LIVRO DE ESTRÉIA (PAULO SABINO): UM PARA DENTRO TODO EXTERIOR
31 de outubro de 2017

(Paulo Sabino e Armando Freitas Filho)
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Desde que nos tornamos próximos, Armando Freitas Filho (comigo na foto há tempos atrás) é o poeta a quem eu submeto os meus versos à crítica/ avaliação/ opinião. Porque o Armando, além de ser um dos maiores poetas brasileiros da atualidade, é extremamente atencioso nas suas críticas/ avaliações/ opiniões. Aprendo muito com ele. Estou muito animado por decidir – finalmente! – lançar o meu livro de poesia de estréia, o livro primeiro do Paulo Sabino vendo-se, e vendendo-se, um profissional dos versos. O livro vai chamar-se “Um para dentro todo exterior”, título de um poema que o compõe. Além de escrever ao Armando contando o que escrevo aqui, mandei-lhe o mais novo poema, “Montanha russa”, nascido de uma prosa poética minha que, desde sempre, pensava em transpor para os versos. Sobre os dois poemas (“Um para dentro todo exterior” e “Montanha russa”), Armando escreveu: 

 

“Nada como um escritor criar um estilo que, com o passar do tempo, vai dando chances de ramificações sem perder a sua origem, como é o caso. Você já engatilhou o seu modo de ser e de escrever. Já plantou firmemente seus dois poemas verticais, altos como você.”

 

 

Alegria imensa!

2018: o meu livro de poemas! A decisão foi tomada porque até então não encontrava título que me satisfizesse, de que gostasse. Há pouco tempo me ocorreu o nome, muito propício. Isso me trouxe um ânimo que não havia. Com um nome, me parece mais fácil formatar a obra. E está mais do que na hora de lançar ao mundo o meu rebento poético!

A vocês, o poema que dará nome ao livro de estréia do Paulo Sabino acompanhado de um textinho a respeito do poema, que acaba por elucidar a importância da escolha do título .

Beijo todos!

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o mundo possui os seus mistérios embora destes não faça segredos: se se for capacitado a desvendá-lo, a desvendar o mundo, bem; se não, bem também. a questão do desconhecimento do mundo não está no mundo, mas na carência nossa de instrumentação necessária ao conhecimento do mundo, à apreensão das coisas mundanas: todas as coisas ao alcance dos dedos.

o mundo é um: o mundo, e nada mais. o mundo é um: único, ímpar, singular, ele & nada mais.

nada é o que há para além do que há, nada é o que há para além do que se compõe mundo, para além do que se impõe existência.

o mundo é um todo exterior: se o homem não possui olhar capacitado a enxergar, sem a ajuda de aparelhos, os átomos dançando ao vento, isso não é problema do mundo. não é o mundo que esconde os átomos que bailam ao vento: é o homem que não possui a capacidade de enxergá-los a olho nu.

por essa & por outras incapacidades o homem apreende o seu entorno de maneira errante, de modo movediço.

o mundo, assim, à nossa experiência, torna-se um “para dentro” (necessita-se de um aprofundamento no conhecimento de qualquer objeto que se queira bem conhecer) “todo exterior” (o mundo está à mostra, às vistas de quem possa ver o que está às vistas).

o mundo (à nossa experiência): o oculto às claras, fundura em superfície, o mistério sem segredos:

nada é o que há para além do que há, nada é o que há para além do que se compõe mundo, para além do que se impõe existência.

(nada a esconder mesmo que muito por saber…)

o mundo é mistério não porque seja misterioso mas porque não possuímos a capacitação necessária para enxergá-lo na sua totalidade & em suas especificidades.

somos muito muito muito pouco ante a sua grandeza.

(pensem a respeito.)

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(autor: Paulo Sabino.)

 

 

UM PARA DENTRO TODO EXTERIOR

 

nada  a  esconder
mesmo  que
muito  por
saber

o  mundo
é  um
para  dentro
todo  exterior

nada
é  o  que  há
para  além
do  que  há:

o  oculto
às  claras

fundura
em  superfície

o  mistério
sem  segredos:

todas  as  coisas
ao  alcance  dos  dedos

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MONTANHA-RUSSA
14 de abril de 2015

Montanha-russa
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a vida é um sobe & desce constante, os seus altos & baixos, ladeiras contínuas, uma gangorra sentimental, montanha-russa vertiginosa: em alguns momentos da descida, a impressão de que o carrinho descarrilhou, perdendo o seu curso & mergulhando num fosso sem fim: fossa funda, agonia atroz.

todavia, num dado momento do mergulho no breu, a percepção de que os trilhos sempre estiveram por debaixo do carrinho, só não estavam à vista (o fosso é um escuro absoluto), e, como em toda montanha-russa, em determinado trecho, a trajetória ganha de volta a sua ascensão. o carrinho, mais uma vez, e aos poucos, ganha fôlego & força & é impulsionado ao topo.

à montanha-russa que me cabe, caibam sempre subidas & descidas, altos & baixos.

é o que está certo.

e que o carrinho, nas descidas ainda por vir percurso afora, nunca descarrilhe, sempre esteja apto às alturas.

é o que está certo.

a vida gosta de quem gosta da vida.

(eu sou um que gosta.)

beijos todos!
paulo sabino.
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(Do livro: O menos vendido. autor: Ricardo Silvestrin. editora: Nankin Editorial.)

 

 

57.

 

ninguém está a salvo da tristeza
no horizonte nuvens negras
ventos anunciam confusão
mesmo na alma mais ensolarada
nem o rei do que quer que seja
do alto do seu trono de alegria
servos devotados
em fazê-lo sorrir cinco vezes por dia
nem o mestre mais desapegado
quando vê está triste
como um corvo num galho seco
contra o céu cinza

 

58.

 

ainda menino
se descobre lá dentro
o guerreiro
pra lutar contra o destino
armado de escudo e uma espada
dentro do corpo franzino
segue valente
enfrentando o que vier pela frente
o menino cresce
fica homem
e tudo que chorou
e tudo que sorriu
numa conta de subtração
vai dizer a sua sorte
mas a morte só vem
quando um tiro certeiro
derruba não o homem
mas o guerreiro