A FLOR
19 de outubro de 2010

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hoje,
 
para este que vos escreve, é um grande dia.
 
pois que a minha mãe, a minha cabocla jurema armond, vence as suas sessenta e oito primaveras, lindíssima, como se pode ver na foto; mulher cheia de saúde, de alegria e de bondade.
 
senhores,
 
jurema armond é das pessoas mais amorosas que conheço. o seu entendimento das coisas perpassa o coração, impreterivelmente. entre mim e ela sempre houve um entendimento que se dá na seara do amor.
 
a certeza disto: se hoje o paulo sabino é um homem amoroso, um homem de bem-querer, boa, grande, incomensurável é a responsabilidade da minha cabocla.
 
foi com ela que tudo começou:
 
o prazer pela leitura, estimulado pelas diversas coleções de livros infantis;
 
as idas ao teatro e ao cinema;
 
a paixão pela música brasileira, que teve início em maria bethânia, a GRANDE diva na vida da cabocla (e que tomei para mim). foi bethânia quem me abriu as portas da poesia escrita, ainda bem novinho, com fernando pessoa, o poeta número um da artista;
 
o amor pelo mar: ele veio com ela, com a minha cabocla, que, junto ao meu pai, me adorava levar a praias diversas, mesmo com o seu pavor de mar & ondas (rs). me estimulou a fazer natação, a desenvolver ainda mais a minha relação com água, elemento que me fascina, que me vira a cabeça.
 
volta e meia digo à dona jurema armond, num tom de brincadeira séria (que acho o tom correto para este meu sarro – rs), que o mundo, a humanidade, seria mutíssimo melhor se a conhecesse fundo, se pudesse a humanidade conviver com as suas verdades, com a sua integridade, com a sua capacidade de acarinhar & cuidar.
 
viro o mundo de cabeça para baixo pela felicidade de dona jurema armond. no que de mim depender, o mundo mau não a alcançará nunca.
 
a ela saúdo com esta salva de palavras atiradas ao papel.
 
a homenagem segue com um apanhado de poemas escritos por uma poeta que a dona jurema ADORA.
 
conheci a poeta ainda jovenzinho, assistindo a um programa de poesia na tv. tratava-se de um especial sobre a poeta. fiquei fascinado por aquela “avozinha” de cabelos bem branquinhos, de voz doce & delicada, bem-humorada, contando histórias de sua infância & adolescência num tempo muito antigo, tempo de escravos, de amas de leite, fazenda, rezas & terços, de acentuada religiosidade, de rigores no comportamento social, de castigos corporais, de conservadorismos, de subserviência feminina ao “poder patriarcal”.
 
(se pensarmos bem, esse tempo não parece tão distante deste tempo, infelizmente…)
 
a poeta escondeu a vida toda os seus versos da sua família, que considerava “prestimosa” a mulher dedicada exclusivamente às tarefas domésticas. segundo a família, mulher não nascera para pensar.
 
trata-se de uma poeta nascida em 1889, revelada ao grande público aos 76 anos de idade por ninguém menos que o MESTRE carlos drummond de andrade. o bardo a definiu “diamante solitário”, pois que, a rigor,
 
cora coralina não seguiu escolas nem estilos.
 
foi única na forma de expressar, no seu tempo, a sua poesia.
 
jurema armond também é feita de ineditismo: a sua forma de expressar, no seu tempo, o seu amor. por isso a cabocla me é tão cara: porque rara: porque um diamante solitário.
 
a você, pessoa mais que adorada, os meus parabéns pela data e o desejo dos três “s”: saúde, sorte & sucesso nas realizações!
 
beijo-TITÃ em você, minha flor!
 
um outro grande nos senhores!
 
o filho da dona juju.
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(do livro: Melhores poemas — Cora Coralina. seleção: Darcy França Denófrio. editora: Global.)
 
 
TODAS AS VIDAS
 
Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acordada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço…
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo…
 
Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.
 
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem-feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.
 
Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.
 
Vive dentro de mim
a mulher roceira.
— Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos,
seus vinte netos.
 
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha…
tão desprezada,
tão murmurada…
Fingindo alegre seu triste fado.
 
Todas as vidas dentro de mim.
Na minha vida —
a vida mera das obscuras.
 
 
OS HOMENS
 
Em água e vinho se definem os homens.
Homem água. É aquele fácil e comunicativo.
Corrente, abordável, servidor e humano.
Aberto a um pedido, a um favor,
ajuda em hora difícil de um amigo, mesmo estranho.
Dá o que tem
— boa vontade constante, mesmo dinheiro, se o tem.
Não espera restituição nem recompensa.
 
É como a água corrente e ofertante,
encontradiça nos descampados de uma viagem.
Despoluída, límpida e mansa.
Serve a animais e vegetais.
Vai levada a engenhos domésticos em regueiras,
                                           represas e açudes.
Aproveitada, não diminui seu valor, nem cobra preço.
Conspurcada seja, se alimpa pela graça de Deus
que assim a fez, servindo sempre
e à sua semelhança fez certos homens que encontramos
                                                                        na vida
— os Bons da Terra — Mansos de Coração.
Água pura da humanidade.
 
Há também, lado a lado, o homem vinho.
Fechado nos seus valores inegáveis e nobreza
                                                reconhecida.
Arrolhado seu espírito de conteúdo excelente em todos
                                                              os sentidos.
Resguardados seus méritos indiscutíveis.
Oferecido em pequenos cálices de cristal a amigos
e visitantes excelsos, privilegiados.
 
Não abordável, nem fácil sua confiança.
Correto. Lacrado.
Tem lugar marcado na sociedade humana.
Rigoroso.
Não se deixa conduzir — conduz.
Não improvisa — estuda, comprova.
Não aceita que o golpeiem,
defende-se antecipadamente.
Metódico, estudioso, ciente.
 
Há de permeio o homem vinagre,
uma réstia deles,
mas com esses não vamos perder espaço.
Há lugar na vida para todos.
 
 
ESTA É A TUA SAFRA
 
Minha filha, junto a teus irmãos não lamentem nem
                                                                 digam,
coitada da mamãe…
Ninguém é coitada, nem eu.
Somos todos lutadores.
 
Se souberes viver, aproveitar lições, escreverás poemas.
Teus cabelos brancos serão bandeiras de paz.
E viverás na lembrança das novas gerações.
 
Não te queixes jamais das mãos vazias que sacodem lama.
E pedaços rudes de um passado morto não sejam
                                                          revividos,
sem mais empenho senão enxovalhar, ferir e destruir.
 
Recria sempre com valor
o pouco ou o muito que te resta.
Prossegue. Em resposta ao néscio
brotará sempre uma flor escassa
das pedras e da lama que procuram te alcançar.
Esta é a tua luta.
 
Tua vida é apagada. Acende o fogo nas geleiras que
                                                           te cercam.
O tardio poema dos teus cabelos brancos.
Recebe como oferta as pedras e a lama da maldade
                                                                humana.
Esta é a tua safra.
 
 
A FLOR
 
Na haste
hierática e vertical
pompeia.
Sobe para a luz e para o alto
a flor…
 
Ainda não.
 
Veio de longe.
Muda viajeira
dentro de um plástico esquecida.
Nem cuidados dei
à grande e rude matriz fecundada.
Apanhada num monte de entulho de lixeira.
 
“Cebola brava” na botânica
sapiente de seu Vicente.
Oitenta e alguns avos de enxada e terra.
Sabedoria agra.
Afilhado do Padim Cícero.
Menosprezo pelas “flores”:
“De que val’isso?”    
Displicente, exato, irredutível.
 
E eu, meu Deus,
extasiada,
vendo, sentindo e acompanhando,
fremente,
aquela inesperada gestação.
 
— Um bulbo, tubérculo, célula
de vida rejeitada, levada na hora certa
à maternidade da terra.
 
                                                                          A Flor…
 
Ainda não.
Espátula. Botão
hígido, encerrado, hermético,
inviolado
no seu mistério.
Tenro vegetal, túmido de seiva.
Promessa, encantamento.
Folhas longas, espalmadas.
Espadins verdes
montando guarda.
 
                                                               Da Flor…
 
A expectativa, o medo.
Aquele caule frágil
ser quebrado no escuro da noite.
O vento, a chuva, o granizo.
A irreverância gosmenta
de um verme rastejante.
O imprevisto atentado
de alheia mão
consciente ou não.
 
Alerta. Insone.
Madrugadora.
 
Na manhã mal nascida,
toda em rendas cor-de-rosa,
túrgida de luz,
ao sol rascante do meio-dia.
No silêncio serenado da noite
eu, partejando o nascer da flor,
que ali vem na clausura
uterina de um botão.
Rombóide.
 
                                                    Para a flor…
 
Chamei a tantos…
Indiferentes, alheios,
ninguém sentiu comigo
o mistério daquela liturgia floral.
Encerrada na custódia do botão,
ela se enfeita para os esponsais do sol.
Ela se penteia, se veste nupcial
para o esplendor de sua efêmera
vida vegetal.
 
Na minha aflita vigília
pergunto:
— De que cor será a flor?
 
Chamo e conclamo de alheias distâncias
alheias sensibilidades.
Ninguém responde.
Ninguém sente comigo
aquele ministério oculto
aquele sortilégio a se quebrar.
 
                                                                             Afinal a Flor…
 
Do conúbio místico da terra e do sol
— a eclosão. Quatro lírios
semi-abertos,
apontando os pontos cardeais
no ápice da haste.
Vara florida de castidade santa.
Certo heráldico. Emblema litúrgico
de algum príncipe profeta bíblico
egresso das páginas sagradas
do Livro dos Reis ou do Habacuc.
 
E foi assim que eu vi a flor.
 
 
MEU EPITÁFIO
 
Morta… serei árvore,
serei tronco, serei fronde
e minhas raízes
enlaçadas às pedras de meu berço
são as cordas que brotam de uma lira.
 
Enfeitei de folhas verdes
a pedra de meu túmulo
num simbolismo
de vida vegetal.
 
Não morre aquele
que deixou na terra
a melodia de seu cântico
na música de seus versos.
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SONETO DE ANIVERSÁRIO
24 de junho de 2010

prezados,
 
hoje, 24 de junho, dia de são joão, este que vos escreve vence as suas 34 primaveras.
 
(todo ano, há bastante tempo, ouço, ao acordar, uma canção do caetano — veloso — que fala justamente sobre o santo do dia e sobre a sua festa, a festa que é em sua homenagem, a festa de são joão.) 
 
adoro, como se diz em espanhol, cumprir anos. acho essa expressão muito acertada. porque a vida é uma missão.
 
viver é quase um milagre.
 
viver é um exercício, e envolve uma série de coisas, uma série de relações desenvolvidas com o entorno, entorno sempre multifacetado e multidimensional.
 
muitas atribuições, muitas funções, muitas experiências a serem vivenciadas, a serem desnudadas, a serem re-veladas, muitas atribuições & funções & experiências que nos vão moldando dia-a-dia, mundo afora, alma adentro.
 
este preto aqui, somando as suas experiências, atribuições e funções, sente-se feliz por viver.
 
tenho grandes amigos, pessoas imprescindíveis na minha existência, uma bela família, um lar aconchegante, onde me sinto muitíssimo bem, e histórias boas para contar.
 
e o melhor: por mais que olhemos, e aprendamos, e saibamos, e falemos, a vida possui, em suas nuances tantas, um ineditismo inerente, que nos faz cantar & cantar & cantar a beleza de ser um eterno aprendiz.
 
acho muito bom saber-me um não-sabedor, acho muito bom perceber que, eternamente, até a morte, inacabado, inconcluso.
 
o inacabado, o inconcluso, é o que nos impulsiona à vida, é o que nos faz desejar a existência.
 
sei que possuo um monte de questões minhas, internas, a serem resolvidas e entendidas, um tanto de características a serem melhoradas e/ou extirpadas, mas isso não impede que eu repita:
 
no ar que eu respiro, eu sinto prazer. eu sinto prazer de ser quem eu sou, sinto prazer de estar onde estou.
 
também sinto saudades, uma espécie de melancolia, e não sou nada saudosista. a alguns essa minha frase pode parecer um paradoxo, um contrasenso, mas não o é.
 
o fato é que, sendo feliz, e eu o sou no hoje, no agora, no já, no neste instante, não há razões maiores para querer o retorno do que já passou. 
 
a todos que compõem a minha vida, que fazem dela o que é, o meu muitíssimo obrigado.
 
re-tenho a plena consciência de que, sem “o outro” (e neste “outro” incluo: pessoas, livros, lugares, artes, mares, céus, rios, flores, florestas & amores, e etc. etc. etc. etc.), o paulo sabino que se lhes apresenta não seria o mesmo paulo sabino.
 
a troca é a grande chave, é o grande negócio.
 
ninguém é muita coisa sem “o outro”.
 
(este meu amor de criatura, ele vê envelhecer, porém não envelhece…)
 
aos senhores, um belo soneto do poetinha maior que tanto admiro, vinicius de moraes.
 
beijo afetuoso em todos!
o preto,
paulo sabino / paulinho.
 
(a canção do caetano veloso, que religiosamente ouço neste dia, “são joão, xangô menino”, pode ser escutada na página do “youtube” abaixo do poema. é claro que “a voz” que a canta não faltaria à minha festa – rs.)
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(do livro: Nova Antologia Poética. autor: Vinicius de Moraes. organização: Antonio Cicero e Eucanaã Ferraz. editora: Companhia das Letras.)
 
 
SONETO DE ANIVERSÁRIO
 
Passem-se dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos.
 
Faça-se a carne mais envilecida
Diminuam os bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que levar tudo de vencida.
 
Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura.
 
E eu te direi: amiga minha, esquece…
Que grande é este amor meu de criatura
Que vê envelhecer e não envelhece.
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(autor da canção: caetano veloso. cantora: maria bethânia.)
 
 
 

REGRA
16 de março de 2010

ela me chegou através de um cunhado seu que já foi um cunhado meu (no meu coração, meu eterno cunhadinho – rs). ela é poeta. ela mora em paris. leciona & pesquisa, estuda, literatura em língua portuguesa. ela possui dois livros publicados.
 
via e-mail, recebi esta bonita, singela e sábia “regra” poética, que me levou a pensar numa questão relacionada a escolhas.
 
na vida, para quaisquer tipos de coisas, vejo pessoas fazendo das suas preferências um grande “ranque”, um tipo de “pódio de chegada”. pessoas que precisam afirmá-las — nos termos do “pódio de chegada”, vale o esclarecimento — para mostrarem, aos outros e a si, que têm muita personalidade (rs). se dependerem de mim, imaginarão sempre que sou um “sem personalidade” (rs).
 
eu, sinceramente, parei com esse jogo.
 
“quem é a maior cantora do brasil, gal costa ou maria bethânia?” “qual é a maior banda de todos os tempos, beatles ou rolling stones?” “quem é o mais foda, chico ou caetano?” “você gosta mais de doce ou de salgado?” “prefere o frio ou o calor?” “é mais rueiro ou mais caseiro?” “quem é o maior poeta brasileiro na sua (personalíssima, evidentemente – rs) opinião, drummond ou joão cabral?” “e o maior escritor, machado de assis ou graciliano ramos?”
 
chega!, cansei (rs). não quero ter que preferir entre uma e outra coisa, não quero ter que escolher o primeiro, o segundo e o terceiro lugares. lugares do quê?, da onde?, do sentimento?, do meu sentimento? mas para o meu sentimento não é preciso esse tipo de “escala dos mais-mais”. não! no meu sentimento todos têm espaço, todos têm as suas grandes importância & contribuição.
 
esse tipo de olhar, o que abriga todos, é claro, não nasceu comigo. somos criados num mundo de muitas competições. as pessoas, muitas vezes, perdem o prumo e passam a competir por quaisquer razões. não considero saudável essa postura.
 
observando o entorno, percebi que as belezas são tamanhas e tantas, que se tornam ainda mais belas porque convivem, coabitam, porque: complementares.
 
belezas não nasceram para exclusão, para catalogação de importâncias, ao contrário: belezas: sempre sempre sempre complementares, e complementares porque singulares, únicas, ímpares.
 
(e viva a diversidade!)
 
seguindo esse viés, tenho, por regra, assim como a autora dos versos a seguir, abarcar o todo-encanto, abarcar tudo que comove como: preferências, nada de fora:
 
de dia, sorver a sua transparência, sequioso.
 
de noite, ab-sorver o impenetrável da noite, esta formosura, escura.
 
isto é: (ir) a tudo!
 
inês cavalcanti, muitíssimo obrigado pelo poemeto. agora aguardo o seu livro.
 
(pensem a respeito das suas escolhas.)
 
beijo em você, poeta.
um outro nos senhores.
o preto,
paulo sabino / paulinho.
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REGRA (autora: Inês Cavalcanti.)
 
De noite absorver a pura
formosura impenetrável
da noite escura.
 
De dia sorver sequiosa
a transparência formosa
do meio-dia.

ÀS MULHERES
8 de março de 2010

Mulheres_PB
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o dia de hoje, 8 de março, é reservado internacionalmente a uma homenagem às mulheres. por essa razão, segue este poema-canção, lindíssimo, que se encaixa perfeitamente ao laurel proposto: versos que falam de mulheres, mais especificamente das mulheres do meu brasil varonil, porém possíveis de serem estendidos a todas as demais mulheres, debuxados por uma grande cantora & compositora & interpretados por outra grande companheira de profissão. eu, desde sempre, desde a minha mãe, desde as minhas tias, sou louco por mulheres, um grande fã. as que conheço & estão ao meu lado são habituadas a delicadezas. inteligentes, protetoras, perspicazes.

gosto muito de gente. gosto de escutar gente, de saber o que pensa, como anda. não seria diferente com as mulheres.

a elas, a capacidade não só de gerar, mas também de armazenar vida latente, vida pulsante. acho comovente mulher barriguda que vai ter menino.

à jurema, nely, joyce, maria, clarice, lya, lygia, marly, nélida, adélia, rachel, orides, cora, cecília, sophia, natália, florbela, cacilda, fernanda, marília, bibi, dolores, clara, gal, nana, rita, elis, elisa, alice, hilda, claudia, patrícia, zélia, e assim sucessivamente, em espiral vertiginosa: muitíssimo obrigado. por tanto, por tudo, agradeço a vocês, mulheres da minha trilha, irmãs porque a mãe natureza fez todas tão belas.

parir, gerar, criar: existir: eis a prova de destino tão valoroso.

a mulher brasileira, no alto a sua bandeira, saúda o povo & pede passagem!

que vocês, mulheres, de um modo bonito, de um modo delicado, conquistem o mundo!

um brinde a elas!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do encarte do cd: Maria. artista: Maria Bethânia. autora dos versos: Joyce. gravadora: BMG Ariola.)

 

 

MULHERES DO BRASIL

 

No tempo em que a maçã foi inventada
Antes da pólvora, da roda e do jornal
A mulher passou a ser culpada
Pelos deslizes do pecado original
Guardiã de todas as virtudes
Santas e megeras, pecadoras e donzelas
Filhas de Maria ou deusas lá de Hollywood
São irmãs porque a Mãe Natureza fez todas tão belas
Tão belas
Ó Mãe, ó Mãe, ó Mãe
Nossa Mãe, abre teu colo generoso
Parir, gerar, criar e provar nosso destino valoroso
São donas de casa, professoras, bailarinas
Moças, operárias, prostitutas, meninas
Lá do breu das brumas vem chegando a bandeira
Saúda o povo e pede passagem a mulher brasileira
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Maria. artista & intérprete: Maria Bethânia. canção: Mulheres do Brasil. autora da canção: Joyce. gravadora: BMG Ariola.)

SÃO SEBASTIÃO DO RIO DE JANEIRO
20 de janeiro de 2010

End of the Afternoon Mirante Dona Marta
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hoje, 20 de janeiro, é dia de são sebastião,  padroeiro da cidade de do rio de janeiro, padroeiro da cidade onde nasci & me criei.

o rio é uma cidade de cidades misturadas. é ao mesmo tempo bela & banguela, feito a (baía de) guanabara.

no asfalto, luxo & glamour. nos morros, pobreza & violência.

mesmo com todos os problemas existentes, gosto de viver aqui. céu & mar, mar & montanha, montanha & queda d’água: uma cidade mágica por abrigar muitas possibilidades de convívio com belezas naturais. esse aspecto, no rio, me fascina.

sempre que, pela via expressa do aterro do flamengo, passo pelo pão de açúcar, este bloco maciço, empedernido, gigante pela própria natureza, canto, para mim, estes versos do oswald de andrade:


ESCAPULÁRIO

No Pão de Açúcar
De Cada Dia
Dai-nos Senhor
A Poesia
De Cada Dia

 

não há um dia que não passe por esse monumento à beira-mar e não repare na sua lindeza quotidiana. a cada dia uma novidade que o próprio dia arquiteta, repaginando, a cada momento, a (belíssima) paisagem.

então, de presente à cidade (ainda) maravilhosa, seguem estes dois poemas que adoro.

(rio de janeiro, gosto de você. gosto de quem gosta deste céu, deste mar, desta gente feliz.)

beijo festivo!
paulo sabino.
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RIO DE JANEIRO

 

Louvo o Padre, louvo o Filho
E louvo o Espírito Santo.
Louvado Deus, louvo o santo
De quem este Rio é filho.
Louvo o santo padroeiro
— Bravo São Sebastião —
Que num dia de janeiro
Lhe deu santa defensão.

Louvo a cidade nascida
No morro Cara de Cão,
Logo depois transferida
Para o Castelo, de então
Descendo as faldas do outeiro,
Avultando em arredores,
Subindo a morros maiores,
— Grande Rio de Janeiro!

Rio de Janeiro, agora
De quatrocentos janeiros…
Ó Rio de meus primeiros
Sonhos! (A última hora
De minha vida oxalá
Venha sob teus céus serenos,
Porque assim sentirei menos
O meu despejo de cá.)

Cidade de sol e bruma,
Se não és mais capital
Desta nação, não faz mal:
Jamais capital nenhuma,
Rio, empanará teu brilho,
Igualará teu encanto.
Louvo o Padre, louvo o Filho
E louvo o Espírito Santo.

(extraído do livro: Estrela da Vida Inteira. autor: Manuel Bandeira. editora: Nova Fronteira.)

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SÃO SEBASTIÃO

 

São Sebastião
Tua cidade tem as curvas
Quais as curvas de um nobre violão
Não será razão de tanta música bonita
Ter-se feito em sua mão?
Ó Pai Odé
Protege as matas que circundam esse altar
Que da maré vazante ou cheia
Já se ocupa Yemanjá

São Sebastião do Rio flechado
Em seu peito atravessado
Pelas setas dos seus filhos
Queira Deus que os meninos
Achem a trilha nos seus trilhos
Inspirados na beleza do seu verde e seu anil
E mereçam a cidade estandarte do Brasil
E que outros mil poetas
Venham te cantar, meu Rio

São Sebastião
Tua cidade cor de rosa
Fez da prosa um belo samba de Noel
Se eu fosse Gardel cantaria um tango
Pelo tanto dos encantos de Isabel
Ó meu São Tomé, se alguém duvida
Passe os olhos pela Urca e o Sumaré
Onde a Imperatriz beijou a flor
Porta-bandeira da cidade mais feliz

São Sebastião do Rio flertado
Ribeirão puro, encantado
Sol no casco dos navios
Te naveguem as mais belas
E os mais belos dos bravios
Nessas águas que fizeram de Machado
Suas letras imortais
Entre copas de Salgueiros e Mangueiras tropicais
E que novas musas venham te inspirar a paz

(extraído do cd: Menino do Rio. artista: Mart’nália. selo: Quitanda. gravadora: Biscoito Fino. autor dos versos: Totonho Villeroy.)

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(do site: Youtube. Áudio extraído do álbum: Menino do Rio. artista & intérprete: Mart’nália. canção: São Sebastião. autor: Totonho Villeroy. participação especial: Maria Bethânia recita trechos de Cartão Postal. autor do poema: Vinicius de Moraes. selo: Quitanda. gravadora: Biscoito Fino.)

PERFIL MARIA BETHÂNIA À REVISTA UBC
6 de janeiro de 2010

prezadas & prezados,
 
foi-me solicitado, através da minha querida amiga vivi fernandes de lima, dona do espaço “chalé da vivi” (http://chaledavivi.blogspot.com/), um texto, publicado este mês, que fosse um perfil sobre uma das grandes divas da minha vida, a abelha-rainha, sobre aquela que deu início a tudo que hoje compartilho com vocês, sobre maria bethânia, para a revista da união brasileira de compositores (ubc).
 
evidentemente, esta não foi uma tarefa fácil para mim (rs). mas o texto saiu. deixo-o aqui, à apreciação de todos.
 
quem tiver interesse de conhecer o conteúdo da publicação, acesse: http://www.ubc.org.br/arquivos/download/pauta_extra/revistaUBC01-2010.pdf.
 
o mote para o perfil foi o lançamento dos dois últimos trabalhos de bethânia, os cds “tua” e “encanteria”.  
 
um beijo!
o preto.
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(texto extraído da revista ubc, publicação de janeiro de 2010.)
 
A RAINHA DA VOZ – Para Maria Bethânia, cantar é mais do que um ofício. É motivo de alegria.
 
(por Paulo Sabino)
 
“Não faço concessão na escolha do meu repertório. Só canto o que quero e o que gosto”, afirmou a cantora Maria Bethânia, em diversas entrevistas. Deve ser por isso que hoje, com 44 anos de carreira, a cantora coleciona grandes sucessos e muitos mitos em torno de sua vida. Ídolo de uma legião de seguidores fiéis, é considerada pelos fãs “a rainha que nunca perde a majestade”. E eles têm razão. Ao longo de sua extensa trajetória, a cantora é sempre reconhecida como artista de qualidade pelo público e pela crítica, mesmo quando seus discos não vendem muito.
 
Em outubro, ela lançou pela gravadora Biscoito Fino e pelo seu selo Quitanda, os CDs “Tua”, com canções românticas, e “Encanteria”, com composições festivas que remetem à cultura popular nacional. Os dois discos trazem canções dos compositores que estão no rol dos seus preferidos: Adriana Calcanhotto, Roque Ferreira (compositor-poeta conterrâneo da cantora), Paulo César Pinheiro, Vanessa da Mata, Arnaldo Antunes, J. Velloso, entre outros.
 
Dona de um timbre raríssimo, ímpar, começou a carreira com estreia à altura do seu enorme talento, substituindo a então famosa e musa da bossa nova, Nara Leão, num espetáculo do Teatro Opinião, ao lado dos compositores Zé Kéti e João do Vale. Sua voz grave e seu timbre rascante fizeram com que a canção de forte cunho político “Carcará” (“Carcará lá no sertão/ é um bicho que ‘avoa’ que nem avião…”), de João do Vale, se tornasse o seu primeiro grande sucesso nacional. De uma hora para outra, a menina de 17 anos, chegada de Santo Amaro da Purificação, cidade do interior do Recôncavo Baiano, tornou-se uma celebridade. De lá para cá, não parou de brilhar no cancioneiro brasileiro.
 
A cantora sempre afirmou que, desde muito nova, ainda criança, sabia que o seu destino seria traçado na ribalta: “eu, na verdade, dizia desde pequena que eu ia ser artista ou então ia ser trapezista. E o palco, para mim, é um pouco isso, é o trapézio. Sem a rede”, ri ao sentenciar no documentário “Maria Bethânia – Música é Perfume” (2005), de Georges Gachot.
 
Determinada, suas escolhas são tomadas de acordo com suas ambições artísticas. Assim, tornou-se não só uma grande intérprete de canções, como também da palavra falada. Bethânia sabia que o verso cantado não daria conta do que almejava no palco. Por isso, começou a levar textos, fossem prosa ou poesia, para os seus espetáculos, o que acabou se transformando numa marca registrada das suas apresentações.
 
Por ser uma “intérprete”, como ela mesma prefere ser chamada, não foi, nem é, uma cantora ligada à bossa nova, que primava por um canto mais contido e menos teatral. O seu caminho foi buscar refúgio nas grandes canções de cunho amoroso, anteriores ao gênero lançado por João Gilberto – samba-canções e boleros de fortes arroubos sentimentais –, nas canções de temas ligados ao interior do Nordeste e naquelas criadas por compositores da sua geração, carregadas de dramaticidade.
 
Bethânia canta o amor em todas as suas dimensões, o descaso político, a tristeza do mundo, do ser humano, o esplendor das forças da natureza, as festas do seu povo, a beleza de ser feliz, as suas crenças religiosas. Aliás, por orientação do candomblé, religião que escolheu já adulta, não veste roupas de cor preta ao apresentar-se em shows. E por acreditar profundamente no poder que as palavras carregam, recusa-se a pronunciar algumas delas: “Tem algumas palavras que eu não gosto de dizer e não digo. Pode ser a música de Chico Buarque de Holanda, que eu venero, mas se tiver uma palavra de que eu não goste, não há quem me faça dizer”.
 
Por esta qualidade tão cara, a de fazer só aquilo que deseja, a cantora afirma nunca se aborrecer com o seu ofício, que é o de interpretar as canções do seu repertório e os textos selecionados para leitura. Segundo Bethânia, cantar sempre foi motivo de muita alegria: seja na solidão do estúdio de gravação, depois que as bases e arranjos das músicas estão prontos para que a sua voz seja colocada, seja na situação inversa a essa, quando entra no palco e se depara com centenas de pessoas na plateia, à sua espera.
 
Fora do palco, a abelha-rainha – sua alcunha mais emblemática, uma referência ao período de imenso sucesso, em 1979, com o LP “Mel” – tem sua vida guardada a sete chaves. Bethânia nunca quis nem nunca gostou de falar publicamente sobre sua vida pessoal. Manteve-se sempre à parte das publicações e colunas de fofocas, ciente de que a mídia serve à divulgação do seu trabalho artístico, que é o que mais importa.
 
Esta discrição gerou em torno da sua figura uma série de “casos” a seu respeito, que se tornaram verdadeiras “lendas”. Como a história de que a artista mantém em sua casa uma espécie de santuário, onde ela “receberia entidades espirituais” e faria oferendas às tais entidades. Bethânia se diverte com tanta curiosidade acerca do seu quotidiano e, numa entrevista, atirou: “fora do palco não tem nada demais. Sou a Maria Bethânia, dona de casa, normal, comum, igual a todo mundo”.

ASSISTAM: “MARIA BETHÂNIA – MÚSICA É PERFUME”
28 de outubro de 2009

(texto de apresentação do documentário Maria Bethânia — Música é perfume, dirigido por Georges Gachot, lançado em dvd pelo selo Quitanda)
 
Tudo começou no Festival de Montreux, na Suíça, em 1996, quando o documentarista francês Georges Gachot foi a um show de Maria Bethânia pela primeira vez. A perplexidade diante do que viu, o “choque com a presença dela em cena, sua concentração incrível de emoção, seus pés nus”, segundo ele próprio, resultou na vontade imediata de fazer um documentário sobre a cantora. A imersão do cineasta num universo musical completamente desconhecido para ele, o de Bethânia, e por extensão o brasileiro, desaguou na sensibilidade crua de “Maria Bethânia — Música é perfume”.
 
Decidido a fazer o filme, Gachot gastou sete anos, de 1996 a 2003, num processo de pesquisa sobre a cantora e toda a história da música brasileira. “Música é perfume” é, antes de mais nada, uma análise do processo criativo de Bethânia na formação da música popular brasileira. Além da própria Bethânia, que conta curiosidades de família, há depoimentos do irmão Caetano, da mãe Dona Canô, dos amigos Chico Buarque, Nana Caymmi e Gilberto Gil, e também do fiel maestro Jaime Alem.
 
A voz de Bethânia é isso, é aquela que está presente em cada um de nós e, ao mesmo tempo, é a expressão humana e síntese de todo um país. “Música é perfume” capta a simbiose única entre uma voz e um país, até que não se saiba mais onde termina um e começa outro.
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assino embaixo do que foi escrito acima.
(fica a dica.)
 
beijo em todos,
paulo sabino / paulinho.

UM INSTRUMENTO DO MEU PRAZER – WALY SALOMÃO 2
9 de setembro de 2009

 queridos, 

a vida, de fato, é surpreendente.
 
o que me ocorreu é um exemplo mínimo, bobo, singelo, de como não temos, nem podemos ter, total controle sobre o que nos acontece.
 
há um tempo, exatamente na manhã do dia 18 de junho, caminhando para o trabalho, não pensava em poema algum. nada em mente. a noite passada fora maravilhosa, encantada, feliz, e isso era a única coisa que importava.
 
mas a vida… eis o “causo” (rs): fones nos ouvidos, celular ligado em uma estação de rádio fm. de repente, uma chamada. atendo. converso. desligo. volta a estação radiofônica. diz o locutor: “e agora, começamos o bloco com a abelha-rainha, que faz aniversário hoje, maria bethânia.” e me arromba os tímpanos a beleza daquela voz, daquele som emitido por esta espécie de águia nordestina, cantando “mel”, composição do seu mano caetano veloso e do poeta waly salomão, que delineou linhas lindíssimas, emblemáticas na carreira da intérprete. foi dessa canção, inclusive, que recaiu sobre bethânia a alcunha de “abelha-rainha”. abaixo, um trecho da letra:
 
Oh, abelha rainha
Faz de mim
Um instrumento de teu prazer
Sim, e de tua glória
Pois se é noite de completa escuridão
Provo do favo do teu mel
Cavo a direta claridade do céu
E abarco o sol com a mão 
 
durante a canção, emocionado, assaltou-me, sem mais nem menos, sem que eu tivesse algum tipo de controle sobre a situação, o poema que segue. versos encantados, que tratam do fato de reinventar-se, de reter-se no imponderável, de abrigar-se, sem abrigo, no contínuo movimento de mudar, natural à existência. um grito pela liberdade de seguir rumos, de partir, sem sombras ou vestígios. atracar no presente, remando contra a maré sempre que preciso for. nadar, nadar, nadar, mesmo que se morra na praia antes de alcançar o mar.
 
lembrem-se: criar é desacostumar-se do que se é, do que está, ou seja, é desaceitar o fado fixo, é romper com a mesmice, com a monotonia da vida, e ser arbitrário, isto é: o ser casual, o ser não sujeito a determinadas normatizações / regras / convenções.
 
sejamos sujeitos a esse tipo de trabalho. sejamos sujeitos autônomos.
 
o poema é uma homenagem do waly salomão a ela, à voz que me permeia intensamente, à artista que só contribuiu para o meu amadurecimento em diversos aspectos.
 
é, também, uma homenagem minha a vocês.
 
um beijo em todos,
o preto,
paulo sabino / paulinho.
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SARGAÇOS
  
para Maria Bethânia
 
 
“Fatalismo significa dormir entre salteadores”
Jalâl al-Dîn- al- Rume, poeta sufi
 
 
Criar é não se adequar à vida como ela é,
Nem tampouco se grudar às lembranças pretéritas
Que não sobrenadam mais.
Nem ancorar à beira-cais estagnado,
Nem malhar a batida bigorna à beira-mágoa.
 
Nascer não é antes, não é ficar a ver navios,
Nascer é depois, é nadar após se afundar e se afogar.
Braçadas e mais braçadas até perder o fôlego
(Sargaços ofegam o peito opresso),
Bombear gás do tanque de reserva localizado em algum ponto
Do corpo
E não parar de nadar,
Nem que se morra na praia antes de alcançar o mar.
 
Plasmar
bancos de areias, recifes de corais, ilhas, arquipélagos, baías,
                                                              espumas e salistres,
                                                               ondas e maresias.
 
Mar de sargaços
 
Nadar, nadar, nadar e inventar a viagem, o mapa,
                                                   o astrolábio de sete faces,
O zumbido dos ventos em redemunho, o leme, as velas, as
                                                                           cordas,
Os ferros , o júbilo e o luto.
Encasquetar-se na captura da canção que inventa Orfeu
Ou daquela outra que conduz ao mar absoluto.
 
                                Só e outros poemas
                                                  Soledades
                                                           Solitude, récif, étoile.
 
Através dos anéis escancarados pelos velhos horizontes
Parir,
              desvelar,
                           desocultar novos horizontes.
Mamar o leite primevo, o colostro, da Via Láctea.
E, mormente,
                     remar contra a maré numa canoa furada
Somente
              para martelar um padrão estóico-tresloucado
De desaceitar o naufrágio.
Criar é se desacostumar do fado fixo
E ser arbitrário.
                                                 Sendo os remos imateriais
 
                                                 (Remos figurados no ar
                                                  pelos círculos das palavras.)
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(autor: Waly Salomão. livro: Lábia. editora: Rocco)

EROS E PSIQUE – O AÚDIO
24 de agosto de 2009

aos senhores,

logo abaixo, o áudio do poema “eros e psique”, de fernando pessoa, poema já publicado neste blog, com um texto de apresentação feito por este que vos escreve, neste link a quem interessar:

https://prosaempoema.wordpress.com/2009/08/21/eros-e-psique/.

só que, no link acima, a publicação está sem o áudio.

para que esta publicação cumpra, de modo mais abrangente, o seu papel, publico, junto com o áudio, os versos mais uma vez.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Pássaro da manhã. artista & intérprete: Maria Bethânia. poema: Eros e Psique. autor: Fernando Pessoa. gravadora: Universal Music.)

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(do livro: Poemas — Fernando Pessoa. seleção e organização: Cleonice Berardinelli. editora: Nova Fronteira.)

 

EROS E PSIQUE

 

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino —
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

EROS E PSIQUE
21 de agosto de 2009

certa vez, perguntada por um jornalista sobre quem, na sua opinião, é a maior atriz do brasil, fernanda montenegro, uma das maiores, senão a maior atriz do país, respondeu, categórica: maria bethânia.

tenho muito a dizer sobre bethânia, sobre minha mãe e sobre a importância crucial dessas duas mulheres encantadas no meu gosto literário. foi a partir delas, de bethânia e da minha cabocla jurema, que tudo começou. um dia, mais a fundo, farei um texto para homenageá-las, eu sei.

hoje me atenho ao fato de bethânia ser, para mim e para muitos (inclusive para a maioria esmagadora dos poetas), uma das maiores intérpretes da palavra falada.

desde muito cedo, bethânia sentia que a palavra cantada não daria conta do que ambicionava em palco. por isso, tornou-se, talvez, a única (desculpem a minha ignorância, mas, de fato, não conheço nem nunca ouvi falar de outra artista, no mundo, que trabalhasse desta maneira) intérprete de música a levar textos, tanto em poesia quanto em prosa, para os seus espetáculos.

por conseguinte, a cantora é/foi próxima e amiga de grandes escritores: vinicius de moraes, clarice lispector (que inclusive escreveu textos exclusivos para alguns dos seus espetáculos), ferreira gullar, lya luft, waly salomão, arnaldo antunes, antonio cicero, entre tantos outros.

ela é a grande mestre. em 1977, gravou um long-play em estúdio cuja faixa primeira é um dos poemas, na minha humilde opinião, mais lindos do mundo: “eros e psique”, do extraordinário, do maior poeta da língua portuguesa, fernando pessoa. os versos narram o encontro dessas duas frentes, dessas duas forças que compõem e moldam todos nós.

eros, o infante esforçado, rompe o seu caminho, o caminho fadado, predestinado, sem saber que intuito, que razão, possui. a força cega, que segue um chamado sem bem decifrá-lo, a força do sentimento, o amor.

psique, a princesa, a alma, a consciência, que, se espera, espera adormecida o infante, sem nem saber que existe;  e vive, por isso mesmo, num reino distante, para além do muro da estrada.

eros, o infante, alcança psique, a princesa encantada, e desse encontro nasce a descoberta de que, “no fundo”, ele próprio, o infante, é a princesa que dormia.

é o momento, literal, da “tomada da consciência”, do “cair em si”, do “saber-se de si”.

o sentimento ligado à razão. a razão e a sensibilidade, unas.

a minha aposta reside exatamente na mescla dessas duas forças.

na voz de bethânia, com sua interpretação, suas pausas entre versos & palavras, sua dramaticidade, o poema ganha, às claras, a força que concentra e carrega. a primeira vez que ouvi as linhas na sua voz, e as entendi, chorei copiosamente. chorei chorei chorei feito criança que sou (rs).

experimente, quem nunca o fez, ler os versos com a bethânia. é esclarecedor. a intérprete ilumina todas as linhas.

(como caetano veloso, gosto do pessoa na pessoa. injetem-no na veia.)

um beijo nocês tudo,

o preto,

paulinho / paulo sabino.

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EROS E PSIQUE (Fernando Pessoa)
 
Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.   
 
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
 
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
 
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.
 
Mas cada um cumpre o Destino —
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
 
E, se bem seja obscuro
Tudo pela estrada afora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.
 
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.