MULHER COM CRISÂNTEMOS
22 de agosto de 2014

Mulher com crisântemos_Degas

(Para aumentar a imagem, clicar com o mouse sobre ela. Na foto, a pintura Mulher com crisântemos.)
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o olhar observador, atento, parado em frente à tela acima, mulher com crisântemos, do artista francês da virada do século XIX para o século XX, edgar degas:

as flores transbordam do seu vaso na mesa, um pouco à esquerda da tela cujas beiras por pouco elas não ultrapassam, invadindo a moldura, tamanha exuberância. também o seu colorido, de tão vivo, tão intenso, tão bem cuidado, quase abandona a paleta da pintura, saltando do mundo das tintas para o mundo nosso, real, de concreto & cimento armado, tamanho realismo do colorido, mas apenas quase.

(é que o pintor, jovem mestre, ostenta sprezzatura, que é a capacidade que alguns artistas têm de fazer o difícil parecer fácil. é o mesmo que dizemos por cá: “fácil de entender, difícil de fazer”. assim como degas, chico buarque, dorival caymmi & vinicius de moraes são mestres que ostentam sprezzatura.)

o olhar passa por elas (pelas flores), pousa aqui, pousa ali, hesitante abelha, visita, à esquerda do vaso, um jarro d’água, nota um lenço largado sobre a toalha bordada da mesa, e ruma ao lado oposto da tela, para uma mulher cujos olhos ignoram-no, os olhos da mulher ignoram o olhar atento que agora a observa, atraídos, talvez, por algo que se acha fora não somente do quadro em que ela se encontra, mas também daquele quadro em que nos perceberia, se quisesse, se, num repente, resolvesse encarar o olhar que a encarava, se, num rompante, resolvesse fitar o olhar que a fitava, ávido. os olhos da mulher talvez estejam atraídos por algo que se acha fora tanto do quadro em que ela se encontra quanto de um outro, um no qual ela nos perceberia: talvez (os olhos) atraídos por algo que esteja apenas no seu pensamento, talvez por algo que esteja perdido nos seus olhos, que parecem distantes da própria pintura.

sem saber por que, o olhar não mais a quer largar. diga-se a verdade: essa mulher deixa a desejar: ela não se compara aos crisântemos (à sua beleza & exuberância) que lhe deram a fama a que mal faz jus, ela não se compara às flores que lhe deram a fama que, diga-se a verdade, não merece: afinal, ela se encontra à margem do quadro, e nem sequer inteira, só em parte. dela, está bem mais presente, ali no quadro, a ausência que a presença (a mulher nem sequer coloca-se inteira na tela & os seus olhos parecem distantes do cenário em que se encontram).

e, dado que a ausência é proteica, isto é, multiforme, multifacetada (pode-se estar ausente de diversas maneiras, sob diversos aspectos), dado também que a ausência é proteica porque, assim como proteína, alimenta a alma, os pensamentos, os olhos, de fantasias & delírios (a ausência do que atrai para si os olhos da mulher nos faz fantasiar, delirar, as mais sortidas razões), e “tudo nada” (pois tudo que forma a ausência é a falta, é o vazio, é o buraco, “tudo” que forma a ausência é o “nada”, a ausência é o “tudo” que é “nada”), e tudo nada, e tudo bóia, e tudo oscila, e tudo vacila, no quadro (não se pode saber com o que se distraem os olhos da mulher), o olhar atento à pintura mal mergulha na vertiginosa superfície da mulher (a mulher é feita de tinta & não de carne & osso, é superfície genuína porque não possui dentro, é toda exterioridade, e, no entanto, sendo apenas superfície, toda exterioridade, a mulher consegue levar o olhar de quem a observa à vertigem, à viagem interrogativa, curiosa, imaginativa) & flutua, bóia, nada, de volta às flores sobre o fundo castanho do papel de parede; depois, da capo (da capo é uma expressão que significa “desde o princípio” & que é colocada ao fim de um trecho de música, indicando que todo o trecho deve ser repetido), depois, portanto, o olhar é convidado a repetir toda a sua viagem, desde o princípio.

voltar o olhar atencioso inúmeras vezes a uma pintura como quem lê inúmeras vezes um poema: a fim de que a pintura, pura superfície assim como o poema, nos leve a sensações vertiginosas, nos leve a sensações que só sabem desempenhar as grandes obras de arte.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Porventura. autor: Antonio Cicero. editora: Record.)

 

 

MULHER COM CRISÂNTEMOS
(sobre um quadro de Degas)

Para Carlos Mendes Sousa

 

As flores transbordam do seu vaso à mesa,
um pouco à esquerda da tela cujas beiras
por pouco não ultrapassam, invadindo
a moldura. Também o seu colorido
quase abandona a paleta da pintura
(é que o jovem mestre ostenta sprezzatura),
mas apenas quase. O olhar passa por elas,
pousa aqui, pousa ali, hesitante abelha,
visita, à esquerda do vaso, um jarro d’água,
nota um lenço largado sobre a toalha
bordada da mesa e ruma ao lado oposto
da tela, para uma mulher cujos olhos
ignoram-no, atraídos talvez por algo
que se acha fora não somente do quadro
em que ela se encontra, mas também daquele
em que nos perceberia, se quisesse.
Sem saber por que, o olhar não mais a quer
largar. Diga-se a verdade: essa mulher
deixa a desejar. Ela não se compara
aos crisântemos que lhe deram a fama
a que mal faz jus, já que se encontra à margem
do quadro, e nem sequer inteira, só em parte.
Dela está bem mais presente ali a ausência
que a presença. E, dado que a ausência é proteica
e tudo nada, o olhar mal mergulha em sua
vertiginosa superfície e flutua
de volta às flores sobre o fundo castanho
do papel de parede; depois, da capo.

 

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A PANTERA
24 de fevereiro de 2014

Pantera

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de tanto olhar as grades, seu olhar esmoreceu. agora, seu mundo resume-se a um espaço entre grades, por trás das grades.

de tanto olhar as grades, seu olhar enfraqueceu, perdeu o entusiasmo, e nada mais aferra, nada mais o seu olhar fixa, firma, ataca.

como se houvesse só grades na terra: grades, apenas grades para olhar.

a onda andante & flexível do seu vulto, o gingado do seu caminhar, mostrando a força & a flexibilidade da sua estrutura corpórea, em círculos concêntricos (agora, seu mundo resume-se a um espaço entre grades, por trás das grades), decresce, diminui, e um grande impulso (guardado, certamente, no instinto felino que lhe resta) se arrefece, um grande impulso esfria, desanima, num ponto oculto dentro de si.

seu habitat: a amplidão dos terrenos selvagens.

de repente, bicho negro capturado, bicho negro acorrentado, posto em porão para transporte ultramarino, feito o bicho homem, negro, durante uma época da nossa história.

de repente, seu mundo resume-se a um espaço entre grades, por trás das grades.

de vez em quando, o fecho da pupila — do olhar esmorecido, de tanto olhar as grades — se abre em silêncio. uma imagem, então, na tensa paz dos músculos, na paz muscular em estado de tensão, em estado de alerta, se instila, uma imagem, então, na tensa paz dos músculos, se insinua, se insufla, para, logo em seguida, morrer no coração.

uma imagem (do seu vasto império selvagem quando livre? do seu descanso em árvores? da sua presa fresca? da sua liberdade sem fins?) se instila, para morrer no coração.

ninguém nasceu para uma vida presa entre grades, nem bicho, nem homem.

o bem mais valioso que possuímos — seja bicho, seja homem — é a vida, e, junto à vida, a liberdade para dela dispor.

se desejamos a natureza mais próxima de nós, certo não é prendê-la em aquários, gaiolas ou jaulas. certo é cuidarmos dos espaços naturais, dos espaços onde a natureza jorra, onde a natureza brota, onde a natureza nasce. certo é garantir aos meus irmãos de terra — seja bicho, seja homem — o mesmo direito de vida plena que desejo para mim. certo é termos cuidado para não ferir com a mão esta delicadeza, a coisa mais querida: a glória da vida.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Coisas e anjos de Rilke. autor: Rainer Maria Rilke. tradução: Augusto de Campos. editora: Perspectiva.)

 

 

A PANTERA

No Jardin des Plantes, Paris

De tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.

A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.

De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.

ALHEIO
14 de outubro de 2013

Paulo Sabino_São Gonçalo do Rio das Pedras (MG)

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Mensagem enviada a um dos maiores mestres da poesia brasileira, o professor, tradutor, crítico literário & membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), ANTONIO CARLOS SECCHIN:

 

Mestre,

um poema que foi retirado da última sentença do meu texto de apresentação à publicação mais recente do Prosa em poema [intitulada “Nada em vão”: https://prosaempoema.wordpress.com/2013/10/08/nada-em-vao/]

Num repente, lendo a tal sentença, percebi que fazendo algumas modificações & adicionando elementos nasceria um poema. E aqui está.

Abraço afetuoso,
Paulo Sabino.

 

Abaixo, a resposta do mestre:

 

Muito bom! Excelente “montagem”.

 

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alheio: a tudo: ao olhar alheio, ao olhar do outro (estrangeiro, forasteiro), que não consegue decifrar o todo que vai em mim: pura ilusão — de óptica:

pois que o “eu”, no seu fundo, um sumidouro (orifício, fenda ou similar, por onde algo desaparece. lugar onde somem muitas coisas).

alheio: a tudo: inclusive ao próprio olhar, ao olhar que tenho de mim: sendo quem sou, em nada me pareço.

(eu mesmo não me re-conheço em tudo & por isso burlo, minto, trapaceio, no jogo de damas que invento em mim.)

beijo todos!
paulo sabino.
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(autor: Paulo Sabino.)

 

 

ALHEIO

 

o que vemos
no outro
é pura
ilusão
de óptica:

sumidouro:
sendo quem sou
em nada me pareço:
sempre estrangeiro
sempre forasteiro
de mim
& do olhar
alheio

NADA EM VÃO
8 de outubro de 2013

Paulo Sabino_Estrangeiro de si

 

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Nada em vão, nada à-toa, no espaço entre mim & você.

Eis, então, que o pedaço de mim — que é só teu — é intento sem tanto, é objetivo sem força maior, é intenção pouca, quando eu vejo você me olhando assim, vendo, em mim, o que eu vejo em ti.

(Afinal,) Qual razão é medir o imenso da sede, o que justificaria medir o tamanho incomensurável do desejo, da vontade de alguma coisa, se o senso, se o entendimento, se o juízo (sempre!) cede à sensação?

Hein?…

Ilusão — pois o que vemos no outro nunca é exatamente o outro, é sempre uma projeção nossa sobre o outro — é a veste que te faz volver, que te faz voltar-se, que te faz virar (para mim), ilusão — pois o que vemos no outro nunca é exatamente o outro, é sempre uma projeção nossa sobre o outro — é a veste que me envolve & que verte afeto & afã, que verte amizade & zelo, quando eu vejo você me olhando assim, vendo, em mim, o que eu vejo em ti.

(O que vemos no outro é pura ilusão de óptica: sendo quem sou, em nada me pareço: sempre estrangeiro, sempre forasteiro, de mim & do olhar alheio.)

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do encarte do cd: Cavalo. artista: Rodrigo Amarante. autor: Rodrigo Amarante. gravadora: Slap.)

 

 

NADA EM VÃO

 

nada em vão
no espaço entre eu e você
no silêncio um grito
o sim e o não

eis então
que o pedaço de mim
que é só teu
é intento sem
tanto intenção

quando eu vejo você
me olhando assim
vendo em mim
o que eu vejo em ti

qual razão
é medir o imenso da sede
se cede o senso
à sensação

ilusão
é a veste que
faz-te volver
que me envolve e verte
afeto e afã

quando eu vejo você
me olhando assim
vendo em mim
o que eu vejo em ti
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Cavalo. Artista & intérprete: Rodrigo Amarante. canção: Nada em vão. autor da canção: Rodrigo Amarante. gravadora: Slap.)

O IMPÉRIO DA LEI
19 de dezembro de 2012

O império da lei

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O império da lei há de chegar no coração do Pará! O império da lei há de chegar lá!

Quem mata uma pessoa, obviamente, tem que pagar. Porém, tem que pagar ainda mais aquele que mandou matar. Porque, em casos assim, de morte por encomenda, só existe o matador porque há, por detrás do matador, o mandante do crime.

Quem mata & quem manda matar têm que pagar pelo crime cometido.

Brasil de impunidades alarmantes: aqui, mata-se a troco de muito: os políticos que roubam os cofres públicos são responsáveis diretos pela morte das pessoas em postos de saúde & hospitais públicos, pessoas que, pagando os seus impostos & os impostos embutidos nos produtos que consomem, não conseguem ter o devido atendimento & morrem.

Os políticos ladrões são, ao mesmo tempo, matadores & mandantes dos crimes.

A fim de dar um fim nessa triste realidade que nos cerca, ter o olho no olho do jaguar: jaguar: o mesmo que onça-pintada: o maior felino das Américas, também encontrado na região norte do país: ter o olho no olho do jaguar: observar com atenção a maneira do jaguar olhar, observar com atenção o modo que o jaguar tem de mirar aquilo que lhe interessa: maneira de olhar forte, firme, incisiva, sem vacilos, na intenção de analisar calculadamente o objeto observado.

Ter o olho no olho do jaguar para que se possa virar um jaguar: aos olhos confrontantes do jaguar nada escapa, nada foge; o jaguar, por ser o maior felino das Américas, nada teme.

Nós, como cidadãos, deveríamos enfrentar com mais ímpeto as impunidades alarmantes que assolam o Brasil. Precisamos ter o olho no olho do jaguar, precisamos virar jaguar.

O império da lei há de chegar no coração do Pará! O império da lei há de chegar lá!

(No Pará, o império da lei, um dia, parará.)

Lá (no coração do Pará), e aqui, e aí, e ali, e acolá: o império da lei há de chegar no coração do Brasil!

(Que assim seja.)

Beijo todos!
Paulo Sabino.

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(autor: Caetano Veloso.)

 

 

O IMPÉRIO DA LEI

 

O império da lei há de chegar no coração do Pará
O império da lei há de chegar no coração do Pará
O império da lei há de chegar lá

Quem matou meu amor tem que pagar
E ainda mais quem mandou matar
Ter o olho no olho do jaguar
Virar jaguar

O império da lei há de chegar no coração do Pará

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(do site: Youtube. áudio extraído do cd: Abraçaço. artista & intérprete: Caetano Veloso. canção: O império da lei. letra & música: Caetano Veloso. gravadora: Universal Music.)