“HOMECOMING”
19 de novembro de 2015

Rio de Janeiro_Vista do avião

(A cidade do Rio de Janeiro, vista do alto de um avião.)
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“Paulo, meu caro.

Às vezes, depois de passar 2, 3 noites acordado, procurando em vão uma solução melhor, uma maldita palavrinha que seja, para um poema, para uma tradução, eu cedo ao desânimo e penso aqui com meus botões: ‘Cara, por que perder tempo com isso, pra que o esforço extra, aliás, qualquer esforço? Ninguém vai notar a diferença mesmo. Ninguém tá nem aí.’

E aí você, Paulo, vem com seu trabalho, com sua leitura precisa, perspicaz, com algo assim, pra lá de generoso, e, embora eu mesmo não possa (nenhum de nós pode) julgar o (meu) próprio trabalho, a única resposta que posso te dar e a única maneira que tenho de te agradecer é dando (mais) duro, não desanimando, não deixando a peteca cair, passando mais noites em claro atrás daquela palavra (porque alguém nota, sim, a diferença) e tentando (com sorte) fazer algo que preste.

Todo mundo — eu também — quer vender 1 milhão de exemplares, encher um estádio com fãs boquiabertos(as) etc., mas o que mantém a gente escrevendo poesia é uma leitura, um feedback como este seu. Obrigado mesmo e um grande abraço, Nelson”.

(Nelson Ascher — poeta, tradutor & crítico literário)

 

 

homecoming: expressão da língua inglesa que pode ser entendida como “regresso à casa”, “retorno ao lar”.

estar em meu país depois de passar uma temporada longe.

estar em meu país é estar em convívio com uma série de características sócio-culturais que diz respeito ao meu país, às pessoas que nele vivem.

e, estando em meu país, por mais que eu consiga, com certa facilidade, identificar determinadas características sócio-culturais que compõem o meu país, que é a minha casa, o meu lar primeiro, há sempre algo que, nessa apreensão, nos escapa, acaba imensurável. há sempre algo para além da linguagem, de árdua captura & designação.

determinadas características sócio-culturais que compõem o meu país: estar em meu país é deduzir, num golpe de vista, quem é o quê (se gay ou se opus dei); estar em meu país é ser, desde o primário, desde os tempos remotos, íntimo de alguém antes de ser-lhe apresentado; estar em meu país é dizer quem faz o quê & o que faria caso pudesse (nas mais variadas situações cogitadas ou experiências do cotidiano); estar em meu país é intuir, sem dúvida, quem é quem, como ver quem quer passar por quem.

determinadas características sócio-culturais que compõem o meu país: estar em meu país é vivenciar pré-conceitos, julgamentos infundados, intimidades forçadas, percepções precipitadas, ainda que haja muitas vezes acerto na primeira impressão sobre alguém ou algo.

no entanto, estar em meu país tem “algo mais difícil” que o dom fácil de identificar algumas das suas características sócio-culturais (como as apontadas acima), e esse “algo mais difícil” de ser apreendido & classificado, rotulado, nomeado, é, simplesmente, estar em meu país, esse “algo mais difícil” é, simplesmente, o que não cabe em nenhuma definição do que seja estar em meu país — a única coisa que cabe onde não cabe definição para o meu país é a pura vivência, é habitar, conviver, desfrutar, aventurar-se, inserir-se na vida do meu país, no seu dia-a-dia & pormenores.

em tudo o que resta & rasteja, há sempre o quinhão do indefinível, do inclassificável, do imponderável, do que escapa à linguagem, do que está à mostra somente quando vivenciado sem racionalizações.

(que tenhamos, sempre, o dom fácil de frustrar qualquer estranho que pense saber tudo o que pensamos.)

beijo todos!
paulo sabino.
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(do site: Youtube. Paulo Sabino recita “Homecoming”, poema de Nelson Ascher. Em 18/11/2015.)


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(do livro: Parte alguma. autor: Nelson Ascher. editora: Companhia das Letras.)

 

 

HOMECOMING

 

Estar em meu país
é deduzir num golpe
de vista quem é o quê,
se gay ou se opus dei,

mas isto ainda é fácil,
algo exeqüível quer
nos parques, quer nos becos
de Osasco ou nos de Osaka.

Estar em meu país
é ser, desde o primário,
íntimo de alguém antes
de ser-lhe apresentado,

mas isto, num país
mais incestuoso até
do que a menor das tribos
perdidas, ainda é fácil.

Estar em meu país
é de antemão poder
dizer quem faz o quê
e o que faria caso

pudesse, mas às vezes
parece (e constatá-lo
é fácil) que não há
ninguém fazendo nada.

Estar em meu país
é tanto intuir sem dúvida
quem é quem como ver
quem quer passar por quem,

embora, a rigor, isto
talvez se deva à idade
e, após alguma prática,
nem chegue a ser difícil.

Estar em meu país,
mais que saber por que
qualquer estranho pensa
saber tudo o que penso,

tem algo mais difícil
que o dom fácil de sempre
frustrá-lo e é simplesmente
estar em meu país.

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PENSANDO BEM
24 de fevereiro de 2013

Tulipas amarelas & 1 vermelha

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algumas vezes, numa conversa em que opiniões sobre um determinado assunto não convergem nem divergem exatamente, fica difícil compreender em que região das opiniões reside o nó da assimetria.

assim sendo, o entendimento da discrepância requer certo tempo, certa maturação, do ponto de vista alheio. pensar & pensar & pensar & pensar & pensar & repensar bem a opinião contrastante.

por isso, diz o poema apresentado nesta publicação:

pensando bem, apesar de termos chegado, sobre o assunto em pauta, a pontos de vista não opostos (é claro), mas, decerto, pontos de vista distintos, mesmo assim, eu, fundamentalmente, concordo com você.

porém, como esses pontos de vista, embora nem de todo opostos, mesmo assim, trazem à tona idéias diferentes, pensando bem, talvez eu não concorde sempre em tudo com você.

aliás, dado que nossos pontos de vista envolvem idéias não de todo — é claro — diferentes, pensando bem, assim mesmo discordo, nem sempre nem necessariamente, em tudo de você.

discordo não porque, no assunto em pauta, nossos pontos de vista sejam diametralmente opostos, mas já que suas idéias são não só diferentes como imbecis, já que suas idéias são não só diferentes como idiotas, tolas, fracas, sem forças, pensando bem: curto & grosso: foda-se, você.

e ponto final.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Parte alguma. autor: Nelson Ascher. editora: Companhia das Letras.)

 

 

PENSANDO BEM

 

Pensando bem malgrado
termos chegado sobre
o assunto em pauta a pontos
de vista não opostos

é claro mas decerto
distintos mesmo assim
eu fundamentalmente
concordo com você

porém como esses pontos
de vista embora nem
de todo opostos mesmo
assim trazem à tona

idéias diferentes
pensando bem talvez
eu não concorde sempre
em tudo com você

aliás dado que nossos
pontos de vista envolvem
idéias não de todo
é claro diferentes

pensando bem discordo
assim mesmo nem sempre
nem necessariamente
em tudo de você

discordo não porque
no assunto em pauta nossos
pontos de vista sejam
diametralmente opostos

mas já que suas idéias
são não só diferentes
como imbecis pensando
bem foda-se você.

OUTONO
6 de maio de 2011

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a cada dia que passa, mais & mais & mais & mais & mais: sempre mais:
 
os dias idos, as noites idas, as vivências (os risos, os gozos, os choros, as vitórias, as derrotas), as memórias; a cada dia que passa, mais velho, a cada dia que passa, há mais passado que futuro  .
 
portanto, se há cada vez mais passado que futuro, naturalmente a cada dia que passa, cada vez há mais antes, isto é, cada vez há mais pretérito, ou seja, há menos depois, há menos futuro, há menos tempo a se viver.
 
o passar das idades transmutado em estações anuais: o outono, metaforicamente, segundo o dicionário houaiss, é o “período da vida que se encaminha para a velhice”. período em que as folhas amarelam, período em que elas começam a decair dos galhos antes jovens, folhagens frescas, úmidas.
 
outono:
 
a cada dia que passa, mais secas há mais folhas no chão. e, a cada dia que passa, diz-se, mais tarde, pois mais se demora o dia a ganhar “vida” com o passar das idades, (se é que ainda se diz…) “bom dia”, diz-se “bom dia” a cada dia que passa, e diz-se, cada vez mais, “boa tarde” cada vez mais cedo, uma vez que o vento aumenta ao entardecer, e no outono o vento costuma ser intenso, e mais gelado, e isso, a sua força & sua temperatura, cada vez mais obstrui o passo.
 
cada vez mais, a cada dia que passa, cada vez menos sol, e cada vez menos intenso o sol (o sol outonal é mais brando que o sol primaveril & que o sol estival) atrás de nuvens cada vez mais negras, o sol, astro que aquece & ilumina a vida.
 
se o sol, cada vez mais, cada vez menos intenso, então cada vez menos intenso o dia claro, iluminado, de luz forte & incisiva, e cada vez mais intenso o entardecer (o entardecer, que, metaforicamente, casa perfeitamente com o outono), isto é: a cada dia que passa, o dia é mais curto; a cada dia que passa, o dia é mais rápido.
 
(o dia mais curto, o dia mais rápido: a tarde mais rapidamente chega, o vento aumenta, obstrui o passo e, conseqüentemente, a boa tarde chega mais cedo.)
 
sendo assim, a cada dia que passa, mais curto, a cada dia que passa, mais rápido, tudo o que há torna-se noite também  mais rapidamente, e mais escuro, e mais noite, tudo o que “há”, isto é, tudo o que “existe”, ou seja, tudo o que “abriga”: a boa noite, a noite boa. ainda mais negra a negra boa noite, ainda mais negro tudo o que a noite alia a si.
 
então,
 
se assim é,
 
se assim será,
 
uma boa vida a todos é o único desejo que a todos posso oferecer.
 
lutemos por uma existência feliz, para que a escuridão chegue, para que a noite se aproxime, e seja, por mais intenso com o passar das idades, ameno o breu, e seja afável o negrume.
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Parte alguma. autor: Nelson Ascher. editora: Companhia das Letras.)
 
 
OUTONO
 
i.m. györgy petri
 
 
A cada dia 
que passa mais
secas há mais
folhas no chão
 
e a cada dia
que passa diz-se
mais tarde se é
que ainda se diz
 
bom dia a cada
dia que passa
e diz-se cada
vez mais se o vento
 
cada vez mais
intenso obstrui
o passo boa
tarde mais cedo.
 
Cada vez mais
menos intenso
atrás de nuvens
cada vez mais
 
negras há cada
vez menos sol
e a cada dia
que passa cada
 
vez há mais antes
ou seja há menos
depois e a cada
dia mais curto
 
que passa cada
dia mais rápido
tudo o que há boa
noite é mais noite.  

UM FURO N’ÁGUA: TUDO NOVO DE NOVO
7 de dezembro de 2010

os holofotes todos voltados para ele: douram-no.

o pianista é a vítima dos expansivos círculos do som que os seus dedos pronunciam às teclas.

sentado à margem do teclado, o pianista imita o autor da peça musical que tocará, detendo, com os braços, a força ameaçadora das águas que irrompe sentidos adentro.

a força ameaçadora das águas: pois que tudo é um furo n’água:

por mais que se fure a água, por mais que se tente deixar na água a marca de um furo, este não dura, e logo é a mesma água, a mesma merda de sempre.

o sol, que sobe, também desce, e sobe mais uma vez para novamente descer, e assim por diante, incessantemente.

os rios vão dar no mar, impreterivelmente, e o mar, impreterivelmente, no seu sempre ir & vir de águas.

o vento venta no norte & no sul, no sul & no norte.

o tempo inteiro, um eterno refazer.

(a gente só refaz o que os outros já fizeram e tudo aqui sob o sol é a mesma merda.)

(sentado à margem do teclado, o pianista imita o autor.)

quem chama algo de “novo”, ao olhar bem, ao olhar direito, vê que o “novo” vem do tempo do onça.

o eterno recomeço… dentro deste, ainda que realizada em eternos retornos, na vida cabem os ineditismos, distribuídos pelos dias como o pão de cada dia que mastigamos, e que gostamos, e que queremos, comer todo dia, mesmo sabendo o gosto que tem o pão.

por mais que pão, é sempre um outro pão a ser degustado.

por mais que águas, são sempre outras a percorrer o curso de um rio.

é tudo novo de novo:

celebremos a nossa própria maneira de ser, sempre em mutação — o mais do mesmo, só que diferente —, celebremos a luz que nasce quando uma outra apaga.  

é tudo novo de novo:

vamos nos jogar onde já caímos.

é tudo novo de novo:

vamos mergulhar do alto onde subimos.

beijo carinhoso em todos!
paulo sabino / paulinho.
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(do livro: A moeda do tempo e outros poemas. organização: Jorge Fernandes da Silveira. autor: Gastão Cruz. editora: Língua Geral.)


O PIANISTA

Senta-se imita
o autor Os
holofotes douram-no
é a vítima
dos expansivos círculos do som

Em torno dele o som é como
um laço
Está sentado na margem do
teclado detendo com os braços
a força ameaçadora das águas

(do livro: Parte alguma. autor: Nelson Ascher. editora: Companhia das Letras.)

FURO N’ÁGUA

i.m. haroldo de campos

Que furo n’água, meu,
é: tudo é um furo n’água.
Suar a camisa embaixo
do sol — a fim do quê?

A hora dos velhos chega,
depois a nossa e nada
muda no mundo. O sol,
que sobe, desce, sobe

outra vez, desce e assim
por diante. Venta ao norte
e ao sul, ao sul e ao norte.
Os rios vão dar  no mar:

bom, e daí? O mar
não enche, as águas voltam
ao grid de largada
e a trabalheira é tanta

que nem te digo. Olhar
demais irrita os olhos
e ouvir dói nos ouvidos.
Mas dá tudo na mesma.

A gente só refaz
o que os outros já fizeram
e tudo aqui debaixo
do sol é a mesma merda.

Quem chama algo de novo,
se olha direito, vê
que vem do tempo do onça.
Ninguém mais sabe como

foi ontem nem ninguém
depois de amanhã vai
lembrar como é que as coisas
terão sido amanhã.

(do encarte do cd: Tudo novo de novo. autor: Moska. gravadora: EMI.)

TUDO NOVO DE NOVO

Vamos começar
Colocando um ponto final
Pelo menos já é um sinal
De que tudo na vida tem fim

Vamos acordar
Hoje tem um sol diferente no céu
Gargalhando no seu carrossel
Gritando nada é tão triste assim

É tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos

Vamos celebrar
Nossa própria maneira de ser
Essa luz que acabou de nascer
Quando aquela de trás apagou

E vamos terminar
Inventando uma nova canção
Nem que seja uma outra versão
Pra tentar entender que acabou

Mas é tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos
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(vídeo com a canção: Tudo novo de novo. intérprete & autor: Moska.)

DO AMOR
3 de agosto de 2010

a fruta não dura: madura, consome-se e se esvai.

amoras, amores: assim como a fruta, o amor, maduro, um dia apodrece

e cai.

(um dia, a fruta fratura. o tempo do amor: elã recíproco que, de tão fugaz, não passa de um minuto?)

amor: chover no molhado:

no início, o susto mútuo;

depois, o hábito;

por fim, o cava-rápido, que sepulta e enterra.

(secando lado a lado, como se vê nos mais variados casos, os amantes chovem no molhado.)

porém,

ainda que,

mesmo se,

o amor: como apreendê-lo?

como captá-lo, abeirar-se do seu fundo?

pensar sobre o amor: avistá-lo como bicho? como barco? como flor?

abeirar-se dele, abordar mais, chegar à borda, tocar com o bordo. dobrar as costelas a fim de mirá-lo e admirá-lo.

(e ele, o amor, ele ri de você ao vê-lo assim, curvado, tal qual um sinal de interrogação, tal qual abelha abestalhada vasculhando o que possa ser: bicho-barco-flor.)

o melhor a se fazer:
 
seja o que for o amor, cair, quedar em seu abismo (em admirações tamanhas), que dele, do amor & seu abismo, não se consiga sair.

amar é um grande exercício. amor não é fácil nem chega pronto. entretanto, creio que valha o esforço.

(não esqueçamos que no amor cabe o gozo!)

beijo carinhoso em todos,
o preto,
paulo sabino / paulinho.
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(do livro: Enquanto velo teu sono. autor: Adalberto Müller. editora: 7Letras.)
 
 
A FRUTA
 
Amoras, que o nome têm de amores  (Camões)
 
 
A fruta não é
para durar:
madura
consome-se e
se esvai.
Assim esse amor
maduro
um dia apodrece
 
                      e cai.
 
 
(do livro: Parte alguma. autor: Nelson Ascher. editora: Companhia das Letras.)
 
 
Amar não passa de um minuto
(no máximo) de surto mútuo
e, como se converte em hábito,
até que chegue o cava-rápido,
ambos, secando lado a lado,
chover-nos-emos no molhado.
 
 
(do livro: Cinemateca. autor: Eucanaã Ferraz. editora: Companhia das Letras.)
 
 
O AMOR?
 
Não, não é uma flor
(pelo puríssimo prazer
do não-ser). Mas
 
você quer tentar
novamente, está bem.
Pense nele como: bicho.
 
Abeire-se dele, do abdômen,
aborde mais, chegue
à borda, toque
 
com o bordo, dobre
as costelas (algo de barco
no bicho).
 
Ele ri de você
ao vê-lo assim: curvado,
tal qual um sinal
 
de interrogação, abelha
vasculhando abestalhada
o que possa ser bicho-barco-flor
 
ou uma abertura para isso, disso,
fissura, fresta,
furo
 
(você o pensa como: poço?).
Não vale a pena
se abespinhar.
 
Faça melhor:
abisme-se
caindo
 
em admirações tamanhas
que de lá não possa sair.
Afinal, o amor é isso
 
(se fosse), pelo despenhadeiro prazer
de jamais oferecer garantias,
arras, bula.

VÍCIO
10 de maio de 2010

palavra:
 
você é meu caminho. meu vinho.
 
meu vício.
 
desde o início estava você.
 
meu bálsamo benigno. meu signo. meu guru.
 
porto seguro onde eu vou ter.
 
meu mar e minha mãe.
 
meu medo e meu champanhe.
 
(visão do espaço sideral…)
 
palavra:
 
onde o que eu sou se afoga.
 
meu fumo. minha ioga.
 
palavra:
 
você é minha droga. paixão e carnaval.
 
palavra:
 
meu zen, meu bem, meu mal.**
 
 
cigarro, álcool, açúcar, sexo também, sobremaneira, isto é, em excesso, embora mereçam a advertência de que causam danos irreparáveis à saúde, tendo em vista tudo o que carcomem, viciam-me, no fundo, as palavras.
 
palavra:
 
o meu vício maior.
 
(e que assim seja, sempre.)
 
beijo terno em todos,
o preto,
paulo sabino / paulinho.
_____________________________________________________________________
 
(do livro: Parte Alguma. autor: Nelson Ascher. editora: Companhia das Letras.)
 
 
VÍCIO
 
Cigarro, sim, mas, uma
após outra, asfixiando-me
ao deliciosamente
adulterarem o ar —
 
álcool também, mas, pouco
a pouco, submetendo-me,
conforme eu me entorpeço,
à sua própria lógica —
 
açúcar, sim, mas, dia
a dia, deformando-me
perversas ao sabor
de seu letal sabor —
 
sexo também, mas, cada
vez mais, pondo em perigo 
quanto restou do meu
sistema imunológico —
 
sobremaneira e, embora
mereçam, tendo em vista
tudo o que, além do esôfago,
traquéia, reto e uretra,
 
carcomem, a advertência
de que à saúde causam
irreparáveis danos,
viciam-me as palavras.
_____________________________________________________________________
 
** utilização livre dos versos do poema-canção “meu bem, meu mal”, de caetano veloso.

O “X” DA QUESTÃO
7 de maio de 2010

queridos & benvindos & prezados,
 
quando pensei na publicação de um dos poemas que seguem, o outro veio, surgiu no encalço.
 
juntos, sinto que a beleza de um realça a beleza do outro, porque os sinto complementares — em certa medida.
 
dois poemas de dois poetas espetaculares, que merecem a junção aqui proposta.
 
os textos me fazem pensar muito no que me cerca.
 
senhores, nunca se esqueçam disto: o meu interior é uma atenção voltada para fora.
 
uma atenção voltada para fora.
 
amo a vida. sou um homem feliz. aposto na delicadeza para trilhar o caminho. sugiro, sempre, o sorriso e o bem-estar da alma.
 
só que a minha atenção, voltada para fora, me mostra que a trilha de muitos é feita de buracos & barreiras & pedras que deveriam inexistir.
 
buracos & barreiras & pedras de hoje, buracos & barreiras & pedras criados e recriados dentro deste modo de organização social, o de hoje, o de agora, o de já.
 
como louvar, com tantos vivas & salvas, um sistema que, apesar de me proporcionar todos os prazeres dos quais usufruo, de roldão, acarreta tanta dor & sofrimento para tantos outros?
 
se este modo de organização promovesse, DE FATO, EM LARGA ESCALA, a possibilidade dos prazeres dos quais usufruo, aí sim, todas as minhas salvas e todos os meus vivas.
 
portanto, uma organização social que, hoje, que, agora, que, já, que, neste instante, permite homens em lugares distantes, permite homens que não sabem ler e morrem de fome, homens de vida amarga e dura, que produzem o açúcar puro e branco que adoça o meu café nas manhãs de um apartamento da zona sul carioca, terá, apenas em parte, repito: APENAS EM PARTE, os meus vivas & salvas.
 
há quem propale que tal organização social é a “melhor” que já tivemos até hoje, porque garante o uso da razão crítica no seu mais alto grau, com a liberdade que lhe é necessária para que ela, a razão crítica, alcance a sua plenitude. e eu concordo com isso.
 
porém, aos meus olhos, nem sempre o “melhor” me é suficiente. eu não me contento com pouco. não sou homem para pouco. eu sempre quis muito. muito.
 
e, dentro desta organização vivenciada, que permite e cria e deseja homens-zumbis, verdadeiros vivos-mortos, o muito que temos hoje, agora, já, ainda é muito pouco.
 
(luxo para todos. TODOS.)
 
assim sendo, a questão, senhores, reside nisto aqui: se eu acho que vivemos, na história das sociedades humanas, o melhor de todos os tempos até aqui vividos? sim, eu, de fato, acho que vivemos o melhor de todos os tempos.
 
se, porque vivemos o melhor de todos os tempos vividos (até aqui) na história das sociedades humanas, me sinto satisfeito? não, de fato, não me sinto satisfeito com esse melhor. 
 
este o “x” da minha questão, senhores.
 
como resolver a equação? que solução para esse problema? (in)felizmente não a tenho.
 
sugiro construirmos juntos uma solução, através de muitas conversas & debates & esclarecimentos.
 
este “melhor”, mesmo sendo o “melhor”, e eu o reconheço por conta de todos os prazeres dos quais desfruto, ainda não satisfaz.
 
no hoje, no agora, no já, no neste instante: muito é muito pouco.
 
lembremos dos abutres. lembremos dos urubus.
 
lembremos das vidas secas.
 
luxo para todos! TODOS!
 
um beijo em vocês,
paulo sabino / paulinho.
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(do livro: Toda Poesia. autor: Ferreira Gullar. editora: José Olympio.)
 
 
O AÇÚCAR
 
O branco açúcar que adoçará meu café
nesta manhã de Ipanema
não foi produzido por mim
nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.
 
Vejo-o puro
e afável ao paladar
como beijo de moça, água
na pele, flor
que se dissolve na boca. Mas este açúcar
não foi feito por mim.
 
Este açúcar veio
da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira,
dono da mercearia.
Este açúcar veio
de uma usina de açúcar em Pernambuco
ou no Estado do Rio
e tampouco o fez o dono da usina.
 
Este açúcar era cana
e veio dos canaviais extensos
que não nascem por acaso
no regaço do vale.
 
Em lugares distantes, onde não há hospital
nem escola,
homens que não sabem ler e morrem de fome
aos vinte e sete anos
plantaram e colheram a cana
que viraria açúcar.
 
Em usinas escuras,
homens de vida amarga
e dura
produziram este açúcar
branco e puro
com que adoço meu café esta manhã em Ipanema.
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(do livro: Parte Alguma. autor: Nelson Ascher. editora: Companhia das Letras.)
 
 
OS DOIS URUBUS
 
Um urubu que, jururu,
avoa com outro urubu
diz-lhe: “Compadre, quede um rango
mais suculento que calango?”.
 
O outro urubu diz ao primeiro:
“Há poucas horas, companheiro,
eu vi um pessoal que, na caatinga
perto daqui, morreu à míngua
 
após comer tudo o que segue:
uma asa branca e o próprio jegue
além de um cadela feia
que eles chamavam de Baleia.
 
Do que terão morrido (como
diria em seu famoso tomo
que também trata de uns sem-teto
o João Cabral de Melo Neto),
 
quer de emboscada, fome, doença,
não faço idéia, não — paciência!
O charque ali será polpudo
se os vermes já não roeram tudo”.
 
Mas, por incrível que pareça,
se os urubus chegam depressa,
vivos que estão, os retirantes
comem os dois urubus antes.