OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (4ª EDIÇÃO) — VÍDEOS: MARIA CEIÇA, ZEZÉ MOTTA & FLÁVIA OLIVEIRA
26 de maio de 2016

Ocupação Poética_4 edição_57

(Maria Ceiça)

Ocupação Poética_4 edição_55

(Zezé Motta)

Ocupação Poética_4 edição_34

(Flávia Oliveira)
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Aos interessados, 3 vídeos da 4ª edição do projeto “Ocupação Poética”, ocorrido no dia 3 de maio (terça-feira), no teatro Cândido Mendes (Ipanema – RJ), com a participação de um elenco estelar: Geraldo Carneiro, Maíra Freitas, Elisa Lucinda, Zezé Motta, Maria Ceiça, Dani Ornellas, Flávia Oliveira, Wagner Cinelli, Ju Colombo, Maria Gal & Tom Farias.

Nos vídeos desta publicação, leituras dos trechos do livro “Barras, vilas & amores”, do homenageado da noite, o sempre simpático cantor, compositor & escritor Martinho da Vila: no primeiro vídeo, gravado, montado, editado & produzido pelo querido músico, produtor & videomaker Felipe Fernandes (ficou lindo o vídeo, diferentemente dos demais que posto aqui, feitos com a câmera de um celular), a atriz Maria Ceiça lê um trecho do livro em homenagem à Barra da Tijuca, onde atualmente mora o Martinho & que ele chama de sua mais nova namorada; no segundo vídeo, a grande diva Zezé Motta lê um trecho do livro sobre as lutas pelo fim da escravidão/opressão sofrida pelos negros & as lutas pelo fim do racismo, cantando, inclusive, “O mestre-sala dos mares”, de Aldir Blanc & João Bosco; no terceiro vídeo, a jornalista Flávia Oliveira lê um trecho do livro sobre políticas brasileiras de inclusão social, trecho no qual a jornalista & colunista é citada.

Portanto, aos interessados, 3 assuntos que são caros ao Martinho da Vila: a sua nova namorada, a Barra da Tijuca; as lutas pelo fim da escravidão/opressão contra os negros & pelo fim do racismo; e as políticas de inclusão social do Brasil.

Mais vídeos chegarão!

Divirtam-se!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Maria Ceiça lê um trecho do livro Barras, vilas & amores, de Martinho da Vila.)

 

Ela é bonita, muito linda mesmo.
A primeira vez que a vi era ainda muito jovem, quase
virgem. Uma fruta verdinha em todos os sentidos.
Seu verde calmo se confundia com o azul de um imenso 
mar. Hoje está mais madura, imponente como uma
égua de competição.
Vista de cima, de asa delta, de monomotor, parapente…
É deslumbrante. Um avião.
Paquerei sem sonhar, pensando: “É muita areia para o meu caminhãozinho”.
A brisa da sorte, aquela que sopra sempre para o lado
dos poetas, me ventilou e tive a ventura de conhecê-la.
Devagarinho fui me achegando. Flertamos.
Descobri seus outros encantos, seus recantos…
Deixei-me levar nas suas águas e estamos namorando,
bem enamorados.
É certo que vou me apaixonar porque ela é bela, segura,
dominante.
Não é Duas Barras, mas é calma. Não tem vila como a
Vila, mas é tranquila.
Não tem muvuca, tem point. É a Barra da Tijuca.

 

A Barra, como é conhecida popularmente, é um bairro nobre localizado na zona oeste da cidade do Rio de Janeiro. Seus moradores pertencem a uma classe privilegiada. É um bairro considerado centro gastronômico  e de entretenimento da capital, e muitas pessoas de outros bairros cariocas, em especial da zona sul, têm migrado para lá. A Barra possui uma das maiores favelas do Rio de Janeiro, a Rocinha, e é também reconhecida como uma área com alto índice de desenvolvimento humano (IDH), por abrigar população de classe alta e emergente. Possui também a praia mais extensa do Rio de Janeiro, com 18 km de belas areias com águas limpas. Fica ali a lagoa de Marapendi, transformada em Área de Proteção Ambiental a Reserva Biológica.

Um dos pontos mais pitorescos da Barra da Tijuca é a ilha da Gigoia, uma ilhota desconhecida pela maioria dos cariocas, habitada por gente simples. Sem ruas nem carros, todo o percurso é feito por vielas, e é possível cruzá-la em uma caminhada de cerca de meia hora. O acesso à ilha é feito por barcos e pequenas balsas.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Zezé Motta lê um trecho do livro Barras, vilas & amores, de Martinho da Vila.)

 

Adib tinha total razão, queridos leitores, quando disse ao “afilhado” Josuel que a transferência da capital para o Planalto Central, um plano antigo, foi um erro. Nos anos 1950 a aviação de combate e defesa já era primordial, e o perigo passou a ser dos ares. Seria justificável no tempo do Brasil Imperial, quando havia guerras de conquista e os invasores chegavam pelo mar.

A ideia da transferência ganhou força em 1910, ano em que o marinheiro João Cândido tomou a armada brasileira e ameaçou bombardear a cidade em protesto contra o açoite a marinheiros negros no pós-abolição. O episódio, conhecido como a revolta da Chibata, que eu prefiro chamar de revolta da Armada, sempre foi assunto proibido, mas o combativo jornalista e escritor Edmar Morel escreveu, em 1959, um livro sobre o fato que também serviu de inspiração para um antológico samba de João Bosco e Aldir Blanc, poeticamente composto com o subterfúgio da linguagem figurada para driblar a censura:

 

Há muito tempo nas águas
Da Guanabara
O dragão no mar reapareceu
Na figura de um bravo
Feiticeiro
A quem a história
Não esqueceu
Conhecido como
Navegante negro
Tinha a dignidade de um
Mestre-sala
E ao acenar pelo mar
Na alegria das regatas
Foi saudado no porto
Pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por
Batalhões de mulatas
Rubras cascatas jorravam
Das costas
Dos santos entre cantos
E chibatas
Inundando o coração
Do pessoal do porão
Que a exemplo do feiticeiro
Gritava então
Glória aos piratas, às
mulatas, às sereias
Glória à farofa, à cachaça
Às baleias
Glórias a todas as lutas
Inglórias
Que através da
Nossa história
Não esquecemos jamais
Salve o navegante negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais

 

O almirante João Cândido é símbolo das lutas dos militantes do Movimento Negro, iniciado com Ganga Zumba, fundador do Quilombo dos Palmares que acolhia escravos fugitivos perseguidos pelos capitães do mato. Zumbi, o Guerreiro da Liberdade, substituiu Ganga Zumba na chefia do quilombo e o expandiu, recrutando mulheres e brancos injustiçados para intensificar as incursões a fazendas para libertar escravos.

O Quilombo dos Palmares era praticamente um estado independente na serra da Barriga, entre Pernambuco e Alagoas. Os quilombolas de Palmares viviam basicamente da agricultura de subsistência, da pesca e da caça. Plantavam milho, banana, feijão, mandioca, laranja e cana-de-açúcar. Faziam também artesanato com cerâmica, tecido, palha… Tinha uma organização política semelhante aos reinos africanos, ou seja, poder centralizado nas mãos de um líder.

Segundo os dicionários, zumbis são almas penadas que vagueiam à noite, causando arrepios e, na minha concepção, a definição é devida ao medo que os fazendeiros escravagistas tinham de Zumbi dos Palmares, líder que na calada da noite invadia propriedades e arregimentava cativos.

No Rio de Janeiro e em alguns outros municípios, 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, ou Dia de Zumbi, é feriado.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Flávia Oliveira lê um trecho do livro Barras, vilas & amores, de Martinho da Vila.)

 

Uma importante fase da luta foi a agressão verbal, cujo ícone Abdias Nascimento representou. Doutor em economia, escritor, jornalista, artista plástico, ator, diretor teatral e dramaturgo, Abdias foi o primeiro negro a assumir uma cadeira no Senado, onde causava constrangimento ao acusar a República brasileira de discriminatória, porque nas fotos de posses dos governantes não se veem negros.

Tinha total razão o combatente Abdias. Hoje mesmo — escrevo no primeiro dia do ano de 2015 — saiu nos jornais a foto dos ministros do governo da presidente Dilma, e não vi nenhum preto.

A jornalista Flávia Oliveira escreveu em sua coluna de O Globo, na edição de 4 de janeiro, uma crônica intitulada “Mal na foto”, que em certo trecho declara:

Difícil acreditar que não existam no país um engenheiro negro de pensamento ortodoxo, currículo assemelhado ao de Joaquim Levy, para conduzir a Fazenda pelos caminhos do tripé macroeconômico que Dilma abraçou no discurso de posse. Ou que não haja uma brasileira doutora em economia por universidade americana, como Alexandre Tombini, para assumir o Banco Central. Ou uma médica capacitada em gestão e planejamento para, como Arthur Chioro, comandar o ministério da Saúde. Certamente, o Brasil tem gays, negros e mulheres formados em direito, com mandato na Câmara Municipal, cargo executivo em empresa pública e experiência em assessoria parlamentar para estar à frente dos Transportes, cargo de Antônio Carlos Rodrigues.

(…)

Querido leitor ou leitora!

Se você é contra as ações afirmativas para a inclusão social, como sistema de cotas raciais, aqui vai um dado para pensar. O jornal O Dia de 26 de abril de 2015, no caderno Economia, na Coluna do Servidor, de Alessandra Horto com Hélio de Almeida, foi publicada a matéria “União tem apenas 4% de negros em seus quadros”. E informa que “pouquíssimos estão no Poder Executivo e que, mesmo com curso superior, a maioria dos negros ainda está em funções de nível auxiliar”. O argumento tópico tem mais detalhes e foi baseado no Censo Demográfico de 2010, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

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“HOMECOMING”
19 de novembro de 2015

Rio de Janeiro_Vista do avião

(A cidade do Rio de Janeiro, vista do alto de um avião.)
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“Paulo, meu caro.

Às vezes, depois de passar 2, 3 noites acordado, procurando em vão uma solução melhor, uma maldita palavrinha que seja, para um poema, para uma tradução, eu cedo ao desânimo e penso aqui com meus botões: ‘Cara, por que perder tempo com isso, pra que o esforço extra, aliás, qualquer esforço? Ninguém vai notar a diferença mesmo. Ninguém tá nem aí.’

E aí você, Paulo, vem com seu trabalho, com sua leitura precisa, perspicaz, com algo assim, pra lá de generoso, e, embora eu mesmo não possa (nenhum de nós pode) julgar o (meu) próprio trabalho, a única resposta que posso te dar e a única maneira que tenho de te agradecer é dando (mais) duro, não desanimando, não deixando a peteca cair, passando mais noites em claro atrás daquela palavra (porque alguém nota, sim, a diferença) e tentando (com sorte) fazer algo que preste.

Todo mundo — eu também — quer vender 1 milhão de exemplares, encher um estádio com fãs boquiabertos(as) etc., mas o que mantém a gente escrevendo poesia é uma leitura, um feedback como este seu. Obrigado mesmo e um grande abraço, Nelson”.

(Nelson Ascher — poeta, tradutor & crítico literário)

 

 

homecoming: expressão da língua inglesa que pode ser entendida como “regresso à casa”, “retorno ao lar”.

estar em meu país depois de passar uma temporada longe.

estar em meu país é estar em convívio com uma série de características sócio-culturais que diz respeito ao meu país, às pessoas que nele vivem.

e, estando em meu país, por mais que eu consiga, com certa facilidade, identificar determinadas características sócio-culturais que compõem o meu país, que é a minha casa, o meu lar primeiro, há sempre algo que, nessa apreensão, nos escapa, acaba imensurável. há sempre algo para além da linguagem, de árdua captura & designação.

determinadas características sócio-culturais que compõem o meu país: estar em meu país é deduzir, num golpe de vista, quem é o quê (se gay ou se opus dei); estar em meu país é ser, desde o primário, desde os tempos remotos, íntimo de alguém antes de ser-lhe apresentado; estar em meu país é dizer quem faz o quê & o que faria caso pudesse (nas mais variadas situações cogitadas ou experiências do cotidiano); estar em meu país é intuir, sem dúvida, quem é quem, como ver quem quer passar por quem.

determinadas características sócio-culturais que compõem o meu país: estar em meu país é vivenciar pré-conceitos, julgamentos infundados, intimidades forçadas, percepções precipitadas, ainda que haja muitas vezes acerto na primeira impressão sobre alguém ou algo.

no entanto, estar em meu país tem “algo mais difícil” que o dom fácil de identificar algumas das suas características sócio-culturais (como as apontadas acima), e esse “algo mais difícil” de ser apreendido & classificado, rotulado, nomeado, é, simplesmente, estar em meu país, esse “algo mais difícil” é, simplesmente, o que não cabe em nenhuma definição do que seja estar em meu país — a única coisa que cabe onde não cabe definição para o meu país é a pura vivência, é habitar, conviver, desfrutar, aventurar-se, inserir-se na vida do meu país, no seu dia-a-dia & pormenores.

em tudo o que resta & rasteja, há sempre o quinhão do indefinível, do inclassificável, do imponderável, do que escapa à linguagem, do que está à mostra somente quando vivenciado sem racionalizações.

(que tenhamos, sempre, o dom fácil de frustrar qualquer estranho que pense saber tudo o que pensamos.)

beijo todos!
paulo sabino.
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(do site: Youtube. Paulo Sabino recita “Homecoming”, poema de Nelson Ascher. Em 18/11/2015.)


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(do livro: Parte alguma. autor: Nelson Ascher. editora: Companhia das Letras.)

 

 

HOMECOMING

 

Estar em meu país
é deduzir num golpe
de vista quem é o quê,
se gay ou se opus dei,

mas isto ainda é fácil,
algo exeqüível quer
nos parques, quer nos becos
de Osasco ou nos de Osaka.

Estar em meu país
é ser, desde o primário,
íntimo de alguém antes
de ser-lhe apresentado,

mas isto, num país
mais incestuoso até
do que a menor das tribos
perdidas, ainda é fácil.

Estar em meu país
é de antemão poder
dizer quem faz o quê
e o que faria caso

pudesse, mas às vezes
parece (e constatá-lo
é fácil) que não há
ninguém fazendo nada.

Estar em meu país
é tanto intuir sem dúvida
quem é quem como ver
quem quer passar por quem,

embora, a rigor, isto
talvez se deva à idade
e, após alguma prática,
nem chegue a ser difícil.

Estar em meu país,
mais que saber por que
qualquer estranho pensa
saber tudo o que penso,

tem algo mais difícil
que o dom fácil de sempre
frustrá-lo e é simplesmente
estar em meu país.

EUROPA & ÁFRICA: RELAÇÕES
21 de julho de 2014

Mapa_África & Europa

 

(Clique com o mouse no mapa para ampliar o seu tamanho.)
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esta publicação atira numa questão muito relevante, numa questão que tem a ver com o que se discute, hoje, sobre misturas de culturas & etnias.

como já comprovam alguns estudos, a troca entre a áfrica & a grécia antigas, troca cultural, comercial, ocorria de forma intensa desde tempos imemoriais.

tal relação de permuta entre essas culturas, certamente, criava, ajudava a criar, as identidades culturais de ambos os lados.

quando a europa — e o seu cientificismo do século XIX — se apropria de preceitos originários da antigüidade clássica, da grécia antiga, para a edificação de suas “sociedades civilizadas”, de suas sociedades “geneticamente superiores” às demais, a europa dos tempos modernos escamoteia, encobre, esconde, sistematicamente, toda a influência da cultura africana na cultura grega.

segundo o professor de história antiga do instituto de filosofia e ciências sociais (ifcs) da universidade federal do rio de janeiro (ufrj), andré chevitarese, um grande especialista em grécia antiga, a tradução mais fiel para as características de édipo, para o seu biotipo, célebre personagem da tragédia grega “édipo rei”, escrita pelo dramaturgo grego sófocles por volta de 427 a.C., é a de um homem “amorenado”, queimado pelo sol, com um tom de pele mais escuro, e não a do herói de “cútis alva como a neve”, como traduziram maliciosamente os europeus em suas versões para a peça original.

as trocas entre culturas, entre sociedades, por mais que alguns tentem negar, acontecem desde que o mundo é mundo.

inclusive, sabe-se já que, durante um período da história da humanidade, o norte da áfrica foi muito mais desenvolvido do que qualquer sociedade européia à época, concentrando cidades populosas, grandes obras públicas & feitos importantes nas áreas das ciências & das artes.

há claros indícios, em estudos sobre a américa pré-colombiana, de que os nossos índios, muitos localizados na região de minas gerais, mantinham trocas comerciais, culturais, e até científicas (sobre modos de preparo da terra, para o plantio, e também  sobre o cultivo do milho) com os índios que vinham do méxico(!). o intercâmbio que na américa ocorria, entre os residentes pré-colombianos, ia do leste ao oeste (do atlântico ao pacífico) & do norte ao sul.

o reggae maranhense é fruto das trocas culturais com o caribe, trocas que, segundo pesquisadores, existiam desde antes da chegada de colombo às terras americanas.

“cultura pura”, “cultura genuína”, “cultura de raiz”, são termos que não servem para muita coisa; na verdade, creio que não sirvam para nada. pois nada pode ser “genuinamente puro”, “intocado”, “virgem”, “de raiz”, feito, surgido, sob influência nenhuma. não existe um fundo próprio das coisas; na verdade, o fundo, sempre, é falso.

cultura que se deseja viva tem que viver a vida. e viver a vida significa estar inserido nela. o que se nega a trocar, a compartilhar, uma hora, é esquecido. e morre.

ser é visível, ser é estar à vista.

o que faz a vida é a troca. os brancos ensinaram, e ensinam, aos pretos tanto quanto os pretos ensinaram, e ensinam, aos brancos. em pé de igualdade.

isso só prova que o racismo se trata de uma grande burrice, isso só prova que o racismo se trata de uma grande estupidez.

misturar, mesclar, miscigenar: eis a única maneira de criar, eis a única maneira de gerar, eis a única maneira de inventar, coisas no mundo.

(próprio da beleza é o aparecer.)

beijo todos!
paulo sabino.
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(do: Dicionário da antiguidade africana. autor: Nei Lopes. editora: Civilização Brasileira.)

 

 

EUROPA E ÁFRICA: relações. À época da VI dinastia egípcia, por volta do século XX a.C., tempo em que, segundo Anta Diop, a Europa inteira não passava de um continente selvagem, em que Paris e Londres não eram mais que grandes extensões pantanosas, e Roma e Atenas dois lugares desertos, a África contava já, no vale do Nilo, com uma pujante civilização, onde pulsavam cidades populosas; onde o paciente esforço de várias gerações trabalhava o solo e erguia grandes obras públicas; onde as ciências e as artes alcançavam alturas insuspeitas, e onde, inclusive, a fé já havia criado deuses e deusas por muito tempo venerados (cf. Diop, 1979, vol. I, p. 231, nota I, a partir de J. Weulersse, 1934, p. 11). Nesse tempo, as rotas comerciais do vale do Nilo incluíam um ramo que começava no litoral egípcio, estendia-se para o oeste através do Mediterrâneo, e para o norte, ao longo do litoral da Europa ocidental, no mar Báltico, do qual os africanos extraíam âmbar. Segundo Don Luke, essa rota chegava às Ilhas Britânicas e à Escandinávia. Ver CÓLQUIDOS; ROTAS DE COMÉRCIO.

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(do livro: Céu em Cima / Mar Em baixo. autor: Alex Varella. editora: Topbooks.)

 

 

NEGRA GREGA

Negra negra

grega grega

de palavras & mercancias

no Porto das Palavras

de Alexandria

beleza é o ser visível

ser é visível

negra grega

da África Clássica

próprio da beleza é o aparecer

BRASIL: UM IMENSO HAITI
18 de março de 2014

Mulher arrastada por camburão da PMERJ

Aperto no peito

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ODEIO o tipo de gente que, como o venerável cardeal, vê tanto espírito no feto (e do alto do seu moralismo conclama o absurdo que é a legalização do aborto no país, não importando o número de mortes anuais de mulheres & todo o estrago que essas mortes levam aos mais próximos) & nenhum no marginal (e do alto do seu moralismo conclama a pena capital, pena de morte, no país, não importando o fato de que, num país como o  Brasil, preconceituoso até o pescoço, muitos morreriam injustamente em cadeiras elétricas, e a ineficiência do Estado poderia aumentar).

Tanto espírito no feto & NENHUM no marginal…

O Brasil, em diversos aspectos, soa-me como uma piada pronta de muito mau gosto. O Brasil me enoja em diversas questões. Às vezes tenho dó deste país, tenho pena da mediocridade deste país — e o sentimento estende-se ao mundo em geral.

A fila de soldados (da Polícia Militar), quase todos pretos, dando porrada na nuca de malandros pretos, de ladrões mulatos. E, outros, “quase brancos”, tratados como pretos só para mostrar, aos outros “quase pretos” (e são quase todos pretos) & aos “quase brancos” pobres como pretos, como é que pretos, pobres & mulatos, e quase brancos “quase-pretos”, de tão pobres, são tratados.

Na TV, uma mulher pobre, preta, que morava em uma favela no bairro de Madureira, zona norte do Rio de Janeiro, subúrbio da cidade, é arrastada por um camburão da P.M., como mostra uma das fotos que ilustra esta publicação.

Na TV, um deputado, em pânico mal dissimulado (no fundo, pouco se importando com o assunto), diante de um plano qualquer de educação, que parece fácil & rápido & que representa uma “ameaça” de democratização do ensino de primeiro grau.

O silêncio  sorridente de São Paulo diante da chacina: afinal, presos são quase todos pretos, ou “quase pretos”, ou quase brancos “quase-pretos” de tão pobres.

(E pobres são como podres. E todos sabem como se tratam os pretos.)

E não importa se olhos do mundo inteiro possam estar, por um momento (seja por causa do carnaval, seja por causa da Copa), voltados para o país. Não importa nada: ninguém é cidadão.

Os direitos civis são violados o tempo inteiro.

O Brasil, em diversos aspectos, é um imenso Haiti. Eu sinto raiva, eu sinto pena, eu sinto cansaço.

Obstruções, trincheiras, impedimentos: são muitas as barreiras: grande o aperto…

(Pense no Haiti, reze pelo Haiti…)

Paulo Sabino.
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(do livro: Letra só. autor: Caetano Veloso. seleção e organização: Eucanaã Ferraz. editora: Companhia das Letras.)

 

 

HAITI

 

Quando você for convidado pra subir no adro
Da Fundação Casa de Jorge Amado
Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
Dando porrada na nuca de malandros pretos
De ladrões mulatos
E outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(E são quase todos pretos)
E aos quase brancos, pobres como pretos
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados
E não importa se olhos do mundo inteiro
Possam estar por um momento voltados para o largo
Onde os escravos eram castigados
E hoje um batuque, um batuque
Com a pureza de meninos uniformizados
De escola secundária em dia de parada
E a grandeza épica de um povo em formação
Nos atrai, nos deslumbra e estimula
Não importa nada
Nem o traço do sobrado, nem a lente do Fantástico
Nem o disco de Paul Simon
Ninguém, ninguém é cidadão
Se você for ver a festa do Pelô
E se você não for
Pense no Haiti
Reze pelo Haiti

O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui

E na TV se você vir um deputado
Em pânico mal dissimulado
Diante de qualquer, mas qualquer mesmo
Qualquer qualquer
Plano de educação que pareça fácil
Que pareça fácil e rápido
E vá representar uma ameaça de democratização
Do ensino de primeiro grau
E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital
E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto
E nenhum no marginal
E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual
Notar um homem mijando na esquina da rua
Sobre um saco brilhante de lixo do Leblon
E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo
Diante da chacina: 111 presos indefesos
Mas presos são quase todos pretos
Ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres
E pobres são como podres
E todos sabem como se tratam os pretos
E quando você for dar uma volta no Caribe
E quando for trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba
Pense no Haiti
Reze pelo Haiti

O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui
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(do site: Youtube. videoclipe da canção: Haiti. produção: Conspiração Filmes. música: Gilberto Gil / Caetano Veloso. letra: Caetano Veloso. intérpretes: Gilberto Gil / Caetano Veloso.)

DEPOIS DOS NAVIOS NEGREIROS, OUTRAS CORRENTEZAS
12 de fevereiro de 2014

Escravos

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há pouco tempo, um menino preto & pobre, acusado de furtos/roubos no flamengo, bairro de classe média/média alta carioca, foi posto nu & preso num poste por uma tranca de bicicleta no pescoço, com parte de uma orelha cortada, como “lição” aos demais “marginaizinhos”, a fim de que os furtos/roubos cessem ou diminuam consideravelmente na região.

parte da população aprova a ação, realizada por cidadãos comuns, assim como eu.

o que fizeram ao menino preto & pobre no flamengo, bairro de classe média/média alta da zona sul do rio de janeiro, deixando-o nu & preso num poste por uma tranca de bicicleta no pescoço, com parte de uma orelha cortada, em plena via pública, no fundo, é resquício do que mostram, do que revelam, os versos & o videoclipe que seguem.

o brasil ainda é, infelizmente, um país moldado em relações escravocratas.

no rio de janeiro, a mim & a muitos amigos (conversamos sobre o assunto antes mesmo do episódio em questão), isso se evidencia nas relações, por exemplo, entre empregadas domésticas/motoristas particulares & seus patrões, entre babás & mães contratantes, entre porteiros/faxineiros & condôminos.

o outro (a empregada doméstica, o motorista particular, a babá, o porteiro, o faxineiro) não está ali como prestador de serviço. não. o outro (a empregada doméstica, o motorista particular, a babá, o porteiro, o faxineiro) é praticamente uma mercadoria da qual se pode dispor para diversas outras funções & tarefas que não aquelas relacionadas às suas funções trabalhistas.

o que fizeram ao menino preto & pobre no flamengo, bairro de classe média/média alta da zona sul do rio de janeiro, deixando-o nu & preso num poste por uma tranca de bicicleta no pescoço, com parte de uma orelha cortada, em plena via pública, no fundo, é resquício do horror apresentado nos versos & no videoclipe que seguem.

o menino preto & pobre & marginalizado é fruto direto das situações retratadas nos versos & no videoclipe que seguem, situações que, nos dias atuais, perduram de modos diferentes (muitas vezes nem tão diferentes, como no episódio em questão), porque o brasil, infelizmente, é um país moldado em relações escravocratas.

o menino preto & pobre & marginalizado, deixado nu & preso num poste por uma tranca de bicicleta no pescoço, com parte de uma orelha cortada, em plena via pública, é fruto direto da desigualdade sócio-econômica que plantamos neste país, através das relações escravocratas que ainda existem & insistem.

a parte da população que apóia esse tipo de ação alega que tal ação se trata de “defesa”.

“defesa”? população desarmada “defendendo-se”?

então deixar um menino num poste, nu, exposto, preso pelo pescoço, com parte da orelha cortada, é modo de “defender-se”?

“defender-se”? não, sinto muito, mas isso não tem nada a ver com “defesa”. se o menino estava assaltando/furtando alguém & conseguiu ser imobilizado, a defesa já ocorreu. o que vem a partir da imobilização (que é: prendê-lo a um poste com uma tranca de bicicleta no pescoço, nu, com parte da orelha cortada) já não é “defesa”, isso tem outro nome: trata-se de requinte de crueldade, resquícios de navio negreiro, trate-se de raiva, intolerância, indiferença.

o que eu acho engraçado é que ninguém quer dar-se o trabalho de pensar, profundamente, as razões para que um menino esteja, nas ruas, furtando/assaltando.

o caso do menino preto & pobre deixado nu & preso num poste por uma tranca de bicicleta no pescoço, com parte de uma orelha cortada, em plena via pública, evidencia, a todos (até para os que preferem não enxergar), que o brasil, infelizmente, é um país moldado em relações escravocratas.

depois dos navios negreiros, outras correntezas…

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Antologia dos poetas brasileiros — Poesia da fase romântica. organização: Manuel Bandeira. autor: Castro Alves. editora: Nova Fronteira.)

 

 

TRAGÉDIA NO MAR

(O NAVIO NEGREIRO)

 

‘Stamos em pleno mar… Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta —
E as vagas após ele correm… cansam
Como turba de infantes inquieta.

‘Stamos em pleno mar… Do firmamento
Os astros saltam como espuma de ouro…
O mar em troca acende as ardentias
— Constelações do líquido tesouro.

‘Stamos em pleno mar… Dous infinitos
Ali s’estreitam num abraço insano…
Azuis, dourados, plácidos, sublimes…
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?

‘Stamos em pleno mar… Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares
Como roçam na vaga as andorinhas…

Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?…
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço…

Bem feliz quem ali pode nest’hora
Sentir deste painel a majestade!…
Embaixo — o mar… em cima — o firmamento…
E no mar e no céu — a imensidade…

Oh! Que doce harmonia traz-me a brisa!…
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! Como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!

Homens do mar! Ó rudes marinheiros
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!

Esperai! Esperai! Deixai que eu beba
Esta selvagem livre poesia…
Orquestra — é o mar que ruge pela proa,
O vento que nas cordas assobia…

……………………………………………………………………………………………………………………….

Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?…
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar doudo cometa.

Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre a gazas,
Sacode as penas, Leviatã do espaço!
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas…

Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?…
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!
Cantai! que a morte é divina…
Resvala o brigue à bolina
Como um golfinho veloz.
Presa no mastro da mezena
Saudosa a bandeira acena
Às vagas que deixa após.

Do Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,
Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor.

Da Itália o filho indolente
Canta Veneza dormente
— Terra de amor e traição —
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso
Junto às lavas do Vulcão.

O Inglês — marinheiro frio
Que ao nascer no mar se achou —
(Porque a Inglaterra é um navio
Que Deus na Mancha ancorou),
Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando orgulhoso histórias
De Nélson e de Abuquir…
O Francês — predestinado —
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir…

Os marinheiros Helenos,
Que a vaga iônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens, que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu…
… Nautas de todas as plagas!
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu…

Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais, inda mais… não pode o olhar humano,
Como o teu mergulhar no brigue voador…
Porém que vejo aí… que quadro de amarguras!
Que canto funeral!… que tétricas figuras!
Que cena infame e vil!… Meu Deus! meu Deus! que horror!

Era um sonho dantesco… O tombadilho,
Que das luzernas avermelha  o brilho,
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros… estalar do açoite…
Legiões de homens negros como a noite
Horrendos a dançar…

Negras mulheres suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães.
Outras, moças… mas nuas, espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas
Em ânsia e mágoa vãs.

E ri-se a orquestra irônica, estridente…
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais…
Se o velho arqueja… se no chão resvala,
Ouvem-se gritos… o chicote estala
E voam mais e mais…

Presa nos elos de uma só cadeia
A multidão faminta cambaleia
E chora e dança ali…
Um de raiva delira, outro enlouquece…
Outro, que de martírios embrutece,
Cantando geme e ri…

No entanto o capitão manda a manobra…
E após, fitando o céu que se desdobra
Tão puro sobre o mar,
Diz, do fumo entre os densos nevoeiros:
“Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar.”

E ri-se a orquestra irônica, estridente…
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais!…
Qual num sonho dantesco as sombras voam…
Gritos, ais, maldições, preces ressoam
E ri-se Satanás!…

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura… se é verdade
Tanto horror perante os céus…
O’ mar! por que não apagas
Coa esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?…
Astros! noite!! tempestades?
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!

Quem são estes desgraçados,
Que não encontram em vós,
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?…
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala,
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa…
Dize-o tu, severa musa!
Musa libérrima, audaz!

São os filhos do deserto
Onde a terra esposa a luz,
Onde voa em campo aberto
A tribo dos homens nus…
São os guerreiros ousados,
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão…
Homens simples, fortes, bravos…
Hoje míseros escravos
Sem luz, sem ar, sem razão…

São mulheres desgraçadas…
Como Agar o foi também,
Que sedentas, alquebradas,
De longe… bem longe vêm.
Trazendo com tíbios passos
Filhos e algemas nos braços,
N’alma — lágrimas e fel.
Como Agar sofrendo tanto
Que nem o leite do pranto
Têm que dar para Ismael…

Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram — crianças lindas,
Viveram — moças gentis…
Passa um dia a caravana
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus…
… Adeus! ó choça do monte!…
Adeus! palmeiras da fonte!…
Adeus! amores… adeus!…

Depois o areal extenso…
Depois o oceano de pó…
Depois… no horizonte imenso
Desertos… desertos só…
E a fome, o cansaço, a sede…
Ai! quanto infeliz que cede
E cai pra não mais s’erguer!…
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.

Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob a tenda da amplidão…
Hoje o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar…
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar…

Ontem plena liberdade!…
A vontade por poder…
Hoje… cúm’lo de maldade!
Nem são livres pra… morrer!…
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão…
E assim roubados à morte
Dança a lúgubre coorte,
Ao som do açoute… Irrisão!…

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se eu deliro… ou se é verdade
Tanto horror perante os céus!
Ó mar! por que não apagas
Coa esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?…
Astros! noite! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!

E existe um povo que a bandeira empresta
Pra cobrir tanta infâmia e cobardia!…
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de Bacante fria!…
Meu Deus! Meu Deus! Mas que bandeira é esta
Que impudente na gávea tripudia?!…
Silêncio!… Musa! chora, chora tanto,
Que o pavilhão se lave no teu pranto…

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra,
E as promessas divinas da esperança…
Tu, que da Liberdade após a guerra
Foste hasteado dos heróis na lança,
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!…

Fatalidade atroz que a mente esmaga!…
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu na vaga
Como um íris no pélago profundo!…
… Mas é infâmia demais… Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo…
Andrada! arranca esse pendão dos ares!…
Colombo! fecha a porta de teus mares!…

(São Paulo, 18 de abril de 1868.)
________________________________________________________

(do site: Youtube. áudio extraído do cd: Livro. gravadora: PolyGram. canção: O navio negreiro [excerto]. artista & intérprete: Caetano Veloso. participação especial: Maria Bethânia. poema [excerto] de Castro Alves musicado por Caetano Veloso.)

TOMARA!
29 de novembro de 2012

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Para o Gly
 
 
tomara, meu deus, tomara que tudo que nos separa — preconceito, ódio, dor, inveja — não justifique, não valha! tomara, meu deus!
 
tomara, meu deus, tomara que tudo que nos amarra só seja amor, malha rara, malha que protege & abriga, tomara, meu deus!
 
tomara, meu deus, tomara (que tudo que nos amarra só seja amor), e o nosso amor, sendo malha rara, se declara muito maior & não pára em nós, avançando pela cidade, país afora, no desejo genuíno de bem-estar para todos.
 
o desejo genuíno de bem-estar para todos: afinal, uma nação solitária (uma nação apartada, isolada, desacompanhada, uma nação onde não haja cooperação) não pára em nós, em nós não estaciona, assim como não pára em nós o nosso amor, que expande na cidade, país afora, no desejo genuíno de bem-estar para todos.
 
tomara, meu deus, tomara: uma nação solidária (acorda, brasil!), sem preconceitos (tomara!), uma nação como nós.
 
(você me abre seus braços & a gente faz um país!)
 
tomara, meu deus, tomara: o nosso amor, malha rara, e a nação, solidária.
 
(uma nação como nós.)
 
beijo todos!
paulo sabino.
______________________________________________________________
 
(autores: Alceu Valença / Rubem Valença Filho.)
 
 
 
TOMARA
 
 
Tomara, meu Deus, tomara
Que tudo que nos separa
Não frutifique, não valha
Tomara, meu Deus
 
Tomara, meu Deus, tomara
Que tudo que nos amarra
Só seja amor, malha rara
Tomara, meu Deus
 
Tomara, meu Deus, tomara
E o nosso amor se declara
Muito maior e não pára em nós
Se as águas da Guanabara
Escorrem na minha cara
Uma nação solitária
Não pára em nós
 
Tomara, meu Deus, tomara
Uma nação solidária
Sem preconceitos, tomara
Uma nação como nós
______________________________________________________________
 
(do site: Youtube. áudio extraído do cd: 7 Desejos. artista & intérprete: Alceu Valença. canção: Tomara. autores da canção: Alceu Valença e Rubem Valença Filho. gravadora: EMI.)
 

SOBRE A DEMOCRACIA
3 de agosto de 2012

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há pouco tempo, num bate-papo a respeito de política, uma pessoa verdadeiramente bem intencionada utilizou um tipo de discurso que é muito comum entre as pessoas que defendem a LIBERDADE & a DEMOCRACIA.

 escreveu a pessoa sobre por que acredita que o POSICIONAMENTO DEMOCRÁTICO seja ACEITAR TODA & QUALQUER OPINIÃO sobre FORMAS DE ORGANIZAÇÃO POLÍTICA:
 
 
“Entendo a sua posição, mas acho que em um estado de direito TODAS as formas de pensamento devem ser respeitadas, desde a extrema direita até a extrema esquerda.
 
(…)
 
O que não podemos é impedir que pensamentos contrários aos nossos sejam expostos. Aí nos tornamos tão ditadores quanto aqueles.”
 
 
esse é um discurso muito comum, discurso corrente; acredito que muitos dos meus amigos, pessoas boas, pessoas bem intencionadas, assim como a pessoa que escreveu as linhas acima, pensam assim. eu, não. porque, no fundo no fundo, enxergo uma questão dialética SÉRIA.
 
eis a minha resposta:
 
 
“Mas existe um problema na questão proposta: se consideramos que o estado é um estado de DIREITO, isto é, se consideramos que o estado é um estado onde os DIREITOS DOS CIDADÃOS DEVEM SER ATENDIDOS, portanto, RESPEITADOS, isso significa dizer que, num ESTADO DE DIREITO DE TODOS OS CIDADÃOS, não devem existir formas políticas que RESTRINJAM DIREITOS DE DETERMINADOS GRUPOS DA SOCIEDADE.
 
O grande problema é que uma posição política, por exemplo, FASCISTA, uma das facetas da extrema direita, das mais radicais, evidentemente, EXCLUI O ESTADO DE DIREITO DE ALGUNS GRUPOS SOCIAIS (negros, homossexuais & mulheres) por conta de PRECONCEITOS que, mais do que sabido, como todos os preconceitos, são INCABÍVEIS depois de tantas comprovações sócio-culturais & científicas. É mais do que sabido que negros, homossexuais & mulheres não possuem nada de diferente do macho adulto branco sempre no comando (como bem disse Caetano Veloso).
 
Portanto, para que um estado GARANTA A SOBERANIA DE EXPRESSÃO DE TODOS OS CIDADÃOS é preciso garantir formas de organização política que priorizem exatamente os direitos que, em certas formas de organização, como na ORGANIZAÇÃO POLÍTICA DE CUNHO FASCISTA, portanto, organização de EXTREMA DIREITA, são RETIRADOS DE DETERMINADOS GRUPOS SOCIAIS. Esse tipo de organização NÃO MERECE RESPEITO PORQUE NÃO RESPEITA DIREITOS.
 
Isso é um princípio básico: EXIGE RESPEITO? POIS, ANTES, RESPEITE.”
 
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fica a minha questão: RESPEITO DEVE-SE A QUEM RESPEITA.
 
POSICIONAMENTO DEMOCRÁTICO NÃO DEVE ACEITAR POSICIONAMENTO ANTI-DEMOCRÁTICO.
 
isso é incoerente: dar voz a quem deseja cortar vozes(!).
 
beijo todos!
paulo sabino.

UM FELINO GRÁVIDO DE PALAVRAS
7 de março de 2012

(Paulo Sabino & seu felino enjaulado no peito, grávido de palavras.)_____________________________________________________________

eu,

paulo sabino,

sou um preto.
 
eu,
 
paulo sabino,
 
negro sou,
 
orgulhosamente bem-nascido à sombra dos palmares, orgulhosamente bem-nascido à sombra dos palmeirais do meu brasil varonil, e também orgulhosamente bem-nascido à sombra dos palmares, à sombra do quilombo que se tornou o grande símbolo da resistência negra contra a escravidão, orgulhosamente bem-nascido à sombra das tantas lutas que me possibilitam, hoje, preto, ser quem eu sou.
 
eu,
 
paulo sabino,
 
orgulhosamente bem-nascido à sombra da chamada grande democracia racial, ocidental, tropical…
 
(isso me faz lembrar que “a carne mais barata do mercado é a carne negra”…)
 
sou bem um outdoor de preto, body and soul, com a cara para o luar (porque um alucinado pela lua, por suas fases & seu brilho prata), sou bem um outdoor de preto com a cara para o luar, como a noite (minha amante aventurosa) quando alta, sou bem um outdoor de preto (com a cara para o luar) inflando a percussão do peito, inflando a percussão trabalhada pelo músculo oco que me habita, feito um anjo feliz.
 
um anjo feliz. 
 
um livre livro.
 
livro que escreve a sua história ao passo em que vive a sua escrita existencial, a escrita dos fatos, dos acontecimentos. nada já riscado, nada já rabiscado, como quando um quadro-negro atrás de um giz: um quadro negro atrás de um giz é um quadro-negro já riscado, já rabiscado, com linhas já delineadas em sua superfície (que também é o fundo do quadro). livro com suas linhas a serem desenhadas.
 
eu,
 
paulo sabino:
 
um anjo feliz.
 
um livre livro.
 
e também o sangue de outras sagas, o sangue de outras narrativas fecundas em incidentes.
 
e também o brilho de outros breus, o brilho de outras escuridões que necessitaram resplandecer em lágrima, resplandecer em dor, resplandecer em sangue, em solidão, para que eu, paulo sabino, um preto, possa falar, hoje, aos senhores.
 
negro é feito cana no moedor: sofre & tira mel da própria dor. 
 
(vide o samba, que é a tristeza que balança — e a tristeza tem sempre uma esperança: a de, um dia, não ser mais triste, não…)
 
negro resiste: quanto mais me matam, mais eu sobrevivo.
 
e vou tocando os passos (avante!), vou tocando ginga (jogo de cintura para com a vida), vou tocando, e, com meu “toque”, vou a deitar sangue (vermelho, sangue-vida, sangue-paixão, sangue-sentimento) nos cruzamentos, vou colorindo a palidez dos que não têm cor (apesar do absurdo, os negros, ainda hoje, por alguns, são chamados de “gente de cor”), vou colorindo a palidez daqueles a quem peço piedade.
 
eu,
 
paulo sabino,
 
sou um preto,
 
sou um negro,
 
rigorosamente um negro, à sombra dos palmares (como já lhes disse), à sombra da grande democracia/demagogia racial, ocidental:
 
tropicálice!, democracia tropical à base do vinho tinto de sangue (sangue pisado, pisado por mortes sumárias & humilhações sociais), democracia tropical à base do “cale-se!”, à base do “cala boca, porra, que eu não tô a fim de ouvir discurso humanitário!”, democracia tropical à base da sentença de morte promulgada, por exemplo, por arbitrárias (abusivas, despóticas, violentas) milícias civis & do estado, democracia tropical à base de porrada na nuca de malandros pretos.
 
(lembrar: “a carne mais barata do mercado é a carne negra”…)
 
mas negro resiste: quanto mais me matam, mais eu sobrevivo.
 
negro é feito cana no moedor: sofre & tira mel da própria dor.
 
mel da própria dor:
 
dentro da jaula do peito, meu coração é um leão faminto, leão ávido a devorar tudo o que vê & encontra pela frente, leão que devassa a madrugada como um felino atento à órbita da urbe, atento ao movimento da cidade capturada pelos sentidos aguçados da fera, e atento à têmpera (ao modo, ao estilo, ao gosto) do tempo, compositor de destinos, tambor de todos os ritmos.
 
meu coração já foi casa de marimbondos (com seus ferrões a postos), já foi covil de serpentes (com seus dentes afiados a postos), já foi um sol sob nuvens (com o mau tempo a postos, tapando o brilho do astro-rei).
 
mas ele, meu coração (um leão faminto que devassa a madrugada), sabe vestir a calma de uma floresta sem pássaros (aparente quietude…), enquanto rosna em sigilo, afiando as garras para o próximo salto…
 
meu coração é uma grande cidade com seus engarrafamentos de concreto, uma grande cidade com suas impossibilidades de circulação, coração entupido, coração repleto do que não consegue espaço para locomoção, e ali fica, inerte. para o que “poderia ter sido” não há portas de emergência, não há saídas possíveis.
 
falharam todos os despachos em prol de saídas ao que “poderia ter sido”. falharam todos os medicamentos.
 
o que “poderia ter sido” permanece estagnado no meu coração como as coisas nos engarrafamentos de concreto de uma grande cidade.
 
o que “poderia ter sido”: estagnado, em estado estacionário, paralisado: no peito aprisionado, feito assombração.
 
como um soldado no front, como um soldado na linha de frente de combate, tenho os meus medos, as minhas inseguranças. tenho medos, inseguranças, de viver determinados perigos existenciais. estes, naturalmente, permanecem enjaulados no peito, não seguem adiante (no front), são postos para fora de combate. 
 
porém,
 
eu,
 
paulo sabino,
 
um preto,
 
acumulo assombramentos e, com eles, também palavras.
 
por sorte — quis a vida — estou grávido de palavras. 
 
estou carregado de palavras. 
 
estou prenhe de todas elas.
 
e contra os engarrafamentos & ressentimentos & envenenamentos que possam surgir:
 
palavras!
 
(elas me salvam de todo mal.)
 
beijo todos!
paulo sabino.
____________________________________________________________
 
(do livro: A cor da palavra. autor: Salgado Maranhão. editora: Imago.)
 
 
 
NEGRO SOUL
 
                                   Para Edimilson de Almeida Pereira e Éle Semog
 
 
sou um negro,
orgulhosamente bem-nascido
à sombra dos palmares,
da grandemocracia
racial
ocidental
tropical.
 
sou bem um outdoor
de preto
com a cara pro luar
inflando a percussão
do peito
feito um anjo feliz.
 
sou mais que um quadro-negro
atrás de um giz: um livre livro.
e sangue de outras sagas;
e brilho de outros breus:
quanto mais me matam
mais eu sobrevivo.
 
(negro é feito cana no moedor,
sofre e tira mel da própria dor.)
 
vou tocando passos,
vou tocando ginga,
vou tocando, vou
a deitar sangue
nos cruzamentos,
colorindo a palidez
dos que não têm cor.
 
sou um negro,
rigorosamente um negro,
à sombra dos palmares
da grandemagogia
racial
ocidental
tropicálice!
 
 
 
FELINO
 
 
dentro da jaula do peito
meu coração é um leão faminto
que devassa a madrugada
como um felino atento
seguindo a órbita da urbe
e a têmpera do tempo.
já foi casa de marimbondos,
já foi covil de serpentes,
já foi um sol sob nuvens.
vez em quando veste a calma
de uma floresta sem pássaros,
enquanto rosna em sigilo,
afiando as garras para o próximo salto.
 
 
 
ESTADO DE ÂNIMO
 
 
meu coração é uma grande cidade
com seus engarrafamentos de concreto.
 
não há portas de emergência
para o que poderia ter sido.
 
falharam todos os despachos.
falharam todos os medicamentos.
 
como um soldado no front
morro de assombração
diante do perigo.  
 
e estou grávido de palavras.

HOMEM COMUM
24 de janeiro de 2012

 
(Na foto, a resistência na comunidade do Pinheirinho, em São José dos Campos — SP.)
_____________________________________________________________
 
eu,
 
paulo sabino,
 
sou um homem comum, de carne & de memória, de osso & esquecimento.
 
ando a pé, de ônibus, de táxi, de avião, e a vida sopra dentro de mim, pânica, a vida sopra dentro de mim de modo assustador, feito a chama de um maçarico (chama ameaçadora, que pode ferir), e pode, subitamente, cessar. de uma hora a outra, sem aviso prévio, assustadoramente.
 
eu,
 
paulo sabino,
 
sou como você, feito de coisas lembradas & esquecidas, rostos & mãos, defuntas alegrias, flores, passarinhos, feito de facho de tarde luminosa, feito de nomes que já nem sei, feito de tudo isso misturado.
 
eu,
 
paulo sabino,
 
sou um homem comum: brasileiro, maior de idade, solteiro, reservista.
 
e não vejo na vida, senhores, nenhum sentido (a vida apresenta-se como um grande & silencioso absurdo do acaso), senão lutarmos juntos por um mundo melhor.
 
determinadas agruras deveriam ser extirpadas do convívio social.
 
a poesia é rara, a poesia é incomum, é extra-ordinária, e não se encontra facilmente vidafora. por isso ela não comove, nem move, o pau-de-arara. ela, a poesia, por sua raridade, por não estar disposta por aí, não comove, nem move, a pobreza, o descaso social, a poesia não comove nem move (para fora da existência) a força mantenedora de todos os dissabores mundanos injustificáveis.
 
por isso, quero falar com os senhores, de homem para homens, apoiar-me em vocês, oferecer-lhes o meu braço, que o tempo é pouco e o latifúndio está aí, matando.
 
que o tempo é pouco e aí estão sabe-se lá quantos braços do “polvo”, braços deste sistema econômico, a nos sugar a vida & a bolsa (contendo o nosso parco & suado dinheiro).
 
homem comum, igual aos senhores, cruzo a avenida sob a pressão do imperialismo.
 
sim, sob a pressão do imperialismo: sob a pressão imperiosa exercida por homens como naji nahas, um fraudador que deve milhões em impostos aos cofres públicos, contra cerca de 1.500 famílias da comunidade do pinheirinho, em são josé dos campos (são paulo), que tentam fazer cumprir a “função social da propriedade”, prevista na constituição federal desde 1988 & no estatuto das cidades desde 2001, pressão exercida por um fraudador com o aval & o apoio do estado & sua milícia arbitrária.
 
a sombra do latifúndio mancha a paisagem (de sangue), turva as águas do mar, e a infância nos volta à boca, amarga, suja de lama & fome.
 
mas somos muitos milhões de homens comuns e podemos formar uma muralha com nossos corpos de sonho, corpos de desejo de uma vida mais justa & ajustada às necessidades de cada um, corpos de sonho & margaridas.
 
após os versos, das coisas mais GENIAIS que já ouvi:
 
a canção “brasil com p”.
 
notem que quase todas as palavras que a compõem iniciam com a letra “p”. digo “quase todas as palavras” porque apenas uma única palavra da canção não inicia com a letra “p”: irmão.
 
irmão. o que somos. o que deveríamos ser.
 
letra forte, direta, crua, na medula.
 
retrato em branco & preto do nosso brasil varonil.
 
beijo todos!
paulo sabino.
____________________________________________________________
 
(do livro: Toda poesia. autor: Ferreira Gullar. editora: José Olympio.)
 
 
 
HOMEM COMUM
 
 
Sou um homem comum
               de carne e de memória
               de osso e esquecimento.
               Ando a pé, de ônibus, de táxi, de avião
e a vida sopra dentro de mim
               pânica
               feito a chama de um maçarico
e pode
subitamente
                          cessar.
 
Sou como você
                feito de coisas lembradas
                e esquecidas
                 rostos e
                 mãos, o guarda-sol vermelho ao meio-dia
                 em Pastos-Bons,
                 defuntas alegrias flores passarinhos
                 facho de tarde luminosa
                 nomes que já nem sei
                 bocas bandeiras bananeiras
                                                                          tudo
                  misturado
                                       essa lenha perfumada
                                       que se acende
                                       e me faz caminhar
Sou um homem comum
         brasileiro, maior, casado, reservista,
         e não vejo na vida, amigo,
         nenhum sentido, senão
         lutarmos juntos por um mundo melhor.
Poeta fui de rápido destino.
Mas a poesia é rara e não comove
nem move o pau-de-arara.
          Quero, por isso, falar com você,
          de homem para homem,
          apoiar-me em você
          oferecer-lhe o meu braço
                   que o tempo é pouco
                   e o latifúndio está aí, matando.
 
Que o tempo é pouco
e aí estão o Chase Bank,
a IT & T, a Bond and Share,
a Wilson, a Hanna, a Anderson Clayton,
e sabe-se lá quantos outros 
braços do polvo a nos sugar a vida
e a bolsa
                  Homem comum, igual
                  a você,
cruzo a Avenida sob a pressão do imperialismo.
                 A sombra do latifúndio
                 mancha a paisagem,
                 turva as águas do mar
                 e a infância nos volta
                 à boca, amarga,
                 suja de lama e de fome.
Mas somos muitos milhões de homens
                 comuns
                 e podemos formar uma muralha
                 com nossos corpos de sonho e margaridas.
____________________________________________________________
 
(do site: Youtube. canção: Brasil com p. autor & intérprete: GOG.)
 

O ESTRANGEIRO
8 de outubro de 2010

francisco ferraz,
 
amigo querido, do qual muitas saudades sinto,
 
pessoa responsável pela existência, em termos práticos, deste espaço, “o prosa em poema”,
 
este post é dedicado inteiramente a você.
 
devo esta publicação ao chico há muito tempo; ela foi prometida no início de tudo, e só foi “existir” agora (rs).
 
mas é aquela tal história: paulo sabino: um homem que tarda, mas não falha (rs).
 
chicão, finalmente (rs)!
 
eu e o francisco ferraz somos apaixonados pela canção, e, principalmente, por este poema-canção.
 
estas linhas, que considero primorosas, traduzem a minha visão acerca do brasil. enxergo este país exatamente desta maneira.
 
caetano veloso parte dos olhares estrangeiros, dos olhares que vêm de fora, dos olhares alheios, estranhos, não nativos, para a construção dos versos que acabam por desnudar o seu olhar.
 
através dos olhares estrangeiros, o seu olhar é desfraldado.
 
enquanto o pintor paul gauguin e o compositor cole porter, em visita à baía de guanabara, sentiram-se deslumbrados, porque a enxergaram como bela, o antropólogo claude lévis-strauss detestou-a; pareceu-lhe, a baía, uma boca banguela.
 
para um tipo de olhar, bela; para outro, o inverso, banguela.
 
bela & banguela: adjetivos antagônicos utilizados para a qualificação da baía de guanabara.
 
daí, a pergunta: mas o que seria, exatamente, uma coisa bela?
 
caetano interroga-se a respeito do seu sentimento pela guanabara: “e eu, menos a conhecera, mais a amara?”
 
e por que ” menos a conhecera, mais a amara”? ama-se mais quanto menos se conhece? a intensidade do amor aumenta quanto menos conhecido aquilo que se ama?
 
há a célebre sentença que diz: o amor é cego. isto significa afirmar que o amor enxerga: nada.
 
mas será? será que o amor enxerga: nada?
 
o amor é cego (falam). e ray charles também é cego. stevie wonder, outro cego. e o albino hermeto (pascoal) não enxerga mesmo muito bem.
 
três exemplos para se dizer que, na cegueira, enxerga-se muito. (afinal, como desdizer que ray charles, stevie wonder & hermeto pascoal, grandes homens de visão, grandes visionários?)
 
a constatação, portanto, de que, mesmo amando, isto é, mesmo com o grande amor que nutre pela baía, caetano não deixa de enxergar bem, não deixa de ser um visionário.
 
e segue: o que seria uma coisa bela? uma baleia, uma telenovela, um alaúde, um trem, uma arara?… o quê?
 
de qualquer modo, fica a verificação, a averiguação, de caetano sobre a baía que tanto ama, baía que o deixa cego de tanto vê-la & tê-la estrela: ao mesmo tempo bela & banguela.
 
ele parte da baía de guanabara para traçar a sua visão acerca do brasil: belo & banguela, feito a guanabara. 
 
assim, com o olhar mergulhado em adjetivos antagônicos para com a baía, para com o brasil, inicia a revelação de um raro pesadelo, de um sonho ruim, que busca, sempre: o belo & o amaro, isto é, os adjetivos antagônicos.
 
junto ao sonho, a imagem que não foi sonhada (ainda que, no sonho, utilizada): a praia de botafogo, um cenário lindo, que agrega à sua paisagem o pão de açúcar, era uma esteira de areia branca & óleo diesel sob os tênis. tudo quanto havia de aurora no cenário: o morro famoso o menos óbvio possível, com umas arestas insuspeitadas (o morro visto como se pela primeira vez, visto como se por um olhar forasteiro, por um olhar estrangeiro); o morro banhado na áspera luz laranja contra a “quase-não-luz” do branco das areias e das espumas (escurecido, degradado o branco, pelo tanto de óleo diesel).
 
verificar uma paisagem tão encantadora, e, ao mesmo tempo, tão maltratada: tudo quanto havia, então, de aurora…
 
caetano prossegue o sonho e afirma ser um “cego às avessas”: não necessita olhar para trás a fim de saber o que acontece; vê absolutamente tudo o que deseja.
 
às suas costas, nas areias da praia de botafogo (com o pão de açúcar ao fundo), descreve um velho com cabelos nas narinas & uma menina ainda adolescente e muito linda.
 
do velho & da menina, mesmo podendo, caetano não deseja ver aquilo que, neles, não lhe agrada: o terno negro (do velho) e os dentes “quase-não-púrpura” (da menina). e pede que o ouvinte/leitor pense a imagem de modo impressionista (como pensava o pintor francês georges seurat), que trabalha com as formas naturais e sua disposição diante da incidência de luz, elaborando contrastes com as cores. alerta, o compositor, para que a paisagem do sonho não seja encarada no termo surrealista, que mexe com o irracional; pois o surrealismo é uma outra “onda”, outra “viagem”, é uma outra história.
 
o cenário pintado (a praia de botafogo, um velho de terno negro com cabelos nas narinas & uma menina ainda adolescente e muito linda às costas do compositor) é delineado em tons impressionistas, com a paisagem natural (praia e morro), com seus jogos de luzes & cores, com os contrastes cromáticos, e o claro-escuro, o belo-feio, tudo junto, amalgamado, e não em tons surrealistas. não há surrealismo nenhum aqui (mesmo tratando-se de um total devaneio). 
 
segue caetano, dizendo que ouve vozes, dizendo que os dois (o velho & a menina) lhe dizem, num duplo som, como que sampleados num sinclavier, as seguintes sentenças: 
 
— é chegada a hora da reeducação do cristianismo & suas religiões, para que estes arrebanhem ainda mais cordeiros para os seus rebanhos (!);
— o certo é louco tomar eletrochoque (!);
— o certo é saber que o certo é certo, ou seja: engolir sem questionar (!); 
— o macho (o homem heterossexual, de cunho procriativo) adulto, branco, sempre no comando, mandando & desmandando conforme seus desejos (!);
— e para o resto, que é a escória, para o resto, que são os que não interessam, o resto (!);
— reconhecer o valor necessário do ato hipócrita, isto é, reconhecer o valor indispensável do ato falso, do ato mentiroso, do ato enganador (!);
— riscar os índios (!), nada esperar dos pretos (!);
 
frente a todos os horrores proferidos pelo velho & pela menina, afirma caetano seguir ainda mais sozinho, caminhando contra o vento, nadando contra a maré, e entender o centro, o núcleo, a idéia principal, do que dizem aquele cara (o velho) e aquela (a menina):
 
o que disseram é um desmascaro. o que disseram é um singelo grito:
 
“o rei está nu!”
 
o que disseram, aquele cara & aquela, desmascara um brasil que existe por trás da terra boa & gostosa, terra da morena sestrosa. por trás do “meu brasil-brasileiro”, do brasil bom & gostoso, existem setores da sociedade brasileira que pensam exatamente o que está no “desmascaro”, o que está no “singelo grito”, do velho & da menina (que, para mim, representam vozes saídas de dentro do brasil: o velho, a figura de um brasil antigo, arcaico, preso a conservadorismos; a menina ainda adolescente & muito linda, a figura de um país do futuro, um país que tem tudo para tornar-se uma grande potência). 
 
setores da sociedade brasileira que pensam assim, mas que não têm a coragem de confessar: instituições religiosas cristãs, racistas, sexistas, homofóbicos, corruptos, organizações tradicionalistas.
 
o rei está nu, o rei foi desmascarado.
 
e o rei, nu, é mais bonito; ante sua nudez, tudo se cala.
 
aqui, a compreensão de que, acima de tudo, a lucidez para os reconhecimentos: o rei não é somente belo como também não é somente banguela. o rei é, ao mesmo tempo, belo & banguela; o rei abriga, em si, os adjetivos antagônicos, o rei abriga lindezas & feiúras.
 
brasil: terra boa & gostosa, da morena sestrosa, porém, terra também de corruptos, de homofóbicos, conservadores & sexistas.
 
o reconhecimento mais abrangente da figura do rei torna-o mais bonito.
 
é melhor que assim seja: ser o lobo do lobo do homem.
 
(eu também sinto dessa forma. não me vejo amando menos o brasil porque reconheço as suas mazelas. não. reconhecê-las, e amando-o, me estimula a extirpá-las.)
 
e avança caetano em seu caminho, amando o azul, o púrpura e o amarelo, amando cores celestiais, e entre o seu ir, isto é, entre a sua jornada, entre o seu caminhar, e o caminho do sol, há um aro, há um elo que os une.
 
apostar na luz, no brilho, apostar no elo, no aro que se configura com o astro-rei, luminoso, caloroso: o sol. afinal, gente é para brilhar, não é para morrer de fome.
 
pronto, chicão! publicação todinha sua (rs). (e para quem mais a desejar.)
 
sigamos lúcidos & amorosos!
 
beijo nos senhores!
um outro, especialíssimo, em você, francisco ferraz!
 
paulo sabino / paulinho.
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(do livro: Letra Só. autor: Caetano Veloso. organização: Eucanaã Ferraz. editora: Companhia das Letras.)
 
 
O ESTRANGEIRO
 
O pintor Paul Gauguin amou a luz na Baía de Guanabara
O compositor Cole Porter adorou as luzes na noite dela
A Baía de Guanabara
O antropólogo Claude Lévi-Strauss detestou
                                [a Baía de Guanabara
Pareceu-lhe uma boca banguela
E eu, menos a conhecera, mais a amara?
Sou cego de tanto vê-la, de tanto tê-la estrela
O que é uma coisa bela?
O amor é cego
Ray Charles é cego
Stevie Wonder é cego
E o albino Hermeto não enxerga mesmo muito bem
Uma baleia, uma telenovela, um alaúde, um trem?
Uma arara?
Mas era ao mesmo tempo bela e banguela a Guanabara
Em que se passara passa passará um raro pesadelo
Que aqui começo a construir sempre buscando o belo
                                                              [e o Amaro 
Eu não sonhei:
A praia de Botafogo era uma esteira rolante de areia
                                              [branca e óleo diesel
Sob meus tênis
E o Pão de Açúcar menos óbvio possível
À minha frente
Um Pão de Açúcar com umas arestas insuspeitadas
À áspera luz laranja contra a quase não luz, quase não púrpura
Do branco das areias e das espumas
Que era tudo quanto havia então de aurora
Estão às minhas costas um velho com cabelos
                                                  [nas narinas
E uma menina ainda adolescente e muito linda
Não olho pra trás mas sei de tudo
Cego às avessas, como nos sonhos, vejo o que desejo
Mas eu não desejo ver o terno negro do velho
Nem os dentes quase-não-púrpura da menina
(Pense Seurat e pense impressionista
Essa coisa da luz nos brancos dente e onda
Mas não pense surrealista que é outra onda)
E ouço as vozes
Os dois me dizem
Num duplo som
Como que sampleados num Sinclavier:
“É chegada a hora da reeducação de alguém
Do Pai, do Filho, do Espírito Santo, amém
O certo é louco tomar eletrochoque
O certo é saber que o certo é certo
O macho adulto branco sempre no comando
E o resto ao resto, o sexo é o corte, o sexo
Reconhecer o valor necessário do ato hipócrita
Riscar os índios, nada esperar dos pretos”
E eu, menos estrangeiro no lugar que no momento
Sigo mais sozinho caminhando contra o vento
E entendo o centro do que estão dizendo
Aquele cara e aquela:
É um desmascaro
Singelo grito:
“O rei está nu”
Mas eu desperto porque tudo cala frente ao fato de que
                                               [o rei é mais bonito nu
E eu vou e amo o azul, o púrpura e o amarelo
E entre o meu ir e o do sol, um aro, um elo
(“Some may like a soft brazilian singer
But I’ve given up all attempts at perfection”)