!

De presente, uma poesia incendiária da Sandra, que chama pela chama, pelo calor, pela luz, que a poesia alastra a quem desejar a sua chama, o seu calor, a sua luz.

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do livro: Do quarto. autora: Sandra Niskier Flanzer. editora: 7Letras.)

 

 

CHAMA POESIA

 

Tu estejas aí
Enquanto estiver aqui
Não arredarei pé
Atravessarei feriado
Os ócios do ofício
E o fim da semana
A produzir labaredas
Lavas que atiçam chamas
Centelhas a chamar fogueiras
Estarei no entre flamas,
Laboredas combustíveis
Incinerando o edredom
Queimando a cama parada
Em meio ao fogo cruzado
Assim, tu estejas aí,
Minha cara litera-dura
Segura-me com tua brasa
Aquece-me em minha casa
Pois te apago e a pago
Incendiária e sem diária.

ESCRITOS AO SOL: FERA MATINAL
14 de julho de 2015

Convite de lançamento_Escritos ao sol_Adriano Espínola

(Na foto, convite para o lançamento da antologia “Escritos ao sol”, de Adriano Espínola — para ampliar a imagem, basta clicar na foto.)
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Olá Paulo, gostei muito do seu blog, dos poetas e dos poemas. E da sua “proesia”. Legal mesmo, parabéns!  Vamos lá, que “o canto na imensidão/ é ação e movimento”. Grd Abraço.

(Adriano Espínola – poeta & professor)

Olá Paulo! Puxa, o texto que vc escreveu sobre os poemas me emocionou. Vc soube desdobrar em mais e mais poesia as imagens da língua-mãe e do cavalo & o mar. Lindamente. Abração e obrigado, A.

(Adriano Espínola sobre publicação neste espaço, “Língua-mar: o cavalo-marinho & o mar-eqüestre”, com poemas de sua autoria)

Gostei muitíssimo do seu texto-diálogo com o “Elegia 1938”, do CDA! Vertiginoso. Grd Abraço!

(Adriano Espínola sobre publicação neste espaço, “Elegia (1938)”, com poema de Carlos Drummond de Andrade)

 

nesta quinta-feira (16 de julho), a partir das 19h, na livraria da travessa do shopping leblon (rio de janeiro), o professor de literatura & poeta adriano espínola, um mestre da poesia contemporânea brasileira, lança a antologia intitulada “escritos ao sol”, onde o autor reúne alguns dos melhores poemas de sua obra numa edição considerada “definitiva”.

em conversa com o poeta, descobri, para a minha imensa satisfação, que tenho toda a sua obra. e já lhe avisei que levarei ao lançamento todos os meus exemplares para serem autografados, inclusive a antologia, que já tratei de adquirir!

portanto, aos senhores, o convite — acima & abaixo — a um mergulho na poética deste que é um dos maiores poetas da nossa literatura.

salve a poética sempre iluminada de adriano espínola!
salve os seus escritos ao sol!
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Arpoador, manhã 23 de janeiro de 2014

(Manhã no Arpoador, Rio de Janeiro.)
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feito um cão solto, súbito, repentino, inesperado, o sol salta a janela adentro do quarto.

inquieto, agitado, o sol, feito um cão solto, salta a janela adentro do quarto & morde os punhos da rede, derruba a sombra do retrato, lambe o pé sujo lá da parede, fuça a mancha amarela do espelho, late alto & luminoso: “luz! luz!”, e, depois de meter o seu focinho em tudo, se enfia, fiel, no velho par de chinela.

o sol: um cão solto: fera em sua luminosidade violenta.

o sol: um cão solto: uma fera, como também é a cidade lá fora do quarto, presa à alva, presa à clara coleira do novo dia.

um novo dia: a água nova, a água fresca, a água recém-chegada, a água renascida, do dia: o pão, a fruta, a água & a névoa do café: o cheiro, o gosto, o tato ali desperto & posto pelo desjejum, pela primeira refeição do dia, ferindo — deliciosamente — o corpo, que leve aflora na cozinha, enquanto lá fora, o sol, fera em sua luminosidade violenta, a tudo sacia de luz — aurora — e pelas ruas caminha, desnudo em seu pêlo-luz & afeito a quem desejar sua lambida seca a nos molhar de suor.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Escritos ao sol. autor: Adriano Espínola. editora: Record.)

 

 

FERA

Feito um cão solto,
súbito o sol
salta janela
adentro do quarto.

Inquieto, morde
os punhos da rede,
derruba a sombra
do retrato,

lambe o pé sujo
lá da parede,
fuça a amarela
mancha do espelho,

late: luz! luz! —
depois se enfia,
fiel, no velho
par de chinela.

(Como a cidade
lá fora, fera,
na alva coleira
do novo dia.)

 

 

MANHÃ

A água nova do dia,
o pão, a fruta, a névoa
do café,

o cheiro, o gosto,
o tato ali desperto
e posto,

ferindo o corpo,
que leve aflora
na cozinha,

enquanto lá fora
o sol a tudo
sacia

de luz — aurora —
e pelas ruas caminha,
desnudo.

LÍNGUA À BRASILEIRA
7 de julho de 2015

Brasil_Portugal_Bandeiras
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“Quando em 1500 os portugueses chegaram ao Brasil, na região de Porto Seguro, Bahia, encontraram ali um povo que falava uma língua completamente desconhecida dos europeus. Era o povo tupinaki, que falava a língua tupinambá. A maioria dos povos que viviam ao longo da costa, desde o Rio de Janeiro até o Ceará, falava essa mesma língua. Foi com a língua tupinambá que os colonos portugueses tiveram contato mais estreito durante o século XVI. Para entender-se com os indígenas, a fim de conhecer a nova terra e nela viver, muitos deles tiveram de aprendê-la. Desse contato resultou a grande influência do tupinambá no vocabulário do português do Brasil. Milhares de nomes comuns e nomes de lugares que utilizamos hoje em todo o país são palavras tupinambás.”

“Entre os séculos XVI e XIX foram trazidos para o Brasil entre 4 e 5 milhões de africanos escravizados. Desse total, cerca de 1 milhão foram embarcados nos portos da África Ocidental, entre a Costa do Ouro, atual Gana, e o Golfo de Biafra, na Nigéria. Oriundos dos diversos reinos que existiam na região, começaram a aportar no Brasil a partir da segunda metade do século XVII. Seu principal destino foi a cidade de Salvador e o Recôncavo Baiano, Minas Gerais e o Maranhão. As línguas que eles falavam, como o iorubá e o evé-fon, influenciaram a língua portuguesa no Brasil principalmente no domínio religioso.”

(Textos extraídos de painéis de exposição do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo.)
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a língua portuguesa, por misturar-se, mesclar-se, miscigenar-se, ganhou um rosto novo, abrasileirado: a língua — portuguesa — à brasileira, a língua — portuguesa — repaginada à maneira nossa, a língua à moda brasileira.

língua: também designa o órgão muscular situado na boca, responsável, entre outras coisas, pela produção dos sons.

língua: órgão muscular. língua à brasileira: órgão vernacular, órgão próprio de um país.

língua à brasileira: órgão vernacular alongado, encompridado, feito de muitas misturas (europeu + índio + negro), alongado como o órgão muscular, e por isso mesmo: hábil, móvel, tátil.

amálgama lusa malvada, portuguesa malvada nascida da mistura de elementos heterogêneos (europeu + índio + negro), malvada porque mastiga, come, engole, degusta, deglute, deflora, o que encontrar pela frente, mas qual flora antropofágica, no seu movimento de misturar, de mesclar, de miscigenar, salva a pátria mal amada, salva a nação mal cuidada, salva este país de assassinos, corruptos & desigualdades alarmantes.

“língua-de-trapo”, “língua solta”, “língua ferina”, “língua douta”: expressões idiomáticas muito brasileiras.

língua à brasileira: língua-de-trapo & língua solta (língua para quem fala demais), língua ferina (mordaz, venenosa, língua da injúria, da fofoca), língua douta (língua erudita, de muitos saberes): saravá, língua-de-fogo & fósforo (chama, labareda, língua acesa), saravá, língua viva & declinativa (língua feita de declinação: conjunto das diversas formas que os substantivos, adjetivos, pronomes, artigos e numerais apresentam de acordo com a sua função sintática na oração), saravá, língua fônica (língua sonora, melodiosa) & apócrifa (língua inautêntica, toda misturada), saravá, língua lusófona & arcaica, crioula iorubáica (pela forte presença da língua iorubá na língua à brasileira), saravá, língua-de-sogra (faladeira incorrigível) & língua provecta (língua-mestre, avançada, inovadora), saravá, língua morta & ressurrecta (língua nascida do latim, que é uma língua já extinta, portanto, “morta”, e ressurrecta, isto é, língua renascida, ressuscitada, repaginada), saravá, língua tonal (cheia de tons & matizes) & viperina (língua venenosa, per-versa), saravá, palmo de neolatina (a língua portuguesa integra o grupo das línguas neolatinas, línguas derivadas da língua latina), saravá, “poema em linha reta” (poema elaborado pelo maior poeta da língua, o imensurável fernando pessoa), saravá, lusíadas no fim do túnel (referência a um dos mestres da poesia portuguesa, anterior a pessoa, luís de camões), saravá, caetano não fica mudo (o grande poeta-compositor da língua à brasileira possui um dos mais belos poemas-canções já escritos a respeito, intitulado “língua”), saravá, nem fica mudo o “seo” manoel lá da esquina, um dos tantos portugueses donos de estabelecimento comercial.

por ti, afro-gueixa (língua misturada, mesclada, miscigenada), por ti, guesa errante (referência ao mais célebre poema do poeta maranhense sousândrade, intitulado “guesa errante”, inspirado numa lenda andina em que o índio adolescente chamado “guesa” seria sacrificado como oferenda aos deuses), por ti, língua à brasileira, o mar se abre, o sol se deita. o mar se abre, o sol se deita, por mários de sagarana (“sagarana”, título de uma obra do mestre mineiro guimarães rosa, é um neologismo formado a partir da palavra “saga”, de origem européia, que designa “canto lendário ou heróico”, e da palavra “rana”, de origem tupi, que designa “semelhança”, “proximidade”), por magos de saramago (referência ao grande escritor português josé saramago & à magia concentrada em sua prosa vertiginosa).

viva os lábios! viva a língua da boca, a linguagem oral!
viva os livros! viva a língua da página, a linguagem escrita!

viva os lábios, viva os livros, dos rosas, campos & netos (de todos os nossos grandes escritores)! viva os léxicos (o vocabulário, o repertório de palavras) & os êxtases alcançados com os andrades — drummond, mário, oswald! viva toda a síntese da sintaxe dos erros milionários, dos erros que resultam em ganhos, em riquezas!

língua afiada a machado, porque cortante, porque precisa, porque ferina, como a ferramenta, e também porque língua afiada a machado de assis, escritor brasileiro afiadíssimo, considerado o maior de todos os tempos. desafinada índia-preta. por cruzas diversas, por misturas divinas (europeu + índio + negro), mil linguageiras, mil maneiras de se escrever & falar a língua.

a coisa mais língua que existe, a coisa mais comunicável que conheço, é o beijo da impureza desta língua que adeja toda a brisa brasileira: por mim, tupi, índio destas matas; por tu, “guesa”, índio da lenda, com nome que também integra a língua que me língua: a língua portuguesa.

a coisa mais língua que existe, a coisa mais comunicável que conheço, é o beijo da impureza desta língua que adeja toda a brisa brasileira: por mim, tupi, índio destas matas; por tu, leitor, tua língua portuguesa.

(a língua é minha pátria.)

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Qtais. autor: Luis Turiba. editora: 7Letras.)

 

 

LÍNGUA À BRASILEIRA

 

Ó órgão vernacular alongado
Hábil áspero ponteado
Móvel Nobel ágil tátil
Amálgama lusa malvada
Degusta deglute deflora
Mas qual flora antropofágica
Salva a pátria mal amada

Língua-de-trapo Língua solta
Língua ferina Língua douta
Língua cheia de saliva
Saravá Língua-de-fogo e fósforo
Viva & declinativa
Língua fônica apócrifa
Lusófona & arcaica
Crioula iorubáica
Língua-de-sogra Língua provecta
Língua morta & ressurrecta
Língua tonal e viperina
Palmo de neolatina
Poema em linha reta
Lusíadas no fim do túnel
Caetano não fica mudo
Nem “Seo” Manoel lá da esquina
Por ti Guesa errante, afro-gueixa
O mar se abre o sol se deita
Por Mários de Sagarana
Por magos de Saramago

Viva os lábios!
Viva os livros!
Dos Rosas Campos & Netos
Os léxicos, Andrades, os êxtases
Toda a síntese da sintaxe
Dos erros milionários
Desses malandros otários
Descartáveis, de gorjetas.

Língua afiada a Machado
Afinal, cabeça afeita
Desafinada índia-preta
Por cruzas mil linguageiras
A coisa mais Língua que existe
É o beijo da impureza
Desta Língua que adeja
Toda a brisa brasileira
Por mim,
……………Tupi,
……………………Por tu Guesa

LANÇAMENTO DO LIVRO “O VOO DAS PALAVRAS CANTADAS”, DE CARLOS RENNÓ
6 de agosto de 2014

Carlos Rennó_O voo das palavras cantadas

(Na foto, a capa do livro “O voo das palavras cantadas”, de Carlos Rennó, editora “Dash”.)
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prezados,

no dia 14 de agosto (quinta-feira), a partir das 19h, na livraria argumento, no leblon (rio de janeiro), o meu querido amigo, o jornalista poeta letrista tradutor & pesquisador musical carlos rennó, lança o seu livro intitulado “o voo das palavras cantadas”, pela editora dash, ao custo de R$ 42,00.

o livro é uma reunião de textos sobre canção que priorizam, dão maior ênfase à poesia da música popular.

como bem anuncia o grande rennó:

 

“Em foco, as obras de grandes compositores-letristas surgidos na primeira metade do século vinte (Orestes Barbosa, Noel, Lamartine, Caymmi; Gershwin, Porter, Berlin); nos anos 1960 (Caetano, Gil, Chico, Tom Zé, Dylan, Lennon etc.); as relações entre poesia literária e de canção; Vinicius; além de uma diversidade de criadores — de Itamar aos Racionais, Peninha a Aldo Brizzi.”

 

a partir das 21h, pocket show com lívia nestrovski & fred ferreira.

abaixo, aos senhores, os textos escritos (só por craques!) à introdução da obra.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: O voo das palavras cantadas. autor: Carlos Rennó. editora: Dash.)

 

 

INTRODUÇÃO

“Um Catulo da canção”

 

O poeta-crítico Carlos Rennó escolheu, para ser fertilizado com seu talento e empenho, o terreno da canção popular. Interessado fundamentalmente em poesia, e convicto de que “é possível se fazer poesia de verdade a partir da conjugação de letras e músicas”, situa-se e transita, de modo tão à vontade como é possível apenas a quem conhece o ofício “desde dentro”, no profundo e pleno vale da palavra cantada, área antiga de confluência — que já foi inseparabilidade — de duas artes irmãs.

Quando comenta letras, composições, compositores ou intérpretes, Rennó o faz como criador que é, dedicado prioritariamente à realização ou ao reconhecimento da “correspondência sempre desejável […] que se pode instaurar entre as frases verbais e musicais”. De certo modo, toda a sua ação, tanto criadora como crítica, volta-se ao “casamento, enfim, de letra e música” e, particularmente, aos “instantes em que uma e outra coisa parecem falar exatamente a mesma linguagem”: para ele, a canção é uma “arte em que palavras e sons devem dizer o mesmo, traduzindo-se”.

Tal encontro buscado reflete-se em outros encontros, realizados: no próprio conteúdo deste livro, em que a reflexão, a sensibilidade e a criação se conjuminam; na noção de poesia que impregna a obra, orientada pela ideia da relação entre som e sentido; nas atividades artísticas do autor, letrista e versionista, poeta que recria como quem cria, e cria como quem recria (cioso da necessidade de diálogo com as tradições e invenções referenciais); ou em sua procura da dissolução dos limites entre o alto e o baixo repertórios e entre a cultura “erudita” e a “popular”: nesse sentido, Carlos Rennó escolheu — para jogar e ser craque — o campo em que a poesia de nosso tempo (e de outros tempos) alcança, no mais amplo público, sua presença plena e indistinta.

Neste trabalho (de um Catulo, ao mesmo tempo latino e Da Paixão), documento de uma vida de elaboração e labor, muito se poderá colher — como fruta madura a ser apreciada — de quase tudo sobre a arte da palavra e da palavra cantada.

Marcelo Tápia (poeta e ensaísta)

 

*

“Erudição popular, leveza e seriedade” 

 

História descontínua da canção popular brasileira e farta fatura do percurso crítico de seu autor, são os dois eixos principais deste livro: a afirmação do valor da invenção e o privilégio dado às obras em que as letras de canção, sem deixar de servirem às melodias com eficácia, ultrapassam-nas, planando no céu da autossuficiência — eis o voo da palavra cantada.

Tomando como modelo crítico os concretistas e Pound, sua matriz valorativa, Carlos Rennó é alheio, entretanto, àquela hybris vanguardista drástica, capaz de ver muito mais e um pouco menos ao mesmo tempo. Sua abertura irrestrita permite-lhe compreender fenômenos estéticos para além dessa matriz, sem preconceitos, mas também sem condescendências.

No fundo de tudo, a convicção de que a canção popular é a gaia ciência capaz de aliar invenção e mercado, vanguarda e massas. Daí o permanente contraponto entre as canções brasileira e americana, lugares máximos desse cruzamento de linguagens.

Sempre atento aos lances de isomorfia das canções — o hoje desvendado mistério de que falava Augusto de Campos —, os textos de Rennó são eles mesmos isomórficos, apresentando qualidades análogas às de seu objeto cultural: erudição popular, alta informação sem esforço, seriedade da leveza e leveza da seriedade.

Francisco Bosco (ensaísta e letrista)

 

*

“A sofisticação da poesia da canção”

 

Carlos Rennó é letrista com uma vasta folha de serviços prestados à canção brasileira. Parceiro de muitos e autor de algumas pérolas a quatro mãos com Arrigo Barnabé, Gil, Lenine ou Chico César, Rennó agora surge com esta boa nova surpresa: pequenos ensaios cujo foco principal é a poesia da canção, em toda a sua sofisticação e magnitude, fazendo ruir o tolo Fla-Flu entre poesia literária e letra de música, discussão que até hoje ocupa espaço nos debates culturais, seja na mesa do bar ou no simpósio acadêmico.

A ênfase de Rennó é no emaranhado de possibilidades criativas e soluções estéticas (instintivas ou calculadas, não importa) que os cancionistas / poetas trazem em sua bagagem. E seu olhar analítico é de um rigor microscópico: “Depois, quase no final, temos essa marcada e marcante sucessão de tês, além de dois efes”, frisa ele, ao discorrer sobre o emprego de aliterações na obra inicial de Chico Buarque (neste caso em especial, fala de “Pedro Pedreiro”).

Assim é Rennó, meticuloso em sua busca sherlockiana pelas tramas e mistérios da música popular — alguns / algumas insondáveis. Instigar é seu papel, e seu objeto de estudo são os grandes craques da canção. Orestes Barbosa, Caymmi, Mautner, Tom Zé, Ira Gershwin e Irving Berlin, entre outros poucos, estão neste seleto escrete.

As palavras cantadas voam longe, Rennó sabe.

Zeca Baleiro (cantor e compositor)

 

*

“Atenção concentrada, cuidadosa e amorosa”

 

Conheço Carlos Rennó há mais de 30 anos e, desde então, me impressionam os seus olhos fundos que, na verdade, depois entendi, significam que sua atenção, para com as coisas para as quais eles se voltam, é sempre concentrada, cuidadosa e amorosa.

Seja nos seus artigos para jornais e livros, sobre música, poesia, cantores, compositores e poetas, seja nas suas letras de canções ou nas suas versões de standards da canção norte-americana, percebe-se o mesmo cuidado. E esse cuidado começa com o uso sempre correto e consciencioso da nossa língua. E é isso tudo que se pode ver neste livro.

Há alguns anos, ele me deu o prazer de escrever o release de imprensa de meu disco Sobre as Ondas e, ali, com as qualidades de sempre de seu texto, ele destacou, no meu estilo de compor e fazer discos, características nunca antes notadas. Também, por isso, espero que este pequeno comentário possa retribuir um pouco da alegria que ele me deu ao escrever aquelas palavras.

Péricles Cavalcanti (cantor e compositor)

 

*

“Uma lupa rigorosa e minuciosa”

 

Conheço Carlos Rennó da época do Lira Paulistana, aquele teatro, etc… Música, festas, vida, trabalho. “Ah, o Rennó faz letras e macrobiótica”, dizíamos. Com o tempo aprendi que o Rennó… faz. Quando o vi brilhando com “Escrito nas Estrelas”, torci junto. Quando lançou Cole Porter — Canções, Versões, torci mais ainda. Vibrei quando ele induziu Itamar Assumpção a cantar Ataulfo Alves. Não sou bom em poesia, fanopeia, melopeia, logopeia. No máximo, Sesc Pompeia. Mas havia algo naquele cara. Trabalhando com ele, entendi que era rigoroso. Lendo-o, percebi que era minucioso, pesquisador, sério. Passei a ouvir o que não havia visto até então. Seu texto é uma lupa macrobiótica que permite dezenas, quiçá centenas, de mastigações de cada palavra, rimas, intenções. E mais, revela o interesse, saudável interesse, em mostrar um pouco disto que chamamos de vida. A reunião de suas matérias, seus escritos, já se fazia imprescindível. Elas juntas num só ser.

Luiz Chagas (músico e jornalista)

LANÇAMENTO DO LIVRO “ANTÍPODAS TROPICAIS”, DE ADRIANO NUNES
20 de maio de 2014

Antípodas Tropicais_Adriano Nunes_Convite

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prezados,

acima, o convite para o lançamento do mais novo rebento do poeta que, desde sempre, desde que conheci a sua poesia (e tornamo-nos amigos ao mesmo tempo), considero o mais importante da minha geração, da geração que começa a despontar na poesia: o meu queridíssimo & amado poeta das alagoas, adriano nunes!

no mês de aniversário do poeta, quem ganha o presente somos nós, leitores de poesia!

adriano nunes lança o seu mais novo livro, intitulado “antípodas tropicais“, pela editora vidráguas, comandada pela querida poeta & mestra carmen silvia presotto, no dia 28 de maio, às 11h, na editora & livraria Edufal, localizada no campus da universidade federal de alagoas, em maceió.

antípodas tropicais” conta com capa do artista plástico gal oppido, prefácio do professor & poeta alberto lins caldas, orelhas do poeta gaúcho & integrante da banda “os poETs” ricardo silvestrin, e textos críticos do poeta, filósofo & letrista antonio cicero, do professor, crítico literário, poeta & membro da academia brasileira de letras (abl) antonio carlos secchin, e do poeta & compositor arnaldo antunes.

abaixo, trechos dos textos escritos pelos poetas acima citados & vídeo com o poeta & compositor arnaldo antunes recitando um poema do livro “antípodas tropicais“, de adriano nunes.

a poesia agradece a chegada de “antípodas tropicais” & eu saúdo a chegada de adriano nunes, o meu poeta das alagoas, na minha vida & na literatura brasileira!

aos interessados em comprar o livro “antípodas tropicais“, entrar em contato com a carmen silvia presotto pelo site vidráguas (http://vidraguas.com.br/wordpress/).

beijo todos!
paulo sabino.
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“Ao ler, em Antípodas tropicais, poemas em que admiravelmente convivem espontaneidade e virtuosismo, invenção e técnica, ousadia e erudição, inteligência e sensibilidade, fiquei feliz de poder não apenas confirmar, mas reforçar, minha convicção de que se encontra, em Adriano Nunes, um poeta contemporâneo que faz juz à melhor tradição da poesia brasileira.”

(Antonio Cicero – poeta, filósofo & letrista)

 

“Se fosse um verso, Antípodas tropicais teria  sete sílabas. E é no andamento do verso curto que Adriano Nunes, neste novo livro, alcança excelentes  resultados. Nele avulta a rigorosa consciência da forma não apenas em seus sinais externos – a  consistente prática do  soneto, por exemplo – mas no domínio rítmico, na amplitude vocabular. Tudo isso, porém, ao largo do mero virtuosismo, pois Adriano conjuga a técnica a um efetivo e intenso temperamento lírico-meditativo, na insaciada  e inestancável  busca do outro, ainda que esse outro resida no próprio eu. A metalinguagem, que em muitos poetas se restringe a receitas domesticadas, em Antípodas tropicais  comparece viva e vigorosa, lançando-se sem cessar  ao ‘precipício de sentidos’,  destinação derradeira de todo poema.”

(Antonio Carlos Secchin – professor, poeta, crítico literário & membro da ABL)

 

“É impressionante a desenvoltura com que Adriano Nunes passeia pelo amplo repertório de formas, sempre com competência e intimidade no trato com a linguagem, mantendo ao mesmo tempo uma voz própria, original, cheia de belos achados.”

“Passeando com intimidade e destreza por diferentes ritmos e tons de discurso – da austeridade clássica à coloquialidade modernista, do metro preciso ao verso livre e deste às experiências mais construtivistas – , Adriano Nunes parece uma síntese impossível entre o poeta lírico e o formalista. De suas rimas raras, aliterações e inversões sintáticas, salta sempre uma surpresa, uma solução imprevista, um deslumbre sonoro-semântico que potencializa a linguagem.”

(Arnaldo Antunes – poeta & compositor)

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(vídeo do site: Youtube. Arnaldo Antunes recita “Noite avulsa“, poema de autoria de Adriano Nunes, integrante do livro “Antípodas Tropicais“, editora Vidráguas.)

A POESIA É UM ATENTADO CELESTE
6 de novembro de 2013

Banco vazio com folhas secas

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senhores,

há pouco, passei por dois acidentes graves, em seqüência, cada qual com suas peculiaridades.

num acidente, eu vi a cara da morte, e ela estava viva: voltando de belo horizonte para o rio de janeiro, o ônibus em que viajava bateu na traseira de um caminhão parado no acostamento. uma pessoa morreu na hora, três outras ficaram presas nas ferragens, e não sei quantos mais feridos. por sorte, tive apenas um inchaço no polegar direito & dores nas costas devido à batida. nada mais.

no outro acidente, a dor de ser fisicamente freado pela vida: pedalando com o orlando (meu camelo azul da cor do mar), um ciclista, que vinha na direção oposta à minha, ao tentar ultrapassagem, invadiu a contramão (sem que eu tivesse tempo de desviar) & bateu de frente comigo. resultado: por causa do deslocamento de uma parte óssea (curiosamente chamada “capitulo”) & da fratura de um outro osso, tudo no cotovelo esquerdo, tive de operar, para colocar pinos & parafusos, e de imobilizar o braço. um mês imobilizado & depois — pelo menos — mais um mês de fisioterapia.

estou ótimo, graças. por sorte, não foi o braço direito o atingido, afinal sou destro!

no entanto, querendo ou não, a vida me parou, me pôs quieto no meu canto. com isso, tive de encará-la sem meias verdades.

tais acontecimentos mexem, mexeram, comigo. fichas caíram. prioridades subiram.

re-pensar, re-ver, re-fazer, re-tomar.

tenho que um monte de coisas pendentes, e importantíssimas.

momento de reflexão: dando um tempo para mim. ausente de mim mesmo.

eu estou ausente, porém, no fundo desta ausência, existe a espera de mim mesmo, e esta espera é um outro modo de presença (tenho que um monte de coisas pendentes, e importantíssimas).

à espera de meu retorno, eu estou em outros objetos. ando em viagem (interna) dando um pouco de minha vida a certos livros & a certos discos, objetos que me esperaram muitos anos.

eu não estou & estou: estou ausente & estou presente, mas presente “em estado de espera”.

eles (os objetos a quem dou um pouco de minha vida) queriam minha linguagem para expressar-se. e eu queria a — linguagem — deles para expressá-los: eis o atroz equívoco: o equívoco primordial: a tentativa de interpretação das coisas, herméticas nelas mesmas, sem explicações ou justificativas sobre o que são & desejam.

angustioso, lamentável (pelo atroz equívoco), vou-me adentrando nestes objetos — e deixando minhas roupas, perdendo as carnes: meu esqueleto vai-se revestindo do material que forma os objetos.

estou-me fazendo livros, discos, palavras, som…

(quantas vezes me converti em outras coisas…)

o processo de transformação, por me achar à espera de mim mesmo, é doloroso & cheio de ternura. podia dar um grito, fazer barulho, chamar a atenção às dores das mudanças.

mas para quê?

à transubstanciação (transformação de uma substância em outra) de nada adiantaria o grito.

com o grito, a transubstanciação se espantaria.

(a transubstanciação: a transformação de uma substância, o paulo sabino, em outra.)

há que guardar silêncio. a fim de pensar, refletir, concentrar.

esperar em silêncio.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Pescados vivos. autor: Vicente Huidobro. tradução: Waly Salomão. editora: Rocco.)

 

 

A POESIA É UM ATENTADO CELESTE

 

Eu estou ausente porém no fundo desta ausência
Existe a espera de mim mesmo
E esta espera é outro modo de presença
À espera de meu retorno
Eu estou em outros objetos
Ando em viagem dando um pouco de minha vida
A certas árvores e a certas pedras
Que me esperaram muitos anos

Cansaram-se de esperar-me e sentaram-se

Eu não estou e estou
Estou ausente e estou presente em estado de espera
Eles queriam minha linguagem para expressar-se
E eu queria a deles para expressá-los
Eis aqui o equívoco o atroz equívoco

Angustioso lamentável
Vou-me adentrando nestas plantas
Vou deixando minhas roupas
Vou perdendo as carnes
E meu esqueleto vai-se revestindo de cascas
Estou-me fazendo árvore  Quantas vezes me converti em
………………………………………………………….[outras coisas…
É doloroso e cheio de ternura
Podia dar um grito porém a transubstanciação se espantaria
Há que guardar silêncio  Esperar em silêncio

POESIA INCOMPLETA
20 de agosto de 2013

Changuito_Poesia Incompleta

 

(Na foto, o dono & atendente da livraria Poesia Incompleta, Changuito.)
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POESIA INCOMPLETA:

a única livraria de que se tem notícia — no Brasil — inteiramente dedicada à poesia!

Tive a alegria de conhecê-la & de conhecer o seu proprietário, que é também o atendente da livraria, o português radicado no Brasil conhecido como Changuito.

Changuito é dessas figuras com quem não se deseja parar de conversar. Além de muita troca sobre o tema que a livraria abarca (tema que Changuito conhece como pouquíssimos), tive o prazer de sua leitura para vários poemas. Todas as dicas foram ilustradas com, pelo menos, uma poesia do autor indicado. Ele me mostrou coisas lindas, surpreendentes!

Não bastando, ainda houve o contento de um bate-papo sobre mercado editorial, as diferenças & proximidades entre brasileiros & portugueses, os novos “talentos” (muitas aspas!) da arte poética (alguns dos que ganham, hoje, alguma projeção da mídia “especializada” — muitas aspas!), e sobre música popular brasileira (outra grande paixão minha & do Changuito), ouvindo canções cabo-verdianas, Pixinguinha & Clementina de Jesus(!).

Um dos grandes baratos da livraria é que há diversas publicações de editoras portuguesas. Changuito fez questão de trazer, na íntegra, o que a sua livraria em Lisboa possuía dos títulos editados por lá.

Por isso consegui encontrar umas coisas que procurava há anos & não achava: as obras completas dos grandes poetas portugueses Natália Correia (no Brasil não há uma antologia poética com as obras dessa poeta!) & Cesário Verde, além de preciosidades que, já disse ao Changuito, voltarei para buscar.

Acho que passei umas 3 horas entre livros, música & conversa de altíssima qualidade.

Changuito é uma figura tão simpática, além de inteligente & culto, que aos amantes de poesia vale muitíssimo conhecer a livraria Poesia Incompleta.

A quem desejar ou interessar, o espaço fica na rua da Lapa, 120, 11º andar, sala 1110, Lapa, Rio de Janeiro.

Aqui, aos senhores, o endereço do blog Poesia Incompleta, com fotos de alguns dos títulos da livraria: http://poesia-incompleta.blogspot.com.

Fica a (super) dica!

Abaixo, uma lindíssima poesia de Natália Correia a respeito da “mão oculta”, a mão que arrebata, que fascina, que rouba, que toma, o canto do poeta, a mão que, por debaixo das mangas, escreve com a mão do poeta: a respeito do misterioso ato que é o ato de escrever.

Exatamente de que região, de que área, de que gruta, de que recanto, brotam as palavras que brotam por sobre o papel? E quando brotam, as palavras brotam em razão do quê?…

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do livro: Poesia completa — O sol nas noites e o luar nos dias. autora: Natália Correia. editora: Dom Quixote.)

 

 

O MISTÉRIO

 

Misterioso ciclo da poesia
que como a roda das estações
sobre o meu peito gira.
Que mão oculta move o ponteiro agora
e arrebata o meu canto na suspensão da hora?

Onde se constroem estas tempestades estes oceanos
a água que rasga a terra que fica
mais verde e mais rica?
Gera-os a esperança ou os desenganos?

Serás o desenlace dum fantasma
sempre perto sempre frio sempre a esmo
forma que dei ao medo comigo concebido
e que é o meu vulto reclinado
no que nele mesmo não foi percorrido?

Ou serei eu de olhos abertos
noutras manhãs noutros países
cantando aqui de olhos fechados
a memória de tempos mais felizes?

Serás tu a abominação
o remorso do que não completei
e que completo na canção
do que não vi do que não sei?

Serás a dor que se desloca
no pedido que a boca formula
à voz que na alma canta
e que nunca nunca chega à garganta?

Ou serás apenas mediunidade
o acaso na concha retendo o mar?
A improvisação doutra vontade
que em mim quer continuar?

PÉROLAS PÉRICLES
9 de junho de 2013

Péricles Cavalcanti

 

(Na foto, o poeta-compositor Péricles Cavalcanti.)
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Aos fãs de música & poesia, IMPERDÍVEL!

Diálogo entre Paulo Sabino & um dos MAIORES poetas-compositores do Brasil, PÉRICLES CAVALCANTI:

Paulo Sabino escreve:

 

“Acabei de saber que você deu carta branca para o projeto do Adriano [Nunes], em parceria comigo, de reunirmos todos os seus poemas-canções num livro!

ESTOU EMOCIONADO DE PENSAR QUE FAREI ESTE BELÍSSIMO TRABALHO!

Tô tremendo, tô chorando, tô pulando por dentro, tô sei lá!

Imagina, organizar toda a obra de um dos MAIORES poetas-compositores do Brasil, meu Deus, que HONRA!”

 

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Péricles Cavalcanti responde:

 

“Eu, também, fiquei feliz com isso, querido Paulo. Vamos nessa!!!!
Um beijo, sempre.”

 

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É isso mesmo, senhores! O GRANDE poeta ADRIANO NUNES bolou o projeto de reunir, em livro, todos os poemas-canções do SUPERLATIVO poeta-compositor PÉRICLES CAVALCANTI, livro que será feito com o máximo de rigor, cuidado, carinho & atenção, e me convidou para a empreitada(!).

A obra vai se chamar “PÉROLAS PÉRICLES” & será lançada no ano próximo pelo selo Vidráguas, da GRANDE & QUERIDA amiga professora & poeta CARMEN SILVIA PRESOTTO.

Além de trazer todas as letras do cancioneiro desse EXTRAORDINÁRIO cantor & poeta-compositor (entre elas as aclamadas “Porto Alegre”, gravada por Adriana Calcanhotto & Tulipa Ruiz, “Clariô”, gravada por Gal Costa, e “Elegia”, parceria de Péricles & Augusto de Campos, gravada por Caetano Veloso), o livro “PÉROLAS PÉRICLES” contará com textos críticos (meus & do Adriano), além de depoimentos de artistas & do próprio autor.

Salve a poesia! Salve Péricles! Salve Adriano! Salve Carmen!

Beijo todos!
Paulo Sabino.

INTIMAÇÃO/INSPIRAÇÃO: LANÇAMENTO PARA 2014, PROJETOS & ADRIANO NUNES
29 de maio de 2013

Adriano Nunes e Lêdo Ivo

(Na foto, os poetas Adriano Nunes & Lêdo Ivo, grande entusiasta, quando vivo, da obra do jovem & talentoso poeta.)
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INTIMAÇÃO!

Fui notificado há pouco: em janeiro ou fevereiro do ano que vem, no máximo (ordens expressas do editor – rs!), Paulo Sabino lançará o seu livro de poesia.

A partir de junho (próximo mês), começo a enviar os poemas ao meu editor.

O grande barato de pensar em lançar o meu livro de poesia no início do ano que vem é que o grande responsável pela edição & lançamento será o meu querido & amado & idolatrado amigo, o talentosíssimo poeta Adriano Nunes(!), poeta que, segundo Antonio Cicero (poeta filósofo ensaísta & tradutor de apuro refinadíssimo), “é um dos mais expressivos de sua geração ou de que, livre de amarras, dogmas, ideologias e escolas, Laringes de grafite é um dos mais belos livros de poemas dos últimos tempos”, poeta que, segundo Antonio Carlos Secchin (poeta sofisticadíssimo, responsável, por exemplo, pela organização das obras completas de Cecília Meireles, professor & tradutor de primeiríssima linha, além de membro da Academia Brasileira de Letras), lhe foi “uma bela surpresa, já antecipada no fino estudo introdutório de Antonio Cicero”. E arremata: “Adriano Nunes consegue ser polígrafo num único gênero, desenvolvendo múltiplas vozes e inflexões. Seus textos são réplicas, não pastiches, aos poetas homenageados.”

(Sem contar o que dizem Arnaldo Antunes, Péricles Cavalcanti, Augusto de Campos, e o que disse o poeta Lêdo Ivo, que, quando vivo, foi um grande entusiasta da obra deste jovem poeta.)

O meu livro sairá pelo selo Vidráguas, que opera sob comando & supervisão da grande & querida (salve salve!) poeta, professora & editora Carmen Silvia Presotto.

Eu só tenho a concordar com o que dizem a respeito do Adriano. Sem sombra de dúvidas, se, hoje, me perguntam quem acho ser o maior poeta desta geração que começa a despontar, respondo certeiro: Adriano Nunes.

Adriano Nunes é o poeta com o maior número de recursos lingüísticos que conheço. Ele possui a capacidade ímpar, singular, de transitar por todas as narrativas poéticas brilhantemente: escreve soneto (forma fixa, clássica) com a mesma genialidade que escreve poema concreto (forma livre, moderna) ou os seus poemas de verso livre. Conhece como ninguém os recursos de que dispõe a poesia. Eu fico sempre assombrado com as suas capacidades & muito feliz de sermos contemporâneos.

Por essas razões, me sinto extremamente satisfeito por pensar que o meu livro de poesia terá, como responsáveis, Adriano Nunes & Carmen Silvia Presotto. Um luxo!

E há projetos que desejo tocar & sobre os quais ainda não tratei formalmente com os editores (rs): o lançamento, em livro, de uma edição especial do blog Prosa em poema. Escolherei 5 ou 6 poetas-compositores que integram o PEmP & os seus respectivos poemas-canções analisados. Conseguindo a autorização dos poetas-compositores, lançar, junto ao livro, um CD com as canções, para que os leitores possam ler os meus textos de apresentação & os poemas-canções tendo, junto à leitura, a experiência da música.

E ainda alguns projetos lindos, sobre os quais não posso falar (ordens expressas – rs), todos ligados à poesia, que me deixaram uma ansiedade & vontade danadas de realizá-los.

2013 & 2014 prometem, que bom!

De mimo aos senhores, deixo-os na companhia de 2 poemas que amo (aliás, como não amar todos?), do poeta aqui homenageado, Adriano Nunes, poemas belíssimos, que me traduzem.

Sem mais.

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do livro: Laringes de grafite. autor: Adriano Nunes. editora: Vidráguas.)

 

 

MERCANTILISMO

 

eu me consumo

sonho
sangro
sinto
surto

um dia
devolvo-me ao mundo

corpo
alma
sombra
sumo

 

 

DO QUE QUER SER CONCEBIDO

 

palavras são para isso,
sim, para inventar
o paraíso.
aprendi
assim
comigo.

prometi tudo
mesmo a mim,
mas menti.
palavras são para isso,
digo, para desafiar
o íntimo.

pronto.
admito:
palavras são para isso,
repito, para cantar
o infinito
do que quer ser concebido.

LIVROS
12 de abril de 2013

Real Gabinete Português de Leitura

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o poema — digamos — “livresco”, o poema exclusivamente encontrado em livros, eu conheci & tomei gosto a partir da canção popular.
 
foi a partir de maria bethânia, que não só grava os grandes poetas-compositores (caetano, gil, chico, gonzaguinha, roque ferreira) como também interpreta poemas de grandes poetas, que tive o meu primeiro contato com a poesia (no sentido amplo da palavra), ainda bem menino.
 
portanto, a primeira estrela a luzir no céu poético que me comporta, distraidamente, foi a estrela da canção popular.
 
e, até hoje, sou louco, alucinado, morro de amores, pela canção popular.
 
quem acompanha o meu trabalho, sabe que não faço distinção de tipos, cores & sabores: neste espaço, a poesia livresca convive muitíssimo bem com os versos do poema-canção.
 
chico buarque, gilberto gil, alceu valença, djavan, adriana calcanhotto, péricles cavalcanti, lenine, caetano veloso, são alguns nomes do nosso cancioneiro popular que convivem, muitíssimo bem, aqui neste espaço, com carlos drummond de andrade, armando freitas filho, antonio carlos secchin, nelson ascher, josé almino, eucanaã ferraz, e tantos outros — sem contar, por exemplo, aqueles que transitam entre o poema-canção & o poema-livresco: vinicius de moraes, waly salomão, antonio cicero, arnaldo antunes, alice ruiz s, francisco  bosco, paulo césar pinheiro.
 
a canção popular foi a primeira estrela a luzir no meu céu poético, distraidamente, porque eu amei a canção popular ouvindo-a despretensiosamente, ao lado da minha mãe, a minha cabocla jurema, a grande responsável, pessoa apaixonada — desde que me entendo por gente — pela tradição do cancioneiro popular.
 
a canção popular, na minha existência, foi a estrela entre as estrelas.
 
foi a partir dela que me brotou, que vi nascer, o desejo agudo de conhecer mais & mais tanto o poema-livresco quanto o poema-canção.
 
a canção popular: a estrela entre as estrelas.
 
meus pais nunca tiveram biblioteca em casa. quase não tínhamos livros em casa & o bairro onde cresci não tinha livraria.
 
mas os livros que, já na infância, em minha vida entraram (lembro-me do “círculo do livro” batendo à porta de casa) são como a radiação de um corpo negro apontando para a expansão do universo.
 
a radiação de um corpo negro apontando para a expansão do universo: sabe-se que a teoria mais difundida sobre a criação do universo (big bang) declara que este nasceu a partir da explosão, num tempo passado finito, de uma matéria altamente condensada, a uma temperatura elevadíssima. a radiação produzida pela explosão foi tão absurdamente & absolutamente forte que tal energia ainda desdobra-se espaço afora, produzindo a contínua expansão do universo. o corpo negro — espaço onde cabe o nosso mundo & mais — aponta para a expansão do universo, dilatando-se & lançando, com a sua expansão, novos sistemas, novas galáxias, novos corpos celestes.
 
os livros que em minha vida entraram são como a radiação de um corpo negro apontando para a expansão do universo: porque a frase, o conceito, o enredo, o verso (e, sem dúvida, sobretudo o verso), é o que pode lançar mundos no mundo.
 
a força contida na condensação inteligente de poucas palavras — que é o que forma um verso — é tamanha, que o verso, assim como a matéria altamente condensada que formou o universo & que continua em expansão no corpo negro espacial, é o que pode lançar mundos no mundo.
 
ao me referir ao verso como aquele que, sobretudo, pode lançar mundos no mundo (tal & qual a radiação de um corpo negro), refiro-me tanto ao verso-livresco quanto ao verso-canção, sem distinção de tipos, cores & sabores.
 
a canção popular, estrela primeira a reluzir forte, intensa, no meu céu poético, tropeçava nos astros — revistas livros enciclopédias filmes — desastrada, lúdica, onírica, sem saber que a aventura da ventura (da boa fortuna, da boa sorte) & da desventura (da má fortuna, da má sorte) dessa estrada que vai do nada ao nada (a estrada que vai do nada ao nada: a existência, a vida: não sabemos exatamente de onde viemos & muito menos para onde iremos) são livros & o luar contra a cultura.
 
(os livros são responsáveis por boa parte do conhecimento adquirido nessa estrada que é a vida & que vai do nada ao nada, sem teoria ou ponderação que a justifique claramente. sobretudo aqueles que põem à prova, que questionam, que discutem, o status quo do meio social, sobretudo aqueles que nos fazem pensar os valores culturais que nos são incutidos através das normas & convenções sociais.)
 
os livros são objetos transcendentes, os livros são objetos que ultrapassam a natureza física das coisas (é justamente essa característica que possibilita que o verso, sobretudo, possa lançar mundos no mundo), mas podemos amá-los do amor tátil (amor sem valor transcendental, amor ligado ao tato, ao que é palpável) que votamos, por exemplo, aos maços de cigarro.
 
amando os livros — que são objetos transcendentes, objetos cujo valor não é tangível, não é palpável, valor que possibilita o verso lançar mundos no mundo — com o amor tátil que votamos aos maços de cigarro (amor ligado ao tato, ao que pode ser materialmente aferido, apalpado), acabamos por domá-los, por domesticá-los, amando os livros com o amor tátil que votamos aos maços de cigarro, acabamos por cultivá-los em aquários, em estantes, em gaiolas, acabamos por aprisioná-los & deixá-los à mercê de uma visitação fria, distanciada, de quem os cultiva apenas por causa do amor tátil, apenas por causa do amor ao objeto-livro, ao objeto palpável, material — o que importa, nesse caso, não é o conteúdo que o livro abriga (que é o que confere ao livro o seu caráter transcendental) & sim o “objeto-livro”, o livro enquanto “material palpável”, enquanto mero “enfeite de casa”.
 
amando os livros — que são objetos transcendentes, objetos cujo valor não é tangível, não é palpável, valor que possibilita o verso lançar mundos no mundo — com o amor tátil que votamos aos maços de cigarro, além de domá-los, além de domesticá-los, podemos lançá-los — os livros — para fora das janelas, podemos jogá-los às traças, podemos mandá-los ao lixo, assim como quando amassamos um maço de cigarro que não nos serve mais.
 
lançando os livros para fora das janelas, tendo, pelos livros, apenas o amor tátil, isso, certamente, nos livra do exercício (difícil, complicado) de lançarmo-nos, destemidos, à existência. lançando os livros para fora das janelas, tendo, pelos livros, apenas o amor tátil, isso nos livra de lançarmo-nos ao mundo com as tantas descobertas & achados que nos trazem o conhecimento adquirido através dos livros (porque a frase, o conceito, o enredo, o verso — e, sem dúvida, sobretudo o verso, é o que pode lançar mundos no mundo), ou — o que é muito pior — por odiarmo-los, por odiarmos os livros (odiá-los amando-os do amor tátil, cultivando-os em estantes & gaiolas & fogueiras), podemos, simplesmente, escrever um: encher muitas páginas de vãs palavras, encher páginas & mais páginas de palavras que não acrescentam nada, para, assim, conseqüentemente, encher as prateleiras — das livrarias — de mais confusão, de papo furado, de conversa fiada, de livros que não dizem nada de relevante.
 
pois a grande questão com a leitura é que não devemos nos preocupar somente com a atitude de ler. acima de tudo, temos que nos preocupar com o tipo de literatura que procuramos ler.
 
o tempo todo, o ser humano gaba-se do fato de que cada ser é um, ímpar, único, singular,  o tempo todo, o ser humano gaba-se do fato de que cada ser possui as suas especificidades,  o tempo todo, o ser humano gaba-se do fato de que ninguém é igual a ninguém. e, no entanto, esse ser humano, que se gaba o tempo inteiro do fato de ser um, único, ímpar, singular, busca, em livros, fórmulas gerais — como se fossem receitas de bolo, bulas de remédio —de como alcançar a felicidade, de como obter sucesso no trabalho, 8 dicas para conseguir amigos, 15 passos rumo à felicidade conjugal, 10 maneiras infalíveis de conquistar a pessoa amada, conselhos para bem educar os filhos.
 
isso é, em si, uma enormíssima incoerência: fórmulas & tratados gerais, sobre como obter sucesso & felicidade, para seres únicos, ímpares, singulares, cheios de especificidades?  
 
os livros devem lançar mundos no mundo: eles não trazem respostas prontas; eles incitam a buscas, a descobertas.
 
por amá-los (os livros) de um amor tátil, por domá-los em aquários, estantes, gaiolas & fogueiras, por lançá-los para fora das janelas, ou — o que é muito pior — por odiarmo-los, podemos simplesmente escrever um: encher de vãs palavras muitas páginas & de mais confusão as prateleiras…
 
apesar de todo amor & toda gratidão que possuo pelos livros, no meu céu poético a canção popular foi, é & será, sempre, a (grande) estrela entre as estrelas.
 
eu sou louco, alucinado, morro de amores, pela canção popular. foi ela que, distraída, desastrada, tropeçando nos astros, me abriu as portas da poesia (no sentido amplo da palavra).
 
eternamente grato & em dívida com os nossos poetas-compositores.
 
salve a canção popular!
salve a poesia!
salvem os livros!
 
beijo todos!
paulo sabino. 
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(do livro: Letra só. autor: Caetano Veloso. editora: Companhia das Letras.)
 
 
 
LIVROS
 
 
Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo
 
Tropeçavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São  livros e o luar contra a cultura
 
Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou — o que é muito pior — por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um:
Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras
 
Tropeçavas nos astros desastrada
Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Livro. artista & intérprete: Caetano Veloso. canção: Livros. autor da canção: Caetano Veloso. leitura em francês de um trecho do livro: O vermelho e o negro. autor do livro: Stendhal. gravadora: PolyGram.)