OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (2ª EDIÇÃO): OS VÍDEOS IV
6 de outubro de 2015

Paulo Sabino_Ocup Poet_2ª Ed_09 Set 2015
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A quem possa interessar, mais 2 vídeos da 2ª edição do projeto “Ocupação Poética”, ocorrido nos dias 9 (quarta-feira) & 10 (quinta-feira) de setembro, no teatro Cândido Mendes (Ipanema – RJ), com a participação de 4 feras da poesia contemporânea: Luis Turiba, Cristiano Menezes, Mauro Sta Cecília & Claufe Rodrigues!

Em ambos os vídeos, o encerramento da minha participação no projeto, tanto no dia 09/09 como no dia 10/09, onde recito, no primeiro vídeo (09/09), um poema do sofisticado poeta & compositor Paulo César Pinheiro, e, no segundo vídeo (10/09), um poema do francês Paul Éluard, em tradução dos mestres Carlos Drummond de Andrade & Manuel Bandeira.

Fabrício Corsaletti, autor de “Seu nome”, postado na publicação de título “Ocupação Poética — Teatro Cândido Mendes (2ª Edição): Os Vídeos II”, faz, inclusive, uma menção ao poema de Paul Éluard que aparece nesta publicação. Dizem os seus versos:

 

o último verso do famoso poema de Éluard poderia muito
……………………………………………….[bem ser o seu nome

 

Pois bem, aos senhores, aqui, o famoso poema de Éluard.

E, assim, com o encerramento das duas noites, encerro as postagens de vídeos referentes à segunda edição deste projeto que, para mim, é um grande prazer & uma grande honra poder coordenar.

Que venham as próximas edições!

Divirtam-se!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [2ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 09/09/2015. Paulo Sabino recita Brasil moleque, poema de Paulo César Pinheiro.)

 

BRASIL MOLEQUE  (Paulo César Pinheiro)

Uma era branca,
Pureza de moça,
Boneca de louça,
Que ninguém nos ouça,
Do queixo cair.
Outra era preta
Da cor do azeviche,
Boneca de piche,
Vudu de fetiche,
Moleca saci.
O moço, um caboclo
De sangue mestiço,
De olho mortiço,
Jogando feitiço
Nas moças dali.

A branca era filha
De nhô de fazenda
De gado e moenda,
De dote e de prenda
Pro moço servir.
A preta era cria
De eito e senzala,
Mucama de sala,
Daquela que embala
Sinhá pra dormir.
O moço era solto,
E, sem ter grande coisa,
Era moço de pose,
Viola de doze,
A cantar por aí.

A branca, uma noite,
Seguiu rio abaixo,
Com fogo no facho,
Sem nada por baixo
Do seu organdi.
A lua amarela,
De cana no tacho,
Mostrou, no riacho,
Presença de macho
Banhando-se ali.
Caiu seu vestido,
E o moço muchacho
Desmanchou-lhe o cacho,
E viu, rio abaixo,
Um sangue sair.

Depois foi a preta,
Com o fogo da raça
Queimando a carcaça,
Soltando fumaça
No seu frenesi.
Na beira do rio,
Emborcando a cabaça
De mel com cachaça,
Rolava devassa
Que nem sucuri.
E o moço na preta
Foi sentando praça,
Deixando outra graça,
No rio que passa,
De sangue a cobrir.

Depois nove-luas
Do fogo no cio,
Do sangue no rio,
Pulou, do baixio
Da branca, um guri.
Era um mameluco,
Mas de carapinha,
Cheirando a morrinha,
Puxado na linha
De Ganga-Zumbi.

Também nove-luas
Do sangue da preta,
Coisa do Capeta,
Grudado na teta
Tinha um bacuri.
Mas era um cafuzo,
Cheirando a cidreira,
Lisa cabeleira,
Da raça guerreira
Do sangue Tupi.

Brasil não tem raça,
Que raça não conta,
Tem gente que é tonta,
Que vive de afronta
Com as raças daqui.
Contei só uma estória,
Tem tanta já pronta,
Que, de ponta a ponta,
Quanto mais se conta
Mais tem pra se ouvir.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [2ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 10/09/2015. Paulo Sabino recita Um único pensamento, poema de Paul Éluard, em tradução de Carlos Drummond de Andrade & Manuel Bandeira.)

 

UM ÚNICO PENSAMENTO  (Paul Éluard / Tradução: Carlos Drummond de Andrade & Manuel Bandeira)

Nos meus cadernos de escola
Nesta carteira nas árvores
Nas areias e na neve
Escrevo teu nome

Em toda página lida
Em toda página branca
Pedra sangue papel cinza
Escrevo teu nome

Nas imagens redouradas
Na armadura dos guerreiros
E na coroa dos reis
Escrevo teu nome

Nas jângales, no deserto
Nos ninhos e nas giestas
Nos ecos da minha infância
Escrevo teu nome

Nas maravilhas das noites
No pão branco da alvorada
Nas estações enlaçadas
Escrevo teu nome

Em meus farrapos de azul
No tanque sol que mofou
No lago lua vivendo
Escrevo teu nome

Nas campinas no horizonte
Nas asas dos passarinhos
E no moinho das sombras
Escrevo teu nome

Em cada sopro de aurora
Na água do mar nos navios
Na serrania demente
Escrevo teu nome

Até na espuma das nuvens
No suor das tempestades
Na chuva insípida e espessa
Escrevo teu nome

Nas formas resplandecentes
Nos sinos das sete cores
E na física verdade
Escrevo teu nome

Nas veredas acordadas
E nos caminhos abertos
Nas praças regorgitantes
Escrevo teu nome

Na lâmpada que se acende
Na lâmpada que se apaga
Em minhas casas reunidas
Escrevo teu nome

No fruto partido em dois
De meu espelho e meu quarto
Na cama concha vazia
Escrevo teu nome

Em meu cão guloso e meigo
Em suas orelhas fitas
Em sua pata canhestra
Escrevo teu nome

No trampolim desta porta
Nos objetos familiares
Na língua do fogo puro
Escrevo teu nome

Em toda carne possuída
Na fronte de meus amigos
Em cada mão que se estende
Escrevo teu nome

Na vidraça das surpresas
Nos lábios que estão atentos
Bem acima do silêncio
Escrevo teu nome

Em meus refúgios destruídos
Em meus faróis desabados
Nas paredes de meu tédio
Escrevo teu nome

Na ausência sem mais desejos
Na solidão despojada
E nas escadas da morte
Escrevo teu nome

Na saúde recobrada
No perigo dissipado
Na esperança sem memórias
Escrevo teu nome

E ao poder de uma palavra
Recomeço minha vida
Nasci pra te conhecer
E te chamar

Liberdade

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4ª EDIÇÃO SARAU DO LARGO DAS NEVES — AGRADECER PROFUNDAMENTE
29 de junho de 2015

Sarau Largo das Neves_Junho 4

Sarau Largo das Neves_Junho 1

Luis Turiba & Paulo Sabino

(Na foto, o poeta Luis Turiba.)

Sarau Largo das Neves_Junho 3
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Gente do meu coração,

É tanta coisa, tanta, que nem sei como começar este texto… Talvez dizendo que fiquei acordado até às 6h da manhã, sem conseguir desligar, depois da 4ª edição do Sarau do Largo das Neves, em Santa Teresa (Rio de Janeiro), revivendo um tanto do encontro onde comemorei os meus 39 anos, tamanha energia boa, alegre, festiva, que tomou conta de todos & contagiou a praça.

A noite foi linda! As escolhas poéticas, as melhores possíveis, e as leituras foram arrasadoras!

A minha mãe, a cabocla Jurema Armond, está numa alegria só! Quando voltávamos para casa, terminado o sarau, ela disparou: “meu filho, procure cultivar sempre o amor & o carinho dos seus amigos, porque essa turma é bonita demais, você não deve se afastar”. Ela realmente ficou impressionada com a vibração, com a energia, que os participantes conseguiram imprimir & deixar em Santa Teresa.

Estou aqui em puro estado de poesia, que é o estado de graça, que é o estado de felicidade plena, o êxtase decantado & tão-só. Amor da cabeça aos pés!

Eu só tenho a agradecer, profundamente!, a existência de cada um que tornou a noite do dia 25/06 das coisas mais emocionadas que eu já vivi.

Agradecer profundamente & especialmente ao grande & admirado poeta Luis Turiba (na foto), que me deu a honra das suas presença & leitura, recitando o seu lindíssimo poema “Língua à brasileira”.

Agradecer profundamente os livros & cadernos que ganhei, adorei todos!

Agradecer, também profundamente, a presença das pessoas que foram ao sarau & que eu não conhecia & que se emocionaram com tudo aquilo que vivenciamos. Obrigadíssimo, gente nova & querida! Espero que, a partir desta última edição, vocês ajudem a engrossar o caldo!

Viva são João!
Viva a poesia!
Viva vocês, meus amigos, irmãos de jornada!

Mês próximo tem mais!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do livro: Estrela da vida inteira. autor: Manuel Bandeira. editora: Nova Fronteira.)

 

 

PROFUNDAMENTE

 

Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?
— Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.

*

Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?

— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.

A FOGUÊRA DE SÃO JOÃO — SARAU DE ANIVERSÁRIO
22 de junho de 2015

Sarau Largo das Neves_PEmP

São João_Fogueira
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Um convite a TODOS:

Para a 4ª edição do SARAU DO LARGO DAS NEVES, em SANTA TERESA (Rio de Janeiro), em frente ao BAR ALQUIMIA (percebe-se o bar pela movimentação das pessoas no largo), na quinta-feira dia 25 DE JUNHO, concentração às 19h, comemorando os 39 aninhos que completo no dia anterior ao do sarau, dia de são João Xangô menino, 24 de junho — viva são João! viva o milho verde! viva a refazenda!

(Vai ter bolo para o parabéns!)

Justamente por ser um sarau à época dos festejos juninos, preparei uma seleção, para a abertura do sarau, toda voltada ao são João, aos festejos em nome do santo. Abro com 6 autores: Patativa do Assaré; Décio Valente; Waly Salomão; Cecília Meireles; Noel Rosa; Roque Ferreira. 6 poemas todos com a temática do são João. Para o decorrer do evento, separei alguns outros poemas que ampliam a temática da festa para a sua ambiência: o interior, a roça, a vida simples & ordinária, ao mesmo tempo riquíssima & sofisticada, do campo: Thiago de Mello, Manoel de Barros, Cora Coralina, Adélia Prado, Manuel Bandeira, Paulo César Pinheiro, e mais o que pintar!

Queridos, saliento o fato de que NÃO SE TRATA de um sarau TEMÁTICO. NÃO. Estou me propondo a questão de recitar poemas juninos & de temática interiorana — para a abertura & algumas costuras no decorrer da noite — mas isso, de maneira nenhuma, é OBRIGATÓRIO para participar das leituras. O sarau continua aberto a TODO & QUALQUER TEMA. Sei que todos nós temos cotidianos agitados, cotidianos por vezes (inúmeras!) apressados, então não quero ninguém catando, feito louco, poemas de são João ou com temas do interior. Pelamor! Vamos relaxar, minha gente! Estamos aqui, antes de tudo & qualquer coisa, para GOZAR & SER FELIZ! Então: se quiser levar, se quiser procurar, se tiver em casa, se se lembrar, ótimo, venha com seus versos juninos e/ou interioranos. Se não quiser, não tiver, não lembrar, ótimo também, traga os versos de amor, de amizade, de solidariedade, de humor, de protesto, enfim, versos são sempre BEM-VINDOS!

A idéia, desta vez, é o sarau literalmente na praça do largo, pegando, emprestada, a energia do bar Alquimia, comandado pela querida amiga Denise Cunha, para o microfone & a caixa de som. Sairmos do bar & invadirmos a praça: com amor no coração, preparamos a invasão!

O sarau é organizado por mim & por uma turma de amigos imprescindível, que faz a coisa acontecer da maneira mais delicada & generosa! Obrigadíssimo, turma amada & idolatrada (salve salve!), por existir na minha vida!

No mais, o mesmo de sempre: vamos com a nossa alegria, o nosso sorriso, os nossos versos, a nossa vontade de ser feliz!

Recapitulando:

Sarau no largo das Neves (na frente do bar Alquimia), em Santa Teresa
Quinta-feira (25/06), a partir das 20h30
19h: concentração para uns drinques & um bate-papo animado
– Comemoração dos 39 aninhos deste que vos escreve

Poeme-se!
Eu & a turma organizadora aguardamos vocês!

Ilustrando esta publicação, deixo um poema, comovido, delicado, que integra a minha seleção para o sarau, sobre a noite alegre & rica, o lindo festejo & o santo sertanejo.

Beijo todos!
Paulo Sabino.

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(do livro: Melhores poemas. seleção: Cláudio Portella. autor: Patativa do Assaré. editora: Global.)

 

 

A FOGUÊRA DE SÃO JOÃO

 

Meu São João, meu São Joãozinho!
Quanto amô, quanto carinho,
Quanto afiado e padrinho
Nesta terra brasilêra
Não tem a gente arranjado,
No quilaro abençoado,
Tão belo e tão respeitado,
Da sua foguêra.

Meu querido e nobre santo,
Que a gente qué e ama tanto,
Sua foguêra é o encanto
Da gente do meu sertão.
Não pode sê carculada
A porva que vai queimada
Nessas noite festejada
Da foguêra de São João.

Quantos véio bacamarte
Virge, que nunca fez arte,
Não tão guardado de parte,
Com amô e devoção,
Mode o povo sertanejo
Com eles fazê trovejo,
No mais alegre festejo
Da foguêra de São João!

Pois quarqué arma ferina,
Bacamarte ou lazarina,
Já criminosa, assarsina,
Como é a do caçadô,
Não tem a capacidade
De atirá com liberdade
Na santa quilaridade
Desta foguêra de amô.

Meu São João! Meu bom São João!
Santo do meu coração,
Repare e preste tenção
Quanto é lindo o seu festejo.
Repare lá do infinito
Como isto tudo é bonito,
Sempre digo e tenho dito
Que o senhor é sertanejo!

O homem pode sê ruim
E tê mardade sem fim,
Vivê da intriga e moitim,
Socado na perdição,
Mas a farta mais grossêra,
Mais e feia e mais agorêra,
É de quem não faz foguêra
Na noite de São João.

No mundo tem tanta gente
Véia, já quage demente,
Que não sente o que nós sente
E desfruita por aqui,
Gente sem gosto e sem sorte,
Que já vai perto da morte,
Sem vê um São João do Norte,
Nas terras deste Brasí.

Quem veve lá na cidade
Não conhece de verdade
A maió felicidade,
Três cabôco empareiado,
Com seus bacamarte armado
Dá três tiro encarriado:
— Pei! Pei! Pei! Viva São João!

E o foguete e o buscapé,
E o traque faz rapapé,
Arvoroçando as muié,
Quando elas vai sê madrinha,
E a contente criançada,
Na mais doce gargaiada,
Vai puxando uma toada,
Brincando de cirandinha.

Nesta noite alegre e rica
O prazê se mutiprica,
Na latada de oiticida
Tudo dança com despacho.
O véio Jirome Guéde,
Que sacrifiço não mede,
Toca o que o povo lhe pede
Numa armonca de oito baxo.

Meu São João! Meu bom São João!
Chuvinha, tiro e balão
Nós lhe manda do sertão,
Do nosso grande país,
Damo viva a toda hora
Quando o bacamarte estora,
Dos santo lá da Gulora
O senhô é o mais feliz!

A cinza santa e sagrada
De sua foguêra amada,
Com fé no peito guardada
Quem tira um pôquinho dela
Despois que se apaga a brasa
E bota em roda da casa,
Na vida nunca se atrasa,
Se defende das mazela.

É tão grande, é tão imensa
A minha fé e minha crença,
Que se Deus me dé licença,
Quando eu morrê, vou levá
Grosso fêcho de madêra
De angico e de catinguêra,
Pra fazê uma foguêra
Lá no céu, quando eu chegá.

MAS NÃO É SÓ ISSO APENAS
3 de setembro de 2014

Poesia_Aperte Play

Cadernos_Paulo Sabino__________________________________________________________________

o poeta & a sua obstinada busca em realizar, a cada feito, o melhor poema:

a construção se faz pouco a pouco. o esqueleto estético (o esboço do que se pretende um poema) segue o seu trajeto de sol, segue o seu trajeto em busca de luminosidade, de claridade, para ter algum norte, para ganhar o seu rumo de ritmo & sentidos: cimento, tijolos sobre tijolos, e a obra — o poema — projeta-se em seu propósito, evitando a lógica, o óbvio. afinal, a poesia trabalha com o deslocamento da linguagem no seu mais alto grau de perplexidade. a poesia, trabalhando com o deslocamento da linguagem no seu mais alto grau de perplexidade, quer comunicar mas sem facilitar para o leitor. os jogos de linguagem criados nem sempre são palatáveis à gula do entendimento nosso à primeira vista. em muitos casos, o poema solicita diversas visitações, o poema reclama um número incontável de leituras, a fim de uma apreensão mais abrangente do que comunicam os versos.

metáfora por metáfora, metro ante metro (metro: além de unidade de medida de comprimento internacional, é também a medida que estabelece a quantidade de sílabas de cada verso, o que garante a forma rítmica de uma obra poética), o ritmo imprevisível dos versos dá-se, assim, por descoberto: eis, finalmente, o poema aprontado pelo poeta.

o prédio de sons & signos — no caso, a construção em versos: o poema — traspassa o indizível, o prédio de sons & signos atravessa o que não é dito, pois tudo que compõe o poema (seus jogos lingüísticos, o prédio de sons & signos) vingará depois que ele for dado à expectativa dos leitores & dos críticos (tudo que se tem a saber de um poema encontra-se apenas no poema, na sua arquitetura de versos & palavras & idéias criadas entre versos & palavras, que leitores & críticos se esforçam para entender, para desvendar, para revelar).

no processo em que se atiram leitores & críticos (o de entender, o de desvendar, o de revelar, a arquitetura de versos & palavras & idéias criadas entre versos & palavras), certo é pintar o edifício — o prédio de sons & signos — com as cores do raciocínio, certo é colorir o edifício — o prédio de sons & signos — com as cores da razão crítica, que é o que nos capacita à atividade de examinar & avaliar minuciosamente uma produção artística, literária ou científica.

a fachada do poema — a sua forma & conteúdo — aberta, a fachada do poema — a sua forma & conteúdo — à vista do que pode a prosa, a fachada do poema — a sua forma & conteúdo — à vista do que pode a arte de desvendar o poema (trabalho que realizo neste espaço): mas não é só isso apenas: a minha voz, a voz de paulo sabino, uma das tantas vozes que se empenham na arte de desvendar poemas, a voz de paulo sabino, que, segundo o poeta, mistério de haver mistério, voz que ao poeta parece misteriosa pelo que diz & cala, a voz de paulo sabino, vinda de anotações dos tantos cadernos de rabisco em que trama as linhas que dão forma aos textos de apresentação aqui dispostos, a voz de paulo sabino, que, ao poeta, é o esforço nítido para divulgar o cosmo imperecível, que vai de cicero a safo, de bandeira a baudelaire.

a voz de paulo sabino: o esforço nítido para divulgar o cosmo imperecível, que vai de cicero a safo, de bandeira a baudelaire: o cosmo imperecível: o universo criado pelas mãos sofisticadas da poesia, universo que nunca morrerá, uni/verso que resiste em versos, inabalável, universo que resiste às intempéries da vida moderna (apressada, superficial, desatenta).

(e, sem dúvida, sobretudo o verso é o que pode lançar mundos no mundo.)

segundo o poeta, a casa, construída por paulo sabino através das suas interpretações textuais acerca dos edifícios de sons & signos que são os poemas, se monta, a casa — construída por paulo sabino — se põe pronta, de pé, e nada parece faltar à peça.

para o poeta, à casa construída & montada por paulo sabino, paralela ao edifício de sons & signos que são os poemas, nada parece faltar, tudo cabe: o ethos (palavra grega que significa, entre outras coisas, o conjunto de valores característicos de um movimento cultural ou de uma obra de arte), o pathos (palavra grega que significa, entre outras coisas, paixão, sentimento excedido), o moto-contínuo (movimento de um mecanismo que, após iniciado, continuaria indefinidamente, gerando, através do gasto de energia, mais energia para o seu funcionamento): o ethos (os valores característicos do poema), o pathos (o sentimento profundo que o poema abarca), o moto-contínuo (o trabalho incessante, ininterrupto, de interpretação do poema): para o poeta, na casa construída & montada por paulo sabino, nada parece faltar; tudo cabe nas interpretações textuais de paulo sabino.

depois das verificações todas, a respeito do trabalho poético & do trabalho de interpretação de um poema, o olhar do poeta se dispersa.

a criação — o poema — se fez pouso, a criação se fez edifício de sons & signos (cujos ambientes procuro habitar, todos de uma vez), e, ao mesmo tempo, a criação — o poema — se fez ponte (construção lingüística que estabelece comunicação com o seu leitor).

o arcabouço estético (o esboço do que se pretende um poema), projetado pelo poeta, chega ao seu percurso de sonho para virar ode (notem a rima que o poeta cria nos dois últimos versos do poema), para virar poema lírico de versos de mesma medida, ode dedicada a paulo sabino, seu companheiro-amigo de jornada poética.

mas não é só isso apenas: o poema projetado pelo poeta é, de fato, uma ode, é, de fato, um poema lírico de versos de mesma medida: tratam-se de redondilhas maiores (os versos possuem todos 7 sílabas, a começar pelo título do poema).

sofisticação pura.

ao poeta, o meu mais sincero & feliz agradecimento por este “presente” poema!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do site: Quefaçocomoquenãofaço. de: Adriano Nunes. autor: Adriano Nunes.)

 

 

MAS NÃO É SÓ ISSO APENAS

 

A construção se faz pouco
A pouco. O esqueleto estético
Segue o seu trajeto de
Sol para ter algum norte —

Cimento, tijolos sobre
Tijolos e logo a obra
Projeta-se em seu propósito,
E evita a lógica, o óbvio.

Metáfora por metáfora,
Metro ante metro, o ritmo
Imprevisível dos versos
Dá-se assim por descoberto.

O prédio de sons e signos
Traspassa o indizível, pois
Tudo vingará depois
Que for dado à expectativa

Dos leitores e dos críticos —
Certo é pintar o edifício
Co’as cores do raciocínio.
A fachada aberta à vista

Do que pode a prosa, a arte
De desvendar o poema —
Mas não é só isso apenas:
A voz de Paulo Sabino,

Mistério de haver mistério,
Anotações no caderno
De rabisco, o esforço nítido
Para divulgar o cosmo

Imperecível que vai
De Cicero a Safo, até
De Bandeira a Baudelaire.
Palavra sobre palavra,

A casa se monta e nada
Parece faltar à peça.
O ethos, o pathos, o moto-
Contínuo, e o olhar se dispersa.

A criação se fez pouso
E ponte. O arcabouço estético
Chega ao seu percurso de
Sonho para virar ode.

ACONTECEU: PORTUGAL, MEU AVOZINHO
16 de outubro de 2012

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a língua portuguesa é uma das grandes paixões da minha vida.

  
acho-a linda, sofisticada, elegante, adoro sua sonoridade, as palavras que a moldam.
 
sou, de fato, um seu apaixonado.
 
(a língua é minha pátria. o que penso, o modo de processar as coisas, penso, processo, em português. paulo sabino existe em língua portuguesa. nenhuma pátria me pariu. quem me pariu, e continua parindo, é a língua.)
 
e a herança da língua que tanto me encanta, e que canto tanto, devo a portugal, meu avozinho.
 
só por isso, só pela língua (e por conseqüência: só por camões, por pessoa, por al berto, por eugénio, por sophia, por natália, e por tantos outros), já me é válida a herança portuguesa.
 
o que, hoje, conhecemos como brasil, tem a sua gênese a partir da chegada dos portugueses. portugal, pai do brasil. eu, como filho deste solo, como mais um filho do solo brasileiro, tenho portugal de avô.
 
portugal, pai desta terra conhecida por brasil, portanto, portugal, meu avozinho, como foi que temperaste — qual o ponto? — esse gosto misturado de saudade & de carinho?
 
(ter saudades é viver. e o português é saudades.)
 
portugal, pai desta terra conhecida por brasil, portanto, portugal, meu avozinho, como foi que temperaste — qual o ponto? — esse gosto misturado de pele branca & de pele trigueira — gosto de áfrica & de europa, que é o da gente brasileira?
 
(gosto de samba & de fado, portugal, meu avozinho.)
 
brasil, grande mundo de ternura (& de agrura!), brasil, grande mundo feito da miscigenação de três continentes, de três mundos — tupã, deus, oxalá…
 
foram os portugueses os grandes responsáveis pelo encontro (marcado a ferro fogo luta sangue) dos três continentes no solo que viu nascer este a que chamamos brasil. portugal, pai do brasil, portanto, meu avozinho de carinhos & castigos, meu avozinho de bênçãos & maldições, meu avozinho de amores & açoites.
  
nos dias atuais, passados tantos anos, a relação entre portugal & o seu filho brasil & os filhos do seu filho brasil é de admiração mútua, entendida a força das suas culturas — no teatro, na dança, na música, na literatura.
 
nos dias atuais, passados tantos anos, a relação de admiração mútua aconteceu.
 
a relação de admiração mútua (portugal – brasil) aconteceu com o passar dos anos, com o passar do tempo — só o tempo fez a cama, como em todo grande amor.
 
o amor brasil – portugal foi chegando de mansinho, se espalhou devagarinho, foi ficando até ficar. sem maiores encantamentos — sem um sino para tocar, sem que o chão tivesse estrelas, sem um raio de luar.
 
a relação de admiração mútua (portugal – brasil) simplesmente: aconteceu.
 
a prova está aqui, nesta publicação: manuel bandeira, um neto ilustre, louvando em versos o seu avozinho de além-mar; também o poeta-compositor péricles cavalcanti & um seu poema-canção, em roupagem de fado, na interpretação da cantora portuguesa cristina branco.
 
(gosto de samba & de fado, portugal, meu avozinho.)
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Estrela da vida inteira. autor: Manuel Bandeira. editora: Nova Fronteira.)
 
 
PORTUGAL, MEU AVOZINHO
 
 
Como foi que temperaste,
Portugal, meu avozinho,
Esse gosto misturado
De saudade e de carinho?
 
Esse gosto misturado
De pele branca e trigueira,
— Gosto de África e de Europa,
Que é o da gente brasileira?
 
Gosto de samba e de fado,
Portugal, meu avozinho.
Ai Portugal que ensinaste
Ao Brasil o teu carinho!
 
Tu de um lado, e de outro lado
Nós… No meio o mar profun-
                    do…
Mas, por mais fundo que seja,
Somos os dois um só mundo.
 
Grande mundo de ternura,
Feito de três continentes…
Ai, mundo de Portugal,
Gente mãe de tantas gentes!
 
Ai, Portugal, de Camões,
Do bom trigo e do bom vinho,
Que nos deste, ai avozinho,
Este gosto misturado,
Que é saudade e que é carinho!
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(autor: Péricles Cavalcanti.)
 
 
ACONTECEU
 
 
Aconteceu quando a gente não esperava
Aconteceu sem um sino pra tocar
Aconteceu diferente das histórias
Que os romances e a memória
Têm costume de contar
 
Aconteceu sem que o chão tivesse estrelas
Aconteceu sem um raio de luar
O nosso amor foi chegando de mansinho
Se espalhou devagarinho
Foi ficando até ficar
 
Aconteceu sem que o mundo agradecesse
Sem que rosas florescessem
Sem um canto de louvor
 
Aconteceu sem que houvesse nenhum drama
Só o tempo fez a cama
Como em todo grande amor
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(do site: Youtube. canção: Aconteceu. autor da canção: Péricles Cavalcanti. intérprete: Cristina Branco.)
 

À POESIA
10 de outubro de 2012

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por que você, poesia, me abandona no vértice (no ponto culminante) da vertigem, quando a chuva cai (como numa tela do pintor belga rené magritte, célebre por suas pinturas surrealistas contrastando com o tratamento hiper realista dado aos objetos dos seus quadros) sobre as rosas que desistiram, sobre as rosas que renunciaram a natureza das rosas?
 
por que, poesia, novamente me perco (abandonado por você) entre hortênsias, no aclive (na ladeira), hortênsias mais altas que homens, mais vivas que o exército de terracota?
 
(exército de terracota: também conhecido por guerreiros de xian ou exército do imperador qin, é um conjunto com mais de oito mil figuras de guerreiros & cavalos em terracota, que é uma argila manufaturada & cozida no forno, conjunto encontrado próximo ao mausoléu do primeiro imperador da china, qin shihuang.)
 
sem você, poesia, eu caminho no plano, caminho no nivelado, no não-acidentado, no regular; com você, poesia, eu caminho no acidentado, no irregular, no desnivelado. e eu gosto.
 
(todos os poemas: um engano.)
 
sem você, poesia, tudo escorre, pois a sua presença — em palavras & versos — permite que permaneça, permite que não escorra, tudo o que é registrado em palavras & versos (ainda que se saiba que todos os poemas: um engano. afinal, no fundo no fundo, nada do que se deseja permanente o poema retém em palavras & versos).
 
sem a poesia eu caminho no plano, tudo escorre — há, sem ela, um silêncio aturdido, silêncio perturbado, intranqüilo, um silêncio desconfortável na sua condição de silêncio.
 
sem a sua luz, poesia, o que me resta?
 
sem a luz da poesia, o que me sobra?
 
o que me sobra (sem a luz da poesia): viver, conhecer o mundo, reconhecendo-o através das vivências, tateando às cegas as suas formas & maneiras, onde assistimos ao seu passar (no caminho vidafora, tudo escorre), onde assistimos ao seu fluir constante, fluir que, sem a companhia sua, poesia, fica faltando um pedaço — sem a luz da poesia há um silêncio aturdido; e, no silêncio aturdido (silêncio perturbado, intranqüilo), há uma cota do que morre, há uma parcela do que escorre. no silêncio aturdido há uma parte do que se esvai no tempo & o ensejo de reter, na forma poética, uma cota do que morre, o ensejo de reter, na forma poética, uma parcela do que escorre, o ensejo de reter, na forma poética, uma parte do que se esvai no tempo (de tudo o que se vive, algumas vivências acreditamos dignas, merecedoras de registro; no caso do poeta: de um registro em forma de poesia).
 
as experiências merecedoras de registro em forma de poesia, se não registradas em forma de poesia, passam na frente de um espelho que, mudo, assiste à fuga do que reflete (o que reflete o espelho: um quarto de veludo: um compartimento contrátil: o que passar pela sua frente: a vida).
 
as experiências merecedoras de registro em forma de poesia, se não registradas em forma de poesia, criam um silêncio aturdido. e, mesmo assim, mesmo com o silêncio aturdido, diversas experiências merecedoras de registro passam apenas captadas & aprisionadas em algum tempo do espelho.
 
se assim for, se decidir a poesia não dar o ar da sua graça, abandonar o ritmo, eis tudo:
 
o torneado hábil das palavras & o dissonante vão das consoantes não podem mais — nem por um instante — buleversar (neologismo criado, e já utilizado por drummond & bandeira, a partir do francês bouleverser, que significa bagunçar, perturbar, abalar) o meu pequeno alento.
 
palavra nenhuma — nem por um instante, nem por um segundo — pode abalar, pode perturbar, o meu pequeno alento, o meu pequeno ânimo, a minha pequena inspiração.
 
abandonar o ritmo, eis tudo:
 
já nem tento satisfazer com tais materiais — os tais materiais: as palavras — minha volúpia, o meu prazer, pelo contratempo. já nem tento satisfazer com palavras minha volúpia pelo contratempo, meu prazer pelas circunstâncias imprevistas, pelos acidentes, ainda que fosse fugaz o prazer no momento do encontro (no momento do encontro com os tais materiais — o torneado hábil das palavras, o dissonante vão das consoantes).
 
abandonar o ritmo, eis tudo: 
 
mudar de logradouro, mudar de endereço, mudar de moradia (adeus, poesia!), ou mudar de logro (ou mudar de ilusão, de fraude, de cilada), que isso de escrever é jogo perdido de antemão, no mano a mano.
 
isso de escrever é jogo perdido de antemão: entre a experiência/vivência minha & aquilo que escrevo sobre ela, aquilo que escrevo sobre ela está sempre aquém da experiência vivida.
 
por mais bem escrito um texto a respeito de uma experiência vivida, um texto nunca é mais do que aquilo que foi vivenciado. o texto, por mais bem escrito, não é aquilo que se vivenciou. a experiência vivida ficou para trás, perdida num tempo pretérito, em alguma dobra do espelho.
 
(por isso o poema, no fundo no fundo, um fundo falso: o poema é sempre logro, é sempre uma ilusão, uma fraude, uma cilada.)
 
mas sem ressentimento (muito pelo contrário):
 
o mais são nuvens (também passageiras, que passam como passa o passarinho, passa a noite, passa o dia), e todos os poemas: uma ilusão, uma fraude: uma cilada:
 
um engano.
 
(dos melhores que vivencio em vida!)
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Corola. autora: Claudia Roquette-Pinto. editora: Ateliê Editorial.)
 
 
 
à poesia
 
 
POR QUE você me abandona
no vértice da vertigem
quando a chuva cai (um Magritte)
sobre rosas que desistiram?
Por que novamente me perco
entre hortênsias, no aclive,
mais altas que homens, mais vivas
que o Exército de Terracota?
Sem você eu caminho no plano,
tudo escorre
— há um silêncio aturdido
uma cota do que morre
por dentro daquilo que brota.
Sem a sua luz, o que me resta?
Palmilhar às cegas
um quarto de veludo
onde o espelho, mudo, assiste 
à fuga do que reflete.
 
 
 
O TORNEADO hábil das palavras
o dissonante vão das consoantes
não podem mais — nem por um instante —
buleversar o meu pequeno alento.
E já nem tento, ainda que fugaz
fosse o prazer no momento do encontro
satisfazer com tais materiais
minha volúpia pelo contratempo.
Abandonar o ritmo, eis tudo:
mudar de logradouro — ou de logro —
que isso de escrever é jogo
perdido de antemão, no mano a mano.
Mas sem ressentimento: o mais são nuvens,
e todos os poemas um engano.

INÉDITO DE JOÃO CABRAL DE MELO NETO + ARS POETICA
8 de maio de 2012

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INFORMAÇÃO LUXUOSÍSSIMA!

Acho um PRIVILÉGIO o acesso tão direto a ela.

Me disse a sempre benvinda & querida Inez Cabral de Melo:

 

estou organizando uma edição com um manuscrito inédito do véio (estudos para um auto q ele não terminou) e o armando [freitas filho] escreveu a apresentação. ficou D+! em agosto ou setembro nas melhores livrarias…

 

OBAAAAA! Material INÉDITO do mestre João Cabral de Melo Neto com apresentação de Armando Freitas Filho!

Aos fãs, fica a expectativa & a espera!

(Certamente estarei na noite do lançamento! Armando + João Cabral + Inez Cabral = IMPERDÍVEL!)

João Cabral é considerado, juntamente com Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira & Ferreira Gullar, um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos.

A sua poética é conhecida por ser direta, sem floreios, árida, seca, apenas o estritamente necessário, as palavras ponderadas & milimetricamente medidas, explorando ao máximo as potencialidades do mínimo, sem espaço para excessos & verborragia.

Abaixo, aos senhores, um poema lindíssimo do mestre, uma espécie de ars poetica (versos que tratam da natureza da poesia, versos que tratam do processo de criação poética), poema, portanto, que revela o modo de criar poemas utilizado por João Cabral, poema comentado magistralmente pelo meu querido amigo, o poeta & filósofo Antonio Cicero.

Enquanto não chega o lançamento do material inédito de João Cabral, deliciem-se com a bela análise do Cicero e com os belos & clássicos versos do mestre!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do livro: A educação da pedra e depois. autor: João Cabral de Melo Neto. editora: Nova Fronteira.)

 

CATAR FEIJÃO

A Alexandre O’Neill

Catar feijão se limita com escrever:
jogam-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na da folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.

2

Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a com o risco.

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(trecho do livro: Poesia e filosofia. autor: Antonio Cicero. editora: Civilização Brasileira.)

 

No poema “Catar feijão”, o poeta João Cabral de Melo Neto exprime, metafórica porém ostensivamente, algumas ideias sobre escrever: sobre, no fundo, escrever poemas (…).

Tratando-se de uma espécie de ars poetica, esse poema chega bastante perto de ser proposicional, dizendo que o poeta deve livrar-se do que é leve (superficial) e oco (insubstancial), palha (ninharia) e eco (repetição do que já foi dito); e que, longe de buscar uma dicção de musicalidade convencional e fácil, deve criar ruídos, obstáculos, surpresas que obriguem o leitor a se manter acordado e atento, retirando-o, através de usos fonéticos, sintáticos, semânticos inesperados, da sonolência, do torpor e da autossatisfação do habitual, do que já tenha sido digerido. A surpreendente comparação entre catar feijão e escrever um poema faz parte da sua estratégia.

Ora, o próprio poema é admirável, não porque proponha essa ars poetica, mas porque realiza magistralmente aquilo que prescreve. Não é no que diz, mas em como diz o que diz que reside sua poesia. É que o poema iconicamente realiza o que aparentemente prescreve.

DO OFÍCIO
15 de março de 2012

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o combustível da escrita,
 
aquilo que a alimenta,
 
aquilo que a impulsiona,
 
aquilo que a estimula:
 
o entusiasmo, a angústia, a inquietação, o medo, o prazer, a tentativa de auto-conhecimento, e até o tédio (a falta do que fazer também leva à construção de textos).
 
porém, sobretudo, o (talvez) maior combustível da escrita é o desejo: desejo de dizer algo, desejo de expor algo, desejo de compartilhar algo.
 
se os sentimentos aqui descritos são o combustível da escrita, isto é, se os sentimentos aqui descritos são a matéria que se queima para a produção da energia da escrita, a mente (parte que nos possibilita pensar) continua sendo o motor da escrita, isto é, a mente continua sendo o que move a escrita, mente atormentada (e estimulada) pelo tempo, esse ser assombrado por si mesmo (afinal, o “tempo”, com o passar do tempo, devora a si mesmo continuando a ser o mesmo) & assombrado pelo mundo (afinal, o tempo é preenchido, o tempo é inteiramente ocupado, pelas coisas mundanas, coisas que, por preenchê-lo, são como uma espécie de sombra que o recobre), mundo que, conforme o vento (vento-brisa, vento a favor, ou vento-ventania, vento contra), deleita & dispersa o tempo. 
 
o grande combustível da escrita: o desejo: desejo de dizer algo, desejo de expor algo, desejo de compartilhar algo.
 
e o poeta é o cara que se esmera, a vida inteira!, em malabares de palavras, o poeta é o cara que se esmera em manobras arrojadas, corajosas, manobras ousadas, com as palavras, deslocando-as do seu sentido ordinário, sentido comum, e, num instante tonto, uma frase solta ao avesso vira verso, ecoando assim, de modo ocasional, de maneira imprevisível, a melodia rara de cantiga boa.
 
ser poeta é jamais perder o estado de perplexidade com o mundo, com a gente. pois é neste estado, de puro espanto, de puro pasmo, que se dá a poesia. 
 
um poema traz espanto, susto, maravilha, pelas idéias & sentimentos que geram os jogos de palavras dispostos nos versos.  
 
ser poeta é nunca esquecer o suspiro alheio, suspiro que não o nosso, porém suspiro que, mesmo não sendo o nosso, nos espanta, nos assusta, nos maravilha: espumas flutuantes (castro alves), estrela da vida inteira (manuel bandeira), claro enigma (carlos drummond de andrade): suspiros poéticos alheios que nos inspiram & nos instigam a escrever mais & mais. 
 
escrever mais & mais, mais & mais & mais & mais, até, quem sabe, a possibilidade de um livro.
 
no dia em que eu publicar um livro, de que matéria serão suas páginas? serão páginas de carne (muy líricas, muy pessoais)? serão as páginas de carne para que o verso seja desenhado pelo rastro do verme?… 
 
que arte, que artefato será usado para confeccioná-lo, o livro que eu, um dia, porventura, publicar?
 
independente do artefato utilizado à confecção do livro que eu, um dia, porventura, publicar (letras de salitre em páginas de pedra, ou página de esmeralda com letras em urânio, ou a pele do sexo bordada no pano), a superfície do texto é toda traçada no meu crânio, porrada por porrada, ano por ano (com os embates & vivências vidafora, e com o aprimoramento — duro, árduo —do exercício da escrita), até brotar, crescer, florescer, a flor-poema & suas pétalas-estrofes.
 
a superfície do texto é toda traçada no meu crânio, porrada por porrada, ano por ano, até brotar, crescer, florescer: gerar gerânio.
 
o poema: um santo remédio às azias existenciais.
 
um poema por dia (pelo menos!), como um comprimido, homeopatia, medicamento de dupla profilaxia: utilizo para cura, uso para minha melhora, e é a saudade — seja do que for — que o poema também remedia.
 
poema: a minha pílula do bem-estar.
 
poema: dose pequena de alegria.
 
(salve a minha vida na sua!)
 
beijo todos!
paulo sabino. 
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(do livro: Olho nu. autor: Dado Amaral. editora: Mundo das Idéias.)
 
 
 
é entusiasmo, é angústia
é inquietação, é medo
é prazer, é tentativa
de auto-conhecimento
é até o tédio, visitante raro
e é sobretudo desejo, talvez,
o combustível da escrita.
 
o motor continua sendo
essa mente atormentada pelo tempo
esse ser assombrado por si mesmo e pelo mundo
que o deleita e dispersa, conforme o vento
 
 
 
poeta é o cara que se esmera a vida inteira em malabares de palavras
e num instante tonto uma frase solta ao avesso vira verso e no acaso
por acaso ecoa a melodia rara de cantiga boa                     ser poeta é
jamais perder o estado de perplexidade com o mundo com a gente
é nunca esquecer o susto do suspiro alheio            suspiros poéticos
e saudades espumas flutuantes estrela da vida inteira claro enigma:
poeta é pipa solta em dia de ventania
 
 
 
no dia em que eu publicar um livro
de que matéria serão suas páginas,
de carne?
para que o verso seja desenhado
pelo rastro do verme?
que arte, que artefato será usado
para confeccioná-lo,
o livro que eu um dia porventura
publicar?
letras de salitre em páginas de pedra,
fezes de gaivota nos rochedos do oceano,
pele do sexo bordada no pano,
página de esmeralda, letras em urânio
a superfície do texto traçada toda
no meu crânio, porrada por porrada,
ano por ano,
até brotar crescer florescer
gerar
gerânio.
 
 
 
Um poema por dia
é boa medida
um poema por noite
a cada madrugada
quando o mundo silencia
e meus clamores soam mais
e mais ainda se você não está
se você não está presente
ou se encontra inacessível
 
Um poema por dia
como um comprimido
homeopatia, medicamento
de dupla profilaxia:
utilizo para cura
e a saudade remedia;
depois te ministro, poema
dose pequena de alegria

SONHO DE UMA TERÇA-FEIRA GORDA
8 de março de 2011

sonho de uma terça-feira gorda:
 
mesmo um céu cinza, o sorriso branco.
 
sonho de uma terça-feira gorda:
 
ainda que um dia encoberto, a alegria & a fantasia extravasadas.
 
os dominós eram negros, e eram negras as suas máscaras.
 
iam, por entre a turba, com solenidade, com ar lúgubre, porém, por dentro, a profunda, a silenciosa alegria.
 
pois que era dentro deles, dos dominós, negros, que estava a alegria.
 
alegres, pois que sejam, e estejam, os foliões, para a batalha de confetes, e também para a batalha da vida, em prol de melhorias, atentos a decisões que dizem respeito às nossas vidas.
 
beijo bom & leve em todos!
paulo sabino.
 
(viajo para a região serrana na quarta-feira de cinzas, local sem internet. semana próxima estamos por aqui.)
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(do livro: Estrela da vida inteira. autor: Manuel Bandeira. editora: Nova Fronteira.)
 
 
SONHO DE UMA TERÇA-FEIRA GORDA
 
 
Eu estava contigo. Os nossos dominós eram negros, e negras eram as nossas
                                                                                                  [máscaras.
Íamos, por entre a turba, com solenidade,
Bem conscientes do nosso ar lúgubre
Tão contrastado pelo sentimento de felicidade
Que nos penetrava. Um lento, suave júbilo
Que nos penetrava… Que nos penetrava como uma espada de fogo…
Como a espada de fogo que apunhalava as santas extáticas!
 
E a impressão em meu sonho era que se estávamos
Assim de negro, assim por fora inteiramente de negro,
— Dentro de nós, ao contrário, era tudo claro e luminoso!
 
Era terça-feira gorda. A multidão inumerável
Burburinhava. Entre clangores e fanfarra
Passavam préstitos apoteóticos.
Eram alegorias ingênuas ao gosto popular, em cores cruas.
 
Iam em cima, empoleiradas, mulheres de má vida,
De peitos enormes — Vênus para caixeiros.
Figuravam deusas — deusa disto, deusa daquilo, já tontas e seminuas.
A turba, ávida de promiscuidade,
Acotovelava-se com algazarra,
Aclamava-se com alarido
E, aqui e ali, virgens atiravam-lhes flores.
 
Nós caminhávamos de mãos dadas, com solenidade,
O ar lúgubre, negros, negros…
Mas dentro em nós era tudo claro e luminoso!
Nem a alegria estava ali, fora de nós.
A alegria estava em nós.
Era dentro de nós que estava a alegria,
— A profunda, a silenciosa alegria…

CONFISSÃO
24 de setembro de 2010

a vocês,
 
belíssima confissão poética, onde o meu (talentosíssimo) poeta das alagoas, adriano nunes, mostra que as diferenças podem & devem ser complementárias, inda mais se tratando de poesia.
 
uma coisa que não canso de proferir (digo & repito aos quatro ventos) é que:
 
belezas não nasceram para exclusão, nasceram para complementaridade
 
sinto que a poesia, os poetas e os leitores só têm a ganhar com as singularidades de cada voz poética.
 
percebo que me torno melhor sendo o eco de tantas vozes divergentes; acumulo saberes.
 
detesto enquadramentos. 
abomino rótulos.
não suporto classificações. 
 
sinto-me fora de tudo: fora de esquadro, fora de foco, fora do centro. o trabalho que desempenho não tem nome, não pede enquadramento, rótulo ou classificação.
 
por isso absorvo tantos vates, sem pré-conceitos. acima de tudo, o que busco é autenticidade. e a autenticidade, senhores, pode ser encontrada em qualquer livro-ambiente. basta o ser: autêntico. 
 
essa “libertinagem literária” (rs), que apoio inquestionavelmente, está presente nas linhas que seguem.
 
nos versos, o poeta revela ao leitor algumas importantes influências literárias suas, as mais díspares (e eu ADORO!):
 
engole ferreira gullar, dorme com carlos drummond, e, tamanha “libertinagem” (rs), é uma pessoa ligada em pessoa (no fernando) e, como o bardo português, repleto de pessoas na pessoa.
 
e continua poemafora:
 
andando a pé (o pé com a dor), pecador de ofício, segue dando bandeira ao lado do manuel. na visão, dois campos (o augusto e o haroldo). na razão, os mil anjos de rilke. às quintas, mário quintana & sua companhia.
 
(uma pausa para verificações: que sabe mais o poeta de si se tudo o que de si sabe está envolto em poesia?) 
 
prossegue, fazendo um divertido jogo poético com a gênese que resultou no que hoje denominamos “brasil”: citação ao descobridor do país, pedro álvares cabral, que, nos versos, acaba por ser descoberto (rs), ao responsável pelo primeiro texto literário de que se tem notícia em terras brasileiras, que é a carta de pero vaz de caminha (famoso escrivão da esquadra de pedro álvares cabral), na qual descreve o seu deslumbramento ante o mundo novo que se descortinava ao seu olhar, e citação ao padre antônio vieira, jesuíta que viveu no brasil no século 17, famoso por seus satíricos sermões contra determinadas práticas da sua época, sermões de suma relevância para a literatura barroca brasileira & portuguesa. 
 
de repente as linhas dão um salto para os modernos: e waly sailormoon?, onde está o navegante luarento? e adélia, será que junto ao seu: prado? e piva, o roberto, o poeta de paranóias da paulicéia desvairada, cadê?
 
são tantos os responsáveis pelo emaranhado de versos… a quem dedicá-los? a circe, a “feiticeira das odisséias”?, ou a cecília, a “poeta das canções”?   
 
ao final, a constatação de que ficam muitos (tantos & tantos & tantos outros) poetas apenas no pensamento e na intenção, à margem desta confissão, e a ressalva, confessando ao último mestre citado, o grande paulo leminski, que lamenta por todos os outros não citados.
 
toda homenagem é um tanto “desfalcada”, um tanto “incompleta”, deixa sempre algo de fora. porém, o fato de deixar, sempre, algo de fora não a torna menos bonita, delicada & inspiradora.  
 
deliciem-se com esta belíssima confissão, ventada das alagoas e devidamente pousada neste espaço!
 
beijo em todos!
um outro, especialíssimo, no meu querido poeta adriano nunes!   
 
o preto,
paulo sabino / paulinho. 
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(do blogue: QUEFAÇOCOMOQUENÃOFAÇO. de: Adriano Nunes.)
 
 
CONFISSÃO  (autor: Adriano Nunes)
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engulo gullar
durmo com drummond
sou uma pessoa
ando muito a pé
pecador de ofício
dou tanta bandeira
na visão, dois campos
na razão, mil anjos
às quintas, quintana
que sei mais de mim?
descubro cabral
conto pra caminha
confesso a vieira
onde está waly?
no ar? nos túneis? nada!
eu, nunca? nem ela,
minha piva, adélia.
pra circe ou cecília?
os outros, os outros…
lamento, leminski!