INVERNO
26 de outubro de 2012

(Há algo que jamais se esclareceu: onde foi exatamente que larguei, naquele dia mesmo, o leão que sempre cavalguei?…)
____________________________________________________________

o mais feliz pela sua partida, o mais feliz por pensar que você ia embora.

no dia  em que fui mais feliz, eu vi um avião se espelhar no seu olhar até sumir.

você, espelhando, no olhar, um avião, e eu feliz por isso. você, espelhando a partida no olhar, você, espelhando a viagem no olhar, e eu feliz por isso.

de lá pra cá (desde o dia em que vi um avião se espelhar no seu olhar, passado algum tempo), não sei… não sei se tão feliz como antes…

de lá pra cá, não sei… caminho ao longo do canal; pensativo, faço longas cartas pra ninguém; e o inverno, no leblon, é quase glacial. inverno rigoroso, de ventos fortes & frios…

há algo que jamais, nesse meio tempo, se esclareceu:

onde foi (em que parte) exatamente que larguei, naquele dia mesmo (no dia em que fui mais feliz, vendo um avião se espelhar no seu olhar, até sumir), o leão que sempre cavalguei?

há algo que jamais se esclareceu:

em que parte daquele dia larguei o leão que sempre cavalguei?…

o leão que sempre cavalguei:

eu, capaz de domar uma fera, o rei dos animais, um leão. eu, capaz de cavalgar um leão, arisco, violento, solitário.

naquele dia mesmo (no dia em que vi um avião se espelhar no seu olhar, até sumir, no dia em que fui mais feliz), onde foi exatamente que larguei o leão que sempre cavalguei?…

(esse acontecimento, esse “algo”, a mim, jamais se esclareceu.)

lá mesmo (lá no dia em que fui mais feliz, lá no dia em que larguei, perdido, o leão que sempre cavalguei) também esqueci que o destino — destino que tracei por sobre o leão que cavalguei — sempre me quis só. sempre só, no deserto, num local ermo (somente eu & o leão, bicho arisco, intratável), sem saudades, sem remorsos, no deserto, só, sem amarras (sem cabos ou cordas ou correntes), barco embriagado ao mar, barco extasiado, barco embebedado, do mar, barco que deseja só viajar, sem amarras, barco que só almeja o mar & o livre navegar.

por isso, por ser um barco embriagado ao mar, não sei o que (ou quem), em mim, só quer me lembrar que, um dia, o céu reuniu-se à terra, um instante, por nós dois.

não sei o que (ou quem), em mim, só quer me lembrar que, um dia, o céu reuniu-se à terra por nós dois: o céu na terra: o paraíso ao alcance dos dedos: o dia que o céu reuniu-se à terra (um instante) por nós dois.

porque, afinal, no dia em que fui mais feliz eu vi, nos seus olhos, a sua viagem, a sua partida — sim, eu, cujo destino sempre quis só, no deserto, sem saudades, sem remorsos, só, sem amarras, barco embriagado ao mar.

por isso, não sei o que, em mim, só quer me lembrar que, um dia, o céu reuniu-se à terra, um instante, por nós dois, pouco antes do ocidente se assombrar, pouco antes do ocidente tornar-se sombreado, pouco antes do ocidente tornar-se menos luminoso, menos claro: um inverno quase glacial.

(no dia em que fui mais feliz… de lá pra cá, não sei… o leão que sempre cavalguei, cadê?…)

beijo todos!
paulo sabino.

____________________________________________________________

(do livro: Guardar. autor: Antonio Cicero. editora: Record.)

 

INVERNO                                                    (para Suzana Morais)

 

No dia em que fui mais feliz
eu vi um avião
se espelhar no seu olhar até sumir

de lá pra cá não sei
caminho ao longo do canal
faço longas cartas pra ninguém
e o inverno no Leblon é quase glacial.

Há algo que jamais se esclareceu:
onde foi exatamente que larguei
naquele dia mesmo o leão que sempre cavalguei?

Lá mesmo esqueci
que o destino
sempre me quis só
no deserto sem saudades, sem remorsos, só
sem amarras, barco embriagado ao mar

Não sei o que em mim
só quer me lembrar
que um dia o céu
reuniu-se à terra um instante por nós dois
pouco antes do ocidente se assombrar.

____________________________________________________________

(do site: Youtube. áudio extraído do cd: A fábrica do poema. artista & intérprete: Adriana Calcanhotto. canção: Inverno. versos: Antonio Cicero. música: Adriana Calcanhotto. gravadora: Epic Records.)

SAUDADES
26 de julho de 2012

_____________________________________________________________
 
ter saudades é viver.
 
e eu, homem sentimental, deveras emocional, a batida do pulso ditando os passos, vivencio saudades.
 
digo & repito: vivencio saudades. e isso não significa dizer que sou saudosista. não não.
 
não há tempo que eu queira viver mais que o presente, não há tempo que eu queira viver mais que o tempo que me cabe neste instante, no agora, no já, no hoje.
 
a vida é válida, e existe, enquanto vivos. e, “vivos” — coisas vivas, pessoas vivas —, apenas no presente.
 
o passado já passou, o futuro não chegou. o que nos resta é o que há nas mãos. e, nas nossas parcas mãos, mãos de alcance limitado, o presente é o que alcançamos, o presente é o que nos cabe.
 
meu tempo é quando: quando falo, quando escrevo, quando peço, quando rio, quando amo, quando gozo, quando choro, quando: vivo.
 
o saudosismo é a valorização demasiada do passado, é a preferência pelo passado. eu não prefiro o passado nem o valorizo em demasia. mas sinto saudades, sinto falta, de algumas vivências que se guardam  no tempo pretérito.
 
sinto saudades do meu pai. sinto saudades do meu avô.
 
sinto saudades, quando não as tenho, das sensações que o amor entre amantes desperta.
 
sinto a falta de determinados momentos vividos.
 
mas a falta que sinto de determinados momentos vividos não me faz querer vivenciá-los novamente justamente porque batalho, verdadeiramente, pelo meu bem-estar existencial a cada minuto, o que acaba por me trazer outras tantas vivências tão felizes (e melhores porque inéditas) quanto as que se guardam no passado.  
 
tenho saudades porque ter saudades é viver. a memória faz parte da vida; as lembranças são faculdades da memória, portanto, capacidades nossas. as lembranças são naturais.
 
sinto saudades pela simples habilidade de rememorar fatos (recordar não me é uma atividade complexa).
 
sinto saudades & não sou nada saudosista. sou de carne, osso & coração, como os senhores.
 
sinto saudades porque o português é saudades.
 
a língua portuguesa é a única, no mundo, que criou uma palavra para designar um tipo certo de falta: saudade.
 
saudade é uma palavra linda, palavra sentimental, emocional, e intraduzível.
 
por isso o português é saudades. e só as sente bem (e só sente bem as saudades) quem tem aquela palavra — no caso, “saudades” — para dizer que as tem. só sente bem as saudades quem tem palavra para dizer que tem: “saudades”.
 
sinto saudades porque as lembranças são faculdades da memória, e a memória, uma aptidão natural do ser humano.
 
saudade: a lua brilha na lagoa.
 
saudade: a luz que sobra da pessoa (a luz do meu pai, que sobrou em mim).
 
saudade: eterno filme em cartaz.
 
não se ressintam de sentir saudades. (saudade não é o mesmo que saudosismo.)
 
quem foge da saudade, por um fio preso a ela (preso à saudade), afoga-se em outras águas (afoga-se em águas da dor, da solidão, do ressentimento) mas no mesmo rio (afinal, as águas da dor, da solidão, do ressentimento, são águas ligadas, são águas presas, à água da saudade empoçada no peito).  
 
não fujam da saudade.
 
sentir saudades significa, em última instância, que a vida nos reservou ótimos momentos.
 
o grande barato é batalhar por ótimas vivências hoje, para que, no futuro, estas se transformem em outras tantas belas recordações.  
 
lembrem-se: o português é saudades.
 
beijo todos!
paulo sabino.
____________________________________________________________
 
(do livro: Poesia [1918 – 1930]. autor: Fernando Pessoa. editora: Companhia das Letras.)
 
 
 
TER SAUDADES É VIVER.
Não sei que vida é a minha
Que hoje só tenho saudades
De quando saudades tinha.
 
Passei longe pelo mundo.
Sou o que o mundo seu fez,
Mas guardo na alma da alma
Minha alma de português.
 
E o português é saudades.
Porque só as sente bem
Quem tem aquela palavra
Para dizer que as tem.
____________________________________________________________
 
(poema-canção extraído do site oficial do: Moska. autores: Chico César / Moska.)
 
 
 
SAUDADE
 
 
Saudade a lua brilha na lagoa
Saudade a luz que sobra da pessoa
Saudade igual farol, engana o mar, imita o sol
Saudade sal e dor que o vento traz
 
Saudade o som do tempo que ressoa
Saudade o céu cinzento, a garoa
Saudade desigual, nunca termina no final
Saudade eterno filme em cartaz
 
A casa da saudade é o vazio
O acaso da saudade, fogo frio
Quem foge da saudade, preso por um fio
Se afoga em outras águas mas no mesmo rio
____________________________________________________________
 
(do site: Youtube. áudio extraído do cd: Tua. artista: Maria Bethânia. intérpretes: Maria Bethânia e Lenine. gravadora: Biscoito Fino. canção: Saudade. autores da canção: Moska e Chico César.)
 

PASSOS QUE PASSAM & FICAM (PRESENTE NO PASSADO)
12 de junho de 2012

____________________________________________________________
 
poesia: letras que se metem a palavras que se metem a cantoras.
 
palavras querendo ser poesia: velhas cigarras cantando (“velhas” cigarras porque, afinal, as palavras são nossas cúmplices desde que nos entendemos como seres pensantes) nada de novo (afinal, originalidade não tem vez neste mundo, nem tempo, nem lugar; as coisas são ditas & reditas de formas as mais diversas) pela primeira vez.
 
cantar, pela primeira vez, nada de novo: mas se o que se canta é “nada de novo”, como cantar o “nada de novo” (que deixa de ser “novo” para transformar-se em “conhecido”) pela primeira vez?
 
é que, apesar de nada de novo, cada canto entoado pelas “velhas cigarras” pode dizer a mesma coisa, porém o diz de maneiras distintas.
 
e é a distinção encontrada na maneira de dizer aquilo que é já “conhecido” (o arranjo, a disposição, o ordenamento das palavras —  velhas cigarras — que cantam) que faz com que “nada de novo” seja cantado pela primeira vez. 
 
poesia: letras que se metem a palavras que se metem a cantoras que, velhas cigarras, cantam nada de novo pela primeira vez: como estas cigarras-palavras que seguem:
 
tudo, no mundo, se passa com passos já passados.
 
as coisas acontecem num instante ínfimo, instante instantâneo, impossível (na prática) de ser captado, e logo as coisas que acontecem num instante ínfimo, instante instantâneo, impossível (na prática) de ser captado, passam a passado, e logo as coisas deixam de lado o presente para abrigarem-se no passado. é como se tudo se passasse com passos já passados. como não se captura o exato instante em que cada coisa “é”, vivemos um eterno passar dos passos, tudo rapidamente jogado do tempo presente ao tempo pretérito.
 
tudo o que fica (tempo verbal no presente) para nós, no fundo, permanece (presente) no passado.
 
tudo, no mundo, fica onde já passou: o presente no passado.
 
(paradoxal, contraditório, e extremamente humano…) 
 
com passos já passados (já andados, já caminhados), tem os que passam, tem aqueles que são incapazes de deixar uma gota de si que seja.
 
(a vida urge, o tempo voa, os passos passam.)
 
tem os que, da pedra ao vidro, partem, isto é, tem os que, da pedra ao vidro, quebram, arrebentam, danificam, destroem, tem aqueles que, com pedra & vidro, deixam tudo partido: estilhaços do sentimento ao rés do chão.
 
e também tem — ainda bem! — os que, com passos já passados, deixam a impressão (ainda que vaga, ainda que imprecisa) de ter ficado.
 
(e ficam.)
 
que bom…
 
beijo todos!
paulo sabino.
____________________________________________________________
 
(do livro: Dois em um. autora: Alice Ruiz S. editora: Iluminuras.)
 
 
 
letras
se metem a palavras
querendo ser poesia
 
cigarras velhas
cantando
pela primeira vez
nada de novo
 
 
 
tem os que passam
e tudo se passa
com passos já passados
 
tem os que partem
da pedra ao vidro
deixam tudo partido
 
e tem, ainda bem,
os que deixam
a vaga impressão
de ter ficado

VIAJAR
25 de maio de 2012

_____________________________________________________________

viajar?

para viajar basta existir.

 pois a vida, por si só, é já uma grande viagem.
 
pensar a existência, os seus mistérios, e pensar em tudo que está aí, aqui, e pensar em como tudo veio parar aí, aqui, é uma grande viagem.
 
vou de dia para dia como de estação para estação (as tão lindas viagens de trem caminho afora…), no comboio do meu corpo, ou no comboio do meu destino (no conjunto de acontecimentos que se postam à minha frente caminho afora…), debruçado sobre as ruas & as praças, sobre os gestos & os rostos, sempre iguais & sempre diferentes (as ruas & praças, os gestos & rostos: sempre iguais, porque a rua, por exemplo, existe sempre com o mesmo nome, o mesmo trajeto, a mesma largura & tamanho, assim como uma pessoa, que terá o mesmo nome sempre e que, de si, será por toda a vida prisioneira; porém, ao mesmo tempo que são iguais, são diferentes, porque, a cada momento, uma hora, um dia, um mês, um ano. tudo muda, o tempo todo, no mundo. é sempre um outro segundo, é sempre uma outra hora, é sempre um outro dia), como, afinal, as paisagens são (sempre iguais & sempre diferentes).
 
se imagino, vejo. se uma árvore, ou uma casa, ou uma província, eu imaginar, eu visualizo, isto é, se imagino uma árvore, ou uma casa, ou uma província, eu vejo a árvore, ou a casa, ou a província. a casa, ou a província, ou a árvore, existe na nossa memória.
 
portanto, se imagino, vejo.
 
que mais faço eu, assim sendo, senão viajar? só a fraqueza extrema da imaginação (só alguém que não imagine) justifica que se tenha que deslocar para sentir.
 
é em nós que as paisagens têm paisagem. as paisagens são o que sentimos ao vê-las. uma pessoa pode passar por um caminho e nele não enxergar nada de muito interessante. uma outra pessoa pode passar pelo mesmo caminho, observando todo o entorno e, por ele, encantar-se: as formas das nuvens no céu, a estética das árvores no parque, as silhuetas das montanhas à frente, o vôo do pássaro que risca a manhã.
 
é em nós que as paisagens têm paisagem. na realidade, o mundo é o que pensamos dele; o mundo é o conceito que criamos para ele.
 
o mundo é o que dele enxergamos. no fundo, somos nós quem criamos as paisagens que nos cercam.
 
por isso, se as imagino, as crio; se as crio, se crio as paisagens na minha imaginação, elas são; se são, vejo-as como vejo outras paisagens dispostas caminho afora.
 
para que viajar? em madrid, em berlim, na pérsia, na china, nos pólos ambos (norte & sul), onde estaria eu senão em mim mesmo, e no tipo & gênero das minhas sensações?
 
em madrid, em berlim, na pérsia, na china, nos pólos ambos, ou em casa, ou caminhando na orla (beira-mar), onde estaria eu senão encerrado em meu corpo, preso à minha visão & às sensações despertadas ante o que vejo?
 
a vida é o que fazemos dela.
 
adoro viajar, conhecer novos lugares, o cotidiano de pessoas outras. viajar contribui na apreensão que faço da vida.
 
mas não acho que quem viaje (fisicamente, deslocando-se de um lugar a outro), necessariamente, aprenda ou apreenda mais da vida. viajar ajuda a confabular a trama/o drama feita/o de acasos absurdos & continuidades previsíveis. sim, viajar ajuda. mas é preciso querer ser ajudado.
 
a vida é o que fazemos dela. as viagens são os viajantes.
 
uma pessoa pode olhar uma paisagem & esta nada lhe dizer. uma outra pessoa olha a mesma paisagem & sente-se encantada com o que a vista avista.
 
o que vemos não é o que vemos, senão o que somos.
 
somos nós os inventores das paisagens que nos cercam.
 
para o bem viver, vivamos em prol de paisagens que nos animem o ser, lutemos por elas.
 
beijo todos!
paulo sabino.
____________________________________________________________
 
(do livro: Livro do desassossego. autor: Bernardo Soares, heterônimo de: Fernando Pessoa. editora: Companhia das Letras.)
 
 
 
451.
 
 
Viajar? Para viajar basta existir. Vou de dia para dia, como de estação para estação, no comboio do meu corpo, ou do meu destino, debruçado sobre as ruas e as praças, sobre os gestos e os rostos, sempre iguais e sempre diferentes, como, afinal, as paisagens são.
 
Se imagino, vejo. Que mais faço eu se viajo? Só a fraqueza extrema da imaginação justifica que se tenha que deslocar para sentir.
 
“Qualquer estrada, esta mesma estrada de Entepfuhl, te levará até ao fim do mundo.” Mas o fim do mundo, desde que o mundo se consumou dando-lhe a volta, é o mesmo Entepfuhl de onde se partiu. Na realidade, o fim do mundo, como o princípio, é o nosso conceito do mundo. É em nós que as paisagens têm paisagem. Por isso, se as imagino, as crio; se as crio, são; se são, vejo-as como às outras. Para quê viajar? Em Madrid, em Berlim, na Pérsia, na China, nos Pólos ambos, onde estaria eu senão em mim mesmo, e no tipo e género das minhas sensações?
 
A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos. 

FILOSOFIA DE PASSAGEM: NÃO AO SENÃO
28 de março de 2012

_____________________________________________________________

quando o tempo tem tempo e chega em tempo de me dar algum tempo para pensar, procuro ver a luz do pensamento que brilha de uma forma singular.

 
quando, com tempo para pensar, procuro ver o que um pensamento pode me trazer de extra-ordinário, caço o que o pensamento pode me trazer de “achados”.
 
pensando alguma coisa, desvelo, com prazer, cada momento desse pensar. pensando alguma coisa, desenrolo o fio condutor do raciocínio, passo a passo, procurando nunca perder o fio da meada.
 
mas se a busca por uma idéia singular me traz só ar & vento, isto é, se no desenrolar do fio do pensamento que me proponho perco a meada, isto é, se a busca por uma idéia singular não dá em nada muito produtivo (só ar & vento), deixo o vento sair, deixo o vento circular no meu entorno.
 
e, apesar de ficar sufocado no deserto (de idéias infecundas), num deserto de idéias a pairar (no ar, no vento), procuro reparar, ver de mais perto (por uma questão de método, de princípio, de rigor), estas idéias infecundas: porque sob o peso, ainda que pouco, ainda que ralo, ainda que leve, ainda que árido, da aragem, porque sob o peso do vento & do ar que restam da tentativa de um pensamento raro, a pulsar pode estar uma idéia com valor.
 
atentemos ao que nos passa à mente. porque, na mente, pode nos ocorrer uma idéia fabulosa a partir de um terreno aparentemente desértico, uma idéia fabulosa pode acontecer a partir de um terreno aparentemente árido, uma idéia fabulosa pode nos surgir a partir do pouco que restou de um exercício intelectual.
 
a partir de um terreno aparentemente desértico, pode nos ocorrer uma idéia de valor:
 
afiar a faca do vento, e, com ela, cortar o pulso do “senão”, cortar o pulso da conjunção “adversativa”, cortar o pulso da conjunção que serve para sinalizar oposição, para sinalizar o que é contrário: para sinalizar o que impede, o que “não”.
 
e, assim, cortando o pulso do senão, cortando o pulso daquilo que impede, desapertar o coração com o nó do pensamento.
 
sempre digo: razão & sentimento nascem de naturezas divergentes, contudo podem perfeitamente convergir, podem caminhar juntos, em harmonia.
 
pensar uma questão sentimental, as suas nuances, as armadilhas armadas para si mesmo, colabora na melhor vivência dos sentimentos, por exemplo.
 
pensar pensar pensar uma questão sentimental (por exemplo), até que o pensar, de tão pensado, se assente no sentimento: desapertar o coração com o nó do pensamento.
 
pois o “senão” (que serve para sinalizar oposição, para sinalizar o que é contrário, aquilo que “não”) que sufoca a vida de uma pessoa, e se adensa como breu (manchando as vontades, os desejos), e ameaça com a forca (fazendo morrer vontades, morrer desejos, morrer pessoas, pessoas que se transformam em tristes & amargas, infelizes), e põe as garras ao léu (e põe as garras na ocasião mais oportuna), o “senão” (conjunção adversativa, aquilo que obstrui, aquilo que sempre conjugado ao “não”) pede a faca no pescoço, o “senão” pede o fio da navalha, desde a pele até o osso, faca & navalha no “senão”, da pele até o osso, faca & navalha no “senão” por inteiro, de cabo a rabo:
 
porque, mesmo sendo dura a vida, mesmo a vida sendo árdua, mesmo sendo difícil, vale mais do que perdida.
 
afinal, a oportunidade única de existência é esta aqui que temos. e já que estamos aqui, na vida, mais vale aproveitá-la que perdê-la, mais vale dançar ao som da banda, vivenciando-o na rua, seguindo ao seu lado, que ver a banda passar, cantando coisas de amor, do alto da janela, ausentando-se ao máximo das experiências mundanas (ainda que muitas das experiências vida afora sejam dolorosas, machuquem fundo, muitas dessas experiências são deveras valiosas, ensinam bastante). 
 
feliz ou infelizmente, não sei, aprende-se muito com a dor.
 
mais vale aproveitar a vida que perdê-la.
 
pois que, naturalmente, tudo, na vida, é um incessante perder.
 
é só pensar: quanto mais passos dados, menos estrada a percorrer. quanto mais dias vividos, menos dias a se viver.
 
vivências & mais vivências & um turbilhão de fatos na memória. 
 
das águas corredias da memória, águas que não cessam a corrida, emergem os liames da incerteza, das águas corredias da memória emerge tudo aquilo que retido ficou na rede da incerteza: os liames da incerteza retêm lendas, mitos & a história da humanidade, os liames da incerteza retêm a beleza das artes, a beleza dos ofícios, da cultura, a beleza de terras fecundas e até sáfaras (terras infecundas, terras desérticas, terras pedregosas), lugares que foram e que serão (as terras fecundas & as sáfaras) a sepultura de quem partiu do fio das diásporas (diáspora: dispersão de um povo em conseqüência de preconceito ou perseguição política, religiosa ou étnica).
 
é veloz o decurso da vida: um dia após o outro e, de repente, num susto!, já fomos…
 
e o que sobra da nossa despedida (matéria fétida & putrefata para o banquete dos vermes, restando de nós, após o repasto, apenas os ossos), oxalá fosse pasto de semente, o que sobra da nossa despedida, quisera eu fosse lugar adequado ao plantio de semente: se assim o fosse, de nós, a vida brotaria mais uma vez. 
 
de novo sentiríamos o sol: quem sabe se flor, quem sabe se rouxinol.
 
portanto: aproveitemos enquanto há tempo!
 
beijo todos!
paulo sabino.
____________________________________________________________
 
(do blog: A espessura do tempo. url: http://domingosmota.blogspot.com.br/. autor: Domingos da Mota.)
 
 
 
FILOSOFIA
 
 
Quando o tempo tem tempo e chega a tempo
de me dar algum tempo pra pensar,
procuro ver a luz do pensamento
que brilha de uma forma singular
 
Desvelo com prazer cada momento,
num silêncio profundo, a meditar
Mas se a busca me traz só ar e vento,
deixo o vento sair, e apesar
 
de ficar sufocado no deserto,
num deserto de ideias a pairar,
procuro reparar, ver de mais perto
 
Por método, princípio, rigor:
sob o peso da aragem, a pulsar,
pode estar uma ideia com valor
 
 
 
O SENÃO
 
 
Afia a faca do vento
corta os pulsos ao senão
com o nó do pensamento
desaperta o coração
 
pois o senão que sufoca
e se adensa como breu
e ameaça com a forca
e põe as garras ao léu
 
pede a faca no pescoço
pede o fio da navalha
desde a pele até ao osso
(ou o diabo que o valha);
 
mesmo sendo dura a vida
vale mais do que perdida
 
 
 
SONETO DE PASSAGEM
 
 
Das águas corredias da memória
emergem os liames da incerteza:
retêm lendas, mitos e a história
das crenças, das ideias e a beleza
 
das artes, dos ofícios, da cultura,
e de terras fecundas e até sáfaras
que foram ou serão a sepultura
de quem partiu do fio das diásporas.
 
É veloz o decurso desta vida:
um dia após o outro, e de repente
já fomos, e o que sobra à despedida
oxalá fosse pasto de semente:
 
de novo sentiríamos o sol,
quem sabe se flor, se rouxinol.

ÀS MÃOS DE MEU PAI, UNS VERSOS MUITO LINDOS
6 de dezembro de 2011

_____________________________________________________________
 
pai,
 
neste mês de dezembro, mês em que você, se estivesse por aqui, venceria as suas 69 primaveras, quero trazer-lhe uns versos muito lindos, colhidos no mais íntimo de mim…
 
versos colhidos no mais íntimo de mim para o homem que me ensinou o bom-humor, a alegria, que me ensinou a ser piadista, a não me levar tão a sério. versos muito lindos ao homem que incitou o meu gosto por água, especialmente pelo mar, uma vez que nasci & vivo numa cidade tomada por ele, pelo mar, eloqüente, imponente em sua vastidão azul. versos ao homem que, aos domigos, religiosamente, levava a família para um passeio ao ar livre (o aterro do flamengo era um dos seus locais favoritos), e, depois, ao cinema, uma das suas GRANDES paixões. homem que sempre me admirou, que sempre apostou em mim, que sempre se preocupou com o meu bem-estar.
 
assim como você, pai, as palavras dos versos que desejo ofertar-lhe são simples, palavras singelas, porém palavras com uma luz tão forte, tão bonita, que você, pai, teria de fechar seus olhos para as ouvir.
 
sim!, uma luz forte, bonita, que viria de dentro delas, como essa que acende inesperadas cores nas lanternas chinesas de papel.
 
sim!, uma luz forte, bonita, que viria de dentro das palavras, palavras iluminadas pela luz que vem de dentro das suas mãos, mãos que têm grossas veias como cordas azuis sobre um fundo de manchas já cor de terra.
 
como, na minha memória, são belas as suas mãos!…
 
mãos que abrigaram a nobre cólera dos justos, a nobre cólera daqueles que não se conformam com um mundo tão cheio de mazelas, tão carecido de bons sentimentos. mãos que nunca me bateram, mãos firmes que guiavam sem violências, mãos a serviço do afago, da meiguice, da carícia, do zelo. 
 
a luz das palavras que lhe trago, pai, vem dessa chama que, pouco a pouco, longamente,  você, durante a sua jornada, veio alimentando na terrível solidão do mundo, chama que me alimenta, que nutre o meu ser, chama que me faz prosseguir buscando fortaleza mesmo nos momentos difíceis, momentos de certa escuridão, momentos de dores & dissabores.
 
a você, pai, trago palavras, apenas palavras… e que são escritas fora do papel, escritas no meu sentimento pelo amor que em mim existe & perdura, firme, forte, em riste. 
 
são tantas coisas a dizer, pai, tantas coisas, que nem sei exatamente como dizê-las, e estas linhas vão morrendo, ardentes & puras, ao vento da poesia…
 
que bom, pai, que privilégio a sua passagem pela minha existência, como aprendemos um com o outro! salve!
 
agora fico por aqui.
 
eis a minha homenagem, mais que merecida, a você, pai, o grande homem da minha vida.
 
beijo imenso, meu “véio”.
amor eterno. 
saudade longa.
 
seu filhote.
____________________________________________________________
 
(do livro: Poesia completa – volume único. autor: Mario Quintana. editora: Nova Fronteira.)
 
 
 
EU QUERIA TRAZER-TE UNS VERSOS MUITO LINDOS
 
 
Eu queria trazer-te uns versos muito lindos
colhidos no mais íntimo de mim…
Suas palavras
seriam as mais simples do mundo,
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar teus olhos para as ouvir…
Sim! uma luz que viria de dentro delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel.
Trago-te palavras, apenas… e que estão escritas
do lado de fora do papel… Não sei, eu nunca
                                                                                   soube
o que dizer-te
e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento
da Poesia…
como
uma pobre lanterna que incendiou!
 
 
 
AS MÃOS DE MEU PAI
 
 
As tuas mãos têm grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já da cor da terra
— como são belas as tuas mãos
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram da nobre
                                                                              cólera dos justos…
Porque há nas tuas mãos, meu velho pai, essa beleza que se
                                                                   chama simplesmente vida. 
 E, ao entardecer, quando elas repousam nos braços da tua
                                                                                    cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas…
Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente, vieste
                          alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra
                                                                                                   o vento?
Ah! como os fizeste arder, fulgir, com o milagre das tuas mãos!
E é, ainda, a vida que transfigura as tuas mãos nodosas…
essa chama de vida — que transcende a própria vida
…e que os Anjos, um dia, chamarão de alma. 

CANÇÃO DO EXILADO: A ESTRELA FRIA
5 de outubro de 2011

(paulo sabino, de gracinha para a foto – rs, ainda bem jovenzinho: tempo que não volta mais.)

_____________________________________________________________

o presente — até porque é a única coisa que nos resta — é o que importa, é o que, de fato, temos à disposição.
 
se eu voltar a lamber as botas do passado,
 
se eu voltar a visitar o passado com tamanha veemência,
 
se eu voltar a chorar a memória da memória:
 
que me seque a mão direita! que me seque a mão com a qual rascunho os meus rabiscos que revivem o passado!
 
quando o calor do passado vier pelo vento tardio desta primavera tão pura e o meu tato corromper, e o meu tato desvirtuar, estragar; e o roçar da nuca do passado me fizer tremer, tremer por lembrar o roçar daquela nuca do passado; se eu assobiar a mínima canção do passado; se eu procurar a boca do passado e o ruído das ruas do passado estrangular o meu coração:
 
que a língua cole no paladar!
 
ó, língua, ó, devastadora filha de babel (da torre, arruinada pelo alarido das línguas desencontradas), feliz é aquele que devolve a você o mal que me é causado por querer resgatar aquilo que não pode ser resgatado, feliz é aquele que rejeita esse mal, feliz é aquele que não aceita essa sua oferta: falar do passado.
 
feliz é o que se oferece ao que está. ao que: disponível: o presente.
 
não pedirei mais nada ao passado.
 
repetirei, em desassombro, repetirei, sem espanto ou surpresa (se eu lembrar de você, passado, cidade-além), repetirei em desassombro para o passado o que, no passado, alguns disseram a jerusalém: “arrasai-a! arrasai-a até os alicerces!”
 
morte ao morto!, o passado.
 
longa vida ao que fica!, o presente.
 
o passado: a estrela fria.
 
a estrela fria: a infância, a memória, o passado, é a luz de uma estrela fria, fria porque a sua luz não mais aquece, está longe, morta, está no passado.
 
a estrela fria: as recordações do poeta:
 
o verão, avassalador, o rangido do sol a pino, em pernambuco, varrendo a sombra & a árvore: quintal pelado; o medo, um companheiro do poeta de todas as horas.
 
os ermos da infância abrigam os olhos do poeta: 
 
ele sabe que a sua própria história, que escuta de si mesmo, vem tangida, vem tocada, pela memória de um “outro”, de um “outro” que é identificado com o tato, com o toque, de hoje, “outro” que nada mais é do que o poeta do tempo presente, este, sim, em constante transformação, e que, por viver em contínua mudança, será sempre um “outro”.
 
preocupemo-nos mais com este “outro” que formamos a cada dia.
 
que este “outro” — que formamos a cada dia — se sinta pleno na vida em que está, que este “outro” se sinta realizado na existência que abriga, a fim de que as lembranças sejam puramente (boas) lembranças (lembranças de um presente outrora bem vivido), e o presente, aquilo que mais vale o seu olhar.
 
morte ao morto!, o passado.
 
longa vida ao que fica!, o presente.
 
beijo todos!
paulo sabino.  
____________________________________________________________
 
(do livro: A estrela fria. autor: José Almino. editora: Companhia das Letras.)
 
 
 
CANÇÃO DO EXILADO
 
 
Se eu voltar a lamber as botas do passado,
se eu voltar a chorar a memória da memória:
que me seque a mão direita!
 
Quando o teu calor vier
pelo vento tardio deste verão tão puro
e corromper o meu tato;
e o roçar da tua nuca me fizer tremer,
se eu assobiar a tua mínima canção,
se eu procurar a tua boca
e o ruído das tuas ruas estrangular o meu coração:
que me cole a língua ao paladar!
 
Ó devastadora filha de Babel,
feliz quem devolver a ti
o mal que me fizeste!
 
Não pedirei mais
perdão às virtudes do passado.
Repetirei, em desassombro
— se eu me lembrar de ti, Jerusalém —,
com os que diziam:
“Arrasai-a!
Arrasai-a até os alicerces!”
 
 
 
A ESTRELA FRIA
 
 
There’s no there there.*
 
 
I
 
O verão era permanente.
Tanto fazia: alegria e dor
tinham
o calor do meio-dia.
 
 
II
 
De primeiro, era o
sol
que em Pernambuco leva dois sóis **
e aterrisa de chofre
sobre a palha da cana
sobre a cabroeira do eito,
imundas,
ao arrepio da carícia
das geladeiras,
ao largo de azulejos
azuis.
 
Depois
é trinado de cancão
no salão de barbeiro
suor do descamisado
capinado
o descampado.
 
Não há crepúsculo
mas o rangido do sol a pino
varrendo a sombra
e a árvore:
quintal pelado.
 
De longe,
a infância queima:
ela é a luz de uma estrela fria.
 
 
III
 
      e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.***
 
 
Quando o medo andava pelas ruas,
era apenas ele, nosso pai e nosso companheiro:****
entrava na padaria, passeava o cachorro,
pousava a mão no meu ombro.
 
Na minha infância já não se morria de tifo,
mas havia o medo,
sufocando-me durante as noites,
com lágrimas
e o travesseiro.
 
 
IV
 
Vou não.
Pego tudo e sacudo fora:
avoo no mato.
 
 
V
 
O sol de Sócrates amanhece lúcido, vigilante:*****
não é o meu.
Teço apenas o fiozinho de um desejo
que escreve letras tortas por linhas incertas.
Às vezes bobeio, quando os meus olhos abrigam os ermos
                                                                                             [da infância.
Morei no Zumbi, um lugar que sumiu.
Perdi a pátria nos trilhos sonolentos do bonde de Caxangá.
 
 
VI
 
Os adjetivos mastigam metáforas que desafinam:
há muito não vejo um rosto na multidão
e, qual Ulisses, volto a escutar a minha própria história
tangida pela memória de um outro
que com o tato de hoje identifico,
frente a uma tarde
quando aprendi a ver.
 
Eu era um signo opaco,
menino chutando pedra
no oco do mundo,
liberto de escolhas,
entre o ócio e o espanto.
____________________________________________________________
 
*autores das citações no poema “a estrela fria”:
 
* Gertrude Stein
** João Cabral de Melo Neto
*** Carlos Drummond de Andrade
**** Murilo Mendes
***** Carlos Drummond de Andrade

TRANSITÓRIO: SEGUIR AO MAR COM ALEGRIAS PARA SEMPRE
16 de agosto de 2011

______________________________________________________________________________________________

ah,
 
como esta vida é urgente:
 
é preciso partir, é preciso chegar, é preciso partir, é preciso chegar.
 
é preciso viajar pela vida.
 
(o apito da locomotiva: e o trem se afastando, e o trem arquejando, e o trem viajando…)
 
no entanto, eu gosto mesmo é de partir, de ir, de caminhar.
 
e — até hoje — quando acaso embarco para alguma parte, acomodo-me no meu lugar, seja este qual for — a cadeira da escrivaninha, o sofá da sala, a cama no quarto, a janela voltada ao azul —, fecho os olhos e sonho:
 
ir, caminhar, viajar, mas para parte nenhuma… apenas viajar, viajar indefinidamente, ter como principal objetivo o somente caminhar, ir, viajar, como uma nave espacial perdida entre as estrelas.
 
(é preciso viajar pela vida.)
 
ir, caminhar, viajar, seguir.
 
seguir para o mar, deixar-me ser o que sou, o que sempre fui: um rio que vai fluindo.
 
em vão cantarão as horas em minhas margens, pois não hei de ficar no canto das horas; este (o canto das horas) esvai-se, evola-se, cinza de um corpo esvaído de qualquer sentido.
 
um espelho não guarda as coisas refletidas. nada é retido, tudo nos passa (inda mais quando se é um rio, como eu sou), nada nos sobra de paisagem no espelho d’água.
 
e o meu destino é seguir, é seguir para o mar, as imagens perdendo no caminho. deixar-me fluir, passar, cantar…
 
todavia,
 
na via da vida, há coisas que não conseguem ser olvidadas.
 
as coisas que não conseguem ser esquecidas continuam acontecendo.
 
sentimo-las fora do tempo, no mundo do “sempre”, onde as datas não datam, onde as datas não têm função; afinal, são coisas que sentimos fora do tempo.
 
que importa se findou no mundo em que o tempo impera aquilo que sentimos fora do tempo?
 
há bens inalienáveis, há certos momentos que, ao contrário do que se pensa, fazem parte da vida presente e não do passado, momentos que se abrem no sorriso mesmo quando sorrimos a outras coisas, momentos que estão contidos na alegria de outros momentos.
 
uma coisa bela é uma alegria para sempre — disse, uma vez, um poeta que não conseguiu morrer, poeta que se mantém vivo através da sua obra, o seu bem inalienável.
 
(um viva à vida!)
 
beijo todos!
paulo sabino.
_____________________________________________________________________________________________
 
(do livro: Baú de espantos. autor: Mario Quintana. editora: Globo.)
 
 
 
POEMA TRANSITÓRIO
 
 
Eu que nasci na Era da Fumaça: — trenzinho
vagaroso com vagarosas
paradas
em cada estaçãozinha pobre
para comprar
                   pastéis
                   pés-de-moleque
                   sonhos
— principalmente sonhos!
porque as moças da cidade vinham olhar o trem passar:
elas suspirando maravilhosas viagens
e a gente com um desejo súbito de ali ficar morando
sempre… Nisto,
o apito da locomotiva
e o trem se afastando
e o trem arquejando
 
é preciso partir
é preciso chegar
é preciso partir é preciso chegar… Ah, como esta vida é
                                                                                                     urgente! 
… no entanto
eu gostava era mesmo de partir…
e — até hoje — quando acaso embarco
para alguma parte
acomodo-me no meu lugar
fecho os olhos e sonho:
viajar, viajar
mas para parte nenhuma…
viajar indefinidamente…
como uma nave espacial perdida entre as estrelas.
 
 
 
DEIXA-ME SEGUIR PARA O MAR
 
 
Tenta esquecer-me… Ser lembrado é como
evocar-se um fantasma… Deixa-me ser
o que sou, o que sempre fui, um rio que vai fluindo…
 
Em vão, em minhas margens cantarão as horas,
me recamarei de estrelas como um manto real,
me bordarei de nuvens e de asas,
às vezes virão em mim as crianças banhar-se…
 
Um espelho não guarda as coisas refletidas!
E o meu destino é seguir… é seguir para o Mar,
as imagens perdendo no caminho…
Deixa-me fluir, passar, cantar…
 
toda a tristeza dos rios
é não poderem parar!
 
 
 
UMA ALEGRIA PARA SEMPRE
 
                                                                     Para Elena Quintana
 
 
As coisas que não conseguem ser
olvidadas continuam acontecendo.
Sentimo-las como da primeira vez,
sentimo-las fora do tempo,
nesse mundo do sempre onde as
datas não datam. Só no mundo do nunca
existem lápides… Que importa se —
depois de tudo — tenha “ela” partido,
casado, mudado, sumido, esquecido,
enganado, ou que quer que te haja
feito, em suma? Tiveste uma parte da
sua vida que foi só tua e, esta, ela
jamais a poderá passar de ti para ninguém.
Há bens inalienáveis, há certos momentos que,
ao contrário do que pensas,
fazem parte da tua vida presente
e não do teu passado. E abrem-se no teu
sorriso mesmo quando, deslembrado deles,
estiveres sorrindo a outras coisas.
Ah, nem querias saber o quanto
deves à ingrata criatura…
A thing of beauty is a joy for ever
— disse, há cento e muitos anos, um poeta
inglês que não conseguiu morrer.

A LINGUAGEM (CLARA) DO POETA: O SEU DILEMA VITAL
3 de julho de 2011

o dilema vital do poeta:
 
ter o sangue aventureiro, isto é, gostar de aventuras, gostar de aventurar-se, e ter um amor (imenso) à terra que o sonho lhe deu.
 
o dilema vital do poeta:
 
o gosto pelas aventuras e o gosto pela terra que estimula aventuras.
 
há, no poeta, tanto a vontade de partir, de navegar rotas diversas, quanto o desejo de fincar os pés na terra que desperta sua vontade de partir.
 
preso ao ideal que projeta, aprisionado ao ideal que sonha, o poeta vive as suas fantasias em terra firme, na solidão da praia derradeira.
 
o gosto do poeta de lutar contra o imprevisto, o combate do poeta ao que é imprevisível, o combate ao “elemento surpresa” da vida, fez com que o bardo se movimentasse, fez com que o bardo andasse, percorresse caminhos, o gosto de lutar contra o imprevisto fez-lhe todo de vento, elemento cujo estado fundamental é o movimento, é a andança.
 
o poeta, portanto, percorre veredas, no entanto, com os seus pés fincados em terra firme.
 
o bardo estende os olhos ao mar e pensa ter chumbos nos pés, e também pensa ter o mar, e tudo imenso:
 
com chumbos nos pés, com chumbos que fundamentam os pés do poeta em terra firme, o que lhe resta é sonhar, o que lhe resta é delirar, como um refém, um refém dos seus sonhos & delírios.
 
o que resta ao poeta é ser refém, ou seja, o que sobra ao poeta é estar aprisionado aos seus sonhos, aos seus devaneios de aventuras além-mar, e ao seu desespero bom, causado pelo dilema.
 
vivendo o seu dilema, o poeta sabe que não será ele mesmo o tempo todo, o poeta sabe que, dele, outro nascerá, e esse outro, com o passar do tempo, também trará à luz um outro “outro”, e assim sucessivamente.
 
vivendo o seu dilema, o poeta sabe do seu processo de transformação na trajetória dos seus passos indecisos.
 
naturalmente, a indecisão ante determinados caminhos & possibilidades causa medo.
 
em geral, todos nós temos medo do que não podemos controlar, temos medo do que não podemos domar, temos medo do lado imprevisível da vida, e lutamos contra ele.
 
quando isso acontecer, lutar, lutar contra o medo, e lutar sonhando.
 
lutar sonhando, lutar amando.
 
contar com amores durante a jornada.
 
contar com amores, contar com marias (maria cheia de graça, maria cheia de vida), e contar com a linguagem.
 
por entre as palavras o poeta caminha com seguridade. diante da página deserta, nas suas retinas:
 
sonhos de coisas claras, de coisas lúcidas.
 
nas retinas do poeta:
 
a construção do poema, sua arquitetura de vento & delírio, sua carne onírica, sua alma inventiva.
 
na estrutura da língua, a linguagem do poeta fala o seu segredo, a linguagem do poeta desata o próprio poeta, os dedos a dedurar, com clareza, através de imagens limpas, o ser do poeta.
 
no cio, no tesão, na vontade, no desejo, do ofício de escrever, buscar a linguagem na sua usura, buscar a linguagem no pouco que, ao escrever, o poeta consegue dela extirpar, e obter, da linguagem, sua nudez segura, absoluta canção, voz perene & inicial, primordial, primeira.
 
pois, assim, a vida do poeta será o seu bem precioso, e, fiel ao seu destino, com o mesmo ideal de um cavaleiro-andante, o poeta, todo feliz, leva-a como um diamante inimitado
& por demais valioso.
 
tenta o poeta sentir a vida, tenta o poeta compreendê-la um pouco, sem, no entanto, buscar-lhe a luz de seus inúmeros segredos. afinal, o poeta sabe que a vida nada pode dizer, o poeta sabe que a resposta está além dos deuses.
 
a vida tem a sua dimensão difícil, uma dimensão mais árdua, e também uma dimensão inexplicável, dimensão de mar que se lança, e lança suas espumas, contra rochedos, duros, ásperos, serenos.
 
todavia, ao poeta não incomoda essa dimensão. ele sabe que assim o é, que assim o foi, e que assim será.
 
sigamos.
 
beijo todos!
paulo sabino.
______________________________________________________________________________________________________________
 
(do livro: Melhores poemas. seleção: Luiz Busatto. autor: Gilberto Mendonça Teles. editora: Global.)
 
 
 
DILEMA
 
Tenho o sangue da gente aventureira
e o amor à terra que me deu o sonho.
Mas me encontro parado na fronteira,
sem saber se recuo, ou se a transponho.
Aprisionado pelo ideal que sonho
na solidão da praia derradeira,
risco na areia o poema que suponho
ficará na memória a vida inteira.
 
O gosto de lutar contra o imprevisto
fez-me todo de vento e não resisto
ao desespero bom de ir mais além.
Estendo os olhos para o mar, e penso:
“— Tenho chumbo nos pés e o mar e imenso:
só me resta sonhar como um refém.”
 
 
 
O OUTRO
 
Já não serei eu mesmo, serei outro
quando me virem segurando as horas
e desenhando pássaros barrocos
nas pétalas das conchas e das rosas.
Se, deslumbrado pela luz da aurora,
eu caminhar sem rumo, como um louco,
sabei que levo estrelas na memória
e me contemplo velho, sendo moço.
Diante dos homens gritarei comícios
e arrastarei por onde for o bando
que me seguir os passos indecisos.
E quando a noite vier rolando o medo,
eu dormirei nas pedras como um santo
e sonharei nas ruas como um bêbado.
 
 
 
MARIA
 
Maria, há tanta Maria
cantando na minha vida.
Maria cheia de graça,
Maria cheia de vida.
 
Andei mundo, rodei terra,
cruzei os mares que havia
e, em cada canto da terra,
o amor eu tive, Maria.
 
Na vida que Deus me deu,
deu-me tudo o que eu queria:
deu-me esperança e me deu
o amor que eu sempre amaria.
 
Eis por que sempre há Maria
mariando na minha vida.
Maria cheia de graça,
Maria cheia de vida.
 
 
 
LINGUAGEM
 
Eu caminho seguro entre palavras
e páginas desertas. Nas retinas:
sonhos de coisas claras e a lição
de outras coisas que invento
para o só testemunho
de minha construção
imaginária
de pedra
                        sobre
                                    pedra
                                                   e cimento
                                                                            e silêncio.
 
Da sintaxe invisível a certeza
e o desdobrar tão limpo das imagens
na vereda serena que dói fundo
no olhar preciso e vago consumindo
seu faro de palavras.
                                                   Na estrutura
da língua se desgasta o meu segredo,
se desgastam meus dedos, a mais pura
moeda que circula desprezível
no cio deste oficio de buscar-te
na usura de ti,
                                 nudez segura,
absoluta canção
                                      e voz perene,
inicial.
 
 
 
VIDA
 
A vida, tenho-a como um bem precioso
que alguém depôs em minhas mãos, confiante
em que eu pudesse amá-la até o instante
de meu supremo e derradeiro gozo.
 
E, fiel ao meu destino, mas sem pouso,
com o mesmo ideal de um cavaleiro-andante,
levo-a, todo feliz, como um diamante
inimitado e por demais valioso.
 
Tento senti-la e compreendê-la um pouco
sem, no entanto, buscar-lhe, como um louco,
a luz de seus inúmeros segredos.
 
Que a mim não me incomoda coisa alguma
que ela pareça um mar lançando espuma
contra a serenidade dos rochedos.

MEMÓRIAS DE OUTRAS VIDAS
17 de maio de 2011

na hora da morte, dizem, passa tudo num filme.

contam também que um homem, que não guardava nomes, que um homem, que o aniversário da esposa quase esquecia, um homem, que trocava o ano do cheque, como quase não tinha memória, sem saída, à hora da sua morte inventou as memórias; sem saída, um homem — que quase não tinha memória — inventou as memórias de outras vidas.
 
as memórias de outras vidas:
 
da exímia matadora de galinhas;
do capanga-feitor entediado;
do cangaceiro que, fora do cangaço, é um fracasso;
do/da babalorixá que “recebe” um santo poeta;
do pescador que é fisgado tal & qual o que acaba por fisgar;
do boiadeiro mal agourado;
do ilhéu que vira semente;
do bobo da corte que ganha a realeza;
do poeta & os seus manuscritos;
do maquinista que vira aviador;
da vendedora de flores que engana a morte;
do soldado que, na guerra, sente falta do “sentido!” mais sem sentido que até então havia escutado.
 
deliciem-se com estas memórias de vidas dispostas na vida dos versos!
 
regalem-se com estas memórias-poemas!
 
beijo todos!
paulo sabino.
_________________________________________________________________________________________________________
 
(do livro: O menos vendido. autor: Ricardo Silvestrin. editora: Nankin Editorial.)
 
 
 
 
MEMÓRIAS DE OUTRAS VIDAS
 
 
 
1
 
Trançava as mãos
no pescoço da galinha 
até estalar.
Deixava o sangue escorrer,
limpava, esquartejava.
Perdera as contas
de quantas.
Era uma santa,
todos diziam.
Mas seu marido
morreu moço
com um laço na garganta.
 
 
 
2
 
Chibata no lombo
de nego do Congo.
Chibata na bunda
de nego quimbundo.
Sal grosso na afta
de nego da África.
 
Um dia, veio a abolição
e sem remédio pro seu tédio
matou os filhos, a mulher e o irmão.
 
 
 
3
 
No cangaço,
vivia dando cagaço,
arrebentando cabaço,
à força, no laço.
Era um macho de ferro,
de aço.
Olhava o impossível
e dizia faço.
 
Fora dali,
era um fracasso.
 
 
 
4
 
Galinha preta
na lua de prata.
Galinha crua
na encruzilhada.
Galinha cozida
na noite descida.
 
Trabalho pro bem
tem dente de alho.
Trabalho pro mal
cal, mel, sem barulho.
 
Pelo tom da receita,
o santo é poeta:
se o som é bom,
entra qualquer bagulho.
 
 
 
5
 
Puxava o peixe
e hesitava entre tirar o anzol
da boca triste
e o êxito de voltar antes do sol
com o troféu que era só seu.
Mas a boca do estômago
sempre falava mais alto.
 
À noite,
a mulher o fisgava
com uma língua de anzol.
E sua boca de peixe
dizia “não me deixe”.
 
 
 
6
 
Toca o boi
com a boca:
ê, boi!
Toda vida
pouca
tocando
até o juízo final
no matadouro.
Um dia
uma ave
de mau agouro
repetiu o refrão
com ele em coro:
ê, boi!
Morreu chifrado
por um touro.
 
 
 
7
 
Vento sul,
céu azul.
Vento norte,
chuva forte.
Vento leste
traz a peste.
 
Morava na ilha
desde que a enchente
levou sua mulher
e sua filha.
Sem gente atrás,
ao lado, à frente,
foi lá que um dia
virou semente.
 
 
 
8
 
Guizos.
Roupa xadrez.
Trocava comida
por meia dúzia
de risos.
No fim do mês,
pagava
o que fosse preciso.
E bebia o resto.
 
Até que o rei,
num lindo gesto,
criou o novo Reino
da Alegria.
E o bobo
entrou pra história
como o primeiro
rei que ria.
 
 
 
9
 
Contava sílabas
enquanto os outros
contavam dinheiro.
 
Tocava sua lira
enquanto os outros
tocavam a vida.
 
Séculos depois
acharam a sua obra
escrita pra nada.
 
E nos seus manuscritos
a vida dos outros
foi enfim decifrada.
 
 
 
10
 
Trilava o apito
e o trem
tilintava nos trilhos.
 
No vagão não se vaga.
Varava a madrugada
sem mudar a direção.
 
Quando se aponsetou,
comprou um avião.
 
 
 
11
 
Rosa azul,
celofane cor de rosa
pra melhorar
o humor do finado.
Ano após ano,
na porta do cemitério,
nem morta nem viva
juntando os trocados.
Numa noite veio a foice,
mas ela não se foi.
Vendera flores
ao pobre diabo.
 
 
 
12
 
Sentido!
O comandante exclamava,
mas ele ouvia uma pergunta:
sentido?
Já que ninguém respondia,
trezentos apoios por dia.
Até que veio a guerra,
e ele foi pagar apoio aos aliados.
Como nunca tinha sentido antes,
sentiu saudades
do comandante.
 
 
 
13
 
Na hora da morte,
ele sabia,
passa tudo num filme.
Mas é tarde demais
pra escrever.
Não guardava nomes,
quase esquecia
o aniversário da esposa,
trocava o ano no cheque.
Sem saída,
inventou as memórias
de outras vidas.