AS ESTAÇÕES, SEUS FRUTOS, E O PÁSSARO QUE PASSA, PASSARA & PASSARÁ
9 de novembro de 2011

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anuncia-se a luz: a aurora de um novo dia.
 
o sol, o puro sol, verte-se sobre nós & a terra, desencantando cores:
 
frutos vivos: o mar, a flor, o bicho, a criança, a vida que, por todos os lados, se pronuncia em sua forma ao sol informe.  
 
o mar, a flor, o bicho, a criança: a vida, força em ciclo, ciclo ininterrupto, ciclo contínuo, assim como as estações do ano, que, todo ano, descobrem-se, descortinam-se, desvelam-se, à existência.
 
mas (como tudo na vida tem um “porém”…),
 
há o “estar” das coisas, há o “estar” do corpo, há o ser “em um dado momento”, há o achar-se “em certa condição”: há o tempo & sua durabilidade, sua finitude, há o tempo de ínício & o tempo de fim. 
 
há o cilco das coisas: os frutos, com seu peso & sua forma, apodrecem.
 
os frutos apodrecem e há quem os coma: o pássaro definitivo.
 
o pássaro definitivo: pássaro que passa, pássaro que passara, pássaro que passará. não há quem possa contra sua passagem.
 
por isso, não o procuremos: ele, um dia, uma hora, nos elegerá.
 
passado o pássaro, nunca a nossa atmosfera será a mesma, pois sustentamos, com as nossas vivências, o vôo que nos sustenta. sem elas, sem as nossas vivências, que funcionam como nossas asas, não alçamos vôo & quedamos, e, quedando, somos capturados, no ar, pelo bico do pássaro.
 
o pássaro é lúcido, porque transparente, porque diáfano (ninguém o vê), e porque exato, preciso, categórico (ao nos capturar); o pássaro é lúcido & nos retalha. sangramos. e nunca haverá cicatrização possível para este rumo (o de sermos retalhados & engolidos pelo pássaro).
 
este pássaro é reto. sempre na mesma direção, sempre a traçar a mesma rota, o mesmo caminho, sem curvaturas, sem inflexões.
 
o pássaro arquiteta o real sendo ele o próprio real: a realidade nua & crua, sem rodeios.
 
o pássaro em nossos caminhos é a única grande certeza que temos na vida.
 
nunca saberemos tanta pureza: pássaro a nos devorar aos poucos, dia a dia, até a bicada final, enquanto cantamos o seu canto, o canto da vida.
 
na luz do vôo profundo, um dia, existiremos neste pássaro: por enquanto, enquanto existência houver, é ele que vive em nós, é ele, o pássaro, que nos habita, latente.
 
aproveitemos, portanto, enquanto os ciclos & as estações não se encerram aos nossos olhos, aproveitemos enquanto o pássaro não nos eleger, e alcemos vôos altos, altíssimos, a fim de paisagens mais vastas, a fim de paisagens mais claras, a fim de paisagens panorâmicas, vôos que nos permitam uma apreciação mais ampla — e, por isso, mais brilhante — das paisagens que nos circundam. 
 
beijo todos!
paulo sabino.      
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(do livro: Poesia reunida [1969-1996]. autora: Orides Fontela. editoras: 7Letras / Cosac Naify.)
 
 
 
AS ESTAÇÕES
 
 
Anuncia-se a luz
 
 
e o puro Sol
o Sol informe
verte-se
                        desencantando cores
                        frutos vivos
                        — força em ciclo descobrindo-se.
 
                               … mas
                           
                                                   há o estar da pedra
                                                   há o estar do corpo
                                                   há peso e forma: os frutos
                                                                                apodrecem.
 
 
 
 
SETE POEMAS DO PÁSSARO 
 
 
I
 
O pássaro é definitivo
por isso não o procuremos:
ele nos elegerá.
 
 
II
 
Se for esta a hora do pássaro
abre-te e saberás
o instante eterno.
 
 
III
 
Nunca será mais a mesma
nossa atmosfera
pois sustentamos o vôo
que nos sustenta.
 
 
IV
 
O pássaro é lúcido
e nos retalha.
Sangramos. Nunca haverá
cicatrização possível
para este rumo.
 
 
V
 
Este pássaro é reto;
arquiteta o real e é o real mesmo.
 
 
VI
 
Nunca saberemos
tanta pureza:
pássaro devorando-nos
enquanto o cantamos.
 
 
VII
 
Na luz do vôo profundo
existiremos neste pássaro:
ele nos vive.
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NA ERRÂNCIA, A CONSTRUÇÃO DE TORRES
6 de janeiro de 2011

errância: vagar pelos caminhos sem saber o destino, sem saber onde a trilha vai dar.

vida: caminhos & mais caminhos que não sabemos, exatamente, onde darão.

a existência é cheia de nuances, de possibilidades, de escolhas.

por isso não existe um caminho CERTO a ser seguido, não existe uma trilha CERTA a ser inventada: por isso erramos.

e, errando, isto é, construindo o rumo mundo afora, vamos inventando os nossos labirintos, vamos confeccionando as nossas vastas redes de salas & galerias que se entrecruzam, na busca pelas coisas que queremos, que ambicionamos, e topando igualmente com coisas que, antes, não procurávamos, para, desta maneira, a construção do ser, sempre em formação, pois que sempre ser errante, pois que sempre ser vago a vagar.

só porque erramos, acertamos: esta é a única maneira de nos forjarmos.

(lembrem-se: não existe um caminho CERTO a ser seguido. a existência é cheia de nuances, de possibilidades, de escolhas: por isso errar, por isso enganar-se, por isso incorrer em erro; por isso erramos, por isso andamos sem um rumo certo, sem saber onde chegaremos.)

poder errar é sinal claro de que possuímos alternativas, de que possuímos liberdade para setas, para segui-las ou não.

assim sendo,

margem de erro: margem de liberdade.

sempre sabedor de que, na errância, a vida é árdua missão.

a vida, na “cadeia” do pensamento (na sua “cela”, na sua “prisão”), dói.

os problemas, estes batem à porta de qualquer um, não é preciso procurá-los.

(o real nos doerá para sempre.)

portanto, é justo construir torres abstratas, construir estruturas elevadas, altivas, que sirvam de fortaleza à luta, porém sabendo que a luta, diferentemente das torres, abstratas, a luta é real.

a construção de fortalezas abstratas, de torres que sirvam à proteção (eu tenho a minha: a poesia!) é de suma relevância, mas é preciso cuidado para que não nos enclausuremos nelas:

afinal, nossa visão se constrói sobre a luta, nossa visão se constrói quando debruçados na vida, quando de olhos atentos a ela.

não desistamos da batalha que a vida é!

não nos fechemos em torres abstratas!

sigamos juntos, em prol de melhorias constantes!

beijo bom em todos!
paulo sabino / paulinho.
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(do livro: Poesia reunida [1969-1996]. autora: Orides Fontela. editoras: 7Letras / Cosac Naify.)

 

ERRÂNCIA

Só porque
erro
encontro
o que não se
procura

só porque
erro
invento
o labirinto

a busca
a coisa
a causa da
procura

só porque
erro
acerto: me
construo.

Margem de
erro: margem
de liberdade.

 

TORRES

Construir torres abstratas
porém a luta é real. Sobre a luta
nossa visão se constrói. O real
nos doerá para sempre.

EROS
13 de agosto de 2010

o amor: o que é? bicho? barco? flor?
 
eros: que forma o conteria?
 
segundo a mitologia greco-romana, eros é o deus que assegura a continuidade das espécies e também a coesão do cosmos, do universo (na filosofia grega antiga, cosmos é o universo organizado de modo regular e integrado).
 
(as setas desse deus armam o mundo.)
 
dizem que ele é cego.
 
cego?
 
não: livre. sem amarras. amar. e só.
 
eros dissemina pólens e aromas. deus da fecundação e dos cheiros.
 
eros: supremamente, violentamente livre, livre em sua oferta, oferta que, por livre, faz-se de pureza na entrega.
 
eros: o deus do amor:
 
que forma o conteria?
 
(e nós, como sinais de interrogação, a observá-lo de perto, na tentativa de reconhecer-lhe alguma forma, um traço qualquer que seja — um bicho? um barco? uma flor?)
 
suas setas armam o mundo enquanto, inflamadamente vivo, faz-se o deus em abismo, abismo no qual devemos quedar em admirações tamanhas, admirações que viabilizem as setas que armam o mundo, armam o mundo de fertilidade, de possibilidade, de pro-criação.
 
(armar-se de amor.)
 
eras de eros a todos!
abismem-se com a beleza desse deus!
 
beijo bom,
paulo sabino / paulinho.
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(do livro: Poesia reunida [1969 – 1996]. autora: Orides Fontela. editora: 7Letras / Cosac Naify.)
 
 
EROS
 
Cego?
Não: livre.
Tão livre que não te importa
a direção da seta.
 
Alado? Irradiante.
Feridas multiplicadas
nascidas de um só
                              abismo.
 
Disseminas pólens e aromas.
És talvez a
                          primavera?
Supremamente livre
           — violento —
não és estátua: és pureza
                                 oferta.
 
Que forma te conteria?
Tuas setas armam
                             o mundo
enquanto — aberto — és abismo
              inflamadamente vivo.

ÀS MULHERES
8 de março de 2010

Mulheres_PB
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o dia de hoje, 8 de março, é reservado internacionalmente a uma homenagem às mulheres. por essa razão, segue este poema-canção, lindíssimo, que se encaixa perfeitamente ao laurel proposto: versos que falam de mulheres, mais especificamente das mulheres do meu brasil varonil, porém possíveis de serem estendidos a todas as demais mulheres, debuxados por uma grande cantora & compositora & interpretados por outra grande companheira de profissão. eu, desde sempre, desde a minha mãe, desde as minhas tias, sou louco por mulheres, um grande fã. as que conheço & estão ao meu lado são habituadas a delicadezas. inteligentes, protetoras, perspicazes.

gosto muito de gente. gosto de escutar gente, de saber o que pensa, como anda. não seria diferente com as mulheres.

a elas, a capacidade não só de gerar, mas também de armazenar vida latente, vida pulsante. acho comovente mulher barriguda que vai ter menino.

à jurema, nely, joyce, maria, clarice, lya, lygia, marly, nélida, adélia, rachel, orides, cora, cecília, sophia, natália, florbela, cacilda, fernanda, marília, bibi, dolores, clara, gal, nana, rita, elis, elisa, alice, hilda, claudia, patrícia, zélia, e assim sucessivamente, em espiral vertiginosa: muitíssimo obrigado. por tanto, por tudo, agradeço a vocês, mulheres da minha trilha, irmãs porque a mãe natureza fez todas tão belas.

parir, gerar, criar: existir: eis a prova de destino tão valoroso.

a mulher brasileira, no alto a sua bandeira, saúda o povo & pede passagem!

que vocês, mulheres, de um modo bonito, de um modo delicado, conquistem o mundo!

um brinde a elas!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do encarte do cd: Maria. artista: Maria Bethânia. autora dos versos: Joyce. gravadora: BMG Ariola.)

 

 

MULHERES DO BRASIL

 

No tempo em que a maçã foi inventada
Antes da pólvora, da roda e do jornal
A mulher passou a ser culpada
Pelos deslizes do pecado original
Guardiã de todas as virtudes
Santas e megeras, pecadoras e donzelas
Filhas de Maria ou deusas lá de Hollywood
São irmãs porque a Mãe Natureza fez todas tão belas
Tão belas
Ó Mãe, ó Mãe, ó Mãe
Nossa Mãe, abre teu colo generoso
Parir, gerar, criar e provar nosso destino valoroso
São donas de casa, professoras, bailarinas
Moças, operárias, prostitutas, meninas
Lá do breu das brumas vem chegando a bandeira
Saúda o povo e pede passagem a mulher brasileira
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Maria. artista & intérprete: Maria Bethânia. canção: Mulheres do Brasil. autora da canção: Joyce. gravadora: BMG Ariola.)