OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES: VÍDEO (III)
25 de agosto de 2015

Adriano Espínola_Alex Varella_Paulo Sabino_Salgado Maranhão_Antonio Cicero_Antonio Carlos Secchin

(Os poetas participantes do projeto “Ocupação Poética”: Adriano Espínola, Alex Varella, Paulo Sabino, Salgado Maranhão, Antonio Cicero & Antonio Carlos Secchin.)

Paulo Henriques Britto_Paulo Sabino

(Na foto, os xarás: Paulo Henriques Britto & Paulo Sabino.)
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(Um convite a todos: para a 6ª edição do Sarau do Largo das Neves, em Santa Teresa, Rio de Janeiro, em frente ao bar Alquimia, nesta quinta-feira, 27/08, concentração para uns drinques & um bom bate-papo a partir das 19h & as leituras dos poemas a partir das 20h30.)

Aos interessados, vídeo com algumas leituras realizadas durante o projeto “Ocupação Poética”, no teatro Cândido Mendes, em Ipanema (Rio de Janeiro), ocorrido nos dias 31/07, 01/08 & 02/08.

No vídeo abaixo, este que vos escreve recita dois poemas dos participantes da noite de domingo (02/08), Paulo Henriques Britto & Antonio Carlos Secchin, e, na seqüência, o poeta Paulo Henriques Britto recita os cinco sonetos que compõem a série — nada convencional, e genial, bem sacada — “Até segunda ordem”, de sua autoria.

Divirtam-se!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 02/08/2015. Paulo Sabino recita Credo, poema de Paulo Henriques Britto, e O real é miragem consentida, poema de Antonio Carlos Secchin. Paulo Henriques Britto recita os cinco sonetos da série Até segunda ordem, de sua autoria.)

 

CREDO  (Paulo Henriques Britto)

 

Se cada coisa dada a perceber
impõe a crença em sua forma e peso
e cor, e impinge a supersticiosa
aceitação da causa de ela estar
ali e não noutro lugar qualquer,
e ainda mais – a cega convicção
de que esse estar ali é tão real
quanto o se estar aqui a perceber
e elaborar para consumo próprio
(e momentâneo) uma religião inteira
de cores, formas, pesos, causas – tudo
isso que é necessário crer – então
como exigir de nós, que a cada instante
cremos em tanta coisa, ainda mais fé?

 

(Antonio Carlos Secchin)

O real é miragem consentida,
engrenagem da voragem,
língua iludida da linguagem
contra o espaço que não peço.
O real é meu excesso.

 

ATÉ SEGUNDA ORGEM  (Paulo Henriques Britto)

 

(10 de outubro)

Até segunda ordem estão suspensas
todas as autorizações de férias,
viagens, tratamentos e licenças.
É hora de pensar em coisas sérias.

Deve chegar mais um carregamento
até o dia quinze, dezesseis
no máximo. Fui lá em Sacramento,
mas não deu pra encontrar o tal inglês –

será que alguém errou o codinome?
Confere aí com quem organizou
o negócio todo. Bem, amanhã

a gente se fala, que agora a fome
está apertando. (Ah, o padre adorou
o canivete suíço de Taiwan.)

 

(9 de novembro)

Tudo resolvido. O campo de pouso
até que é razoável. Mas o tal de
Carlão, hein, vou te contar. É nervoso,
não sei; parece que sofre de mal de

Parkinson, ou coisa que o valha. Mas isso
é o de menos. O pior é que o “Almirante”
desde terça tomou chá de sumiço.
Não sei que fim levou; é preocupante.

Chegou a encomenda de Lisboa.
O número é 318.
A senha: “O olho esquerdo de Camões

não vale uma epopéia”. (Essa é boa!)
Não agüento mais ter que jantar biscoito.
No mais, tudo bem. Aguardo instruções.

 

(21 de dezembro)

Sim, recebi a carta do João.
Só que o seu telefonema da sexta
já havia alterado a situação
completamente. É, o Bento é uma besta,

Mas você, também… Nessas horas é que se
vê que falta faz um profissional.
Você nunca vai ser como era o Alex.
Mas deixa isso pra lá. O principal

é que o negócio está de pé, ainda.
O que não pode é pôr tudo a perder
a essa altura do campeonato.

Não diga nada, nada, à dona Arminda.
Toma cuidado. Conto com você.
Aguarde o nosso próximo contato.

 

(12 de janeiro)

Por quê que ninguém me deu um aviso?
Pra que que serve essa porra de bip?
Assim não dá. Que falta de juízo,
de… de… sei lá! Eu lá em Arembipe

Dando duro, e vocês aí de pândega!
O deputado, é claro, virou bicho,
e não vai mais ajudar lá na alfândega.
Meses de esforço jogados no lixo!

E agora? E o alvará do “Três Irmãos”?
E os dez mil dólares do Mr. Walloughby?
Não vou nem falar com o doutor Felipe.

Vocês que agüentem o tranco. Eu lavo as mãos.
Se alguém me perguntar, eu tenho um álibi
perfeito: “Eu estava lá em Arembipe”.

 

(19 de janeiro)

Até esta chegar às suas mãos
eu já devo ter cruzado a fronteira.
Entregue por favor aos meus irmãos
os livros da segunda prateleira,

e àquela moça – a dos “quatorze dígitos” –
o embrulho que ficou com o teu amigo.
Eu lavei com cuidado o disco rígido.
Os disquetes back-up estão comigo.

Até mais. Heroísmo não é a minha.
A barra pesou. Desculpe o mau jeito.
Levei tudo que coube na viatura,

mas deixei um revólver na cozinha,
com uma bala. Destrua este soneto
imediatamente após a leitura.

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OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES: OS VÍDEOS II
18 de agosto de 2015

Paulo Sabino

(Paulo Sabino.)

Salgado Maranhão e Alexis Levitin

(Salgado Maranhão & Alexis Livitin.)

Adriano Espínola

(Adriano Espínola.)
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Aos interessados, mais alguns vídeos de algumas leituras realizadas durante o projeto “Ocupação Poética”, no teatro Cândido Mendes, em Ipanema (Rio de Janeiro), ocorrido nos dias 31/07, 01/08 & 02/08.

Abaixo, este que vos escreve na companhia dos mestres Salgado Maranhão & Adriano Espínola, participantes do segundo dia do evento (01/08).

Divirtam-se!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 01/08/2015. Paulo Sabino recita Um rio salgado, poema de Carlos Dimuro.)

 

UM RIO SALGADO  (Carlos Dimuro)

Para Salgado Maranhão

 

Apesar de navegar sereias,
não é doce
o rio que corta
o teu poema.

Sabem-se salgados
os escombros que se escondem
sob as escamas da tua escrita.
E o que em ti é peixe,
se debate em guelras e guerras
numa incansável
respiração boca a boca
com a palavra.

A salinidade ancestral
de tuas águas,
refinada pelos deuses,
tempera o profano:
o sagrado no salgado.

No rio que segue
o curso líquido dos mistérios
da linguagem,
um cardume de versos
anuncia o mar.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 01/08/2015. Salgado Maranhão recita Aboio, poema de sua autoria.)

 

ABOIO  (Salgado Maranhão)

 

Quem olha na minha cara
já sabe de onde eu vim
pela moldura do rosto
e a pele de amendoim
só não conhece os verões
que eu trago dentro de mim.

A vida desde pequeno
sempre cavei no meu chão
da raiz da planta ao fruto
fazendo calos na mão
eu aprendi matemática
descaroçando algodão.

Carcarás, aboios, lendas,
são minha história e destino
tudo que a vida me deu
é tudo que agora ensino
na quebrada do tambor
eu sou velho e sou menino.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 01/08/2015. Salgado Maranhão recita Amorágio II, poema de sua autoria.)

 

AMORÁGIO II  (Salgado Maranhão)

 

Fogo que desata os novelos da vontade. Ignora
o bem, desdenha da verdade. Ponte aérea do
………………………………………………..[Éden
à insanidade. Dança para um circo de anjos
embriagados onde, leão, é também o domador.
Que depois de alçar o trono do esplendor
………………………………………………..[entrega
a própria pele ao caçador.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 01/08/2015. Adriano Espínola recita Os poetas, poema do romeno Lucian Blaga, tradução de Luciano Maia.)

 

OS POETAS (Lucian Blaga / Tradução: Luciano Maia)

 

Não se espantem. Os poetas, todos os poetas são
um único, indiviso, ininterrupto povo.
Falando, são mudos. Pelas eras em que nascem
…………………………………….e morrem,
cantando, estão a serviço de uma fala perdida
…………………………………….há muito.

Profundamente, através de povos que surgem
…………………………………….e desaparecem,
pelo caminho do coração eles sempre vêm e passam.
Por som e palavra eles se separam e competem entre si.
São semelhantes pelo que não dizem.
Eles calam como o orvalho. Como o sêmen. Como
…………………………………….uma saudade.
Como as águas eles silenciam, caminhando sob
…………………………………….a seara,
e deplois sob o canto dos rouxinóis,
fonte se fazem na clareira, fonte sonora.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 01/08/2015. Adriano Espínola recita Praia, poema de sua autoria.)

 

PRAIA  (Adriano Espínola)

 

Se tu queres amar,
procura logo o mar.
Ali enlaça o corpo
salgado noutro corpo.

No azul esquecimento
das águas, vai sedento
beber a luz da carne,
o gozo a pino e a tarde.

Tenta imitar a teia
das ondas e marés.
Dança na branca areia.
Outro será quem és.

OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES: OS VÍDEOS
11 de agosto de 2015

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(Os poetas participantes do projeto “Ocupação Poética”: Salgado Maranhão, Adriano Espínola, Antonio Carlos Secchin, Alex Varella, Antonio Cicero, Paulo Henriques Britto & Paulo Sabino.)
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Aos interessados, alguns vídeos de algumas leituras realizadas durante o projeto “Ocupação Poética”, no teatro Cândido Mendes, em Ipanema (Rio de Janeiro), ocorrido nos dias 31/07, 01/08 & 02/08.

No dia em que foram feitos estes vídeos, no terceiro & último (domingo, 02/08), com a participação dos grandes Antonio Carlos Secchin & Paulo Henriques Britto, prestei uma homenagem ao maior poeta da língua portuguesa, o imensurável & incontornável português Fernando Pessoa. Recitei três poemas em sua homenagem & um poema de sua autoria sob o heterônimo de Bernardo Soares.

Além da homenagem a Pessoa, esta publicação traz o encerramento do projeto, com o mestre Antonio Carlos Secchin recitando um poema inédito de sua autoria, aprontado especialmente para o nosso recital. Poema de cem versos, todo em redondilha menor (versos de cinco sílabas).

Mais vídeos da nossa “Ocupação Poética” serão disponibilizados neste espaço. É só aguardar.

Divirtam-se!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 02/08/2015. Paulo Sabino recita Dita, poema de Antonio Cicero.)

 

DITA  (Antonio Cicero)

Qualquer poema bom provém do amor
narcíseo. Sei bem do que estou falando
e os faço eu mesmo pondo à orelha a flor
da pele das palavras, mesmo quando

assino os heterônimos famosos:
Catulo, Caetano, Safo ou Fernando.
Falo por todos. Somos fabulosos
por sermos enquanto nos desejando.

Beijando o espelho d’água da linguagem,
jamais tivemos mesmo outra mensagem,
jamais adivinhando se a arte imita

a vida ou se a incita ou se é bobagem:
desejarmo-nos é a nossa desdita,
pedindo-nos demais que seja dita.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 02/08/2015. Paulo Sabino recita A Fernando Pessoa, poema de Antonio Carlos Secchin.)

 

A FERNANDO PESSOA  (Antonio Carlos Secchin)

Ser é corrigir o que se foi,
e pensar o passado na garganta do amanhã.
É crispar o sono dos infantes,
com seus braços de inventar as buscas
em caminhos doidos e distantes.
É caminhar entre o porto e a lenda
de um tempo arremessado contra o mar.
Domar o leme das nuvens, onde mora
o mito e a glória de um deus a naufragar.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 02/08/2015. Paulo Sabino recita Pessoana, poema de Paulo Henriques Britto.)

 

PESSOANA  (Paulo Henriques Britto)

Quando não sei o que sinto
sei que o que sinto é o que sou.
Só o que não meço não minto.

Mas tão logo identifico
o não-lugar onde estou
decido que ali não fico,

pois onde me delimito
já não sou mais o que sou
mas tão-somente me imito.

De ponto a ponto rabisco
o mapa de onde não vou,
ligando de risco em risco

meus equívocos favoritos,
até que tudo que sou
é um acúmulo de escritos,

penetrável labirinto
em cujo centro não estou
mas apenas me pressinto

mero signo, simples mito.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 02/08/2015. Paulo Sabino recita o fragmento 451, de Bernardo Soares, heterônimo de Fernando Pessoa.)

 

451.  (Bernardo Soares – heterônimo de Fernando Pessoa)

Viajar? Para viajar basta existir. Vou de dia para dia, como de estação para estação, no comboio do meu corpo, ou do meu destino, debruçado sobre as ruas e as praças, sobre os gestos e os rostos, sempre iguais e sempre diferentes, como, afinal, as paisagens são.

Se imagino, vejo. Que mais faço eu se viajo? Só a fraqueza extrema da imaginação justifica que se tenha que deslocar para sentir.

“Qualquer estrada, esta mesma estrada de Entepfuhl, te levará até ao fim do mundo.” Mas o fim do mundo, desde que o mundo se consumou dando-lhe a volta, é o mesmo Entepfuhl de onde se partiu. Na realidade, o fim do mundo, como o princípio, é o nosso conceito do mundo. É em nós que as paisagens têm paisagem. Por isso, se as imagino, as crio; se as crio, são; se são, vejo-as como às outras. Para quê viajar? Em Madrid, em Berlim, na Pérsia, na China, nos Pólos ambos, onde estaria eu senão em mim mesmo, e no tipo e género das minhas sensações?

A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 02/08/2015. Antonio Carlos Secchin recita Translado, poema inédito de sua autoria.)

 

TRANSLADO (Antonio Carlos Secchin)

“o lado além do outro lado”

 

Tem um lado com

Tem um lado zen

Tem um lado zoom

Outro desfocado

Tem um lado chão

Outro lado alado

Tem um lado não

Tem um lado vim

Tem um lado voz

Tem um lado mim

Tem um lado algoz

Tem um lado sim

Tem um lado sou

Tem um lado quem?

Tem um lado zero

Tem um lado nem

Do lado de lá

Tem um lado além

Tem um lado lei

Toma então cuidado

Vem para apagar

O teu braseado

Tem um lado solto

Tem lado soldado

Esse lado aí

Te deixa confuso

Pronto pra arrochar

Feito um parafuso

O lado soldado

Me deixa lelé

Me imobilizando

Do pescoço ao pé

Frente à solda dura

Eu virei banido

Preso na armadura

Me senti fundido

Quero me sentir

Desencadeado

Com meu lado em

Tudo quanto é lado, a-

brindo um  contrabando na

Contramão da pista eu

Finjo que sou cego

Pra não dar na vista

Eu procuro enfim

Qualquer endereço

Que não me dê um  nó no

Meio do começo

Tem um lado aquém

Bem descontrolado

Tem um lado assim

Tem um lado assado

Um fermenta ali

Outro deste lado

Tem um lado sem

Mesmo acompanhado

Tem um lado tem

Com mais nada ao lado

No meu lado 1

Não fico à vontade

Ele só me dá o

Dobro da metade

Entre o não e o sim

Não quero o talvez, me-

lhor me embaralhar

Junto com esses três

Tem o lado 3

Lado bem  bacana

Desde que caibamos

Quatro numa  cama

Tem o lado light

Esse me seduz

Pois além de leve

Me cobre de luz

Lá no lado dark

Nada é tão festivo

Mas até no inferno

Eu me sinto vivo

Tem um lado mas

Que chega atrasado

Avisando a mim

Que tudo somado

Só resta a raiz

De um metro quadrado

Todo o resto é lero

Para o boi dormir

Múltiplo de zero

Pra me dividir

Entre o lado bom

E meu  lado B

Entre o aqui e o lá

Fico lá e aqui

Sem saber dizer

Onde vou chegar

Nem tentar saber

Que lado seguir

E neste translado

Eu só quero quem

Queira vir comigo a-

lém do verso 100.

OCUPAÇÃO POÉTICA – TEATRO CÂNDIDO MENDES: O EVENTO
4 de agosto de 2015

Poetas Ocupação Poética Cândido Mendes

(Os participantes do projeto “Ocupação Poética”: em pé: Salgado Maranhão, Adriano Espínola, Antonio Carlos Secchin, Alex Varella & Antonio Cicero; abaixados: Paulo Henriques Britto & Paulo Sabino.)

Ocupação Poética_Plateia 2

Ocupação Poética_Plateia

(Casa cheia — platéia do teatro Cândido Mendes.)

Adriana Calcanhotto e Paulo Sabino

(Na platéia, uma das minhas musas, a cantora & compositora Adriana Calcanhotto.)

Ocupação Poética_Geraldo Carneiro & Paulo Sabino

(Paulo Sabino & um dos grandes mestres da poesia, que estava na platéia, Geraldo Carneiro, rosados.)
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Na primeira foto, o TIMAÇO de poetas escalado para o projeto “OCUPAÇÃO POÉTICA – TEATRO CÂNDIDO MENDES” (Ipanema – RJ), acontecido nos dias 31/07, 01/08 & 02/08.

Só CRAQUES! Bateram um bolão!

O projeto foi tão bonito, tão emocionado, tudo deu tão certo, que surgiu a idéia (e o mais bacana: a idéia partiu dos próprios poetas participantes!) de fazermos, neste mesmo formato, um fim de semana em SÃO PAULO!

Estou SUPER animado & vou batalhar para que este desejo (de todos nós!) se torne realidade!

Eu sou PURA GRATIDÃO! Só tenho a agradecer a TODOS OS MESTRES que confiaram em mim, de peito aberto, para a coordenação dos saraus, todos EXUBERANTES!

Vamos que vamos, porque, no que depender de mim, levaremos POESIA aos quatro cantos do mundo!

“A poesia sopra onde quer”, versejou Murilo Mendes. E eu concordo plenamente.

(Em breve, videozinhos com algumas leituras.)

Aos senhores, uma das poesias da seleção do poeta Alex Varella, poesia que fez bastante sucesso na sua leitura. E muito divertida, bem-humorada, leve, como foi todo o evento.

Beijo todos!
Paulo Sabino.

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(autor: Décio Escobar.)

 

 

VICENTE

 

 

Dei à minha morte o nome de Vicente.
Anotei Vicente num cartão
e guardei Vicente no bolso do paletó.
Para cima e para baixo eu ando com Vicente;
Vicente é um silogismo, uma consumição, mas
não chega a ser a dor.
Encontro Vicente quando vou pegar o ônibus,
o lotação, a entrada para o teatro; Vicente
transita de um bolso para outro,
misturou-se com os meus papéis,
o meu passaporte, a minha identidade, o telefone
da Margarida… o diabo.
Vicente anda amarfalhado, apalpado, usado;
dobro e desdobro Vicente.
Um dia
eu perco Vicente
na rua, na praia, no escritório,
e vai e alguém acha Vicente — e pronto, e eu
fico ETERNO.

OCUPAÇÃO POÉTICA – TEATRO CÂNDIDO MENDES
24 de julho de 2015

Antonio Cicero

(Antonio Cicero)

Alex Varella

(Alex Varella)

Salgado Maranhão

(Salgado Maranhão)

Adriano Espínola

(Adriano Espínola)

Antonio Carlos Secchin 6

(Antonio Carlos Secchin)

Paulo Henriques Britto

(Paulo Henriques Britto)
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(Nas fotos, os poetas participantes da “Ocupação Poética – Teatro Cândido Mendes”.)
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Queridos & bem-vindos,

Um convite aos interessados:

A querida amiga Fernanda Oliveira, proprietária & administradora dos cinema & teatro Cândido Mendes (Ipanema – Rio de Janeiro), me procurou dizendo que no fim de semana dos dias 31/07 (sexta), 01/08 (sábado) & 02/08 (domingo), o teatro não terá programação. Para não deixar um fim de semana sem atividade cultural na sala, ela me propôs de eu organizar um sarau com os poetas da minha estima & admiração. A Fernanda me deu carta branca para organizarmos a noite da maneira que quisermos.

Aos senhores, os nomes dos poetas confirmados: Antonio Cicero, Alex Varella, Salgado Maranhão, Adriano Espínola, Antonio Carlos Secchin & Paulo Henriques Britto.

(Só tem fera!)

Abaixo, a divulgação criada para a nossa “Ocupação Poética”.

Esperamos todos!
Paulo Sabino.
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OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES

 

 

No próximo fim-de-semana, de 31/07 a 02/08, o teatro do Centro Cultural Candido Mendes, em Ipanema, receberá uma Ocupação Poética: sarau com grandes mestres da poesia brasileira contemporânea, acompanhados do poeta Paulo Sabino, que coordenará os encontros e leituras. 

Divididos em três noites, seis importantes poetas – Adriano Espínola, Alex Varella, Antonio Carlos Secchin, Antonio Cícero, Paulo Henriques Britto, Salgado Maranhão – lerão obras autorais, inéditas e consagradas, e também textos de outros poetas, numa conversa descontraída que acabará por revelar ao público a importância, em suas vidas, das leituras escolhidas.

As datas e os participantes:

 

Sexta-feira (31/07)ANTONIO CICERO / ALEX VARELLA

Sábado (01/08)SALGADO MARANHÃO / ADRIANO ESPÍNOLA

Domingo (02/08)ANTONIO CARLOS SECCHIN / PAULO HENRIQUES BRITTO

Coordenação: PAULO SABINO

Sobre os participantes:

Paulo Sabino: Poeta, escritor, e entusiasta da poesia e da prosa poética, desde 2009 mantêm o blog https://prosaempoema.wordpress.com/ , um dos mais lidos da área, onde regularmente se dedica a selecionar e analisar as mais belas obras de autores nacionais e estrangeiros, de todas as gerações e estilos. Paulo Sabino também organiza e promove o Sarau do Largo das Neves, em Santa Teresa, que acontece sempre na penúltima 5ª-feira de cada mês.

Adriano Espínola: poeta e professor de Literatura, lecionou na UFC (Universidade Federal do Ceará), na Université Stendhal Grenoble III e na UFRJ. Recentemente lançou “Escritos ao sol”, antologia onde reúne alguns dos melhores poemas de sua obra em uma edição considerada definitiva.

Alex Varella: poeta e filósofo, foi professor de Filosofia da UFF e coordenador de Estética e Teoria da Arte do Galpão das Artes do MAM – RJ. É autor de “Sinais”, “Em Ítaca”, e “céu em cima / mar em baixo”.

Antonio Carlos Secchin: poeta, tradutor, crítico literário e professor, além de membro da ABL (Academia Brasileira de Letras). Tem a sua obra reunida em um volume intitulado “Todos os ventos” e, entre outras coisas, foi responsável pela edição em 2 volumes da obra completa da poeta Cecília Meireles.

Antonio Cicero: poeta, letrista e filósofo, começou compondo com a irmã, a cantora Marina Lima. É autor de 3 livros de poesia, “Guardar”, “A cidade e os livros”, e “Porventura”.

Paulo Henriques Britto: poeta, tradutor e professor de Literatura, leciona na PUC – RJ. É autor de diversos livros de poesia e vencedor do prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira e do prêmio Alphonsus de Guimarães da Fundação Biblioteca Nacional.

Salgado Maranhão: poeta e letrista, teve suas letras gravadas por grandes nomes da música brasileira. É autor de diversos livros de poesia & com a compilação de sua obra “Mural de ventos” faturou o prêmio Jabuti.

 

SERVIÇO

 

Ocupação Poética – Teatro Cândido Mendes

Coordenação: PAULO SABINO

Sexta-feira (31/07): ANTONIO CICERO & ALEX VARELLA

Sábado (01/08): SALGADO MARANHÃO & ADRIANO ESPÍNOLA

Domingo (02/08): ANTONIO CARLOS SECCHIN & PAULO HENRIQUES BRITTO

Horário: 20h
Entrada: R$ 5,00
End.: Joana Angélica, 63 – Ipanema, Rio de Janeiro. Tel.: (21) 2523-3663.

PESSOANA
20 de agosto de 2014

Fernando Pessoa_Jovem

(Na foto, o poeta português Fernando Pessoa.)
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uma poesia, uma apresentação textual, “pessoana”, uma poesia, uma apresentação textual, à maneira de (fernando) pessoa:

quando não sei o que sinto, quando não compreendo o que sinto, quando não consigo apreender um sentimento através da razão, sei que o que sinto é (exatamente) o que sou: só o que não meço não minto.

em mim, só o que não consigo medir, só aquilo que não consigo conter, que não consigo calcular, mensurar, analisar, definir, é o que sou exatamente: pois tudo o que consigo medir, tudo o que consigo conter, que consigo calcular, mensurar, analisar, definir, não é o que eu sou mas a interpretação que faço do que sou, através da razão. sendo o que meço, o que controlo, o que calculo, o que mensuro, o que analiso, o que defino, uma interpretação do que sou & não o que eu sou exatamente, a interpretação que alcanço de mim é já, em si, uma inverdade, uma falsidade, uma mentira:

porque passível de muitos erros. porque toda & qualquer interpretação de toda & qualquer coisa nunca será a “coisa em si”.

a interpretação de um sentimento nunca será exatamente o que o sentimento é.

sem a interpretação, sem o entendimento do sentimento, resta apenas o sentimento em si: sem interpretação, não minto: somente sinto.

mas tão logo identifico, tão logo decodifico, tão logo reconheço, o “não-lugar” onde estou, tão logo identifico, decodifico, reconheço, o tipo de desencontro em que me encontro, decido que ali não fico, decido não mais me encontrar em “determinado” desencontro, pois onde me delimito, pois onde me “determino”, já não sou mais o que sou (só o que não meço, não controlo, não calculo, não mensuro, não analiso, não defino — eu não minto) mas tão-somente me imito.

de ponto a ponto, de lugar a lugar por onde vou, sem planejar, traçando os meus passos ao sabor da simples vontade de caminhar, rabisco o mapa de onde não vou, pois só vou por trilhas que desconheço a rota, só vou por trilhas que não sei onde vão dar, só sigo o mapa que silencia o caminho da mina & do tesouro, ligando de risco em risco, isto é, ligando de perigo em perigo, e também ligando de linha em linha (de versos, de prosa), meus equívocos favoritos (o caminhar a esmo, naturalmente, propõe diversos tipos de perigos, diversos tipos de riscos, de equívocos, de erros, que, com o tempo, acumulo em riscos, acumulo em linhas poéticas, acumulo em linhas de prosa), até que tudo que sou é um acúmulo de escritos, de textos por onde me enxergam os senhores, penetrável labirinto em cujo centro não estou (os textos que escrevo não são exatamente o que eu, paulo sabino, sou) mas apenas me pressinto, apenas me percebo, apenas me desconfio, mero signo, mero fenômeno que representa algo diferente de si mesmo: um simples mito.

e, como todos, eu minto meu mito.

(quando não sei o que sinto, sei que o que sinto é o que sou exatamente, pois não há os erros de avaliações, não há os erros de projeções.)

(e a vida, o caminhar, é pura errância, porque a vida é pura interpretação, a vida é pura linguagem, a vida é pura simbologia…)

(só o que não meço, não controlo, não calculo, não mensuro, não analiso, não defino — eu não minto.)

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Trovar claro. autor: Paulo Henriques Britto. editora: Companhia das Letras.)

 

 

PESSOANA

 

Quando não sei o que sinto
sei que o que sinto é o que sou.
Só o que não meço não minto.

Mas tão logo identifico
o não-lugar onde estou
decido que ali não fico,

pois onde me delimito
já não sou mais o que sou
mas tão-somente me imito.

De ponto a ponto rabisco
o mapa de onde não vou,
ligando de risco em risco

meus equívocos favoritos,
até que tudo que sou
é um acúmulo de escritos,

penetrável labirinto
em cujo centro não estou
mas apenas me pressinto

mero signo, simples mito.

ECCE HOMO
27 de fevereiro de 2013

Ecce Homo_Antonio CiseriEcce Homo_Caravaggio

(Nas fotos, os quadros intitulados “Ecce homo”: o primeiro, de Antonio Ciseri; o segundo, de Caravaggio.)
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Ecce homo: segundo o evangelho, palavras ditas por Pilatos ao apresentar Jesus Cristo (flagelado, atado & com a coroa de espinhos) ao povo judeu, nada satisfeito com os seus feitos. Em português significa: “eis o homem”.

Na iconografia cristã (iconografia: “estudo descritivo da representação visual de símbolos e imagens, sem levar em conta o valor estético que possam ter”, dicionário Houaiss), “Ecce homo” é como se chamam as representações de Jesus Cristo em sofrimento.

Suave mari magno: a expressão “mari magno” foi utilizada pelo poeta latino Lucrécio para definir o prazer experimentado por alguém quando este se percebe livre dos perigos a que outros estão expostos.

Machado de Assis possui um poema célebre intitulado “Suave mari magno”, onde são narrados a morte de um cão, na rua, por envenenamento & o prazer silencioso de alguns transeuntes em assistir à triste morte do pobre cão.

Schadenfreude: expressão alemã, empregada em diversas línguas do ocidente, para designar o sentimento de alegria ou satisfação que uma pessoa pode apresentar perante o infortúnio ou tristeza de uma outra pessoa. É a felicidade que algumas pessoas sentem por ver a infelicidade de alguém.
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não ser quem não se é, isto é, ser exatamente o que se é, na justa medida, é coisa trabalhosa.

ser exatamente o que se é (que é o mesmo que não ser quem não se é) é coisa trabalhosa.

pois, para não ser quem não se é, exige-se a disciplina austera & rigorosa de quem, achando pouco simplesmente ser (ser exatamente o que se é), requer o luxo adicional de “parecer”.

as aparências enganam, e as essências também.

as essências enganam porque uma pessoa pode parecer ser essencialmente uma coisa que não é. uma pessoa pode parecer ser, por exemplo, essencialmente delicada & não ser exatamente essencialmente delicada.

e a pessoa que, por exemplo, parece ser essencialmente delicada pode acreditar na própria mentira ao ponto de afirmá-la como uma verdade inquestionável.

as essências enganam, e o “eu” é tão escasso, o “eu” é tão pouco, o “eu” é tão rasteiro, que há que ocupar com alguma coisa tanto espaço (o tanto de espaço que sobra & que acaba por ser preenchido pelo que não se é, pelo que é aparência), e nada como a “negação da negação” para efetuar tão delicada operação.

 
a delicada operação de ocupar com alguma coisa (já que o “eu” é muito escasso) tanto espaço: a “negação da negação”: ocupar um espaço com aquilo que não se é (a negação do ser, o “não-ser”) & acreditar nessa negação (acreditar naquilo que não se é) é, no fundo, negar a negação: a aparência (que é a “negação” do ser) é negada pelo ser como “aparência” & afirmada como “verdade inquestionável”. 
 
o ser afirma-se na aparência, o ser, portanto, afirma-se na sua negação (no “não-ser”).
 
afirmando-se na aparência, o ser acaba por negar a aparência como “aparência”, e veste a máscara, e acredita na mentira que inventa (de si) para si: a negação da negação.
 
e pronto: está completo: o homem feito do ser & do “não-ser”: pronto, completo, no ponto.
 
o homem essencialmente delicado na aparência, assim como um andróide (autômato de figura humana), apresenta-se imune a suave mari magno & Schadenfreude.
 
o homem-robô, o homem previamente programado, o homem que obedece aos comandos previamente arquitetados por sua mente: o homem mais o andróide (autômato que tem figura de homem, cujos movimentos imita): ambos imunes a suave mari magno & Schadenfreude: o ser & o não-ser dentro do homem, na mais perfeita sintonia.
 
o homem: ser & não-ser no mais harmonioso convívio: o ser a ser viço, a ser energia, a ser força, ao não-ser. o ser a serviço, à disposição, do não-ser. o ser a con-viver com a aparência que projeta (de si) para si.
 
use & abuse (da aparência, do não-ser): a coisa vem com garantia: a “coisa”: aquilo que se projeta (de si) para si: a “coisa”: o não-ser, a aparência.
 
use & abuse: a “coisa” (o “não-ser”, a “aparência”) vem com garantia; usando & abusando, a “coisa” vem certamente.
 
use & abuse: a “coisa” vem com garantia: o homem pronto de fábrica, o homem pré-programado, o homem que age sob comandos pré-determinados, o homem feito um produto pré-fabricado (feito um andróide, que é um autômato de figura humana): o luxo adicional de parecer algo que não se é, a procura por alguma coisa que preencha o seu espaço vazio, o homem imune a sentimentos difíceis, complicados, perturbadores, o homem imune a  suave mari magno & Schadenfreude.
 
ecce homo!…
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Formas do nada. autor: Paulo Henriques Britto. editora: Companhia das Letras.)
 

 

ECCE HOMO

 

Não ser quem não se é é coisa trabalhosa.
Exige a disciplina austera e rigorosa

de quem, achando pouco simplesmente ser,
requer o luxo adicional de parecer.

As essências enganam, e o eu é tão escasso
que há que ocupar com alguma coisa tanto espaço,

e nada como a negação da negação
pra efetuar tão delicada operação.

E pronto: está completo. O homem mais o androide,
imune a suave mari magno e Schadenfreude,

ser e não ser na mais perfeita sintonia.
Use e abuse. A coisa vem com garantia.

MATANDO A COBRA & MOSTRANDO O PAU
3 de janeiro de 2013

Prêmio BN

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Biblioteca Nacional lança prêmio de literatura para autores VIVOS & o vencedor é o poeta Carlos Drummond de Andrade.
 
Drummond?? Caramba! Um prêmio, para autor VIVO, recebido pelo Drummond sugere, no mínimo, a descoberta da vida após a morte, correto? Caramba de novo! Alguém me conta: como foi o contato? Mãe Dináh na área? Só espero um convite para uma próxima sessão, adoraria falar com o poeta!
 
Aqui, texto com o que disse o júri:
 
 
“Por que Drummond?
 
A poeta Leila Míccolis, integrante do júri que escolheu ‘Carlos Drummond de Andrade: Poesia 1930-62’, da [editora] Cosac Naify, como vencedor do Prêmio da Biblioteca Nacional de Literatura, diz que preferia ter premiado um poeta vivo. ‘Eu tinha outra escolha, mas respeitei a decisão coletiva.’
 
Seu colega de júri Francisco Orban avalia que caberia à organização decidir se o livro estava habilitado ou não — já que, pelo edital, a inscrição só poderia ser feita pelo autor ou pela editora com autorização por escrito do autor. A BN [Biblioteca Nacional] já manifestou que só analisará o caso se houver recurso de algum concorrente.”
 
 
 E eu, Paulo Sabino, que já escrevi, neste espaço, sobre premiação literária (envolvendo o poeta concretista Décio Pignatari: https://prosaempoema.wordpress.com/2012/12/06/desabafo-acorda-brasil/), concordo (em parte) com o poeta Adriano Nunes:
 
 
“Ora. Ora. Tão absurda a coletiva justificativa como absurda a premiação. O que sinceramente justifica é que os três poetas do júri (diga-se, medianos, com uma poesia já enfadonha e sem acréscimos) optaram (por inveja, claro) não premiar um poeta vivo (mesmo sabendo das regras do concurso) porque é mais fácil e mais óbvio premiar o que já aclamado é.”
 
 
Digo que concordo em parte com o poeta Adriano Nunes apenas porque nunca li nada da poesia dos jurados, de modo que não sei dizer se a poesia deles é enfadonha. Mas, sinceramente: depois desse episódio, VERGONHOSO, não sinto a mínima vontade de ler coisa alguma.
 
O que sei é que o ano de 2012 acolheu uma safra de ÓTIMOS livros de poesia (só para citar alguns): “Porventura”, de Antonio Cicero; “Formas do nada”, de Paulo Henriques Britto; “Sentimental”, de Eucanaã Ferraz; “Céu em cima / Mar em baixo”, de Alex Varella; “Laringes de grafite”, de Adriano Nunes; “Um caderno de capa verde”, de Flávio Morgado.
 
Com tantos LINDOS livros de poesia lançados em 2012, por que a escolha de Carlos Drummond de Andrade (numa premiação especificamente para autores VIVOS)?
 
(Essa é a pergunta que não quer calar…)
 
Acorda, Brasil!

MESMO CIRCULAR, O QUE VIER, APROVEITAR
17 de abril de 2012

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neste mesmo instante, em algum lugar, alguém está pensando a mesma coisa que você estava prestes a dizer.
 
pois é.
 
e esta não é a primeira vez (nem a última).
 
uma mesma piada, uma mesma teoria, as similaridades dos deuses mitológicos, tudo isso nasce de várias partes do mundo, em línguas as mais variadas, simultaneamente.
 
originalidade não tem vez neste mundo, nem tempo, nem lugar.
 
as coisas são ditas & reditas de formas as mais diversas.
 
o que você disser não muda coisa alguma porque você dirá aquilo que já foi dito. não muda porque não é diferente. não muda porque não é original.
 
portanto, perda de tempo dizer o que quer que você tenha a dizer. mesmo parecendo que desta vez algo de importante vai ter lugar, não caia nessa: é sempre a mesma coisa.
 
(as coisas são ditas & reditas de formas as mais diversas.)
 
sim. tanto faz dizer “coisa com coisa”, isto é, tanto faz ser coerente em sua narrativa, ou simplesmente se contradizer: é sempre a mesma coisa. dizendo “coisa com coisa” ou se contradizendo, todo o dito (coerente ou contraditório) já foi dito por alguém, em algum lugar, em determinada circunstância.
 
melhor calar-se para sempre em vez de ficar o tempo todo a alugar todo mundo, dizendo sempre, sempre, a mesma coisa (originalidade não tem vez neste mundo, nem tempo, nem lugar), a mesma coisa que nunca foi necessário dizer. como faz este poema, que diz o que diz todo & qualquer poema.
 
talvez.
 
“talvez” porque o poema, de repente, sequer consiga, em seus versos, dizer o que quer que se diga sempre. “talvez” porque, quem sabe, o poema não alcançou o objetivo de dizer o que se diz sempre, “talvez” porque os versos podem não estar à altura do que sempre é dito. 
 
“talvez” porque o melhor, de repente, não seja calar-se para sempre. “talvez” porque, quem sabe, o fato de sempre dizermos a mesma coisa seja, em si, a razão maior para dizermos sempre a mesma coisa.
 
talvez o que nos excite & incite a dizer sempre a mesma coisa seja a possibilidade de empregar novas imagens, a possibilidade de armar um outro jogo de palavras, para dizer aquilo que já foi dito, dando a ele (ao que já foi dito) o frescor & a aparência de um dito novo:  
 
 
Os autores mais originais dos últimos tempos são originais, não por produzirem algo novo, mas apenas porque são capazes de dizer as coisas que dizem como se elas nunca antes houvessem sido ditas.
 
(goethe, tradução de antonio cicero.)
 
 
talvez o poema diga (o que quer que diga). talvez o poema não diga. talvez seja importante dizer sempre a mesma coisa. talvez, não. talvez também possa ser isto. talvez também possa ser aquilo. talvez também possa ser isto & aquilo outro: dúvidas.
 
dúvidas: muitas. um monte. uma montanha delas.
 
uma geografia de dúvidas percorre todo o firmamento humano, o céu onde voamos, onde viajamos, uma geografia de dúvidas percorre o nosso céu —- cabeça nas nuvens:
 
serão serafins (a geografia de dúvidas que percorre o firmamento)? será música isso que martela incessantemente (dúvida dúvida dúvida) e não consegue arrebentar, e não consegue partir-se, e não consegue dissipar, cessar, acabar?
 
as perguntas, sem solução, se dissipam no ar…
 
contudo, junto às perguntas, um cardume de corolários (argumentações, reflexões ou afirmações decorrentes de argumentações, reflexões ou afirmações já pensadas) atravessa o desfiladeiro em que me encontro: “então isto é aquilo, e o contrário só é verdade do princípio ao meio etc.” 
 
junto às dúvidas, uma série de constatações é realizada.
 
caminhando junto ao que não se sabe, uma penca de álibis, uma penca de justificativas plausíveis, que vamos encontrando sobre o ser & o estar no mundo.
 
o saber (o conhecimento) é sua própria recompensa.
 
recompensa: prêmio recebido por uma ação realizada com sucesso.
 
no caso do saber, a ação realizada com sucesso é a compreensão (profunda) daquilo que se procura conhecer.
 
a compreensão (profunda) daquilo que se procura conhecer: isso é ter saber, isso é adquirir conhecimento: eis a grande recompensa.
 
e, no fundo, o prêmio é bom.
 
o saber como a própria recompensa: a compreensão (profunda) das coisas.
 
a compreensão profunda do que diz esta ode, do poeta & filósofo romano horácio (tradução do poeta & filósofo antonio cicero):
 
 
ODE I.11
 
Não interrogues, não é lícito saber a mim ou a ti
que fim os deuses darão, Leucônoe. Nem tentes
os cálculos babilônicos. Antes aceitar o que for,
quer muitos invernos nos conceda Júpiter, quer este último
apenas, que ora despedaça o mar Tirreno contra as pedras
vulcânicas. Sábia, decanta os vinhos, e para um breve espaço de tempo
poda a esperança longa. Enquanto conversamos terá fugido despeitada
a hora: colhe o dia, minimamente crédula no porvir.
 
 
aqui, horácio no “baixo”, aqui, o poeta romano, de priscas eras, trazido à altura de nós, que podemos discuti-lo, por exemplo, em algum bar do “baixo gávea” (área com grande concentração de bares, no rio de janeiro), o poeta romano horácio e sua ode, aqui, esmiuçada num papo reto, esmiuçada numa narrativa direta, contemporânea (as coisas são ditas & reditas de formas as mais diversas): 
 
tentar prever o que o futuro nos reserva não leva a nada.
 
mãe de santo, mapa astral, livro de auto-ajuda: tudo a mesma merda.
 
o melhor é aceitar o que de bom ou mau acontecer.
 
deixar o amanhã ao amanhã.
 
preocupar-se mais com o presente, com o agora, com o hoje, com o dia-a-dia, com o cotidiano.
 
afinal, o presente, o agora, o hoje, o dia-a-dia, o cotidiano, é o que temos nas mãos.
 
tome o seu chope, aproveite o dia, e, quanto ao amanhã (que nem sabemos se virá),
 
o que vier é lucro!
 
(fica a dica.)
 
beijo todos!
paulo sabino.
____________________________________________________________
 
(do livro: Formas do nada. autor: Paulo Henriques Britto. editora: Companhia das Letras.)
 
 
 
CIRCULAR
 
 
Neste mesmo instante, em algum lugar,
alguém está pensando a mesma coisa
que você estava prestes a dizer.
Pois é. Esta não é a primeira vez.
 
Originalidade não tem vez
neste mundo, nem tempo, nem lugar.
O que você fizer não muda coisa
alguma. Perda de tempo dizer
 
o que quer que você tenha a dizer.
Mesmo parecendo que desta vez
algo de importante vai ter lugar,
não caia nessa: é sempre a mesma coisa.
 
Sim. Tanto faz dizer coisa com coisa
ou simplesmente se contradizer.
Melhor calar-se para sempre, em vez
de ficar o tempo todo a alugar
 
todo mundo, sem sair do lugar,
dizendo sempre, sempre, a mesma coisa
que nunca foi necessário dizer.
Como faz este poema. Talvez.
 
 
 
LIMIAR
 
 
Uma geografia de dúvidas
lhe percorria todo o firmamento:
serão serafins? será música
isso que martela incessantemente
e não consegue arrebentar?
As perguntas se dissipam no ar.
 
E um cardume de corolários
atravessava-lhe o desfiladeiro:
então isto é aquilo, e o contrário
só é verdade do princípio ao meio
etc. Isso proporcionava-lhe
prazer não pouco, e uma penca de álibis.
 
Definitivamente, sou,
ele pensou, com a magnificência
de um pterossauro em pleno voo.
O saber é sua própria recompensa,
como a virtude, concluiu.
E viu que isso era bom. Depois dormiu.
 
 
 
HORÁCIO NO BAIXO
(ODES I, 11)
 
 
Tentar prever o que o futuro te reserva
não leva a nada. Mãe de santo, mapa astral
e livro de autoajuda é tudo a mesma merda.
O melhor é aceitar o que de bom ou mau
acontecer. O verão que agora inicia
pode ser só mais um, ou pode ser o último —
vá saber. Toma o teu chope, aproveita o dia,
e quanto ao amanhã, o que vier é lucro.

AVISO AOS NAVEGANTES: O TEMPO & A NOSSA MACAU
13 de julho de 2011

benvindos,
 
como vocês devem notar, há algum tempo o “prosa em poema” não recebe publicações novas de acordo com a freqüência habitual.
 
explico-lhes os porquês:
 
um deles, porque estava de férias o mês de junho e parte do mês de julho.
 
o outro, porque recebi a proposta da editora rocco para fazer o release, que é um texto de divulgação que segue à imprensa, de dois dos seus lançamentos: do livro de poesias inéditas do GRANDE affonso romano de sant’anna, chamado exercício de finitude (que afirmo, em primeira mão, que é lindo), e do lançamento dos sonetos da portuguesa, da CÉLEBRE poeta inglesa da era vitoriana elizabeth barrett browning, reunião de poemas românticos sobre sua própria história de amor com o poeta (conterrâneo) robert browning, em tradução do SUPER poeta leonardo fróes.
 
voltei das férias com essas duas funções extras.
 
logo logo a dinâmica do quotidiano regressa ao seu comum, e as publicações mais freqüentes, neste espaço, retornarão.
 
por enquanto, deixo-os com versos (belíssimos) que tratam deste espaço mínimo que é o corpo, território nosso, território mínimo, limitado, mas que mal conseguimos explorar.
 
linhas poéticas que falam do corpo, desta macau sempre à mercê do latejar de um músculo localizado ao lado esquerdo do peito.
 
o reino que é o corpo: “ame-o ou deixe-o” (como dizia um slogan à época da ditadura militar no brasil). 
 
o espaço do corpo: ame-o ou deixe-o. sim, porém: amá-lo, amar esse espaço, pois essa é a única opção que nos resta. a outra é o asco, é a aversão, é o desprezo, e, se optarmos por essa segunda alternativa, a saída (a resolução) é a saída, é o desembarque, é o fim da viagem.
 
nenhum descobridor, nem mesmo o mais ousado navegador, jamais se desprendeu (e algum navegador tentou?) do cais úmido & ínfimo do eu.
 
sigamos nesta desconhecida & fascinante viagem que é: viver!, aceitando as limitações deste território que nos abriga.
 
beijo todos!
(e vamos que vamos!)
paulo sabino.
____________________________________________________________
 
(do livro: Macau. autor: Paulo Henriques Britto. editora: Companhia das Letras.)
 
 
  
II 
 
Tão limitado, estar aqui e agora,
dentro de si, sem poder ir embora,
 
dentro de um espaço mínimo que mal
se consegue explorar, esse minúsculo
império sem território, Macau

sempre à mercê do latejar de um músculo.
Ame-o ou deixe-o? Sim: porém amar
por falta de opção (a outra é o asco).
Que além das suas bordas há um mar

infenso a toda nau exploratória,
imune mesmo ao mais ousado Vasco.
Porque nenhum descobridor na história

(e algum tentou?) jamais se desprendeu
do cais úmido e ínfimo do eu.