OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (11ª EDIÇÃO) — ANDRÉ VALLIAS COM NUMA CIRO E PAULO SABINO
7 de novembro de 2017

(O homenageado da noite, André Vallias, entre Paulo Sabino e Numa Ciro)

___________________________________________________________________

Dia 13 de novembro (segunda-feira), a partir das 20h, acontece a 11ª edição do projeto OCUPAÇÃO POÉTICA no Teatro Candido Mendes de Ipanema, que tem o prazer de receber como homenageado um dos grandes criadores da poesia em suporte digital: ANDRÉ VALLIAS, paulistano radicado no Rio, que, além de poeta, é designer gráfico, produtor de mídia interativa e tradutor.
 
André Vallias nasceu em 1963, São Paulo, onde se formou em Direito pela Universidade de São Paulo. Começou a criar poemas visuais serigráficos em 1985, sob influência da poesia concreta. Viveu de 1987 a 1994 na Alemanha, onde, instigado pelas ideias do filósofo tcheco-brasileiro Vilém Flusser, orientou suas atividades para a mídia digital. Em 1992 organizou, com Friedrich W. Block, a primeira mostra internacional de poesia feita em computador:”p0es1e-digitale dichtkunst” (Annaberg-Buchholz). De volta ao Brasil, tornou-se um dos pioneiros da web brasileira, destacando-se com a criação do site de Gilberto Gil e de diversos outros artistas brasileiros, atuando pela produtora que fundou com a empresária Flora Gil em 1995: a Refazenda. Em 1996 muda-se para o Rio de Janeiro, cidade que veio a inspirar uma de suas obras mais conhecidas: “ORATORIO – Encantação pelo Rio”, poema interativo pelo qual recebe o Prêmio Sergio Motta de Arte e Tecnologia, em 2003. Vem realizando, desde 2007, espetáculos multimídia de poesia, solo ou com outros performers: Poema Falado (Itaú Cultural, 2007), Sybabelia (com Lica Cecato: Oi Futuro RJ, 2010; Teatro Itália SP, 2015), BrasilBabel (com Lira: Sesc Rio Preto, 2015), Do Oratorio ao Totem (Sesc BH, 2016), Numa Ciro & André Vallias (Casa Rio, 2017).
 
Em 2013, expôs o poema TOTEM, feito a partir dos nomes de 222 etnias indígenas brasileiras, no Projeto Poesia Visual II do Oi Futuro Ipanema, que veio a ser lançado mais tarde em formato de álbum pela editora Cultura e Barbárie. Em 2015 realizou a instalação interativa PALAVRIO, em parceria com o Laboratório de Métodos Computacionais em Engenharia, sob curadoria de Heloisa Buarque, no Espaço Coppe (UFRJ). Em 2017, participou da série Frutos Estranhos da FLIP com um trabalho inédito sobre Lima Barreto. Na tradução de poesia, André Vallias se notabilizou com a organização da maior antologia já feita em português da obra do poeta e pensador judeu-alemão Heinrich Heine: Heine, hein? – Poeta dos contrários (Perspectiva, 2011). Traduziu também poemas de Paul Verlaine, Jules Laforgue, Osip Mandelstam, Marina Tsvetáeva, W. B. Yeats, entre outros. Algumas de suas obras digitais podem ser vistas no site http://www.andrevallias.com e na revista online que edita desde 2004: http://www.erratica.com.br.
 
Na 11ª edição da Ocupação Poética, André Vallias irá apresentar – com a participação do poeta e jornalista Paulo Sabino, produtor e idealizador da Ocupação Poética, e da cantora, performer e psicanalista Numa Ciro – uma seleção de seus poemas, vídeo-poemas e transcriações verbivocovisuais; em seguida, a obra que criou especialmente para a FLIP 2017 – “Moteto para Lima Barreto” – que também contou com a colaboração de Paulo Sabino e Numa Ciro.
 
“Depois de apresentá-lo ao público da FLIP, em Paraty, fico feliz de poder mostrar de novo o ‘Moteto’ a uma semana do Dia da Consciência Negra, na cidade natal de Lima Barreto, graças à generosa iniciativa de Paulo Sabino”, diz André Vallias.
 
“A Ocupação Poética é um acontecimento da maior importância artística. E o convite para participar desta edição me enche de alegria por me dar a oportunidade de homenagear André Vallias, a quem muito admiro como tradutor e como um dos criadores mais surpreendentes da poesia contemporânea”, declara Numa.
 
Numa Ciro é cantora, compositora, performer e psicanalista. Criou a modalidade de teatro/canto que denominou “monólogo cantante”: performance de canto sem acompanhamento instrumental à qual são incorporados elementos do teatro, das artes visuais, da poesia e da literatura. Como letrista, tem parcerias com Antônio Nóbrega, César Lacerda, Flaviola, João Donato, Hermeto Pascoal, Lanlan, Tânia Christal, Tibor Fittel e Zé Miguel Wisnik. É pesquisadora associada do PACC (Programa Avançado de Cultura Contemporânea/ UFRJ), onde fez pós-doutorado em Cultura Contemporânea e atuou na criação do Programa Universidade das Quebradas com Heloisa Buarque de Hollanda. É membro do Corpo Freudiano Escola de Psicanálise.
 
SERVIÇO:
Ocupação Poética (11ª edição)
Coordenação: Paulo Sabino
Participantes: André Vallias, Numa Ciro e Paulo Sabino
Teatro Cândido Mendes
Rua Joana Angélica, 63 – Ipanema
Tel: (21) 2523-3663
Data: 13/11 SEGUNDA-FEIRA
Horário: 20h
Entrada: R$ 20,00 (inteira) R$ 10,00 (meia)***
Classificação livre
 
***Nomes confirmados/interessados no evento ou nos comentários desta publicação, entram automaticamente na lista-amiga e pagam meia-entrada (R$ 10,00)
___________________________________________________________________
.
.
De brinde, aos interessados, uma transcriação do Vallias de muita valia. Sobre o porquê, sobre a razão, sobre o motivo, da criação do universo — tanto em termos físicos quanto em termos literários —, que acaba por ser o porquê, a razão, o motivo, da criação de toda e qualquer coisa: o senso criativo, a inclinação de criar algo — seja um universo, seja um filho —. É senso que sobe à cabeça, à memória, à intuição, à sensibilidade, ao raciocínio, ao conhecimento acumulado de uma vida, que queima feito urticária, moléstia que coça, que causa comichão, que incomoda, e que só cura quando dão-se asas ao senso criativo, à inclinação de criar algo — seja um universo, seja um filho —. Trocando em miúdos: a vontade de criar só aplaca quando o ato criativo acontece.
.
.
Beijo todos!
Paulo Sabino.
___________________________________________________________________
.
(do livro: Heine hein?  autor: Heinrich Heine. tradução: André Vallias. editora: Perspectiva.)
.
.
Anúncios

SEJA ONDE FOR, PROPOR A CONTRADANÇA
8 de outubro de 2014

Adoração ao Bezerro de Ouro_Andrea di Lione (1596–1675)

(Na foto, a pintura “Adoração ao bezerro de ouro”, óleo sobre tela do século XVII, do pintor italiano Andrea di Lione.)

Tília

(Na foto, a árvore de nome tília, natural da Europa & da Ásia, logo, nativa do hemisfério norte.)

Carvalho

(Na foto, um carvalho, árvore imponente, de madeira nobre, que pode chegar aos 45 metros de altura, nativa da Europa & do Mediterrâneo.)
__________________________________________________________________

a única certeza desta vida: a de que, um dia, a morte nos alcançará.

portanto, por ser a morte a única certeza desta vida, é próprio da natureza humana pensar a sua finitude:

onde será que eu, o forasteiro (forasteiro porque não pertenço a este pedaço de terra, já que um dia parto de vez daqui), irei saudar a morte? onde será que o forasteiro cansado (cansado depois de tantas & tantas & tantas andanças mundo afora, que assim seja!) irá congratular a morte?

será que o forasteiro cansado irá saudar a morte entre as tílias, lá no (hemisfério) norte? ou aqui no (hemisfério) sul, sob os coqueiros?

vão me enterrar desconhecidos em cova rasa num deserto? ou vagarei em mar aberto até bater nos arrecifes?

que seja numa ou noutra paisagem! isso, no fundo, não pode nem deve interessar! aqui ou acolá, quando a morte me alcançar, há de envolver-me por inteiro a noite escura, noite de onde nunca mais despertarei, e um véu azul de estrelas será a minha mortalha, será o véu que envolverá o meu corpo sepultado.

o que pode & deve importar é o tempo de vida, tempo em que sou paulo sabino.

e, enquanto vida eu tiver, não entro nessa dança, não incenso os ídolos de ouro & pés de barro (“ídolos de ouro & pés de barro”: expressão utilizada para designar pessoas aparentemente fortes, mas apoiadas em estrutura & formação frágeis, inconsistentes, estrutura & formação que podem ruir a qualquer momento de tão frágeis, tão inconsistentes).

enquanto vida eu tiver, não entro nessa dança, não incenso, não louvo, não idolatro, não glorifico, ídolos de ouro & pés de barro, ídolos de estrutura & formação frágeis, nem ídolos falsos, como o bezerro de ouro, retratado na tela do pintor italiano andrea di lione, episódio bíblico (velho testamento) em que os hebreus, quando da saída do egito em busca da terra prometida, exigiram a construção de um deus qualquer, deus, por conseguinte, falso, ilegítimo, enganoso, que pudesse guiá-los, que pudesse direcioná-los, que pudesse orientá-los, e o bezerro de ouro foi arquitetado para tal objetivo.

não incenso, não louvo, não idolatro, não glorifico, ídolos de ouro & pés de barro; tampouco aperto mão de masmarro, de espertalhão, de malandro, de salafrário, tampouco aperto mão de quem difama, de quem cria calúnias, de quem distribui dissenso, de quem distribui conflito, de quem distribui desavença.

não acompanho as multidões medonhas que adoram seus heróis de meia-figa, heróis ordinários, sem grande valor.

sim, eu sei: carvalhos, que são árvores imponentes, ornamentais, de madeira nobre (forte & resistente), árvores que podem chegar aos 45 metros de altura, os carvalhos têm que desabar, enquanto o junco, designação comum para ervas rasteiras encontradas em locais úmidos ou pantanosos, o junco espera, abaixando-se, curvado, passar o vento forte da intempérie, o vento forte do mau tempo.

mas do que pode um junco se orgulhar, sempre abaixando-se, sempre curvando-se, sempre sujeitando-se às vontades do vento forte, nunca enfrentando o mau tempo de pé, nunca resistindo a ele bravamente, como é comum aos carvalhos, árvores imponentes, de grande rijeza, de imensa resistência, de extraordinária solidez?

do que pode um junco se orgulhar? de tirar poeira de capacho ao sol, de tirar o pó do tapete da porta exposto ao sol? do que pode um junco se orgulhar? de curvar-se para a linha de um anzol, quando esta roça a sua superfície?

o junco nunca correrá o risco de desabar ante o vento forte da intempérie porque o junco é rasteiro, porque o junco se ergue pouco acima do solo, porque o junco nasceu para o raso, porque o junco é subserviente; diferentemente do carvalho, árvore altiva, nobre, forte, resistente, que cresce alto perante a vida, que agrega uma série de funções & possibilidades.

eu sei: carvalhos têm que desabar. porém, eu prefiro correr o risco da intempérie, o perigo de ser derrubado pelo vento forte, do que viver sempre rasteiro, sempre no raso, sempre submisso, rente ao chão.

não entro nessa dança: seja onde for, proponho & firmo a contradança.

beijo todos!
paulo sabino.
__________________________________________________________________

(do livro: Heine, hein? — Poeta dos contrários. autor: Heinrich Heine. tradução: André Vallias. editora: Perspectiva.)

 

 

[ONDE?]

 

Onde será que o forasteiro
Cansado irá saudar a morte?
Por entre as tílias, lá no norte?
Aqui no sul, sob os coqueiros?

Vão me enterrar desconhecidos
Em cova rasa num deserto?
Ou vagarei em mar aberto
Até bater nos arrecifes?

Que seja! Aqui ou acolá,
Há de envolver-me por inteiro
A noite escura e um véu de estrelas
Azul será minha mortalha.

 

 

NÃO ENTRO NESSA DANÇA, não incenso
Os ídolos de ouro e pés de barro;
Tampouco aperto a mão desse masmarro
Que me difama e distribui dissenso.

Não galanteio a linda rapariga
Que ostenta sem pudor suas vergonhas;
Nem acompanho as multidões medonhas
Que adoram seus heróis de meia-figa.

Eu sei: carvalhos têm que desabar,
Enquanto o junco se abaixando espera
Passar o vento forte da intempérie.

Mas do que pode um junco se orgulhar?
Tirar poeira de capacho ao sol,
Curvar-se para a linha de um anzol.