PÁSSARO
14 de dezembro de 2012

Pássaro

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(excertos do prefácio feito ao livro: Laringes de grafite. autor do prefácio: Antonio Cicero. editora: Vidráguas.)
 
 
Se é verdade que o poeta moderno é aquele que, a partir da assimilação da lição das vanguardas do século XX, sabe aproveitar as possibilidades tanto de abrir novos caminhos formais e temáticos para sua arte quanto de nela trilhar e/ou modificar qualquer dos caminhos já abertos pelas inúmeras tradições que o mundo sem fronteiras temporais ou espaciais lhe dá a conhecer, então devemos, usando a expressão de Rimbaud, dizer que Adriano Nunes é um poeta absolutamente moderno.
 
(…)
 
Não tendo a menor dúvida de que Adriano Nunes é um dos mais expressivos poetas de sua geração ou de que, livre de amarras, dogmas, ideologias e escolas, Laringes de grafite é um dos mais belos livros de poemas dos últimos tempos, deixo as últimas palavras com três versos do poema “do que quer ser concebido”:
            
                    palavras são para isso,
                    sim, para inventar
                    o paraíso. 
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o poeta deseja ao pássaro:
 
o passo, rosas, asas.
 
ao pássaro o poeta deseja: o passo, a possibilidade de o pássaro andar; rosas, flores de pétalas-penas, macias, como se asas florais, flores delicadas & belas de estrutura frágil, como a do pássaro; asas, para que ao pássaro seja permitido o vôo.
 
ao pássaro: o passo, rosas, asas: ao pássaro, os elementos que cabem no pássaro: notem: o passo / rosas / asas são palavras que se formam com as letras que formam o pássaro:  
 
p  a  s  s  a  r  o  (o  p  a  s  s  o  /  r  o  s  a  s  /  a  s  a  s).
 
o poeta adentra o pássaro:
 
e, dentro dele, o poeta encontra:
 
raspas, aspas, o ar.
 
percebam que o que o poeta encontra no pássaro ao adentrá-lo, raspas / aspas / o ar, assim como o passo / rosas / asas, são  palavras que se formam com as letras que formam o pássaro:  
 
p  a  s  s  a  r  o  (r  a  s  p  a  s  /  a  s  p  a  s  /  o  a  r).
 
ao adentrar o pássaro, encontra o poeta: raspas, isto é: lascas, fragmentos, partes, pedaços, do pássaro, pois o poeta sabe que o pássaro também voa longe dos seus olhos, plaina em outras tantas paragens; ao adentrar o pássaro, encontra o poeta: aspas, pois o pássaro que o poeta adentra é formado de palavras, portanto, de aspas (muitas!), pássaro cujo canto é entoado em espaço escrito (em blog, em folha de papel), pássaro cujo canto é cantado sob forma de palavras; ao adentrar o pássaro, encontra o poeta: o ar, pois o pássaro habita o vento, a liberdade, o livre transitar, e também porque, de certa forma, o poeta capta o pássaro a certa distância, em céu de letras (em blog, em folha de papel).  
 
percebe o poeta:
 
no centro do sentimento do pássaro, céu habitar.
 
o céu habitar, isto é, no céu morar, percebe o poeta, é o desejo maior do sentimento que cabe ao pássaro.
 
do pássaro, o seu habitat é o céu habitar
 
habitar o céu, habitar o ar, habitar o que é elevado, habitar o que está suspenso sobre: o céu habitar: o seu habitat (o habitat do pássaro).
 
que alegria pelo pássaro!
 
adriano nunes, meu poeta das alagoas, meu amigo, meu irmão, a você o meu mais alto & estimado agradecimento. por tudo.
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Laringes de grafite. autor: Adriano Nunes. editora: Vidráguas.)
 
 
 
PÁSSARO
 
                                         Para Paulo Sabino
 
 
 
ao pássaro
o passo
rosas
asas
 
adentro-o
raspas
aspas
o ar
 
no centro
do sentimento
o céu
habitar. 

ALIÁS
20 de setembro de 2012

 
(Mesmo que bravo o mar virá na canção.)
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Para Nina Cavalcanti
 
 
 
existem coisas que o amor diz com aquela “coisa a mais” de quem é feliz.
 
o amor, quando em plena forma, quando cheio de vontades & desejos, o amor diz ao que veio com aquele jeito, com aquele modo, de quem é feliz. tudo o que o amor diz, seja com gestos, seja com palavras, ele o diz com satisfação, com prazer, com humor, ele o diz com aquela “coisa a mais” de quem é feliz.  
 
o amor, quando em plena forma, quando cheio de vontades & desejos, o amor produz, em seu cerne, o amor produz, em seu íntimo, jóias caras, jóias de muito valor, jóias para enfeitar o ser do ser amado: tiaras sem fim, tiaras de muito valor, que coroam o bem-estar do sentimento.  
 
o amor, quando em plena forma, quando cheio de vontades & desejos, o amor ilumina, o amor clareia, o amor abrilhanta: amando, luzes são servidas a quem se ama, a fim de que a pessoa amada se ilumine, a fim de que a pessoa amada brilhe, e sua beleza seja realçada pela luminosidade do amor.
 
é tanta coisa que o amor faz… o amor melhora o humor, alegra a existência, ameniza problemas, elimina rugas existenciais: o amor vem como um rio em sua calma voraz.
 
o amor: um rio em sua calma voraz: pois que o amor, em sua vontade de amar, o amor, em sua pertinácia, assim como um rio calmo, arrasta o que vê pela frente. um rio calmo, por mais calmo, possui a sua correnteza, correnteza que também arrasta, que também leva consigo, o que encontrar pela frente.
 
(o amor melhora o humor, alegra a existência, ameniza problemas, elimina rugas existenciais.)
 
quando se ama, existe o medo, existe a insegurança, de não ser correspondido. muitas vezes, por conta desse medo, por conta dessa insegurança, o amor sentido não é revelado. a timidez de revelar tal sentimento fala mais alto. existe o medo de não ser correspondido & de sofrer por causa da não-correspondência.
 
timidez mais sabe voar para fugir da sombra do não-querer, timidez mais sabe voar para fugir da sombra da rejeição. ademais, quem é que quer sofrer?
 
no entanto, o amor só se concretiza quando revelado, o amor só se concretiza quando dito, o amor só se concretiza quando apresentado.
 
a pessoa amada, o sonho, os pés, o chão: a estrada que se pretende trilhar lado a lado, e que sabemos ser de altos & baixos, e que sabemos ser feita de momentos bons & de momentos maus. por isso (por sabermos que a estrada que se pretende trilhar lado a lado é feita de momentos bons & de momentos maus), mesmo que bravo, mesmo que violento, o mar, verdadeira adoração na minha vida, o mar virá na canção.
 
o mar, sereno ou não, virá na canção: porque o mar — um dos meus maiores encantos — assemelha-se ao amor: por suas beleza imensidão & força, mesmo que bravo, numa canção de amor, ele virá, o mar tem o seu lugar.
 
do amor, tudo o que se deseja, tudo o que se quer, é prazer: beijo esperado, me leve até você. beijo esperado, me leve à boca que tanto desejo.
 
a boca desejada: mística rosa (rosa vermelha, cor de carne). a boca desejada: ave rubra, ave vermelha que nos prende em vôo pleno. a boca desejada: o meu deus de um “céu da boca” encarnado, o deus de um “céu da boca” rubi, “céu da boca” feito pedra preciosa, vermelha. a boca desejada: carnuda & carmim.
 
(à boca desejada me leve o beijo esperado.)
 
no ofício de obedecer ao amor, no ofício de obedecer à deliciosa paixão, é um sacrifício dizer um “não” ao sentimento. porque, afinal, sempre se faz por prazer tudo o que o amor diz. negar uma sua vontade (uma vontade do amor) é contrariar a si mesmo. 
 
sempre se faz por prazer tudo o que o amor diz:
 
aliás, quem não quer ser feliz?
 
(eu quero!)
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do encarte do cd: Novena. artista: Djavan. autor dos versos: Djavan. gravadora: Epic Records.)
 
 
 
ALIÁS
 
 
Existem coisas que o amor diz
Com aquela coisa a mais
De quem é feliz
Jóias caras produzidas no coração
Tiaras sem fim
Guardo essas luzes pra te servir
É tanta coisa que o amor faz
Vem como um rio em sua calma voraz
Timidez mais sabe voar
Pra fugir da sombra do não-querer
Ademais, quem é que quer sofrer?
Você, o sonho
Meus pés, o chão
Mesmo que bravo
O mar virá na canção
Mística rosa, ave rubra
Meu Deus do céu da boca rubi
Beijo esperado, me leve a ti
É um sacrifício dizer um não
Em seu ofício de obedecer à paixão
Seja como for, sempre se faz por prazer
Tudo o que o amor diz
Aliás, quem não quer ser feliz?
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Novena. artista & intérprete: Djavan. autor: Djavan. gravadora: Epic Records.)
 
 

 

 

 

UM NOVO PLANO, UM NOVO ÂNGULO: E NUNCA ESQUECER O POEMA
3 de abril de 2012

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decantar os sentimentos.
 
separar, dos sentimentos, os “sedimentos” que sobram, separar, dos sentimentos, as “impurezas” que restam.
 
afinal, nem tudo que se sente é de cantar. nem tudo que se sente é para compartilhar. nem tudo que se sente é para repartir, alastrar em verso.
 
decantar o que é de cantar.
 
depois do processo de decantação, após o processo de filtragem dos sentimentos, recolher, no fundo do recipiente, o mais pesado que o ar (o resíduo que fica de um sentimento), antes que voe. 
 
recolher, no fundo do recipiente após a decantação, o mais pesado que o ar, que, apesar de ser “o mais pesado que o ar” (o resíduo que fica de um sentimento), pode voar. 
 
recolher “o mais pesado que o ar”: recolher aquilo que pesa, recolher aquilo que, por falta de leveza, incomoda, recolher aquilo que, por falta de airosidade, importuna. 
 
captar o resíduo (mais pesado que o ar) no recipiente, antes que voe (antes que seja perdido, antes que seja tarde demais), e  ampliar na microlente (do viver) o desconforto — evidente — entre a vida que se leva & a que não se sabe se virá.
 
entre a vida que levamos & a vida desejada, existe uma diferença (tremenda), evidentemente. e essa diferença (entre o desejo de uma vida & a vida como ela é) acaba por trazer um certo desconforto existencial.
 
o desconforto existencial: peso que resta no fundo do recipiente.
 
a fim de que a balança se equilibre (o desejo de uma vida X a vida como ela é), em caso de “grande” (a medida do desconsolo cabe a cada um de nós) desconforto existencial (porque algum desconforto teremos inevitavelmente; somos seres insatisfeitos por natureza), inventar um novo plano, como no cinema (plano: trecho de filme ou de gravação de vídeo feito com uma única tomada, sem cortes), inventar, como no cinema, um novo ângulo (posição da câmera em relação ao objeto em foco, em cena), inventar fotografias, inventar novos enquadramentos, como no cinema, que tudo se transforma pelo olhar.
 
o olhar & seu grande poder transformador: tudo depende do modo como enxergamos, tudo varia de acordo com a maneira que encaramos, as “cenas” do grande filme que vamos montando, plano único, sem cortes & sem direito a emendas. 
 
o olhar também é feito de escolhas, ainda que muito profundas, ainda que imperceptíveis conscientemente.
 
pode-se olhar o vôo de um pássaro no céu azul & ignorá-lo por inteiro. pode-se olhar uma flor (a forma da sua corola, determinada pelo desenho das pétalas) & não estar atento a ela. pode-se avistar o sorriso solto, espontâneo, de uma criancinha na rua & tal sorriso não significar coisa alguma.
 
o olhar é feito, sobretudo, de escolhas (conscientes ou não).
 
em prol de um novo plano-seqüência (como no cinema), e também em prol de um novo plano, isto é, em prol de uma nova proposta, de um novo propósito, de uma nova idéia, em prol de um novo ângulo (que tudo se transforma pelo olhar), não vá esquecer este poema como se esquecem os nomes, um encontro, o número do telefone.
 
não vá esquecer este poema (e pensar que o que peço é um paradoxo, já que tudo, na vida, é esquecimento. lembramos, recordamos, porque, sobretudo, esquecemos, deslembramos).
 
não vá esquecer, e tudo é esquecimento — exceto o que pulsa & impulsiona para frente…
 
fica-nos o que nos importa. fica-nos o que nos exporta.
 
(que o poema pulse & nos impulsione para frente!)
 
leve este poema consigo. guarde na carteira. cole no espelho.
 
(a gente nunca sabe quando vai precisar…)
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: O menos vendido. autor: Ricardo Silvestrin. editora: Nankin Editorial.)
 
 
 
decantar os sentimentos
nem tudo que se sente
                             é de cantar
 
recolher no fundo
do recipiente (antes que voe)
o mais pesado
                             que o ar
 
ampliar na microlente
o desconforto, evidente,
entre a vida que se leva
e a que não se sabe
                             se virá
 
inventar um novo plano,
como no cinema, um novo ângulo,
que tudo se transforma
                             pelo olhar
 
 
 
Não vá esquecer este poema
como se esquecem os nomes
um encontro
o número do telefone
Não vá esquecer
e tudo é esquecimento
(exceto o que pulsa
o que impulsiona pra frente)
Leve este poema consigo
guarde na carteira
cole no espelho
A gente nunca sabe
quando vai precisar de um poema

FILOSOFIA DE PASSAGEM: NÃO AO SENÃO
28 de março de 2012

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quando o tempo tem tempo e chega em tempo de me dar algum tempo para pensar, procuro ver a luz do pensamento que brilha de uma forma singular.

 
quando, com tempo para pensar, procuro ver o que um pensamento pode me trazer de extra-ordinário, caço o que o pensamento pode me trazer de “achados”.
 
pensando alguma coisa, desvelo, com prazer, cada momento desse pensar. pensando alguma coisa, desenrolo o fio condutor do raciocínio, passo a passo, procurando nunca perder o fio da meada.
 
mas se a busca por uma idéia singular me traz só ar & vento, isto é, se no desenrolar do fio do pensamento que me proponho perco a meada, isto é, se a busca por uma idéia singular não dá em nada muito produtivo (só ar & vento), deixo o vento sair, deixo o vento circular no meu entorno.
 
e, apesar de ficar sufocado no deserto (de idéias infecundas), num deserto de idéias a pairar (no ar, no vento), procuro reparar, ver de mais perto (por uma questão de método, de princípio, de rigor), estas idéias infecundas: porque sob o peso, ainda que pouco, ainda que ralo, ainda que leve, ainda que árido, da aragem, porque sob o peso do vento & do ar que restam da tentativa de um pensamento raro, a pulsar pode estar uma idéia com valor.
 
atentemos ao que nos passa à mente. porque, na mente, pode nos ocorrer uma idéia fabulosa a partir de um terreno aparentemente desértico, uma idéia fabulosa pode acontecer a partir de um terreno aparentemente árido, uma idéia fabulosa pode nos surgir a partir do pouco que restou de um exercício intelectual.
 
a partir de um terreno aparentemente desértico, pode nos ocorrer uma idéia de valor:
 
afiar a faca do vento, e, com ela, cortar o pulso do “senão”, cortar o pulso da conjunção “adversativa”, cortar o pulso da conjunção que serve para sinalizar oposição, para sinalizar o que é contrário: para sinalizar o que impede, o que “não”.
 
e, assim, cortando o pulso do senão, cortando o pulso daquilo que impede, desapertar o coração com o nó do pensamento.
 
sempre digo: razão & sentimento nascem de naturezas divergentes, contudo podem perfeitamente convergir, podem caminhar juntos, em harmonia.
 
pensar uma questão sentimental, as suas nuances, as armadilhas armadas para si mesmo, colabora na melhor vivência dos sentimentos, por exemplo.
 
pensar pensar pensar uma questão sentimental (por exemplo), até que o pensar, de tão pensado, se assente no sentimento: desapertar o coração com o nó do pensamento.
 
pois o “senão” (que serve para sinalizar oposição, para sinalizar o que é contrário, aquilo que “não”) que sufoca a vida de uma pessoa, e se adensa como breu (manchando as vontades, os desejos), e ameaça com a forca (fazendo morrer vontades, morrer desejos, morrer pessoas, pessoas que se transformam em tristes & amargas, infelizes), e põe as garras ao léu (e põe as garras na ocasião mais oportuna), o “senão” (conjunção adversativa, aquilo que obstrui, aquilo que sempre conjugado ao “não”) pede a faca no pescoço, o “senão” pede o fio da navalha, desde a pele até o osso, faca & navalha no “senão”, da pele até o osso, faca & navalha no “senão” por inteiro, de cabo a rabo:
 
porque, mesmo sendo dura a vida, mesmo a vida sendo árdua, mesmo sendo difícil, vale mais do que perdida.
 
afinal, a oportunidade única de existência é esta aqui que temos. e já que estamos aqui, na vida, mais vale aproveitá-la que perdê-la, mais vale dançar ao som da banda, vivenciando-o na rua, seguindo ao seu lado, que ver a banda passar, cantando coisas de amor, do alto da janela, ausentando-se ao máximo das experiências mundanas (ainda que muitas das experiências vida afora sejam dolorosas, machuquem fundo, muitas dessas experiências são deveras valiosas, ensinam bastante). 
 
feliz ou infelizmente, não sei, aprende-se muito com a dor.
 
mais vale aproveitar a vida que perdê-la.
 
pois que, naturalmente, tudo, na vida, é um incessante perder.
 
é só pensar: quanto mais passos dados, menos estrada a percorrer. quanto mais dias vividos, menos dias a se viver.
 
vivências & mais vivências & um turbilhão de fatos na memória. 
 
das águas corredias da memória, águas que não cessam a corrida, emergem os liames da incerteza, das águas corredias da memória emerge tudo aquilo que retido ficou na rede da incerteza: os liames da incerteza retêm lendas, mitos & a história da humanidade, os liames da incerteza retêm a beleza das artes, a beleza dos ofícios, da cultura, a beleza de terras fecundas e até sáfaras (terras infecundas, terras desérticas, terras pedregosas), lugares que foram e que serão (as terras fecundas & as sáfaras) a sepultura de quem partiu do fio das diásporas (diáspora: dispersão de um povo em conseqüência de preconceito ou perseguição política, religiosa ou étnica).
 
é veloz o decurso da vida: um dia após o outro e, de repente, num susto!, já fomos…
 
e o que sobra da nossa despedida (matéria fétida & putrefata para o banquete dos vermes, restando de nós, após o repasto, apenas os ossos), oxalá fosse pasto de semente, o que sobra da nossa despedida, quisera eu fosse lugar adequado ao plantio de semente: se assim o fosse, de nós, a vida brotaria mais uma vez. 
 
de novo sentiríamos o sol: quem sabe se flor, quem sabe se rouxinol.
 
portanto: aproveitemos enquanto há tempo!
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do blog: A espessura do tempo. url: http://domingosmota.blogspot.com.br/. autor: Domingos da Mota.)
 
 
 
FILOSOFIA
 
 
Quando o tempo tem tempo e chega a tempo
de me dar algum tempo pra pensar,
procuro ver a luz do pensamento
que brilha de uma forma singular
 
Desvelo com prazer cada momento,
num silêncio profundo, a meditar
Mas se a busca me traz só ar e vento,
deixo o vento sair, e apesar
 
de ficar sufocado no deserto,
num deserto de ideias a pairar,
procuro reparar, ver de mais perto
 
Por método, princípio, rigor:
sob o peso da aragem, a pulsar,
pode estar uma ideia com valor
 
 
 
O SENÃO
 
 
Afia a faca do vento
corta os pulsos ao senão
com o nó do pensamento
desaperta o coração
 
pois o senão que sufoca
e se adensa como breu
e ameaça com a forca
e põe as garras ao léu
 
pede a faca no pescoço
pede o fio da navalha
desde a pele até ao osso
(ou o diabo que o valha);
 
mesmo sendo dura a vida
vale mais do que perdida
 
 
 
SONETO DE PASSAGEM
 
 
Das águas corredias da memória
emergem os liames da incerteza:
retêm lendas, mitos e a história
das crenças, das ideias e a beleza
 
das artes, dos ofícios, da cultura,
e de terras fecundas e até sáfaras
que foram ou serão a sepultura
de quem partiu do fio das diásporas.
 
É veloz o decurso desta vida:
um dia após o outro, e de repente
já fomos, e o que sobra à despedida
oxalá fosse pasto de semente:
 
de novo sentiríamos o sol,
quem sabe se flor, se rouxinol.

A PROVA
10 de novembro de 2011

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do outro lado da porta,
 
certo homem deixa tombar sua corrupção.
 
do outro lado da porta, silêncio frio,
 
um homem deixa tombar sua deterioração, deixa tombar sua decomposição física, sua putrefação.
 
é inútil, entende o homem, elevar, esta noite, uma prece a seu curiosíssimo deus, deus que é três — o pai o filho o espírito santo — e que, ao mesmo tempo, é dois, e também um.
 
o homem entende que, esta noite, é inútil elevar uma prece a seu intrigante deus, deus que se julga, que acredita ser, imortal, porque seu intrigante deus não pode livrá-lo do seu destino fatal.
 
(o homem compreende que o seu deus nada pode fazer, que o seu deus não o livrará do vôo do pássaro definitivo, pássaro que passa, passara & passará, pássaro que nos retalha & nos faz sangrar com sua derradeira bicada, não havendo cicatrização para este rumo.)
 
agora o homem ouve a profecia, ouve a previsão, de sua morte (ouve o canto do pássaro que vem ao seu encontro), e sabe que é um animal assentado, animal pousado, animal firmado, na sua parca condição corrompível, condição mortal.
 
tu és, irmão, esse homem.
 
tu & eu somos esse homem.
 
essa, a condição de todos nós, seres corruptíveis; essa, a nossa condição, frutos que somos com tempo de início & tempo de fim.
 
agradeçamos os vermes & o esquecimento (já que não adianta lutar contra o inevitável) e aproveitemos a vida enquanto vida houver, aproveitemos a vida, senhores, enquanto não for fechada (a trinco) a última porta.
 
aproveitemos.
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Poesia. autor: Jorge Luis Borges. tradução: Josely Vianna Baptista. editora: Companhia das Letras.)  
 
 
 
A PROVA
 
 
Do outro lado da porta certo homem
deixa tombar sua corrupção. É inútil
elevar esta noite uma prece
a seu curioso deus, que é três, dois, um,
acreditando-se imortal. Agora
ouve a profecia de sua morte
e sabe que é um animal assentado.
Tu és, irmão, esse homem. Agradeçamos
os vermes e o esquecimento. 

AS ESTAÇÕES, SEUS FRUTOS, E O PÁSSARO QUE PASSA, PASSARA & PASSARÁ
9 de novembro de 2011

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anuncia-se a luz: a aurora de um novo dia.
 
o sol, o puro sol, verte-se sobre nós & a terra, desencantando cores:
 
frutos vivos: o mar, a flor, o bicho, a criança, a vida que, por todos os lados, se pronuncia em sua forma ao sol informe.  
 
o mar, a flor, o bicho, a criança: a vida, força em ciclo, ciclo ininterrupto, ciclo contínuo, assim como as estações do ano, que, todo ano, descobrem-se, descortinam-se, desvelam-se, à existência.
 
mas (como tudo na vida tem um “porém”…),
 
há o “estar” das coisas, há o “estar” do corpo, há o ser “em um dado momento”, há o achar-se “em certa condição”: há o tempo & sua durabilidade, sua finitude, há o tempo de ínício & o tempo de fim. 
 
há o cilco das coisas: os frutos, com seu peso & sua forma, apodrecem.
 
os frutos apodrecem e há quem os coma: o pássaro definitivo.
 
o pássaro definitivo: pássaro que passa, pássaro que passara, pássaro que passará. não há quem possa contra sua passagem.
 
por isso, não o procuremos: ele, um dia, uma hora, nos elegerá.
 
passado o pássaro, nunca a nossa atmosfera será a mesma, pois sustentamos, com as nossas vivências, o vôo que nos sustenta. sem elas, sem as nossas vivências, que funcionam como nossas asas, não alçamos vôo & quedamos, e, quedando, somos capturados, no ar, pelo bico do pássaro.
 
o pássaro é lúcido, porque transparente, porque diáfano (ninguém o vê), e porque exato, preciso, categórico (ao nos capturar); o pássaro é lúcido & nos retalha. sangramos. e nunca haverá cicatrização possível para este rumo (o de sermos retalhados & engolidos pelo pássaro).
 
este pássaro é reto. sempre na mesma direção, sempre a traçar a mesma rota, o mesmo caminho, sem curvaturas, sem inflexões.
 
o pássaro arquiteta o real sendo ele o próprio real: a realidade nua & crua, sem rodeios.
 
o pássaro em nossos caminhos é a única grande certeza que temos na vida.
 
nunca saberemos tanta pureza: pássaro a nos devorar aos poucos, dia a dia, até a bicada final, enquanto cantamos o seu canto, o canto da vida.
 
na luz do vôo profundo, um dia, existiremos neste pássaro: por enquanto, enquanto existência houver, é ele que vive em nós, é ele, o pássaro, que nos habita, latente.
 
aproveitemos, portanto, enquanto os ciclos & as estações não se encerram aos nossos olhos, aproveitemos enquanto o pássaro não nos eleger, e alcemos vôos altos, altíssimos, a fim de paisagens mais vastas, a fim de paisagens mais claras, a fim de paisagens panorâmicas, vôos que nos permitam uma apreciação mais ampla — e, por isso, mais brilhante — das paisagens que nos circundam. 
 
beijo todos!
paulo sabino.      
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(do livro: Poesia reunida [1969-1996]. autora: Orides Fontela. editoras: 7Letras / Cosac Naify.)
 
 
 
AS ESTAÇÕES
 
 
Anuncia-se a luz
 
 
e o puro Sol
o Sol informe
verte-se
                        desencantando cores
                        frutos vivos
                        — força em ciclo descobrindo-se.
 
                               … mas
                           
                                                   há o estar da pedra
                                                   há o estar do corpo
                                                   há peso e forma: os frutos
                                                                                apodrecem.
 
 
 
 
SETE POEMAS DO PÁSSARO 
 
 
I
 
O pássaro é definitivo
por isso não o procuremos:
ele nos elegerá.
 
 
II
 
Se for esta a hora do pássaro
abre-te e saberás
o instante eterno.
 
 
III
 
Nunca será mais a mesma
nossa atmosfera
pois sustentamos o vôo
que nos sustenta.
 
 
IV
 
O pássaro é lúcido
e nos retalha.
Sangramos. Nunca haverá
cicatrização possível
para este rumo.
 
 
V
 
Este pássaro é reto;
arquiteta o real e é o real mesmo.
 
 
VI
 
Nunca saberemos
tanta pureza:
pássaro devorando-nos
enquanto o cantamos.
 
 
VII
 
Na luz do vôo profundo
existiremos neste pássaro:
ele nos vive.

VIRGEM
1 de novembro de 2011

Farol da ilha de Porer (Croácia)

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INOCENTES DO LEBLON   (Carlos Drummond de Andrade)

 

Os inocentes do Leblon
não viram o navio entrar.
Trouxe bailarinas?
trouxe imigrantes?
trouxe um grama de rádio?
Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram, 
mas a areia é quente, e há um óleo suave
que eles passam nas costas, e esquecem.

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praia de ipanema. posto 9. horário de verão. 19h10.

caminhando na areia, há poucos dias, tendo, às costas, as pedras do arpoador, à frente, os morros dois irmãos & a favela do vidigal, atrás dos dois irmãos, a pedra da gávea, à direita, na beira-mar, o hotel marina, e tendo o sol, já caído atrás das montanhas, pintando o céu azul em tons de alaranjado, este verso brotou na minha garganta, ganhando a minha voz, que o repetiu alto, numa espontaneidade genuína:

“as coisas não precisam de você”.

logo em seguida, o seguinte:

“quem disse que eu tinha que precisar?”

as luzes brilham no vidigal & não precisam de você.

as luzes das casas, das ruas, cintilam no morro do vidigal, compondo o cenário, lindas, e não precisam de você para brilhar, não precisam de você para cintilar.

não precisam de você, não precisam de ninguém, não precisam de nada.

os (morros) dois irmãos, e sua beleza, e sua imponência frente à paisagem, também não precisam de você para serem belos & imponentes.

o hotel marina, à beira-mar, aceso por volta das 19h10 do horário de verão carioca, quando acende, não é por nós dois nem lembra o nosso amor.

os inocentes do leblon, a que se refere drummond no poema citado, os inocentes do leblon, ignorantes imersos em suas pequenas questões, imersos no óleo suave que passam nas costas, para relaxamento, quando dispostos na areia quente & fofa, os inocentes do leblon, que não vêem nada, que não vêem o navio entrar nem tampouco saberiam que tipo de carga o navio carrega, que , na verdade, não se interessariam em ver ou saber da entrada do navio, os inocentes do leblon, que esquecem tudo que não esteja ao alcance do seu umbigo & dos seus interesses, estes não sabem de você, nem vão querer saber.

as coisas não precisam de você, não precisam de ninguém, não precisam de nada.

as coisas, no mundo, existem independentes de mim, independentes de vocês, independentes de nós.

e isso, no fundo, é bom. isso, no fundo, é o melhor, pois significa que, para ser feliz, para estar bem, para admirar o belo que me cerca, não dependo de nada nem de ninguém.

dependo de mim.

a vida gosta de quem gosta da vida.

as belezas estão no mundo, dispostas, disponíveis, a quem quiser sorvê-las, a quem souber aproveitá-las.

(os dois irmãos, as luzes no vidigal, o hotel marina aceso na orla, as luzes alaranjadas do pôr do sol, as gaivotas & fragatas que partem na direção das pedras, e mais o que houver.)

a constatação de que o bem-estar, a felicidade, dependem apenas de nós, dependem de bancarmos as nossas escolhas, doam a quem doer, em prol do nosso bem-estar, em prol da nossa felicidade, em prol das coisas que verdadeiramente nos fazem bem.

virgem: virgo: o sexto signo do zodíaco, relativo aos que nascem entre 23 de agosto & 22 de setembro.

virgem: o que é puro, intocado. desconhecido. o que não foi usado. o que é isento. o que é:

livre.

(as coisas não precisam de você, não precisam de ninguém, não precisam de nada.)

a constatação de que dependemos apenas de nós, seres solitários que somos, ainda que tenhamos o sentimento do mundo, no percurso de buscar & lutar por aquilo que nos encanta os olhos, espelhos da alma.

e o meu farol, o farol desta ilha que sou (território-império em meio a um mar de possibilidades), o farol da ilha só gira agora por outros olhos & armadilhas:

o farol da ilha procura, agora, outros olhos & armadilhas…

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Guardar. autor: Antonio Cicero. editora: Record.)

 

 

VIRGEM

 

As coisas não precisam de você:
Quem disse que eu tinha que precisar?
As luzes brilham no Vidigal
E não precisam de você;
Os dois irmãos
Também não.
O Hotel Marina quando acende
Não é por nós dois
Nem lembra o nosso amor.
Os inocentes do Leblon,
Esses nem sabem de você
Nem vão querer saber
E o farol da ilha só gira agora
Por outros olhos e armadilhas:
O farol da ilha procura agora
Outros olhos e armadilhas.

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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Virgem. artista & intérprete: Marina Lima. canção: Virgem. Letra: Antonio Cicero. Música: Marina Lima. gravadora: Universal Music.)

O LEGADO DA TRAVESSIA
13 de outubro de 2011

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madrugada.
 
viajante que sou, homem dado às nuances do mundo, às observações do entorno,
 
parto sem norte, parto sem traçar direção, deixando que o caminho fale por mim, no pouco mar da aurora que nos cabe, mar pouco porque escassas as águas desta nossa vida, vida tão breve, tão curta.
 
viajante que sou, parto, avante, lerda ave, parto, pássaro vagaroso (vagaroso porque sigo a minha rota de olho no meu entorno), fugindo do tempo que não me deixa dele fugir.
 
lerda ave, pássaro vagaroso, o meu sentido, o meu norte, é somente a viagem: nem partida, nem retorno: só o vôo, breve, vôo de uma existência riscando a tarde. 
 
viajo, lerda ave, viajo, senhor das velas, senhor do sextante (instrumento que permite medir, a bordo de um navio, a altura dos astros e suas distâncias angulares), viajo, senhor das estrelas. e, no percurso, o que me falta é chegar, coisa que não almejo, pois o bom da viagem é justamente a estrada, que vamos construindo passo a passo, no dia-a-dia, dia-a-dia que passa como passa o passarinho, dia-a-dia que passa como passam o sonho & o desespero. 
 
a hora, descarnada, a hora, etérea, não lembra, não tarda, não falha: a hora passa. ela nomeia a todos, convoca os deuses (à lida da vida), e, sem demora, vira a página.
 
hora passada, página virada, assunto encerrado, capítulo escrito & deixado para trás, capítulo que não mais pode ser relido.
 
frente ao tamanho do mar existencial, as águas que temos a percorrer são parcas. é pequeno & breve o destino do seu sonho, e do meu.
 
portanto, se pequeno & breve o destino dos nossos sonhos, trilhemos o caminho na certeza de que fazemos o melhor por nós. 
 
este é o único legado nosso à posteridade: mostrar-lhe o quanto tudo pode ser melhor se, de fato, fazemos o melhor por nós.
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: A chave do mar. autor: Fernando Moreira Salles. editora: Companhia das Letras.)
 
 
 
MADRUGADA
 
 
Viajante
parto
no pouco mar
desta aurora
 
Parto
sem norte
lerda ave
fugindo do tempo
 
 
 
AVE
 
 
Nem partida
nem retorno
o voo breve
riscando a tarde
 
 
 
TRAVESSIA
 
 
Nesta nau
trago imagens
e a brisa
que me sopra
 
Viajo
senhor das velas
do sextante
e das estrelas
      Só me falta
      chegar
 
 
 
DO TEMPO
 
Para José Mindlin
 
 
Hora descarnada
não lembra
não tarda
hora rasa
nomeia a todos
convoca os deuses
e sem demora
vira a página
 
 
 
LEGADO
 
 
Não há dor
partilhável
nem lamento
que se ouça
 
É pequeno
o destino
do teu sonho
e do meu
 
Se alguém
te viu passar
se o caminho
te pertence
    segue
e sorri

UMA CRIATURA: LUA NOVA, MINHA MUSA
8 de setembro de 2011

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sei de uma criatura antiga, muito antiga, que devora os próprios membros & entranhas com a sofreguidão da fome insaciável.
 
a criatura habita, ao mesmo tempo, os vales & as montanhas. no mar, espreguiça-se em convulsões.
 
a criatura traz, na fronte, o obscuro despotismo. é ela que sempre dá a palavra final, por isso parece estar entre o amor & o egoísmo.
 
a criatura contempla, friamente, o desespero & o gozo; gosta do colibri assim como gosta do verme, e põe ao redor do seu coração o belo & o monstruoso.
 
duas realidades divergentes — o belo & o monstruoso — coexistem no coração da criatura.
 
para ela, o chacal é tão inerme, tão inofensivo, quanto um passarinho, e passeia na terra, imperturbável criatura, como caminha um paquiderme num vasto areal.
 
a criatura está em toda obra: cria & destrói.
 
a criatura, depois de fazer rebentar o primeiro gomo numa árvore, e fazer vir a folha, que lenta se dosdobra, para então a flor e, por último, o suspirado pomo, a criatura, depois de todo esse trabalho de realizações, a criatura cresta, queima, o seio da flor e corrompe-lhe o fruto.
 
(é nesse “destruir” que as suas forças se renovam & dobram.)
 
a criatura ama de igual amor o poluto & o impoluto, ama de igual amor o belo & o monstruoso, e seu despotismo habita um lugar entre o amor & o egoísmo, entre a bondade & a brutalidade.
 
a criatura começa & recomeça numa lida perpétua.
 
a criatura déspota: a vida.
 
começar & recomeçar: eis o ciclo infindo da vida; inicia & finda, finda & inicia, como a lua, que, do crescente ao miguante, varia.
 
começar & findar, findar & recomeçar: eis os ciclos da vida & da lua.
 
lua nova: na teogonia indígena, “jaci”, mãe dos frutos, deusa que presidia a vida vegetal, a quem os indígenas faziam grandes festas, com comida & bebida, cantos & danças.
 
jaci, mãe dos frutos: lua nova, lua cujo rosto é encoberto por um amplo véu, deixando à mostra somente um filete do seu brilho.
 
lua nova, lua que apresenta, e representa, um novo ciclo, lua que representa o renascimento, que representa o novo início:
 
jaci, vós que sois mãe dos frutos,
 
abençoai os meus. que os frutos que vos sirvo possam saciar a fome de quem desejar comê-los.
 
que, na dura peleja, o olho adverso, o olho divergente, o olho indesejado, não veja este braço cair frouxo, que os frutos-poemas alcancem, sempre, a minha mão.
 
na dura peleja, seja mais longa a vida, seja mais duradoura a jornada, e que, durante o percurso, exista o benefício de ver vencidos os arcos contrários.
 
jaci, mãe dos frutos, peço a vós o vosso germe, germe que faz brotar, enfolhar, verdejar, germe que se abre em flor.
 
que vingue o vosso germe fecundo em mim, mãe dos frutos, em mim & em minha musa.
 
minha musa:
 
é ela que inspira meus cantos.
 
é doce & risonha, se o amor lhe sorri.
 
é grave & saudosa, se a saudade lhe carpir.
 
a musa me inspira os meus cantos de prece, cantos de prece endereçados à “criatura”; a musa desperta a crença de que, um dia, tudo tudo tudo vai dar pé, de que, um dia, o brasil (terra gigante, meu berço infantil, um nome de afetos na idéia) faça jus aos tantos brasileiros que lutam por um lugar melhor para todos.
 
a musa que inspira meus cantos é LIVRE.
 
 a musa que inspira meus cantos DETESTA os preceitos da opressão.
 
a musa que inspira meus cantos ABOMINA rótulos & conchavos.
 
a musa que inspira meus cantos não está comprometida com “panelinhas”, nem com “grupinhos”, nem com estilo & escola literários.
 
a minha musa é deveras severa; ela está comprometida, unica & exclusivamente, com a poesia.
 
o aroma da esperança, o aroma de tempos melhores, que recende, que exala, na minha alma, é a musa que aspira, no cálix (no cálice) da flor.
 
é a musa que me acende o estro (o entusiasmo artístico, o gênio criador) na fronte.
 
é a musa que inspira meus versos de amor.
 
(de amor à vida & às suas ambientações.)
 
beijo todos!
paulo sabino. 
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(do livro: A poesia completa. autor: Machado de Assis. organização: Rutzkaya Queiroz dos Reis. editoras: Edusp / Nankin Editorial.)
 
 
 
UMA CRIATURA
 
Sei de uma criatura antiga e formidável,
Que a si mesma devora os membros e as entranhas,
Com a sofreguidão da fome insaciável.
 
Habita juntamente os vales e as montanhas;
E no mar, que se rasga, à maneira de abismo,
Espreguiça-se toda em convulsões estranhas.
 
Traz impresso na fronte o obscuro despotismo,
Cada olhar que despede, acerbo e mavioso,
Parece uma expansão de amor e de egoísmo.
 
Friamente contempla o desespero e o gozo,
Gosta do colibri, como gosta do verme,
E cinge ao coração o belo e o monstruoso.
 
Para ela o chacal é, como a rola, inerme;
E caminha na terra imperturbável, como
Pelo vasto areal um vasto paquiderme.
 
Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo
Vem a folha, que lento e lento se desdobra,
Depois a flor, depois o suspirado pomo.
 
Pois essa criatura está em toda a obra:
Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto;
E é nesse destruir que as suas forças dobra.
 
Ama de igual amor o poluto e o impoluto;
Começa e recomeça uma perpétua lida,
E sorrindo obedece ao divino estatuto.
Tu dirás que é a Morte: eu direi que é a Vida.
 
 
 
LUA NOVA
 
Mãe dos frutos, Jaci, no alto espaço
Ei-la assoma serena e indecisa:
Sopro é dela esta lânguida brisa
Que sussurra na terra e no mar.
Não se mira nas águas do rio,
Nem as ervas do campo branqueia;
Vaga e incerta ela vem, como a ideia
Que inda apenas começa a espontar.
 
E iam todos; guerreiros, donzelas,
Velhos, moços, as redes deixavam;
Rudes gritos na aldeia soavam,
Vivos olhos fugiram pr’a o céu:
Iam vê-la, Jaci, mãe dos frutos,
Que, entre um grupo de brancas estrelas,
Mal cintila: nem pode vencê-las,
Que inda o rosto lhe cobre amplo véu.

E um guerreiro: “Jaci, doce amada,
Retempera-me as forças; não veja
Olho adverso, na dura peleja,
Este braço já frouxo cair.
Vibre a seta, que ao longe derruba
Tajaçu, que roncando caminha;
Nem lhe escape serpente daninha,
Nem lhe fuja pesado tapir.”

E uma virgem: “Jaci, doce amada,
Dobra os galhos, carrega esses ramos
Do arvoredo co’os frutos que damos
Aos valentes guerreiros, que eu vou
A buscá-los na mata sombria,
Por trazê-los ao moço prudente,
Que venceu tanta guerra valente,
E estes olhos consigo levou.”

E um ancião, que a saudara já muitos,
Muitos dias: “Jaci, doce amada,
Dá que seja mais longa a jornada,
Dá que eu possa saudar-te o nascer,
Quando o filho do filho, que hei visto
Triunfar de inimigo execrando,
Possa as pontas de um arco dobrando
Contra os arcos contrários vencer.”

E eles riam os fortes guerreiros,
E as donzelas e esposas cantavam,
E eram risos que d’alma brotavam,
E eram cantos de paz e de amor.
Rude peito criado nas brenhas,
— Rude embora, — terreno é propício;
Que onde o germe lançou benefício
Brota, enfolha, verdeja, abre em flor. 

 
 
 
MINHA MUSA
 
A Musa, que inspira meus tímidos cantos,
É doce e risonha, se amor lhe sorri;
É grave e saudosa, se brotam-lhe os prantos,
Saudades carpindo, que sinto por ti.
 
A Musa, que inspira-me os versos nascidos
De mágoas que sinto no peito a pungir,
Sufoca-me os tristes e longos gemidos,
Que as dores que oculto me fazem trair.
 
A Musa, que inspira-me os cantos de prece,
Que nascem-me d’alma, que envio ao Senhor,
Desperta-me a crença, que às vezes dormece
Ao último arranco de esp’ranças de amor.
 
A Musa, que o ramo das glórias enlaça,
Da terra gigante — meu berço infantil,
De afetos um nome na ideia me traça,
Que o eco no peito repete: — Brasil!
 
A Musa, que inspira meus cantos é livre,
Detesta os preceitos da vil opressão,
O ardor, a coragem do herói lá do Tibre,
Na lira engrandece, dizendo: — Catão!
 
O aroma da esp’rança, que n’alma recende,
É ela que me aspira, no cálix da flor;
É ela que o estro na fronte me acende,
A Musa que inspira meus versos de amor!

NA TRAVESSIA, A SINA VIOLEIRA
20 de maio de 2011

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não é o ninho o lar do passarinho.
 
do passarinho, o lar é o ar.
 
é no ar, plainando, é no ar, traçando as suas rotas, é no ar, desbravando as suas travessias, que vivem os passarinhos. 
 
o ninho é somente dormitório e lugar à cria. mesmo quando passarinho quer descansar, durante o dia, passarinho procura um galho de árvore por folhas encoberto, bem protegido.
 
o lar do passarinho é o ar.
 
e percebam: a palavra “lar”, que também significa “abrigo”, a palavra “lar“, concretamente, abriga o lar dos passarinhos: o ar.
 
assim como os lares dos passarinhos, as nossas moradas se fazem nas nossas travessias, se arquitetam nos caminhos que desbravamos mundo afora, nas rotas que construímos (& que desfazemos) durante a caminhada.
 
a vida é um eterno atravessar…
 
(eles passarão, e eu, passarinho – rs!)
 
a vida é um eterno traçar de rotas. avante sempre, sempre um outro momento: o que é, já foi, e o que será, um dia é, e se vai.
 
nesta travessia, o que eu quero?
 
respondo: eu quero a sina violeira.
 
eu desejo a sina violeira, eu almejo o destino correlacionado às composições musicais, na viola, a sina correlacionada aos violeiros modos (& às modas da viola): 
 
quero viver de “desafio”;
 
amar de “improviso”;
 
e morrer de “repente”.
 
(“desafio”, “improviso” & “repente”: modos & trejeitos que a viola comporta.)
 
eu quero desafios, eu quero improvisos, & eu quero inesperados.
 
uma travessia onde o momento dite o momento, uma travessia onde o dia diga o dia.
 
viver dia após dia, viver um dia de cada vez, e vivê-lo, e vivenciá-lo, com todos os seus ineditismos & as suas singularidades.
 
viver cada coisa no seu próprio tempo, no seu próprio “coisa”.
 
portanto, viver sem pragmatismos. (talvez viver apenas com alguns poucos – rs…)
 
beijo todos!
paulo sabino.
 
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(do livro: O homem artificial. autor: Braulio Tavares. editora: Sette Letras.)
 
 
 
TRAVESSIA
 
O lar
 
do passarinho
 
é
 
o ar
 
não
 
é
 
o ninho.
 
 
 
SINA VIOLEIRA
 
 O que eu quero
é viver de desafio
amar de improviso
e morrer de repente.