ALL STAR: ESTRANHO SERIA SE EU NÃO ME APAIXONASSE POR VOCÊ
15 de dezembro de 2015

Cássia Eller

All Star Azul
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“Ô meu bem, obrigada. Me emocionei com sua homenagem à Cássia. Vou te mandar o que escrevi quando a perdemos. Beijos poéticos procê, Paulo!”

(Elisa Lucinda — poeta, atriz & dramaturga)


“Querido Paulo Sabino,

Elisa Lucinda merece amplo reconhecimento . Sua poesia arrebata, não trai . Sou sua leitora e já me pronunciei sobre ela em diversas ocasiões.

O abraço afetuoso da

Nélida Piñon”.

(Nélida Piñon — escritora & membro da Academia Brasileira de Letras — ABL)

 

Estou com ela muito presente na minha cabeça.

Se entre nós, ela teria aniversariado há pouco. O título do seu último álbum (eu possuo absolutamente todos, inclusive o de gravações avulsas), lançado depois da sua morte, é a data do seu aniversário — 10 de dezembro.

Quem me conhece, os amigos do peito, sabe que, depois de Maria Bethânia, a grande responsável por trazer poesia à minha vida, a intérprete/cantora que mais me emociona, mais me comove, por quem sou louco de paixão até hoje, é ela — Cássia Eller.

Cássia, até hoje, faz uma falta abissal na minha existência, como nenhuma cantora até então. Assim como Bethânia, tinha a capacidade de revelar belezas — antes ocultas — nas canções que escolhia para cantar, simplesmente pelo seu modo de mastigá-las & devolvê-las ao ouvinte/espectador.

Para mim, foi a maior que tivemos. Nunca fabricaremos algo tão potente quanto Bethânia & Cássia.

Por tanto, por tudo, em sua homenagem, esta canção, feita para ela por um amigo & parceiro de estrada. Uma canção que me emociona muitíssimo, porque eu realmente gostaria de tê-la conhecido, gostaria imensamente de ter tido a chance de uma conversa, um bate-papo.

A canção é uma declaração de amor à amizade que envolveu, muito rapidamente, o autor & a grande intérprete das suas canções.

Uma curiosidade: à época em que trabalhei num programa de tv exibido pela extinta TV Educativa (TVE – RJ), que é a mesmíssima época do lançamento desta canção, a chefe geral do meu setor, e também diretora do programa de cuja equipe fiz parte, era vizinha da Cássia. De fato, Cássia morava em Laranjeiras, no 12º andar (minha ex-chefe & a Cássia foram vizinhas de porta).

Essa “proximidade” da minha ex-chefe com a Cássia — vizinhas de porta — me trazia uma certa sensação de “intimidade” com a cantora, pelas “histórias de vizinhança” que me chegavam.

(Estranho, mas me sinto como um velho amigo da Cássia…)

Vivas a ela, vivas à sua voz, vivas à sua presença na minha vida!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do encarte do cd: Para quando o arco-íris encontrar o pote de ouro. artista: Nando Reis. autor dos versos: Nando Reis. gravadora: Warner Music.)

 

 

ALL STAR

 

Estranho seria se eu não
me apaixonasse por você
O sal viria doce para os novos lábios
Colombo procurou as Índias
mas a Terra avisto em você
O som que eu ouço são as gírias
do seu vocabulário

Estranho é gostar tanto
do seu All Star azul
Estranho é pensar que o bairro das
Laranjeiras
Satisfeito, sorri
Quando chego ali
E entro no elevador
Aperto o doze que é o seu andar
Não vejo a hora de te encontrar
E continuar aquela conversa
Que não terminamos ontem
E ficou pra hoje

Estranho mas já me sinto
como um velho amigo seu
Seu All Star azul combina com o meu,
preto, de cano alto
Se o homem já pisou na Lua
como ainda não tenho o seu endereço?
O tom que eu canto as minhas músicas
pra tua voz parece exato

Estranho é gostar tanto
do seu All Star azul
Estranho é pensar que o bairro das
Laranjeiras
Satisfeito, sorri
Quando chego ali
E entro no elevador
Aperto o doze que é o seu andar
Não vejo a hora de te encontrar
E continuar aquela conversa
Que não terminamos ontem

Laranjeiras
Satisfeito, sorri
Quando chego ali
E entro no elevador
Aperto o doze que é o seu andar
Não vejo a hora de te encontrar
E continuar aquela conversa
Que não terminamos ontem
E ficou pra hoje
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Para quando o arco-íris encontrar o pote de ouro. artista & intérprete:Nando Reis. canção: All Star. autor da canção: Nando Reis. gravadora: Warner Music.)


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(do site: Youtube. artista & intérprete:Cássia Eller. canção: All Star. autor da canção: Nando Reis.)

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É COMO AMAR: O UIRAPURU SABE
1 de dezembro de 2015

Pai

Pai Eu no colo

(Nas fotos, o primeiríssimo Paulo Sabino; no colo, o seu sucessor.)
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se entre nós, um dos responsáveis pela minha existência, o paulo sabino primeiro, venceria, hoje (01/12), as suas setenta & três primaveras.

há onze anos — outubro de 2004 — ele pulava fora deste plano para cair dentro, única & exclusivamente, das minhas lembranças, do meu sentimento, do meu coração.

há onze anos ele veio fazer sua morada, única & exclusivamente, dentro de mim.

porém, o seu legado de amor & bom-humor me habita desde sempre.

filho de um violonista baiano, foi um apaixonado pela língua portuguesa, tinha uma grande queda pela língua francesa, um sambista nato (foi diretor de harmonia de uma escola de samba do rio de janeiro por dez anos) & um piadista irremediável.

e é bacana ver como hoje o seu legado, em todos os níveis & sentidos, ecoa de forma bonita em mim como também na minha mãe.

mora & dorme em mim o meu menino grande.

todo o amor que houver nesta vida para você, sabino pai, e algum veneno antimonotonia para todos nós!

parabéns, pai! vivas ao dia que o trouxe ao mundo!

saravá!

beijo todos!
sabino filho.
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(do livro: Campo de milagres. autor: Thiago de Mello. editora: Bertrand Brasil.)

 

 

O UIRAPURU SABE

 

Não me queixo, antes celebro,
esse dom de florescer
que cada palavra traz
de nascença, por milagre.
Só quis contar como faço,
pondo amor no meu fazer,
como o uirapuru só canta
quando precisa cantar.

 

 

É COMO AMAR

 

Sou poeta, sou simplesmente
um ser limitado e triste,
sujo de tempo e palavras.
Contudo, capaz de amor.
Que este ofício de escrever,
sem tirar nem pôr, é o mesmo
que o ofício de viver;
quero dizer o de amar.

É TUDO AMOR
2 de dezembro de 2014

Samambaia

(É tudo amor, e mais coisa nenhuma de que sequer se guarde uma lembrança: na foto, uma samambaia, planta preferida do meu pai, o primeiríssimo Paulo Sabino)
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se entre nós, no primeiro dia do último mês do ano (01/12), o responsável por trazer à luz da vida este que vos escreve, o primeiríssimo paulo sabino, venceria as suas 72 primaveras.

2014: este ano, exatos 10 anos sem a presença dele.

2014: este ano, exatos 10 anos com a presença dele apenas em mim: no meu gestual, na minha alegria de vida, no meu bom-humor, na delicadeza que busco no trato dispensado aos meus demais irmãos de terra: na minha memória.

2014: há exatos 10 anos, o grande paulo sabino, o primeiríssimo, partia deste mundo para tornar-se uma estrela-guia no meu trajeto noite adentro, estrela-guia na obscuridade em que se projeta a existência.

o que há de melhor, em mim, eu devo a ele. tanto devo, que, hoje, o que, antes, foi uma saudade demasiadamente doída, 10 anos depois da sua partida transfigurou-se em lembranças doces. por vezes melancólicas, porém muito doces na sua composição.

filho de um violonista baiano & de uma catarinense, foi envolvido com a música, especificamente com o samba, desde que me entendo por gente (envolveu-se por 10 anos com uma escola de samba do rio de janeiro).

adorava viajar de carro, adorava passeios ao ar livre (o parque do flamengo foi dos seus cenários prediletos), adorava cinema (foi ele quem me apresentou almodóvar, lá atrás, quando o diretor espanhol nem sonhava com o sucesso que alcançou).

adorava dançar em casa, e se acabava quando eu, fascinado por sua presença alegre, iluminada, punha, na vitrola, determinadas canções que o faziam rodopiar pela casa com o seu sorriso farto, de quem nasceu para a amorosidade.

ele foi um apaixonado pela língua portuguesa & admirava & apostava no meu talento para com as letras, desde que me dedico à poesia & à interpretação de poemas.

entre mim & meu velho, meu eterno, meu pai,  é tudo amor, e mais coisa nenhuma de que sequer se guarde uma lembrança, um traço do seu rosto, o fluido passo de uma dança, uma canção — na vitrola antiga — que foge em meio à bruma.

é tudo amor: é tudo o que há na ponta de uma lança que nos fere como áspera verruma (verruma: instrumento de aço que tem a sua extremidade inferior aberta em espiral e terminada em ponta, usado para abrir furos), pois todos sabemos, como já versejou o poetinha, que o amor é a coisa mais triste quando se desfaz, todos sabemos que o amor é a coisa mais triste quando perdido, e, quando fere, quando machuca, ninguém mais se apruma, ninguém mais se endireita, nem que o gáudio — nem que a alegria, o contentamento — da vingança — quando perde-se um amor & o sentimento torna-se mágoa — conserte o furo, a ferida, que o amor causou.

o amor é tudo & apenas o que não se alcança, porque não se pode compreender plenamente o amor: nenhuma definição existente sobre o amor consegue conter o que seja o amor em sua plenitude: ao amor cabe o imponderável, ao amor cabe o inexplicável.

o amor é o que, às vezes tão próximo, se esfuma & escorre mais depressa do que a espuma com que as ondas tecem sua trança de água & sal.

o amor é a chaga que, sendo fugaz, sendo efêmera, passageira, perdura & nos dói como um mal que não tem cura.

o amor é tudo isso & um pouco mais: o amor não possui forma, fórmula, cheiro, cor, cara, peso, tamanho. por mais bem escrita a definição, não existe definição que comporte todo o matiz, todo o colorido, que o amor carrega, que o mais nobre dos sentimentos agrega.

mas seja o que for o amor, cair, quedar em seu abismo com admirações tamanhas que do amor & seu abismo não se consiga mais sair.

pai, por tudo, por tanto, esta singela homenagem nesta primeira década sem a sua presença física, com você aceso em mim. uma chama que nunca se extinguirá neste peito. não há vento ou tempestade capaz de apagá-la, não há intempérie capaz de miná-la.

chama eterna, como eterno o meu amor por você.

entre mim & meu velho, meu eterno, meu pai,  é tudo amor, e mais coisa nenhuma de que sequer se guarde uma lembrança.

salve o primeiríssimo paulo sabino!
salve a sua existência na minha!

beijo todos!
paulo sabino, o filho.
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(do livro: Essa música. autor: Ivan Junqueira. editora: Rocco.)

 

 

É TUDO AMOR

 

É tudo amor, e mais coisa nenhuma
de que sequer se guarde uma lembrança,
um traço, o fluido passo de uma dança,
uma canção que foge em meio à bruma.
É tudo o que há na ponta de uma lança
que nos fere como áspera verruma
e, quando fere, ninguém mais se apruma,
nem que o conserte o gáudio da vingança.
É tudo e apenas o que não se alcança,
o que, às vezes tão próximo, se esfuma
e escorre mais depressa do que a espuma
com que tecem as ondas sua trança.
É a chaga que, sendo fugaz, perdura
e nos dói como um mal que não tem cura.

NA LUTA, EU SOU MEUS PASSOS
26 de novembro de 2014

Piaba & Paulo Sabino_Diamantina (MG)

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eu sou meus passos bem mais que meu caminho: o meu caminho é tudo aquilo que construí até aqui, é o que se pode ver do meu caminhar, é a minha trajetória. o resto, isto é, o que me resta, é caminho por construir. e caminho por construir é construído a partir dos passos.

eu sou meus passos bem mais que meu caminho: o meu caminho é a estrada delineada até então, o que passou, o que não mais me cabe. os meus passos são o presente, o agora, o que está sendo, o quando: quando ando, quando desando, quando caminho, quando descaminho, quando insisto.

no caminhar, muitos — os que começaram a caminhada antes de mim — vão à frente, outros — os que começarão a caminhada — virão depois, e, ao meu lado, caminha a minha gente, os que começaram a caminhada juntamente comigo, nos simultâneos, nos caminhos coincidentes, e distanciamentos, nos caminhos divergentes.

bochechas de juventude (os mais jovens & o seu porvir), tristes antigamentes (os mais velhos & suas memórias): e cada ser que vai adiante leva seu fardo sozinho, que viver é de cada um, é experiência única, intransferível.

as minhas mãos vão repartindo o alimento (eis, aos senhores, a minha parcela de pão-poesia, o mais rico alimento anímico) & os meus olhos buscam o que, à frente, pode ser sombra lenta (para momentos de total relaxamento), descanso urgente (para momentos mais agitados, mais conturbados), caminho de água corrente (para limpeza & purificação do ser), sussurro de doce acalanto (para o sossego, para a tranqüilidade, do ser).

eu sou meus passos mais que meu caminho & me levo com cuidado, buscando que os meus ombros não se choquem com outros ombros nos assombros do acaso, buscando um caminho que não se choque com o caminho de outros irmãos de trilha nos imprevistos da vida, e buscando que os meus pés não atravessem o desenho de outros pés em seus compassos, buscando um caminho que não atropele o caminho de outros irmãos de trilha nos imprevistos da vida, e que eu não acorde a serpente sob a folhagem nem dê chance da picada do escorpião inclemente: que eu não acorde, que eu não dê chance, aos bichos peçonhentos & seus venenos, dispostos à beira do caminhar.

eu sou meus passos bem mais que meu caminho: e, no caminhar dos passos, a vida do homem é a luta contra a solidão, a vida do homem é a luta contra o galho onde pode esconder-se por medo de viver a vida, a vida do homem é a luta contra o céu sem ninguém, céu vazio, inabitado, onde não se vê luz nem horizontes, onde não se vê nada além.

enquanto a vida do homem é a luta contra a solidão, a vida do poeta é a luta contra o silêncio.

a vida do poeta é a luta contra o silêncio: o silêncio de dentro (quando a alma cala o desejo de dizer alguma coisa em verso) & o de fora (o silêncio do mundo, sua mudez inescrutável), o silêncio do outro (o silêncio que está fora do seu alcance) & o de si (o silêncio que está ao seu alcance mas não sob seu domínio).

a vida do poeta é a luta contra o silêncio: todo dia, toda hora, do nascer até o fim: a vida do poeta é dar voz a verso o mais que puder.

(a voz da poesia é voz que não se cala, que não se pode calar.)

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: poemAteu. autor: Abel Silva. editora: 7Letras.)

 

 

EU SOU MEUS PASSOS

 

Eu sou meus passos
bem mais que meu caminho
e muitos vão à frente
outros virão depois
e ao meu lado caminha
a minha gente
nos simultâneos e distanciamentos

bochechas de juventudes
tristes antigamentes
e cada ser que vai adiante
leva seu fardo sozinho
que viver é de cada um

as mãos vão dividindo o alimento
e os olhos buscam o que, à frente,
pode ser sombra lenta, descanso urgente,
caminho de água corrente
sussurro de doce acalanto.

Eu sou meus passos
mais que meu caminho
e me levo com cuidado
buscando que os meus ombros
não se choquem com outros ombros
nos assombros do acaso,
e não atravessem o desenho
de outros pés em seus compassos

e que eu não acorde a serpente
sob a folhagem guardada

nem do escorpião inclemente
dê a chance da picada.

 

 

A LUTA

 

A vida do homem
é a luta contra a solidão.
A do poeta
contra o silêncio.

De dentro
e de fora.

Do outro
e de si.

Todo dia
toda hora.

Do nascer
até o fim.

O FUTEBOL
19 de junho de 2014

Campo de futebol

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para Chico Buarque, pelo seu aniversário de 70 anos hoje

 

à parte toda a (des)organização promovida pelo comitê responsável pela realização do mundial de futebol, aqui no brasil, & todos os gastos, ainda mal explicados à população, com a produção da copa 2014, num mundial de futebol, o que interessa a quem o mundial interessa é: o futebol.

o futebol, a bola em campo, o rolar da partida.

confesso aos senhores que não sou um grande entusiasta do esporte, mas sei admirar uma bela disputa futebolística. e a copa é um grande momento, momento propício, a grandes partidas de futebol.

e toda grande partida de futebol costuma ser recheada de gols, alguns, de fato, pela precisão & tiro certeiro, verdadeiras obras de arte.

um chute a gol com precisão de flecha & folha seca: pintura mais fundamental.

pintura mais fundamental é um chute a gol com precisão de flecha & folha seca: e que pintura alcançaria toda a beleza que compreende um chute a gol com precisão de flecha & folha seca?

como emplacar o momento do chute a gol, tão belo & tão instantâneo, em que pinacoteca emplacá-lo, como captá-lo para sempre em moldura, nega?

um belíssimo chute a gol é pintura que se perde no ar, vaporosa.

o poeta-compositor sonha em conseguir, na sua canção, efeito igual ao de um belíssimo chute a gol, com precisão de flecha & folha seca, o poeta-compositor sonha em conseguir, com a sua canção, captar o visual de um chute a gol & a emoção da idéia quando ginga — a emoção da idéia do jogador, ao pensar, em milésimos de segundos, junto com sua emoção, junto com sua adrenalina, tática para seu chute a gol, de acordo com sua posição em campo & a dos demais colegas & rivais. e, assim, começam os passes & dribles: para mané, para didi, para mané (a troca de bola entre os jogadores, cavando oportunidades de ataque), mané para didi para mané, para didi, para pagão, para pelé, e canhoteiro (e, de repente, estufa-se o filó da rede, um belíssimo gol).

mas o poeta-compositor não acha que sua canção alcance a beleza de um chute a gol com precisão de flecha & folha seca, considerando-a capenga & desejando anular a natural catimba (a natural manha, astúcia, malícia) do cantor (que é o próprio poeta-compositor).

capenga aos olhos do poeta-compositor, mas, aos olhos deste que festeja, hoje, 19 de junho, os seus 70 anos, os 70 anos do poeta-compositor, uma obra-prima, uma belíssima pintura, emplacada em música & versos.

o futebol, a bola em campo, o rolar da partida: a arte de uma bela partida futebolística: que belos chutes a gol, em campeonatos diversos, nos permitam pinturas que ficarão eternamente emplacadas em nossas memórias.

salve chico buarque!
salve a sua existência na minha!

beijo todos!
paulo sabino.
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(Do livro: Tantas palavras. autor: Chico Buarque. editora: Companhia das Letras.)

 

 

O FUTEBOL

Para Mané, Didi, Pagão, Pelé e Canhoteiro

 

Para estufar esse filó
Como eu sonhei

Se eu fosse o Rei
Para tirar efeito igual
Ao jogador
Qual
Compositor
Para aplicar uma firula exata
Que pintor
Para emplacar em que pinacoteca, nega
Pintura mais fundamental
Que um chute a gol
Com precisão
De flecha e folha seca

Parafusar algum joão
Na lateral
Não
Quando é fatal
Para avisar a finta enfim
Quando não é
Sim
No contrapé
Para avançar na vaga geometria
O corredor
Na paralela do impossível, minha nega
No sentimento diagonal
Do homem-gol
Rasgando o chão
E costurando a linha

Parábola do homem comum
Roçando o céu
Um
Senhor chapéu
Para delírio das gerais
No coliseu
Mas
Que rei sou eu
Para anular a natural catimba
Do cantor
Paralisando esta canção capenga, nega
Para captar o visual
De um chute a gol
E a emoção
Da idéia quando ginga

(Para Mané para Didi para Mané
Mané para Didi para Mané
para Didi para Pagão
para Pelé e Canhoteiro)
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Uma palavra. artista & intérprete: Chico Buarque. autor da canção: Chico Buarque. gravadora: BMG.)

PRINCIPALMENTE: A VOZ DO MAR
17 de abril de 2014

O mar & sua voz

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sempre fui bem tratado, sempre fui tratado bem, com carinho, com respeito, sempre vontades satisfeitas. por isso mesmo, sempre fui bem tratado, sempre fui muito tratado, sempre fui bastante tratado, como um príncipe.

com isso, fui me afeiçoando aos privilégios, aos florilégios (às coleções de flores devidamente escolhidas), às vilegiaturas (às férias que se passa fora dos centros urbanos, no campo, na praia, na montanha, no deserto), que me couberam neste reino — que é a vida — etéreo (sublime, magnífico, elevado, e também vaporoso) & ao mesmo tempo deletério (aviltante, insalubre, danoso).

a vida, sabe-se, possui a sua faceta exuberante como também a faceta cariada, feia, cheia de tristezas.

além disso, neste reino que é a vida, etéreo & deletério, o esquecimento é tão inevitável quanto a vida & a morte é toda feita de mistério.

a vida é uma coisa da qual não se pode dispor. não conhecemos o suficiente para saber, apreender, o que é a existência mundana & universal — a morte, para nós, ainda é um mistério, não se sabe muito a respeito dela, para onde vamos, se é que vamos para algum lugar além das nossas sepulturas, nem nunca podemos ter a apreciação total das nossas próprias vidas, pois, pelo caminho, vamos deixando acontecimentos para trás, justamente porque o esquecimento é tão inevitável quanto a vida.

procuro ouvir a minha sorte, procuro ouvir o que me destina o destino (será que existe destino?), nos meus búzios, como o — poeta olavo — bilac ouvia suas estrelas (vide o poema feito pelo poeta, “ouvir estrelas”), coisa que nunca ouvi, mas compreendi (a minha sorte), mesmo não tendo credo acreditável, mesmo não tendo crença crível, mesmo não tendo credo no qual se possa confiar & acreditar.

assim, bicho homem sem credo no qual se possa confiar & acreditar, fui construindo meu edifício sobre essa arquitetura de quimeras (na vida, sempre fui bem tratado, sempre fui tratado bem, com carinho, com respeito, sempre vontades satisfeitas, e, por isso mesmo, sempre fui bem tratado, sempre fui muito tratado, sempre fui bastante tratado, como um príncipe), cujo arquiteto (o arquiteto dessa arquitetura de quimeras que é a vida: “deus”, ou como quer que se chame a força criadora do universo) talvez fosse cego (construindo tal arquitetura às escuras), ou gênio (construindo tal arquitetura com total entendimento do que construía), ou talvez fosse, simplesmente, ausente (simplesmente inexistente, e a vida, um grande capricho do acaso).

neste reino etéreo & deletério, fundo a minha voz, inauguro o meu canto: na nave língua em que me navego, só me navego “eu”, como “nave”, sendo língua.

(“navego”: na palavra em destaque, duas outras palavras cabem, duas outras palavras formam a palavra “navego”: “nave” + “ego”, que é o mesmo que “eu”. é na língua que posso, através das palavras, me fazer “nave”, e, com elas, o “ego” “navego”.)

na nave língua em que me navego, língua na qual em/barco, só me navego “eu” (“ego”), como “nave”, sendo língua.

a língua é minha pátria. eu canto, falo, declamo, exponho, penso, logo existo, em língua portuguesa.

me navego em língua, “nave” & “ave”.

(“navego”: na palavra em destaque, além de caberem as palavras “nave” & “ego”, uma outra também cabe: “ave”.)

em língua me navego, “nave” que me permite viajar caminho afora, “ave” que me leva em suas asas, na minha tentativa de vôos altos por sobre a vida.

eu sou sol, luz, eu esplendo, eu resplandeço, eu brilho intensamente, sendo sonhador (afinal, fui construindo meu edifício sobre essa arquitetura de quimeras), eu, sendo esplendor, sendo brilho intenso, eu espelho especiaria, sou como o conjunto de temperos que dá aroma & sabor, eu, navegante (dos mares da vida), sou o antinavegador de moçambiques, goas, calecutes, o antinavegador porque nunca me aventurei a descobertas ultramarinas, o antinavegador porque nunca me prontifiquei a vencer os mares em busca de reinos perdidos & tesouros inexplorados, eu, que dobrei & venci o cabo da esperança (sentimento de quem confia na realização daquilo que deseja), eu, que desinventei o cabo das tormentas (das tempestades violentas, das situações conturbadas & perturbadoras), eu, que inventei o vento que me carregou nas minhas andanças, eu, que inventei a “taprobana”, a ilha que só existe na minha ilusão (“taprobana” é o nome pelo qual a ilha de sri lanka era conhecida na antigüidade), eu, que inventei a ilha que não há, talvez “ceilão”, sei lá (“ceilão” foi como a ilha de sri lanka foi denominada até 1972), eu, que inventei o mapa, o astrolábio, a embarcação, a rota, só sei que fui em busca dos meus interesses & sonhos & nunca mais voltei.

me derramei & me mudei em mar — virei a sua voz, me transformei no seu canto, só sei que me morri de tanto amar na aventura das velas caravelas (por todo o fascínio que sempre me despertaram as grandes navegações & suas expedições mundo afora), só sei que morri de tanto amar em todas as saudades de aquém-mar, em todas as saudades que ficam, que permanecem, na parte de cá, neste lado daqui, de quem nunca se lançou em aventuras de além-mar, de quem, viajando em sonhos & desejos, fundou o seu edifício neste reino etéreo & deletério, fundou o seu edifício sobre essa arquitetura de quimeras, cujo arquiteto talvez fosse cego, ou gênio, ou, simplesmente, ausente.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Poemas reunidos. autor: Geraldo Carneiro. editoras: Nova Fronteira / Fundação Biblioteca Nacional.)

 

 

PRINCIPALMENTE

 

sempre fui bem tratado como um príncipe
e fui me afeiçoando aos privilégios
aos florilégios e às vilegiaturas
que me couberam neste reino etéreo
e deletério, porque o esquecimento
é tão inevitável quanto a vida
e a morte é toda feita de mistério.
procuro ouvir a sorte nos meus búzios
como o Bilac ouvia suas estrelas,
coisa que nunca ouvi, mas compreendi
mesmo não tendo credo acreditável.
fui construindo assim meu edifício
sobre essa arquitetura de quimeras,
cujo arquiteto talvez fosse cego,
ou gênio, ou simplesmente ausente.

 

 

A VOZ DO MAR

 

na nave língua em que me navego
só me navego eu nave sendo língua
ou me navego em língua, nave e ave.
eu sol me esplendo sendo sonhador
eu esplendor espelho especiaria
eu navegante, o antinavegador
de Moçambiques, Goas, Calecutes,
eu que dobrei o Cabo da Esperança
desinventei o Cabo das Tormentas,
eu que inventei o vento e a Taprobana,
a ilha que só existe na ilusão,
a que não há, talvez Ceilão, sei lá,
só sei que fui e nunca mais voltei
me derramei e me mudei em mar;
só sei que me morri de tanto amar
na aventura das velas caravelas
em todas as saudades de aquém-mar

AS APARÊNCIAS ENGANAM
11 de novembro de 2013

Fogo & Gelo

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(Esta é uma das coisas mais lindas que a música popular poderia ter feito por mim, por nós. E, nesta fase, tudo muito à flor da pele, é assim: coloco para escutar, e choro choro choro – rs.)
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As aparências enganam os que odeiam & os que amam: pois o amor & o ódio se tocam em suas extremidades: um amor, quando torna-se mágoa, é o avesso de um sentimento: oceano sem água.

O ódio, em caso de amor, só existe porque, no fundo do ser, existe algum sentimento resguardado pelo outro.

As aparências enganam os que odeiam & os que amam: porque o amor & o ódio se irmanam na fogueira das paixões: os corações pegam fogo e, depois, não há nada que os apague.

Se a combustão os persegue, as labaredas & as brasas são o alimento (aquilo que faz viver), o veneno (aquilo que faz morrer), o pão, o vinho seco (a bebida quente, que aquece & inebria, e que é, ao mesmo tempo, rascante): a recordação dos tempos idos de comunhão, dos tempos idos de união feliz — sonhos vividos de conviver…

As aparências enganam os que odeiam & os que amam: porque o amor & o ódio se irmanam na geleira das paixões: os corações viram gelo e, depois, não há nada que os degele.

Se a neve, cobrindo a pele, vai esfriando por dentro o ser: não há mais forma de se aquecer… não há mais tempo de se esquentar… não há mais nada pra se fazer senão chorar sob o cobertor…

As aparências enganam os que gelam & os que inflamam: porque o fogo & o gelo se irmanam no outono das paixões: o outono das paixões: tempo de recolhimento, tempo de quietude, tempo de reestruturação do ser: pensar & repensar o relacionamento vivenciado, pensar & repensar se o relacionamento vivenciado vale a pena, e, caso não valha mais, aprontar-se para o porvir: os corações cortam lenha e, depois, se preparam para outro inverno.

Mas, apesar dos pesares, o verão que os unira — que unira os corações agora separados — ainda vive & transpira ali (ainda vive & transpira dentro do ser, na recordação dos tempos idos de comunhão, nos sonhos vividos de conviver): nos corpos juntos, na lareira; na reticente primavera, primavera — estação da floração, do renascimento — ainda hesitante; no insistente perfume de alguma coisa — que não sabemos & não podemos definir ao certo — chamada:

AMOR.

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(autores: Tunai / Sérgio Natureza.)

 

 

AS APARÊNCIAS ENGANAM

 

As aparências enganam
Aos que odeiam e aos que amam
Porque o amor e o ódio
Se irmanam na fogueira das paixões
Os corações pegam fogo e depois
Não há nada que os apague
Se a combustão os persegue
As labaredas e as brasas são
O alimento, o veneno, o pão
O vinho seco, a recordação
Dos tempos idos de comunhão
Sonhos vividos de conviver

As aparências enganam
Aos que odeiam e aos que amam
Porque o amor e o ódio
Se irmanam na geleira das paixões
Os corações viram gelo e depois
Não há nada que os degele
Se a neve cobrindo a pele
Vai esfriando por dentro o ser
Não há mais forma de se aquecer
Não há mais tempo de se esquentar
Não há mais nada pra se fazer
Senão chorar sob o cobertor

As aparências enganam
Aos que gelam e aos que inflamam
Porque o fogo e o gelo
Se irmanam no outono das paixões
Os corações cortam lenha e depois
Se preparam pra outro inverno
Mas o verão que os unira
Ainda vive e transpira ali
Nos corpos juntos, na lareira
Na reticente primavera
No insistente perfume
De alguma coisa chamada amor
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Elis, essa mulher. artista & intérprete: Elis Regina. canção: As aparências enganam. autores da canção: Tunai / Sérgio Natureza. gravadora: WEA Music.)

UM DOMINGO
17 de fevereiro de 2013

Pão-de-açúcar

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hoje amanheceu um domingo.

e não me escapa este domingo de ser domingo:

soberbo, isto é, grandioso, magnífico, um domingo enxuto, em que se eliminou ou reduziu o que é excessivo ou supérfluo, um domingo enxuto, sem lágrimas, sem lembranças que emocionem (sem infância & seu tempo passado), um domingo ávido de si, um domingo que só olhe para o seu umbigo, um domingo preocupado em se dar enquanto domingo.

um domingo rútilo, um domingo cintilante, reluzente, um domingo em pêlo & sem mais sentido que o sentido próprio de ser um domingo soberbo, enxuto, sem infância, ávido de si:

à espreita de uma surpresa, à espera de algum deleite.

(que assim seja.)

um ótimo domingo a todos!

beijo nocês tudo!
paulo sabino.
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(do livro: A estrela fria. autor: José Almino. editora: Companhia das Letras.)

 

 

UM DOMINGO

 

Não me escapa este domingo
de ser domingo: soberbo

um domingo enxuto,
sem infância,
ávido de si,
do seu umbigo,

um domingo rútilo,
em pelo
e sem mais sentido:
à espreita de uma surpresa,
de algum deleite.

CANÇÃO
10 de dezembro de 2012

Décio Pignatari

(O poeta Décio Pignatari.)
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Em homenagem ao poeta Décio Pignatari, falecido no último dia 02 do corrente mês, sem o devido reconhecimento da sua sofisticada obra poética por parte dos seus pares (jornalistas, críticos literários & poetas), sem, ao menos, quando vivo, 1 prêmio de literatura, poeta à parte de todas as loas & de todos os salves por conta das suas audácia, capacidade & perspicácia criativas, poeta à parte de todas as loas & de todos os salves por conta da inveja & do medo de parte da classe literária (alguns poetas, críticos literários, jornalistas, são tão inseguros que temem a perda dos seus espaços com a chegada de alguém com excesso de talento), em homenagem, portanto, a um poeta rechaçado, quando vivo, por sua pletora de talento (acorda, Brasil!), este poema que, neste momento, chega oportuno, vestindo o “Prosa em poema” tão bem como se uma luva fosse.
 
Décio, com todos os seus feitos poéticos, não deve nada a ninguém.
 
Somos nós quem devemos a ele por tudo & tanto. Uma, apenas uma das provas está aqui, no livro de onde saiu o poema que lhes segue, livro onde Décio Piganatari traduz 214 poemas de 31 poetas diferentes, passando pelos hinos do Rig-Veda, pelos poetas-santos de Xiva, por Safo, por Íbico, por Catulo, pelos poetas da dinastia Tang, até chegar em George Byron, Robert Browning, Arthur Rimbaud & Guillaume Apollinaire, entre outros.
 
Décio Pignatari: uma usina de luz, de sabedoria, de conhecimento. 
 
Com sua espada, que foi sua caneta a disparar versos (arma com a qual lutou), foi um bravo — mas sem ofensa a ninguém.
 
Em mim, ninguém pô-lo-á chinfrim, e deixo este poema como uma espécie de epitáfio à sua vida de braços dados à poesia, coisa que realmente deve importar, coisa com a qual Décio Pignatari se importou durante toda a sua existência.  
 
A ele, os meus agradecimentos por suas imensidão & generosidade.    
 
Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do livro: 31 poetas 214 poemas — Do Rig-Veda e Safo a Apollinaire. autor do poema: Robert Burns. tradução, notas e comentários: Décio Pignatari. editora: Companhia das Letras.)
 
 
 
CANÇÃO
 
 
Tenho mulher só pra mim
Não divido com ninguém
Ninguém vai me pôr chinfrim
Não ponho chifre em ninguém 
 
Tenho um real pra gastar
Graças a quem? A ninguém
Não tenho nada a emprestar
Não empresto de ninguém
 
Eu não sou senhor de escravo
Nem escravo de ninguém
Com minha espada sou bravo
Mas sem ofensa a ninguém
 
Quero ser o alegre amigo
Sem tristeza por ninguém
Ninguém se importa comigo
Não me importo com ninguém

FEITO UM BOLERO: A CANÇÃO PARA ME ENTENDER
6 de novembro de 2012

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no bolso esquerdo,  no bolso do lado esquerdo do peito, levo uma tristeza que se agita, andorinha, lépida & pequenina, quando escrevo.

pois, quando escrevo, agita-se a andorinha chamada tristeza, lépida & pequenina, e, com ela, agitam-se algumas saudades, alguns dissabores, quando escrevo.
 
no entanto, juro, os senhores devem perceber, sou alegre & rio tanto & mais sempre que me atrevo. e, nesse quesito, considero-me bem atrevido.
 
amo. e amo sempre, esperançoso, reincidente abelha, insistente & repetitiva abelha (animal que trabalha incansavelmente, com cuidado, esmero & atenção), amo industrioso, amo caprichado, esmerado, amo & tenho trabalho (ainda que, no fim das contas, prazeroso).
 
dos abraços, rápidos marinheiros, marinheiros que chegam & partem logo (visto o breve tempo de um abraço), deles (dos abraços) ficam, no ar, algumas formas breves: um revoar de plumas, um revoar de travesseiros, um revoar de formas breves & leves & confortáveis. mas o peso deles (dos abraços), o peso que eles (os abraços) adquirem dentro de nós, é de chumbo & sal.
 
no vivenciar o mundo, minucioso, perco a exatidão do mundo. no vivenciar o mundo, detalhista, perco a precisão, perco a clareza, perco a nitidez do mundo, pois, no vivenciá-lo, percebe-se que o mundo são dúvidas, incertezas, caminhos possíveis, escolhas. no vivenciar o mundo, percebe-se que o mundo, sobretudo, é errância. ninguém sabe ao certo o que nos aguarda ao dobrar a próxima esquina.
 
em meus olhos desatentos, guardo apenas imprevistas surpresas de janela, guardo, em meus olhos distraídos, apenas inesperadas surpresas de quem assiste ao passar da vida (não somente como um ator social, não somente como um ser atuante, mas também como um espectador distanciado) & uma inocência de menino à espera, grávido de sonhos, de vontades, menino grávido de vida.
 
menino grávido de vida, decreto que, hoje, o poema do poeta será festa, feriado comemorativo.
 
hoje, que os cabelos brancos do poeta sejam prata, metal precioso, as rugas, rios de muitas águas, cada poro do poeta seja um lago. hoje, que sejam potáveis & frescas as águas oferecidas pela fonte poética.
 
hoje, que beijem leve, longamente o poeta; hoje, que passeiem pelo corpo do poeta como um parque (de diversões), fonte de prazeres a quem dele se sirva.
 
hoje foi decretado que o poema do poeta será festa, feriado comemorativo.
 
hoje o poeta vestirá aquele riso grande & inocente.
 
hoje o poeta vai provar algodão-doce, mel rosado, beber chuva passageira sentado a uma mesa na calçada.
 
hoje o poeta será tanto & tantas vezes (feliz) que, dele, hão de dizer, penalizados: “é criança ainda, ou bolero”.
 
hão de dizer, sentindo pena, que hoje o poeta é criança ainda, hão de dizer que hoje o poeta é inocente, fantasioso, onírico, cheio de energia para traquinices, ou hão de dizer que hoje o poeta é feito um bolero: ritmo de origem espanhola, chegou à américa latina por cuba & é dedicado àqueles que amam com despudor, é dedicado àqueles que amam livres de recatos & amarras, que amam sem nenhuma vergonha de dizer, com todas as sílabas, seus sentimentos.
 
hoje o poeta é feito um bolero: a canção para bem entendê-lo: ritmo dedicado àqueles que amam despudoradamente, ritmo dedicado ao amor livre de recatos & amarras.
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Olhos de cadela. autora: Ana Mariano. editora: L&PM Editores.)
 
 
 
CANÇÃO PARA ME ENTENDER
 
 
No bolso esquerdo, levo uma tristeza
que se agita, andorinha, quando escrevo.
No entanto, juro, sou alegre e rio
tanto e mais, sempre que me atrevo.
 
No amor, dizem, sou incongruente.
Mas amo. Amo sempre, esperançosa,
reincidente abelha, amo industriosa,
em dias alternados, amo insistente.
 
Dos abraços, rápidos marinheiros,
ficam no ar algumas formas breves,
um revoar de plumas, travesseiros.
Mas é de chumbo e sal o peso deles.
 
A exatidão do mundo perco, minuciosa.
Guardo apenas, em meus olhos desatentos,
imprevistas surpresas de janela
e essa inocência de menina à espera.
 
 
 
FEITO UM BOLERO
 
 
Que meus cabelos brancos hoje sejam prata,
as rugas, rios de muitas águas,
cada poro meu seja um lago.
Que me beijem leve, longamente
e passeiem meu corpo como um parque.
Hoje meu poema será festa, feriado comemorativo.
Vestirei aquele riso grande e inocente.
Vou provar algodão-doce, mel rosado,
beber chuva passageira sentada a uma mesa na calçada.
Hoje serei tanto e tantas vezes
que de mim hão de dizer, penalizados:
é criança ainda ou bolero.