SOMOS TROPICÁLIA — 50 ANOS DO MOVIMENTO — MÃEANA, BEM GIL & JORGE SALOMÃO
9 de fevereiro de 2017

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(Os convidados-participantes: Jorge Salomão, Mãeana & Bem Gil.)
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Alegria alegria! Prestenção:

Dias 17 de fevereiro (sexta-feira) & 23 de fevereiro (quinta-feira) começa o ciclo de encontros “Somos Tropicália – 50 anos do movimento”, no Gabinete de Leitura Guilherme Araújo, a partir das 19h30, em homenagem aos 50 anos do Tropicalismo & do lançamento do álbum (que se tornou um clássico) “Tropicália Ou Panis Et Circenses”.

Serão encontros mensais (até dezembro) que ressaltam a importância do movimento na música popular brasileira, que reverbera até hoje no cenário do cancioneiro contemporâneo. Encontros que ocorrerão justamente no espaço que foi a casa do grande empresário & co-criador do Tropicalismo, o irreverente Guilherme Araújo.

Leituras de poemas & participações musicais com releituras do repertório tropicalista.

Para este mês de fevereiro, o imenso prazer de ter como participantes o grande poeta & agitador cultural Jorge Salomão (foto), a cantora Ana Cláudia Lomelino (Mãeana + banda Tono – foto) & o músico & compositor Bem Gil (banda Tono – foto).

A coordenação & curadoria deste super evento são do Rafael Millon & deste que vos escreve, Paulo Sabino.

De graça! Imperdível!

De presente, deixo-lhes um poema-canção de um dos grandes poetas do movimento — Torquato Neto —, com direito ao áudio na interpretação da grande musa do Tropicalismo — Gal Costa.

Serviço:

Gabinete de Leitura Guilherme Araújo apresenta –

SOMOS TROPICÁLIA – 50 anos do movimento

Mãena, Bem Gil e Jorge Salomão / Pocket-show e leitura de poesias
Dias 17/02 (6ª-feira) e 23/02 (5ª-feira)
A partir das 19h30
Rua Redentor, 157 Ipanema
Tel infos. 21-2523-1553
Entrada franca c/ contribuição voluntária
Lotação: 60 lugares
Classificação: livre
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mamãe, coragem: os filhos devem ser criados para ganhar o mundo, para serem donos dos seus caminhos, para irem além da esquina & do alcance da vista.

mamãe, coragem. mamãe, não chore. a vida é assim mesmo — eu fui embora.

mamãe, não chore. a escolha do caminho cabe a cada um. o filho escolheu: eu nunca mais vou voltar por aí.

mamãe, não chore. a vida é assim mesmo — e eu quero, mesmo, é isto aqui que escolhi para a minha vida.

mamãe, não chore. pegue uns panos pra lavar, leia um romance, escute um álbum de música, veja as contas do mercado, pague as prestações, ocupe o seu tempo com funções & tarefas que dizem respeito à sua vida. e que te façam bem. seja feliz.

ser mãe é desdobrar, fibra por fibra, os corações dos filhos. ser mãe é repartir, é desenrolar, é desmanchar as dobras dos corações dos filhos, a fim de esmiuçá-los & assim conhecê-los & assim aceitá-los. e ser feliz com as escolhas que fazem os corações & que cabem às vidas dos filhos.

mamãe, não chore. os filhos possuem as suas vontades: eu quero, eu posso, eu fiz, eu quis. escolhas dos filhos.

mamãe, seja feliz (com as suas escolhas — se puder).

mamãe, não chore. não chore nunca mais — não adianta: eu tenho sonhos para realizar, dores para sofrer, pessoas para amar & odiar, eu tenho o meu caminho, eu tenho um beijo preso na garganta (que desejo lançar ao mundo), eu tenho corações fora do peito (sonho junto a tantos outros filhos). mamãe, não chore. não tem jeito.

mamãe, não chore. pegue uns panos pra lavar, leia um romance, escute um álbum de música, tente entender tudo mais sobre tudo que acontece à sua volta, à minha volta.

eu, por aqui, vou indo muito bem, com as escolhas que fiz para mim. de vez em quando, brinco carnaval, e, na vertigem da folia, vou vivendo felicidade, vivendo felicidade na cidade que plantei para mim, que semeei para minha vida, que fundei para o meu caminho, que escolhi para habitar, cidade que não tem mais fim, de onde não mais sairei.

mamãe, coragem. mamãe, não chore. eu fui embora. eu nunca mais vou voltar por aí.

seja feliz.

beijo todos! especialmente, beijo as mães!
paulo sabino.
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(do livro: Torquatália { do lado de dentro }. autor: Torquato Neto. organização: Paulo Roberto Pires. editora: Rocco.)

 

 

MAMÃE, CORAGEM

 

Mamãe mamãe não chore
A vida é assim mesmo
Eu fui embora
Mamãe mamãe não chore
Eu nunca mais vou voltar por aí
Mamãe mamãe não chore
A vida é assim mesmo
E eu quero mesmo
É isto aqui

Mamãe mamãe não chore
Pegue uns panos pra lavar
Leia um romance
Veja as contas do mercado
Pague as prestações
— ser mãe
É desdobrar fibra por fibra
Os corações dos filhos,
Seja feliz
Seja feliz

Mamãe mamãe não chore
Eu quero eu posso eu quis eu fiz
Mamãe seja feliz
Mamãe mamãe não chore
Não chore nunca mais não adianta
Eu tenho um beijo preso na garganta
Eu tenho jeito de quem não se espanta
(Braço de ouro vale dez milhões)
Eu tenho corações fora do peito
Mamãe não chore, não tem jeito
Pegue uns panos pra lavar leia um romance
Leia Elzira, a morta-virgem,
O grande industrial

Eu por aqui vou indo muito bem
De vez em quando brinco o carnaval
E vou vivendo assim: felicidade
Na cidade que eu plantei pra mim
E que não tem mais fim
Não tem mais fim
Não tem mais fim
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(do site: Youtube. álbum: Tropicália ou Panis et circenses. artista: Vários. canção: Mamãe, coragem. letra: Torquato Neto. música: Caetano Veloso. intérprete: Gal Costa. gravadora: PolyGram.)

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OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (8ª EDIÇÃO) — O EVENTO: FOTOS & POEMAS
11 de dezembro de 2016

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(No camarim, antes da apresentação, da esquerda para direita: Cristina Flores, Renata Corrêa, Paulo Sabino, Maria Rezende, Elizeu Braga, Renato Farias, Pedro Mann, Emílio Dantas & Leo Pinheiro — Foto: Rafael Millon)

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(O coordenador do projeto, Paulo Sabino — Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(A grande homenageada da noite, Maria Rezende, e o coordenador do projeto, Paulo Sabino — Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(A homenageada da noite, Maria Rezende — Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(Renata Corrêa — Foto: Elena Moccagatta)

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(Renato Farias — Foto: Elena Moccagatta)

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(Mariza Leão — Foto: Elena Moccagatta)

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(Emílio Dantas — Foto: Elena Moccagatta)

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(Emílio Dantas & Leo Pinheiro — Foto: Elena Moccagatta)

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(Pedro Mann — Foto: Elena Moccagatta)

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(Cristina Flores — Foto: Elena Moccagatta)

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(Elizeu Braga — Foto: Elena Moccagatta)

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(Os agradecimentos ao final — da esquerda para direita: Leo Pinheiro, Emílio Dantas, Maria Rezende, Paulo Sabino, Renato Farias, Cristina Flores, Elizeu Braga, Renata Corrêa & Pedro Mann — Foto: Rafael Millon)

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(Após apresentação, Emílio Dantas, Paulo Sabino & Renata Corrêa — Foto: Rafael Millon)

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(Após apresentação, Paulo Sabino & Pedro Mann — Foto: Rafael Millon)

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(Após apresentação, Elizeu Braga, Paulo Sabino, Renato Farias & Mariza Leão — Foto: Rafael Millon)

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(Após a apresentação, Paulo Sabino & Maria Rezende — Foto: Elena Moccagatta)

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(Após tudo, no lançamento do mais recente livro de poesia da Elisa: Maria Rezende, Elisa Lucinda & Paulo Sabino — Foto: Rafael Millon)
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Uma pessoa nua no meio da rua
sem ser sonho
é o quê?
Pessoa desarmada
apta pra tropeços

Não há maravilha sem carne
Só o que pulsa se espatifa
É preciso estar vivo pra brilhar e pra doer

 

Que noite. Nem sei. Tô astronauta ainda. Transbordada. Agradeço loucamente a todos os convidados que aceitaram estar lá comigo e me emocionaram profundamente. Obrigada Paulinho pelo convite. Eu sou puro amor agora.

(Maria Rezende)

 

 

Queridos & Queridas,

A 8ª edição do projeto Ocupação Poética, no teatro Cândido Mendes (Ipanema), a última de 2016, em homenagem à jovem & talentosa poeta Maria Rezende (agora, ao usar o termo “jovem”, me lembro demais do seu pai, Maria!) & com participantes pra lá de especiais, fechou o ano com chave de ouro maciço! Foi realmente impactante pra todos nós que participamos e que assistimos. Como eu & a Maria resolvemos não “amarrar” muito o roteiro da noite, deixamos a edição bem solta, fluir com o andar dos minutos, e a apresentação colocou-se num lugar inesperadamente lindo & muito emocionante, incrível. Amigos meus que foram a algumas várias edições me confidenciaram que esta foi a mais emocionada & emocionante de todas. Muitos risos, muita alegria, mas a noite, sem que planejássemos, também nos reservou boas lembranças & lágrimas. Foi um deslumbre! Foi um desbunde! Foi uma catarse! Foi de uma delicadeza & sensibilidade ímpares! Teatro cheio, público quente, leve, que se permitiu embarcar na apresentação junto com todas as histórias contadas & todos os poemas lidos. Eu, hoje, como já disse à Maria, estou com os pés acima do chão, hoje certamente caminho numa nuvenzinha, tamanha leveza & tamanho contentamento por todas as vivências no palco. Eu não esperava tanto, não mesmo. Não podia sequer imaginar que o ano de 2016, com a Ocupação Poética, fecharia assim, tão mágico, tão poético! Eu, mais uma vez, por graça & obra da Poesia, Musa Maior na minha vida, sou amor da cabeça aos pés!

Agradecer demais a presença de todos os participantes & envolvidos para que o projeto acontecesse do jeito que aconteceu: Cristina Flores, Elizeu Braga, Emílio Dantas, Mariza Leão, Pedro Mann, Renata Corrêa, Renato Farias & Rafael Millon.

Agradecer sempre ao Adil Tiscatti & à Fernanda Oliveira por acreditarem no potencial do projeto. Agradecer demais à Julia Mendes de Almeida, sempre simpática & solícita nos arranjos & rearranjos das datas pro projeto (Julinha, que bom te conhecer pessoalmente!).

Mariaaaaaa, cola em mim porque agora eu não desgrudo de você!

De bônus, depois da enxurrada de emoções & beleza que foi a apresentação, pertinho do teatro uma diva tanto minha quanto da Maria lançava o seu mais recente livro de poemas, o que, inclusive, a impossibilitou de participar desta 8ª edição como convidada: Elisa Lucinda. No meu exemplar, a dedicatória que conseguiu me deixar (uma coisa que pensava ser impossível) ainda mais feliz do que já estava:

“Paulo Sabino, com meu amor pelo amor com o qual você trata nossa arte. Beijo da Elisa.”

Valeu demais, valeu por tudo, valeu imensamente! Depois dessa injeção de ânimo, que venham as edições de 2017! Já temos poetas espetaculares para o ano que se aproxima, um luxo só! Vamos que vamos!

De brinde, abaixo, deixo aos interessados dois lindíssimos poemas da Maria Rezende que tive o prazer de ler nesta noite mágica.

Até já, até lá, com mais Ocupações Poéticas!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do livro: Bendita palavra. autora: Maria Rezende. editora: 7Letras.)

 

 

ESCREVO PORQUE ESTOU VIVA
escrevo porque é preciso
pra acordar, pra estar despida
porque o mundo não é só isso
que acontece aqui em cima

Escrevo porque não vivo
escrevo porque preciso
dessa roupa, esse colírio
escrevo pra pôr delírio
em tudo que é preto-e-branco

Escrevo pra estar viva
escrevo porque aqui minto
as belezas que não tenho
e as coragens que persigo
escrevo porque assim finjo

Escrevo contra as burrices
contra os medos que hoje sinto
escrevo a favor do sonho
escrevo pra estar livre
escrevo quando consigo
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(do livro: Carne do umbigo. autora: Maria Rezende. Edição do autor.)

 

 

MEU NORTE

 

O amor me deu um susto
o amor me deu um tapa
um soco doce
um sopro na asa
o amor me encheu de porrada

Me empurrou da bicicleta
me pôs de cama
mudou meu rumo
me deu um norte
roubou meu chão

O amor me botou no colo
deu plural pros verbos
curou minha tosse
me encheu de sede
me tirou das ruas
o amor me deu a mão

OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (6ª EDIÇÃO) — VÍDEOS: MORAES MOREIRA & ELISA LUCINDA — ENCERRAMENTO
16 de novembro de 2016

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(Moraes Moreira — Foto: Elena Moccagatta.)

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(Foto: Elena Moccagatta.)

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(Elisa Lucinda — Foto: Elena Moccagatta.)

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(Foto: Elena Moccagatta.)

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(Moraes Moreira & Elisa Lucinda — Foto: Elena Moccagatta.)

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(Foto: Elena Moccagatta.)

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(Foto: Felipe Fernandes.)

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(O quarteto fantástico da 6ª edição: Elisa Lucinda, Moraes Moreira, Paulo Sabino & Maria Rezende — Foto: Felipe Fernandes.)
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Aos interessados, os 2 últimos vídeos da 6ª edição do projeto “Ocupação Poética”, ocorrido no dia 2 de agosto (terça-feira), no teatro Cândido Mendes (Ipanema – RJ), com a participação estelar de: Elisa Lucinda, Moraes Moreira & Maria Rezende.

No primeiro vídeo desta publicação, a grande homenageada da noite, a poeta & atriz Elisa Lucinda, bate um papo descontraído com o cantor, compositor, instrumentista, poeta & membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, Moraes Moreira, que fala da sua paixão pelo livro “Fernando Pessoa, o Cavaleiro de Nada”, o primeiro romance da Elisa & finalista do prêmio São Paulo de Literatura 2015, conta a divertidíssima história de composição do seu poema-canção “Sonhei que estava em Portugal”, além de recitá-lo & recitar um outro poema-canção seu, ainda não gravado & ainda pouco conhecido porque composto recentemente, “O samba e a língua”. No segundo vídeo, a homenageada da noite recita um poema do grande homenageado por ela na noite (e por todos nós, participantes), Fernando Pessoa, um poema do seu heterônimo Álvaro de Campos. Ainda de presente, o áudio da canção “Sonhei que estava em Portugal”, na interpretação da abelha-rainha Maria Bethânia.

Mais à frente, publicarei a noite da 7ª edição do projeto, em homenagem aos 70 anos do poeta, letrista & agitador cultural, além de querido amigo, Jorge Salomão, e já aviso que está acertada a data da 8ª edição do projeto (5 de dezembro), a homenageada da 8ª edição & confirmados alguns vários convidados. Em breve maiores informações.

Divirtam-se!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [6ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 02/08/2016. Bate-papo entre Elisa Lucinda & Moraes Moreira. Moraes Moreira recita dois poemas-canções de sua autoria, Sonhei que estava em Portugal & O Samba e a Língua.)

 

 

SONHEI QUE ESTAVA EM PORTUGAL  (Moraes Moreira)

 

Sonhei que estava um dia em Portugal
À toa num carnaval em Lisboa
Meu sonho voa além da poesia
E encontra o poeta em pessoa

A lua mingua e a língua lusitana
Acende a chama e a palavra Luzia
Na via pública e em forma de música
Luzia das, luzíadas, Luzias

 

 

O SAMBA E A LÍNGUA  (Moraes Moreira)

 

O que é que une o Brasil
De norte a sul com certeza?
É o samba
E a língua portuguesa

O samba e suas vertentes
A língua e os seus sotaques
O que é que nos faz diferentes
É ter os mesmos destaques
O samba e os seus poetas
E eu morro, sim, de amores
Por essas obras completas

O samba tem a cadência
A língua a sua sintaxe
O samba é malemolência
A língua diz: não relaxe
O samba é mais popular
A língua é mais erudita
Eu ouço o povo falar
Cantar de forma bonita
O samba tem a cabrocha
A língua sua cachopa
O samba acende uma tocha
A língua muda de roupa
O samba é uma escola
A língua é Academia
No samba a gente rebola
Na língua a gente vicia
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(do site: Youtube. áudio extraído do cd: Ciclo. artista & intérprete: Maria Bethânia. canção: Sonhei que estava em Portugal. versos: Moraes Moreira. música: Moraes Moreira. gravadora: Universal Music. citação da canção: Anda Luzia. autor: João de Barro.)


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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [6ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 02/08/2016. Elisa Lucinda recita Poema em linha reta, de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa.)

 

 

POEMA EM LINHA RETA  (Álvaro de Campos / heterônimo de Fernando Pessoa)

 

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo, neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

PASSARINHÃO
30 de setembro de 2016

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(Gavião)
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O texto abaixo, em negrito & entre aspas, foi escrito pelo querido xará Paulo Almeida:

 

“O ‘Coletivo Chama’ nos convocou [Mais e Melhores Produções e Marketing, empresa do Paulo Almeida] para cuidar do lançamento do seu primeiro CD ‘Todo Mundo é Bom’. Um trabalho muito potente e com várias possibilidades de leitura. São muitos os recortes e muitos os motivos para ficarmos atentos a esse trabalho.

Tarefa difícil abrir caminhos para um trabalho tão profundo e tão bem produzido.

Lancei uma ideia maluca, que foi prontamente comprada por todos do coletivo que estavam naquela reunião: que convidássemos compositores, atores, literatos, editores, poetas, músicos, para uma audição aleatória de uma das faixas do CD seguidas de comentários sobre o que ouviram. Essas audições e comentários seriam filmados.

Convocamos um timaço para registrar suas impressões. Para nosso espanto, a maioria aceitou sem pestanejar.

Assim, temos comentários faixa a faixa de um disco muito saboroso.”

 

Deixo pra vocês o vídeo do qual participei, vídeo da faixa “Passarinhão”, falando sobre a faixa com um timaço (honra & alegria): com a atriz Clarice Niskier, com o pianista & compositor André Mehmari, com o professor de música da UniRio Josimar Carneiro, com a cantora Áurea Martins & com o cantor & multi-instrumentista Domenico Lancellotti.

Vale o play pra ouvir a faixa & pros comentários!
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Passarinhão: além do diálogo que o poeta-compositor mantém com o gavião, que ronda a sua localidade, assombra o seu quintal, o gavião, no poema-canção, é a personificação/personalização de um sentimento ruim, de um mau agouro, que sobrevoa o ser do poeta-compositor: passa, gavião; não arranha o coração do poeta-compositor; não assombra o seu quintal.

Passa, gavião. Por que tu, passarinhão, te aninhaste debaixo do pensamento do poeta-compositor, dentro de alguma dor do poeta-compositor, com teu rumor de rapina & teu silêncio de tumor, teu silêncio de algo que mata por dentro?, passarinhão ávido pra atiçar um sofrimento no poeta-compositor.

Sai, sai, passarinhão. Faz favor, tem compaixão.

O ovo gorado do passarinhão já agourou o poeta-compositor. O canto triste do gavião calou de dor a voz do poeta-compositor. Acabou que tu, passarinhão, ficaste mais vivo que a vida do próprio poeta-compositor, e o medo de viver, de amar, empalhou o poeta-compositor. Acabou que tu, gavião, penetraste o pesadelo do poeta-compositor, pássaro-invasor.

Passarinhão, larga o poeta-compositor & segue a trilha do acauã, abandone o quintal do poeta-compositor, para que a manhã rebrilhe na sua casa-ser.

Sai, sai, volta, não. Passa, passa, gavião, a fim de o poeta-compositor alcançar a sua redenção, a sua proteção, a sua salvação.

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. artista: Coletivo Chama. álbum: Todo mundo é bom. canção: Passarinhão. música: Thiago Thiago de Mello. letra: Thiago Amud. comentários: Paulo Sabino, Domenico Lancellotti, Áurea Martins, André Mehmari, Josimar Carneiro, Clarice Niskier.)

 

PASSARINHÃO   (Thiago Amud)

Passa, passa, gavião
Todo mundo é bom e mau
Não me arranha o coração
Não assombra meu quintal
Passo-preto, passado que não passou
Que tambor te encantou?
Que ato, que palavra oculta te perpetuou?
O teu olho vazado me divisou
Tua venta ventou
Teu bico bicou bem o músculo que atrofiou
Por que te aninhaste debaixo do meu pensamento
Dentro de alguma dor
Com teu rumor de rapina e teu silêncio de tumor
Ávido pra me atiçar um sofrimento?
Sai, sai, passarinhão
Bacurau mudou de tom
Faz favor, tem compaixão
Todo mundo é mau e bom
Passo-preto, espantalho não te espantou
Tiro não te matou
Que crime dormido em meu sangue te maravilhou?
O teu ovo gorado já me agourou
Teu canto me calou
Ficaste vivo mais que a vida, o medo me empalhou
Por qual razão desconhecida botaste tocaia?
Praga ou desamor?
Tu que és metade uma harpia, metade és um estupor
Tu que penetraste o meu pesadelo, meu invasor
Passa noite, passa arribação
Passa a terçã
Passa, passa, gavião
Me larga e segue a trilha do acauã
Que a manhã rebrilha
Sai, sai, volta não
Passa, passa, gavião
Redondilha, redenção

OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (7ª EDIÇÃO) — HOMENAGEM A JORGE SALOMÃO — 70 ANOS DE POESIA PURA
23 de setembro de 2016

(Mais um participante confirmado para esta edição do projeto: é o filósofo, poeta & letrista Antonio Cicero.)

 

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(O homenageado da noite, o poeta, letrista & agitador cultural Jorge Salomão — Foto: Elena Moccagatta)

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(Roberto Frejat)

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(Antonio Cicero)

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(Christovam de Chevalier — Foto: Elena Moccagatta)

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(Patrícia Mellodi)

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(Sheila da Silveira)

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(Paulo Sabino & Jorge Salomão)

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(Matéria do suplemento Zona Sul, do jornal O Globo, sobre a 7ª edição do projeto Ocupação Poética)
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Anotem na agenda, espalhem a notícia, compartilhem esta publicação!

Dia 26 DE SETEMBRO (segunda-feira), às 20H: a 7ª edição do projeto OCUPAÇÃO POÉTICA, coordenado por PAULO SABINO, no teatro CÂNDIDO MENDES (Ipanema – Rio de Janeiro), em comemoração aos 70 ANOS DE VIDA do GRANDE poeta, letrista & agitador cultural JORGE SALOMÃO.

Na noite, prestaremos uma homenagem ao JORGE SALOMÃO lendo vários dos seus BELOS poemas da sua CONSAGRADA carreira.

Além da participação do poeta homenageado & da participação deste que vos escreve, o Paulo Sabino, o evento contará também com as participações para lá de especiais:

— do cantor & compositor ROBERTO FREJAT;
— do filósofo, poeta & letrista ANTONIO CICERO;
— do poeta & jornalista CHRISTOVAM DE CHEVALIER;
— da cantora & compositora PATRÍCIA MELLODI;
— da poeta SHEILA DA SILVEIRA.

 

26 DE SETEMBRO (segunda-feira), às 20H, no teatro CÂNDIDO MENDES (Ipanema – Rio de Janeiro): a 7ª edição do projeto OCUPAÇÃO POÉTICA.

Coordenação do projeto: PAULO SABINO.

Esperamos todos!

 

SERVIÇO

Ocupação Poética – Teatro Cândido Mendes

Coordenação: PAULO SABINO

Segunda-feira (26/09)

Participantes: PAULO SABINO, JORGE SALOMÃO, ROBERTO FREJAT, ANTONIO CICERO, CHRISTOVAM DE CHEVALIER, PATRÍCIA MELLODI, SHEILA DA SILVEIRA

Horário: 20h
Entrada: R$ 40,00 (inteira) / R$ 20,00 (meia)
Vendas antecipadas na bilheteria do teatro
End.: Joana Angélica, 63 – Ipanema, Rio de Janeiro. Tel.: (21) 2523-3663.

 

LISTA AMIGA (MEIA-ENTRADA):

Queridos & Queridas,

A lista amiga deste evento, a 7ª edição do projeto Ocupação Poética no teatro Cândido Mendes, em homenagem ao poeta, letrista & agitador cultural Jorge Salomão, dia 26/09 (segunda-feira), garante apenas o preço da meia-entrada (R$ 20,00), não garante o ingresso na bilheteria (em caso de lotação).

A lista amiga serve àqueles que:

1) não possuem CARTEIRA DE ESTUDANTE;
2) não possuem CARTEIRA DE PROFESSOR;
3) não possuem CARTEIRA DO CINE SANTA TERESA;
4) não possuem ACIMA DE 65 ANOS.

Se você se enquadra em algum dos quesitos acima (possui, ou carteira de estudante, ou a de professor, ou a do Cine Santa Teresa, ou possui acima de 65 anos), você NÃO PRECISA do nome na lista amiga.

Os que queiram pagar meia-entrada (R$ 20,00) & não possuem as carteiras citadas acima nem mais de 65 anos, por favor, deixem os nomes nos comentários desta publicação.

Até lá! Até já!
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(autor dos versos: Jorge Salomão.)

 

 

PSEUDO-BLUES

 

Dentro de cada um
Tem mais mistérios do que pensa o outro
Uma louca paixão avassala a alma o mais que pode
O certo é incerto, o incerto é uma estrada reta
De vez em quando acerto
Depois tropeço no meio da linha

Tem essa mágica
O dia nasce todo dia
Resta uma dúvida
O sol só vem de vez em quando
O certo é incerto, o incerto é uma estrada reta
De vez em quando acerto
Depois tropeço no meio da linha
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: Virgem. artista & intérprete: Marina Lima. canção: Pseudo-Blues. música: Nico Rezende. poema: Jorge Salomão. gravadora: Universal Music.)

40 ANOS: CORAÇÃO NA BOCA, PEITO ABERTO — VOU SANGRANDO
24 de junho de 2016

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o fim de uma década, da década de 30, para o início de outra, da década de 40.

40 anos para chegar até aqui, para chegar onde cheguei.

e afirmo a quem me lê: começaria tudo outra vez se preciso fosse. a chama em meu peito ainda queima. saiba: nada foi em vão: nenhuma das tristes emoções, nenhuma das alegres emoções. 40 anos: nada foi em vão.

certamente foram necessárias todas as vivências para que o paulo sabino resultasse neste que aqui se apresenta depois de vencidas 40 primaveras.

40 primaveras: a fé no que virá & a alegria de poder olhar pra trás & ver que voltaria a viver neste imenso salão que foi & é a minha existência & seus acontecimentos.

neste imenso salão que foi & é a minha existência, a grande estrela, a musa maior, foi & é a poesia.

a experiência poética, para mim, é uma experiência existencial.

lendo poesia, interpretando os jogos semânticos criados nos, e entre os, versos, reinvento o homem que sou, e, reinventando-me, promulgo a minha constante atualização como homem, ao me perceber humano & mortal a cada ato, ao me perceber ser pensante & atuante na vida; é disso que vem a poesia.

pelo tanto que a poesia comporta, por tudo que a poesia pode, porque a poesia reinventa o homem em sua trajetória, a origem da poesia em nada difere da origem do homem, uma vez que, sem poesia, não há sequer a possibilidade do humano.

pois que a possibilidade do humano pulsa dentro da prática poética: não sabemos vivenciar o mundo sem poetizá-lo, sem mitificá-lo, sem criar metáforas & saberes fantásticos atribuídos a ele; não damos conta de tanto & criamos a poesia, os mitos & as lendas, que acabam por recriar o mundo.

em última instância: a experiência humana é experiência poética, é o modo que temos, que descobrimos, que inventamos, de viver, de experimentar, o mundo que nos cerca.

a poesia é uma condição — e condenação — do homem.

reinventando-me, a poesia me reafirma homem, mortal/ transitório/ inacabado, me reafirma ser pensante & pulsante entre as coisas.

sobretudo o verso é o que pode lançar mundos no mundo.

por ser o verso aquele que pode lançar mundos no mundo, a minha voz, a minha garganta, está sempre à disposição do canto que a poesia contém.

a possibilidade do humano pulsa dentro da prática poética: não sabemos vivenciar o mundo sem poetizá-lo, sem mitificá-lo, sem criar metáforas & saberes fantásticos atribuídos a ele: por isso faço da minha vida a minha melhor poesia.

vida & poesia, poesia & vida: duas coisas, em mim, entrelaçadas, unas, entremeadas: duas coisas que, dentro de mim, não podem ter fim: vida & poesia, poesia & vida: dois azuis no mesmo azul — meu horizonte sem nuvem nem monte.

quando eu soltar a minha voz, por favor, entenda que, palavra por palavra, eis, aqui, neste espaço, uma pessoa se entregando.

coração na boca, peito aberto — vou sangrando: são as lutas desta nossa vida que eu estou cantando: as belezas & as vilezas, as claridades & as escuridões, o caminho aberto & o muro armado.

quando eu abrir minha garganta, essa força tanta (força que carrego nas cordas vocais por cantar a vida, por cantar a poesia), tudo o que você ouvir, esteja certa de que estarei vivendo.

veja o brilho dos meus olhos & o tremor nas minhas mãos quando estou no palco do teatro, dizendo poesia, isto é, dizendo a vida através da poesia.

e se eu chorar & o sal — das lágrimas — molhar o meu sorriso, sorriso que sustento na boca com o pranto do olhar, não se espante; ao invés de espantar-se com o meu sorriso alinhado ao meu pranto, cante, que o teu canto é minha força pra cantar, que o canto de quem canta comigo é de onde extraio a minha força & vontade & coragem de cantar o meu canto: canto de vida — que é o canto da poesia.

40 primaveras vencidas & eu não me arrependo de nada nas 40 voltas em torno do sol: começaria tudo outra vez se preciso fosse, meu amor.

em mim o eterno é música (a música dos versos de um poema, a música dos versos de um poema-canção) & amor (pelo céu, pelo mar, pelo sol, pela pessoa, pela pedra, pelo bicho, pelo mato: pela vida).

eu deixar de cantar (o canto da poesia) ou deixar de gostar de você (vida): não há nada, no mundo, que possa fazer.

não há nada no mundo — nem nunca haverá.

em mim, o eterno é música & amor.

que venham mais 40 primaveras!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do encarte do álbum: De volta ao começo. artista: Gonzaguinha. autor dos versos: Gonzaguinha. gravadora: EMI.)

 

 

SANGRANDO

 

Quando eu soltar a minha voz
Por favor, entenda
Que palavra por palavra
Eis aqui uma pessoa
Se entregando
Coração na boca, peito aberto
Vou sangrando
São as lutas dessa nossa vida
Que eu estou cantando
Quando eu abrir minha garganta
Essa força tanta
Tudo que você ouvir
Esteja certa
Que estarei vivendo
Veja o brilho dos meus olhos
E o tremor nas minhas mãos
E o meu corpo tão suado
Transbordando toda raça e emoção
E se eu chorar
E o sal molhar o meu sorriso
Não se espante
Cante
Que o teu canto é a minha força
Pra cantar
Quando eu soltar a minha voz
Por favor, entenda
É apenas o meu jeito de viver
O que é amar
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(do site: Youtube. áudio extraído do álbum: De volta ao começo. artista & intérprete: Gonzaguinha. canção: Sangrando. autor: Gonzaguinha. citação da canção: Começaria tudo outra vez. autor: Gonzaguinha. gravadora: EMI.)

OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (4ª EDIÇÃO) — ENCERRAMENTO: GERALDO CARNEIRO & MARTINHO DA VILA
6 de junho de 2016

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(Geraldo Carneiro)

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(Martinho da Vila — Foto: AgNews)

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(Martinho da Vila & Geraldo Carneiro)

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(Martinho da Vila & Geraldo Carneiro — Foto: AgNews)

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(Geraldo Carneiro & Paulo Sabino)

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(Martinho da Vila & Paulo Sabino)

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(Os participantes desta edição do projeto: Paulo Sabino, Flávia Oliveira, Wagner Cinelli, Martinho da Vila, Elisa Lucinda, Zezé Motta, Geraldo Carneiro, Tom Farias, Maria Gal, Ju Colombo, Maíra Freitas — Foto: AgNews)

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(Ao final, Martinho da Vila assinando exemplares do seu livro “Barras, vilas & amores”)

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(A dedicatória do meu exemplar: “Ao Paulo Sabino, este meu ‘Barras, vilas & amores’, com gratidão, Martinho da Vila”)
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“Querido
Saímos todos de alma lavada sim.
A noite foi linda, leve e feliz.
Parabéns pelo seu projeto encantador.
Que venham muitas outras edições…
Bjs
Cléo”

(Mensagem de Cléo Ferreira, esposa do Martinho da Vila, recebida no dia seguinte ao evento)

 

 

Aos interessados, o encerramento da 4ª edição do projeto “Ocupação Poética”, ocorrido no dia 3 de maio (terça-feira), no teatro Cândido Mendes (Ipanema – RJ), com a participação de um elenco estelar: Geraldo Carneiro, Maíra Freitas, Elisa Lucinda, Zezé Motta, Maria Ceiça, Dani Ornellas, Flávia Oliveira, Wagner Cinelli, Ju Colombo, Maria Gal & Tom Farias.

Nos 2 vídeos desta publicação, gravados, montados, editados & produzidos pelo querido músico, produtor & videomaker Felipe Fernandes, a grande surpresa da noite: o poeta, tradutor & dramaturgo Geraldo Carneiro lê “Escuta, cavaquinho!”, a sua primeira parceria com o grande homenageado da noite, Martinho da Vila, parceria até então inédita, integrante do próximo álbum do Martinho, ainda em produção, poema-canção que, segundo o cantor, é a primeira faixa do disco, abre o seu novo trabalho. Na seqüência, Martinho da Vila canta a capella, pela primeira vez em público, “Escuta, cavaquinho!”, apresentando a música ao seu parceiro letrista, que ainda não a conhecia. Notem que o Geraldo Carneiro lê uma versão do poema-canção que, ao virar canção, para caber na melodia desenhada pelo Martinho, sofre algumas transformações/alterações.

Mais uma vez, agradecer imensamente a todos os envolvidos no projeto, e em especial aos participantes desta 4ª edição. Foi linda!

Aproveito para convidá-los para a 5ª edição do projeto, que acontecerá no dia 15 de junho (quarta-feira), a partir das 20h, no teatro Cândido Mendes (Ipanema), com um jovem & talentoso poeta (o mais jovem poeta a integrar o projeto) & participantes muito especiais.

Deixarei, aqui no blog, todas as informações sobre a próxima edição.

Espero que os senhores tenham se divertido tanto quanto nós, participantes, nos divertimos realizando.

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Geraldo Carneiro lê o poema-canção Escuta, cavaquinho!, parceira de Geraldo CarneiroMartinho da Vila. imagens/montagem/edição/produção do vídeo: Felipe Fernandes.)

 

ESCUTA, CAVAQUINHO!   (Geraldo Carneiro/Martinho da Vila)

 

Escuta, cavaquinho, as minhas preces
Senão o tempo passa, a gente esquece
Esquece de aprontar a fantasia
De celebrar a dor e a alegria

Toca comigo pra que o nosso sonho se realize
Ou pelo menos guarde um press-release
Pra que no futuro possam ler
Que houve dois seres que se amaram tanto
Que misturaram a alegria e o pranto

Eu, violão, e você, cavaquinho
Eu, no bordão, e você, no chorinho
Sem saber se era noite ou se era dia
Felicidade?
A gente nem sabia
Só sabia que vivia no presente
Esse país que é todo eternidade
Com esse sol desfilando em céu aberto
E o resto ganhando forma de saudade
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Martinho da Vila canta a capella a canção Escuta, cavaquinho!, parceira de Geraldo CarneiroMartinho da Vila. imagens/montagem/edição/produção do vídeo: Felipe Fernandes.)

 

ESCUTA, CAVAQUINHO!  (Geraldo Carneiro/Martinho da Vila)

 

Escuta, cavaquinho, as minhas preces
Senão o tempo passa e a gente esquece
Esquece de aprontar a fantasia
De celebrar a dor e a alegria.

Toca pra que um sonho realize
Ou pelo menos guarde um press-release
Pra que um futuro possam ler
Que somos seres que se amam tanto
E que misturam alegria e pranto

Eu, violão, você, cavaquinho
Eu, na canção, você no chorinho
Sem acordar se era noite ou se era dia
Felicidade?
Uma utopia
Que a gente curtia e vivia no presente
Desse país que é todo eternidade
Com esse sol desfilando em carro aberto
E o futuro muito incerto mas já cheio de saudade

OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (4ª EDIÇÃO) — VÍDEOS: MARIA CEIÇA, ZEZÉ MOTTA & FLÁVIA OLIVEIRA
26 de maio de 2016

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(Maria Ceiça)

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(Zezé Motta)

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(Flávia Oliveira)
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Aos interessados, 3 vídeos da 4ª edição do projeto “Ocupação Poética”, ocorrido no dia 3 de maio (terça-feira), no teatro Cândido Mendes (Ipanema – RJ), com a participação de um elenco estelar: Geraldo Carneiro, Maíra Freitas, Elisa Lucinda, Zezé Motta, Maria Ceiça, Dani Ornellas, Flávia Oliveira, Wagner Cinelli, Ju Colombo, Maria Gal & Tom Farias.

Nos vídeos desta publicação, leituras dos trechos do livro “Barras, vilas & amores”, do homenageado da noite, o sempre simpático cantor, compositor & escritor Martinho da Vila: no primeiro vídeo, gravado, montado, editado & produzido pelo querido músico, produtor & videomaker Felipe Fernandes (ficou lindo o vídeo, diferentemente dos demais que posto aqui, feitos com a câmera de um celular), a atriz Maria Ceiça lê um trecho do livro em homenagem à Barra da Tijuca, onde atualmente mora o Martinho & que ele chama de sua mais nova namorada; no segundo vídeo, a grande diva Zezé Motta lê um trecho do livro sobre as lutas pelo fim da escravidão/opressão sofrida pelos negros & as lutas pelo fim do racismo, cantando, inclusive, “O mestre-sala dos mares”, de Aldir Blanc & João Bosco; no terceiro vídeo, a jornalista Flávia Oliveira lê um trecho do livro sobre políticas brasileiras de inclusão social, trecho no qual a jornalista & colunista é citada.

Portanto, aos interessados, 3 assuntos que são caros ao Martinho da Vila: a sua nova namorada, a Barra da Tijuca; as lutas pelo fim da escravidão/opressão contra os negros & pelo fim do racismo; e as políticas de inclusão social do Brasil.

Mais vídeos chegarão!

Divirtam-se!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Maria Ceiça lê um trecho do livro Barras, vilas & amores, de Martinho da Vila.)

 

Ela é bonita, muito linda mesmo.
A primeira vez que a vi era ainda muito jovem, quase
virgem. Uma fruta verdinha em todos os sentidos.
Seu verde calmo se confundia com o azul de um imenso 
mar. Hoje está mais madura, imponente como uma
égua de competição.
Vista de cima, de asa delta, de monomotor, parapente…
É deslumbrante. Um avião.
Paquerei sem sonhar, pensando: “É muita areia para o meu caminhãozinho”.
A brisa da sorte, aquela que sopra sempre para o lado
dos poetas, me ventilou e tive a ventura de conhecê-la.
Devagarinho fui me achegando. Flertamos.
Descobri seus outros encantos, seus recantos…
Deixei-me levar nas suas águas e estamos namorando,
bem enamorados.
É certo que vou me apaixonar porque ela é bela, segura,
dominante.
Não é Duas Barras, mas é calma. Não tem vila como a
Vila, mas é tranquila.
Não tem muvuca, tem point. É a Barra da Tijuca.

 

A Barra, como é conhecida popularmente, é um bairro nobre localizado na zona oeste da cidade do Rio de Janeiro. Seus moradores pertencem a uma classe privilegiada. É um bairro considerado centro gastronômico  e de entretenimento da capital, e muitas pessoas de outros bairros cariocas, em especial da zona sul, têm migrado para lá. A Barra possui uma das maiores favelas do Rio de Janeiro, a Rocinha, e é também reconhecida como uma área com alto índice de desenvolvimento humano (IDH), por abrigar população de classe alta e emergente. Possui também a praia mais extensa do Rio de Janeiro, com 18 km de belas areias com águas limpas. Fica ali a lagoa de Marapendi, transformada em Área de Proteção Ambiental a Reserva Biológica.

Um dos pontos mais pitorescos da Barra da Tijuca é a ilha da Gigoia, uma ilhota desconhecida pela maioria dos cariocas, habitada por gente simples. Sem ruas nem carros, todo o percurso é feito por vielas, e é possível cruzá-la em uma caminhada de cerca de meia hora. O acesso à ilha é feito por barcos e pequenas balsas.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Zezé Motta lê um trecho do livro Barras, vilas & amores, de Martinho da Vila.)

 

Adib tinha total razão, queridos leitores, quando disse ao “afilhado” Josuel que a transferência da capital para o Planalto Central, um plano antigo, foi um erro. Nos anos 1950 a aviação de combate e defesa já era primordial, e o perigo passou a ser dos ares. Seria justificável no tempo do Brasil Imperial, quando havia guerras de conquista e os invasores chegavam pelo mar.

A ideia da transferência ganhou força em 1910, ano em que o marinheiro João Cândido tomou a armada brasileira e ameaçou bombardear a cidade em protesto contra o açoite a marinheiros negros no pós-abolição. O episódio, conhecido como a revolta da Chibata, que eu prefiro chamar de revolta da Armada, sempre foi assunto proibido, mas o combativo jornalista e escritor Edmar Morel escreveu, em 1959, um livro sobre o fato que também serviu de inspiração para um antológico samba de João Bosco e Aldir Blanc, poeticamente composto com o subterfúgio da linguagem figurada para driblar a censura:

 

Há muito tempo nas águas
Da Guanabara
O dragão no mar reapareceu
Na figura de um bravo
Feiticeiro
A quem a história
Não esqueceu
Conhecido como
Navegante negro
Tinha a dignidade de um
Mestre-sala
E ao acenar pelo mar
Na alegria das regatas
Foi saudado no porto
Pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por
Batalhões de mulatas
Rubras cascatas jorravam
Das costas
Dos santos entre cantos
E chibatas
Inundando o coração
Do pessoal do porão
Que a exemplo do feiticeiro
Gritava então
Glória aos piratas, às
mulatas, às sereias
Glória à farofa, à cachaça
Às baleias
Glórias a todas as lutas
Inglórias
Que através da
Nossa história
Não esquecemos jamais
Salve o navegante negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais

 

O almirante João Cândido é símbolo das lutas dos militantes do Movimento Negro, iniciado com Ganga Zumba, fundador do Quilombo dos Palmares que acolhia escravos fugitivos perseguidos pelos capitães do mato. Zumbi, o Guerreiro da Liberdade, substituiu Ganga Zumba na chefia do quilombo e o expandiu, recrutando mulheres e brancos injustiçados para intensificar as incursões a fazendas para libertar escravos.

O Quilombo dos Palmares era praticamente um estado independente na serra da Barriga, entre Pernambuco e Alagoas. Os quilombolas de Palmares viviam basicamente da agricultura de subsistência, da pesca e da caça. Plantavam milho, banana, feijão, mandioca, laranja e cana-de-açúcar. Faziam também artesanato com cerâmica, tecido, palha… Tinha uma organização política semelhante aos reinos africanos, ou seja, poder centralizado nas mãos de um líder.

Segundo os dicionários, zumbis são almas penadas que vagueiam à noite, causando arrepios e, na minha concepção, a definição é devida ao medo que os fazendeiros escravagistas tinham de Zumbi dos Palmares, líder que na calada da noite invadia propriedades e arregimentava cativos.

No Rio de Janeiro e em alguns outros municípios, 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, ou Dia de Zumbi, é feriado.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Flávia Oliveira lê um trecho do livro Barras, vilas & amores, de Martinho da Vila.)

 

Uma importante fase da luta foi a agressão verbal, cujo ícone Abdias Nascimento representou. Doutor em economia, escritor, jornalista, artista plástico, ator, diretor teatral e dramaturgo, Abdias foi o primeiro negro a assumir uma cadeira no Senado, onde causava constrangimento ao acusar a República brasileira de discriminatória, porque nas fotos de posses dos governantes não se veem negros.

Tinha total razão o combatente Abdias. Hoje mesmo — escrevo no primeiro dia do ano de 2015 — saiu nos jornais a foto dos ministros do governo da presidente Dilma, e não vi nenhum preto.

A jornalista Flávia Oliveira escreveu em sua coluna de O Globo, na edição de 4 de janeiro, uma crônica intitulada “Mal na foto”, que em certo trecho declara:

Difícil acreditar que não existam no país um engenheiro negro de pensamento ortodoxo, currículo assemelhado ao de Joaquim Levy, para conduzir a Fazenda pelos caminhos do tripé macroeconômico que Dilma abraçou no discurso de posse. Ou que não haja uma brasileira doutora em economia por universidade americana, como Alexandre Tombini, para assumir o Banco Central. Ou uma médica capacitada em gestão e planejamento para, como Arthur Chioro, comandar o ministério da Saúde. Certamente, o Brasil tem gays, negros e mulheres formados em direito, com mandato na Câmara Municipal, cargo executivo em empresa pública e experiência em assessoria parlamentar para estar à frente dos Transportes, cargo de Antônio Carlos Rodrigues.

(…)

Querido leitor ou leitora!

Se você é contra as ações afirmativas para a inclusão social, como sistema de cotas raciais, aqui vai um dado para pensar. O jornal O Dia de 26 de abril de 2015, no caderno Economia, na Coluna do Servidor, de Alessandra Horto com Hélio de Almeida, foi publicada a matéria “União tem apenas 4% de negros em seus quadros”. E informa que “pouquíssimos estão no Poder Executivo e que, mesmo com curso superior, a maioria dos negros ainda está em funções de nível auxiliar”. O argumento tópico tem mais detalhes e foi baseado no Censo Demográfico de 2010, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (4ª EDIÇÃO) — VÍDEOS: DANI ORNELLAS, MAÍRA FREITAS & WAGNER CINELLI
17 de maio de 2016

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(Dani Ornellas)

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(Maíra Freitas)

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(Wagner Cinelli)
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Aos interessados, 5 vídeos da 4ª edição do projeto “Ocupação Poética”, ocorrido no dia 3 de maio (terça-feira), no teatro Cândido Mendes (Ipanema – RJ), com a participação de um elenco estelar: Geraldo Carneiro, Maíra Freitas, Elisa Lucinda, Zezé Motta, Maria Ceiça, Dani Ornellas, Flávia Oliveira, Wagner Cinelli, Ju Colombo, Maria Gal & Tom Farias.

Nos vídeos desta publicação, leituras dos trechos do livro “Barras, vilas & amores”, do homenageado da noite, o querido & simpático cantor, compositor & escritor Martinho da Vila: nos 2 primeiros vídeos, apresento a atriz Dani Ornellas, que lê um trecho do livro em homenagem a Duas Barras, cidade natal do Martinho; nos 2 vídeos seguintes, a pianista, cantora & compositora Maíra Freitas canta “Alô Noel”, poema-canção de Cláudio Jorge, e lê um trecho do livro em homenagem a Vila Isabel; e no quinto & último vídeo, o desembargador, músico & compositor Wagner Cinelli lê um trecho do livro em homenagem ao primeiro grande poeta da Vila Isabel, Noel Rosa, além de contar histórias divertidíssimas da sua família, que esteve próxima do Noel.

Portanto, aos interessados, 3 assuntos que são grandes paixões na vida do Martinho da Vila: a sua cidade natal, Duas Barras; o bairro de Vila Isabel; e o primeiro grande poeta da Vila, Noel Rosa.

Mais vídeos chegarão!

Divirtam-se!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Paulo Sabino apresenta a atriz Dani OrnellasDani Ornellas lê um trecho do livro Barras, vilas & amores, de Martinho da Vila.)

 

 

A vida dos bibarrenses, qualitativo de quem é de Duas Barras, anda sempre calma como as águas dos rios limítrofes, Rezende e Negro. O tranquilo município da região serrana do Rio de Janeiro tem como bons vizinhos Cordeiro, Cantagalo, Bom Jardim, Nova Friburgo, Carmo e Sumidouro. É a terra de Josuel Wermelingerthal Ferreira, bairrista de quatro costados, como gostava de se definir orgulhosamente.

Eu não sabia, mas descobri que “quatro costados” é uma expressão portuguesa referente à legitimidade, e concluí que pode dizer que é de quatro costados qualquer pessoa que tem orgulho do que é. Assim se sentem os meus conterrâneos de todos os cantos, de Monnerat, segundo distrito, onde fui registrado, à Fazenda do Campo; de Holofote à Vargem Grande; da Rancharia à Fazenda das Flores; do lugarejo da Queda do Tadeu ao da Cachoeira Alta.

(…)

Gostava muito de acompanhar procissões. As que mais apreciava eram as que tinham a participação da banda de música, como as da Ressurreição de Jesus e a de Nossa Senhora da Conceição.

A marcha religiosa mais bonita era a da Ressurreição, que transitava por todas as ruas da cidade. Nas janelas, os moradores estendiam toalhas e outros panos coloridos. Caminhavam até a casa do secretário de Cultura, que tinha um quintal vasto, e ali era rezada uma missa campal com cânticos alegres.

Aqui vale um insight: são fundamentais em pequenas cidades um padre carismático e um secretário de Cultura atuante e festeiro. O prefeito deve ser franco, cordial e se fazer presente em tudo. Dos batizados aos casamentos, dos nascimentos aos velórios. E o delegado tem de ser sorridente e cordial.

Em noite de plenilúnio, daquelas em que o clarão do encantador corpo celeste provoca sombra nos corpos terráqueos, o interessante espaço do mirante Vale Encantado, há poucos quilômetros do centro bibarrense, estava lotado. Zaguinha, arrendatário da lanchonete, de violão em punho entoava serestas, sem uso do microfone. Todos paravam de conversar para ouvi-lo interpretar “Noite cheia de estrelas”, de Cândido das Neves, e muitos o acompanhavam:

 

Noite alta, céu risonho/ A quietude é quase um sonho
O luar cai sobre a mata/ Qual uma chuva de prata/
De raríssimo esplendor
Só tu dormes, não escutas/ O teu cantor
Revelando à lua airosa/ A história dolorosa desse amor
Lua…

Manda a tua luz prateada/ Despertar a minha amada
Quero matar meus desejos/ Sufocá-los com os meus beijos
Canto…
E a mulher que eu amo tanto/ Não me escuta, está
dormindo
Canto e por fim/ Nem a lua tem pena de mim
Pois ao ver que quem te chama sou eu
Entre a neblina se escondeu
Lá no alto a lua esquiva/ Está no céu tão pensativa
As estrelas tão serenas/ Qual dilúvio de falenas/
Andam tontas ao luar
Todo o astral ficou silente/ Para escutar
O teu nome entre as endechas
E as dolorosas queixas/ Ao luar
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Maíra Freitas canta Alô Noel, de Cláudio Jorge. Maíra Freitas lê um trecho do livro Barras, vilas & amores, de Martinho da Vila.)

 

 

Alô Noel
Eu vou cantando o meu samba
E fazendo na vida o meu melhor papel
Bem feliz eu sonho
Ter uma vida tranquila
E morar numa vila
Em Vila Isabel

Pode ser em qualquer rua
Ou na praça Barão de Drummond
E até mesmo num barraco
Naquele macaco do meu coração
Na Teodoro da Silva
Lá nas Torres Homem ou na Souza Franco

Mas a Vinte e Oito é que é o biscoito
Pra ir pro Maraca caminhando a pé
Desfilar de azul e branco
E beber na Visconde de Abaeté

 

Morar no Rio foi uma realização pessoal. Encantado pela cidade, apaixonou-se por Vila Isabel. Gostava de história e foi logo se informar sobre a Barão de Drummond, que deu nome à antiga praça Sete.

É a principal praça do bairro, cujo nome foi dado em homenagem à data da instalação do gabinete do primeiro-ministro visconde do Rio Branco (7 de março de 1871), responsável pela elaboração da Lei do Ventre Livre, a qual determinava a libertação dos nascidos de mães escravas. Emocionou-se ao saber que o boulevard Vinte e Oito de Setembro foi assim denominado em homenagem à data em que foi assinada a Lei do Ventre Livre pela regente princesa Isabel, em 1871. Boulevard origina-se do francês e significa um tipo de via de trânsito, geralmente larga, com muitas pistas, ou dividida em dois sentidos. É nesse logradouro que fica a quadra da Unidos de Vila Isabel, onde assistiu a muitos ensaios, conquistou amizades… Fez muitos amigos na vila onde foi residir, na rua Teodoro da Silva, assim batizada em homenagem a Antonio Teodoro da Silva, que assinou a Lei Áurea com a princesa Isabel.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Wagner Cinelli lê um trecho do livro Barras, vilas & amores, de Martinho da Vila.)

 

Violão ele aprendeu inicialmente com um irmão que dominava categoricamente o instrumento. Estudou também com os métodos de violão publicados nos jornais de modinha. Frequentava os saraus caseiros de Vila Isabel e ouvia com curiosa atenção os músicos que acompanhavam os seresteiros. Pode-se dizer que era um músico de ouvido. Como solista fazia uns acordes difíceis, que parecem errados, mas não são. Noel foi um autodidata e tornou-se um excelente violonista acompanhador. Participou de vários grupos musicais, inclusive o importante Bando de Tangarás, formado por Braguinha, Alvinho, Henrique Brito e Almirante. Tinha muito ritmo, tirava diferentes acordes. Por isso os grandes artistas da época gostavam de serem acompanhados por ele. Era o preferido do Francisco Alves, o mais famoso.

Ele também fez sucesso como cantor. Não era dotado de uma grande voz, mas tinha muito suingue. Participava de shows com os grandes cantores, inclusive fez dupla com Chico Alves, “O Rei da Voz”. O sucesso dele nos palcos não era pela voz, mas pelos trejeitos, pela atração pessoal e pelo repertório que apresentava, composto exclusivamente por composições próprias. As mais apreciadas pelo público eram as bem-humoradas, como “Conversa de botequim”, que cantava quase declamando, como se estivesse conversando com um garçom:

 

Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada
Um pão bem quente com manteiga à beça
Um guardanapo e um copo d’água bem gelada
Feche a porta da direita com muito cuidado
Que eu não estou disposto a ficar exposto ao sol
Vá perguntar ao seu freguês do lado
Qual foi o resultado do futebol

Se você ficar limpando a mesa
Não me levanto nem pago a despesa
Vá pedir ao seu patrão
Uma caneta, um tinteiro
Um envelope e um cartão
Não se esqueça de me dar palitos
E um cigarro pra espantar mosquitos
Vá dizer ao charuteiro
Que me empreste umas revistas
Um isqueiro e um cinzeiro

Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada
Um pão bem quente com manteiga à beça
Um guardanapo e um copo d’água bem gelada
Feche a porta da direita com muito cuidado
Que eu não estou disposto a ficar exposto ao sol
Vá perguntar ao seu freguês do lado
Qual foi o resultado do futebol

Telefone ao menos uma vez
Para três, quatro, quatro, três, três, três
E ordene ao seu Osório
Que me mande um guarda-chuva
Aqui pro nosso escritório
Seu garçom, me empresta algum dinheiro
Que eu deixei o meu com o bicheiro
Vá dizer ao seu gerente
Que pendure esta despesa
No cabide ali em frente

OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (4ª EDIÇÃO) — FOTOS & VÍDEOS: PAULO SABINO & TOM FARIAS
9 de maio de 2016

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(Mais uma edição com a casa lotada)

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(O coordenador do projeto — Paulo Sabino — & o homenageado da noite — Martinho da Vila — antes da apresentação)

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(Alguns momentos do coordenador do projeto — Paulo Sabino)

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(Tom Farias)

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(Dani Ornellas)

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(Maria Ceiça)

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(Maíra Freitas)

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(Wagner Cinelli)

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(Zezé Motta)

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(Flávia Oliveira)

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(Maria Gal)

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(Ju Colombo)

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(Elisa Lucinda)

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(Geraldo Carneiro)

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(Martinho da Vila & Geraldo Carneiro)

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(Martinho da Vila, Paulo Sabino & Geraldo Carneiro)

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(O homenageado da noite — Martinho da Vila)

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(Os participantes — Paulo Sabino, Flávia Oliveira, Wagner Cinelli, Martinho da Vila, Elisa Lucinda, Zezé Motta, Geraldo Carneiro, Tom Farias, Maria Gal, Ju Colombo & Maíra Freitas)

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(O coordenador do projeto — Paulo Sabino — & o homenageado da noite — Martinho da Vila — depois da apresentação)

Coluna Gente Boa - O Globo

(Depois do evento, a super matéria da coluna “Gente Boa” — jornal “O Globo”)
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Gente amada, querida,

A quarta edição do projeto Ocupação Poética, no teatro Cândido Mendes, em Ipanema, no dia 3 de maio (terça-feira), em homenagem ao grande cantor, compositor & escritor Martinho da Vila, foi um esplendor, um arraso, um desbunde!

A beleza que o elenco (estelar) imprimiu com as suas leituras do livro “Barras, vilas & amores”, o mais recente do homenageado da noite, e com as histórias que cada um possui com o autor é inenarrável, indescritível, incomensurável.

Como sempre, depois de uma noite feliz & iluminada com a palavra, com a boa literatura, até hoje eu sou amor da cabeça aos pés!

Tudo divino-maravilhoso! Só recebi as melhores palavras & os mais carinhosos elogios do que conseguimos fazer.

A impressão que tenho é de que todos que foram à apresentação saíram de alma lavada, assim como eu.

Agradecer imensamente a participação de todos os envolvidos: Tom Farias, Geraldo Carneiro, Maíra Freitas, Elisa Lucinda, Zezé Motta, Maria Ceiça, Dani Ornellas, Flávia Oliveira, Wagner Cinelli, Ju Colombo, Maria Gal & Rafael Roesler Millon.

Meu agradecimento mais que especial ao mestre Martinho da Vila, uma lição de simpatia, bom-humor, simplicidade, elegância & inteligência. À Cléo Ferreira, esposa do mestre, pessoa especial, de quem gostei imediatamente por seu sorriso encantado & seu doce olhar.

Agradecer a todos os que foram & ajudaram a fazer a quarta edição da Ocupação Poética uma noite inesquecível para este que vos escreve com o coração nas mãos.

Aos interessados, 3 vídeos do evento: o primeiro, com a abertura da noite; o segundo, com o produtor da noite, o jornalista Tom Farias, lendo o prefácio do livro do homenageado escrito por José Vicente, reitor da Universidade Zumbi dos Palmares; e o terceiro, com o coordenador do projeto, Paulo Sabino, lendo um poema-canção do Martinho da Vila.

Espero que vocês gostem. Mais vídeos chegarão.

Valeu por tudo!

Junho tem mais! Aguardo vocês para a quinta edição!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Paulo Sabino apresenta o projeto Ocupação Poética.)

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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Tom Farias lê o prefácio do livro Barras, vilas & amores, escrito por José Vicente, reitor da Universidade Zumbi dos Palmares.)

 

 

UM GÊNIO DA CANÇÃO, UM ESCRITOR DE TALENTO REFINADO  (José Vicente)

 

Duas coisas me chamam bastante atenção quando se trata de escrever umas linhas como estas para um livro como este, do Martinho da Vila: a qualidade da narrativa e a história do seu autor. Aqui, a narrativa é, além da saborosa leitura que proporciona, o crème de la crème que enreda esta obra, desenvolvida em uma cadência extraordinária, com uma leveza que nos faz navegar no sabor de uma música de primeira, bem ao gosto do nosso exímio escritor. O segundo ponto tem a ver com o próprio Martinho. Passei boa parte de minha vida me deliciando com as suas canções, ora apenas como mero ouvinte, ora nos cantos de minha casa, tentando imitar a sua voz pausada, nas tiradas de muitos sambas geniais que são verdadeiras pérolas do nosso cancioneiro popular.

Mas como a vida é um eterno movimento, um verbo sempre ativo, eis-me aqui para falar de uma outra grande faceta desse genial cidadão brasileiro: a sua veia literária. Meu Deus, quanta responsabilidade! Mas lendo o seu livro, me senti envolvido por uma história que se semelha, guardadas as devidas proporções, com a de muitos brasileiros como eu ou como as de quem, porventura, ler estas linhas.

A busca de nossas origens, de nossa identidade ou de nossa ancestralidade, é o que nos move e o que nos motiva vida afora. Tem sido assim com a minha vida e com as vidas envolvidas nos projetos relacionados à Universidade Zumbi dos Palmares.

Martinho da Vila, como sambista e escritor, é desses valores que aprendemos a admirar e ter dentro do círculo de “melhor amigo”, como ser humano que é e como artista apreciado internacionalmente, pelas quizombas que provoca por aí. Mas quando se trata então do artista de muitas músicas de sucesso ou do narrador-revelação, autor de mais de uma dezena de livros e imortal da Academia Carioca de Letras, as proporções de grandeza, elevadas à culminância do respeito e do apreço, deixam aguçado em nós aquele alto sentido de responsabilidade.

Portanto, estas linhas têm o singelo papel de dizer que é e sempre será uma honra escrever sobre Martinho da Vila e sua obra. Todos sabem que não sou um literato, na estrita acepção da palavra, mas um grande admirador do nosso homenageado (…), a quem devoto o melhor do meu respeito.

Tudo isso para dizer que a leitura deste livro é um primeiro passo para se conhecer um pouco mais sobre o seu genial talento, em um momento tão especial, no qual, com muita felicidade, tornamos pública uma obra (…) sua, em uma importante parceria da SESI-SP Editora, o que torna essa iniciativa e este lançamento tão merecidamente importantes e desejados, fazendo jus a esse homem chamado Martinho da Vila.

Axé, meu irmão, valeu nosso Zumbi.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Paulo Sabino recita Meu off-Rio, poema-canção de Martinho da Vila.)

 

 

MEU OFF-RIO  (Martinho da Vila)

 

Nos arredores, Cantagalo, Teresópolis
Nova Friburgo e Bom Jardim, bem no caminho
Meu off Rio tem um clima de montanha
E os bons ares vêm da serra de Petrópolis
É um lugar especial
Para quem é sentimental
E aprecia um gostoso bacalhau
O galo canta de madrugada
E a bandinha toca na praça
Na entrada há um vale
Que é encantado
Tem cavalgada, tem procissão
As cachoeiras principais de lá são duas
E a barra é limpa porque lá não tem ladrão
Tomo cachaça com os amigos
Lá em Cachoeira Alta
E na Queda do Tadeu, churrasco ao lago
Pra ir pro Carmo
Tem muita curva
E a preguiça então me faz ficar na praça
Eu nem preciso trancar o carro
A chave fica na ignição
A minha Vila fica meio enciumada
Se eu pego estrada e vou correndo para lá
Se alguém pergunta, eu não digo
Onde fica o tal lugar
Mas canto um samba para quem adivinhar
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(do site: Youtube. áudio extraído do ábum: Ao Rio de Janeiro. artista & intérprete: Martinho da Vila. canção: Meu off-Rio. autor da canção:Martinho da Vila. gravadora: Sony BMG Music.)