NÉLIDA PIÑON ENTREVISTA PAULO SABINO — PROGRAMA PRÓXIMA PÁGINA
30 de novembro de 2017

(Paulo Sabino e Nélida Piñon preparando-se para a gravação)

(No Espaço Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras)

(Passeando com Nélida pela Academia Brasileira de Letras)

(No teatro Raimundo Magalhães Júnior, da Academia Brasileira de Letras)

(Paulo Sabino e Nélida Piñon com a talentosa e querida equipe do programa Próxima Página)
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Meu coração não contenta! Imagine-se recebendo uma ligação em que a pessoa do outro lado da linha te convida pra participar de um programa de entrevistas cuja dinâmica é a seguinte: o entrevistado de um episódio vira o entrevistador do próximo episódio. Pois bem, o convite foi pra que eu fosse o entrevistado. Querem saber quem foi a minha entrevistadora? É só olhar as fotos que seguem… Sim sim sim, fui entrevistado pela grande dama da literatura brasileira Nélida Piñon!

A nova série audiovisual da MultiRio, empresa de mídia educativa e cultural do município do Rio de Janeiro, reúne personagens, como a escritora Nélida Piñon, em torno de um tema comum: a paixão pelos livros. Para o programa, intitulado “Próxima página”, eu tive o grande prazer de ser entrevistado por ela, pela grande dama da literatura, na sua “casa”, a Academia Brasileira de Letras (ABL). Uma alegria e uma honra! Os programas mostram bate-papos entre pessoas apaixonadas pela literatura e que trazem à tona as diversas maneiras de entrar nesse mundo e vivenciar a leitura. O lançamento da nova produção aconteceu agorinha, neste final de novembro.

No programa, falo sobre a minha origem poética, os primeiros passos, sobre a nossa formação cultural e lingüística, sobre Machado de Assis, sobre Paulo Leminski, sobre Luis Turiba, sobre Maria Bethânia, sobre Fernando Pessoa, sobre Castro Alves, sobre o meu projeto “Ocupação Poética” e muitas outras coisas. 12 minutinhos, assistam porque tá muito bacana! Uma alegria que levarei para sempre porque não é todo dia que conto com uma entrevistadora deste quilate!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. programa: Próxima Página. Nélida Piñon entrevista Paulo Sabino. local: Academia Brasileira de Letras — ABL. direção: Denise Moraes. produção e realização: MultiRio.)

 

ARS POÉTICA   (autor: Paulo Sabino)

 

 

marcar o papel a palavra
fogo
coisa que queime,
que permita combustão

rasgar a folha a metáfora
faca
coisa que corte,
que sangre emoção

lamber a linha a imagem
língua
coisa que arrepie,
que concentre tesão

molhar o branco a figura
água
coisa que inunde,
que contemple imensidão

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AO NOSSO AMOR, UMA ETERNA ESTRÉIA
19 de outubro de 2016

paulo-sabino-jurema-armond

(Há pouco tempo, indo votar — ela, já desobrigada.)

figa

(A figa, antes do meu pai, agora minha.)
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“PAULO SABINO, meu irmão,

Que lindo o seu poema para a ‘nossa mãe’! Desejo para a ‘CABOCLA JUREMA’ uma longa e boa vida, alegria e… Axé! Muito Axé! Com abraços, MARTINHO DA VILA.”

(Martinho da Vila — cantor & compositor)

 

 

Que alegria! Vê-la completar o seu septuagésimo quarto ano novo (74) lúcida, recém-recuperada de um problema no cérebro.

Em junho, há exatos 4 meses, me perguntava como seria este dia para ela & para mim, com o medo de que ela ainda estivesse doente.

Escrevi o texto que segue em itálico para amigos bem no início do mês de julho:

 

Queridos & Queridas,

Há quase 2 meses, a minha mãe, peça fundamental da minha existência, a grande responsável pelo meu amor à literatura e, mais especificamente, à poesia, a minha cabocla Jurema Armond, não anda bem da saúde.

Estamos na luta para diagnosticar o que, há quase 2 meses, vem causando nela uma fraqueza grande nas pernas & nos braços (precisa de ajuda para absolutamente tudo: para levantar, sentar, deitar, comer, tomar banho) & uns desnorteios de tempo & espaço (agora há pouco tive que consolá-la, ela estava aos prantos, desejando chegar em casa, chegar no lugar de onde ela não sai há quase 2 meses, não contando as saídas para consultas médicas & exames).

Tem sido bem difícil para mim. Sou filho único, meu pai já não está mais entre nós, e sou eu só a tomar as decisões sobre a saúde da minha cabocla, a gerir a casa & as contas. Cansaço emocional & físico imensos.

Hoje, procurando travessas & potes aqui em casa, a fim de organizar a cozinha para a pessoa que me ajudará com a casa duas vezes na semana, me deparei com esta figa de madeira do meu pai, de cuja existência nem mais me lembrava. Chorei tanto ao vê-la, ao tocá-la, tudo tão simbólico neste momento — encontrar na estante da sala uma figa, e que era do meu pai, de quem, pela sensibilidade & humor ímpar, sinto tanta falta, inda mais num momento como este…

Agora ela está na minha mesa de trabalho, acompanhada das minhas outras pequenas preciosidades. Está, na mesa, exatamente de frente para mim.

Tomara que esta figa, antes do meu pai, agora minha, me traga a sorte & o axé necessários na melhoria desta situação.

E conto com as preces & orações & energia positiva de quem acredita em preces & orações & energia positiva. Incluam a minha cabocla Jurema Armond em seus pedidos de saúde & recuperação. Torçam comigo.

E vamos que vamos. A vida urge, o tempo não pára.

 

Depois de muitos medos, muitas incertezas, muitas dificuldades, muitas lágrimas, e muitos exames, no início de agosto conseguimos o diagnóstico & desde então ela só faz melhorar.

O poema que segue, eu o escrevi para ela há muitos anos. Mais do que nunca, faz todo o sentido publicá-lo hoje, 19 de outubro, em homenagem à minha cabocla.

Mais do que nunca, depois deste mau tempo que atravessamos, o sol da saúde desponta com a sua luz & o seu calor, mostrando-nos que a vida renova-se a cada instante, que, por isso, a vida é uma eterna estréia. Nunca sabemos que momento da trama nos aguarda no próximo capítulo; o script/roteiro é escrito no decorrer de cada cena.  Com isso, o amor também faz-se & refaz-se a cada vivência nossa.

Mãe, depois de tanto, depois de tudo, eu só posso desejar que o céu aberto de dias azuis permaneça límpido, sem mudanças tão bruscas.

Mãe, depois de tanto, depois de tudo, a conclusão de que, aqui, o amor existe — firme, forte, em riste.

Graças!

Feliz aniversário! Feliz 74 primaveras vencidas!

Beijo todos & especialmente a minha cabocla Jurema Armond!
Paulo Sabino.
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(autor: Paulo Sabino.)

 

 

ESTRÉIA

 

te  escrevo  porque

te  mereço,

porque  és  diva,

a  dama  divina

—  mulher  maravilha

da  minha  ilha

cercada  de  carinhos

por  todos  os  lados —.

todos  os  cafunés,  todas  as  lágrimas  e  desabafos

é  onde  me  acabo  em  ti.

por  ti  meu  riso  ri,

por  isso  minha  prece,

minha  missa.

minha  oração  se  aquece

em  teus  escaninhos,  teus  desalinhos,  teus  achados.

assim  é  que  te  amasso,

te  acho,

te  cato.

porque  humana  sem  desacato.

eu  te  amo  e  é  outra  estréia,

sem  vida  histérica,

sem  amor  estéril.

pelo  contrário,  é  amor  de  império,

o  carinho  sem  enterro  e  cemitério,

a  poesia  livre  de  impropério.

és  o  meu  hemisfério,

o  meu  norte,

os  versos  sem  corte.

eu  te  amo  e  não  há  miséria,

há  beleza,  há  estética

—  revelação, reverberação

que  insiste

em  mostrar  ao  mundo  triste

que,  aqui,  o amor  existe:

firme

forte

em  riste —.

É COMO AMAR: O UIRAPURU SABE
1 de dezembro de 2015

Pai

Pai Eu no colo

(Nas fotos, o primeiríssimo Paulo Sabino; no colo, o seu sucessor.)
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se entre nós, um dos responsáveis pela minha existência, o paulo sabino primeiro, venceria, hoje (01/12), as suas setenta & três primaveras.

há onze anos — outubro de 2004 — ele pulava fora deste plano para cair dentro, única & exclusivamente, das minhas lembranças, do meu sentimento, do meu coração.

há onze anos ele veio fazer sua morada, única & exclusivamente, dentro de mim.

porém, o seu legado de amor & bom-humor me habita desde sempre.

filho de um violonista baiano, foi um apaixonado pela língua portuguesa, tinha uma grande queda pela língua francesa, um sambista nato (foi diretor de harmonia de uma escola de samba do rio de janeiro por dez anos) & um piadista irremediável.

e é bacana ver como hoje o seu legado, em todos os níveis & sentidos, ecoa de forma bonita em mim como também na minha mãe.

mora & dorme em mim o meu menino grande.

todo o amor que houver nesta vida para você, sabino pai, e algum veneno antimonotonia para todos nós!

parabéns, pai! vivas ao dia que o trouxe ao mundo!

saravá!

beijo todos!
sabino filho.
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(do livro: Campo de milagres. autor: Thiago de Mello. editora: Bertrand Brasil.)

 

 

O UIRAPURU SABE

 

Não me queixo, antes celebro,
esse dom de florescer
que cada palavra traz
de nascença, por milagre.
Só quis contar como faço,
pondo amor no meu fazer,
como o uirapuru só canta
quando precisa cantar.

 

 

É COMO AMAR

 

Sou poeta, sou simplesmente
um ser limitado e triste,
sujo de tempo e palavras.
Contudo, capaz de amor.
Que este ofício de escrever,
sem tirar nem pôr, é o mesmo
que o ofício de viver;
quero dizer o de amar.

É TUDO AMOR
2 de dezembro de 2014

Samambaia

(É tudo amor, e mais coisa nenhuma de que sequer se guarde uma lembrança: na foto, uma samambaia, planta preferida do meu pai, o primeiríssimo Paulo Sabino)
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se entre nós, no primeiro dia do último mês do ano (01/12), o responsável por trazer à luz da vida este que vos escreve, o primeiríssimo paulo sabino, venceria as suas 72 primaveras.

2014: este ano, exatos 10 anos sem a presença dele.

2014: este ano, exatos 10 anos com a presença dele apenas em mim: no meu gestual, na minha alegria de vida, no meu bom-humor, na delicadeza que busco no trato dispensado aos meus demais irmãos de terra: na minha memória.

2014: há exatos 10 anos, o grande paulo sabino, o primeiríssimo, partia deste mundo para tornar-se uma estrela-guia no meu trajeto noite adentro, estrela-guia na obscuridade em que se projeta a existência.

o que há de melhor, em mim, eu devo a ele. tanto devo, que, hoje, o que, antes, foi uma saudade demasiadamente doída, 10 anos depois da sua partida transfigurou-se em lembranças doces. por vezes melancólicas, porém muito doces na sua composição.

filho de um violonista baiano & de uma catarinense, foi envolvido com a música, especificamente com o samba, desde que me entendo por gente (envolveu-se por 10 anos com uma escola de samba do rio de janeiro).

adorava viajar de carro, adorava passeios ao ar livre (o parque do flamengo foi dos seus cenários prediletos), adorava cinema (foi ele quem me apresentou almodóvar, lá atrás, quando o diretor espanhol nem sonhava com o sucesso que alcançou).

adorava dançar em casa, e se acabava quando eu, fascinado por sua presença alegre, iluminada, punha, na vitrola, determinadas canções que o faziam rodopiar pela casa com o seu sorriso farto, de quem nasceu para a amorosidade.

ele foi um apaixonado pela língua portuguesa & admirava & apostava no meu talento para com as letras, desde que me dedico à poesia & à interpretação de poemas.

entre mim & meu velho, meu eterno, meu pai,  é tudo amor, e mais coisa nenhuma de que sequer se guarde uma lembrança, um traço do seu rosto, o fluido passo de uma dança, uma canção — na vitrola antiga — que foge em meio à bruma.

é tudo amor: é tudo o que há na ponta de uma lança que nos fere como áspera verruma (verruma: instrumento de aço que tem a sua extremidade inferior aberta em espiral e terminada em ponta, usado para abrir furos), pois todos sabemos, como já versejou o poetinha, que o amor é a coisa mais triste quando se desfaz, todos sabemos que o amor é a coisa mais triste quando perdido, e, quando fere, quando machuca, ninguém mais se apruma, ninguém mais se endireita, nem que o gáudio — nem que a alegria, o contentamento — da vingança — quando perde-se um amor & o sentimento torna-se mágoa — conserte o furo, a ferida, que o amor causou.

o amor é tudo & apenas o que não se alcança, porque não se pode compreender plenamente o amor: nenhuma definição existente sobre o amor consegue conter o que seja o amor em sua plenitude: ao amor cabe o imponderável, ao amor cabe o inexplicável.

o amor é o que, às vezes tão próximo, se esfuma & escorre mais depressa do que a espuma com que as ondas tecem sua trança de água & sal.

o amor é a chaga que, sendo fugaz, sendo efêmera, passageira, perdura & nos dói como um mal que não tem cura.

o amor é tudo isso & um pouco mais: o amor não possui forma, fórmula, cheiro, cor, cara, peso, tamanho. por mais bem escrita a definição, não existe definição que comporte todo o matiz, todo o colorido, que o amor carrega, que o mais nobre dos sentimentos agrega.

mas seja o que for o amor, cair, quedar em seu abismo com admirações tamanhas que do amor & seu abismo não se consiga mais sair.

pai, por tudo, por tanto, esta singela homenagem nesta primeira década sem a sua presença física, com você aceso em mim. uma chama que nunca se extinguirá neste peito. não há vento ou tempestade capaz de apagá-la, não há intempérie capaz de miná-la.

chama eterna, como eterno o meu amor por você.

entre mim & meu velho, meu eterno, meu pai,  é tudo amor, e mais coisa nenhuma de que sequer se guarde uma lembrança.

salve o primeiríssimo paulo sabino!
salve a sua existência na minha!

beijo todos!
paulo sabino, o filho.
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(do livro: Essa música. autor: Ivan Junqueira. editora: Rocco.)

 

 

É TUDO AMOR

 

É tudo amor, e mais coisa nenhuma
de que sequer se guarde uma lembrança,
um traço, o fluido passo de uma dança,
uma canção que foge em meio à bruma.
É tudo o que há na ponta de uma lança
que nos fere como áspera verruma
e, quando fere, ninguém mais se apruma,
nem que o conserte o gáudio da vingança.
É tudo e apenas o que não se alcança,
o que, às vezes tão próximo, se esfuma
e escorre mais depressa do que a espuma
com que tecem as ondas sua trança.
É a chaga que, sendo fugaz, perdura
e nos dói como um mal que não tem cura.

QUEM NASCEU?
10 de janeiro de 2013

Bebê

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o mundo visto sem figuras de retórica, a existência entendida sem figuras de linguagem:
 
costumamos dizer: o sol nasceu. a lua nasceu. o dia nasceu.
 
nascer: na acepção literal do verbo, segundo o dicionário houaiss, “passar a ter vida exterior no mundo”.
 
o sol, a lua, o dia, estes não nascem; o sol, a lua & o dia são elementos que compõem o mundo, elementos que estão já no mundo, em sua vida exteriorizada. 
 
portanto: o sol nasceu, a lua nasceu, o dia nasceu: é tudo mentira (tais elementos não nascem). é tudo figura (de retórica): quem nasceu, segundo a acepção literal do termo (“passou a ter vida exterior no mundo”), fui eu; quem nasceu, segundo a acepção literal do termo (“passou a ter vida exterior no mundo”), foi você. somos nós, bichos, quem nascemos.
 
e a gente (que nasce), diferentemente da planta (que brota), não sabe bem como nasceu a raça humana, qual é exatamente a sua origem, a gente (que nasce) não sabe bem como surgiu a vida que gerou as vidas que geraram a vida humana, e a gente nem sabe por que nasceu, e a gente nem sabe se, de fato, existe alguma razão, algum fundamento, que justifique a existência humana.
 
o mundo visto sem figuras de retórica, a existência entendida sem figuras de linguagem:
 
à mãe natureza, o templo do pai.
 
o templo do pai para a mãe natureza.
 
mãe: na acepção literal da palavra, segundo o dicionário houaiss, “mulher que deu à luz, que cria ou criou um ou mais filhos”.
 
pai: na acepção literal da palavra, segundo o dicionário houaiss, “homem que deu origem a outro; genitor, progenitor”.
 
na existência que fundamos, também chamamos “pai” a — suposta — força criadora do universo.
 
no entanto, a natureza não é mãe (na acepção literal da palavra) mas um conjunto de elementos do mundo natural — mares, montanhas, animais etc. 
 
e, caso exista alguma força criadora do universo, tal força não seria pai (na acepção literal da palavra) mas o elemento/agente físico que teria originado o universo que, por sua vez, promove a sua contínua expansão.
 
portanto: para a mãe natureza o templo do pai: é tudo mentira (a natureza não é mãe nem é pai a — suposta — força criadora do universo). é tudo figura (de retórica): quem tem mãe, segundo a acepção literal da palavra (“mulher que deu à luz, que cria ou criou um ou mais filhos”), sou eu; quem tem pai, segundo a acepção literal da palavra (“homem que deu origem a outro; genitor, progenitor”), é você. somos nós quem temos mãe, somos nós quem temos pai, que, embora não fiquem o resto das suas vidas do nosso lado (meu pai já partiu…), é impossível esquecer.
 
(pai & mãe seguem conosco o resto da jornada.)
 
o mundo visto sem figuras de retórica, a existência entendida sem figuras de linguagem:
 
quem nasceu? eu? você? minha mãe? seu pai? o sol? a lua? o dia?
 
quem é mãe? quem é pai? você? eu? a natureza? a — suposta — força criadora do universo?
 
a existência, aos nossos olhos miúdos & erráticos, é uma grande alegoria.
 
(é tudo mentira. é tudo figura.)
 
beijo todos!
paulo sabino.
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(autor: Péricles Cavalcanti.)
 
 
 
QUEM NASCEU?
 
 
O sol nasceu
A lua nasceu
O dia nasceu
O sol nasceu
 
É tudo mentira
É tudo figura
 
O sol nasceu
A lua nasceu
O dia nasceu
O sol nasceu
 
É tudo mentira
É tudo figura
 
Quem nasceu fui eu
Quem nasceu foi você
E a gente não sabe bem como
E nem sabe por quê
 
Pra mãe natureza
O templo do pai
Pra mãe natureza 
O templo do pai
 
É tudo mentira
É tudo figura
 
Pra mãe natureza
O templo do pai
Pra mãe natureza 
O templo do pai
 
É tudo mentira
É tudo figura
 
Quem tem mãe sou eu
Quem tem pai é você
Que embora não fiquem com a gente
É impossível esquecer 
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(do site: Youtube. áudio extraído do cd: Mulheres de Péricles. artista: Vários. canção: Quem nasceu? intérprete: Laura Lavieri. autor da canção: Péricles Cavalcanti. selo: Joia Moderna.)
 

ÀS MÃOS DE MEU PAI, UNS VERSOS MUITO LINDOS
6 de dezembro de 2011

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pai,
 
neste mês de dezembro, mês em que você, se estivesse por aqui, venceria as suas 69 primaveras, quero trazer-lhe uns versos muito lindos, colhidos no mais íntimo de mim…
 
versos colhidos no mais íntimo de mim para o homem que me ensinou o bom-humor, a alegria, que me ensinou a ser piadista, a não me levar tão a sério. versos muito lindos ao homem que incitou o meu gosto por água, especialmente pelo mar, uma vez que nasci & vivo numa cidade tomada por ele, pelo mar, eloqüente, imponente em sua vastidão azul. versos ao homem que, aos domigos, religiosamente, levava a família para um passeio ao ar livre (o aterro do flamengo era um dos seus locais favoritos), e, depois, ao cinema, uma das suas GRANDES paixões. homem que sempre me admirou, que sempre apostou em mim, que sempre se preocupou com o meu bem-estar.
 
assim como você, pai, as palavras dos versos que desejo ofertar-lhe são simples, palavras singelas, porém palavras com uma luz tão forte, tão bonita, que você, pai, teria de fechar seus olhos para as ouvir.
 
sim!, uma luz forte, bonita, que viria de dentro delas, como essa que acende inesperadas cores nas lanternas chinesas de papel.
 
sim!, uma luz forte, bonita, que viria de dentro das palavras, palavras iluminadas pela luz que vem de dentro das suas mãos, mãos que têm grossas veias como cordas azuis sobre um fundo de manchas já cor de terra.
 
como, na minha memória, são belas as suas mãos!…
 
mãos que abrigaram a nobre cólera dos justos, a nobre cólera daqueles que não se conformam com um mundo tão cheio de mazelas, tão carecido de bons sentimentos. mãos que nunca me bateram, mãos firmes que guiavam sem violências, mãos a serviço do afago, da meiguice, da carícia, do zelo. 
 
a luz das palavras que lhe trago, pai, vem dessa chama que, pouco a pouco, longamente,  você, durante a sua jornada, veio alimentando na terrível solidão do mundo, chama que me alimenta, que nutre o meu ser, chama que me faz prosseguir buscando fortaleza mesmo nos momentos difíceis, momentos de certa escuridão, momentos de dores & dissabores.
 
a você, pai, trago palavras, apenas palavras… e que são escritas fora do papel, escritas no meu sentimento pelo amor que em mim existe & perdura, firme, forte, em riste. 
 
são tantas coisas a dizer, pai, tantas coisas, que nem sei exatamente como dizê-las, e estas linhas vão morrendo, ardentes & puras, ao vento da poesia…
 
que bom, pai, que privilégio a sua passagem pela minha existência, como aprendemos um com o outro! salve!
 
agora fico por aqui.
 
eis a minha homenagem, mais que merecida, a você, pai, o grande homem da minha vida.
 
beijo imenso, meu “véio”.
amor eterno. 
saudade longa.
 
seu filhote.
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(do livro: Poesia completa – volume único. autor: Mario Quintana. editora: Nova Fronteira.)
 
 
 
EU QUERIA TRAZER-TE UNS VERSOS MUITO LINDOS
 
 
Eu queria trazer-te uns versos muito lindos
colhidos no mais íntimo de mim…
Suas palavras
seriam as mais simples do mundo,
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar teus olhos para as ouvir…
Sim! uma luz que viria de dentro delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel.
Trago-te palavras, apenas… e que estão escritas
do lado de fora do papel… Não sei, eu nunca
                                                                                   soube
o que dizer-te
e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento
da Poesia…
como
uma pobre lanterna que incendiou!
 
 
 
AS MÃOS DE MEU PAI
 
 
As tuas mãos têm grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já da cor da terra
— como são belas as tuas mãos
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram da nobre
                                                                              cólera dos justos…
Porque há nas tuas mãos, meu velho pai, essa beleza que se
                                                                   chama simplesmente vida. 
 E, ao entardecer, quando elas repousam nos braços da tua
                                                                                    cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas…
Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente, vieste
                          alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra
                                                                                                   o vento?
Ah! como os fizeste arder, fulgir, com o milagre das tuas mãos!
E é, ainda, a vida que transfigura as tuas mãos nodosas…
essa chama de vida — que transcende a própria vida
…e que os Anjos, um dia, chamarão de alma. 

MEU PAI, MEU DRÃO
2 de dezembro de 2010

Sprout growing out of concrete

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pai,

meu genuíno drão,

o meu grão da dor do amor,

pai, meu drão,

com você & a vida aprendi:

o amor da gente é como um grão, uma semente que tem que germinar plantada nalgum lugar em mim, ressuscitada das boas memórias que carrego.

pai, meu drão,

eu choro um tanto a sua falta, eu sei, mas saiba: não penso na separação (não encerro o nosso diálogo), não despedaço o coração. sigo os seus ensinamentos de cuidados, cuidados de quem como pai, de quem como drão.

pai, meu drão,

o verdadeiro amor estende-se infinito — imenso monolito a nossa arquitetura.

quem, na vida, poderá fazer este amor morrer?

(nossa caminhadura: dura caminhada pela estrada escura, uma cama de tatame — caminha dura — pela vida afora.)

pai, meu drão,

os meninos são todos sãos.

todos.

o que acontece, eu sei, você sabe, não é resultado de código genético raivoso.

os meninos são todos sãos.

os pecados são todos dos que não têm motivos para roubar, para fraudar, para maltratar.

um mundo tão colérico, tão empedernido, tão truculento, eis a resposta dos meninos a ele.

sabemos, meu pai, meu drão, que somos resultado do que recebemos. se se recebe amor, como recebi de você & da nossa cabocla, a resposta é esta aqui, é a minha.

se se recebe pedrada & brutalidade, nada mais normal, mais pertinente, mais são, do que a resposta dada pelos meninos, também embrutecidos, também empedernidos, também truculentos.

sabemos que os meninos são todos sãos.

deus sabe a confissão dos meninos: não há o que perdoar. há de haver mais compaixão, há de haver mais entendimento de toda a situação.

meu pai, meu drão,

por isso há de haver mais compaixão.

meu pai, meu drão,

o nosso amor é como um grão:

morrenasce: trigo.
vivemorre: pão.

drão…

(meu pai, meu drão: nascido em 1º de dezembro de 1942, devolvido ao chão em 16 de outubro de 2004.)

(o poema-canção que segue, do poeta-compositor gilberto gil, foi escrito por conta do fim do relacionamento com a sua mulher à época, sandra gadelha, também conhecida pelo apelido “sandrão”, de onde foi extraída a partícula “drão”, modo carinhoso com o qual gil passou a chamá-la.)
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(do livro: Todas as letras. organização: Carlos Rennó. autor: Gilberto Gil. editora: Companhia das Letras.)

 

 

DRÃO

 

Drão
O amor da gente é como um grão
Uma semente de ilusão
Tem que morrer pra germinar
Plantar nalgum lugar
Ressuscitar no chão
Nossa semeadura
Quem poderá fazer
Aquele amor morrer!
Nossa caminhadura
Dura caminhada
Pela estrada escura

Drão
Não pense na separação
Não despedace o coração
O verdadeiro amor é vão
Estende-se, infinito
Imenso monolito
Nossa arquitetura
Quem poderá fazer
Aquele amor morrer!
Nossa caminha dura
Cama de tatame
Pela vida afora

Drão
Os meninos são todos sãos
Os pecados são todos meus
Deus sabe a minha confissão
Não há o que perdoar
Por isso mesmo é que há
De haver mais compaixão
Quem poderá fazer
Aquele amor morrer
Se o amor é como um grão!
Morrenasce, trigo
Vivemorre, pão
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Prenda minha. artista & intérprete: Caetano Veloso. canção: Drão. autor: Gilberto Gil. gravadora: Polygram.)

SANGÜÍNEA POESIA
22 de julho de 2010

O que é poesia para você?
  
A arte da vida. A arte da palavra. Uma gaúcha linda por quem estou apaixonado. Na verdade, as três coisas juntas. O resto é literatura. 
 
(resposta do poeta Fabiano Calixto à pergunta de Edson Cruz)
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benvindos,
 
abaixo,
 
uma seleção de poesias de um poeta com quem compactuo uma série de afinidades.
 
fabiano calixto é um autor de inteirezas. sua poética sabe o lado bom e doce da vida, sabe o jeito delicado das coisas, mas o seu olhar não perde de vista o lado cariado e violento do mundo.
 
calixto sabe que a vida é bela, que é linda, mas que, para vivê-la, precisa de uns tantos “band-aids” para os machucados & cortes & feridas que surgem durante os nossos percursos.
 
o poeta entende que o gosto amargo de determinadas coisas não invalida o gosto saboroso de tantas outras. é como se calixto, como diz um verso do caetano veloso, arquitetasse uma estrutura poética sempre buscando o belo e o amaro.
 
(sempre buscando a inteireza, buscando a totalidade dos acontecimentos: a existência não é somente boa como também não é de todo ruim. a existência é uma mescla dessas duas vertentes.)
 
portanto, na obra deste jovem e belo poeta tudo cabe:
 
o descaso social, a pobreza material, a indiferença de alguns bem abastados (economicamente) para com aqueles que moram do lá de lá do quarteirão, fodidos e sem muitas perspectivas de melhoria sócio-econômica. (a tal democracia: a quem serve?)
 
a beleza de amar, em poemas dedicados ao amor de amantes, dedicados à atenção (redobrada) que nos desperta o objeto de desejo (um maravilhoso escândalo!).
 
a saudade de quem partiu, num belíssimo poema intitulado “juntando gravetos”, que aproveito para dedicar ao meu pai, o grande paulo sabino, o homem mais bem humorado que conheci (com quem não encerro diálogo), pois me vejo muito nos versos e, de certa maneira, ao meu papai também. 
 
a admiração por artistas que o comovem, que comovem o bardo, como no lindíssimo “e-mail para adriana calcanhotto”, uma prosa cheia de janelas abertas a várias paisagens, um canto extra-ordinário, onde calixto confessa enxergar a canção como um poderoso antídoto contra a melancólica existência.  
 
o fascínio pela palavra no alegórico “obtuário literário com figuras de gatos e ratos”, em que é decretada a morte dos poetas, abocanhados pelos tantos “ratos” que existem mundo afora, sempre dispostos a atenazar e a azedar a poesia da vida. (porém, por sorte, à quantidade de “ratos”, há uma demanda de “gatos” com colmilhos afiados, prontos para abocanhar os roedores orates e deixar vazar, das suas tripas, as tropas de versos antes aprisionadas.)
 
 
nesta seleção, há um poema cujos versos primeiros viraram um lema para mim, porque eles dizem, melhor, porque eles gritam, aquilo que espero de mim:      
 
se eu quebrar com meus sonhos / e só restar o tédio

medonho, / a decrepitude, a tristeza infinita / o monturo
(na vida, na escrita) / nenhuma cia. de seguros / vai ar-
car com o prejuízo / então, / dou um basta à bosta toda
/ redesenho o traço da boca / deito um sorriso lindo para
o mundo / respiro fundo, vou com tudo / porque é assim
(e só assim) que se tem que ir
 
assim eu vou, senhores. (e assim irei sempre.)
 
beijo bom, saboroso, em todos!
o preto,
paulo sabino / paulinho.
______________________________________________________________________
 
(do livro: Sangüínea. autor: Fabiano Calixto. editora: Editora 34.)
 
 
BALADETA À MALEDETA
 
ó vida, minha vida linda
já te botei muito band-aid
já te dei muita colher de chá
muito pão-de-ló
agora só te darei veneno
                               
                                             on the rocks
 
 
DE SANTO ANDRÉ AO CAMPO LIMPO: O BRASIL (para Heitor Ferraz)
 
esta manhã está linda
sob este sol que desliza
sobre os capôs dos automóveis
a quentura alastra por todo o ar
a imundície dessa cidade
(e depois de passar por três,
quatro, talvez cinco mundos diferentes
no estômago carcinomatoso da mesma cidade,
uma pergunta põe sal no café:
que tipo de futuro tem um país como este?)
 
o festival do morango
regado com o sangue de mais
uma chacina
os ônibus queimados, os olhos inchados de choro
o medo de não ter
o que pôr na marmita
ou o que pôr no caixão
 
a linha amarela em construção
(sepultando a plebe às pressas)
o Hyundai blindado, o Toyota
a fila imensa de carrinhos de papelão
com seus condutores e seus cães
tecem o trânsito, tramam
o inferno de sua mais 
profunda estima
 
— realmente não sei que futuro isso terá…
 
estou indo longe demais
da minha cidade, de mim mesmo
sonho demais —
na telinha LCD se vê
uma flor cor de toalha
exalando perfume a um operário gordo
atrás do bigode
com luvas verdes e capacete marrom
 
os assassinos estão livres
o patrimônio do excelentíssimo senhor presidente da
                                                                 [república
dobrou
é ano de eleição, tempo de monturo
minha ânsia de vômito dá potentes sinais de vida
meu nojo
não cabe na urna
 
(mendigos vomitam tíner
na Galiléia do apóstolo)
 
Estrada do Campo Limpo — julho gélido
muitos olhos tristes dentro do ônibus
(tantos ladrões com filhos pequenos para criar
tantas donas-de-casa com tesão insaciável
a estudante caligrafando a cola
nas deliciosas coxas grossas
de colegial cavala)
será que
quando vêem uma maçã
têm noção de sua gestação
de sua sugestão
do esforço de seu doce suor?
 
(duas garotas no banco de trás:
“a grávida entrou, né,
e eu nem aí, meu,
gravidez não é doença
quem mandou dar?”)
 
somos mesmo uns boçais
o real nos doerá para sempre
 
em tempo de eleição
vomitar tornou-se uma higiene
 
três idas ao banco implorar pelo assalto
já me pediram voto
não respondi
 
desviando o rosto de qualquer
em especial a memória
não exalava nem colônia nem canard
 
chego à Perimetral
a noite continua veloz
ouço um prantear, chove às bicas
 
ruga ínsita
 
 
PEDAÇOS DO ESQUELETO
 
/ se eu quebrar com meus sonhos / e só restar o tédio
medonho, / a decrepitude, a tristeza infinita / o monturo
(na vida, na escrita) / nenhuma cia. de seguros / vai ar-
car com o prejuízo / então, / dou um basta à bosta toda
/ redesenho o traço da boca / deito um sorriso lindo para
o mundo / respiro fundo, vou com tudo / porque é assim
(e só assim) que se tem que ir // a av. Paulista correndo é
tão engraçada / parece uma cobra de marshmallow / uma
viagem de ácido / uma enguia eletrocutando a língua / os
olhares, os colares, tristes demais / estupefatos, oleosos,
covardes e sem razão / a cavoucar a cidade atrás de um
tostão / ou de um milhão / pobres diabos e diabos ricos
a rastejar / quarteirão a quarteirão / uns com ar condicio-
nado, mp3, Honda, / apartamento mobiliado, aulas de
inglês / outros não / a gente que tem / heliporto / vinho
do Porto / trabalha no Horto / não passa fome nem mor-
to / e a gente que / disfarce a disfarce / ganha apenas o
necessário / para endividar-se /
 
 
MUSIKKA (SCRITTI POLITTI)
 
nenhuma lágrima
desce dos olhos
do mundo pasmo
indiferença
brutal de quem
se orgulha tão
cheio de brio
(e de dinheiro)
filho de deus
enquanto a morte
apenas ronda
a tela da
televisão
e o problema
apenas vive
no lá de lá
do quarteirão
saber viver
mas para quê?
se aquele sábio
grande poeta
um dia disse:
nada é mais belo
do que o que não
existe
 
 
UMA HISTÓRIA DE AMOR
 
Take 1:
Desmond pergunta
jogado no sofá da sala
nocauteado por um litro e meio de conhaque
por onde andará seu amor
 
Molly tenta arrumar os livros,
os discos, os dísticos
em seu quarto e
indaga ao espelho
a quem serve
a tal da democracia
 
Take 2:
desaba na cama nem vê que o lençol
é xadrez e que não há mais
cigarros dentro da gaveta
do criado-mudo
 
interiores habitados por
violência de dissoluções
e ternura
 
ela caminha na neve
lábios russos e rachados
 
a água cai e estoura o estuque
repete-se (elegia voz)
a morte
nas trincheiras
(o silêncio é um
único grito de dor
it is said to represent a mirror
 
 
E-MAIL PARA ADRIANA CALCANHOTTO
 
o encanto de quem canta
é o canto que canta na garganta
— algo assim escreveu Goethe
(só que o grande gênio alemão
usou, pelo que li, em vez de encanto,
prêmio (com sentido de pagamento),
no que achei mais delicado
e canoro, usar o substantivo masculino
mais feminino da língua.
até porque encantar, no que
canta o meu pequeno dicionário, pode
ser transformar (pessoa) em outro
ser e quando alguém canta
parece mesmo mudar o rumo
de sua existência, enchendo-se
de um entusiasmo, como se
possuído por deuses — como
disse, em silêncio, Domeneck
o que um amigo lhe dissera
um dia —, incha-se de alegria
por talvez saber-se portador
de um poderoso antídoto
contra a melancólica existência
cantando eu mando a tristeza embora.
e, como não se crê no que não canta,
tentei fazer com que este poema
cantasse, mas que não fosse
óbvio seu canto (visto que visto-
lhe com uma prosa cheia de janelas),
mas sim um tema extraordinário
a blackbird singing in the dead of night
e, quieta e sangüínea, ao lado,
uma violeta
 
 
UM POEMA PARA ELA
 
sentada no sofá, lendo Greimas,
você se parece com uma garota
da Nova Inglaterra, que testa, com
a ponta do dedo indicador,
num dos vidros da janela (enquanto
os flocos de neve lá fora
parecem seguir os movimentos de seu
raciocínio), uma dificílima
questão matemática,
e ao lado desenha um coração
 
que nobreza você tem
quando caminha, quando escreve
um artigo e fica me fazendo mil perguntas
que nunca posso responder (você
não deve ter notado que, ao seu lado,
estou sempre com os pés num lago,
onde os peixes vermelhos nadam
sobre enormes rãs e moedas
de prata são lágrimas da civilização
fixas no fundo da água; ou talvez tenha
notado, e, quando me apressa no banho,
dizendo que há de se economizar água
e energia elétrica (um absurdo! — você diz)
e que estamos atrasados para um encontro
com Molly & Desmond, ou para o jantar,
ou algo assim, quem sabe seja a sua forma
de dizer isso
 
(quando passeamos de mãos dadas
pelas ruas de São Paulo, meu coração
movimenta-se como atravessasse uma
larga avenida na iminência do erro que
faria com que os carros lhe deformassem
para sempre a estúpida geometria, ou,
tal excitação e combate, como se
atravessando um cúmulo-nimbo
almejando alcançar a la décima
esfera de los cielos concéntricos)
 
seu olhar, não pode imaginar quem
não o prova
 
a fascinação, o silêncio
flutuantes
numa operação de rigor
 
 
DUAS PAISAGENS
(UMA SEM E OUTRA COM VOCÊ)
 
o gramado verde, árvore imensa
a luz do sol se deita toda aberta
tornando a sintaxe da paisagem
comunicação delicada — fugidia?
talvez a compor entretons
que se indagam (onde sombras
se guardam e depois se saciam),
como das mãos de um
improvável pintor
ponteando seus megapixels
 
e se você estivesse ali?
 
se você ali estivesse, então
a luz do sol, ao atravessar
o gramado e despriguiçar-se
sobre seu corpo
tornar-se-ia presa
fácil de pela (maçã
polida no orvalho), e
faria o desespero dos sentidos
de qualquer coisa que a observasse
 
maravilhoso escândalo
 
não mais que de repente
deslocamentos monumentais
abririam insensatas crateras
pelas calçadas,
tirariam o fôlego das flores,
destruiriam vidraças,
espremeriam o dia até sua derradeira
gota de suor e magenta
e a máquina do mundo
pararia
 
diante do seu
sorriso
 
 
JUNTANDO GRAVETOS  (para Antonio Calixto, com carinho e muita saudade)
 
Faz um tempo eu quis
Fazer uma canção
Pra você viver mais
 
John Ulhoa
 
 
o silêncio de hoje
toca a quaresmeira lá fora
e, hóspede da perfeição,
torna-se igualmente lilás
 
é com esse silêncio
que leio suas palavras potáveis
recém-chegadas de longe
— de onde? —
 
(a dor nos traz anseios
tolos — como fazer a Terra
voltar meses, anos atrás, como fez
aquele herói extraterrestre
do filme e do álbum de figurinhas
que juntos colávamos
em muitas manhãs de domingo —
ou olhar uma estrela
e imaginar que você
dorme em algum lugar
ali por perto —
e nos dá a medida do tempo
e continuamos sem entender
medida alguma, aguardando
o barco retornar de Delfos
para que possamos, também,
nos despedir definitivamente
desse nosso
bosque liliputiano)
 
dizem que é a última canção
mas eles não nos conhecem
 
por dentro da tarde
as flautas tomam fôlego
para que canções flutuem
ao redor das árvores
que fazem sombra
para os que se despedem
 
 
OBITUÁRIO LITERÁRIO 
COM FIGURAS DE GATOS E RATOS
 
os ratos roeram a vida dos poetas
— livres do peso das letras, os estetas
 
em outras esferas escreverão, pois,
no cavo, vácuo profundo, sem voz, à foice
 
(esta persiana a zerar o ar dos distraídos),
não mais poemas, já que lidos os labirintos,
 
nada mais resta, nada, nem a quem se
amar ou refutar, não esfria, nem aquece,
 
a luta com palavras já não faz parte de
paixões ou razões puras, nenhum alarde,
 
nada de metáforas, nenhuma metonímia 
— a menina de lá não dá mesmo a mínima.
 
os ratos, rudes e arrogantes orates,
gorjeiam na goela os corpos dos vates
 
e, ainda assim, nas estantes, talhados,
ficam os poemas — como nos telhados
 
gatos de gostos e colmilhos afiados, à leitura
nasal do rastro dos ratos, vigiam venturas.
 
de um pulo a outro salto, uma gangue
de gatos retalha a noite com sangue
 
de restos de ratos que das tripas, as tropas
de versos, vazam as mais soberbas sopas.

À MINHA SEREIA, RAINHA DO MAR
2 de fevereiro de 2010

navegantes,
 
hoje, dia 2 de fevereiro, é dia de festa no mar. e eu, que não preciso ser o primeiro (rs), quero, aqui, saudar iemanjá.
 
saudar a rainha do meu en–canto maior, a rainha daquele para quem canto canto canto sem parar, quando na sua presença.
 
o mar
quando quebra na praia
é bonito
é bonito…
 
e saúdo-a com um poema-canção lindíssimo, que me suscita uma série de ligações afetivas.
 
a começar pelo título atribuído aos versos: “onde o rio é mais baiano”. 
 
meu pai, que era carioca, descendia diretamente de um baiano natural de salvador. assim sendo: o rio é mais baiano dentro da minha casa, o rio é mais baiano no meu próprio umbigo (rs).
 
meu avô era músico (violonista), tocava na rádio nacional com o seu trio de cordas, e meu pai foi um sambista nato. durante anos esteve envolvido com o universo do samba. 
 
acho lindas as imagens criadas nas linhas, que dizem que o samba foi trazido ao rio pela bahia, pelas “ciatas”, numa alusão feita às baianas, muitas vindas como esposas de soldados que retornavam da guerra de canudos, fixadas na zona portuária da cidade do rio de janeiro, quituteiras, iniciadas no candomblé, e muito festeiras. produziam sempre eventos musicais em seus quintais, as famosas reuniões — daí a origem — de “fundo de quintal”. a mais famosa das baianas foi tia ciata, com residência à rua visconde de itaúna, no bairro cidade nova, endereço onde se faziam homéricas batucadas, com a presença de donga, pixinguinha, joão da baiana, entre outros, logradouro considerado, mitologicamente, o berço do gênero musical brasileiro mais conhecido no mundo (o mito surgiu dessa maneira).
 
gosto, profundamente, de pensar que foi a bahia quem trouxe o samba pra o rio. e, junto com o samba, as festas e os ritos dos pretos. a comemoração pelo dia de iemanjá, dia do mar & sua alteza.
 
meu pai, sambista, carioca, descende de um baiano, de salvador, músico. o baiano (meu avô) — “a bahia” — trazendo o samba para a vida do carioca (meu pai) — “o rio de janeiro” —.
 
emociona-me desmedidamente o fato de meu avô, músico, baiano, e o meu pai, carioca, sambista. (pois o mito surgiu dessa maneira.)
 
a bahia, estação primeira, lugar onde nasceu tudo o que hoje chamamos “brasil”. a mangueira, escola de samba carioca, intitula-se “a estação primeira” — a estação primeira do samba —.
 
portanto, acho que disse bem o compositor: isso é a confirmação de que a mangueira é onde o rio é mais baiano (rs), de que a mangueira, o outro lado do espelho. (jamelão no rio vermelho, todo ano, e sempre…)  
 
à rainha iemanjá,
à beleza do mar,
 
a minha salva de elogios!
 
beijo em todos,
paulo sabino / paulinho.
_____________________________________________________________________
 
(do livro: Letra Só. autor: Caetano Veloso. organização: Eucanaã Ferraz. editora: Companhia das Letras.)
 
ONDE O RIO É MAIS BAIANO
 
A Bahia
Estação primeira do Brasil
Ao ver a Mangueira
Nela inteira se viu
Exibiu-se sua face verdadeira
 
Que alegria
Não ter sido em vão que ela expediu
As Ciatas pra trazerem o sambra pra o Rio
(Pois o mito surgiu dessa maneira)
 
E agora estamos aqui
Do outro lado do espelho
Com o coração na mão
Pensando em Jamelão no Rio Vermelho
Todo ano, todo ano
Na festa de Iemanjá
Presente no dois de fevereiro
Nós aqui e ele lá
Isso é a confirmação de que a Mangueira
É onde o Rio é mais baiano

MEU PAI, COMO VAI?…
1 de dezembro de 2009

benvindos,
 
como vem ocorrendo há alguns anos, nesta data querida me surge sempre alguma canção ou poesia.
 
hoje, primeiro de dezembro, meu pai, se estivesse vivo, completaria 67 aninhos de pura travessura (rs).
 
ele, um homem divertido, muito bem-humorado, carinhoso por demais. tanto é, que a maneira minha de externar carinho, demonstrar afeto, é através de abraço e beijo. na minha casa, na casa onde fui criado, abraço e beijo eram artigos do dia-a-dia, artigos de luxo e, por isso mesmo, artigos deveras disponibilizados, utilizados como garfo e faca à hora das refeições.
 
tenho absoluta certeza de que muito da minha vontade de boa vida a todos se deve ao jeito, à postura dos meus pais ante a vida.
 
e graças ao caminho, à vida, à trilha, encontro nas esquinas do destino grandes homens, homens capazes, como meu pai, de me proteger, de me confortar, de me compreender.
 
homens que beijo como se meu pai. (beijo homens, muitos, mas poucos como meu pai.) isso é um status de totais confiança e credibilidade na minha existência.
 
pensando nos versos que seguem, dois GRANDES homens, amigos, irmãos, me surgiram de pronto; são eles: athos luiz e césar guerra chevrand. a esses dois homens devo tanto tanto tanto… 
 
lembro-me de um episódio muito marcante: meu pai acabara de morrer e eu estava naquele momento de transformar as dores e a saudade aflita. numa manhã em que sonhara com ele, acordara muito angustiado, melancólico, bem entristecido. uma sensação de desamparo, abandono, me invadiu de maneira tão contundente, que, naquele instante, fora como se eu não tivesse, depois da perda, com quem contar no mundo, como se não houvesse a quem recorrer. claro que era um exagero dos sentimentos, mas a perda de referência tão significativa e forte gera esse tipo de confusão sentimental. parado no corredor do apartamento, minha mãe ausente (de casa), a sensação desconfortável, doída, e o desejo de alcançar abrigo longe dali. intuitivamente, sem racionalizar, pegara o telefone e ligara automaticamente para o césar. ao ouvir sua voz, doce, serena, sempre me dizendo as coisas mais apropriadas, mais afins, fora envolvido por um sentimento tamanho de conforto e esteio, que só fizera chorar por muito tempo. nem sei quanto. chorei, chorei, chorei & chorei. ele, césar chevrand, ali, apenas me ouvindo e já me amparando com as palavras que pausadamente depositava em meus ouvidos. depois de um bom tempo, o sorriso, na voz e na alma, solapava toda tristeza. césar, que é de guerra, me fizera vencer a batalha.
 
athos luiz, esse negro gato de arrepiar (rs), é sempre capaz de dizer as coisas mais acertadas — aos meus olhos —, e as nossas afinidades e concordâncias e constatações e avaliações e lições apreendidas só me fazem crer que esse tipo de relação formula um refúgio, um abrigo, uma espécie de amizade residencial (rs). athos está, a todo momento, dizendo-me coisas surpreendentemente acertivas, justas, coisas bonitas, lúcidas. e me ensina, demais!!, com as suas posturas frente aos acontecimentos. talvez ele seja a pessoa mais bem resolvida que conheço, pessoa que mergulha fundo em si. nesse homem tudo é impressionantemente bonito: corpo & alma, cabelo & sorriso, gesto & voz, abraço & palavras.
 
ao pensar nestas linhas, eles vingaram no pensamento de modo exuberante (os dois, como eu, são apaixonados por este poema-canção).
 
minha mãe, espírita, praticante do kardecismo, crente na vida após a morte, diga ao meu pai que está tudo bem, diga a ele que eu, quando beijo um amigo, estou certo de ser alguém como ele é: alguém com sua força, com seu carinho, com olhos e coração bem abertos: alguém como césar guerra chevrand: alguém como athos luiz.
 
um brinde a paulo sabino! a ele, a minha luz primeva!
 
beijo grande em todos!
o junior do papai (rs).   
___________________________
 
(do livro: Gilberto Gil — todas as letras. organização: Carlos Rennó. editora: Companhia das Letras.)
 
PAI E MÃE
 
Eu passei muito tempo
Aprendendo a beijar
Outros homens
Como beijo o meu pai
Eu passei muito tempo
Pra saber que a mulher
Que eu amei
Que amo
Que amarei
Será sempre a mulher
Como é minha mãe
 
Como é, minha mãe?
Como vão seus temores?
Meu pai, como vai?
Diga a ele que não
Se aborreça comigo
Quando me vir beijar
Outro homem qualquer           
Diga a ele que eu
Quando beijo um amigo
Estou certo de ser
Alguém como ele é
Alguém com sua força
Pra me proteger
Alguém com seu carinho
Pra me confortar
Alguém com olhos
E coração bem abertos
Pra me compreender