LISBOA
8 de novembro de 2012

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sonhei, um dia, que estava em portugal, por um dia, à toa, num carnaval em lisboa.
 
um carnaval em lisboa: meu sonho voa além da poesia & encontra “o poeta” pessoalmente, meu sonho voa & encontra o poeta em: pessoa.
 
(gosto do pessoa na pessoa.)
 
no sonho, num carnaval em lisboa, a lua míngua, a lua decresce, a lua declina, pouco iluminando a noite, mas a lusitana língua acende a chama, acende o fogo; a lua míngua e, enquanto a lua míngua, pouco iluminando, a lusitana língua chama a palavra que acende, a lusitana língua chama a palavra que inflama, a lusitana língua chama a palavra que arde: chama, fogo, flama.
 
a língua lusitana acende a sua chama, iluminando a noite, clareando o breu, e, acendendo a sua chama, a palavra luzia, a palavra brilhava, luzia a linguagem na via pública, em plena rua, em forma de música (era carnaval em lisboa!), a palavra brilhava, a palavra luzia, em forma de marchinha, como esta aqui, de joão de barro, também conhecido por braguinha:
 
Anda, Luzia
Pega um pandeiro e vem pro carnaval
Anda, Luzia
Que essa tristeza lhe faz muito mal
 
em forma de música, na via pública, a palavra luzia: luzia-das-lusíadas-luzias.
 
a palavra luzia, a linguagem brilhava, nas tantas possibilidades de jogos sonoros & sintáticos.
 
sonhei que estava, um dia, em portugal, à toa, num carnaval em lisboa…
 
e seja o sonho que for, um dia, acorda-se dele. eu acordei.
 
pois bem. num belo dia, um amigo, em lisboa, pergunta o que quero de lisboa.
 
“nada”, respondo, não quero senão o que não vem nos postais, isto é: só quero o que não pode vir junto aos postais, só quero o que não pode ser aprisionado em fotos, mais um ou dois postais de lugares onde nunca fui feliz e, ainda assim (agora & sempre), mesmo postais de lugares onde nunca fui feliz, eu quis (a felicidade).
 
respondo ao meu amigo que não quero, de lisboa, senão o que lisboa não dá, o que ela guarda & é preciso roubar, captar nos seus ares, captar nas frestas da sua arquitetura, captar nas frinchas das suas ruas, abstrata: a secreta alegria que não cabe nos guias de turismo.
 
quero isso (a secreta alegria que não cabe nos guias de turismo), mais uma ou duas coisas que vêm nos guias de turismo.
 
vê esses rapazes & moças de olhos azuis, meu amigo? são holandeses. vê esses deuses & essas flores azuis, meu amigo? são azulejos. como trazê-los? como trazer, meu amigo, na bagagem, de presente a este seu amigo, esses rapazes & moças holandeses de olhos azuis, como trazer, meu amigo, na bagagem, de presente a este seu amigo, esses deuses & essas flores azuis de azulejos?
 
de nada valem os antiquários (as lojas de antiguidades); quando voltamos de lisboa, tudo o que trazemos (dos antiquários), percebemos, está partido, está quebrado, tudo o que trazemos vem faltando um pedaço: o pedaço faltoso: o que lisboa guarda & é preciso roubar, captar nos seus ares, captar nas frestas da sua arquitetura, captar nas frinchas das suas ruas, abstrata: a secreta alegria que não cabe nos guias de turismo nem nas peças dos antiquários.
 
por isso, respondo ao meu amigo, não vale a pena trazer nada, que daí, de lisboa, só trazemos, sem dar conta, o que nos parte, o que nos corta, mal fechamos a mala (no momento do adeus), mal abrimos a porta (no momento do adeus), saudosos de lisboa ainda em lisboa.
 
fechamos mal a mala (de saída), abrimos mal a porta (de saída): por isso, parte-se de lisboa e, no partir, parte de nós, em lisboa, permanece. parte-se de lisboa e, no entanto, parte de nós, em lisboa, prevalece.
 
(em mim, agora & sempre, permanece & prevalece a língua lusitana.)
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Sentimental. autor: Eucanaã Ferraz. editora: Companhia das Letras.)
 
 
 
UMA GAIVOTA VIESSE
 
 
O amigo, em Lisboa, pergunta o que quero de Lisboa;
nada, respondo, não quero senão o que não vem nos postais
mais um ou dois postais de lugares onde nunca fui feliz
 
e, ainda assim, agora e sempre, eu quis, não quero, Alberto,
de Lisboa senão o que ela não dá, o que ela guarda e é preciso
roubar, a secreta alegria que não cabe nos guias de turismo,
 
quero isso, mais uma ou duas coisas que vêm nos guias de turismo.
Vê esses rapazes e moças de olhos azuis? São holandeses.
Esses deuses e essas flores azuis? São azulejos. Como trazê-los?
 
De nada valem os antiquários; quando voltamos de Lisboa, tudo
o que trazemos, percebemos, está partido, por isso, Alberto,
não vale a pena trazer nada, que daí só trazemos, sem dar conta,
 
o que nos parte,
o que nos corta,
mal fechamos a mala, mal abrimos a porta.
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(autor: Moraes Moreira.)
 
 
 
SONHEI QUE ESTAVA EM PORTUGAL
 
 
Sonhei que estava, um dia
Em Portugal
À toa
Num carnaval
Em Lisboa
Meu sonho voa
Além da poesia
E encontra o Poeta em pessoa
 
A lua míngua
E a língua
Lusitana
Acende a chama
E a palavra luzia
Na via
Pública
E em forma de
Música:
Luzia-das-Lusíadas-luzias
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(do site: Youtube. áudio extraído do cd: Ciclo. artista & intérprete: Maria Bethânia. canção: Sonhei que estava em Portugal. versos: Moraes Moreira. música: Moraes Moreira. gravadora: Universal Music. citação da canção: Anda Luzia. autor: João de Barro.)
 

DESEJOS & ENSINAMENTOS
19 de outubro de 2012

(Paulo Sabino na companhia daquela que o trouxe ao mundo, a grande responsável.) 
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senhores,
 
hoje, 19 de outubro, é um dos dias mais importantes  da minha vida, pois foi hoje que, há 70 anos atrás, veio ao mundo aquela que ao mundo me revelou.
 
hoje, 19 de outubro, a minha amada & idolatrada (salve salve!) cabocla jurema armond, minha mãe, vence as suas 70 primaveras, feliz por vencê-las & cheia de disposição para a vida.
 
digo a vocês que a minha mãe é figura central & imprescindível na minha formação.
 
desde pequeno, me incitava à leitura. desde pequeno, mesmo com seus medo & respeito, me incitava o amor marinho. foi com dona jurema armond que conheci aquela que me abriu as portas da poesia: maria bethânia, e também foi com dona jurema armond que conheci parte da história do cancioneiro popular brasileiro, que, juntamente à poesia, é a arte que mais me emociona.
 
meu amor pelo mar, meu amor pela leitura, meu amor pela música, tudo isso eu devo a ela, à minha mãe, estrela do meu céu.
 
devo a ela tudo que sei de mais fundo sobre o amor & suas capacidades.
 
jurema armond é capaz de tantas belezas… aprendo ouvindo, conversamos muito, mas, sobretudo, aprendo observando as suas ações no quotidiano, observando os seus modos de processar a vida.
 
em todos eles, em todos os seus modos de processar a vida, o que sempre cabe é: amor.
 
é claro, evidente, que a minha cabocla se aborrece, se irrita, se chateia. como todo bom ser humano. entretanto, mesmo aborrecida, irritada, chateada, o viés dos seus atos está sempre de acordo com o amor. não alimenta brigas, não alimenta rancores; tem horror a isso. não abre mão de uma boa conversa, sempre pronta a ouvir, desarmada, verdadeira.
 
suas preferências mundanas (no que se refere a bens materiais) são simples, corriqueiras; suas sofisticações moram em outro departamento: e é assim, desse jeito, que se faz a sua sapiência, a sua sabedoria, sabedoria que busco para minha existência. as minhas sofisticações, assim como as da minha mãe, são existenciais, portanto, mais profundas, não-superficiais. de resto, sou homem de gosto ordinário, de gosto simples, sou um homem comum, qualquer um.
 
aos 70 anos, dona jurema armond não acumulou bens, não acumulou dinheiro. possui o suficiente para uma vida digna, sem dificuldades financeiras.
 
a sua sabedoria: sofisticações existenciais & preferências mundanas (no que se refere a bens materiais) corriqueiras: os desejos, aos 70 anos, de dona jurema armond:
 
de religiosidade acentuada, roga à vida a sua justa medida, nem para mais nem para menos.
 
pede que não sinta o que não tem & não lamente o que podia ter mas se perdeu — os lamentos, pelo que ficou para trás & não volta, não servem de nada.
 
jurema armond, com sua sapiência, busca ser como a chuva desejada caindo mansa, numa terra sedenta (sedenta de suas águas, águas que alimentam & revitalizam) & num telhado velho, desses casarões em ruazinhas residenciais que tanto avivam & aquecem o olhar.
 
à vida, a minha cabocla agradece o suficiente seu para uma existência confortável porém sem grandes luxos, ao lado das suas coisinhas, dos apetrechos que auxiliam a modelar os seus hábitos, a sua rotina.
 
na vida, a minha cabocla almeja acender, ela mesma, o fogo alegre da sua aconchegante morada, na manhã de um novo dia que começa. 
 
começar & recomeçar, e assim por diante: seguir a trilha: eis o seu rumo.
 
de toda a sua sabedoria, ficam-me ensinamentos para um bem viver, ensinamentos dos quais não me esquecerei, ensinamentos que guardarei para sempre:
 
fazer uma chave, mesmo pequena (não importa o seu tamanho), entrar na casa, abrigar-se, acolher-se.
 
consentir na doçura, consentir na delicadeza, ter dó (e, com a dó, cuidar) da matéria dos sonhos (tão frágil a matéria dos sonhos, feita de ar, feita de vôo na imaginação) & da matéria das aves (tão frágil a matéria das aves, feita de penas & plumas, feita de vôo na imensidão).
 
invocar o fogo (o que arde, o que aquece, o que conforta), invocar a claridade, invocar a música dos flancos (o flanco: região localizada acima do quadril, região que mexe & remexe, que agita, que dança).
 
não dizer pedra (palavra dura, sem arestas, palavra que dói, palavra que machuca se arremessada), dizer janela (palavra que areja, palavra que ventila, palavra por onde chegam a luz & o ar).
 
não ser como a sombra (região onde a luz não chega).
 
dizer homem, dizer criança, dizer estrela.
 
repetir as sílabas onde a luz é feliz & se demora.
 
voltar a dizer: homem, mulher, criança.
 
(voltar) onde a beleza é mais nova — e é mais nova porque a beleza no homem, na mulher, na criança, a cada dia, a cada instante vivido, a beleza se re-nova.
 
aqui, senhores, desejos & ensinamentos para um bem viver, desejos & ensinamentos da dona juju.
 
(feliz aniversário, mãe! saúdo a sua existência agora & sempre!)
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Melhores poemas. autora: Cora Coralina. seleção: Darcy França Denófrio. editora: Global.)
 
 
 
HUMILDADE 
 
 
Senhor, fazei com que eu aceite
minha pobreza tal como sempre foi.
 
Que não sinta o que não tenho.
Não lamente o que podia ter
e se perdeu por caminhos errados
e nunca mais voltou.
 
Dai, Senhor, que minha humildade
seja como a chuva desejada
caindo mansa,
longa noite escura,
numa terra sedenta
e num telhado velho.
 
Que eu possa agradecer a Vós,
minha cama estreita,
minhas coisinhas pobres,
minha casa de chão,
pedras e tábuas remontadas.
E ter sempre um feixe de lenha
debaixo do meu fogão de taipa,
e acender, eu mesma,
o fogo alegre da minha casa
na manhã de um novo dia que começa.    
 
 
 
 
(do livro: Poemas de Eugénio de Andrade. autor: Eugénio de Andrade. seleção: Arnaldo Saraiva. editora: Nova Fronteira.)
 
 
 
Faz uma chave, mesmo pequena,
entra na casa.
Consente na doçura, tem dó
da matéria dos sonhos e das aves.
 
Invoca o fogo, a claridade, a música
dos flancos.
Não digas pedra, diz janela.
Não sejas como a sombra.
 
Diz homem, diz criança, diz estrela.
Repete as sílabas
onde a luz é feliz e se demora.
 
Volta a dizer: homem, mulher, criança.
Onde a beleza é mais nova.

SAUDADES
26 de julho de 2012

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ter saudades é viver.
 
e eu, homem sentimental, deveras emocional, a batida do pulso ditando os passos, vivencio saudades.
 
digo & repito: vivencio saudades. e isso não significa dizer que sou saudosista. não não.
 
não há tempo que eu queira viver mais que o presente, não há tempo que eu queira viver mais que o tempo que me cabe neste instante, no agora, no já, no hoje.
 
a vida é válida, e existe, enquanto vivos. e, “vivos” — coisas vivas, pessoas vivas —, apenas no presente.
 
o passado já passou, o futuro não chegou. o que nos resta é o que há nas mãos. e, nas nossas parcas mãos, mãos de alcance limitado, o presente é o que alcançamos, o presente é o que nos cabe.
 
meu tempo é quando: quando falo, quando escrevo, quando peço, quando rio, quando amo, quando gozo, quando choro, quando: vivo.
 
o saudosismo é a valorização demasiada do passado, é a preferência pelo passado. eu não prefiro o passado nem o valorizo em demasia. mas sinto saudades, sinto falta, de algumas vivências que se guardam  no tempo pretérito.
 
sinto saudades do meu pai. sinto saudades do meu avô.
 
sinto saudades, quando não as tenho, das sensações que o amor entre amantes desperta.
 
sinto a falta de determinados momentos vividos.
 
mas a falta que sinto de determinados momentos vividos não me faz querer vivenciá-los novamente justamente porque batalho, verdadeiramente, pelo meu bem-estar existencial a cada minuto, o que acaba por me trazer outras tantas vivências tão felizes (e melhores porque inéditas) quanto as que se guardam no passado.  
 
tenho saudades porque ter saudades é viver. a memória faz parte da vida; as lembranças são faculdades da memória, portanto, capacidades nossas. as lembranças são naturais.
 
sinto saudades pela simples habilidade de rememorar fatos (recordar não me é uma atividade complexa).
 
sinto saudades & não sou nada saudosista. sou de carne, osso & coração, como os senhores.
 
sinto saudades porque o português é saudades.
 
a língua portuguesa é a única, no mundo, que criou uma palavra para designar um tipo certo de falta: saudade.
 
saudade é uma palavra linda, palavra sentimental, emocional, e intraduzível.
 
por isso o português é saudades. e só as sente bem (e só sente bem as saudades) quem tem aquela palavra — no caso, “saudades” — para dizer que as tem. só sente bem as saudades quem tem palavra para dizer que tem: “saudades”.
 
sinto saudades porque as lembranças são faculdades da memória, e a memória, uma aptidão natural do ser humano.
 
saudade: a lua brilha na lagoa.
 
saudade: a luz que sobra da pessoa (a luz do meu pai, que sobrou em mim).
 
saudade: eterno filme em cartaz.
 
não se ressintam de sentir saudades. (saudade não é o mesmo que saudosismo.)
 
quem foge da saudade, por um fio preso a ela (preso à saudade), afoga-se em outras águas (afoga-se em águas da dor, da solidão, do ressentimento) mas no mesmo rio (afinal, as águas da dor, da solidão, do ressentimento, são águas ligadas, são águas presas, à água da saudade empoçada no peito).  
 
não fujam da saudade.
 
sentir saudades significa, em última instância, que a vida nos reservou ótimos momentos.
 
o grande barato é batalhar por ótimas vivências hoje, para que, no futuro, estas se transformem em outras tantas belas recordações.  
 
lembrem-se: o português é saudades.
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Poesia [1918 – 1930]. autor: Fernando Pessoa. editora: Companhia das Letras.)
 
 
 
TER SAUDADES É VIVER.
Não sei que vida é a minha
Que hoje só tenho saudades
De quando saudades tinha.
 
Passei longe pelo mundo.
Sou o que o mundo seu fez,
Mas guardo na alma da alma
Minha alma de português.
 
E o português é saudades.
Porque só as sente bem
Quem tem aquela palavra
Para dizer que as tem.
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(poema-canção extraído do site oficial do: Moska. autores: Chico César / Moska.)
 
 
 
SAUDADE
 
 
Saudade a lua brilha na lagoa
Saudade a luz que sobra da pessoa
Saudade igual farol, engana o mar, imita o sol
Saudade sal e dor que o vento traz
 
Saudade o som do tempo que ressoa
Saudade o céu cinzento, a garoa
Saudade desigual, nunca termina no final
Saudade eterno filme em cartaz
 
A casa da saudade é o vazio
O acaso da saudade, fogo frio
Quem foge da saudade, preso por um fio
Se afoga em outras águas mas no mesmo rio
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(do site: Youtube. áudio extraído do cd: Tua. artista: Maria Bethânia. intérpretes: Maria Bethânia e Lenine. gravadora: Biscoito Fino. canção: Saudade. autores da canção: Moska e Chico César.)
 

CARTA DE AMOR
5 de abril de 2012

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não mexe comigo.
 
não mexe comigo, que eu não ando só.
 
eu não ando só. 
 
não mexe, não.
 
eu tenho zumbi dos palmares, tenho besouro (lenda da capoeira), o chefe dos tupis.
 
sou tupinambá.
 
tenho os erês, caboclo-boiadeiro, mãos-de-cura, morubixabas, cocares, arco-íris, zarabatanas, curare, flechas & altares.
 
tenho a velocidade da luz, o escuro da mata escura, o breu, o silêncio, a espera.
 
(o tempo sempre a meu favor.)
 
todos os pajés em minha companhia.
 
o menino deus brinca & dorme nos meus sonhos, o poeta (português) me contou.
 
não misturo. não me dobro.
 
rainha do mar anda de mãos dadas comigo. me ensina o baile das ondas & canta canta canta para mim.
 
é do ouro de oxum que é feita a armadura que guarda o meu corpo, garante meu sangue, minha garganta. o veneno do mal não acha passagem.
 
me sumo no vento. cavalgo no raio de iansã. giro o mundo. viro, reviro. vôo entre as estrelas.
 
vou além. me recolho no esplendor das nebulosas, descanso nos vales, montanhas, durmo na forja de ogum guerreiro.
 
rezo com as três marias no céu.
 
mergulho no calor da lava dos vulcões: corpo vivo de xangô.
 
não ando no breu nem ando na treva.
 
medo não me alcança.
 
no deserto (sozinho, apenas comigo mesmo) me acho.
 
faço cobra morder o rabo. faço escorpião virar pirilampo. 
 
fulminar aquele que é injusto, aquele que maltrata, aquele que transforma a vida nas mazelas a que assistimos no dia-a-dia: 
 
tu, pessoa nefasta! 
 
(eu não provo do seu fel, eu não piso o seu chão, e para onde você for, pessoa nefasta, não leva meu nome, não.)
 
onde vai, “valente”?…
 
você, pessoa nefasta, secou. seus olhos insones secaram. seus olhos não vêem brotar a relva que cresce livre & verde, longe da sua cegueira. seus ouvidos se fecharam a qualquer som. o próprio umbigo é a única coisa que interessa. 
 
tu, pessoa nefasta, estás tão mirrada, que nem o diabo te ambiciona: não tens alma. tu, pessoa nefasta, pessoa que corrompe a vida, pessoa que coloca na boca dos seus semelhantes o gosto de terra & sangue, és o oco do oco do oco do “sem fim” do mundo. um nada.
 
(o que é teu, pessoa nefasta, já está guardado. não sou eu quem vou te dar. é a vida & sua reviravolta ante tantos maus tratos propagados por ti. trata-se da lei da ação & re-ação.)
 
eu posso engolir você, pessoa nefasta, só para cuspir depois.
 
minha fome é matéria que você não alcança: desde o leite do peito de minha mãe, mulher sempre linda & benvinda, até o sem fim dos versos versos versos que brotam no poeta, versos versos versos que brotam em toda poesia.
 
se choro, e quando choro & minha lágrima cai, é para regar o capim que alimenta a vida. chorando, eu refaço as nascentes que você, pessoa nefasta, secou.
 
se desejo, o meu desejo faz subir marés de sal & sortilégio.
 
vivo de cara para o vento. na chuva. e quero me molhar.
 
sou como a haste fina: qualquer brisa verga, mas nenhuma espada corta.
 
não mexe comigo.
 
não mexe comigo, que eu não ando só.
 
eu não ando só. 
 
não mexe, não.
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(Aos senhores, uma das faixas do novo trabalho de Maria Bethânia, diva maior da minha vida, canção do SOFISTICADO poeta-compositor Paulo César Pinheiro & texto — narrado por entre os versos da canção — da própria Bethânia. Esta é a primeira vez que a artista grava, em disco, um texto de sua própria autoria.
 
Me impressiona, sempre & muito, o quanto me vejo traduzido por Bethânia.
 
Deliciem-se com este mimo!
 
Beijo todos!
Paulo Sabino.)
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(do site: Youtube. canção extraída do álbum: Oásis de Bethânia. artista: Maria Bethânia. gravadora: Biscoito Fino. canção: Carta de amor. autor da canção: Paulo César Pinheiro. autora do texto narrado: Maria Bethânia.)
 

LOUVAÇÃO A OXUM
9 de dezembro de 2011

(Paulo Sabino & uma das suas maiores paixões na vida: água.)
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ontem,

8 de dezembro,

a minha amada amiga-irmã geórgia victor, a minha flor da paraíba, me lembrou que era dia de oxum, que, segundo a mitologia afro-brasileira, é uma das esposas de xangô, rainha dos rios & das fontes, guardiã da fertilidade & da maternidade, orixá que acho dos mais lindos.

pelo seu dia, 8 de dezembro, em sua homenagem, orarei.
orarei a oxum, que ADORO oxum.

oxum: água que faz crescer as crianças, dona da brisa de lagos, corpo divino sem osso nem sangue: corpo liqüefeito, límpido, cristalino, corrente.

oxum é água que aparta a morte, cuida para que a morte não nos capture.

oxum, o seu corpo liqüefeito, melhora a cabeça ruim, cabeça doente, cabeça mais preocupada em ter, cabeça que me desinteressa.

oxum: bela mãe da grinalda de flores. afinal, toda & qualquer planta necessita de água para germinar, crescer & florescer. água é elemento vital à existência da planta & sua grinalda de flores. flores aos seus pés, aos pés de oxum, à beira dos seus riachos, alegria da minha manhã.

água: se há uma coisa em comum entre toda & qualquer parte do organismo humano é a necessidade de água para realização das suas funções. somos constituídos, em média, de 60% desse líquido.

por tudo isso: oxum eu bendigo na boca do dia (oxum que eu adoro).

oxum: rica de dons. riqueza dos rios. senhora das águas.

oxum que chamei, oxum que não chamei, a todas as oxuns: a minha saudação & o meu profundo respeito!

que saibamos cuidar do que ainda nos resta de oxum.

saúdo minha mãe, sereia das águas doces!

(abaixo, um poema-canção LINDO em sua homenagem, acompanhado do áudio com a canção.)

beijo todos!
paulo sabino.
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(do encarte do cd: Olho d’água. artista: Maria Bethânia. autor dos versos: Ordep Serra. gravadora: Universal Music.)

 

LOUVAÇÃO A OXUM

 

Kerê-ô
Declaro aos de casa que estou chegando
Quem sabe venha buscar-me em festa

Orarei a Oxum
Que adoro Oxum, sei que sim
Xinguinxi comigo
Oxum que cura com água fresca
Sem gota de sangue
Dona do oculto, a que sabe e cala
No puro frescor de sua morada
Oh, minha mãe, rainha dos rios
Água que faz crescer as crianças
Dona da brisa de lagos
Corpo divino sem osso nem sangue

Orarei a Oxum
Que adoro Oxum, sei que sim
Xinguinxi comigo

Eu saúdo quem rompe na guerra
Senhora das águas que correm caladas
Oxum das águas de todo som
Água da aurora no mar agora
Bela mãe da grinalda de flores
Alegria da minha manhã

Orarei a Oxum
Que adoro Oxum, sei que sim
Xinguinxi comigo

Ipondá que se oculta no escuro
De longe me chega a cintilação
De seus cílios
Oxum é água que aparta a morte
Oxum melhora a cabeça ruim
A-yê-yê, orarei
Bendita onda que inunda a casa do traidor

Orarei a Oxum
Que adoro Oxum, sei que sim
Xinguinxi comigo

Oxum eu bendigo na boca do dia
Oxum que eu adoro
Rica de dons
Riqueza dos rios
Oxum que chamei
Que não chamei
Adé-okô
Senhora das águas

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(do site: Youtube. canção: Louvação a Oxum. intérprete: Maria Bethânia. música: Roberto Mendes. letra: Ordep Serra.)

A OFERTA
19 de outubro de 2011

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benvindos,
 
hoje, 19 de outubro, há exatos 69 anos, nascia aquela que veio a ser a responsável pela concepção deste rapazinho que lhes escreve neste exato momento.
 
hoje, 19 de outubro, a minha mãe, a minha cabocla jurema armond, vence as suas 69 primaveras, bem bonita, vigorosa, como mostra a foto.
 
dona jurema armond é GRANDE responsável pelo meu amor à literatura, ao cinema & à música.
 
descobri a poesia através de uma artista que sempre foi o MAIOR ÍDOLO da minha cabocla: maria bethânia.
 
dona jurema armond é muito responsável pelo ânimo do paulo sabino. muito carinhosa, muito amorosa & bem-humorada. divertida. engraçada. às vezes rio sozinho lembrando coisas feitas por ela, coisas ditas por ela.
 
ela é melhor do que eu, não tenho dúvidas. possui capacidades amorosas que ainda não alcanço. eu sou mais genioso, mais “respondão”, não sou de levar desaforo para casa. mesmo. em geral revido na mesma moeda. mesmo. ela, dona jurema, ela é mais branda, mais suave, mais delicada.
 
porém, mesmo sendo menos paciente (o meu temperamento, quando aborrecido, é mais próximo ao do meu pai), sou um homem de delicadezas. prezo pelo bom trato, pelo carinho, pela troca amiga.
 
isso, senhores, eu herdei, é um legado, da cabocla, legado que vejo muito bonito, muito  importante; isso é um sinal de que jurema armond apostou no delicado da  vida.
 
e não vale pensar que a vida dessa mulher é só alegria, só bons momentos.
 
como todo & qualquer bom ser humano, dona jurema armond também viveu os seus maus momentos; momentos de dor, momentos de solidão.
 
todavia, a cabocla sempre deu a volta por cima. aposta no bom humor & tem sua atenção às belezas do quotidiano, não se prendendo às durezas & friezas que determinados sentimentos (de dor, de solidão) podem gerar.
 
o seu lema: viver a dor para, um dia, libertar-se dela.
 
o seu tema: não se deixar destruir.
 
ajuntar as pedras que nos atravessam o caminho, juntá-las todas, e, com elas, a construção de novos poemas.
 
recriar a vida, sempre, sempre.
 
fazer, da vida mesquinha que se possa levar, um poema.
 
é assim que a cabocla vive no meu coração de eterno menino seu, coração jovem, e é assim que a cabocla viverá junto a mim & aos meus.
 
a sua fonte, de força, é para uso de todos os sedentos.
 
sem entraves.
 
a cabocla é pessoa simples; gosta de plantas, de cuidar das plantas, de ter mato por perto; a gleba, o terreno fértil, a transfigura para mais & melhor. e gosta de bichos, de todos soltos, livres, a viver a sua natureza. mulher de simplicidades, gosta muito dos pequenos prazeres, dos que, ao meu ver, realmente importam. o que almeja, quando à vida, é tão singelo, mas ao mesmo tempo tão revolucionário!…
 
o MESTRE carlos drummond de andrade, na sua última entrevista, concedida ao jornal do brasil & publicada 5 dias após a sua morte, em 22 de agosto de 1987, fala o seguinte a respeito da beleza:
 
 
A beleza ainda me emociona muito. Não só a beleza física, mas a beleza natural. Hoje, com quase oitenta e cinco anos, tenho uma visão da natureza muito mais rica do que eu tinha quando era jovem. Eu reparava mais em certas formas de beleza. Mas, hoje, a natureza, para mim, é um repertório surpreendente de coisas magníficas e coisas belas. Contemplar o vôo do pássaro, contemplar uma pomba ou uma rolinha que pousa na minha janela… Fico estático vendo a maravilha que é aquele bichinho que voou para cima de mim, à procura de comida ou de nem sei o quê. A inter-relação dos seres vivos e a integração dos seres vivos no meio natural, para mim, é uma coisa que considero sublime.   
 
 
ensinamentos para o bem viver, eis a oferta de jurema armond:
 
a cabocla é aquela mulher a quem o tempo muito ensinou. 69 anos. ensinou a amar a vida. a não desistir da luta. a recomeçar na derrota. a renunciar a palavras & pensamentos negativos. a acreditar nos valores humanos. a ser otimista. 
 
a cabocla crê na solidariedade humana. crê na superação dos erros & angústias do presente.
 
acredita nos jovens, aposta num futuro melhor com a vinda das novas gerações, gerações que descobrirão uma profilaxia, um modo de prevenir, os erros & violências do presente.
 
aprendi, com ela, que mais vale lutar do que recolher dinheiro “fácil”, digo, dinheiro “sujo”, que não é meu por direito.
 
aprendi, com ela, que mais vale acreditar do que duvidar.
 
é dela, de dona jurema armond, que descende o meu modo de enxergar a vida, buscando o melhor para mim, desejando o melhor para todos nós.
 
por isso saúdo a sua existência!
 
parabéns pela data, mãe!
 
beijo IMENSO, minha cabocla!
beijo nos demais!
 
(o filho da dona juju.)
___________________________________________________________________________ 
 
(do livro: Melhores poemas. seleção: Darcy França Denófrio. autora: Cora Coralina. editora: Global.)
 
 
 
ANINHA E SUAS PEDRAS
 
(Outubro, 1981)
 
 
Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
 
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
 
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
 
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.
 
 
 
A GLEBA ME TRANSFIGURA
 
 
Sinto que sou a abelha no seu artesanato.
Meus versos têm cheiro dos matos, dos bois e dos currais.
Eu vivo no terreiro dos sítios e das fazendas primitivas.
Amo a terra de um místico amor consagrado, num
                                                              esponsal sublimado,
procriador e fecundo.
Sinto seus trabalhadores rudes e obscuros,
suas aspirações inalcançadas, apreensões e desenganos.
Plantei e colhi pelas suas mãos calosas e mal
                                                              remuneradas.
Participamos receosos do sol e da chuva em
                                                               desencontro,
nas lavouras carecidas.
Acompanhamos atentos, trovões longínquos e o riscar
de relâmpagos no escuro da noite, irmanados no
                                                                                   regozijo
das formações escuras e pejadas no espaço
e o refrigério da chuva nas roças plantadas, nos pastos
                                                                                             maduros
e nas cabeceiras das aguadas.
Minha identificação profunda e amorosa 
com a terra e com os que nela trabalham.
A gleba me transfigura. Dentro da gleba,
ouvindo o mugido da vacada, o mééé dos bezerros,
o roncar e focinhar dos porcos, o cantar dos galos,
o cacarejar das poedeiras, o latir dos cães,
eu me identifico.
Sou árvore, sou tronco, sou raiz, sou folha,
sou graveto, sou mato, sou paiol
e sou a velha da tulha de barro.
Pela minha voz cantam todos os pássaros, piam as cobras
e coaxam as rãs, mugem todas as boiadas que vão pelas
                                                                                               estradas.
Sou a espiga e o grão que retornam à terra.
Minha pena (esferográfica) é a enxada que vai cavando,
é o arado milenário que sulca.
Meus versos têm relances de enxada, gume de foice e
peso de machado.
Cheiro de currais e gosto de terra.
 
Eu me procuro no passado.
Procuro a mulher sitiante, neta de sesmeiros.
Procuro Aninha, a inzoneira que conversava  com as
                                                                                         formigas,
e seu comadrio com o ninho das rolinhas.
Onde está Aninha, a inzoneira,
menina do banco das mais atrasadas da escola de
                                                                   Mestre Silvina…
Onde ficaram os bancos e as velhas cartilhas da minha
                                                                            escola primária?
Minha mestra… Minha mestra… beijo-lhe as mãos,
tão pobre!…
Meus velhos colegas, um a um foram partindo,
                                                        raleando a fileira…
Aninha, a sobrevivente, sua escrita pesada, assentada
nas pedras da nossa cidade…
 
Amo a terra de um velho amor consagrado
através das gerações de avós rústicos, encartados
nas minas e na terra latifundiária, sesmeiros.
A gleba está dentro de mim. Eu sou a terra.
Identificada com seus homens rudes e obscuros,
enxadeiros, machadeiros e boiadeiros, peões e
                                                                         moradores.
Seus trabalhos rotineiros, suas limitadas aspirações.
Partilhei com eles de esperança e desenganos.
 
Juntos, rezamos pela chuva e pelo sol.
Assuntamos de um trovão longínquo, de um fuzilar
de relâmpagos, de um sol fulgurante e desesperador,
abatendo as lavouras carecidas.
Festejamos a formação no espaço de grandes nuvens 
                                                                                             escuras
e pejadas para a salvação das lavouras a se perderem.
Plantei pelas suas enxadas e suas mãos calosas.
Colhi pelo seu esforço e constância.
 
Minha identificação com a gleba e com a sua gente.
Mulher da roça eu o sou. Mulher operária, doceira,
abelha no seu artesanato, boa cozinheira, boa lavadeira.
A gleba me transfigura, sou semente, sou pedra.
Pela minha voz cantam todos os pássaros do mundo.
Sou a cigarra cantadeira de um longo estio que se
                                                                            chama Vida.
Sou a formiga incansável, diligente, compondo seus
                                                                                         abastos.
Em mim a planta renasce e floresce, sementeia e
                                                                             sobrevive.
Sou a espiga e o grão fecundo que retornam à terra.
Minha pena é a enxada do plantador, é o arado que vai
                                                                                             sulcando
para a colheita das gerações.
Eu sou o velho paiol e a velha tulha roceira.
Eu sou a terra milenária, eu venho de milênios.
Eu sou a mulher mais antiga do mundo, plantada e
                                                                                 fecundada
no ventre escuro da terra. 
  
 
 
OFERTA DE ANINHA
(AOS MOÇOS)
 
 
Eu sou aquela mulher
a quem o tempo
muito ensinou.
Ensinou a amar a vida.
Não desistir da luta.
Recomeçar na derrota.
Renunciar a palavras e pensamentos negativos.
Acreditar nos valores humanos.
Ser otimista.
 
Creio numa força imanente
que vai ligando a família humana
numa corrente luminosa
de fraternidade universal.
Creio na solidariedade humana.
Creio na superação dos erros
e angústias do presente.
 
Acredito nos moços.
Exalto sua confiança,
generosidade e idealismo.
Creio nos milagres da ciência
e na descoberta de uma profilaxia
futura dos erros e violências
do presente.
 
Aprendi que mais vale lutar
do que recolher dinheiro fácil.
Antes acreditar do que duvidar.

ANIVERSÁRIO — 35 PRIMAVERAS
21 de junho de 2011

12
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Ai, Xangô, Xangô menino
Da fogueira de são João
Quero ser sempre o menino, Xangô
Da fogueira de são João 

(trecho de “São João, Xangô Menino”, versos de Caetano Veloso)

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benvindos,

nesta sexta-feira, 24 de junho, dia de são joão, venço as minhas 35 primaveras.

como no dia 23 de junho, quinta-feira, viajo bem cedo para um lugar onde não tenho acesso à internet, antecipo as comemorações no “prosa em poema”.

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sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo, sábio é o que se contenta com o espetáculo da vida terrena, sábio é o que bebe da vida e que, ao beber, não se recorda do que bebeu, para quem tudo é novo & imarcescível (que não perde o viço), sempre.

coroe o sábio o que for da vida — heras, rosas volúteis, peixes, pássaros —, pois o sábio sabe que a vida passa por ele e que a tesoura de átropos (na mitologia grega, a deusa responsável pelo “corte” do “fio” da vida) tanto corta, ou seja, tanto talha, tanto encerra, a hora da rosa como encerra a hora do peixe, a hora do pássaro, e também a hora do sábio.

assim sendo, já que a tesoura de átropos corta a flor como corta o peixe o pássaro o sábio, o que ao sábio resta é viver, saboreando o gosto do vinho e deixando que o sabor do vinho saboreado esconda tão bruta realidade — a de que tudo, um dia, cessa, acaba, finda, morre.

o que ao sábio resta é viver, bebedor tranqüilo, apenas desejando, num desejo mal tido (porque pouca & pequena a preocupação), que a abominável onda última, a onda que vem nos buscar para o mundo dos mortos, não o molhe tão cedo.

o que ao sábio resta é viver, admirando as rosas dos jardins de adônis — deus nascido da casca duma árvore encantada, deus belo dos campos —, admirando as rosas que, cultivadas em culto ao deus, nascem & morrem no mesmo dia.

para essas rosas, a luz é eterna, porque as rosas nascem com o sol já nascido, e acabam antes do astro-rei se pôr.

assim façamos a nossa vida: como se um dia fosse, como se a nossa vida toda luz fosse, como se a nossa vida fosse apenas claridade, voluntariamente inscientes, isto é, voluntariamente não cientes, voluntariamente ignorantes, de que noite há antes & após do pouco que duramos.

(luz! quero luz!)

afinal, deste mundo se leva: nada.

deste mundo leva-se apenas o oco, leva-se apenas o vazio.

já que deste mundo nada se leva, nem mesmo o último óbolo (moeda grega de pouco valor, espécie de “esmola”) que tenhamos nas mãos, já que deste mundo nada se leva, nem uma memória na alma:

de que adiantam os tronos & as coroas recebidos se não existem tronos & coroas que não sejam desbancados por átropos, a deusa responsável pelo corte do fio da vida?

se da vida nada se leva:

de que adiantam os louros, de que adiantam as glórias, se não existem louros & glórias que não fanem, que não murchem, ante as vontades, ante os arbítrios, de minos (rei da ilha de creta que, depois de morto, desceu ao mundo subterrâneo onde se tornou um dos juízes dos mortos)?

já que tudo passa, abdiquemos de tronos & coroas & louros & glórias e sejamos somente reis de nós mesmos.

aprendamos a governar com maestria as nossas vidas.

só nós somos sempre iguais a nós próprios.

grande & nobre é sempre viver simplesmente. e simplesmente: viver.

a realidade sempre é mais ou menos feita do que nós queremos.

grande & nobre é sempre viver simplesmente:

seguir o destino que nos cabe.

regar as plantas.

amar as rosas.

deixar a dor nas aras, nos altares, como ex-voto, como oferenda, aos deuses.

vejamos a vida de longe, calmos, serenos. de nada adianta interrogá-la. a existência não tem boca, o mundo não tem idioma. nada podem nos dizer.

(a resposta está além dos deuses.)

serenamente, imita o olimpo, que é a morada dos deuses, no seu coração.

façamos do cerne do ser a casa certa, o destino traçado pelos deuses, pelas belezas sem razão & pela razão.

35 primaveras vencidas, e uma grande alegria de viver.

beijo todos!
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(do livro: Ficções do Interlúdio / 2-3 — Odes de Ricardo Reis / Para além do outro Oceano de C[oelho] Pacheco. autor dos poemas: Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa. editora:Nova Fronteira.)

 

 

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranqüilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento —
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim — à beira-rio.
Pagã triste e com flores no regaço.

 

 

Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo,
E ao beber nem recorda
Que já bebeu na vida,
Para quem tudo é novo
E imarcescível sempre.

Coroem-no pâmpanos, ou heras, ou rosas volúteis,
Ele sabe que a vida
Passa por ele e tanto
Corta à flor como a ele
De Átropos a tesoura.

Mas ele sabe fazer que a cor do vinho esconda isto,
Que o seu sabor orgíaco
Apague o gosto às horas,
Como a uma voz chorando
O passar das bacantes.

E ele espera, contente quase a bebedor tranqüilo,
E apenas desejando
Num desejo mal tido
Que a abominável onda
O não molhe tão cedo.

 

 

As rosas amo dos jardins de Adônis,
Essas volucres amo, Lídia, rosas,
Que em o dia em que nascem,
Em esse dia morrem.
A luz para elas é eterna, porque
Nascem nascido já o sol, e acabam
Antes que Apolo deixe
O seu curso visível.
Assim façamos nossa vida um dia,
Inscientes, Lídia, voluntariamente
Que há noite antes e após
O pouco que duramos.

 

 

Não tenhas nada nas mãos
Nem uma memória na alma,

Que quando te puserem
Nas mãos o óbolo último,

Ao abrirem-te as mãos
Nada te cairá.

Que trono te querem dar
Que Átropos to não tire?

Que louros que não fanem
Nos arbítrios de Minos?

Que horas que te não tornem
Da estatura da sombra

Que serás quando fores
Na noite e ao fim da estrada.

Colhe as flores mas larga-as,
Das mãos mal as olhaste.

Senta-te ao sol. Abdica
E sê rei de ti próprio.

 

 

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Imitação da vida. artista & intérprete: Maria Bethânia. poema: “Para ser grande”. autor: Ricardo Reis — heterônimo de Fernando Pessoa. canção: “Segue o teu destino”. poema: Ricardo Reis — heterônimo de Fernando Pessoa. música: Sueli Costa. gravadora: EMI.)

BALADA DO LADO SEM LUZ
13 de abril de 2011

Vela acesa & caderno_Escuro

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um mundo que assassina.

a árvore seca, onde, satisfeitos, nos sentamos.

o mundo da sombra: caverna escondida, onde a luz da vida foi quase apagada.

o mundo da sombra: região do escuro, do coração duro, da alma abalada…

hoje eu canto a balada, hoje eu canto a canção, do lado sem luz.

o lado sem luz: feito de subterrâneos gelados do eterno esperar, esperar pelo amor, pelo pão, pela paz, pela libertação.

é preciso criar a aurora. fazer raiar um novo dia. é preciso navegar, é preciso des-cobrir um outro dia, um outro sol, um sol mais claro, mais luminoso.

aquele que vive do lado sem luz, ouça:

o meu canto é a confirmação da promessa que diz: esperança haverá enquanto houver um canto mais feliz.

um canto mais feliz: como eu gosto de cantar. como eu prefiro cantar. como eu costumo cantar.

(um canto mais feliz: que assim seja.)

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Todas as letras. organização: Carlos Rennó. autor: Gilberto Gil. editora: Companhia das Letras.)

 

 

BALADA DO LADO SEM LUZ

 

O mundo da sombra
Caverna escondida
Onde a luz da vida
Foi quase apagada
O mundo da sombra
Região do escuro
Do coração duro
Da alma abalada, abalada

Hoje eu canto a balada do lado sem luz
Subterrâneos gelados do eterno esperar
Pelo amor, pelo pão
Pela libertação
Pela paz, pelo ar
Pelo mar
Navegar, descobrir
Outro dia, outro sol

Hoje eu canto a balada do lado sem luz
A quem não foi permitido viver feliz e cantar
Como eu
Ouça aquele que vive do lado sem luz
O meu canto é a confirmação da promessa que diz
Que haverá esperança enquanto houver um canto mais feliz
Como eu gosto de cantar
Como eu prefiro cantar
Como eu costumo cantar
Como eu gosto de cantar
Quando não tão abalado, a balada abalada
Do lado sem luz
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Pássaro proibido. artista & intérprete: Maria Bethânia. canção: Balada do lado sem luz. autor: Gilberto Gil. gravadora: Universal Music.)

A MINHA GUIA, O MEU ORIXÁ DE FRENTE: MARIA BETHÂNIA
22 de março de 2011

venho duma linhagem que, por norte, possui maria bethânia como rosa-dos-ventos.

maria bethânia:

a minha guia,

o meu orixá de frente: assim como ele, o coração & a verdade, acima de tudo & todos.

em termos de arte não há negociações: assim como a abelha-rainha, só faço, só publico, aquilo que quero. sem concessões.

à bethânia foram escritos os versos que seguem, logo abaixo.

o mundo precisa de poesia. e a minha vida agradece a sua existência.

saravá!

beijo todos!
paulo sabino.

(logo após a letra-poema, um vídeo com a abelha-rainha interpretando a canção. deliciem-se, provem do favo de seu mel!)
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(autores da canção: Consuelo de Paula / Etel Frota / Rubens Nogueira)

 

SETE TROVAS (autora dos versos: Consuelo de Paula)

A canção é meu pecado
Minha dor de redenção
Meu brinquedo, meu reisado
Meu bocado de pão

A canção é meu estado
Minha sina, distração
Meu folguedo, meu congado
Meu cajado, profissão

Uma sorte, um presente
Estandarte, talismã
Minha comissão de frente
Uma filha temporã

Um rebento, um trovão
O estrondo da maré
Água benta, devoção
Luz pagã, auto-de-fé

Uma fonte, um santo forte
A função, o meu papel
Rosa dos ventos, meu norte
Coração vertendo mel

A canção é meu bailado
Meu sinal e meu bastão
Fandango, sapateado
O final, a expressão

A canção é meu sossego
Meu destino, solidão
Minha paz, meu desapego
Minha dona, meu perdão

Uma sorte, um presente
Estandarte, talismã
Minha comissão de frente
Uma filha temporã

Um rebento, um trovão
O estrondo da maré
Água benta, devoção
Luz pagã, auto-de-fé

Uma fonte, um santo forte
A função, o meu papel
Rosa dos ventos, meu norte
Coração vertendo mel
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(vídeo com a canção: Sete Trovas. autores: Consuelo de Paula / Etel Frota / Rubens Nogueira. intérprete: Maria Bethânia.)

RAINHA DO MAR – IEMANJÁ
2 de fevereiro de 2011

Sereias_Uruguay
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dia 2 de fevereiro é dia de iemanjá, que, segundo a mitologia afro-brasileira, é a rainha do mar.

rainha do meu bem maior, rainha do elemento natural que mais me comove, que mais me espanta, que mais me fascina.

o mar, para mim, é, de fato, um útero às vistas, tamanha riqueza imersa em suas águas.

portanto, em homenagem ao dia da rainha do mar, um poema-canção, lindíssimo, que descreve os hábitos daquela que vive nas profundezas marítimas: seus nomes, seus gostos, as razões do seu canto & do seu choro, a maneira correta de saudá-la.

salvem as águas!

salve o mar!

salvem os seus mistérios, profundos!

salve iemanjá, a rainha do meu amante maior!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do encarte do cd: Mar de Sophia. artista: Maria Bethânia. autor dos versos: Paulo César Pinheiro. gravadora: Biscoito Fino.)

 

 

IEMANJÁ RAINHA DO MAR

 

Quanto nome tem a Rainha do Mar?
Quanto nome tem a Rainha do Mar?

Dandalunda, Janaína,
Marabô, Princesa de Aiocá,
Inaê, Sereia, Mucunã,
Maria, Dona Iemanjá.

Onde ela vive?
Onde ela mora?

Nas águas,
Na loca de pedra,
Num palácio encantado,
No fundo do mar.

O que ela gosta?
O que ela adora?

Perfume,
Flor, espelho e pente
Toda sorte de presente
Pra ela se enfeitar.

Como se saúda a Rainha do Mar?
Como se saúda a Rainha do Mar?

Alodê, Odofiaba,
Minha-mãe, Mãe-d’água,
Odoyá!

Qual é seu dia,
Nossa Senhora?

É dia dois de fevereiro
Quando na beira da praia
Eu vou me abençoar.

O que ela canta?
Por que ela chora?

Só canta cantiga bonita
Chora quando fica aflita
Se você chorar.

Quem é que já viu a Rainha do Mar?
Quem é que já viu a Rainha do Mar?

Pescador e marinheiro,
Quem escuta a Sereia cantar.
É com o povo que é praieiro
Que Dona Iemanjá quer se casar.
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Mar de Sophia. artista & intérprete: Maria Bethânia. canção: Iemanjá Rainha do Mar. música: Pedro Amorim. versos: Paulo César Pinheiro. gravadora: Biscoito Fino.)