PODERIA SIMPLESMENTE NÃO SE CHAMAR
5 de março de 2010

otto,
 
anjinho da guarda deste que você elegeu para seu mumu,
 
sei bem que você, ainda com seus três aninhos, não entenderia estas linhas. porém, um dia, quando mais velho, sim. o mais importante, meu anjo, nós temos: a compreensão do sentimento através da vivência desse sentimento.
 
mais do que tudo, vivenciamos verdadeiramente a experiência de amar.
 
desde sempre, desde sua mais tenra existência, quando na barriga da sua mamãe, que tanto amo, quando ela ainda não morava com o seu papai, outro grande amor da vida do seu mumu, quando sua mamãe ainda dividia um apartamento comigo, nós nos conhecemos. talvez — repito: talvez — esse conhecimento, que parece ser de eras, conhecimento remoto, tenha trazido esta nossa afinidade sem precedentes. porém, de fato, no fundo, eu não sei. não consigo explicar, escrever claramente sobre o nosso amor, sobre este sentimento que nos abarca e me torna das pessoas mais felizes do mundo, simplesmente porque o tenho, porque tenho o seu carinho, tenho a sua atenção, tenho a sua aceitação.
 
o amor que eu te tenho é um afeto tão novo, que não deveria se chamar “amor”. de tão irreconhecível, tão desconhecido, não deveria se chamar “amor”.
 
poderia se chamar: nuvem — porque muda de formato a cada instante.
 
poderia se chamar: tempo — porque parece um filme a que nunca, antes, assisti.
 
poderia se chamar: labirinto — porque sei que não conseguirei escapulir.
 
poderia se chamar: abismo — pois é certo que ele, o meu afeto, não tem fim.
 
poderia se chamar: universo — porque sei que não o conhecerei por inteiro.
 
e poderia simplesmente: não se chamar — para não significar nada e dar sentido a tudo.
 
meu gordinho safado, minha lindeza maior, luz pura que tanto dá sentido ao que sou, o seu mumu, se pudesse, livraria a sua trilha de quaisquer aproximações do mundo mau. eu não posso, seu mumu sabe que nunca poderia prometer-lhe tal desvario, mas estarei por perto sempre sempre sempre, tenha certeza disso. nem que seja, um dia, apenas na sua memória, mas seu mumu estará.
 
este texto é para você. só para você.
 
como tantas & tantas & tantas outras, este texto é mais uma coisa nossa, mais uma coisa entre mim e você, um mimo do seu mumu, realizado pelo nosso afeto.
 
os versos que seguem, meu gordinho, foram escritos por um compositor que o seu mumu muito admira, chamado moska, e foram feitos para o seu filhinho antonio. feitos para um rapazinho como você.
 
um beijo, um cheiro, um dengo, um aperto bem gostoso, minha delícia!!
o seu, eternamente,
mumu.
 
um outro beijo nos senhores.
o preto,
paulo sabino / paulinho.
_____________________________________________________________________________
 
(extraído do cd: Eu falso da minha vida o que eu quiser. artista: Moska. gravadora: EMI.)
 
 
NÃO DEVERIA SE CHAMAR
 
O amor que eu te tenho
É um afeto tão novo
Que não deveria se chamar “amor”
De tão irreconhecível, tão desconhecido
Que não deveria se chamar “amor”
 
Poderia se chamar nuvem
Porque muda de formato a cada instante
Poderia se chamar tempo
Porque parece um filme a que nunca assisti antes
Poderia se chamar labirinto
Porque sei que não conseguirei escapulir
Poderia se chamar aurora
Pois vejo o novo dia que está por vir
Poderia se chamar abismo
Pois é certo que ele não tem fim
Poderia se chamar horizonte
Que parece linha reta mas sei que não é assim
 
O amor que eu te tenho
É um afeto tão novo
Que não deveria se chamar “amor”
De tão irreconhecível, tão desconhecido
Que não deveria se chamar “amor”
 
Poderia se chamar primeiro beijo
Porque não lembro mais do meu passado
Poderia se chamar último adeus
Que meu antigo futuro foi abandonado
Poderia se chamar universo
Porque sei que não o conhecerei por inteiro
E poderia se chamar palavra louca
Que na verdade quer dizer: aventureiro
E poderia se chamar silêncio
Porque minha dor é calada e meu desejo é mudo
E poderia simplesmente não se chamar
Para não significar nada e dar sentido a tudo
 
O amor que eu te tenho
É um afeto tão novo
Que não deveria se chamar “amor”
De tão irreconhecível, tão desconhecido
Que não deveria se chamar “amor”

 

COMER, COMER
14 de agosto de 2009

queridos & queridas, 

como já lhes escrevi, os textos enviados seguem, sempre, por questões emocionais. as linhas têm que tocar a minha sensibilidade e o meu sentimento. 

o texto abaixo lhes chega por causa de uma mulher imprescindível na minha vida, amiga para todas as horas e que faz toda a diferença na minha existência: a minha amada e idolatrada mama, a mãe do meu anjo da guarda, a grande grande grande: fernanda nepomuceno de sá. 

lendo as linhas de hoje, imediatamente lembrei-me da sua mão certeira e ágil para a inexplicável e ininteligível alquimia tão sabiamente produzida por seus dedos, no preparo de qualquer refeição. isto eu afirmo repleto, transbordado, de razão: sempre fui fã (talvez o maior!) do seu talento culinário, da sua capacidade de fazer qualquer macarrão tornar-se algo que não se troca por nada neste mundo, desde antes da chegada do nosso anjo maior, desde quando dividíamos um apartamento (querido por todos que o conheceram), na rua tão acertadamente chamada: monte alegre (rs). 

(ocorreu-me, neste exato momento, a lembrança de um arroz, com lula e mexilhão, feito por suas mãos e alquimia, em saquarema, que eu, tão maravilhado pelo sabor, fiz questão de comer e repetir três vezes(!), querendo mais – rs!) 

comer, para mim, é das coisas mais prazerosas que existem. não é à toa que, na língua portuguesa, haja analogias as mais deliciosas relacionadas à ação de comer, de matar a fome. a seguir, os versos que encerram o poema “a defesa do poeta”, de natália correia: 

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
Ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.
 

importantíssimo o ato de comer, de matar a fome: de amigos, de carinho, de literatura, de conhecimento, de sexo. comer bem, em todos os sentidos, faz um bem danado (rs). 

e essa ligação com a comida, com o prazer de comer, tem, em nossas vidas, na minha, na vida da nanda e na dos nossos, muito a ver com a realidade de família que criamos, desde o apê na monte alegre, e que se acentuou vertiginosamente com a chegada do meu anjo da guarda, do meu gordinho safado, de nome otto, e do papai do otto, gustavo de sá, também amado e idolatrado por este preto, carinhosamente chamado guto. 

aliás, não bastasse todo o talento da mama, o maridão, fotógrafo exuberante, agora gerente-administrador de um super restaurante tailandês, cada vez mais se especializa nos segredos da boa culinária. aí, é demais para o meu coração (rs)! 

acredito que uma casa de família seja aquela que, além de nela se manter o fogo sagrado do amor bem aceso, como acontece conosco, mantenham-se as panelas no fogo. além de comer, conversamos muito sobre o que acontece no brasil e no mundo. ouvimos arnaldo antunes, elis regina e novos baianos. ficamos, muitas vezes, de pilequinhos (salve salve a nossa santa cerva – rs!), recheados de histórias divertidíssimas. declaramos, através de gestos e afetos, o nosso mais fundo carinho. 

não, nossa família não é metafísica. evidentemente: nós somos um lar. nós: amigos e aqueles que estão por vir. 

um beijo em todos vocês.

o mumu do otto. 

(hipertexto: otto = anjo da guarda do mumu. seguem, para que todos o conheçam, duas fotos dele, que é das coisas mais lindas e importantes na minha existência. numa delas, ainda bem pequeno, o anjo acompanhado do seu mumu.)

o anjo e o seu mumu

anjo da guarda materializado

_________________________________________________________

COMER, COMER (Clarice Lispector. Livro: A descoberta do mundo. Editora: Rocco)
 
Não sei como são as outras casas de família. Na minha casa todos falam em comida. “Esse queijo é seu?”  “Não, é de todos.”  “A canjica está boa?”  “Está ótima.”  “Mamãe, pede à cozinheira para fazer coquetel de camarão, eu ensino.”  “Como é que você sabe?”   “Eu comi e aprendi pelo gosto.”  “Quero hoje comer somente sopa de ervilhas e sardinha.”  “Essa carne ficou salgada demais.”  “Estou sem fome, mas se você comprar pimenta eu como.”  “Não, mamãe, ir comer no restaurante sai muito caro, e eu prefiro comida de casa.”  “Que é que tem no jantar para comer?”
 
Não, minha casa não é metafísica. Ninguém é gordo aqui, mas mal se perdoa uma comida malfeita. Quanto a mim, vou abrindo e fechando a bolsa para tirar dinheiro para compras. “Vou jantar fora, mamãe, mas guarde um pouco do jantar para mim.”  E quanto a mim, acho certo que num lar se mantenha aceso o fogo para o que der e vier. Uma casa de família é aquela que, além de nela se manter o fogo sagrado do amor bem aceso, mantenham-se as panelas no fogo. O fato é simplesmente que nós gostamos de comer. E sou com orgulho a mãe da casa de comidas. Além de comer conversamos muito sobre o que acontece no Brasil e no mundo, conversamos sobre que roupa é adequada para determinadas ocasiões. Nós somos um lar.