CARNAVAL
4 de março de 2011

carnaval:
 
um lado, insólito, um lado, incomum, inusitado, original: no carnaval, pessoas se fantasiam das mais variadas coisas, e dão asas a algumas das suas fantasias, outro lado, químico: muitos aditivos compõem os olhares & cenários da festa: ácido, êxtase, lança, álcool.
 
carnaval:
 
um lado, lírico, um lado, poético, inspirador (lembrar que a ele, ao carnaval, o poeta manuel bandeira dedicou um livro seu), outro lado, histórico (festa popular amplamente estudada, com fatos & enredos documentados sobre sua história. exemplo: a grande volta da vizinha faladeira, escola de samba carioca muito antiga. o fato é que a história desta é feita de lenda, e que a lenda acabou como história — história deliciosa).
 
carnaval:
 
um lado, físico, um lado, material, lado-matéria, um lado-peso, corporal, de corpos & fantasias & adereços, outro lado, extático — de corpos & delícias sensoriais, de beijos, de sarros, de flertes, de corpos entregues à música, entregues ao samba, entregues à nota errada.
 
a nota errada: pois que errar nada mais é do que caminhar, pois que errar nada mais é do que seguir a ressoar.
 
e o sambnista de valor segue nascendo o seu samba: mais simples, mais alegre, mais bonito, nasce, então, um samba na madrugada, rompendo do infinito, como a noite.
 
e, logo, muita gente ali por perto percebe, em sua letra, o céu sempre enluarado, mesmo com o céu encoberto que se avista a olhos nus. toda a gente percebe que no céu da música a lua brilha muito, e além, muito além, do céu nublado que é avistado a olhos nus.
 
deste jeito, o que o samba faz brilhar não é a lua no céu da música. o que o samba faz brilhar  é a gente que o escuta, extática, fazendo a noite (sem lua) mais bonita. 
 
carnaval:
 
um lado, crítico, lado de avaliação, lado de apreciação, lado que pensa criticamente a festa, outro lado, mágico, lúdico, lírico, poético.
 
o carnaval é como um transe lógico, é como um transe coerente, transe sensato, arrazoado, pois que a tônica do carnaval é o “alegrar-se inúmeros” por quatro dias, é o benfazejo, ilimitado, por quatro dias. assim como indagou o compositor & cantor djavan num de seus versos, indago eu: ademais, quem não quer ser feliz?
 
o carnaval é como um transe lógico, e a quarta-feira, o seu reflexo trágico: a quarta-feira de “cinzas”, quarta-feira de “tudo acabado”. o que era doce, acabou-se. o fim da fantasia. o fim da festa.
 
súmula do carnaval:
 
transe lógico que torna, que transforma, braços & pernas (com seus ossos, com seus músculos) em pernas & braços sem dono & sem sentido, em desatino, braços & pernas ensandecidos. em cada gesto, o extravasar contido. isto é: todo gesto abunda, todo gesto transborda, todo gesto é excesso — e dançar e cantar e dançar.
 
mas pensem também na bela imagem criada a partir da contradição que “extravasar contido” abriga.
 
aproveitem a folia momesca!
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Aquém das retinas. autor: Mauricio Matos. editora: 7Letras.)
 
 
 
CARNAVAL
 
um lado insólito outro lado químico
um lado místico outro lado ácido
um lado atômico outro lado esfíngico
um lado físico outro lado extático
 
um lado lírico outro lado histórico
um lado crítico outro lado mágico
o carnaval é como um transe lógico
e a quarta-feira o seu reflexo trágico
 
tíbias cérebros crânios rádios e úmeros
braços pernas sem dono e sem sentido
por quatro dias no alegrar-se inúmeros
em cada gesto o extravasar contido
 
 
 
SANTO CRISTO, DÉCADA DE 1930    aos carnavais de Joãozinho Trinta
 
seguem-se estrofes-testemunho de mim mesmo
para contar em versos brancos e tercetos
a grande volta da Vizinha Faladeira.
 
eu terminava a faculdade, e o carnaval,
paixão de infância, conduzia-me à pesquisa
do que ninguém teria ao certo como fato,
 
e consultando um velho livro descobri
que relegada ao esquecimento estava escrita
a breve história de uma escola muito antiga:
 
a campeã do carnaval de trinta e sete,
em trinta e nove veio a ser eliminada
em conseqüência de um enredo alternativo.
 
dizia o livro que a escola, em represália,
faria então desfile ainda mais bonito
para por trás dos julgadores desfilar.
 
segui pesquisa, e nos jornais de outrora agora
li no silêncio que os malandros portuários
falaram tanto que a história então se fez.
 
entrevistando quem do tempo inda era vivo,
eu descobri que o livro fez da lenda história
e que era a história, como lenda, mais bonita.
 
era mais rica que as outras, pois contava
com os subsídios de fortunas sem registro:
contrabandistas, prostitutas, deputados,
 
que contrataram os cenógrafos Garrido
para fazer o carnaval de Santo Cristo
maior que os outros, mais bonito, mais pensado.
 
mas só depois de dar a volta júri afora
foi que a Vizinha, conduzida por malandros,
gravou na história um fato nunca repetido.
 
por não dizer que a lenda é mais que o fato em si,
encerro agora meu relato-fantasia
dos que fizeram mais bonito o carnaval.
 
termino aqui pois falha ou finda o versejar:
quem mais quiser saber procure-me e direi
o quanto sei, que ainda há muito por contar.
 
 
 
A NOTA ERRADA
 
A nota mais aguda, em tom menor,
de um samba, que atravessa a madrugada,
ressoa, qual se fosse a nota errada,
num êxtase de seu executor.
 
Mas logo há de voltar, recompassada,
nos dedos do sambista de valor,
a música difícil de compor,
a letra simplesmente complicada.
 
Depois da execução, estala os dedos,
perscruta a imensidão dos seus segredos
e segue a ressoar… a nota errada.
 
Mais simples, mais alegre, mais bonito,
rompendo, como a noite, do infinito,
um samba nasce então na madrugada…
 
E logo muita gente, ali por perto,
percebe um samba novo e bem versado,
que diz coisas de um céu enluarado,
enquanto o céu parece inda encoberto.
 
E a gente, ouvindo o samba dedilhado,
percebe em sua letra que, por certo,
a lua brilha sempre, num concerto,
além, mas muito além, do céu nublado.
 
E os olhos, que o sambista traz fechados,
procuram, nos seus próprios dedilhados,
a lua, além das nuvens, infinita…
 
Contudo, abrindo os olhos, vê que brilha
a gente, ouvindo as notas que dedilha…
E o samba faz a noite mais bonita…

CAVALO-DE-MIM: EU PRÓPRIO, O MEU ORIXÁ
6 de julho de 2010

dentro do percurso realizado por um búzio, entre as mãos de quem o atira e a mesa onde é atirado, não se pode esquecer ou negar o tanto de acaso que a sua queda abriga.
 
isto é: até a adivinhação do destino não pode ser inteiramente confiável, porque a queda do búzio não abole o acaso, porque o búzio à mesa arremessado, durante a sua queda e o seu balançar, pode posicionar-se, por um capricho da sorte, em lugar indevido, mentindo, assim, sobre a sorte de alguma vida.
 
portanto, entre as mãos e a mesa, a caída de um búzio não abole o acaso. 
 
e eu:
 
eu sou este búzio caindo.
 
caindo, caindo, caindo, e, deste modo, um búzio quedando-se em si.
 
quedar em si, cair em si: o mergulho — fundo — no eu.
 
por isso afirmo: dentro em mim mesmo caí, dentro em mim mesmo desci, e, desta maneira, baixei do lugar de onde vim.
 
eu mesmo: um tanto dono da minha sorte, um tanto senhor do meu destino. 
 
eu mesmo: o meu próprio orixá.
eu mesmo: o meu próprio cavalo.
 
eu mesmo: o meu próprio orixá & o meu próprio cavalo.
 
eu mesmo: cavalo-de-mim.
 
(cavalo-do-santo: as filhas e os filhos dos terreiros de candomblé & umbanda, iniciados na religião, são os instrumentos de que os orixás se utilizam para as suas manifestações no plano terreno. daí o nome, cavalo-do-santo.)
 
dono da minha sorte, senhor do meu destino, baixando em mim, sempre!
 
assim sendo,
 
vida & verso, verso & vida: universos que se tocam, que se roçam, que se encostam, que comungam.
 
a arte poética também é fruto do que na vida frutifica.
 
(os versos vêm do que está no poeta. e no poeta está a marca do que a existência lhe tatua.)
 
(os versos o poeta os faz do que lhe chega, os versos o poeta faz do que lhe vem.) 
 
em partes, repito: (apenas) em partes, trago a carne aberta em poesia, e meu dia-a-dia, versejo em metro e rima.
 
eis a síntese dos versos. eis a síntese da (minha) vida.
 
beijo GRANDE em todos,
o preto,
paulo sabino / paulinho.
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(do livro: Aquém das retinas. autor: Mauricio Matos. editora: 7Letras.)
 
 
ENTRE AS MÃOS E A MESA
 
entre as mãos e a mesa
a caída de um búzio
jamais abolirá o acaso
 
eu sou este búzio caindo
 
 
ARTE POÉTICA
 
baixei do lugar de onde vim
e dentro em mim mesmo desci
sem longe nem perto ou aqui
sem rumo princípio nem fim
 
eu mesmo cavalo-de-mim
 
 
SÍNTESE
 
Verseja a síntese dos versos, ou da vida,
que, por lonjura, ou precisão, ou demasia,
em partes trago a carne aberta em poesia,
escontra a alma, procurada e prometida.
 
Em metro e rima versejei meu dia a dia,
e agora em versos trago a carne transcorrida
longinquamente, para a morte a ser cumprida,
pela alma adentro, sem profeta ou profecia.
 
A sucessão do que acontece aquém-de-mim
é o tempo vindo longamente, de onde vim,
a arremessar-me, vida acima, corpo aquém.
 
De um longo dentro os versos vêm, e sem ter fim,
segundo o tempo, os versos vão, que além-de-mim,
longinquamente, os versos faço do que vem. 

CAMINHAR, CAMINHAR… MAR: SAGRADO CHÃO
24 de maio de 2010

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caminhar, caminhar, sobre os rios que se vão…
 
caminhar, caminhar, como propõe a canção, braços dados ou não — diz luís de camões, diz geraldo vandré.
 
caminhar, caminhar, e desavir-se consigo, e pôr-se em desavença, porém, ainda assim, consigo estar, marejando — gotejando, vertendo — o caminho do sal (da graça, da vivacidade) na pedra, lapidando os seus pés na trilha traçada.
 
caminhar, caminhar, e compor um lugar de sentido para si mesmo, compor um caminhar-abrigo, um caminhar que nos contente de ser seguido, que nos contente por ser construído, onde os pés vão juntos, cadenciados, dispostos no mesmo areal onde a mente é longínqua, na beira do mar.
 
(caminhar, caminhar, e que haja, por tanto caminhar, pés calejados, pés de andanças.)
 
caminhar, caminhar, e, entre o bem e o mal, decidir: pela vida.
 
(a idéia, que seja longelínea, que se pendure e se estique à linha longe do horizonte, para que os sonhos & desejos se estendam & se espraiem em lugar abissal, profundo em nós. e os pés, que sejam verossímeis, que os pés pisem o chão com força & vontade, decididos, no limite do mar, e avancem.)
 
caminhar, caminhar, caminhar, e ter o mar, sempre, como sagrado chão… 
 
caminhar por terras marinhas, prosseguir pelo chão das águas salgadas, abeirar-se delas e afogar-se nelas, para, então, o ressurgimento com a alma lavada, com a alma limpa.
 
nem canto, nem sequer jamais cantei, saudades, pois saudade tenho não.
 
meu canto é o canto certo (canto certo que não sei, que vou tecendo enquanto canto), e o mar, aquele mar do coração…
 
caminhar, caminhar, caminhar rumo ao mar, este sagrado chão.
 
(abaixo, dois magistrais poemas de um poeta que venho descobrindo. reparem no achado que é o título do segundo poema: feito todo de versos alexandrinos, isto é, de versos compostos por doze sílabas poéticas, e no estilo “agalopado”, estilo utilizado por cantadores nordestinos em dispustas ou desafios entre versejadores repentistas.) 
 
êêêêêê, mar: ao contrário do que alguns preferem afirmar, eu não morrerei jamais sem saber da sua imensidão…
 
salgado mar: eternamente em mim: sagrado chão.
 
beijo bom em todos,
o preto,
paulo sabino / paulinho.
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(do livro: Aquém das Retinas. autor: Mauricio Matos. editora: 7Letras.)   
 
 
Ê MAR SALGADO MAR SAGRADO CHÃO
 
ê mar salgado mar sagrado chão
outrora em meus destinos te encontrei
tirano e venerado
como o rei
sublime e necessário
como o pão
 
agora só te vejo
qual direi?
o réquiem do que fora em minha mão
o solo ora rachado
algum sertão…
 
ê mar salgado mar não cantarei
nem canto nem sequer jamais cantei
saudades pois saudade
tenho não
 
meu canto é o canto certo
que não sei
e o mar
aquele mar do coração…
 
ê mar as tuas águas
como vão?
dizer das minhas mágoas
já não sei
 
ê mar salgado mar não morrerei 
jamais sem te saber a imensidão
 
ê mar salgado mar salgado mar
ê mar salgado mar
sagrado chão…
 
 
ALEXANDRINO AGALOPADO AO LIMITE DO MAR
 
Caminhar, caminhar, sobre os rios que vão…
sermos todos iguais, braços dados ou não…
diz Luís de Camões, diz Geraldo Vandré;
caminhar todavia depende da fé,
ser cavalo-de-tudo, e fazer procissão.
Caminhar, caminhar, afinal, caminhar,
desavir-se consigo e consigo inda estar
marejando na pedra o caminho do sal,
lapidando seus pés, como fosse um jogral
a fazer ekiphrasis na beira do mar.
 
Caminhar, caminhar, de outros tempos virão
conhecer-se em percursos os homens de então;
e, correndo perigo, demônios até
pelas praias verá, se for alta a maré,
quem do mar, em si mesmo, tiver precisão.
Caminhar, afinal, caminhar, caminhar,
caminhando compor de sentido um lugar,
matemático e métrico, igual por igual,
onde os pés vão dispostos no mesmo areal,
onde a mente é longínqua, na beira do mar.
 
Caminhar, caminhar, nos propõe a canção,
e haja pé calejado em profundo sertão,
que, na beira do mar, o caminho não é
nem o indício de um outro lugar, onde o pé
o horizonte percorre, em verdade ou em vão.
 
Afinal, caminhar, caminhar, caminhar…
pela praia infinita e final, par a par;
decidir pela vida, entre o bem e o mal:
longilínea a idéia, em lugar abissal,
verossímeis os pés, no limite do mar.