LIVRO DE ESTRÉIA (PAULO SABINO): UM PARA DENTRO TODO EXTERIOR
31 de outubro de 2017

(Paulo Sabino e Armando Freitas Filho)
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Desde que nos tornamos próximos, Armando Freitas Filho (comigo na foto há tempos atrás) é o poeta a quem eu submeto os meus versos à crítica/ avaliação/ opinião. Porque o Armando, além de ser um dos maiores poetas brasileiros da atualidade, é extremamente atencioso nas suas críticas/ avaliações/ opiniões. Aprendo muito com ele. Estou muito animado por decidir – finalmente! – lançar o meu livro de poesia de estréia, o livro primeiro do Paulo Sabino vendo-se, e vendendo-se, um profissional dos versos. O livro vai chamar-se “Um para dentro todo exterior”, título de um poema que o compõe. Além de escrever ao Armando contando o que escrevo aqui, mandei-lhe o mais novo poema, “Montanha russa”, nascido de uma prosa poética minha que, desde sempre, pensava em transpor para os versos. Sobre os dois poemas (“Um para dentro todo exterior” e “Montanha russa”), Armando escreveu: 

 

“Nada como um escritor criar um estilo que, com o passar do tempo, vai dando chances de ramificações sem perder a sua origem, como é o caso. Você já engatilhou o seu modo de ser e de escrever. Já plantou firmemente seus dois poemas verticais, altos como você.”

 

 

Alegria imensa!

2018: o meu livro de poemas! A decisão foi tomada porque até então não encontrava título que me satisfizesse, de que gostasse. Há pouco tempo me ocorreu o nome, muito propício. Isso me trouxe um ânimo que não havia. Com um nome, me parece mais fácil formatar a obra. E está mais do que na hora de lançar ao mundo o meu rebento poético!

A vocês, o poema que dará nome ao livro de estréia do Paulo Sabino acompanhado de um textinho a respeito do poema, que acaba por elucidar a importância da escolha do título .

Beijo todos!

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o mundo possui os seus mistérios embora destes não faça segredos: se se for capacitado a desvendá-lo, a desvendar o mundo, bem; se não, bem também. a questão do desconhecimento do mundo não está no mundo, mas na carência nossa de instrumentação necessária ao conhecimento do mundo, à apreensão das coisas mundanas: todas as coisas ao alcance dos dedos.

o mundo é um: o mundo, e nada mais. o mundo é um: único, ímpar, singular, ele & nada mais.

nada é o que há para além do que há, nada é o que há para além do que se compõe mundo, para além do que se impõe existência.

o mundo é um todo exterior: se o homem não possui olhar capacitado a enxergar, sem a ajuda de aparelhos, os átomos dançando ao vento, isso não é problema do mundo. não é o mundo que esconde os átomos que bailam ao vento: é o homem que não possui a capacidade de enxergá-los a olho nu.

por essa & por outras incapacidades o homem apreende o seu entorno de maneira errante, de modo movediço.

o mundo, assim, à nossa experiência, torna-se um “para dentro” (necessita-se de um aprofundamento no conhecimento de qualquer objeto que se queira bem conhecer) “todo exterior” (o mundo está à mostra, às vistas de quem possa ver o que está às vistas).

o mundo (à nossa experiência): o oculto às claras, fundura em superfície, o mistério sem segredos:

nada é o que há para além do que há, nada é o que há para além do que se compõe mundo, para além do que se impõe existência.

(nada a esconder mesmo que muito por saber…)

o mundo é mistério não porque seja misterioso mas porque não possuímos a capacitação necessária para enxergá-lo na sua totalidade & em suas especificidades.

somos muito muito muito pouco ante a sua grandeza.

(pensem a respeito.)

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(autor: Paulo Sabino.)

 

 

UM PARA DENTRO TODO EXTERIOR

 

nada  a  esconder
mesmo  que
muito  por
saber

o  mundo
é  um
para  dentro
todo  exterior

nada
é  o  que  há
para  além
do  que  há:

o  oculto
às  claras

fundura
em  superfície

o  mistério
sem  segredos:

todas  as  coisas
ao  alcance  dos  dedos

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PRINCIPALMENTE: A VOZ DO MAR
17 de abril de 2014

O mar & sua voz

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sempre fui bem tratado, sempre fui tratado bem, com carinho, com respeito, sempre vontades satisfeitas. por isso mesmo, sempre fui bem tratado, sempre fui muito tratado, sempre fui bastante tratado, como um príncipe.

com isso, fui me afeiçoando aos privilégios, aos florilégios (às coleções de flores devidamente escolhidas), às vilegiaturas (às férias que se passa fora dos centros urbanos, no campo, na praia, na montanha, no deserto), que me couberam neste reino — que é a vida — etéreo (sublime, magnífico, elevado, e também vaporoso) & ao mesmo tempo deletério (aviltante, insalubre, danoso).

a vida, sabe-se, possui a sua faceta exuberante como também a faceta cariada, feia, cheia de tristezas.

além disso, neste reino que é a vida, etéreo & deletério, o esquecimento é tão inevitável quanto a vida & a morte é toda feita de mistério.

a vida é uma coisa da qual não se pode dispor. não conhecemos o suficiente para saber, apreender, o que é a existência mundana & universal — a morte, para nós, ainda é um mistério, não se sabe muito a respeito dela, para onde vamos, se é que vamos para algum lugar além das nossas sepulturas, nem nunca podemos ter a apreciação total das nossas próprias vidas, pois, pelo caminho, vamos deixando acontecimentos para trás, justamente porque o esquecimento é tão inevitável quanto a vida.

procuro ouvir a minha sorte, procuro ouvir o que me destina o destino (será que existe destino?), nos meus búzios, como o — poeta olavo — bilac ouvia suas estrelas (vide o poema feito pelo poeta, “ouvir estrelas”), coisa que nunca ouvi, mas compreendi (a minha sorte), mesmo não tendo credo acreditável, mesmo não tendo crença crível, mesmo não tendo credo no qual se possa confiar & acreditar.

assim, bicho homem sem credo no qual se possa confiar & acreditar, fui construindo meu edifício sobre essa arquitetura de quimeras (na vida, sempre fui bem tratado, sempre fui tratado bem, com carinho, com respeito, sempre vontades satisfeitas, e, por isso mesmo, sempre fui bem tratado, sempre fui muito tratado, sempre fui bastante tratado, como um príncipe), cujo arquiteto (o arquiteto dessa arquitetura de quimeras que é a vida: “deus”, ou como quer que se chame a força criadora do universo) talvez fosse cego (construindo tal arquitetura às escuras), ou gênio (construindo tal arquitetura com total entendimento do que construía), ou talvez fosse, simplesmente, ausente (simplesmente inexistente, e a vida, um grande capricho do acaso).

neste reino etéreo & deletério, fundo a minha voz, inauguro o meu canto: na nave língua em que me navego, só me navego “eu”, como “nave”, sendo língua.

(“navego”: na palavra em destaque, duas outras palavras cabem, duas outras palavras formam a palavra “navego”: “nave” + “ego”, que é o mesmo que “eu”. é na língua que posso, através das palavras, me fazer “nave”, e, com elas, o “ego” “navego”.)

na nave língua em que me navego, língua na qual em/barco, só me navego “eu” (“ego”), como “nave”, sendo língua.

a língua é minha pátria. eu canto, falo, declamo, exponho, penso, logo existo, em língua portuguesa.

me navego em língua, “nave” & “ave”.

(“navego”: na palavra em destaque, além de caberem as palavras “nave” & “ego”, uma outra também cabe: “ave”.)

em língua me navego, “nave” que me permite viajar caminho afora, “ave” que me leva em suas asas, na minha tentativa de vôos altos por sobre a vida.

eu sou sol, luz, eu esplendo, eu resplandeço, eu brilho intensamente, sendo sonhador (afinal, fui construindo meu edifício sobre essa arquitetura de quimeras), eu, sendo esplendor, sendo brilho intenso, eu espelho especiaria, sou como o conjunto de temperos que dá aroma & sabor, eu, navegante (dos mares da vida), sou o antinavegador de moçambiques, goas, calecutes, o antinavegador porque nunca me aventurei a descobertas ultramarinas, o antinavegador porque nunca me prontifiquei a vencer os mares em busca de reinos perdidos & tesouros inexplorados, eu, que dobrei & venci o cabo da esperança (sentimento de quem confia na realização daquilo que deseja), eu, que desinventei o cabo das tormentas (das tempestades violentas, das situações conturbadas & perturbadoras), eu, que inventei o vento que me carregou nas minhas andanças, eu, que inventei a “taprobana”, a ilha que só existe na minha ilusão (“taprobana” é o nome pelo qual a ilha de sri lanka era conhecida na antigüidade), eu, que inventei a ilha que não há, talvez “ceilão”, sei lá (“ceilão” foi como a ilha de sri lanka foi denominada até 1972), eu, que inventei o mapa, o astrolábio, a embarcação, a rota, só sei que fui em busca dos meus interesses & sonhos & nunca mais voltei.

me derramei & me mudei em mar — virei a sua voz, me transformei no seu canto, só sei que me morri de tanto amar na aventura das velas caravelas (por todo o fascínio que sempre me despertaram as grandes navegações & suas expedições mundo afora), só sei que morri de tanto amar em todas as saudades de aquém-mar, em todas as saudades que ficam, que permanecem, na parte de cá, neste lado daqui, de quem nunca se lançou em aventuras de além-mar, de quem, viajando em sonhos & desejos, fundou o seu edifício neste reino etéreo & deletério, fundou o seu edifício sobre essa arquitetura de quimeras, cujo arquiteto talvez fosse cego, ou gênio, ou, simplesmente, ausente.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Poemas reunidos. autor: Geraldo Carneiro. editoras: Nova Fronteira / Fundação Biblioteca Nacional.)

 

 

PRINCIPALMENTE

 

sempre fui bem tratado como um príncipe
e fui me afeiçoando aos privilégios
aos florilégios e às vilegiaturas
que me couberam neste reino etéreo
e deletério, porque o esquecimento
é tão inevitável quanto a vida
e a morte é toda feita de mistério.
procuro ouvir a sorte nos meus búzios
como o Bilac ouvia suas estrelas,
coisa que nunca ouvi, mas compreendi
mesmo não tendo credo acreditável.
fui construindo assim meu edifício
sobre essa arquitetura de quimeras,
cujo arquiteto talvez fosse cego,
ou gênio, ou simplesmente ausente.

 

 

A VOZ DO MAR

 

na nave língua em que me navego
só me navego eu nave sendo língua
ou me navego em língua, nave e ave.
eu sol me esplendo sendo sonhador
eu esplendor espelho especiaria
eu navegante, o antinavegador
de Moçambiques, Goas, Calecutes,
eu que dobrei o Cabo da Esperança
desinventei o Cabo das Tormentas,
eu que inventei o vento e a Taprobana,
a ilha que só existe na ilusão,
a que não há, talvez Ceilão, sei lá,
só sei que fui e nunca mais voltei
me derramei e me mudei em mar;
só sei que me morri de tanto amar
na aventura das velas caravelas
em todas as saudades de aquém-mar

MAIS
17 de outubro de 2013

Paulo Sabino_Tem muito azul em torno dele

 

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onda: do mar, meu bem maior. onda: de som, de luz, de magnetismo.

onda: do momento: a vontade, o desejo da hora: desejo de sol, de calor: e o calor é fome; de tudo, mor (maior) é o calor da hora.

sendo o desejo de calor o desejo mor, isto é, o maior desejo, o calor é fome e, sendo faminto, morde tudo, tudo quer, tudo clama.

o verso? bem, o verso quer ver só, o verso quer apenas olhar, entregue à vez (do instante), entregue à voz (do momento), entregue à vida deste mistério, deste singrante segundo, deste segundo navegante, segundo que chega & que passa & onde o desejo é entregar-se ao calor do instante.

entregando-se o poeta ao calor do instante, passa ao segundo passo: passa pra o plano “p” (“p” de ponderação, “p” de palavra, “p” de poesia, “p” de “prosa em poema”, “p” de presente, “p” de “paulo sabino”): sonda o ser do poeta, ronda a sua mente: o nome: paulo. o nome, que lhe é cosmo familiar, que lhe é universo conhecido (dadas a amizade & afinidades que unem o poeta & o nome que lhe sonda o ser, o meu, paulo), sonda o ser do poeta o nome, que lhe é uma espécie de ímã-irmão do signo aceso, ímã-irmão do símbolo luzente (pois o paulo poda palavras na prosa com poesia), sonda o ser do poeta o nome, brasa da alma do agora (o paulo pesa & pondera o presente como a parte primordial do seu papo), sonda o ser do poeta o nome, ponte (o paulo é ponte entre poesia & prosa, o paulo é ponte para palavras).

o poeta põe-se a ver & a ter todo instante, o poeta põe-se a ver & a ter todo presente que o cerca, e justamente por ver & ter todo presente, o poeta põe-se a verter todo instante que o cerca em versos que vai formulando no singrante segundo — segundo navegante, que chega & que passa — ao qual se entrega: na intenção de que seu canto, que diz ser quântico, mínimo, canto que é a sua (grande) poesia, alcance o nome que sonda o seu ser: o nome: o meu: paulo sabino.

adriano nunes, meu poeta das alagoas, ao receber estes seus versos eu só fiz chorar. de alegria. porque eles dizem muito respeito a nós: à nossa amizade, às nossas afinidades, à nossa admiração mútua.

para mim é um luxo sem fim contar com seu talento imenso & sua sensibilidade abissal.

(te amo.)

beijo todos!
paulo sabino.
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(autor: Adriano Nunes.)

 

 

MAIS  –  Para Paulo Sabino

 

Onda. O calor
É fome, mor-
De tudo, tudo
Quer, tudo clama.
O verso? O ver-

So entregue à vez,
À voz, à vida
Deste mistério,
Deste singrante
Segundo: passo

Pra o plano P:
Sonda-me o ser,
Teu nome, cosmo
Familiar,
Ímã-irmão

Do signo aceso,
Brasa da alma
Do agora, ponte.
E o sonho é mais
Adentro e além.

Ponho-me a ver-
Ter todo instante,
Pra que te alcance o
Meu canto quântico,
A poesia.

POESIA INCOMPLETA
20 de agosto de 2013

Changuito_Poesia Incompleta

 

(Na foto, o dono & atendente da livraria Poesia Incompleta, Changuito.)
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POESIA INCOMPLETA:

a única livraria de que se tem notícia — no Brasil — inteiramente dedicada à poesia!

Tive a alegria de conhecê-la & de conhecer o seu proprietário, que é também o atendente da livraria, o português radicado no Brasil conhecido como Changuito.

Changuito é dessas figuras com quem não se deseja parar de conversar. Além de muita troca sobre o tema que a livraria abarca (tema que Changuito conhece como pouquíssimos), tive o prazer de sua leitura para vários poemas. Todas as dicas foram ilustradas com, pelo menos, uma poesia do autor indicado. Ele me mostrou coisas lindas, surpreendentes!

Não bastando, ainda houve o contento de um bate-papo sobre mercado editorial, as diferenças & proximidades entre brasileiros & portugueses, os novos “talentos” (muitas aspas!) da arte poética (alguns dos que ganham, hoje, alguma projeção da mídia “especializada” — muitas aspas!), e sobre música popular brasileira (outra grande paixão minha & do Changuito), ouvindo canções cabo-verdianas, Pixinguinha & Clementina de Jesus(!).

Um dos grandes baratos da livraria é que há diversas publicações de editoras portuguesas. Changuito fez questão de trazer, na íntegra, o que a sua livraria em Lisboa possuía dos títulos editados por lá.

Por isso consegui encontrar umas coisas que procurava há anos & não achava: as obras completas dos grandes poetas portugueses Natália Correia (no Brasil não há uma antologia poética com as obras dessa poeta!) & Cesário Verde, além de preciosidades que, já disse ao Changuito, voltarei para buscar.

Acho que passei umas 3 horas entre livros, música & conversa de altíssima qualidade.

Changuito é uma figura tão simpática, além de inteligente & culto, que aos amantes de poesia vale muitíssimo conhecer a livraria Poesia Incompleta.

A quem desejar ou interessar, o espaço fica na rua da Lapa, 120, 11º andar, sala 1110, Lapa, Rio de Janeiro.

Aqui, aos senhores, o endereço do blog Poesia Incompleta, com fotos de alguns dos títulos da livraria: http://poesia-incompleta.blogspot.com.

Fica a (super) dica!

Abaixo, uma lindíssima poesia de Natália Correia a respeito da “mão oculta”, a mão que arrebata, que fascina, que rouba, que toma, o canto do poeta, a mão que, por debaixo das mangas, escreve com a mão do poeta: a respeito do misterioso ato que é o ato de escrever.

Exatamente de que região, de que área, de que gruta, de que recanto, brotam as palavras que brotam por sobre o papel? E quando brotam, as palavras brotam em razão do quê?…

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do livro: Poesia completa — O sol nas noites e o luar nos dias. autora: Natália Correia. editora: Dom Quixote.)

 

 

O MISTÉRIO

 

Misterioso ciclo da poesia
que como a roda das estações
sobre o meu peito gira.
Que mão oculta move o ponteiro agora
e arrebata o meu canto na suspensão da hora?

Onde se constroem estas tempestades estes oceanos
a água que rasga a terra que fica
mais verde e mais rica?
Gera-os a esperança ou os desenganos?

Serás o desenlace dum fantasma
sempre perto sempre frio sempre a esmo
forma que dei ao medo comigo concebido
e que é o meu vulto reclinado
no que nele mesmo não foi percorrido?

Ou serei eu de olhos abertos
noutras manhãs noutros países
cantando aqui de olhos fechados
a memória de tempos mais felizes?

Serás tu a abominação
o remorso do que não completei
e que completo na canção
do que não vi do que não sei?

Serás a dor que se desloca
no pedido que a boca formula
à voz que na alma canta
e que nunca nunca chega à garganta?

Ou serás apenas mediunidade
o acaso na concha retendo o mar?
A improvisação doutra vontade
que em mim quer continuar?

DECLARAÇÃO: AS PALAVRAS SÃO NOVAS
16 de abril de 2013

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(Na foto, a partir do primeiro plano: Jorge Amado, José Saramago & Caetano Veloso.)

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 declaração: não, não há morte.
 
nem esta pedra é morta, nem morto está o fruto que tombou: o abraço dos meus dedos — na pedra, no fruto que tombou — dá-lhes vida, (a pedra, o fruto que tombou) respiram na cadência do meu sangue, (a pedra, o fruto que tombou) respiram na cadência do bafo que os tocou.
 
também um dia, quando esta mão secar, quando, um dia, não mais estiver entre os senhores esta mão a abraçar com os dedos a pedra & o fruto que tombou, dando-lhes vida, na memória de outra mão perdurará; na memória da mão tocada, afagada, acarinhada, esta minha mão perdurará quando estiver secado (sem gota de sangue que a anime), perdurará à prova de tempo, assim como a boca guardará, caladamente, o sabor das bocas que beijou.
 
também um dia, quando esta mão secar & não mais falarem as palavras por meio dela, que perdurem na memória de quem as lê as palavras aqui dispostas.
 
as palavras, mesmo velhas, são novas: nascem quando as projetamos em cristais de macias ou duras ressonâncias, nascem quando as projetamos em cristais de brandas, suaves, ou de árduas, rígidas, repercussões sonoras.
 
as palavras, mesmo velhas, são novas, porque novas as disposições, novos os encaixes, das palavras na frase ou no verso (as tantas disposições & os tantos encaixes possíveis das palavras na frase ou no verso é o que lhes confere o caráter de “novidade”), e, dependendo da intenção de quem as escreva ou pronuncie, as palavras projetam cristais de reverberações sonoras macias (brandas, suaves) ou reverberações sonoras duras (árduas, rígidas). 
 
somos iguais aos deuses (que, segundo a mitologia, inventaram os homens): inventamos, na solidão do mundo (pois o mundo nada nos diz, nada nos revela: o mundo segue cego & mudo a sua jornada rumo ao nada), estes sinais (os sinais: as palavras, criadas por nós na tentativa de compreender & explicar o mundo), que nos servem de pontes (entre entre a nossa profunda ignorância & o que está fora de nós), pontes que arcam as distâncias; inventamos, na solidão do mundo, estes sinais — as palavras — que nos servem de pontes (entre a nossa profunda ignorância & o que está fora de nós) que tentam nos dar acesso a isto a que chamamos: mundo, o nosso entorno, aquilo que nos cerca — com as palavras, a tentativa (errante) de compreendê-lo, de conhecê-lo, de desvendá-lo.
 
as palavras são pontes que arcam as distâncias: as palavras não encurtam as distâncias entre a nossa profunda ignorância & o que está fora de nós (o mundo, o nosso entorno, aquilo que nos cerca), as palavras mudam as distâncias de perspectiva, as palavras tornam as distâncias mais curvas: apesar de parecer que damos conta, na verdade, não damos conta de muitas coisas — não damos conta da maioria das coisas — com a linguagem: as palavras não solucionam uma série de coisas: mais desconhecemos que conhecemos: fadados — por conta da nossa pequenez & insignificância frente à grandeza do mundo — a uma ignorância atávica abismal.
 
ainda assim, nas nossas tentativas errantes, às palavras devemos muito o pouco que alcançamos. 
 
beijo todos!
paulo sabino. 
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(do livro: Poesia completa. autor: José Saramago. editora: Alfaguara.)
 
 
 
DECLARAÇÃO
 
 
Não, não há morte.
Nem esta pedra é morta,
Nem morto está o fruto que tombou:
Dá-lhes vida o abraço dos meus dedos,
Respiram na cadência do meu sangue,
Do bafo que os tocou.
Também um dia, quando esta mão secar,
Na memória doutra mão perdurará,
Como a boca guardará caladamente
O sabor das bocas que beijou.
 
 
 
“AS PALAVRAS SÃO NOVAS”
 
 
As palavras são novas: nascem quando
No ar as projectamos em cristais
De macias ou duras ressonâncias.
 
Somos iguais aos deuses, inventando
Na solidão do mundo estes sinais
Como pontes que arcam as distâncias.

ANTIMÉTODO
3 de abril de 2013

Estante anti-método

(Na foto, a estante que é, em si, o próprio antimétodo.)
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para mim não existe método à leitura dos livros de poesia. (e à de quaisquer outros.)
 
não existe método à publicação dos poemas neste espaço.
 
a leitura de poesias, as publicações deste espaço, se dão de forma caótica.
 
não há método para leituras, publicações, audições de música: tudo se dá de forma desordenada, tudo se dá de forma desorientada.
 
assim, vidafora, desoriento-me sem qualquer método ou sem qualquer fim (sem qualquer finalidade, sem pragmatismos).
 
desorientando-me sem qualquer método, pode-se dizer que o “antimétodo” é o método de vida escolhido.
 
a orientação: seguir a desorientação.
 
o método: seguir o antimétodo. 
 
vou & não vou, mas vou: na desorientação seguida, na total falta de método, transformações ocorrem: durante o percurso, parte do ser vai, parte do ser não vai, mas o ser — o todo — vai, o ser continua sua caminhada. o ser segue sua sina.
 
vou & não vou, mas vou: caio sem alardes. o que tiver de tombar, o que tiver de cair, o que tiver de despencar, do ser, caia, tombe, despenque, do ser, sem alardes. parte natural do processo: deixar, ao longo da caminho, cair as máscaras que não servem mais enquanto outras novas são forjadas.
 
(caio sem alardes: aquele que se propõe ao antimétodo bem sabe da existência dos riscos de quem se põe ao sabor das errâncias.)
 
o que é & não é: mas é: o ser: eu sou & não sou, tudo ao mesmo tempo já, desordenado, desorientado, contraditório, múltiplo: di-verso.
 
o que é & não é: mas é: o ser: “desorientar-me” é meu método.
 
desoriento-me sem qualquer método: pois “desorientar-me” é a regra, “desorientar-me” é minha escolha, meu método.
 
pouco a pouco, embaralho tudo & nada (assuntos, livros, filmes, discos, os mais diversificados).
 
(vou & não vou, mas vou. o que é & não é: mas é.)
 
sou meu próprio espantalho: fujo de mim mesmo. finjo-me da minha própria esfinge (sempre um enigma): algo de mim me escapa, algo de mim desconheço, algo de mim não alcanço. 
 
(eu prefiro ser esta metamorfose ambulante do que ter a mesma velha opinião formada sobre tudo: sobre, inclusive, o que eu “nem sei quem sou”…)
 
perdido em meu labirinto, sou o que sou (será o paulo sabino a imagem que o paulo sabino tem de si, perdido em seu próprio labirinto?) ou minto (para mim)?…
 
sou o que sou ou a imagem que projeto de mim é falha? será isso uma regra secreta, uma regra escondida até de mim mesmo (projetar uma imagem equivocada de mim)?
 
afinal, sem qualquer fim (sem qualquer finalidade, sem pragmatismos), desoriento-me sem qualquer método: “desorientar-me” é meu método.
 
ser humano: incompleto, inconstante, inacabado, imperfeito: ser em permanente construção: ser humano: lugar de passagem: ponte entre o que vai fora & o que vai dentro do ser.
 
(vou & não vou, mas vou: o que é & não é: mas é: eu prefiro ser esta metamorfose ambulante. sempre sempre sempre.)
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Ciranda da poesia — Sebastião Uchoa Leite por Franklin Alves Dassie. autor dos poemas: Sebastião Uchoa Leite. editora: EdUERJ.)
 
 
 
ANTIMÉTODO
 
 
Desoriento-me
Sem qualquer
Método
Ou sem
Qualquer fim
Vou e não vou
Mas vou
Caio sem qualquer
Alarde
O que é
E não é: mas é
Desorientar-me
É meu método
 
 
 
ANTIMÉTODO 2
 
 
Pouco a pouco
Embaralho tudo e nada
Sou meu próprio
Espantalho
Fujo
De mim mesmo
Finjo-me
Da minha própria
Esfinge
Perdido em meu próprio
Labirinto
Sou o que sou
Ou minto? Será isso
Uma regra secreta?

QUEREMOS SABER
23 de janeiro de 2013

Conhecer_Enciclopédia

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 desde que o mundo é mundo, uma das formas de se obter conhecimento é através das informações que nos são transmitidas.
 
desde que o homem é homem, ele utiliza-se de linguajares (o gestual, a palavra, a postura corporal) no intuito de transmitir informações aos seus, informações que acabam por gerar conhecimento.
 
a existência, aos nossos olhos miúdos & erráticos, é um grande mistério. não sabemos bem como surgiu a raça humana nem sabemos se o seu surgimento possui alguma razão, algum fundamento, alguma justificativa, ou se se trata apenas da ação do acaso, através de um processo natural & seletivo de bilhões & bilhões de anos. 
 
o ser humano mais desconhece que conhece.
 
talvez por isso, por nossa ignorância atávica, seja tão importante conhecer o pouco que conseguimos conhecer. 
 
conhecendo, acumulando saberes, podemos pensar mais claramente determinadas coisas.
 
conhecendo, acumulando saberes, podemos decidir mais claramente determinados posicionamentos.
 
diz o velho dito popular: “em terra de cego, quem tem um olho é rei”: aquele que enxerga um tanto mais que os outros possui, a seu favor, o fato de conhecer algo que os outros desconhecem. o fato de conhecer algo que os outros desconhecem delega, a quem possui o conhecimento, o poder de manipular a seu favor — caso deseje — o conhecimento adquirido, obtendo, com isso, vantagens sem que ninguém as perceba. 
 
é importante que saibamos, é importante que conheçamos.
 
algumas das nossas determinações, muitas das nossas decisões, são tomadas a partir de um — suposto — conhecimento.
 
(ser o lobo do lobo do homem.)
 
queremos saber, queremos conhecer, a fim de decisões acertadas não em benefício de um, mas em benefício de todos.
 
queremos saber o que vão fazer com as novas invenções, o que será das pesquisas sobre genética, sobre célula-tronco, sobre remédios para cura de doenças graves. 
 
queremos notícia mais séria, notícia mais de acordo com os estudos feitos & repassados aos cientistas por cientistas, sobre a descoberta da antimatéria & suas implicações, suas conseqüências reais, ao entendimento do universo.
 
(antimatéria: é exatamente o oposto da matéria. a antimatéria é composta por antipartículas assim como a matéria é composta por partículas. há uma especulação considerável na ciência sobre o universo ser constituído, além de matéria, por antimatéria, há uma especulação considerável na ciência sobre lugares no universo constituídos unicamente por antimatéria.) 
 
queremos notícia mais séria sobre o que a ciência descobriu a respeito do universo. porque o conhecimento atua na conquista da emancipação do homem. o conhecimento atua na conquista da independência do homem. o conhecimento atua na conquista da liberdade do homem para pensar & voar alto.
 
a realidade das grandes populações, dos homens pobres das cidades, das estepes, dos sertões, transformar-se-á quando as grandes populações, os homens pobres das cidades, das estepes, dos sertões, conquistarem a sua emancipação, emancipação a ser conquistada através do mesmo conhecimento que forma doutores & cientistas, emancipação a ser conquistada através do acesso aos estudos científicos desenvolvidos pelos grandes cientistas.
 
queremos saber quando vamos ter raio laser mais barato, queremos saber quando a tecnologia (para um melhor viver) será distribuída a todos. 
 
queremos, de fato, um relato, um retrato mais sério, sobre o mistério da luz — luz do disco voador (o que se sabe, de fato, sobre vida em outros planetas, em outras galáxias? por que determinados arquivos da nasa, da agência espacial norte-americana responsável por pesquisas sobre o espaço & pela criação de tecnologias & programas de exploração espacial, são acessíveis a um número restrito de pessoas?).   
 
queremos esclarecimentos, caso haja esclarecimentos, sobre os mistérios que nos rodeiam, para a iluminação do homem, homem carente & sofredor, tão perdido da morada do senhor em suas estúpidas guerras “””santas””” (qualquer tipo de guerra é uma estupidez imensa), tão perdido da morada do senhor em seus egoísmos & suas ambições desenfreadas (uma outra imensa estupidez).
 
queremos viver confiantes no futuro. por isso, por querermos viver confiantes num futuro melhor para todos, faz-se necessário prever qual o itinerário, faz-se preciso saber qual o caminho, da ilusão — a ilusão do poder (aquele que detém a informação detém o conhecimento; detendo o conhecimento, aquele que detém a informação detém o poder, detém a possibilidade, de manipular tal conhecimento em benefício próprio). 
 
queremos saber, queremos conhecer. 
 
queremos sabedoria, cultura, erudição. 
 
(a gente não quer só comida. a gente quer comida, diversão & arte.)
 
queremos sabedoria, cultura, erudição. afinal, se foi permitido ao homem conhecer tantas coisas, é melhor que todos saibam o que pode acontecer (acontecer ao mundo futuramente, para que possamos melhor intervir naquilo que consideramos pernicioso & prejudicial à existência saudável da raça humana).
 
queremos saber, queremos conhecer. 
 
todos queremos saber, todos queremos sabedoria, cultura, erudição.
 
(que assim seja.)
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Todas as letras. autor: Gilberto Gil. organização: Carlos Rennó. editora: Companhia das letras.)
 
 
 
QUEREMOS SABER
 
 
Queremos saber
O que vão fazer
Com as novas invenções
Queremos notícia mais séria
Sobre a descoberta da antimatéria
E suas implicações
Na emancipação do homem
Das grandes populações
Homens pobres das cidades
Das estepes, dos sertões
 
Queremos saber
Quando vamos ter
Raio laser mais barato
Queremos de fato um relato
Retrato mais sério
Do mistério da luz
Luz do disco-voador
Pra iluminação do homem
Tão carente e sofredor
Tão perdido na distância
Da morada do Senhor
 
Queremos saber
Queremos viver
Confiantes no futuro
Por isso se faz necessário
Prever qual o itinerário da ilusão
A ilusão do poder
Pois se foi permitido ao homem
Tantas coisas conhecer
É melhor que todos saibam
O que pode acontecer
 
Queremos saber
Queremos saber
Todos queremos saber
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(do site: Youtube. áudio extraído do cd: Acústivo MTV. artista & intérprete: Cássia Eller. canção: Queremos saber. autor: Gilberto Gil. gravadora: Universal Music.)
 

UM PARA DENTRO TODO EXTERIOR
6 de setembro de 2012

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o mundo possui os seus mistérios embora destes não faça segredos: se se for capacitado a desvendá-lo, a desvendar o mundo, bem; se não, bem também. a questão do desconhecimento do mundo não está no mundo, mas na carência nossa de instrumentação necessária ao conhecimento do mundo, à apreensão das coisas mundanas: todas as coisas ao alcance dos dedos.
 
o mundo é um: o mundo, e nada mais. o mundo é um: único, ímpar, singular, ele & nada mais.
 
nada é o que há para além do que há, nada é o que há para além do que se compõe mundo, para além do que se impõe existência.
 
o mundo é um todo exterior: se o homem não possui olhar capacitado a enxergar, sem a ajuda de aparelhos, os átomos dançando ao vento, isso não é problema do mundo. não é o mundo que esconde os átomos que bailam ao vento: é o homem que não possui a capacidade de enxergá-los a olho nu.
 
por essa & por outras incapacidades o homem apreende o seu entorno de maneira errante, de modo movediço.
 
o mundo, assim, à nossa experiência, torna-se um “para dentro” (necessita-se de um aprofundamento no conhecimento de qualquer objeto que se queira bem conhecer) “todo exterior” (o mundo está à mostra, às vistas de quem possa ver o que está às vistas).
 
o mundo (à nossa experiência): o oculto às claras, fundura em superfície, o mistério sem segredos:
 
nada é o que há para além do que há, nada é o que há para além do que se compõe mundo, para além do que se impõe existência.
 
(nada a esconder mesmo que muito por saber…)
 
o mundo é mistério não porque seja misterioso mas porque não possuímos a capacitação necessária para enxergá-lo na sua totalidade & em suas especificidades.
 
somos muito muito muito pouco ante a sua grandeza.
 
(pensem a respeito.)
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(autor: Paulo Sabino.)
 
 
 
UM PARA DENTRO TODO EXTERIOR
 
 
nada  a  esconder
mesmo  que
muito  por
saber
 
o  mundo
é  um
para  dentro
todo  exterior
 
nada
é  o  que  há
para  além
do  que  há:
 
o  oculto
às  claras
 
fundura
em  superfície
 
o  mistério
sem  segredos:
 
todas  as  coisas
ao  alcance  dos  dedos

ENIGMAS
31 de maio de 2012

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enigma: segundo o dicionário houaiss, “definição de algo por suas qualidades ou particularidades, mas difícil de entender”. por extensão de sentido, “texto ou parte dele, frase ou discurso cujo sentido seja incompreensível ou ambíguo”.

 enigma: segundo o dicionário aurélio, “questão proposta em termos obscuros, ambíguos, para ser interpretada ou adivinhada por alguém”. por extensão de sentido, “enunciado ambíguo ou velado”, “coisa inexplicável, aquilo que é difícil compreender; mistério”.
 
portanto, os enigmas carecem da argúcia alheia (precisam ser interpretados ou adivinhados por alguém) & da retórica. é mal de enigmas não se decifrarem a si próprios.
 
a condição dos enigmas: procuram uma qualidade em pedra & cal: 
 
os enigmas são como uma parede lisa branca, pois, a princípio, por conta das ambigüidades do que propõem, por conta das dicas obscuras, parecem uma barreira intransponível. os enigmas buscam uma qualidade em parede, em pedra, barreira branca como cal, parede branca como uma folha de papel em branco (como se nada houvesse ali).
 
no entanto, ao mesmo tempo que os enigmas procuram uma qualidade em pedra & cal, repelem-na, repelem essa qualidade que procuram, posto que todo o enigma, no fundo no fundo, por possuir uma resposta, busca a sua solução.
 
todo o enigma, por possuir uma resposta, apesar de toda a engenharia semântica em prol do silêncio, quer ser decifrado.
 
por conta da engenharia semântica dos enigmas, muitos quedam-se por aí: esguios ao tato, ocos de imagem, ferozes no seu silêncio. isto é: indecifráveis.
 
dignos & sós. 
 
existirmos: a que será que se destina?
 
este, o maior, o grande enigma bolado pela humanidade. e um enigma muito complexo, uma vez que, para ele, em princípio, não há resposta.
 
(será que a existência se destina a algo?…)
 
alguns enigmas merecem a ferocidade do seu silêncio. deixemos a busca pela resposta. vivamos. é o que nos resta. e vivamos em busca de paisagens que animem o ser.
 
lembrem-se sempre: as viagens são os viajantes.
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: A estrela fria. autor: José Almino. editora: Companhia das Letras.)  
 
 
 
É mal de enigmas não se decifrarem a si próprios.*
Carecem de argúcia alheia
e da retórica.
Procuram uma qualidade
em pedra e cal.
 
(Repelem-na,
ao mesmo tempo.
Tal é a condição dos enigmas.)
 
Quedam-se por aí:
esguios ao tato,
ocos de imagem,
ferozes no seu silêncio.
 
Dignos e sós
como um concerto de violoncelo.
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*autor da citação no poema: Carlos Drummond de Andrade