POSSE DE ANTONIO CICERO NA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS + A CIDADE E OS LIVROS
20 de março de 2018

O mais novo membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), o poeta & filósofo Antonio Cicero

Na posse do mais novo membro da Academia Brasileira de Letras, Antonio Cicero. Na foto, ao fundo, atrás do Cicero, o querido Marcelo Pies, e atrás de mim, o meu amigo & irmão de poesia Christovam de Chevalier

Com o empossado na ABL Antonio Cicero & Rafael Millon, primo do imortal

Com os irmãos lindos & queridos, Cicero & Marina Lima

Com um grande amigo & mestre, o badalado & premiadíssimo poeta Salgado Maranhão

Com um amor da vida, o meu lindo amigo & grande poeta Jorge Salomão

Com Geraldinho Carneiro, pessoa que amo, pura simpatia & diversão

Na companhia dessa dupla imbatível, mestres & amigos, Geraldinho Carneiro & Antonio Carlos Secchin

Este aqui foi o momento sofá, a hora do gesto discreto do Cicero, me chamando pra mais perto, pra sentar ao seu lado, e eu me derramando inteiro por conta das doses de uísque — ao meu lado, a doce amiga & poeta Noélia Ribeiro

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“Que linda essa história”

(Marina Lima — cantora & compositora)

 

“Que bacana, Paulo. Queria muito ter estado com vocês todos mas estou do outro lado do Atlântico, lotada de compromissos. A ABL ganhou um tesouro! Um beijo, Adriana”.

(Adriana Calcanhotto — cantora & compositora)

 

 

Sexta-feira, dia 16/03, foi dia da posse do mais novo membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), o poeta & filósofo Antonio Cicero.

Conheci o Cicero no início de 1999, quando tinha os meus 23 aninhos. 19 anos se passaram & nesses 19 anos a nossa amizade só fez crescer & florescer. Pela proximidade que acabou acontecendo, o Cicero foi uma espécie de mentor intelectual. Sempre pedi muita indicação de livros & dicionários a ele, enviava dúvidas minhas a respeito de assuntos ligados à filosofia, e o Cicero, muito generoso, sempre esteve “ali”, me auxiliando nas solicitações. Foi ele quem me fez criar o meu site literário, o “Prosa Em Poema”, site que me abriu as portas para o convívio com os grandes intelectuais & escritores que, hoje, tenho a honra & o prazer de ser amigo. Foi o Cicero o meu grande padrinho nesse sentido, porque antes de tornar o site público, anunciar que a página estava no ar, escrevi a ele, pedindo a sua avaliação, e no dia seguinte estava estampada no seu site, o “Acontecimentos”, uma publicação linda, convidando os seus leitores a conhecerem a minha página, o que garantiu ao site, logo no primeiro dia do “Prosa Em Poema”, mais de 200 visualizações.

A nossa história é muito bonita. Nunca me esqueço de quando nos encontramos num lançamento de livro & ele me disse: “Paulinho, te conheci um garoto, hoje você é um homem”. E é verdade.

Uma alegria pra sempre ter, no seu segundo livro de poesia, “A cidade e os livros”, um poema dedicado a mim, poema que inclusive leva o meu nome. Já rimos muito disso.

Por isso, na sexta, quando vi o Cicero adentrando o salão nobre da ABL, de fardão, para tomar posse, eu me emocionei & chorei disfarçadamente. É o cara de uma importância sem precedentes na minha trajetória intelectual, recebendo uma homenagem mais do que merecida dos seus pares, eleito o ocupante da cadeira de número 27 da instituição. No final da noite, antes de ir embora, o Cicero me fisgou pelo olhar & num gesto discreto me chamou para sentar ao seu lado (a última foto das dispostas acima, foi o Rafael Millon, primo do Cicero, quem nos flagrou de longe). Tocado de uísque, pilequinho, sentei junto a ele & me derramei, bem confessional. A nossa amizade & o nosso amor & a nossa admiração mútua permitem essas coisas.

Foi uma noite linda ao lado de muitos amigos. Uma noite à altura de Antonio Cicero.

(Você me abre seus braços & a gente faz um país.)

Vivas a ele, salve mais uma conquista!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do livro: A cidade e os livros. autor: Antonio Cicero. editora: Record.)

 

 

A CIDADE E OS LIVROS

para D. Vanna Piraccini

 

O Rio parecia inesgotável
àquele adolescente que era eu.
Sozinho entrar no ônibus Castelo,
saltar no fim da linha, andar sem medo
no centro da cidade proibida, 
em meio à multidão que nem notava
que eu não lhe pertencia — e de repente,
anônimo entre anônimos, notar
eufórico que sim, que pertencia
a ela, e ela a mim —, entrar em becos,
travessas, avenidas, galerias,
cinemas, livrarias: Leonardo
da Vinci Larga Rex Central Colombo
Marrecas Íris Meio-Dia Cosmos
Alfândega Cruzeiro Carioca
Marrocos Passos Civilização
Cavé Saara São José Rosário
Passeio Público Ouvidor Padrão
Vitória Lavradio Cinelândia:
lugares que antes eu nem conhecia
abriam-se em esquinas infinitas
de ruas doravante prolongáveis
por todas as cidades que existiam.
Eu só sentira algo semelhante
ao perceber que os livros dos adultos
também me interessavam: que em princípio
haviam sido escritos para mim
os livros todos. Hoje é diferente,
pois todas as cidades encolheram,
são previsíveis, dão claustrofobia
e até dariam tédio, se não fossem
os livros infinitos que contêm.

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OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (7ª EDIÇÃO) — HOMENAGEM A JORGE SALOMÃO — 70 ANOS DE POESIA PURA
23 de setembro de 2016

(Mais um participante confirmado para esta edição do projeto: é o filósofo, poeta & letrista Antonio Cicero.)

 

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(O homenageado da noite, o poeta, letrista & agitador cultural Jorge Salomão — Foto: Elena Moccagatta)

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(Roberto Frejat)

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(Antonio Cicero)

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(Christovam de Chevalier — Foto: Elena Moccagatta)

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(Patrícia Mellodi)

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(Sheila da Silveira)

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(Paulo Sabino & Jorge Salomão)

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(Matéria do suplemento Zona Sul, do jornal O Globo, sobre a 7ª edição do projeto Ocupação Poética)
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Anotem na agenda, espalhem a notícia, compartilhem esta publicação!

Dia 26 DE SETEMBRO (segunda-feira), às 20H: a 7ª edição do projeto OCUPAÇÃO POÉTICA, coordenado por PAULO SABINO, no teatro CÂNDIDO MENDES (Ipanema – Rio de Janeiro), em comemoração aos 70 ANOS DE VIDA do GRANDE poeta, letrista & agitador cultural JORGE SALOMÃO.

Na noite, prestaremos uma homenagem ao JORGE SALOMÃO lendo vários dos seus BELOS poemas da sua CONSAGRADA carreira.

Além da participação do poeta homenageado & da participação deste que vos escreve, o Paulo Sabino, o evento contará também com as participações para lá de especiais:

— do cantor & compositor ROBERTO FREJAT;
— do filósofo, poeta & letrista ANTONIO CICERO;
— do poeta & jornalista CHRISTOVAM DE CHEVALIER;
— da cantora & compositora PATRÍCIA MELLODI;
— da poeta SHEILA DA SILVEIRA.

 

26 DE SETEMBRO (segunda-feira), às 20H, no teatro CÂNDIDO MENDES (Ipanema – Rio de Janeiro): a 7ª edição do projeto OCUPAÇÃO POÉTICA.

Coordenação do projeto: PAULO SABINO.

Esperamos todos!

 

SERVIÇO

Ocupação Poética – Teatro Cândido Mendes

Coordenação: PAULO SABINO

Segunda-feira (26/09)

Participantes: PAULO SABINO, JORGE SALOMÃO, ROBERTO FREJAT, ANTONIO CICERO, CHRISTOVAM DE CHEVALIER, PATRÍCIA MELLODI, SHEILA DA SILVEIRA

Horário: 20h
Entrada: R$ 40,00 (inteira) / R$ 20,00 (meia)
Vendas antecipadas na bilheteria do teatro
End.: Joana Angélica, 63 – Ipanema, Rio de Janeiro. Tel.: (21) 2523-3663.

 

LISTA AMIGA (MEIA-ENTRADA):

Queridos & Queridas,

A lista amiga deste evento, a 7ª edição do projeto Ocupação Poética no teatro Cândido Mendes, em homenagem ao poeta, letrista & agitador cultural Jorge Salomão, dia 26/09 (segunda-feira), garante apenas o preço da meia-entrada (R$ 20,00), não garante o ingresso na bilheteria (em caso de lotação).

A lista amiga serve àqueles que:

1) não possuem CARTEIRA DE ESTUDANTE;
2) não possuem CARTEIRA DE PROFESSOR;
3) não possuem CARTEIRA DO CINE SANTA TERESA;
4) não possuem ACIMA DE 65 ANOS.

Se você se enquadra em algum dos quesitos acima (possui, ou carteira de estudante, ou a de professor, ou a do Cine Santa Teresa, ou possui acima de 65 anos), você NÃO PRECISA do nome na lista amiga.

Os que queiram pagar meia-entrada (R$ 20,00) & não possuem as carteiras citadas acima nem mais de 65 anos, por favor, deixem os nomes nos comentários desta publicação.

Até lá! Até já!
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(autor dos versos: Jorge Salomão.)

 

 

PSEUDO-BLUES

 

Dentro de cada um
Tem mais mistérios do que pensa o outro
Uma louca paixão avassala a alma o mais que pode
O certo é incerto, o incerto é uma estrada reta
De vez em quando acerto
Depois tropeço no meio da linha

Tem essa mágica
O dia nasce todo dia
Resta uma dúvida
O sol só vem de vez em quando
O certo é incerto, o incerto é uma estrada reta
De vez em quando acerto
Depois tropeço no meio da linha
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Virgem. artista & intérprete: Marina Lima. canção: Pseudo-Blues. música: Nico Rezende. poema: Jorge Salomão. gravadora: Universal Music.)

O CHAMADO: UMA PEÇA POÉTICA EM 3 ATOS
20 de outubro de 2013

Que tal aquele brinde que faltou

 

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1º Ato:

 

Vou seguir o chamado: e onde é que vai dar? e onde é que vai dar? Não sei…

Arriscar — seguindo o tal chamado — ser derrotado por mentiras que vão, mentiras que vêm, punir, mentiras que vão, mentiras que vêm, castigar (punir/castigar o fato de eu seguir o chamado & me arriscar na escolha).

Logo eu, arriscar ser derrotado por mentiras que vão, mentiras que vêm, punir, logo eu, um coração cansado de sofrer & de amar até o fim…

(Quer saber? Acho que vou desistir… Nada de seguir o chamado.)

 

2º Ato:

 

(Porém,)

Céu abriga o recado: que é pra eu me guardar, que é pra eu esperar: mudanças estão por vir…

O recado celeste: esperar ser proclamado o grande final, o grande final feliz: que tal aquele brinde que faltou? que tal aquele brinde — ao nosso amor —que ficou para trás?

Que tal, então, seguir o chamado, ainda que eu não saiba onde vai dar, ainda que eu me arrisque à derrota por mentiras que vêm & que vão punir?

(Será que teria sido assim, antes, com o grande final, o grande final feliz, se tivéssemos, antes, optado pela espera daquele brinde que faltou?…)

(Quer saber? Acho que vou resistir…)

 

3º Ato:

 

Arriscar & amar até o fim.

 

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beijo todos!
paulo sabino.
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(do encarte do cd: O chamado. artista: Marina Lima. autores: Giovanni Bizzotto / Marina Lima. gravadora: EMI.)

 

 

O CHAMADO

 

Vou seguir
O chamado
E onde é que vai dar, e onde é que vai dar
Não sei

Arriscar ser
Derrotado
Por mentiras que vão, mentiras que vêm
Punir

Um coração cansado de sofrer
E de amar até o fim…
Acho que vou desistir

Céu abriga
O recado
Que é pra eu me guardar, mudanças estão por vir

Esperar ser
Proclamado
O grande final, o grande final feliz

Que tal aquele brinde que faltou?
Será que teria sido assim…
Acho que vou resistir
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: O chamado. canção: O chamado. artista & intérprete: Marina Lima. autores da canção: Marina Lima / Giovanni Bizzotto. gravadora: EMI.)

VIRGEM
1 de novembro de 2011

Farol da ilha de Porer (Croácia)

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INOCENTES DO LEBLON   (Carlos Drummond de Andrade)

 

Os inocentes do Leblon
não viram o navio entrar.
Trouxe bailarinas?
trouxe imigrantes?
trouxe um grama de rádio?
Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram, 
mas a areia é quente, e há um óleo suave
que eles passam nas costas, e esquecem.

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praia de ipanema. posto 9. horário de verão. 19h10.

caminhando na areia, há poucos dias, tendo, às costas, as pedras do arpoador, à frente, os morros dois irmãos & a favela do vidigal, atrás dos dois irmãos, a pedra da gávea, à direita, na beira-mar, o hotel marina, e tendo o sol, já caído atrás das montanhas, pintando o céu azul em tons de alaranjado, este verso brotou na minha garganta, ganhando a minha voz, que o repetiu alto, numa espontaneidade genuína:

“as coisas não precisam de você”.

logo em seguida, o seguinte:

“quem disse que eu tinha que precisar?”

as luzes brilham no vidigal & não precisam de você.

as luzes das casas, das ruas, cintilam no morro do vidigal, compondo o cenário, lindas, e não precisam de você para brilhar, não precisam de você para cintilar.

não precisam de você, não precisam de ninguém, não precisam de nada.

os (morros) dois irmãos, e sua beleza, e sua imponência frente à paisagem, também não precisam de você para serem belos & imponentes.

o hotel marina, à beira-mar, aceso por volta das 19h10 do horário de verão carioca, quando acende, não é por nós dois nem lembra o nosso amor.

os inocentes do leblon, a que se refere drummond no poema citado, os inocentes do leblon, ignorantes imersos em suas pequenas questões, imersos no óleo suave que passam nas costas, para relaxamento, quando dispostos na areia quente & fofa, os inocentes do leblon, que não vêem nada, que não vêem o navio entrar nem tampouco saberiam que tipo de carga o navio carrega, que , na verdade, não se interessariam em ver ou saber da entrada do navio, os inocentes do leblon, que esquecem tudo que não esteja ao alcance do seu umbigo & dos seus interesses, estes não sabem de você, nem vão querer saber.

as coisas não precisam de você, não precisam de ninguém, não precisam de nada.

as coisas, no mundo, existem independentes de mim, independentes de vocês, independentes de nós.

e isso, no fundo, é bom. isso, no fundo, é o melhor, pois significa que, para ser feliz, para estar bem, para admirar o belo que me cerca, não dependo de nada nem de ninguém.

dependo de mim.

a vida gosta de quem gosta da vida.

as belezas estão no mundo, dispostas, disponíveis, a quem quiser sorvê-las, a quem souber aproveitá-las.

(os dois irmãos, as luzes no vidigal, o hotel marina aceso na orla, as luzes alaranjadas do pôr do sol, as gaivotas & fragatas que partem na direção das pedras, e mais o que houver.)

a constatação de que o bem-estar, a felicidade, dependem apenas de nós, dependem de bancarmos as nossas escolhas, doam a quem doer, em prol do nosso bem-estar, em prol da nossa felicidade, em prol das coisas que verdadeiramente nos fazem bem.

virgem: virgo: o sexto signo do zodíaco, relativo aos que nascem entre 23 de agosto & 22 de setembro.

virgem: o que é puro, intocado. desconhecido. o que não foi usado. o que é isento. o que é:

livre.

(as coisas não precisam de você, não precisam de ninguém, não precisam de nada.)

a constatação de que dependemos apenas de nós, seres solitários que somos, ainda que tenhamos o sentimento do mundo, no percurso de buscar & lutar por aquilo que nos encanta os olhos, espelhos da alma.

e o meu farol, o farol desta ilha que sou (território-império em meio a um mar de possibilidades), o farol da ilha só gira agora por outros olhos & armadilhas:

o farol da ilha procura, agora, outros olhos & armadilhas…

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Guardar. autor: Antonio Cicero. editora: Record.)

 

 

VIRGEM

 

As coisas não precisam de você:
Quem disse que eu tinha que precisar?
As luzes brilham no Vidigal
E não precisam de você;
Os dois irmãos
Também não.
O Hotel Marina quando acende
Não é por nós dois
Nem lembra o nosso amor.
Os inocentes do Leblon,
Esses nem sabem de você
Nem vão querer saber
E o farol da ilha só gira agora
Por outros olhos e armadilhas:
O farol da ilha procura agora
Outros olhos e armadilhas.

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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Virgem. artista & intérprete: Marina Lima. canção: Virgem. Letra: Antonio Cicero. Música: Marina Lima. gravadora: Universal Music.)

UM HOMEM PRA CHAMAR DE MEU
26 de março de 2010

o primeiro contato que tive com caio fernando abreu foi através do seu livro de contos intitulado “morangos mofados”. fiquei maravilhado, aturdido, fascinado, louco com aquilo que acabara de ler.
 
de lá para cá minha relação com o escritor foi construída passo a passo, obra a obra, sempre contente com o que era descoberto por mim.
 
porém, foi com o livro de onde provém o texto de hoje que o caio me “ganhou” definitivamente.
 
a obra foi organizada pelo super poeta, pesquisador e professor italo moriconi. trata-se de uma espécie de “biografia”, montada a partir das missivas enviadas por caio fernando abreu a seus amigos (o autor tinha esse hábito, gostava muito de escrever cartas).
 
acho este um dos mais belos livros que já li.
 
como se trata da correspondência pessoal, o escritor desnuda, sem pudores, todas as suas facetas: seus medos e inseguranças, sua lucidez ante a face suja da vida, sua vontade crescente de solidão, suas imensas generosidade, inteligência e irreverência. senti-me tão encantado pela obra, apropriadamente chamada “cartas”, que — santo deus, como estou confessional (rs)… — me enamorei por ele, por caio fernando abreu, pelo que se mostrava nas linhas. sei que é maluquice, que é insano, mas dou-me direito a essas sandices no imaginário. afinal, de perto, senhores, ninguém é normal. 😉
 
enfim, enamorei-me pelo escritor e achava, muito resignado (rs), uma grande sacanagem da vida a minha falta de oportunidade de conhecê-lo.
 
em “cartas”, uma coisa que fica clara é o período (largo) de descrença nas pessoas, de desgosto com as atrocidades mundanas, de desejo cada vez maior de isolar-se de tudo e todos, de isolar-se com seus livros e discos. isso me matava, me doía. pensava: “um homem tão bom, tão bacana, tão do bem, não merecia tanta hostilidade, tanto descuido…” batia-me o ensejo de cuidar dele, de reverter esse quadro (rs).
 
caio fernando abreu adorava uma canção chamada “mesmo que seja eu”, da dupla dinâmica erasmo & roberto carlos, na voz da cantora & compositora marina lima.
 
adoraria dizer para ele, poderia ser brincando, descompromissadamente, um dos versos dessa canção:
 
caio,
 
eis aqui o paulo sabino: um homem pra chamar de seu (rs rs rs).
 
o livro de poemas que pretendo lançar este ano, no segundo semestre, é dedicado a ele, entre outros.
 
hoje em dia, acho engraçado — e bonito, comovente — que tivesse vivenciado desse modo, durante um bom período, o meu carinho, o meu amor, por ele. 
 
a seguir, uma das cartas que mais me emocionam. uma lindíssima declaração de amizade, bondade e inteligência, coberta e recheada do seu divertido humor.
 
caio fernando abreu afirma:
 
Estou sempre preocupado com a ética, com a beleza, com a dignidade.
  
Gosto de pessoas doces, de situações claras.
 
eu também. por isso, por tanto,
 
caio fernando abreu: um homem pra chamar de meu.
 
e de vocês.
 
aproveitem-no!, aproveitem a (despretensiosa, generosa & sábia) lição de vida.
 
beijo bom em todos,
paulo sabino / paulinho.
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(do livro: Cartas. organização: Italo Moriconi. autor: Caio Fernando Abreu. editora: Aeroplano.)
 
 
A Guilherme de Almeida Prado
 
 
 
 
Paris, 12 de abril de 1994
 
 
 
Querido Guila,
 
escrevo “querido” porque — você sabe? — realmente gosto muito de você. Não esqueça disso.
 
Voltei sábado de Saint-Nazaire, de onde te enviei um cartão (pedindo o endereço/ telefone de Gianni em Lisboa). Ao chegar encontrei teu cartão.
 
Eternamente Bambi, abri todo saltitante — foi o primeiro que recebi do Brasil, e desde que saí, há mais de mês, não tive notícias daí. Então levei um choque. Deus, quanta hostilidade! Fechei o cartão e só reabri hoje, depois de muito pensar se devia uma resposta ou não. Porque realmente-gosto-muito-de-você, acho que sim.
 
Ô Guila, calma lá! acho um pouco ridículo um bate-boca transoceânico, mas não consigo ficar com essas coisas atravessadas. Então:
 
1º   fui injusto — um pouco — ou excessivo com você. Ma non troppo.
Como te disse, voltei a SP ano passado, após dez meses de ausência, sem trabalho, sem casa nem nada. Discretamente, enviei sinais de socorro aos amigos. Ninguém ajudou. Me virei sozinho. Isso me endureceu um pouco mais. Não foi só você, não. Foram também pessoas até mais íntimas, como Jacqueline. Eternamente Bambi, me virei sozinho com enormes dificuldades. Não me lamuriei. Mas preciso que as pessoas saibam que isso doeu — exatamente porque algumas destas pessoas, como você ou Jacqueline, importam para mim.
2º   Cheguei em Paris preocupado com a minha violência, o meu “excesso”. Metade pelo menos provocada pelo álcool e pela excitação da viagem.
Pedi desculpas, com doçura,
3º   Você me responde duramente. Escuta:
4º   “Ar blasé” — não sei o que significa isso. Certa vez num grupo de psicanálise (fiz 14 anos, ganhei duas altas: acho que lido mais ou menos bem com meus demônios) uma garota disse que eu era “altivo”. Achei chique. Talvez você queira dizer “ar aristocrático”?
Bivar, que tem um olhar doce sobre o mundo, certa vez disse que eu parecia um príncipe — normando. Não sei por que “normando”, mas também achei bonito. Sou terrivelmente tímido e, na verdade, acho que tenho mais é um ar de cachorro surrado, daquele que levou muita porrada, passou fome, dormiu ao relento.
5º   Eu “não resisto a uma baixaria bem brega”! Resisto sim. Tenho um passado hippie que me deixou muitas coisas boas. Estou sempre preocupado com a ética, com a beleza, com a dignidade. Sou educadíssimo, e fui criado de maneira muito católica, com toda aquela culpa de “maus” pensamentos, “más” ações, e uma terrível nostalgia da “bondade” (como a “Alice” do Woody Allen).
Gosto de pessoas doces, gosto de situações claras — e por tudo isso, ando cada vez mais só. É como me sinto melhor.
6º   A propósito do parágrafo acima, hoje li um Wolinski chamado Les français me font rire que começa com esta frase: “Si tout le monde était comme moi, je n’aurais pas besoin de detester les autres!” (Tradução: “Se todos fossem como eu, eu não precisaria detestar os outros.”)
7º   Amigos não “são para essas coisas”, não. Isso é um clichê detestável, significando quase sempre que amigo é saco de pancadas, é uma espécie de privada onde o outro pode jogar dejetos, detritos imundos e dar a descarga. Amigos são para dividir o bom e o mal, mas também para deixarem as coisas sempre limpas entre eles — amigos devem ser solidários. Um dos meus maiores amigos, […], que vive em Paris há quase 30 anos e é soropositivo há 9 (mas graças a Deus saudabilíssimo), tem sempre a preocupação de ser útil aos amigos. Quase não fala, não envia flores, não escreve cartas — mas quando procurado está sempre ali, firme e cheio de informações práticas para ajudar a gente. Amigos são também para escrever cartas enormes e um tanto idiotas como esta, cheia de carências, porque gostam de outros amigos e não querem que as relações de amizade tombem nesse poço nojento de brutalidade e vulgaridade que viraram os anos 90.
 
É por isso que te escrevo, quase meio-dia, um sol raro lá fora. Guila, não me mande coisas assim raivosas. Eu não tenho anticorpos para esse tipo de coisa. Até hoje, um dos meus truques para sobreviver, mesmo não sendo mulher e nem sequer tendo cabelos, foi fazer o papel de “loura burra”. Deixei passar muita agressividade, muita humilhação — e não me refiro a você, mas estou farto. Fui vivendo minha vida de maneira tão solitária, conquistando minhas coisas tão no braço, tão sempre sem nada, que aprendi a ter uma enorme admiração por mim mesmo. Vou chegando muito perto dos 50 anos sem dever absolutamente nada a ninguém.
 
Então, nos últimos tempos — deve ser a meia-idade — comecei a ter uma sensação, digamos, de “direitos adquiridos”. Não agüento mais desaforo, e vou ficar pior, vou ficar, se Deus quiser, como Odete Lara, Greta Garbo, Fauzi Arap, Helen Lane — americana budista de 84 anos que conheci semana passada, e vive só numa cabana no Perigord, cercada apenas de livros e gatos. Ando exausto de seres humanos.
 
Guilherme, mon cher, precisamos — eu e você e todo mundo — tomar muito cuidado com esses tempos. São tempos de horror. Tudo fica ainda mais grave neste país de là-bas, como é o Brasil, e mais ainda numa cidade como São Paulo — onde a crise econômica, a corrupção, a violência, a falta de futuro, a miséria material foi gerando sem que as pessoas percebessem também uma miséria psicológica, uma miséria espiritual ainda mais terrível e mais patética. São Paulo virou um grande salve-se-quem-puder: ninguém ajuda ninguém. E se as pessoas como nós — os “especiais”, os cineastas, os escritores, os músicos, os poetas: a gente que tenta criar beleza e dignidade — também começarem a agir dessa maneira, então vale mais a pena a casinha pobre de Dulce Veiga no meio do mato, as panelas arrebentadas em que Odete Lara uma vez cozinhou arroz integral para mim. Compreende?
 
Devo estar chatíssimo, mais “blasé” do que nunca, com todo esse texto parecendo discurso do Partido Verde… Et voilá: sou também um pouco tolo, um pouco naive, um pouco pêra — e eternamente Bambi. Quando a barra pesa, compro flores e ouço Mozart. Não creio que isso seja gostar de uma “baixaria bem brega”. Além disso, essa linguagem rasteira absolutamente não combina com você — um von Almeida Prado!
 
Sinto que o Brasil tenha ficado “ainda mais medonho” sem mim. Em compensação, a França parece ter ficado ainda mais encantadora comigo. Os livros caminham lindamente, críticas ótimas nos jornais e revistas mais importantes, rádio, TV. Ontem — foi hilário — dei autógrafo na rua, em Saint-Germain des Prés, para um garoto — estranhamente chamado Damour — que viu um dos programas de TV, comprou os três livros, deu vários de presente. Cheguei na editora rindo: meu Deus, a Laika de São Paulo, a negra sem ter onde morar, vivendo com 500 dólares por mês, lavando roupa num balde sob o chuveiro, fazendo a feira toda sexta — dando autógrafo em Saint-Germain!
 
Por tudo isso, tenho me divertido muito, muito. Ontem, a poderosa de uma editora que recusou Dulce Veiga, após várias najices, me convidou para jantar no “Le Temp Perdu”, o melhor restaurante do Quartier Latin. Eu disse educadamente “não”, muitos compromissos, muitas viagens. Se gostasse de uma “baixaria bem brega”, aprontava uma grosseria em plena mesa de jantar. Mas não sou hipócrita, Guila. Não sei fazer “jogo social”. Até saberia, mas não me interessa, tenho preguiça. Como Dulce V., eu sempre quis só “outra coisa”, e vou chegando a um ponto em que tenho pensado se essa “coisa” não será a solidão mais completa — e se não ela, essa solidão idealizada, porrada de gatos, rosas, Mozart e livros, será quem sabe somente a morte. Há que ter paciência para esperar por ela, que é a única certeza entre todas as nossas ilusões tolas. “Ah, quando virás, cavalinha, montar meu dorso fatigado!” — dizia Hilda Hilst (60 anos no próximo dia 21) num poema de um livro chamado Da morte — Odes mínimas.
 
A propos: você já viu Short Cuts, do Altman? Não sei se chegou aí. Fiquei PARALISADO. Não é um bom filme: é genial, é uma radiografia, um corte tão profundo e impiedoso na sociedade americana e na alma humana que vale por ter vivido uns 20 anos. Ensina muito sobre a nossa loucura, a nossa vulgaridade, a nossa crueldade.
 
São de coisas assim que quero falar com você, meu amigo — cinema, literatura, música, vida. Que enorme desgaste trocar najices — gastar um cartão lindo daqueles (que vou ter que jogar fora, sorry, é muito ofensivo) mais selo, sem falar na produção sempre exaustiva de enfrentar os correios paulistanos — de hemisférios opostos. Ah, Guilherme, não me envie mais coisas assim. Não escreva nada, não nos procuramos mais: um dia nos cruzamos por acaso, de repente, e então vemos o que aconteceu a nossos rancores e reagimos de acordo com isso. Mas se você quiser me contar das suas funduras, e não apenas defender-se — e os amigos são, sim, para trocar abismos — então me escreva 10, 100 páginas, e eu responderei com calor, com carinho, com toda amizade que realmente sinto por você.
 
Continuo a sentir que Dulce Veiga é nossa, minha e sua. Te mando dois recortes simpáticos — um do L’Express, a Veja (com ética, claro) daqui. Outro do Les Inrockuptibles, uma revista chique e cult, um pouco como a A-Z dos bons tempos, mas com circulação bem maior. Divida isso comigo, tem um gosto bom.
 
Ah: se você tiver o endereço/ fone do Gianni seria maravilhoso. Pedi também a Cida Moreira, que precisaria pedir ao Ivan Mattos, que. E aí entra todo aquele mar de lama que você conhece, e que eu prefiro evitar.
 
Beije com carinho a divina Zu Val por mim: Zu, quero te ver cantando, com direito a muito jubão crespo, quando voltar. Diga a ela que, por aqui o Império do Bustiê também tem o seu poder. A diferença é que os bustiês são Gaultier, Channel e Yamamoto — embora para mim bustiê seja bustiê e pronto, no Champ Elysées ou Taboão da Serra.
 
E diga também ao Ricardo que mando um beijo. Cuide-se, fica feliz.
 
Je t’ embrasse
 
Caio F. 

O ESTRANGEIRO
28 de agosto de 2009

queridos,
 
as linhas que seguem para vocês me chegaram através de associações as mais curiosas (curiosas para mim, que, até agora, não entendo exatamente como foram surgindo…).
 
primeiro pensei num comentário que li, da marina lima, sobre a peça “o estrangeiro”, baseada no livro homônimo de albert camus, em cartaz no rio de janeiro. depois me surgiu uma conversa que mantive com um grupo de pessoas, onde o meu amado amado amado thiago facina, também conhecido como “abel”, fizera uma observação sobre esta mesma personagem, o “estrangeiro”, a personagem da peça comentada por marina, personagem, inclusive, bastante conhecida por estudos filosóficos e psicossociais.
 
“estrangeiro” é aquele indivíduo que não pertence ao lugar em que está; é o diferente, o que se localiza à parte. o “estrangeiro” de camus é um homem que desaceita o jogo social moralista e rompe com as convenções. é um homem que se vê distanciado, esquivo àquela conjuntura do seu círculo social. e paga o preço por sua ousadia. 
 
deste modo, pensando em camus e na sua personagem, cheguei a hilda hilst e ao seu livro intitulado “kadosh”, termo hebraico que dá sentido ao que se faz separado, ao que é diferente, ao que é distanciado do grupo, sendo “a diferença” — “a particularidade” que causa a diferença — associada a uma característica sagrada, santificada. porém, na obra de hilst, o que importa é o sentido que esta palavra, “kadosh”, abriga para nomear aquilo que se encontra à parte, à distância, em destaque.
 
daí, saltando de hilda, agarrei-me ao autor das palavras abaixo. porque ele foi, de algum modo, por sua postura ante a vida e pelo preço que pagou por causa desta sua postura, um “estrangeiro”. um homem que quebrou algumas importantes convenções sociais da sua época, as convenções que, segundo o próprio, estariam na categoria das “ações más que não podemos cometer”. um escritor que experimentou a fama e a difamação de forma vertiginosa. um intelectual que nos tem muito a dizer, a notar pela seleção de frases e trechos aqui deixados.
 
aproveitem-no!
 
beijo em vocês.
paulinho / paulo sabino.
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(livro: As obras-primas de Oscar Wilde. editora: Ediouro. capítulo: Frases, Citações e Aforismos. tradução: Dilermando Duarte Cox)
 
Todo meu gênio coloquei em minha vida;
no trabalho, tudo o que pus foi meu talento.
 
 
Experiência é algo que você não pode obter em troca de nada.
 
 
É uma pena que só levemos a sério as lições da vida
quando elas já não nos servem mais.
 
 
A beleza é a única coisa contra a qual a força do tempo nada pode.
As filosofias se desfazem como areia, as crenças sucedem-se
umas após outras, mas o que é belo é uma alegria a qualquer tempo,
algo que pertence a toda humanidade para sempre.
 
 
Eu não sou jovem suficiente para saber de tudo.
 
 
Não há outro jeito de livrar-se de uma tentação
a não ser sucumbindo a ela.
 
 
O mundo classifica as ações segundo três categorias: as ações boas, as ações más que podemos cometer, e as ações más que não podemos cometer. Se vocês se limitarem às boas ações, merecerão o respeito dos bons. Se ficarem apenas com as más ações que podem ser cometidas serão respeitados pelos maus. Mas se realizarem as más ações que não podem ser cometidas, os bons e os maus se juntarão contra você e não haverá mais coisa alguma que possa salvá-lo. 
 
O egoísmo não está em vivermos conforme nossos desejos,
mas em exigirmos que os outros vivam da mesma forma.
O verdadeiro altruísmo é deixar cada um viver
do modo que lhe parecer melhor.  
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(trecho extraído de: O retrato de Dorian Gray. tradução: Marina Guaspari. livro: As obras-primas de Oscar Wilde. editora: Ediouro.)
 
O prazer é a única coisa merecedora de que se lhe dedique uma teoria (…). Mas desconfio de que não posso reivindicar a qualidade de autor desta teoria. Ela pertence à natureza e não a mim. O prazer é o teste da natureza, o seu sinal de aprovação. Quando somos felizes, sempre somos bons, mas, por sermos bons, nem sempre seremos felizes.
 
(…)
 
Ser bom é estar em harmonia consigo mesmo (…). A discordância está em sermos forçados a viver em harmonia com os outros. A nossa vida: eis o que importa. A vida dos nossos semelhantes… quem quiser dar-se ares de pedante ou de moralista poderá julgá-la pelos seus critérios morais, mas a vida alheia não é da nossa conta. (…) A moral moderna consiste em aceitar o padrão da nossa época. Ora, a meu ver, um homem de cultura aceitar o padrão da sua época é uma forma da mais crassa imoralidade.

SOBRE PLUMAS QUE SUSTENTAM UM MUNDO
5 de agosto de 2009

meninos, 

estes poemas seguem porque me fizeram refletir sobre questões que dizem respeito ao modo de vida que levamos. 

drummond alerta sobre, põe em xeque, algumas “regras” estabelecidas por uma maneira judaico-cristã de ver e entender o mundo. culpa, pecado, castigo, justiça divina, a existência de um deus, todos esses conceitos, de uma maneira ou de outra, estão inseridos no nosso quotidiano e na convivência nossa com o resto do mundo.  

até que ponto ser uma boa pessoa, aos olhos de um sistema cristão, garante algum bônus (espiritual e material)?, garante a existência de uma justiça divina?, um bem-estar nesta nossa vida? 

até que ponto devemos anular desejos e aspirações em prol de alguma recompensa provinda dos céus? 

as hipóteses para que um deus, supondo a existência deste, criasse um mundo como o nosso são como plumas: tão delicadas, tão difíceis de se sustentarem, que é bem possível que este deus, que nem ele saiba por que isso tudo foi gerado, a que finalidades atende. portanto, tais hipóteses, como plumas, caem, despencam. 

então, já que a vida se desnuda sem razão de ser, sem sentido, sem norte – são tantas as possibilidades, tantos os (divergentes) caminhos tomados para se fazer valer uma existência… -, estejamos preocupados em viver, simplesmente viver, respeitando-nos, ou seja, respeitando as nossas vontades e aspirações, e as vontades e aspirações alheias. de resto, é viver e deixar viver. até hoje, que eu saiba, ninguém bateu à porta dos que habitam este planeta, dizendo “cá estou, muito prazer, me chamo deus”, como bem escreveu fernando pessoa. 

antonio cicero, amigo e poeta de que muito gosto, possui versos que declaram: 

Ninguém vai nos trazer
nem recompensa, nem conta,
no final.
Ninguém vai nos dizer,
pra nós, o que é que conta,
e, afinal,
pra esclarecer:

prefiro pôr as cartas sobre 
a mesa:
não dou meu desejo a Deus.
Feroz é a natureza;
feroz, todo céu.  

(Próxima Parada, composição de Marina Lima e Antonio Cicero)

uma poeta, também por mim muito admirada, sophia de mello breyner, escreveu que há muito do divino no real. ou seja, se quisermos, não precisamos procurar a divindade na transcendência. não; a divindade encontra-se aqui, no plano da matéria, está ao nosso lado, é de carne, osso e carvão. basta olhar o mundo, admirar a maravilha que é o que, aqui, entre nós, está. o mais, não tem sentido, pois não há “razão de ser”.

sejamos bacanas na vida por respeito ao outro e não por um lugar ao lado do senhor, em sua morada, tão longe de nós.

enfim. aproveitem bastante as linhas que seguem. são de uma sabedoria…

beijo nocês tudo! 

 paulinho.

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OS DOIS VIGÁRIOS  carlos drummond de andrade 

Há cinqüenta anos passados,

Padre Olímpio bendizia,

Padre Júlio fornicava.

E Padre Olímpio advertia

e Padre Júlio triscava.

Padre Júlio excomungava

quem se erguesse a censurá-lo

e Padre Olímpio em seu canto

antes de cantar o galo

pedia a Deus pelo homem.

Padre Júlio em seu jardim

colhia flor e mulher

num contentamento imundo.

Padre Olímpio suspirava,

Padre Júlio blafesmava.

Padre Olímpio, sem leitura

latina, sem ironia,

e Padre Júlio, criatura

de Ovídio, ria, atacava

a chã fortaleza do outro.

Padre Olímpio silenciava.

Padre Júlio perorava,

rascante e politiqueiro.

Padre Olímpio se omitia

e Padre Júlio raptava

patroa e filhas do próximo,

outros filhos lhe aditava.

Padre Júlio responsava

os mortos, pedindo contas

do mal que apenas pensaram

e desmontava filáucias

de altos brasões esboroados

entre moscas defuntórias.

Padre Olímpio respeitava

as classes depois de extintos

os sopros dos mais distintos

festeiros e imperadores.

Se Padre Olímpio perdoava,

Padre Júlio não cedia.

Padre Júlio foi ganhando

com tempo cara diabólica

e em sua púrpura calva,

em seu mento proeminente,

ardiam em brasas. E Padre

Olímpio se desolava

de ver um padre demente

e o Senhor atraiçoado.

E Padre Júlio oficiava

como oficia um demônio

sem que o escândalo esgarçasse

a santidade do ofício.

Padre Olímpio se doía,

muito se mortificava

que nenhum anjo surgisse

a consolá-lo em segredo:

“Olímpio, se é tudo um jogo

do céu com a terra, o desfecho

dorme entre véus de justiça.”

Padre Olímpio encanecia

e em sua estrita piedade,

em seu manso pastoreio,

não via, não discernia

a celeste preferância.

Seria por Padre Júlio?

Valorizava-se o inferno?

E sentindo-se culpado

de conceber turvamente

o augustíssimo pecado

atribuído ao Padre Eterno,

sofre — rezando sem tino

todo se penitenciava.

Em suas costas botava

os crimes de Padre Júlio,

refugando-lhe os prazeres.

Emagrecia, minguava,

sem ganhar forma de santo.

Seu corpo se recolhia

à própria sombra, no solo.

Padre Júlio coruscava,

ria, inflava, apostrofava.

Um pecava, outro pagava.

O povo ia desertando

a lição de Padre Olímpio.

Muito melhor escutava

de Padre Júlio as bocagens.

Dois raios, na mesma noite,

os dois padres fulminaram.

Padre Olímpio, Padre Júlio

iguaizinhos se tornaram:

onde o vício, onde a virtude,

ninguém mais o demarcava.

Enterrados lado a lado

irmanados confundidos,

dos dois padres consumidos

juliolímpio em terra neutra

uma flor nasce monótona

que não se sabe até hoje

(cinqüenta anos se passaram)

se é de compaixão divina

ou divina indiferença.

 

TRISTEZA NO CÉU  carlos drummond de andrade

 

No céu também há uma hora melancólica.

Hora difícil, em que a dúvida penetra as almas.

Por que fiz o mundo? Deus se pergunta

e se responde: Não sei.

 

Os anjos olham-no com reprovação,

e plumas caem.

 

Todas as hipóteses: a graça, a eternidade, o amor

caem, são plumas.

 

Outra pluma, o céu se desfaz.

Tão manso, nenhum fragor denuncia

o momento entre tudo e nada,

ou seja, a tristeza de Deus.