FOTOS E O EVENTO — LANÇAMENTO “DO QUARTO” (SANDRA NISKIER FLANZER) + RECITAL DE POESIA (PAULO SABINO)
3 de agosto de 2017

(Paulo Sabino e Sandra Niskier Flanzer)

 

(Casa lotada)

(Nélida Piñon)

(Antonio Carlos Secchin e Antonio Cicero)

(Marcelo Pies)

(A dedicatória pra mim)
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“Paulo, querido:

Sua presença, sua companhia, e mais especialmente sua voz, estão comigo neste lançamento.

Te encontrar foi um presente!

Que a gente lance, se lance, nesse lance, livre e livro, como a vida quer de nós.

Um beijo enorme e muito, muito obrigada!”

(Sandra Niskier Flanzer — 30/06/17)

 

 

A noite de segunda-feira, 31/07, com o lançamento do novo livro de poemas da psicanalista e poeta Sandra Niskier Flanzer, “Do quarto” (ed. 7Letras), na Casa do Saber, foi linda!

A poeta me convidou para fazer um recital de poesia que foi o meu primeiro vôo solo, a primeira vez que me apresentei sem dividir o palco, coisa que AMO fazer. Eu, chato que sou (acredito ser assim pra muita gente), acho que poderia fazer melhor, que não dei conta do recado de uma maneira satisfatória (pra mim). Mas, apesar dessa impressão (minha), recebi palavras muito carinhosas, muito generosas, de quem assistiu e veio falar comigo ao final. A Sandra também me contou que recebeu palavras muy elogiosas sobre o sarau que pensamos juntos e o meu desempenho com as palavras.

Para além disso, soube de uma história bacanérrima: de uma pessoa que não conheço e que estava no recital e que trabalha com um grande amigo meu e que por conta de uma foto do recital no celular do meu grande amigo comentou com ele que esteve nesse recital na segunda-feira (31/07) e que foi “sensacional” (palavra do meu amigo) e um tanto mais de palavras calorosas. Saldo pra lá de positivo. Por isso, por esse retorno do público, estou muito feliz com esta primeira apresentação sozinho.

A Sandra lotou o espaço merecidamente, porque o seu livro, “Do quarto”, é de uma beleza rara na poesia, muito sofisticado, e porque mesclamos as leituras com poemas de grandes autores (Adélia Prado, Drummond, João Cabral, Gullar, Pessoa, Antonio Cicero, Antonio Carlos Secchin, Armando Freitas Filho), desenvolvendo um papo poético bem bacana entre os versos. Por tanto, por tudo, aqui para agradecer demais demais demais o convite da Sandra, a oportunidade deste momento e a confiança depositada na minha voz. Agradecer demais demais demais a presença dos amigos, e, especialmente, dos mestres — também amigos — que lá estiveram: os membros da Academia Brasileira de Letras (ABL) Nélida Piñon, Antonio Carlos Secchin e Antônio Torres, o poeta, letrista e filósofo Antonio Cicero, o membro da Academia Carioca de Letras (ACL) Adriano Espínola e o figurinista de cinema, teatro e publicidade Marcelo Pies. A vontade pede mais momentos como o vivenciado na segunda 31/07.

Valeu demais!
Salve a Poesia!
Salve a sua existência na minha!

De presente, uma poesia incendiária da Sandra, que chama pela chama, pelo calor, pela luz, que a poesia alastra a quem desejar a sua chama, o seu calor, a sua luz.

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do livro: Do quarto. autora: Sandra Niskier Flanzer. editora: 7Letras.)

 

 

CHAMA POESIA

 

Tu estejas aí
Enquanto estiver aqui
Não arredarei pé
Atravessarei feriado
Os ócios do ofício
E o fim da semana
A produzir labaredas
Lavas que atiçam chamas
Centelhas a chamar fogueiras
Estarei no entre flamas,
Laboredas combustíveis
Incinerando o edredom
Queimando a cama parada
Em meio ao fogo cruzado
Assim, tu estejas aí,
Minha cara litera-dura
Segura-me com tua brasa
Aquece-me em minha casa
Pois te apago e a pago
Incendiária e sem diária.

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MUSEU NACIONAL DE BELAS ARTES — 80 ANOS — POEMAS & VÍDEO DO RECITAL
17 de janeiro de 2017

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(Na foto, o prédio do Museu Nacional de Belas Artes, localizado no Centro da cidade do Rio de Janeiro.)

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(Adentrando o salão nobre do Museu Nacional de Belas Artes — MNBA — para a cerimônia de 80 anos da instituição.)
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“Querido Paulo Sabino,

Belo Poeta , além de porte elegante,

Meus parabéns pela honra que lhe foi merecidamente conferida.

Teria desejado estar presente para aplaudir a ilustre instituição brasileira e o seu orador oficial.

E sua mãezinha, como está ? Minhas homenagens a ela.

O abraço carinhoso da

Nélida Piñon.”

(Nélida Piñon — escritora integrante da Academia Brasileira de Letras — ABL)

 

 

A cerimônia pelos 80 anos do Museu Nacional de Belas Artes (MNBA) foi ótima, tudo correu super bem!

Trabalho bem executado, todos felizes: eu, com o que pude fazer, e os amigos & administradores do museu, pelo resultado da cerimônia. Já fui convidado, inclusive, para outros eventos da instituição (e para evento de uma instituição afim ao museu). Adorei. Às ordens para quando precisar.

Aos interessados, deixo um trechinho do recital de violino & piano, que integrou a cerimônia de comemoração dos 80 anos do Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), na sexta-feira (13/01), da qual tive o imenso prazer de participar como o mestre de cerimônia de todo o evento (este videozinho foi feito por mim).

No vídeo, as musicistas Priscila Ratto (violino) & Katia Ballousier (piano) apresentam uma peça do compositor austro-húngaro Fritz Kreisler, Prelúdio & Allegro. Lindo & emocionante!

E, homenageando a instituição, dois poemas extraídos — não coincidentemente — do livro “Museu de tudo”, do mestre maior João Cabral de Melo Neto.
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segundo o dicionário houaiss, museu é a “instituição dedicada a buscar, conservar, estudar e expor objetos de interesse duradouro ou de valor artístico, histórico etc.”

penso eu que se o museu é uma instituição com tais atribuições, o museu deve suscitar reflexões sobre as sociedades que fundamos & sobre o próprio ato criativo, discutindo, o tempo inteiro, a arte, o seu valor & o ato criativo do que chamamos arte.

paul valéry, poeta, escritor & filósofo francês, no seu romance “monsieur teste”, aborda o “processo de criação artística” & coloca a reflexão sobre o “processo criador” como uma condição intransferível & essencial à própria criação. “monsieur teste” é a personalização do ideal do rigor reflexivo. paul valéry tornou-se, por isso, um símbolo do culto permanente à lucidez.

o museu como “monsieur teste”, permanentemente acordado, aceso, em vigília, insone: uma lucidez que tudo via, como se estivesse exposta à luz qualquer ou como se a lucidez estivesse exposta ao dia claro.

lucidez que, quando de noite, na escuridão, acende detrás das pálpebras o dente — que mastiga & auxilia na articulação dos sons & das palavras — de uma luz ardida, uma luz que queima, que machuca de tão intensa, uma luz nua, sem pele, extrema, pura, e que de nada serve: de nada serve porque a lucidez só serve a quem a tem; é um bem intransferível & irrevogável: porém, luz de uma tal lucidez — luz que queima, que machuca de tão intensa, uma luz nua, sem pele, extrema, pura — que mente que tudo podeis.

e nada pode tal luz lúcida: a lucidez de nada serve porque a lucidez só serve a quem a tem; é um bem intransferível & irrevogável.

assim como de nada serve fazer o que seja.

fazer o que seja, qualquer “objeto artístico” (um quadro, uma foto, um poema), é inútil. não fazer nada é inútil também. mas entre fazer & não fazer, mais vale o inútil do fazer. mas fazer para esquecer que é inútil — não, nunca: nunca o esquecer, nunca esquecer que fazer o que seja, qualquer “objeto artístico” (um quadro, uma foto, um poema), é inútil. fazer o inútil sabendo que ele é inútil fazer, sabendo que ele é realização inútil, e bem sabendo que seu sentido será sequer pressentido (o sentido da realização cabe a quem realiza, apenas ao criador — é um bem intransferível & irrevogável): ele — o fazer inútil — é mais difícil do que não fazer, mas dificilmente se poderá dizer, se poderá falar, se poderá declarar, com mais desdém, mais desprezo, mais arrogância, ou então dizer mais direto ao leitor “ninguém” — afinal, nunca se sabe quem, que leitor, as palavras alcançarão — que o feito, que o realizado inutilmente, o foi para ninguém.

o objeto artístico é confeccionado para ninguém: o artista, quando cria, pensa apenas na sua criação artística, no seu desejo de realização artística, nunca numa função para a sua criação ou para quem tal criação servirá. por isso, na arte não há o sentido utilitário, não há o sentido de utilidade, não há o sentido de útil. na acepção literal, a arte é, portanto, algo inútil, feita por alguém para nada nem ninguém.

ainda assim, uma vez confeccionado o objeto artístico (um quadro, uma foto, um poema), beber da sua fonte inesgotável de intenções desobrigadas.

arte: o mais nutritivo & saboroso alimento anímico.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: A educação pela pedra e depois. autor: João Cabral de Melo Neto. editora: Nova Fronteira.)

 

 

A INSÔNIA DE MONSIEUR TESTE

 

Uma lucidez que tudo via,
como se à luz ou se de dia;
e que, quando de noite, acende
detrás das pálpebras o dente
de uma luz ardida, sem pele,
extrema, e que de nada serve:
porém luz de uma tal lucidez
que mente que tudo podeis.

 

 

O ARTISTA INCONFESSÁVEL

 

Fazer o que seja é inútil.
Não fazer nada é inútil.
Mas entre fazer e não fazer
mais vale o inútil do fazer.
Mas não, fazer para esquecer
que é inútil: nunca o esquecer.
Mas fazer o inútil sabendo
que ele é inútil, e bem sabendo
que é inútil e que seu sentido
não será sequer pressentido,
fazer: porque ele é mais difícil
do que não fazer, e dificil-
mente se poderá dizer
com mais desdém, ou então dizer
mais direto ao leitor Ninguém
que o feito o foi para ninguém.
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(do site: Youtube. evento: 80 anos do Museu Nacional de Belas Artes. peça: Prelúdio e Allegro. autor: Fritz Kreisler. piano: Katia Ballousier. violino: Priscila Ratto. local: Rio de Janeiro. data: 13/01/2017.)

AS OFERTAS: PAIOL DE OURO
29 de outubro de 2015

Paulo Sabino_Ilhas Cagarras_por Ana Alexandrino

(Foto acima: Ana Alexandrino.)

Lídice 1
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No peito, Oxum, Oxalá & Xangô.

No pensamento: agradecer & abraçar: o dom, a vocação, para a palavra.

Oxum rege a minha garganta; Oxum, deusa do elemento do meu signo, deusa do elemento natural que mais me fascina: água.

Oxum rege a minha garganta: sua cor é o ouro, o dourado.

O ouro, o dourado: a cor que, na mitologia, representa o orixá.

Oxum: paiol de ouro.

(Paiol: depósito, armazém, compartimento, onde se guardam materiais específicos & variados — de produtos agrícolas a artefatos bélicos.)

Oxum: paiol de ouro: depósito, armazém, compartimento, onde se guarda o ouro, o dourado: a luz, a claridade, a nobreza, a beleza, a riqueza.

Oxum, paiol de ouro: deusa das águas, sereia, cantora rainha: rege a minha garganta de onde nasce este som (o som da minha escrita, o som da minha voz, doado à poesia).

A Oxum, oferto perfumes & flores por ter me dado este dom — o de destinar à palavra o centro da minha vida.

Agradecer & abraçar todos os amigos que me incentivam a continuar de frente, a postos, em guarda, nesta jornada com a poesia. Os incentivos são, sem dúvida, sopros de ânimo nos momentos de aridez.

As ofertas que me atenho a fazer: amar a vida. Não desistir da luta. Recomeçar na derrota. Renunciar a palavras e pensamentos negativos. Acreditar nos valores humanos. Ser otimista. Crer na solidariedade humana. Crer na superação dos erros e angústias do presente. Lutar ao invés de recolher dinheiro fácil. Antes, acreditar do que duvidar.

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do encarte do álbum: Memória da pele. artista: Maria Bethânia. autores: Alexandre Leão / Olival Mattos. gravadora: PolyGram.)

 

 

PAIOL DE OURO

 

Oxum
Deusa das águas
Sereia, cantora rainha
Reges a minha garganta
De onde nasce esse som
Te oferto perfumes e flores
Por teres me dado esse dom
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Memória da pele. artista & intérprete: Maria Bethânia. canção: Paiol de ouro. autores: Alexandre Leão / Olival Mattos. gravadora: PolyGram.)

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(do site: Youtube. Paulo Sabino recita “Ofertas de Aninha (Aos Moços)”, poema de Cora Coralina. Em 28/10/2015.)

 

OFERTAS DE ANINHA  (Cora Coralina)
(AOS MOÇOS)

 

Eu sou aquela mulher
a quem o tempo
muito ensinou.
Ensinou a amar a vida.
Não desistir da luta.
Recomeçar na derrota.
Renunciar a palavras e pensamentos negativos.
Acreditar nos valores humanos.
Ser otimista.

Creio numa força imanente
que vai ligando a família humana
numa corrente luminosa
de fraternidade universal.
Creio na solidariedade humana.
Creio na superação dos erros
e angústias do presente.

Acredito nos moços.
Exalto sua confiança,
generosidade e idealismo.
Creio nos milagres da ciência
e na descoberta de uma profilaxia
futura dos erros e violências
do presente.

Aprendi que mais vale lutar
do que recolher dinheiro fácil.
Antes acreditar do que duvidar.

 

ESCRITOS AO SOL: FERA MATINAL
14 de julho de 2015

Convite de lançamento_Escritos ao sol_Adriano Espínola

(Na foto, convite para o lançamento da antologia “Escritos ao sol”, de Adriano Espínola — para ampliar a imagem, basta clicar na foto.)
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Olá Paulo, gostei muito do seu blog, dos poetas e dos poemas. E da sua “proesia”. Legal mesmo, parabéns!  Vamos lá, que “o canto na imensidão/ é ação e movimento”. Grd Abraço.

(Adriano Espínola – poeta & professor)

Olá Paulo! Puxa, o texto que vc escreveu sobre os poemas me emocionou. Vc soube desdobrar em mais e mais poesia as imagens da língua-mãe e do cavalo & o mar. Lindamente. Abração e obrigado, A.

(Adriano Espínola sobre publicação neste espaço, “Língua-mar: o cavalo-marinho & o mar-eqüestre”, com poemas de sua autoria)

Gostei muitíssimo do seu texto-diálogo com o “Elegia 1938”, do CDA! Vertiginoso. Grd Abraço!

(Adriano Espínola sobre publicação neste espaço, “Elegia (1938)”, com poema de Carlos Drummond de Andrade)

 

nesta quinta-feira (16 de julho), a partir das 19h, na livraria da travessa do shopping leblon (rio de janeiro), o professor de literatura & poeta adriano espínola, um mestre da poesia contemporânea brasileira, lança a antologia intitulada “escritos ao sol”, onde o autor reúne alguns dos melhores poemas de sua obra numa edição considerada “definitiva”.

em conversa com o poeta, descobri, para a minha imensa satisfação, que tenho toda a sua obra. e já lhe avisei que levarei ao lançamento todos os meus exemplares para serem autografados, inclusive a antologia, que já tratei de adquirir!

portanto, aos senhores, o convite — acima & abaixo — a um mergulho na poética deste que é um dos maiores poetas da nossa literatura.

salve a poética sempre iluminada de adriano espínola!
salve os seus escritos ao sol!
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Arpoador, manhã 23 de janeiro de 2014

(Manhã no Arpoador, Rio de Janeiro.)
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feito um cão solto, súbito, repentino, inesperado, o sol salta a janela adentro do quarto.

inquieto, agitado, o sol, feito um cão solto, salta a janela adentro do quarto & morde os punhos da rede, derruba a sombra do retrato, lambe o pé sujo lá da parede, fuça a mancha amarela do espelho, late alto & luminoso: “luz! luz!”, e, depois de meter o seu focinho em tudo, se enfia, fiel, no velho par de chinela.

o sol: um cão solto: fera em sua luminosidade violenta.

o sol: um cão solto: uma fera, como também é a cidade lá fora do quarto, presa à alva, presa à clara coleira do novo dia.

um novo dia: a água nova, a água fresca, a água recém-chegada, a água renascida, do dia: o pão, a fruta, a água & a névoa do café: o cheiro, o gosto, o tato ali desperto & posto pelo desjejum, pela primeira refeição do dia, ferindo — deliciosamente — o corpo, que leve aflora na cozinha, enquanto lá fora, o sol, fera em sua luminosidade violenta, a tudo sacia de luz — aurora — e pelas ruas caminha, desnudo em seu pêlo-luz & afeito a quem desejar sua lambida seca a nos molhar de suor.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Escritos ao sol. autor: Adriano Espínola. editora: Record.)

 

 

FERA

Feito um cão solto,
súbito o sol
salta janela
adentro do quarto.

Inquieto, morde
os punhos da rede,
derruba a sombra
do retrato,

lambe o pé sujo
lá da parede,
fuça a amarela
mancha do espelho,

late: luz! luz! —
depois se enfia,
fiel, no velho
par de chinela.

(Como a cidade
lá fora, fera,
na alva coleira
do novo dia.)

 

 

MANHÃ

A água nova do dia,
o pão, a fruta, a névoa
do café,

o cheiro, o gosto,
o tato ali desperto
e posto,

ferindo o corpo,
que leve aflora
na cozinha,

enquanto lá fora
o sol a tudo
sacia

de luz — aurora —
e pelas ruas caminha,
desnudo.

COISA EM SI
16 de maio de 2015

Ovo
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toda & qualquer coisa é composta de outras tantas coisas.

não existe “coisa em si”.

toda & qualquer coisa forma uma identidade. identidade que se forme, que se molde, que se construa, sem que tenda para alguma coisa, sem que sofra a influência de alguma coisa, sem que penda para algum lado, sem que dependa de alguma outra coisa, não existe.

tudo tende, pende, depende.

tudo, até as palavras: não há nenhuma palavra que exista “em si”, que exista sem que haja, nela, algo que também forme, também molde, também construa, outras palavras: tende / pende / depende.

palavra puxa palavra.

o mar, que molha a ilha, molha o continente.

o ar que se respira traz o que recende, o que exala, o que se espalha. o ar que injetamos nos pulmões é o mesmo que, livre, toca o cheiro das coisas & o traz, de longe, até nós.

tudo é rente, é próximo, é contíguo. tudo é tangente, é tocável, é acessível. tudo é inerente, é dependente, é inseparável.

tudo é rente, tangente, inerente.

tudo, até as palavras: não há nenhuma palavra que exista “em si”, que exista sem que haja, nela, algo que também forme, também molde, também construa, outras palavras: rente / tangente / inerente.

palavra puxa palavra.

não existe coisa assim: isenta, sem ambiente, coisa partida do seu próprio pó, sem mistura, coisa sem sombra na parede, coisa sem margem ou afluente que a alcance, que a toque: as coisas existem & necessariamente, obrigatoriamente, estabelecem inter-relações: não há coração sem mente, não há paraíso sem serpente. não existiria som se não houvesse o silêncio. não haveria luz se não fosse a escuridão.

a vida é mesmo assim: dia & noite, não & sim.

“coisa em si” inexiste.

só existe o que se sente, só existe o que é percebido através dos sentidos. uma coisa, mesmo que exista, se não for sentida por nós, isto é, se não for percebida por nós, essa coisa não existe para nós. para que exista para nós, portanto, as coisas precisam, as coisas dependem, as coisas necessitam, as coisas carecem, existir, antes, para os nossos sentidos.

tudo tende, pende, depende. tudo é rente, tangente, inerente.

não existe “coisa em si”.

a miscigenação, a mistura, a mesclagem, a influência, a tendência, a confluência, sempre foi & sempre será o caminho de toda & qualquer coisa.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: ET  Eu  Tu. poemas: Arnaldo Antunes. fotos: Marcia Xavier. editora: Cosac & Naify.)

 

 

coisa em si
não existe

tudo tende
pende
depende

o mar que molha
a ilha molha
o continente

o ar que se
respira traz
o que recende

coisa em si
não existe

tudo é rente
tangente
inerente

pedra
assemelha
semente

sol nascente:
sol poente

coisa em si
não existe

mesmo que
aparente

coisa em si
coisa só
partida do seu
próprio pó

sem sombra
sobre
a parede

sem mar
gem
ou afluente

não existe
coisa assim

isenta
sem ambiente

não há coração
sem mente

paraíso
sem serpente

coisa em si
inexiste

só existe
o que se
sente

AGRADECER & ABRAÇAR
13 de janeiro de 2015

Agradecer e abraçar_Maria Bethânia______________________________________________________

Domingo passado (11/01) foi dia de comemorar ao lado dela. Na verdade, foi dia de comemorar de frente para ela.

A grande responsável por me apresentar a arte poética completa, neste 2015, 50 anos de carreira, comprometida, unicamente, com as suas verdades.

Para quem espera, esperava, um espetáculo no estilo “50 anos de carreira & seus grandes sucessos”, a decepção pode ser grande.

Maria Bethânia comemora os seus 50 anos de estrada & canto com mais um grande — e belíssimo! — show, costurando as canções a partir dos assuntos/temas que vai alinhavando em cena. Por isso, como sempre faz, sempre fez, os grandes sucessos entram a fim de dar integridade à espinha dorsal do espetáculo, os grandes sucessos entram a fim de garantir a sustentabilidade necessária aos assuntos/temas abordados.

Não se trata, portanto, de uma compilação desenfreada dos “hits” de carreira: Bethânia não canta “Olhos nos olhos”, não canta “Terezinha”, não canta “Explode coração”, nem “Ronda”, “Sonho meu”, “Negue”, “Mel”, “Anos dourados”, “Grito de alerta”, “Esse cara”, “O lado quente do ser”, “Fera ferida”. Os sucessos que entraram, entraram para compor a linha dramática que norteia o seu show comemorativo, intitulado “Agradecer e abraçar” (título homônimo à canção gravada no álbum “A força que nunca seca”).

A primeira parte do espetáculo — as primeiras canções — revela a sua relação com a carreira de intérprete & cantora: abre com “Eterno em mim”, do mano Caetano (“em mim o eterno é música e amor”), deságua em “Dona do dom”, do Chico César (feita especialmente para ela & por ela gravada no álbum “Maricotinha”), navega, emblemática, por “Começaria tudo outra vez”, do grande amigo Gonzaguinha (“começaria tudo outra vez / se preciso fosse, meu amor”), e segue dando emoção a tudo aquilo que sempre a comoveu no seu percurso artístico, clarificando ao público que muito se orgulha do caminho traçado através das suas escolhas.

Não faltam homenagens à sua terra & à sua gente (“Motriz”), aos seus pais & ao seu povo (“Tudo de novo”), à água, elemento de sua fascinação (“Eu e água”), à viola caipira, uma das suas adorações, ao grande poeta que adoçou a Bahia & a embalou, Dorival Caymmi (“Doce”), à Oxum mais bonita, mãe Menininha do Gantois (“Oração de Mãe Menininha”), e ao amor, é claro, uma das suas facetas mais célebres & festejadas.

Bethânia recita, entre outros, textos de Clarice Lispector, Waly Salomão & Fernando Pessoa, poeta da sua vida.

O auge de “Agradecer e abraçar” é quando, já no final, Bethânia canta a sua versão de “Non, je ne regrete rien”, sucesso na voz de uma das suas divas, a francesa Édith Piaf, acompanhada de uma tradução lindíssima dos versos da canção, cujo mote é o fato de não se arrepender de nada que tenha vivido. A tradução é recitada, como um poema. É tudo tão forte, tão carregado de simbolismo, que os espectadores aplaudem Bethânia de pé ainda no meio da canção. E isso, eu soube, aconteceu também na primeira noite. Arrebatador. (Aqui, me parece que, de alguma forma, Bethânia, discretamente, homenageia Cássia Eller, que, para surpresa de todos à época, gravou “Non, je ne regrete rien” no seu último álbum & que, das mais jovens, das cantoras surgidas na década de 90, é a sua cantora preferida.)

“Agradecer e abraçar” é mais um “depoimento” artístico de uma das grandes vozes deste país.

Mostra que quem nasceu para rainha nunca perde a majestade.

Agradecer & abraçar: ao fim do espetáculo, nada pedi. Só agradeci.

Mentira. Pedi, sim: mais 50 anos de carreira.

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do encarte do cd: A força que nunca seca. artista: Maria Bethânia. compositores: Gerônimo / Vevé Calasans. gravadora: BMG.)

 

 

AGRADECER E ABRAÇAR

 

Abracei o mar na lua cheia, abracei
Abracei o mar
Abracei o mar na lua cheia, abracei
Abracei o mar

Escolhi melhor os pensamentos, pensei
Abracei o mar
É festa no céu, é lua cheia, sonhei
Abracei o mar

E na hora marcada “Dona Alvorada” chegou para se banhar
E nada pediu
Cantou pro mar
(E nada pediu)
Conversou com o mar
(E nada pediu)
E o dia sorriu

Uma dúzia de rosas, cheiro de alfazema, presentes eu fui levar
E nada pedi
Entreguei ao mar
(E nada pedi)
Me molhei no mar
(E nada pedi)
Só agradeci
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: A força que nunca seca. artista & intérprete: Maria Bethânia. canção: Agradecer e abraçar. compositores: Gerônimo / Vevé Calasans. gravadora: BMG.)

AS BORBOLETAS
24 de setembro de 2014

Borboletas

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Eu vou lhe dar de presente uma coisa.
É assim: borboleta é pétala que voa.

(Clarice Lispector)

 

primavera: segundo o dicionário houaiss: “estação temperada e amena, entre o inverno e o verão. [No hemisfério sul, estende-se do equinócio de setembro (22) ao solstício de dezembro (20); no hemisfério norte, do equinócio de março (21) ao solstício de junho (20).]”

primavera: estação considerada a estação das flores, representante do renascimento, da transformação.

a estação das flores é a estação das borboletas.

borboletas: segundo o dicionário aurélio: “designação comum aos insetos lepidópteros diurnos, cujas antenas são clavadas. As larvas das borboletas não tecem casulos, passando o período ninfal sob forma de crisálidas.”

borboletas: insetos diurnos que se alimentam principalmente do néctar das flores & cujo desenvolvimento se caracteriza por quatro fases: o ovo, a lagarta, a pupa (quando em transformação, em metamorfose, dentro da crisálida) & a fase adulta (já borboleta).

sendo o néctar das flores um dos principais alimentos das borboletas, a primavera, estação que se inicia, estação considerada a estação das flores, é, também, a estação das borboletas, bichinhos que, além de flores, gostam do dia.

brancas, azuis, amarelas & pretas: uma profusão de cores soltas no ar: brincam, na luz do dia, as belas borboletas.

soltas no ar, delicadas, levíssimas, qual pétalas a voar, brincam as borboletas, que se misturam, se embaralham, se desordenam, em cores as mais diversas: brancas, azuis, amarelas & pretas.

enquanto brincam, na luz, as belas borboletas, brancas, azuis, amarelas & pretas, a poesia trata de lhes dar as rimas fantásticas, rimas lúdicas, como a brincadeira das borboletas à luz do dia, para que elas sofram mais uma metamorfose, para que elas se transformem em pura lírica:

borboletas brancas são alegres & francas.

borboletas azuis gostam muito de luz.

as amarelinhas são tão bonitinhas!

e as pretas, então… que escuridão!

enquanto brinca de rima a poesia, metamorfoseando borboletas em pura lírica, brincam, na luz, as belas borboletas: brancas, azuis, amarelas & pretas.

primavera: estação considerada a estação das flores, representante do renascimento, da transformação.

borboleta: pétala que voa.

que a estação que se inicia (in)vente a todos as belezas que lhe são caras, as belezas que lhe são estimadas, as belezas que reflitam a sua cara, que reflitam o seu rosto: que belas borboletas — brancas, azuis, amarelas & pretas — brinquem à luz do olhar de cada um nesta primavera.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do site: Vinicius de Moraes — Oficial. autor: Vinicius de Moraes.)

 

 

AS BORBOLETAS

 

Brancas
Azuis
Amarelas
E pretas
Brincam
Na luz
As belas
Borboletas.

Borboletas brancas
São alegres e francas.

Borboletas azuis
Gostam muito de luz.

As amarelinhas
São tão bonitinhas!

E as pretas, então…
Oh, que escuridão!
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Partimpim Dois. artista & intérprete: Adriana Calcanhotto. canção: As borboletas. poema: Vinicius de Moraes. música: Cid Campos. gravadora: Sony-BMG.)

BALADA DO LADO SEM LUZ
13 de abril de 2011

Vela acesa & caderno_Escuro

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um mundo que assassina.

a árvore seca, onde, satisfeitos, nos sentamos.

o mundo da sombra: caverna escondida, onde a luz da vida foi quase apagada.

o mundo da sombra: região do escuro, do coração duro, da alma abalada…

hoje eu canto a balada, hoje eu canto a canção, do lado sem luz.

o lado sem luz: feito de subterrâneos gelados do eterno esperar, esperar pelo amor, pelo pão, pela paz, pela libertação.

é preciso criar a aurora. fazer raiar um novo dia. é preciso navegar, é preciso des-cobrir um outro dia, um outro sol, um sol mais claro, mais luminoso.

aquele que vive do lado sem luz, ouça:

o meu canto é a confirmação da promessa que diz: esperança haverá enquanto houver um canto mais feliz.

um canto mais feliz: como eu gosto de cantar. como eu prefiro cantar. como eu costumo cantar.

(um canto mais feliz: que assim seja.)

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Todas as letras. organização: Carlos Rennó. autor: Gilberto Gil. editora: Companhia das Letras.)

 

 

BALADA DO LADO SEM LUZ

 

O mundo da sombra
Caverna escondida
Onde a luz da vida
Foi quase apagada
O mundo da sombra
Região do escuro
Do coração duro
Da alma abalada, abalada

Hoje eu canto a balada do lado sem luz
Subterrâneos gelados do eterno esperar
Pelo amor, pelo pão
Pela libertação
Pela paz, pelo ar
Pelo mar
Navegar, descobrir
Outro dia, outro sol

Hoje eu canto a balada do lado sem luz
A quem não foi permitido viver feliz e cantar
Como eu
Ouça aquele que vive do lado sem luz
O meu canto é a confirmação da promessa que diz
Que haverá esperança enquanto houver um canto mais feliz
Como eu gosto de cantar
Como eu prefiro cantar
Como eu costumo cantar
Como eu gosto de cantar
Quando não tão abalado, a balada abalada
Do lado sem luz
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Pássaro proibido. artista & intérprete: Maria Bethânia. canção: Balada do lado sem luz. autor: Gilberto Gil. gravadora: Universal Music.)