MATANDO A COBRA & MOSTRANDO O PAU
3 de janeiro de 2013

Prêmio BN

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Biblioteca Nacional lança prêmio de literatura para autores VIVOS & o vencedor é o poeta Carlos Drummond de Andrade.
 
Drummond?? Caramba! Um prêmio, para autor VIVO, recebido pelo Drummond sugere, no mínimo, a descoberta da vida após a morte, correto? Caramba de novo! Alguém me conta: como foi o contato? Mãe Dináh na área? Só espero um convite para uma próxima sessão, adoraria falar com o poeta!
 
Aqui, texto com o que disse o júri:
 
 
“Por que Drummond?
 
A poeta Leila Míccolis, integrante do júri que escolheu ‘Carlos Drummond de Andrade: Poesia 1930-62’, da [editora] Cosac Naify, como vencedor do Prêmio da Biblioteca Nacional de Literatura, diz que preferia ter premiado um poeta vivo. ‘Eu tinha outra escolha, mas respeitei a decisão coletiva.’
 
Seu colega de júri Francisco Orban avalia que caberia à organização decidir se o livro estava habilitado ou não — já que, pelo edital, a inscrição só poderia ser feita pelo autor ou pela editora com autorização por escrito do autor. A BN [Biblioteca Nacional] já manifestou que só analisará o caso se houver recurso de algum concorrente.”
 
 
 E eu, Paulo Sabino, que já escrevi, neste espaço, sobre premiação literária (envolvendo o poeta concretista Décio Pignatari: https://prosaempoema.wordpress.com/2012/12/06/desabafo-acorda-brasil/), concordo (em parte) com o poeta Adriano Nunes:
 
 
“Ora. Ora. Tão absurda a coletiva justificativa como absurda a premiação. O que sinceramente justifica é que os três poetas do júri (diga-se, medianos, com uma poesia já enfadonha e sem acréscimos) optaram (por inveja, claro) não premiar um poeta vivo (mesmo sabendo das regras do concurso) porque é mais fácil e mais óbvio premiar o que já aclamado é.”
 
 
Digo que concordo em parte com o poeta Adriano Nunes apenas porque nunca li nada da poesia dos jurados, de modo que não sei dizer se a poesia deles é enfadonha. Mas, sinceramente: depois desse episódio, VERGONHOSO, não sinto a mínima vontade de ler coisa alguma.
 
O que sei é que o ano de 2012 acolheu uma safra de ÓTIMOS livros de poesia (só para citar alguns): “Porventura”, de Antonio Cicero; “Formas do nada”, de Paulo Henriques Britto; “Sentimental”, de Eucanaã Ferraz; “Céu em cima / Mar em baixo”, de Alex Varella; “Laringes de grafite”, de Adriano Nunes; “Um caderno de capa verde”, de Flávio Morgado.
 
Com tantos LINDOS livros de poesia lançados em 2012, por que a escolha de Carlos Drummond de Andrade (numa premiação especificamente para autores VIVOS)?
 
(Essa é a pergunta que não quer calar…)
 
Acorda, Brasil!

MESMO CIRCULAR, O QUE VIER, APROVEITAR
17 de abril de 2012

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neste mesmo instante, em algum lugar, alguém está pensando a mesma coisa que você estava prestes a dizer.
 
pois é.
 
e esta não é a primeira vez (nem a última).
 
uma mesma piada, uma mesma teoria, as similaridades dos deuses mitológicos, tudo isso nasce de várias partes do mundo, em línguas as mais variadas, simultaneamente.
 
originalidade não tem vez neste mundo, nem tempo, nem lugar.
 
as coisas são ditas & reditas de formas as mais diversas.
 
o que você disser não muda coisa alguma porque você dirá aquilo que já foi dito. não muda porque não é diferente. não muda porque não é original.
 
portanto, perda de tempo dizer o que quer que você tenha a dizer. mesmo parecendo que desta vez algo de importante vai ter lugar, não caia nessa: é sempre a mesma coisa.
 
(as coisas são ditas & reditas de formas as mais diversas.)
 
sim. tanto faz dizer “coisa com coisa”, isto é, tanto faz ser coerente em sua narrativa, ou simplesmente se contradizer: é sempre a mesma coisa. dizendo “coisa com coisa” ou se contradizendo, todo o dito (coerente ou contraditório) já foi dito por alguém, em algum lugar, em determinada circunstância.
 
melhor calar-se para sempre em vez de ficar o tempo todo a alugar todo mundo, dizendo sempre, sempre, a mesma coisa (originalidade não tem vez neste mundo, nem tempo, nem lugar), a mesma coisa que nunca foi necessário dizer. como faz este poema, que diz o que diz todo & qualquer poema.
 
talvez.
 
“talvez” porque o poema, de repente, sequer consiga, em seus versos, dizer o que quer que se diga sempre. “talvez” porque, quem sabe, o poema não alcançou o objetivo de dizer o que se diz sempre, “talvez” porque os versos podem não estar à altura do que sempre é dito. 
 
“talvez” porque o melhor, de repente, não seja calar-se para sempre. “talvez” porque, quem sabe, o fato de sempre dizermos a mesma coisa seja, em si, a razão maior para dizermos sempre a mesma coisa.
 
talvez o que nos excite & incite a dizer sempre a mesma coisa seja a possibilidade de empregar novas imagens, a possibilidade de armar um outro jogo de palavras, para dizer aquilo que já foi dito, dando a ele (ao que já foi dito) o frescor & a aparência de um dito novo:  
 
 
Os autores mais originais dos últimos tempos são originais, não por produzirem algo novo, mas apenas porque são capazes de dizer as coisas que dizem como se elas nunca antes houvessem sido ditas.
 
(goethe, tradução de antonio cicero.)
 
 
talvez o poema diga (o que quer que diga). talvez o poema não diga. talvez seja importante dizer sempre a mesma coisa. talvez, não. talvez também possa ser isto. talvez também possa ser aquilo. talvez também possa ser isto & aquilo outro: dúvidas.
 
dúvidas: muitas. um monte. uma montanha delas.
 
uma geografia de dúvidas percorre todo o firmamento humano, o céu onde voamos, onde viajamos, uma geografia de dúvidas percorre o nosso céu —- cabeça nas nuvens:
 
serão serafins (a geografia de dúvidas que percorre o firmamento)? será música isso que martela incessantemente (dúvida dúvida dúvida) e não consegue arrebentar, e não consegue partir-se, e não consegue dissipar, cessar, acabar?
 
as perguntas, sem solução, se dissipam no ar…
 
contudo, junto às perguntas, um cardume de corolários (argumentações, reflexões ou afirmações decorrentes de argumentações, reflexões ou afirmações já pensadas) atravessa o desfiladeiro em que me encontro: “então isto é aquilo, e o contrário só é verdade do princípio ao meio etc.” 
 
junto às dúvidas, uma série de constatações é realizada.
 
caminhando junto ao que não se sabe, uma penca de álibis, uma penca de justificativas plausíveis, que vamos encontrando sobre o ser & o estar no mundo.
 
o saber (o conhecimento) é sua própria recompensa.
 
recompensa: prêmio recebido por uma ação realizada com sucesso.
 
no caso do saber, a ação realizada com sucesso é a compreensão (profunda) daquilo que se procura conhecer.
 
a compreensão (profunda) daquilo que se procura conhecer: isso é ter saber, isso é adquirir conhecimento: eis a grande recompensa.
 
e, no fundo, o prêmio é bom.
 
o saber como a própria recompensa: a compreensão (profunda) das coisas.
 
a compreensão profunda do que diz esta ode, do poeta & filósofo romano horácio (tradução do poeta & filósofo antonio cicero):
 
 
ODE I.11
 
Não interrogues, não é lícito saber a mim ou a ti
que fim os deuses darão, Leucônoe. Nem tentes
os cálculos babilônicos. Antes aceitar o que for,
quer muitos invernos nos conceda Júpiter, quer este último
apenas, que ora despedaça o mar Tirreno contra as pedras
vulcânicas. Sábia, decanta os vinhos, e para um breve espaço de tempo
poda a esperança longa. Enquanto conversamos terá fugido despeitada
a hora: colhe o dia, minimamente crédula no porvir.
 
 
aqui, horácio no “baixo”, aqui, o poeta romano, de priscas eras, trazido à altura de nós, que podemos discuti-lo, por exemplo, em algum bar do “baixo gávea” (área com grande concentração de bares, no rio de janeiro), o poeta romano horácio e sua ode, aqui, esmiuçada num papo reto, esmiuçada numa narrativa direta, contemporânea (as coisas são ditas & reditas de formas as mais diversas): 
 
tentar prever o que o futuro nos reserva não leva a nada.
 
mãe de santo, mapa astral, livro de auto-ajuda: tudo a mesma merda.
 
o melhor é aceitar o que de bom ou mau acontecer.
 
deixar o amanhã ao amanhã.
 
preocupar-se mais com o presente, com o agora, com o hoje, com o dia-a-dia, com o cotidiano.
 
afinal, o presente, o agora, o hoje, o dia-a-dia, o cotidiano, é o que temos nas mãos.
 
tome o seu chope, aproveite o dia, e, quanto ao amanhã (que nem sabemos se virá),
 
o que vier é lucro!
 
(fica a dica.)
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Formas do nada. autor: Paulo Henriques Britto. editora: Companhia das Letras.)
 
 
 
CIRCULAR
 
 
Neste mesmo instante, em algum lugar,
alguém está pensando a mesma coisa
que você estava prestes a dizer.
Pois é. Esta não é a primeira vez.
 
Originalidade não tem vez
neste mundo, nem tempo, nem lugar.
O que você fizer não muda coisa
alguma. Perda de tempo dizer
 
o que quer que você tenha a dizer.
Mesmo parecendo que desta vez
algo de importante vai ter lugar,
não caia nessa: é sempre a mesma coisa.
 
Sim. Tanto faz dizer coisa com coisa
ou simplesmente se contradizer.
Melhor calar-se para sempre, em vez
de ficar o tempo todo a alugar
 
todo mundo, sem sair do lugar,
dizendo sempre, sempre, a mesma coisa
que nunca foi necessário dizer.
Como faz este poema. Talvez.
 
 
 
LIMIAR
 
 
Uma geografia de dúvidas
lhe percorria todo o firmamento:
serão serafins? será música
isso que martela incessantemente
e não consegue arrebentar?
As perguntas se dissipam no ar.
 
E um cardume de corolários
atravessava-lhe o desfiladeiro:
então isto é aquilo, e o contrário
só é verdade do princípio ao meio
etc. Isso proporcionava-lhe
prazer não pouco, e uma penca de álibis.
 
Definitivamente, sou,
ele pensou, com a magnificência
de um pterossauro em pleno voo.
O saber é sua própria recompensa,
como a virtude, concluiu.
E viu que isso era bom. Depois dormiu.
 
 
 
HORÁCIO NO BAIXO
(ODES I, 11)
 
 
Tentar prever o que o futuro te reserva
não leva a nada. Mãe de santo, mapa astral
e livro de autoajuda é tudo a mesma merda.
O melhor é aceitar o que de bom ou mau
acontecer. O verão que agora inicia
pode ser só mais um, ou pode ser o último —
vá saber. Toma o teu chope, aproveita o dia,
e quanto ao amanhã, o que vier é lucro.

AVISO AOS NAVEGANTES: O TEMPO & A NOSSA MACAU
13 de julho de 2011

benvindos,
 
como vocês devem notar, há algum tempo o “prosa em poema” não recebe publicações novas de acordo com a freqüência habitual.
 
explico-lhes os porquês:
 
um deles, porque estava de férias o mês de junho e parte do mês de julho.
 
o outro, porque recebi a proposta da editora rocco para fazer o release, que é um texto de divulgação que segue à imprensa, de dois dos seus lançamentos: do livro de poesias inéditas do GRANDE affonso romano de sant’anna, chamado exercício de finitude (que afirmo, em primeira mão, que é lindo), e do lançamento dos sonetos da portuguesa, da CÉLEBRE poeta inglesa da era vitoriana elizabeth barrett browning, reunião de poemas românticos sobre sua própria história de amor com o poeta (conterrâneo) robert browning, em tradução do SUPER poeta leonardo fróes.
 
voltei das férias com essas duas funções extras.
 
logo logo a dinâmica do quotidiano regressa ao seu comum, e as publicações mais freqüentes, neste espaço, retornarão.
 
por enquanto, deixo-os com versos (belíssimos) que tratam deste espaço mínimo que é o corpo, território nosso, território mínimo, limitado, mas que mal conseguimos explorar.
 
linhas poéticas que falam do corpo, desta macau sempre à mercê do latejar de um músculo localizado ao lado esquerdo do peito.
 
o reino que é o corpo: “ame-o ou deixe-o” (como dizia um slogan à época da ditadura militar no brasil). 
 
o espaço do corpo: ame-o ou deixe-o. sim, porém: amá-lo, amar esse espaço, pois essa é a única opção que nos resta. a outra é o asco, é a aversão, é o desprezo, e, se optarmos por essa segunda alternativa, a saída (a resolução) é a saída, é o desembarque, é o fim da viagem.
 
nenhum descobridor, nem mesmo o mais ousado navegador, jamais se desprendeu (e algum navegador tentou?) do cais úmido & ínfimo do eu.
 
sigamos nesta desconhecida & fascinante viagem que é: viver!, aceitando as limitações deste território que nos abriga.
 
beijo todos!
(e vamos que vamos!)
paulo sabino.
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(do livro: Macau. autor: Paulo Henriques Britto. editora: Companhia das Letras.)
 
 
  
II 
 
Tão limitado, estar aqui e agora,
dentro de si, sem poder ir embora,
 
dentro de um espaço mínimo que mal
se consegue explorar, esse minúsculo
império sem território, Macau

sempre à mercê do latejar de um músculo.
Ame-o ou deixe-o? Sim: porém amar
por falta de opção (a outra é o asco).
Que além das suas bordas há um mar

infenso a toda nau exploratória,
imune mesmo ao mais ousado Vasco.
Porque nenhum descobridor na história

(e algum tentou?) jamais se desprendeu
do cais úmido e ínfimo do eu.

DIA & NOITE, NOITE & DIA: O TEMPO, DEUS ALHEIO & INDIFERENTE
25 de outubro de 2010

a seguir,

nove variações sobre o mesmo tema: a noite, o dia.

nove variações poéticas sobre um tema do compositor & cantor jim morrison.

a tarde devora o dia: é noite.

a manhã engole a noite: é dia.

nove poemas que abordam o eterno movimento do tempo: dia & noite, noite & dia, e a indiferença com que se dá esse movimento, sempre o mesmo, independentemente de qualquer coisa.

a  tarde, muda & austera, rasga a carótida do dia no seu gargarejo fatal, causando sua hemorragia & morte: vem a noite.

a manhã, feito um tintureiro alucinado, com todo o seu alarido de vozes cromáticas, atamanca, reveste, a tepeçaria da noite, dissipando o que ela, com custo, ajuntou: vem o dia.  

tamanha indiferença do real só comprova o seu triunfo por sobre os sublimes & inefáveis sonhos dos nossos mais célebres metafísicos.

para além das estrelas, para além do fundo azul: o silêncio profundo dos espaços que nada dizem, que nada querem dizer, e que nada jamais dirão ou quererão esclarecer.

o tempo, deus supremo, passa indiferente & alheio.

somos nós quem fazemos valer ou não este tempo que nos perpassa.

o mundo apresenta-se em cada dia & em cada noite que vivemos; são muitos os mundos neste planetavelã (tão pequenino diante da grandeza do universo), mundos sucessivos, mundos que se dão em cada dia & em cada noite vivenciados.

saibamos aproveitá-los! saibamos vivenciá-los!

beijo terno em vocês.
paulo sabino / paulinho.
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(do livro: Macau. autor: Paulo Henriques Britto. editora: Companhia das Letras.)

 
 
NOVE VARIAÇÕES SOBRE UM TEMA DE JIM MORRISON
 
 
You know the day destroys the night
Night divides the day.
 
 
 
1.
 
A tarde devora o dia
que já estrebucha entre nuvens.
É noite.
 
Manhã engole essa noite
encaroçada de estrelas.
É dia.
 
 
2.
 
O dia levanta a cabeça
num gargarejo fatal:
a tarde lhe rasga a carótida.
Noite.
 
A noite segrega projetos
de mundos magros, sem cor.
E vem o dia com seu préstito:
manhã.
 
 
3.
 
Nada como a tarde,    trapos encardidos
enxugando os restos    de uma luz já suja,
recolhendo as manchas    de sol desmaiado
com a complacência    de um apagador.
 
Nada como a manhã,    com seus dedos de feltro,
flanelas metafóricas    de pura indiferença,
a estender sobre o escuro    a realidade plena
de um dia ainda há pouco    de todo inconcebível.
 
 
4.
 
Por que é que essa tarde desmancha e desmaia e
sufoca o que o dia erigiu por um triz?
 
Por que é que a manhã como esse estrépito todo
dissipa o que a noite a tal custo ajuntou?
 
 
5.
 
Boçalidade da tarde:
porque afinal o dia custou tanto
a se investir, a instalar no teto
a gambiarra cara e trabalhosa
do sol, a despejar anil no céu
como um tintureiro alucinado.
 
Artimanhas da manhã:
despipocar todo o lençol da noite
e detonar tantos penduricalhos
de luz laboriosamente espetados
e acendidos um por um, com desvelos
obsessivos de monomaníaco.
 
 
6.
 
Manhã, que nunca pensas duas vezes
antes de atamancar com tua fórmica
banal a tapeçaria da noite,
como és enorme!
 
Ó tarde, que tens a desfaçatez
suprema de garrotear sem pejo
o pescoço fino e alvo do dia:
como te invejo!
 
 
7.
 
A cara desta tarde
é muda e austera, cara de quem
assiste, não de muito perto, à morte
prolongada e silenciosa de alguém
que não conhece, e nem
deseja conhecer.
 
O rosto da manhã
é o rosto frio e indecifrável
de quem contempla apático a morte
de alguém desconhecido, rosto
de quem, fora a licença poética,
rosto não tem.
 
 
8.
 
Se por acaso esta noite se extinguir
no féretro aéreo da alvorada,
tal como o dia ainda há pouco se esvaiu
na crua hemorragia de um crepúsculo,
 
será a comprovação esmagadora
do triunfo do real insensível
sobre os sonhos sublimes e inefáveis
dos nossos mais insignes metafísicos.
 
 
9.
 
Todo todo é menor que a menor parte,
muitos mundos cabem numa avelã.
Não há dia que não morra numa tarde,
nem noite que não se acabe em manhã.

O SI-MESMO: VIDÁGUA, E NADA
1 de abril de 2010

seres humanos:
 
tão pequenos, tão insignificantes ante o mundo — “não somos mais que uma piada de deus”, que “um breve pulsar” —, e, no entanto, entre tanto, entre tantas coisas, um universo onde cabe um bocado de “apetrechos”, cabe tanto que é preciso de um basta, de um fim, do silêncio eterno & profundo.
 
o assunto sobre o qual tratamos é sempre o mesmo, isto é, sempre o mesmo papo porque sempre tratamos, no fim das contas, do “si-mesmo” (ciente de que o mundo, de que o entorno, não passa de uma interpretação pessoal, única, interpretação intransferível; o olhar, este pequeno planeta, como escreveu cecília meireles, antes, transcodifica tudo & todos).  
 
uma piada de deus. um breve pulsar. um ponto. um fragmento. um quase nada (a nossa existência). todavia, um universo que se basta, que nos é, em sua pequenez, um colosso (e como! e tanto!).
 
por tanto, entre tanto(s),
 
nunca não ser ninguém nem nada. continuamente “alguém”, constantemente algo onde lançamos o olhar e onde reconhecemos (em parte) o avistado.
 
porém,
 
contudo, 
 
deixar a vida (es)correr um tanto por suas força & vontade próprias. deixar que a vida tome a direção. deixar que ela nos navegue.
 
(es)correr através da “vidágua”, (sor)vendo o líquido que corre. ou seja: beber sua água enquanto é tempo.
 
para, depois,
 
nada. para, depois de deixar-se levar, depois que a vida comandou o “barco”, (re)tomar o leme e nadar para onde desejar seguir, para onde insistir aportar, para onde carecer singrar. (e sangrar.)
 
e agora: basta.
 
a vocês, estes dois lindíssimos poemas do ad–mirado: paulo henriques britto.
 
beijo grande!
o preto,
paulo sabino / paulinho.
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(do livro: Macau. do capítulo: Três tercinas. autor: Paulo Henriques Britto. editora: Companhia das Letras.)
 
 
I
 
Para o que se quer, isto basta.
Parece pouco. E é pouco, mesmo,
é um quase nada. E no entanto
 
cabe um bocado, cabe tanto
que é até preciso dar um basta.
Quanto ao assunto — o si-mesmo —
 
é invariavelmente o mesmo.
Um ponto. Um fragmento. Entretanto
é um universo que se basta —
 
e como! e tanto! — a si mesmo.
E agora basta.
 
 
III
 
Nunca não ser ninguém nem nada,
porém deixar-se estar no tempo
como se a vida fosse água,
 
como quem bóia à flor da água
sem rumo, sem remo, sem nada
além de sono, tédio e tempo,
 
senhor de todo o espaço e o tempo,
munido só de pão e água
e, sem precisar de mais nada,
 
beber sua água enquanto é tempo.
E, depois, nada.

VAMO COMÊ, VAMO COMÊ — POESIA!
15 de março de 2010

pessoas,
 
ontem, 14 de março, foi o dia nacional da poesia. em sua homenagem, poemas que tratam exatamente da arte poética, poemas que falam de: poemas.
 
o primeiro da seleção diz-se uma citação de livro — op. cit. é um termo em latim que significa, segundo o dicionário houaiss, opere citato, isto é, “a obra citada/ na obra citada” —, mas uma citação transformada num belíssimo e moderno soneto. os versos abordam a tensão existente no poema de querer exprimir uma subjetividade numa personalíssima voz lírica ao mesmo tempo em que é entendido pelo poeta — devido à sua consciência crítica — que muito dessa subjetividade é mesclada, misturada, enovelada, a uma série de achados poéticos que não estão ligados à sua voz lírica personalíssima, que vieram à tona por necessidades suscitadas pelas próprias linhas, pelo próprio fazer poético. ao final, uma homenagem ao gigante fernando pessoa, que, segundo os versos, já disse o mesmo, só que de uma maneira muito melhor, mais completa, numa referência ao seu magnífico poema “autopsicografia”, que começa assim:
 
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
 
(Fernando Pessoa, Autopsicografia)
 
num outro escrito, as dificuldades de trabalhar com essa arte, a arte poética, porque esta impõe, sugere, uma série de entraves, inúmeros óbices. o mais bacana é que tal problemática é explicitada por um obstáculo existente no próprio poema, obstáculo relacionado à criação de uma rima cuja imagem gerada, de acordo com o bardo, não condiz com a intenção do que querem dizer as linhas. todavia, indo mais fundo, pergunta-se num tom de “autoprovocação”: e quem garante que esse modo de atrelar, que esse jeito de ligar pensamentos, puxado pela rima, isto é, puxado por uma rima criada apenas com o propósito de rimar, seja pior que algum outro? já que a poesia é uma viagem única, intransferível, por que o encadeamento de rimas — de pensamentos, conseqüentemente — tem que obedecer a algum sistema, à alguma lógica prévia? por que a lógica ditada?
 
e alerta: isso é só o primeiro problema (rs).
 
adiante, a natureza do poema: diário de viagem sem viagem, carta sem nenhum destinatário. a poesia nasce desinteressada de quem a possa receber, pois ela, quando nasce, nasce pela própria vontade de querer rebentar, e ponto. a poesia não se destina a nada nem a ninguém. por isso ela pode ser tudo e de todos. no poema, o verbo é intransitivo, isto é, a ação é intransmissível, conjuga-se, no poema, numa só pessoa, na primeira pessoa do singular (eu). somente assim se justificam as diversas maneiras de enxergar um único poema, as várias interpretações que as pessoas podem dele fazer, os diferentes achados poéticos verificados pelos mais variados tipos de olhar.
 
encerrando a seleção, a descrição de uma criatura estranha, que, à primeira vista, nos causa assombro, espanto, o mesmo espanto que a gente imagina ter diante de um grifo ou de uma esfinge (que são seres fabulosos): o poema. no seu último instante, (mais) uma homenagem prestada ao grande mago das palavras, fernando pessoa.
 
como pessoa, na minha modesta opinião, é o maior poeta da língua portuguesa, fico feliz de render esta homenagem à poesia onde ele é citado no primeiro e no último poema desta seleção.
 
(a todos, fica o convite: vamo comê, vamo comê – poesia!)
 
beijo em vocês!
paulo sabino / paulinho.
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(do livro: Tarde. autor: Paulo Henriques Britto. editora: Companhia das Letras.)
 
 
OP. CIT., PP. 164-65
 
“No poema moderno, é sempre nítida
uma tensão entre a necessidade
de exprimir-se uma subjetividade
numa personalíssima voz lírica
 
e, de outro lado, a consciência crítica
de um sujeito que se inventa e evade,
ao mesmo tempo ressaltando o que há de
falso em si próprio — uma postura cínica,
 
talvez, porém honesta, pois de boa-
fé o autor desconstrói seu artifício,
desmistifica-se para o ‘leitor-
 
irmão…'” Hm. Pode ser. Mas o Pessoa,
em doze heptassílabos, já disse o
mesmo — não, disse mais — muito melhor.
 
 
I
 
Porrada de problemas — insolúveis,
ça va sans dire — mas o pior é que
mudam sempre de forma, como nuvens
num dia de muito vento — ou um leque
fechando e abrindo — não, a imagem é estúpida,
e não tem nada a ver com essa história;
o símile do leque foi sem dúvida
puxado pela rima — feito “glória”
com “memória” — no entanto, quem garante
que este modo de atrelar pensamentos
seja pior que outro qualquer? que o antes
não possa vir depois? que o encadeamento
tenha que obedecer a algum sistema?
(Mas isso é só o primeiro problema.)
 
 
II
 
Diário de viagem sem viagem
ou carta sem nenhum destinatário:
palavras que, no máximo, interagem
com outras palavras do dicionário.
 
Um escrever que é verbo intransitivo
que se conjuga numa só pessoa.
Um texto reduzido a substantivo
menos que abstrato: se nem mesmo soa,
 
como haveria de querer dizer
alguma coisa que valesse o vão
e duro esforço de fazer sentido?
 
Por outro lado, a coisa dá prazer.
Dá uma formidável sensação
(mesmo que falsa) de estar sendo ouvido.
 
 
III
 
Uma forma de vida se anuncia,
ainda hesitante. Mas insistente.
Põe o focinho de fora. Uma esguia
cabeça. Uma pata. Tranqüilamente,
como se não estivesse nem aí.
Agora está à vista de corpo inteiro,
arisca, peluda feito um sagüi,
rabo felpudo de angorá, e um cheiro
talvez de almíscar. O olhar é de cão,
mas a desconfiança é bem felina.
Diante dela, temos a impressão
indefinível que a gente imagina
ter diante de um grifo, ou de uma esfinge.
Só que ela existe. (Ou, pelo menos, finge.)

OSSOS DO OFÍCIO
8 de janeiro de 2010

navegantes,
 
abaixo,
 
mais um poema que trata da arte poética, do processo de construção de linhas poéticas.
 
de pronto, fiquei louco pelo título: “ossos do ofício”.
 
a palavra “osso”, metaforicamente, pode significar “dificuldade”, “aquilo que é difícil”. e os ossos, no corpo humano, servem de arcabouço, de estrutura de sustentação do organismo. assim sendo, os versos a seguir apontam para as dificuldades de se fazer poesia, clarificando que tais dificuldades são parte inerente do processo, a parte de sustentação, a estrutura da construção poética. 
 
mas por que as dificuldades do processo formam a estrutura, o arcabouço, do poema? respondo: porque o que se pensa não é o que se canta. eis a chave do processo: o que se coloca no papel, na tela do computador, não corresponde exatamente à sensação que se tem; a idéia que se alcança para expor determinada sensação fica sempre aquém do que é sentido. todas as vezes que tentamos descrever aquilo que sentimos, há um declínio, uma perda, e é exatamente pela perda que temos ao transpor sentimentos para o papel, que o que se pensa não é o que se canta, o que se fala, o que se escreve. 
 
mesmo o maior esforço, a mais alta tentativa de transpor o que se sente, não adianta. por isso a arte poética é árdua, propõe dificuldades, dores, obstáculos, impedimentos. e é justamente por causa das tais complexidades impostas pelo processo de construção de um poema que essa arte tanto encanta & fascina. o raciocínio a mil, buscando saídas para os impedimentos, tendo, ainda, que lidar com a rima, ali, no seu encalço, atravessada na garganta, querendo desengasgar, desobstruir a passagem, não conseguindo agigantar-se na voz do poeta, com a plenitude almejada pelos bardos. a rima atravessada na garganta é o trambolho que menos se agiganta, que menos cresce, no percurso nada retilíneo, inteiramente tortuoso, que é o de formulação dos versos, o de cantar aquilo que se sente.
 
porém, posto fim ao processo, poema pronto, traçado, ao ler as linhas, ao ter as linhas em papel ou tela de computador, mesmo sabendo do declínio que há entre a sensação e a idéia, magicamente, o poema significa, comunica, explicita o que se pensa. 
 
depois que a rima atravessa a garganta, isto é, depois que desengasga, que é posta no papel, depois que ganha forma, o que se canta passa a ser o que se pensa.
 
só isso justifica acharmos lindos alguns tantos poemas, julgarmos belos vários achados poéticos, identificarmo-nos com tantos textos, achando que eles dizem “exatamente” o que sentimos. 
 
paulo henriques britto, autor da poesia que segue, poeta por quem possuo a mais alta admiração, dá-nos prova disso com este belo texto.
 
beijo bom em todos,
o preto,
paulo sabino / paulinho.
_____________________
 
(do livro: Tarde. autor: Paulo Henriques Britto. editora: Companhia das Letras.)
 
OSSOS DO OFÍCIO
 
O que se pensa não é o que se canta.
Difícil sustentar um raciocínio
com a rima atravessada na garganta.
 
Mesmo o maior esforço não adianta;
da sensação à idéia há um declínio,
e o que se pensa não é o que se canta.
 
Difícil, sim. E é por isso que encanta.
Há que sentir — e aí está o fascínio —
com a rima atravessada na garganta.
 
Apenas isso justifica tanta
dedicação, tanto autodomínio,
se o que se pensa não é o que se canta,
 
mesmo porque (constatação que espanta
qualquer espírito mais apolíneo)
a rima atravessada na garganta
 
é o trambolho que menos se agiganta
nesse percurso nada retilíneo,
ao fim do qual se pensa o que se canta,
depois que a rima atravessa a garganta.

POEMA DE NATAL
23 de dezembro de 2009

benvindos,
 
pois que mais um ano chega ao final. e, com ele, chega-nos também a lembrança da criança a nós anunciada, presente em nossas vidas para nos redimir de faltas e erros e culpas e ignorâncias e violências e maus humores e feridas.
 
como o poema, gosto de pensar numa existência assim, que seja a nossa verdadeira imagem e semelhança: uma criança bonita, robusta, nascida para o bem, capaz de gestos e atos de imaculados carinho e amor. é a mostra de que podemos muito mais, de que a existência pode dar-se de modo mais rico e sadio para todos nós. se fomos capazes de criar uma criança com tamanhos sentimentos de bondade para com a existência, podemos criar, conseqüentemente, outras tantas crianças — sejam jovens ou velhas, seja eu ou você — com este mesmo senso de cuidado amoroso.
 
tomem esta criança pressagiada para si, tenham-na no colo, mirem sua face boa & serena, embalem o seu sono. 
 
que a criança anunciada desperte a criança guardada no peito e que esta preencha as feridas nossas e melhore o estado das coisas que merecem ser melhoradas. preservemos o prazer supremo, que deveria — que deve! — ser o prazer de todo dia: idolatrar o que geramos verdadeiramente de mais comovente, de mais deleitoso, de mais formoso. apenas assim a vida se dará de maneira mais pródiga, de modo mais prodigioso. 
 
um ótimo natal e uma bela passagem de ano é o que espero para todos!
 
no mais, para o ano próximo, desejo o que almejo sempre, ano após ano: uma vida cheia de realizações bacanas.
 
beijo bom e festivo!
o preto,
paulo sabino / paulinho.
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(do livro: Tarde. autor: Paulo Henriques Britto. editora: Companhia das Letras.)
 
 
POEMA DE NATAL
 
Eis o prazer supremo, que não cansa
jamais: idolatrar o que criamos
à nossa vera imagem e semelhança.
 
Nada mais digno do mais puro amor
que essa anunciadíssima criança,
em berço ou pálio ou página ou o que for,
 
desde que seja nossa, e na medida
exata do desejo, nem maior
nem mais funda que a precisa ferida
 
que para preencher foi ela concebida.