SOMOS TROPICÁLIA — 50 ANOS DO MOVIMENTO — 2° CICLO: LILA, MATHEUS VK & EBER INÁCIO — MANIFESTO PAU BRASIL (OSWALD DE ANDRADE)
29 de março de 2017

(Foto: Elena Moccagatta)

(Na foto, os participantes desta edição — Eber Inácio, Lila & Matheus VK)
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“Querido Paulo,

Acompanho com alegria o seu trabalho de poeta e de defensor da poesia.

E a mãezinha, está bem?

Beijo os dois,
Nélida Piñon”.

(Nélida Piñon — escritora integrante da Academia Brasileira de Letras — ABL)

 

 

É chegada a hora! É dia de estréia!

Hoje, quarta-feira (29/03), e amanhã, quinta-feira (30/03), acontece o 2° ciclo de encontros do projeto “Somos Tropicália”, em homenagem aos 50 anos do Tropicalismo, no Gabinete de Leitura Guilherme Araújo, o grande empresário dos tropicalistas e um dos artífices do movimento, com a presença deste trio poderoso e vitaminado: do cantor e compositor Matheus VK, da cantora e compositora Lila (tanto a Lila quanto o Matheus cantam no bloco “Fogo e Paixão”), e do poeta, escritor e ator Eber Inácio (da trupe que monta e encena os já célebres espetáculos teatrais no Buraco da Lacraia, na Lapa).

O repertório das noites está incrível e os participantes, felizes da vida com o ensaio! Venham todos!

 

Serviço:

Gabinete de Leitura Guilherme Araújo apresenta –

SOMOS TROPICÁLIA – 50 anos do movimento

Lila, Matheus VK e Eber Inácio / Pocket-show e leitura de poesias
Dias 29/03 (4ª-feira) e 30/03 (5ª-feira)
A partir das 19h30
Rua Redentor, 157 Ipanema
Tel infos. 21-2523-1553
Entrada franca c/ contribuição voluntária
Lotação: 60 lugares
Classificação: livre

Link do evento no Facebook: http://www.facebook.com/events/1832965360359979/
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De presente, excertos de um manifesto que compõe o repertório de leitura das duas noites desta edição do projeto e que inspirou deveras os tropicalistas.

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(excertos do texto: Manifesto Pau Brasil. autor: Oswald de Andrade.)

 

 

MANIFESTO PAU BRASIL

 

“A poesia existe nos fatos. Os casebres de açafrão e de ocre nos verdes da Favela, sob o azul cabralino, são fatos estéticos.

“O Carnaval no Rio é o acontecimento religioso da raça. Pau-Brasil. Wagner submerge ante os cordões de Botafogo. Bárbaro e nosso. A formação étnica rica. Riqueza vegetal. O minério. A cozinha. O vatapá, o ouro e a dança.

“Toda a história bandeirante e a história comercial do Brasil. O lado doutor, o lado citações, o lado autores conhecidos. Comovente. Rui Barbosa: uma cartola na Senegâmbia. Tudo revertendo em riqueza. A riqueza dos bailes e das frases feitas. Negras de Jockey. Odaliscas no Catumbi. Falar difícil.”

(…)

“A poesia Pau-Brasil. Ágil e cândida. Como uma criança.”

(…)

“Contra o gabinetismo, a prática culta da vida. Engenheiros em vez de jurisconsultos, perdidos como chineses na genealogia das idéias.

“A língua sem arcaísmos, sem erudição. Natural e neológica. A contribuição milionária de todos os erros. Como falamos. Como somos.”

(…)

“Uma única luta – a luta pelo caminho.”

(…)

“A invenção

“A surpresa

“Uma nova perspectiva

“Uma nova escala.

“Qualquer esforço natural nesse sentido será bom. Poesia Pau-Brasil.”

(…)

“A Poesia Pau-Brasil é uma sala de jantar domingueira, com passarinhos cantando na mata resumida das gaiolas, um sujeito magro compondo uma valsa para flauta e a Maricota lendo o jornal. No jornal anda todo o presente.

“Nenhuma fórmula para a contemporânea expressão do mundo. Ver com olhos livres.”

(…)

“Uma visão que bata nos cilindros dos moinhos, nas turbinas elétricas; nas usinas produtoras, nas questões cambiais, sem perder de vista o Museu Nacional. Pau-Brasil.

“Obuses de elevadores, cubos de arranha-céus e a sábia preguiça solar. A reza. O Carnaval. A energia íntima. O sabiá. A hospitalidade um pouco sensual, amorosa. A saudade dos pajés e os campos de aviação militar. Pau-Brasil.”

(…)

“A reação contra todas as indigestões de sabedoria. O melhor de nossa tradição lírica. O melhor de nossa demonstração moderna.

“Apenas brasileiros de nossa época. O necessário de química, de mecânica, de economia e de balística. Tudo digerido. Sem meeting cultural. Práticos. Experimentais. Poetas. Sem reminiscências livrescas. Sem comparações de apoio. Sem pesquisa etimológica. Sem ontologia.

“Bárbaros, crédulos, pitorescos e meigos. Leitores de jornais. Pau-Brasil. A floresta e a escola. O Museu Nacional. A cozinha, o minério e a dança. A vegetação. Pau-Brasil.”

LEITURA DRAMATIZADA — “BOCA DE OURO” (NELSON RODRIGUES)
26 de outubro de 2016

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(Thiago Lacerda)

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(Paulo Sabino)

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(Gustavo Ottoni)

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(Juliana Martins)

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(Vanessa Gerbelli Ceroni)
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Um convite a todos, e podem divulgar/compartilhar: fui convidado pelo grupo de teatro “Queridos do Guilherme” para participar da leitura dramatizada da peça “Boca de Ouro”, do genial Nelson Rodrigues. Nesta leitura, dirigida pela talentosa atriz & diretora Rose Abdallah, farei um velho preto, que, por uma razão que vocês descobrirão assistindo à peça, o Boca de Ouro, personagem malandro barra pesada, possui algum respeito.

O “Boca de Ouro” será interpretado pelo ator Thiago Lacerda (foto). Também participam como convidados o ator Gustavo Ottoni (foto), no papel do repórter Caveirinha, e as atrizes Juliana Martins (foto), como dona Guigui, e Vanessa Gerbelli Ceroni (foto), no papel da grã-fina Maria Luísa.

A leitura será no dia 31 de outubro (segunda-feira), às 20h, no Gabinete de Leitura Guilherme Araújo (rua Redentor 157, Ipanema, esquina com a rua Garcia D’Avila).

DE GRAÇA.

Como aperitivo, deixo, nesta publicação, um trecho, extraído da biografia do Nelson Rodrigues escrita por Ruy Castro, que é um texto do grande intelectual Hélio Pellegrino sobre o personagem “Boca de Ouro”.

Minha estréia no teatro!

Venham todos à leitura dramatizada!
Paulo Sabino.
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(do livro: O anjo pornográfico — A vida de Nelson Rodrigues. autor: Ruy Castro. editora: Companhia das Letras.)

 

 

No seu hábitat natural, “Boca de Ouro” ganhou outra dimensão, que levaria Hélio Pellegrino a escrever uma ode sobre o personagem em “O Jornal”:

“Boca de Ouro, nascido de mãe pândega, parido num reservado de gafieira, tendo perdido o paraíso uterino para defrontar-se com uma realidade hostil e inóspita, sentiu-se condenado à condição de excremento”, escreveu Hélio. “Seu primeiro berço foi a pia da gafieira, onde a mãe, aberta a torneira, o abandonou num batismo cruel e pagão. Essa é a situação simbólica pela qual o autor, com um vigor de mestre, expressa o exílio e a angústia humana do nascimento, o traumatismo que nos causa, a todos, o fato de sermos expulsos do Éden e rojados ao mundo, para a aventura do medo, do risco e da morte. Boca de Ouro, frente a essa angústia existencial básica, escolheu o caminho da violência e do ressentimento para superá-la. Ele, excremento da mãe, desprezando-se na sua enorme inermidade de rejeitado, incapaz de curar-se dessa ferida inaugural, pretendeu a transmutação das fezes em ouro, isto é, da sua própria humilhação e fraqueza em força e potência.

“Essa alquimia sublimatória ele a quis realizar através da violência, da embriaguez do poder destrutivo pela qual chegaria à condição de deus pagão, cego no seu furor, belo e inviolável na pujança da sua fúria desencadeada. Ao útero materno mau, que o expulsou e o lançou na abjeção, preferiu ele, na sua fantasia onipotente, o caixão de ouro, o novo útero eterno e incorruptível onde, sem morrer, repousaria.”

Nelson leu isso com os olhos turvos pelas lágrimas. Apontou para Hélio Pellegrino e exclamou:

“É o nosso Dante!”

OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (6ª EDIÇÃO) — VÍDEOS: MARIA REZENDE & ELISA LUCINDA
15 de setembro de 2016

(Todas as fotos: Elena Moccagatta.)

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(As poetas Maria Rezende & Elisa Lucinda)

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(A poeta Maria Rezende)

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(A grande homenageada da noite — a poeta & atriz Elisa Lucinda)
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Aos interessados, 3 vídeos da 6ª edição do projeto “Ocupação Poética”, ocorrido no dia 2 de agosto (terça-feira), no teatro Cândido Mendes (Ipanema – RJ), com a participação estelar de: Elisa Lucinda, Moraes Moreira & Maria Rezende.

Nos vídeos desta publicação, a grande homenageada da noite, a poeta & atriz Elisa Lucinda, lê um trecho do seu mais recente livro — e o primeiro romance — intitulado “Fernando Pessoa, o Cavaleiro de Nada”, finalista do prêmio São Paulo de Literatura 2015, com a poeta Maria Rezende; depois, separadamente, tanto a Maria quanto a Elisa lêem trechos do livro escolhidos por ambas.

Mais vídeos chegarão!

Divirtam-se!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [6ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 02/08/2016. Elisa Lucinda & Maria Rezende lêem um trecho do livro Fernando Pessoa, o Cavaleiro de Nada, de Elisa Lucinda.)

 

(trecho do livro: Fernando Pessoa, o Cavaleiro de Nada. autora:Elisa Lucinda. editora: Record.)

 

A noite chegou. Tive a impressão de que a tarde passara e que a minha mãe nem soubera de minha febre. (…) O tempo corria denso, e em meu coração o amor por ela subitamente pareceu ter dobrado de tamanho. Cavaleiro de Nada apareceu no quarto.

(…)

— Tu deverias falar com ela.
— Mas falar o quê?
— Que não queres ficar aqui. Que não podes viver longe dela, que preferirias a morte por febre ou tuberculose como o teu pai e o Jorge, teu pequenino irmão. Vai funcionar, bobo! Ela não suportaria mais essa dor, ainda que fosse em favor do seu casamento. Nenhuma grinalda vale isso.
— E se ela realmente leva-me com ela? Tu irás comigo, Cavaleiro de Nada?

(…)

— Sou teu, meu amigo, a ti pertenço mais do que aquela bola com o desenho de um cão verde, mais do que todos os teus brinquedos. Irei contigo aonde me levares. Agora vai lá. Ela ainda está ao piano. Apura-te.

Abracei com força o meu querido amigo. (…) O piano de minha mãe fazia com que, subitamente, tudo retornasse ao seu lugar de paz. (…) Com o indicador de um menino de 5 aninhos, toquei levemente as costas da minha querida Magdalena. Ela sorriu-me de volta e beijou a ponta do meu dedinho, demorada e carinhosamente. Depois me abraçou:

— Que queres, meu príncipe pequeno? Sabias que está perto de aprenderes o português escrito? Está já a chegar a hora.
— Sim, minha mamã.
— E na escola, percebes? Com os teus colegas da mesma idade, com uniforme e tudo! Vais ficar mais lindo ainda! A escola é um lugar cheio de amigos novos que falam a mesma língua que a gente e que, juntos, aspiram a crescer amando a pátria, o país. Isto tudo é para depois seres um português legítimo, forte e corajoso para a nação e para o mundo. Tu não queres ser esse homem? Hã, meu menino?

Fiquei em silêncio por um tempo no seu colo, minhas costas coladas ao peito dela, a escutar o suspeito batimento do seu coração. Ai, ai… Sabia o fundamento daquele novelo de palavras, percebia-lhe o casco, farejava o rastro das suas intenções, ainda que a doçura encobrisse a cena, aquelas eram palavras de deixar-me. Em meu pensamento, percorri Cavaleiro de Nada: Socorro! Amigo meu, o que é que eu faço? Pois que faça um poema para ela, disse-me ele. Qual? (…) Ele soprou-me ao ouvido, ditando-me as palavras.

(…)

— Acho que fiz uma quadra, posso declamá-la agora, mamã?
— Claro, meu querido, estou aqui e sou tua plateia.

Dito isso, ela saiu do banco do piano disposta a acomodar-se no sofá azul-escuro que acompanhava a família desde que eu me entendia por gente (…). Pus os bracinhos para trás e disparei estes versinhos como se fossem um só buquê oferecido a ela. Embora aparentemente inocente, hoje sei, era um desesperado buquê: À minha querida Mamã: Eis-me aqui em Portugal, nas terras onde nasci. Por muito que goste delas ainda gosto mais de ti. Minha mãe deu-se a chorar como uma criança à minha frente naquele dia. (…) Depois, demorou-se com seus olhos fundos dentro dos meus, como a pedir perdão. “Que linda quadra, meu bem, meu pequeno poeta. Pois está decidido. Tu vens com a mamã, meu amor. Vamos para a África com a mamã e faremos dentro de nossa casa lá a nossa língua, o nosso Portugal. Se te ensinei o francês aqui, ora pois, quem, que circunstância, por desconhecida que seja, ousaria impedir-me de ensinar-te a escrever a nossa língua-mãe? Hein, meu pequeno lusíada?” E passou a fazer-me cócegas, a brincar materna e humana com a sua cria.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [6ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 02/08/2016. No 1º vídeo, a poeta Maria Rezende apresenta ao público o trecho que lerá do livro Fernando Pessoa, o Cavaleiro de Nada, de Elisa Lucinda. No 2º vídeo, Elisa Lucinda & Maria Rezende lêem, cada uma, um trecho do livro Fernando Pessoa, o Cavaleiro de Nada, de Elisa Lucinda.)

 

 

(trecho do livro: Fernando Pessoa, o Cavaleiro de Nada. autora:Elisa Lucinda. editora: Record.)

 

(…) Cada um deixa aqui sua história no mais minúsculo dos atos. Quem é Noronha? Li uma vez num jornal americano que um explorador casual, que por ousadia se aventurou por uma garganta intransitável das Montanhas Allegheny, ficou surpreendido com o aparecimento numa parte lisa de um rochedo escuro, de umas breves palavras gravadas. Era impossível que alguém lá antes estivesse estado. O viajante era de raça inglesa, e, como tal, não falava outra língua senão a sua. Desconheceu por isso a língua em que a inscrição estava feita. Copiou-a porém, esperando sem dúvida ter descoberto o indício de qualquer povo primitivo, misterioso e estranho. Porém quando, regressado à planície e à povoação, mostrou a inscrição que copiara, alguém houve que a lesse logo. A inscrição, afinal, era em português; era simples: ESTEVE AQUI O NORONHA. O Noronha não seguiu a rotina, porque a rotina não conduzia a paragens desconhecidas. O Noronha não buscou celebridade, porque então teria deixado ao menos o nome próprio também, para sabermos qual dos numerosos Noronhas é que tinha passado por ali. O Noronha é o exemplo supremo da iniciativa, que tem por prêmio só a mesma iniciativa. Aquela frase simples que o inglês não pôde traduzir dizia, na verdade, aqui esteve o inédito, o Noronha. Por isso, cuida-te. Ama o que fazes e faça-o com tudo o que tens. Qualquer que seja o teu trabalho, põe individualidade nele, esforça-te por lhe pores qualquer coisa de único, de diferente, de teu. Há aventuras até no fazer embrulhos. Há campo para criação até na redação de faturas. Lembra-te do Noronha. Ninguém podia passar pelas gargantas das Allegheny. Foi lá ter o Noronha. Eras capaz de ir lá ter? Sê ao menos capaz de ir ter a um novo modo de redigir cartas, de dobrar circulares, de colar selos. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes. Assim em cada lago a lua toda brilha, porque alta vive. Sê original em qualquer coisa. Vive. Sê gente… Não te deixes ser igual aos outros como se tivesse nascido carneiro. Não faças isso para brilhar. O Noronha não quis brilhar, pois nem sequer disse bem quem era. Faz isso para te sentires homem. Ele deixou o bilhete da visita e é de supor, retornou, se não morreu lá. Mas, seja como for, fez aquilo só porque ninguém o tinha feito. Tanto basta para justificar uma vida. Tudo é encontrar qualquer coisa. Mesmo perder é achar o estado de ter essa coisa perdida. Nada se perde, só se encontra qualquer coisa. Sentir é buscar.
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(trecho do livro: Fernando Pessoa, o Cavaleiro de Nada. autora:Elisa Lucinda. editora: Record.)

 

Estou pela rua, agora já vindo do Abel. Daquele jeito. Passam rapidamente os anos. Rapidamente passa a vida e não há nisso novidade. Não vem com a tarde oportunidade nenhuma. Quando fiz 38 anos, vi que estava sempre mais próximo de nunca ter realizado coisa alguma na vida, e ainda pensei: Que bom, a realização envelhece-nos. Tudo tem o seu preço; o preço da realização é a perda da juventude. Não me casei e por isso mantive-me livre tanto dos prazeres especiais como dos cuidados próprios dessa espécie de parceria; e o bem e o mal desse estado são igualmente envelhecedores. Nunca fiz um esforço real atrás de coisa alguma, nem apliquei fortemente a minha atenção exceto a coisas fúteis, desnecessárias e ficcionais. Sinto-me jovem porque tenho vivido desta maneira. Dirá o senhor que não prestei qualquer serviço à humanidade. Mas prestei a muitas pessoas o serviço de não estar no seu caminho. Não competi com as ambições de nenhum homem, nem me pus no caminho da grandeza natural de nenhum tolo. Ah, tudo isso é bastante literário, pois sou sempre bastante literário — já que é esta a inclinação certa de um espírito que não tem inclinações. Aqui, neste misérrimo desterro onde nem desterrado estou, habito, fiel, sem que queira, àquele antigo erro pelo qual sou proscrito. O erro de querer ser igual a alguém feliz. Estou a sentir que passo pela rua no horário em que os maridos voltam do trabalho, entram em suas casas, jantam com os seus filhos. Ao passar aqui fora, ouço todos os sons da cena familiar por dentro. Por um momento sou parte daquilo:

— Papai, um dia você me leva às touradas espanholas? Leva, não leva, papai?

(Silêncio)

— Ó Fernando, onde estás com a cabeça? Sou tua mulher. Não estás a ver-me aqui? Não escutas o que teu filho está a pedir-te?
— Não te deixes incomodar com eles, papai, compre um vestido novo para mim porque sábado haverá baile e o meu vestido, o senhor sabe, eu quero que seja o mais bonito. Estás a ouvir-me, meu papá?

(Silêncio)

— Fernando, não escutas a tua filha? Já é uma rapariga linda, e tu nem percebes?
— Ah, seu Fernando, para aproveitar a oportunidade que o senhor está aqui, eu estava a precisar de um aumento, porque o que eu ganho cá não está a compensar, não. Melhor voltar para Trás-dos-Montes, largar Lisboa para trás.

(Silêncio)

— Fernando, tu estás doido, surdo, em estado de choque ou o quê? A Alvina, nossa empregada, está a esperar a tua resposta, aliás como estamos todos!

Felizmente, minha imaginação foi quem me conduziu àquela mesa portuguesa, onde não bebi a açorda nem gostei do que vi. E foi a mesma imaginação que de lá me tirou, graças a Deus! Que maçada, aquele homem, aqueles filhos, aqueles assuntos, aquela família! Não. Não nasci para marido, definitivamente. A pessoa tem que ter vocação para aquilo. A pessoa do Pessoa não tem. Quem escreveria por mim, enquanto eu estivesse a jantar com aquela tribo vestida? Sigo meus próprios passos no breu da rua. Tudo que me cerca é feito de enormes silêncios. Ora, ora, meu verdadeiro clã é feito de palavras, sou o pai delas. É certo que tenho palavras grandes, desenvolvidas, independentes já, mas ainda há aquelas palavras pequenas, eu tenho palavras de colo ainda, palavrinhas. E, se não sou eu, quem há de garantir-lhes o leite? Vivo entre próclises e mesóclises a fazer bacanais indescritíveis e inconfessáveis. E, como sou português, o cardume de ênclises não sai da minha cama! Agora, casado verdadeiramente com uma figura de linguagem: uma Metonímia, uma Hipérbole, uma Metáfora, quem sabe? Também há desconfianças de que andou pela minha casa um tal de Substantivo, sendo que o Adjetivo, este sim não sai de lá. Sou um escravo do Adjetivo. Mas não é nada disso. Não houve nada, são as más línguas. Essa é que é minha gente.

OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (6ª EDIÇÃO) — VÍDEO: PAULO SABINO & ELISA LUCINDA
29 de agosto de 2016

(Todas as fotos: Elena Moccagatta.)

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(O coordenador do projeto — Paulo Sabino — & a homenageada da noite — Elisa Lucinda.)
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Aos interessados, vídeo da 6ª edição do projeto “Ocupação Poética”, ocorrido no dia 2 de agosto (terça-feira), no teatro Cândido Mendes (Ipanema – RJ), com a participação estelar de: Elisa Lucinda, Moraes Moreira & Maria Rezende.

No vídeo desta publicação, um bate-papo com a homenageada da noite, a poeta & atriz Elisa Lucinda, que fala sobre o convite para fazer o seu mais recente livro — e o primeiro romance — intitulado “Fernando Pessoa, o Cavaleiro de Nada”, finalista do prêmio São Paulo de Literatura 2015, sobre a construção da narrativa, sobre o seu contato com o escritor & poeta moçambicano Mia Couto, responsável pelo prefácio do livro, e conta casos divertidos que permeiam a sua vivência com a obra. Ao final, a poeta & atriz recita “Mar português”, poema do grande homenageado da noite, o poeta português Fernando Pessoa.

Mais vídeos chegarão!

Divirtam-se!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [6ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 02/08/2016. Bate-papo com Elisa Lucinda & Paulo Sabino a respeito do livro Fernando Pessoa, o Cavaleiro de Nada, de Elisa Lucinda. Elisa Lucinda recita Mar português, poema de Fernando Pessoa.)

 

MAR PORTUGUÊS  (Fernando Pessoa)

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (6ª EDIÇÃO) — FOTOS & VÍDEO DE ABERTURA: PAULO SABINO
11 de agosto de 2016

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(Instante antes do início — Foto: Felipe Fernandes)

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(Paulo Sabino — Foto: Felipe Fernandes)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Elena Moccagatta)

Paulo Sabino 6ª Ocupação Poética

(Foto: Taís Campos)

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(A homenageada: Elisa Lucinda — Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Felipe Fernandes)

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(Maria Rezende — Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Felipe Fernandes)

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(Moraes Moreira — Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(Maria Rezende & Elisa Lucinda — Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(Moraes Moreira & Elisa Lucinda — Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Felipe Fernandes)

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(Paulo Sabino & Maria Rezende — Foto: Rafael Roesler Millon)

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(Foto: Rafael Roesler Millon)

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(Moraes Moreira & Paulo Sabino — Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Rafael Roesler Millon)

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(O coordenador do projeto — Paulo Sabino — & a homenageada da noite — Elisa Lucinda — Foto: Felipe Fernandes)

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(Foto: Elena Moccagatta)

Paulo Sabino & Elisa Lucinda 6ª Ocupação Poética

(Foto: Singoala Luz)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Felipe Fernandes)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Rafael Roesler Millon)

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(O quarteto fantástico: Elisa Lucinda, Moraes Moreira, Paulo Sabino & Maria Rezende — Foto: Elena Moccagatta)

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(Foto: Elena Moccagatta)
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“Meu pretinho, muito obrigada, você é muito querido, espontâneo, foi uma noite mágica. Quero fazer outra o ano que vem, ou quando você puder e quiser, com a obra poética minha. Meu beijo imenso, Paulo, muito obrigada mesmo.”

(Elisa Lucinda)

 

Mensagens de espectadores da 6ª edição do projeto Ocupação Poética:

“Muito bom, ver o trabalho de Elisa Lucinda é sempre transformador, e os convidados Moraes Moreira e Maria Rezende tb colaboraram para florear o ambiente. Parabéns Paulo Sabino”.

“Foi uma noite maravilhosa meu lindo amigo, sou sua fã de seu projeto de carteirinha. Gratidão!”

“Misturar o talento e a luz de Elisa Lucinda com a genialidade de Fernando Pessoa não poderia resultar em nada menos que MARAVILHOSO!”

“Foi demais! Vou devorar o livro nas férias.”

 

 

Só me chegaram registros lindos da 6ª edição do projeto Ocupação Poética, que coordeno no teatro Cândido Mendes de Ipanema, que teve, como homenageada, no dia 2 de agosto (terça-feira), a atriz & poeta & minha diva Elisa Lucinda, que, por sua vez, homenageou o poeta Fernando Pessoa, e as participações para lá de especiais da poeta Maria Rezende & do cantor, músico & compositor Moraes Moreira.

Uma noite linda, descontraída, e cheia de conteúdo.

Todos muito felizes. As fotos traduzem a beleza & a descontração que conseguimos imprimir na apresentação.

Como base das leituras, o mais recente livro — e o primeiro romance — da Elisa Lucinda, intitulado “Fernando Pessoa, o Cavaleiro de Nada”, finalista do prêmio São Paulo de Literatura 2015.

No vídeo desta publicação, a apresentação do projeto, o poema de Carlos Drummond de Andrade em homenagem a Pessoa & o trecho do livro da Elisa escolhido por mim para a minha leitura.

Ao que tudo indica, pela mensagem da Elisa postada acima, teremos a atriz & poeta uma segunda vez no projeto. Elisa já me contou que tem livro inédito de poesia chegando na área; então a idéia é fazermos uma edição focada no seu mais recente livro de poemas! Oba!

Elisa Lucinda merece repeteco! Eu quero Elisa Lucinda mais uma vez na Ocupação Poética!

Agradecer imensamente aos participantes, Maria Rezende & Moraes Moreira, que só fizeram abrilhantar a noite ainda mais!

Mais vídeos desta edição serão publicados! É só aguardar!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [6ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 02/08/2016. Paulo Sabino apresenta o projeto Ocupação Poética, recita As identidades do poeta, poema de Carlos Drummond de Andrade, e lê um trecho do livro Fernando Pessoa, o Cavaleiro de Nada, de Elisa Lucinda.)

 

AS IDENTIDADES DO POETA  (Carlos Drummond de Andrade)

De manhã pergunto:
Com quem se parece Fernando Pessoa?
Com seus múltiplos eus, expostos, oblíquos
em véu de garoa?
Com tripulantes-máscaras de esquiva canoa?
Com elfo imergente
em frígida lagoa?
Com a garra, a juba, o pelo amaciado
de velha leoa?

Quem radiografa, quem esclarece
Fernando Pessoa,
feixe de contrastes, união de chispas,
aluvião de lajes
figurando catedral ausente de cardeais,
com duendes oficiando absconso ritual
vedado a profanos?

Que sina, frustrado destino, foi a coroa
desse Pessoa,
morto redivivo, presentifuturo
no céu de Lisboa?

Que levava (leva) no bolso
Fernando Reis de Campos Caeiro Pessoa:
irônico bilhete de identidade,
identity card
válido por cinco anos ou pela eternidade?

Que leva na alma:
augúrios de sibila,
Portugal a entristecer,
a desastrosa máquina do universo?

Fernando Pessoa caminha sozinho
pelas ruas da Baixa,
pela rotina do escritório
mercantil hostil
ou vai, dialogante, em companhia
de tantos si-mesmos
que mal pressentimos
na seca solitude
de seu sobretudo?

Afinal, quem é quem, na maranha
de fingimento que mal finge
e vai tecendo com fios de astúcia
personas mil na vaga estrutura
de um frágil Pessoa?

Quem apareceu, desapareceu na proa
de nave-canção
e confunde nosso pensar-sentir
com desconforto de ave poesca
e doçura de flauta de Pã?

À noite divido-me:
anseio saber,
prefiro ignorar
esse enigma chamado Fernando Pessoa.
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(trecho do livro: Fernando Pessoa, o Cavaleiro de Nada. autora: Elisa Lucinda. editora: Record.)

 

Abro a janela por onde vejo minha gênese: para revelar que mais tarde eu poderia vir a ser o mais popular, o mais conhecido poeta de língua portuguesa do mundo, nasci numa tarde nítida de fim de primavera quando o sol confirmava três horas e vinte minutos no meio do signo de gêmeos daquela brilhosa hora, no quarto andar esquerdo do número quatro do largo de São Carlos, em frente ao Teatro de Ópera do mesmo bairro. Quem ler o meu mapa astral logo interpretará com facilidade o meu destino mais do que eu fui capaz de fazê-lo. Um mês e uma semana depois houve batizado daquele bebê reluzente ao colo da satisfeita madrinha, tia Anica, na basílica dos Mártires, lá no Chiado. Maria Magdalena Pinheiro Nogueira Pessoa, a minha mãe e primeiro amor de minha vida, minha verdadeira pátria, a quem amei mais do que a minha própria pátria, e o meu pai, Joaquim Seabra Pessoa, funcionário público do Ministério da Justiça durante o dia e crítico musical do Diário de Notícias à noite, encontraram-se. O amor dos dois deu-me este nome porque nasci em 13 de junho, dia de Santo Antônio e também dia de Lisboa. Logo ele que, por batismo, era Fernando de Bulhões, o nome verdadeiro do santo de quem a minha família se afirmava parente mesmo, genealogicamente falando, e do qual reclamava consanguinidade. Pois bem, este homem recebeu, dentro da ordem franciscana, o pseudônimo de Antônio. Assim resultou em mim como Fernando Antônio Nogueira Pessoa, cujo duplo nome havia de gerar várias pessoas, outros eus meus, criados por mim com nome e obra próprios, mas isto é assunto para depois, é outro capítulo. Prefiro que nos detenhamos por agora nesta casa que fica entre uma igreja e um teatro lírico. As cenas de devoção e óperas, eu primeiro as ouvi para depois vê-las. Isto é, depois já de tê-las criado automaticamente em minha imaginação. Êh, êh, êh, êh, minha imaginação, aquela que dá facilmente partida, desde aí, ao pé de fortes impressões sonoras! Veja em que deu tamanha alegórica vizinhança: De um lado, ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia, e cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça. Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso, e as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro. Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidraça e sente-se o chiar da água no fato de haver coro. A missa é um automóvel que passa. Súbito vento sacode em esplendor maior a festa da catedral e o ruído da chuva absorve tudo até só se ouvir a voz do padre água perder-se ao longe, com o som das rodas do automóvel, e apagam-se as luzes da igreja na chuva que cessa. E tudo isto tilintando num coraçãozinho destes como é o meu.

Do outro lado, todo o teatro é meu quintal, a minha infância: o maestro sacode a batuta, aquele dia em que eu brincava ao pé dum muro de quintal, atirando-lhe com uma bola que tinha dum lado o deslizar dum cão verde, ora um cavalo azul com um jóquei amarelo. O teatro é o meu quintal, está em todos os lugares, e a bola vem a tocar a música. Tão rápida gira a bola entre mim e os músicos. O muro do quintal é feito de gestos de batuta. Todo o teatro é um muro branco de música por onde um cão verde corre atrás de minha saudade da minha infância. (…) O maestro agradece, pousando a batuta em cima da fuga dum muro, e curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça, bola branca que lhe desaparece pelas costas abaixo. Prossegue a música, e eis a minha infância.

OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (6ª EDIÇÃO) — O TIME COMPLETO
31 de julho de 2016

(Aqui, o elenco completo da 6ª edição do projeto “Ocupação Poética”, coordenado por este que vos escreve.)

Elisa Lucinda

(Elisa Lucinda)

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(Fernando Pessoa)

Moraes Moreira

(Moraes Moreira)

Dani Ornellas_Amarelo Manga

(Dani Ornellas)

Miguel Falabella

(Miguel Falabella)

Maria Rezende

(Maria Rezende)

Geovana Pires & Elisa Lucinda

(Geovana Pires & Elisa Lucinda)

Flyer 6ª Edição

(Divulgação da 6ª edição do projeto Ocupação Poética)
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Anotem na agenda, espalhem a notícia, compartilhem esta publicação!

Dia 02 DE AGOSTO (terça-feira), às 20H: a 6ª edição do projeto OCUPAÇÃO POÉTICA, coordenado por ESTE QUE VOS ESCREVE, no teatro CÂNDIDO MENDES (Ipanema – Rio de Janeiro), com leituras baseadas no primeiro romance da poeta, dramaturga, atriz & cantora ELISA LUCINDA, intitulado “FERNANDO PESSOA, O CAVALEIRO DE NADA”.

A poeta é a primeira mulher (e espero, MESMO!, que Elisa abra alas a outras tantas) a integrar este projeto.

Na noite, prestaremos uma homenagem ao maior poeta da língua portuguesa, FERNANDO PESSOA.

Além da participação da poeta homenageada & da participação deste que vos escreve, o evento contará também com as participações para lá de ESPECIAIS:

— do cantor & compositor MORAES MOREIRA;
— da atriz DANI ORNELLAS;
— do ator & diretor MIGUEL FALABELLA;
— da poeta MARIA REZENDE;
— da atriz & dramaturga GEOVANA PIRES;

 

02 DE AGOSTO (terça-feira), às 20H, no teatro CÂNDIDO MENDES (Ipanema – Rio de Janeiro): a 6ª edição do projeto OCUPAÇÃO POÉTICA.

Coordenação do projeto: PAULO SABINO.

Esperamos todos!

 

SERVIÇO

Ocupação Poética – Teatro Cândido Mendes

Coordenação: PAULO SABINO

Terça-feira (02/08)

Participantes: PAULO SABINO, ELISA LUCINDA, MORAES MOREIRA, DANI ORNELLAS, MIGUEL FALABELLA, MARIA REZENDE, GEOVANA PIRES

Horário: 20h
Entrada: R$ 40,00 (inteira) / R$ 20,00 (meia)
Vendas antecipadas na bilheteria do teatro
End.: Joana Angélica, 63 – Ipanema, Rio de Janeiro. Tel.: (21) 2523-3663.
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(do livro: Fernando Pessoa, o Cavaleiro de Nada. autora: Elisa Lucinda. autor dos trechos selecionados: Fernando Pessoa. editora: Record.)

 

 

 

Sou um pobre recortador de paradoxos, mas possuo a qualidade de arranjar argumentos para defender todas as teorias, mesmo as mais absurdas, e é esta última a habilitação com que me recomendo. Por mim, o meu egoísmo é a superfície da minha dedicação. O meu espírito vive constantemente no estudo e no cuidado da verdade, e no escrúpulo de deixar, quando eu deixar a veste que me liga a este mundo, uma obra que sirva ao progresso e ao bem da humanidade.
 
 
Se eles [os heterônimos do poeta] escrevem coisas belas, essas coisas são belas, independentemente de quaisquer considerações metafísicas sobre os autores “reais” delas. Se, nas suas filosofias, dizem quaisquer verdades, essas coisas são verdadeiras independentemente da realidade de quem as disse. Tornando-me assim, pelo menos um louco que sonha alto, pelo mais, não um só escritor, mas toda uma literatura, quando não contribuísse para me divertir, o que para mim já era bastante, contribuo talvez para engrandecer o universo, porque quem, morrendo, deixa escrito um verso belo deixou mais ricos os céus e a terra e mais emotivamente misteriosa a razão de haver estrelas e gente.
 
 
Da mais alta janela da minha casa com um lenço branco digo adeus aos meus versos que partem para a Humanidade. E não estou alegre nem triste. Esse é o destino dos versos. Escrevi-os e devo mostrá-los a todos porque não posso fazer o contrário, como a flor não pode esconder a cor, nem o rio esconder que corre, nem a árvore esconder que dá fruto. Ei-los que vão já longe como que na diligência e eu sem querer sinto pena como uma dor no corpo. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Flor, colheu-me o meu destino para os olhos. Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas. Rio, o destino da minha água era não ficar em mim. Submeto-me e sinto-me quase alegre, quase alegre como quem se cansa de estar triste. Ide, ide de mim! Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza. Murcha a flor e o seu pó dura sempre. Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua. Passo e fico, como o Universo.

OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (6¤ EDIÇÃO) — ELISA LUCINDA
16 de julho de 2016

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(A homenageada da noite: Elisa Lucinda)

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(O homenageado da homenageada: Fernando Pessoa)                                  _____________________________________

Anotem na agenda, espalhem a notícia, compartilhem esta publicação!

Dia 2 DE AGOSTO (terça-feira), às 20H: a 6¤ edição do projeto OCUPAÇÃO POÉTICA, coordenado por ESTE QUE VOS ESCREVE, no teatro CÂNDIDO MENDES (Ipanema – Rio de Janeiro), com leituras baseadas no mais recente livro — e o primeiro romance — da poeta, atriz, cantora & dramaturga ELISA LUCINDA, intitulado “FERNANDO PESSOA — O CAVALEIRO DE NADA”.

Elisa Lucinda é a primeira mulher a integrar este projeto. E espero que Elisa abra alas para outras muitas homenageadas.

Além da participação da poeta, dramaturga, atriz & cantora & da participação deste que vos escreve, o evento contará com participações muito especiais. Aguardem a próxima publicação, ela trará as informações completas!

De qualquer maneira, salvem a data: DE AGOSTO (terça-feira), às 20H, no teatro CÂNDIDO MENDES (Ipanema – Rio de Janeiro): a 6¤ edição do projeto OCUPAÇÃO POÉTICA com ELISA LUCINDA.

Coordenação do projeto: PAULO SABINO.

Esperamos todos!                                   _____________________________________

(do livro: Poesia 1918 – 1930. autor: Fernando Pessoa. editora: Companhia das Letras.)

 

 

LÁ FORA A VIDA estua e tem dinheiro.
Eu, aqui, nulo e afastado, fico
O perpétuo estrangeiro
Que nem de sonhar sou rico.

Não sou ninguém, o meu trabalho é nada
Neste enorme rolar da vida cheia,
Vivo uma vida que nem é regrada
Nem é destrambelhada e alheia.

E um século depois terá esquecido
Tudo quanto estuou e foi ruído
Nesta hora em que vivo. E os bisnetos

Dos opressores de hoje, desta hora lata
Só saberão, mas vagamente, a data
E claramente os meus sonetos.

OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (4ª EDIÇÃO) — VÍDEOS: MARIA GAL, JU COLOMBO, PAULO SABINO & ELISA LUCINDA
2 de junho de 2016

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(Maria Gal)

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(Ju Colombo)

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(Paulo Sabino)

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(Elisa Lucinda)
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Aos interessados, 4 vídeos da 4ª edição do projeto “Ocupação Poética”, ocorrido no dia 3 de maio (terça-feira), no teatro Cândido Mendes (Ipanema – RJ), com a participação de um elenco estelar: Geraldo Carneiro, Maíra Freitas, Elisa Lucinda, Zezé Motta, Maria Ceiça, Dani Ornellas, Flávia Oliveira, Wagner Cinelli, Ju Colombo, Maria Gal & Tom Farias.

Nos vídeos desta publicação, leituras dos trechos do livro “Barras, vilas & amores”, do homenageado da noite, o cantor, compositor & escritor Martinho da Vila, que tratam das histórias de amor que permeiam a trama do início ao fim: a  atriz & produtora Maria Gal lê trecho sobre a história de amor de Helena (Leninha) & o professor Adib; a atriz & arte-educadora Ju Colombo lê trecho sobre as histórias de amor de Helena (Leninha) & Basílio Mendonça, e do professor Adib & Eugênia; substituindo a cantora & compositora Fernanda Abreu, que não pôde comparecer por um compromisso inadiável surgido de última hora, o coordenador do projeto, o poeta Paulo Sabino, lê trecho sobre a história de amor de Josuel Ferreira & Teresi Aláfia; e a poeta, atriz & dramaturga Elisa Lucinda, num vídeo gravado, montado, editado & produzido pelo querido músico, produtor & videomaker Felipe Fernandes, lê trecho sobre a história de amor de Daomé Benino & Iana Smith.

Portanto, aos interessados, 3 histórias cujo assunto é de interesse & conhecimento do Martinho da Vila: as venturas & desventuras de amar, presentes na vida de qualquer homem amoroso.

Mais vídeos chegarão!

Divirtam-se!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Maria Gal lê um trecho do livro Barras, vilas & amores, de Martinho da Vila.)

 

Estácio Adib de Araújo Calvo, sempre chamado de professor Adib, não era calvo. Seus cabelos levemente grisalhos davam uma aparência senhoril às suas trinta e poucas primaveras. De estatura maior que a média brasileira e com tez morena, olhos castanhos, primava por discreta elegância no vestir raramente esportivo. Sem ser nenhum Adônis, causava delírios de amor em muitas moçoilas. Além de professor, era um diretor, membro do conselho administrativo do colégio, que se esmerava em honrar o magistério tratando os alunos com ternura e respeito.

O flerte com Helena — que ele antes se recusava a tratar por Leninha, como todos — levou-o a ter crises de consciência que dificultavam seu sono e causavam-lhe pesadelos pedófilos. Dá pra imaginar?

Despertava sempre ofegante e, mesmo sem ser muito católico, benzia-se. De volta ao sono, tinha belos devaneios oníricos e amanhecia feliz.

(…)

Certos de que não estavam sendo observados, o compromisso foi selado por um beijinho, daqueles que chamamos de selinho.

O combinado foi no encerramento dos festejos juninos, realizado no Dia de Sant’Ana, 26 de julho. Foi difícil despistar os conterrâneos, mas conseguiram ficar uns minutos a sós. Então se entregaram ao primeiro beijo.

Num oito de dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição, no fim da missa noturna das seis, foguetes riscaram o céu, e os morteiros explosivos anunciaram a abertura da festa da padroeira.

(…)

Sorrateiramente nosso casal se esgueirou para a parte de trás da igreja e, naquele recanto ermo, a pupila se abriu como uma flor. E o professor, que tem a mesma responsabilidade de um preceptor, excitadíssimo, arvorou-se.

Sem resistência, Leninha capitulou.

Foi tudo muito rápido, uma entrega prazerosa, apesar de a jovem não ter atingido o ápice, o prazer pleno. Voltaram ligeiros para a praça e, tentando demonstrar naturalidade, separaram-se para disfarçar. Cada um a seu lado, tinham a impressão de que nos olhares de todos havia uma censura pelo que fizeram.

(…)

Mesmo muito apaixonados, devido às dificuldades, calculáveis em uma cidade pequena, o casal se encontrou pouquíssimas vezes. Cópula, só a primeira atrás da Igreja da Conceição, suficiente para a concepção, pois um espermatozoide complicador foi direto ao óvulo e o fecundou.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Ju Colombo lê um trecho do livro Barras, vilas & amores, de Martinho da Vila.)

 

Pouco tempo corrido após a partida de Leninha, Adib passou a assediar Eugênia, como se sabe, sua ex-amante. Ela só correspondeu ao receber um pedido de noivado com proposta de casamento rápido. O enlace do diretor e da pedagoga aconteceu em uma cerimônia simples e lamentosa para o colégio, pois na ocasião eles anunciaram que iriam morar em Brasília.

Quando Leninha chegou de lá com o filho, já registrado como Josuel Wermelingerthal Lutherbach Ferreira, entristeceu-se com a notícia do casório do inesquecível Ernesto Adib, mas alegrou-se ao encontrar seu quarto do jeito que deixou, bem arrumadinho e com todos os seus pertences da infância. Outro foi preparado para Josuel, um aposento espaçoso, pois não havia compartimentos pequenos naquela grande casa, sede da fazenda Barras Três.

(…)

Com a volta dela de Brasília, falsamente viúva, o primo voltou a ficar mais tempo na fazenda. Ao vê-la de prima, não lhe deu novos pêsames. Abriu-lhe um grande sorriso e ela, por ter de demonstrar tristeza teatral, sorriu levemente. Nos seguintes convívios, Mendonça fazia de tudo para distrair Helena, conversando alegremente com ela nos raros momentos em que ficavam sós. Na presença de seu Salvador e dona Úrsula, trocavam olhares cúmplices e sorrisos comprometedores. Nas chegadas e despedidas, discretas carícias manuais.

O namorico foi longo, mas o namoro durou pouco tempo. Começou depois do noivado.

Calma, amigos, explico! No aniversário de 21 anos, o Basílio Mendonça, que já foi “tio Memê” sem nunca ter sido tio e priminho sem ser primo, deu-lhe um anel de pérola e subitamente surpreendeu a todos com um pedido de casamento.

Leninha lacrimejou de felicidade, o choro foi acompanhado pela mãe, que molhou um lenço inteiro. O severo pai manifestou seu desagrado por eles estarem namorando às escondidas, mas aceitou o pedido sob uma condição: teriam de morar na fazenda Barras Três, exigência prontamente aceita.

Eu disse que o namoro foi curto, e foi. Deram logo entrada nos papéis.

Quem não gostou nadinha do casório foi o Josuel. Passou a dormir sozinho, e ainda tinha de dividir as atenções da mãe com o padrasto.

O ciúme aumentou quando nasceu um irmãozinho, paparicadíssimo por todos.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Paulo Sabino lê um trecho do livro Barras, vilas & amores, de Martinho da Vila.)

 

Josuel passou uns anos na Guiana, foi nomeado para a Costa do Marfim e, após três anos, foi transferido para Benim, onde não havia embaixada. Como no Togo e em Gana, a diplomacia era de responsabilidade de um único embaixador, cuja sede ficava em Lagos, na Nigéria.

De todas as cidades onde esteve, a de que mais gostou foi Cotonou, no Benim, antigo Reino de Daomé, que tem uma história incrível. Portugal dominou o país por longo período e de lá foram enviados para o Brasil, mais especificamente para Bahia e Maranhão, um número incomensurável de escravos. Muitos deles, bem como alguns alforriados, conseguiram retornar para sua terra a partir das revoltas antiescravagistas. Formaram uma comunidade de brasileiros na cidade de Ouidah, onde havia um museu da escravatura e muita gente falava português.

A França colonizou o país até 1975. Depois de libertado com a ajuda soviética, o país adotou o nome de República Popular do Benim.

Entretanto, não é por sua história que o cônsul Josuel gosta muito daquele país de comunistas e candomblecistas. É que lá ele conheceu Teresi Aláfia, uma preta descendente da extinta nobreza, pela qual se enamorou. A jovem ficou grávida, e ele recebeu a notícia da gravidez via telefone, quase ao mesmo tempo em que foi informado por ofício que seria reconduzido ao Brasil.

Que situação! O que dizer ao pai da jovem que nem conhecia?

(…)

O casamento foi realizado na ampla residência da noiva, com muitos convidados.

A cerimônia, baseada no cristianismo, ocasião em que todos os presentes envergavam trajes africanos coloridos, tornava o ambiente alegre e emocionante. Tudo muito bonito. Os nubentes, lindos de azul em dois tons, únicos a usar tais cores, penetraram juntos na sala ao som de marimbas e outros instrumentos sonoros, sob aplausos.

Quando o padre, com seus paramentos brancos, os declarou marido e mulher, atabaques estrategicamente colocados nos cantos da sala retumbaram e todos dançaram. Que beleza, imaginem!
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Elisa Lucinda lê um trecho do livro Barras, vilas & amores, de Martinho da Vila.)

 

Desde o primário, sempre foi aluno aplicado, aplicadíssimo mesmo. Sua vida infantil e adolescente sempre foi dedicada aos livros e aos cadernos escolares. Tanto é que não chegou a curtir namoricos infantis como seus colegas, e era queridíssimo das professoras, quase todas jovens e belas, pelas quais seus amiguinhos se trancavam a sós nos banheiros. À boca pequena diziam que ele era afeminado.

No prédio onde morava havia uma bela garota, daquelas que aos 11 anos já sentem os calores vaginais, se masturbam e orgasmam. Chamava-se Iana Smith. Por volta dos 12 já tinha beijado muitos meninos, e com 13 seu corpo já havia sido visitado por mãos de afoitos rapazolas em lascívias pelos cantos do condomínio, que tem lugares muito propícios. No início dos 14 virou mulher, das boas. Mulher boa é a que gosta de transar, que se entrega por gosto.

Filha de sul-africanos de origem holandesa, daqueles que não se misturam, era carioquíssima, porém não muito típica fisicamente. Sem o perfil das cariocas, da gema ou não, atraía os olhares de todos na praia da Barra por sua brancura e trejeitos. Seus cabelos muito louros pareciam fios de ouro, e os olhos de profundo azul ornamentavam seu belo rosto de semblante meigo. De estatura mediana, não tinha a “preferência nacional” chamativa, e a “comissão de frente” não era de grande escola do grupo especial, mas também não era das pequenas do segundo grupo. Entretanto, era muito sexy, sabia que era, gostava de ser paquerada, usava bem sua chamativa sexualidade.

O rapaz que transformou Iana em mulher logo foi dispensado a favor de outro, então chorou muito no colo da mãe, que passou a odiá-la. Este outro se apaixonou perdidamente e, substituído, lacrimejou também. O mesmo aconteceu com não sei quantos, até que ela, intrigada porque Benino não a assediava, pensou em conquistá-lo.

(…)

Os namoros da lourinha eram pouco duradouros, efêmeros. O tempo maior foi o do seu namorico com uma professora sua, mas também não durou muito. Abandonada, a mestra sofreu bastante. Mandou-lhe flores na tentativa de reatar, mas não a sensibilizou.

Surpreendentemente o caso de Iana Smith com Daomé Benino vingou.

A loura dilaceradora de corações foi flechada por Cupido, o Deus do Amor, ou melhor, foi atingida por um anjo e ficou caída por ele.

(…)

Benino já havia sido festejado pelos pais com a boa notícia da nomeação. A mãe já tinha aberto um sorriso com todos os seus dentes de marfim com o par de mãos ao alto, mirando o teto e vendo um céu de olhos fechados, dando graças a Deus, cena ocorrida antes do entendimento com a apaixonada Iana.

Depois fez a comunicação do pedido de casamento, à mesa do jantar, já com postura de diplomata:

— Meus queridos, vocês são os melhores pais do mundo. Nunca nos falamos, mas vocês sabem que eu namoro a vizinha do último andar. Pretendo me casar e levá-la comigo para o Uruguai.

Pai Josuel não se manifestou. Mãe Teresi contraiu a face, franzindo a testa:

— Não simpatizo nem um pouquinho com ela. Sinceramente não aprovo esta sua atitude. Casamento é coisa séria. Dá um conselho a ele, marido!

— Mulher, ele não pediu nossa opinião, está nos comunicando sua decisão. Apesar disso, tenho que dizer que não acredito que a união vai dar certo. Pense bem, filho.

— Tá. Vou pensar.

O pai dele não acreditava que Iana seria uma boa esposa por ter a fama de namoradeira volúvel, mas nada mais falou. A mãe sabia, mas calculava que o nome da moça era uma homenagem a Ian Smith, líder da antiga Rodésia, hoje Zimbábue, adepto do apartheid. Achava que os pais dela deveriam ser racistas, mas silenciou. Nada mais falaram no jantar.

Sabedores da desaprovação mútua, a solução foi o casal pegar sorrateiramente suas certidões de nascimento, dar entrada nos papéis, casar às escondidas e comunicar às famílias que iam morar no Uruguai. Planejado e feito.

Receberam as passagens para Montevidéu como se fora um presente de casamento para viver uma lua de mel.

OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (4ª EDIÇÃO) — VÍDEOS: MARIA CEIÇA, ZEZÉ MOTTA & FLÁVIA OLIVEIRA
26 de maio de 2016

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(Maria Ceiça)

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(Zezé Motta)

Ocupação Poética_4 edição_34

(Flávia Oliveira)
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Aos interessados, 3 vídeos da 4ª edição do projeto “Ocupação Poética”, ocorrido no dia 3 de maio (terça-feira), no teatro Cândido Mendes (Ipanema – RJ), com a participação de um elenco estelar: Geraldo Carneiro, Maíra Freitas, Elisa Lucinda, Zezé Motta, Maria Ceiça, Dani Ornellas, Flávia Oliveira, Wagner Cinelli, Ju Colombo, Maria Gal & Tom Farias.

Nos vídeos desta publicação, leituras dos trechos do livro “Barras, vilas & amores”, do homenageado da noite, o sempre simpático cantor, compositor & escritor Martinho da Vila: no primeiro vídeo, gravado, montado, editado & produzido pelo querido músico, produtor & videomaker Felipe Fernandes (ficou lindo o vídeo, diferentemente dos demais que posto aqui, feitos com a câmera de um celular), a atriz Maria Ceiça lê um trecho do livro em homenagem à Barra da Tijuca, onde atualmente mora o Martinho & que ele chama de sua mais nova namorada; no segundo vídeo, a grande diva Zezé Motta lê um trecho do livro sobre as lutas pelo fim da escravidão/opressão sofrida pelos negros & as lutas pelo fim do racismo, cantando, inclusive, “O mestre-sala dos mares”, de Aldir Blanc & João Bosco; no terceiro vídeo, a jornalista Flávia Oliveira lê um trecho do livro sobre políticas brasileiras de inclusão social, trecho no qual a jornalista & colunista é citada.

Portanto, aos interessados, 3 assuntos que são caros ao Martinho da Vila: a sua nova namorada, a Barra da Tijuca; as lutas pelo fim da escravidão/opressão contra os negros & pelo fim do racismo; e as políticas de inclusão social do Brasil.

Mais vídeos chegarão!

Divirtam-se!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Maria Ceiça lê um trecho do livro Barras, vilas & amores, de Martinho da Vila.)

 

Ela é bonita, muito linda mesmo.
A primeira vez que a vi era ainda muito jovem, quase
virgem. Uma fruta verdinha em todos os sentidos.
Seu verde calmo se confundia com o azul de um imenso 
mar. Hoje está mais madura, imponente como uma
égua de competição.
Vista de cima, de asa delta, de monomotor, parapente…
É deslumbrante. Um avião.
Paquerei sem sonhar, pensando: “É muita areia para o meu caminhãozinho”.
A brisa da sorte, aquela que sopra sempre para o lado
dos poetas, me ventilou e tive a ventura de conhecê-la.
Devagarinho fui me achegando. Flertamos.
Descobri seus outros encantos, seus recantos…
Deixei-me levar nas suas águas e estamos namorando,
bem enamorados.
É certo que vou me apaixonar porque ela é bela, segura,
dominante.
Não é Duas Barras, mas é calma. Não tem vila como a
Vila, mas é tranquila.
Não tem muvuca, tem point. É a Barra da Tijuca.

 

A Barra, como é conhecida popularmente, é um bairro nobre localizado na zona oeste da cidade do Rio de Janeiro. Seus moradores pertencem a uma classe privilegiada. É um bairro considerado centro gastronômico  e de entretenimento da capital, e muitas pessoas de outros bairros cariocas, em especial da zona sul, têm migrado para lá. A Barra possui uma das maiores favelas do Rio de Janeiro, a Rocinha, e é também reconhecida como uma área com alto índice de desenvolvimento humano (IDH), por abrigar população de classe alta e emergente. Possui também a praia mais extensa do Rio de Janeiro, com 18 km de belas areias com águas limpas. Fica ali a lagoa de Marapendi, transformada em Área de Proteção Ambiental a Reserva Biológica.

Um dos pontos mais pitorescos da Barra da Tijuca é a ilha da Gigoia, uma ilhota desconhecida pela maioria dos cariocas, habitada por gente simples. Sem ruas nem carros, todo o percurso é feito por vielas, e é possível cruzá-la em uma caminhada de cerca de meia hora. O acesso à ilha é feito por barcos e pequenas balsas.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Zezé Motta lê um trecho do livro Barras, vilas & amores, de Martinho da Vila.)

 

Adib tinha total razão, queridos leitores, quando disse ao “afilhado” Josuel que a transferência da capital para o Planalto Central, um plano antigo, foi um erro. Nos anos 1950 a aviação de combate e defesa já era primordial, e o perigo passou a ser dos ares. Seria justificável no tempo do Brasil Imperial, quando havia guerras de conquista e os invasores chegavam pelo mar.

A ideia da transferência ganhou força em 1910, ano em que o marinheiro João Cândido tomou a armada brasileira e ameaçou bombardear a cidade em protesto contra o açoite a marinheiros negros no pós-abolição. O episódio, conhecido como a revolta da Chibata, que eu prefiro chamar de revolta da Armada, sempre foi assunto proibido, mas o combativo jornalista e escritor Edmar Morel escreveu, em 1959, um livro sobre o fato que também serviu de inspiração para um antológico samba de João Bosco e Aldir Blanc, poeticamente composto com o subterfúgio da linguagem figurada para driblar a censura:

 

Há muito tempo nas águas
Da Guanabara
O dragão no mar reapareceu
Na figura de um bravo
Feiticeiro
A quem a história
Não esqueceu
Conhecido como
Navegante negro
Tinha a dignidade de um
Mestre-sala
E ao acenar pelo mar
Na alegria das regatas
Foi saudado no porto
Pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por
Batalhões de mulatas
Rubras cascatas jorravam
Das costas
Dos santos entre cantos
E chibatas
Inundando o coração
Do pessoal do porão
Que a exemplo do feiticeiro
Gritava então
Glória aos piratas, às
mulatas, às sereias
Glória à farofa, à cachaça
Às baleias
Glórias a todas as lutas
Inglórias
Que através da
Nossa história
Não esquecemos jamais
Salve o navegante negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais

 

O almirante João Cândido é símbolo das lutas dos militantes do Movimento Negro, iniciado com Ganga Zumba, fundador do Quilombo dos Palmares que acolhia escravos fugitivos perseguidos pelos capitães do mato. Zumbi, o Guerreiro da Liberdade, substituiu Ganga Zumba na chefia do quilombo e o expandiu, recrutando mulheres e brancos injustiçados para intensificar as incursões a fazendas para libertar escravos.

O Quilombo dos Palmares era praticamente um estado independente na serra da Barriga, entre Pernambuco e Alagoas. Os quilombolas de Palmares viviam basicamente da agricultura de subsistência, da pesca e da caça. Plantavam milho, banana, feijão, mandioca, laranja e cana-de-açúcar. Faziam também artesanato com cerâmica, tecido, palha… Tinha uma organização política semelhante aos reinos africanos, ou seja, poder centralizado nas mãos de um líder.

Segundo os dicionários, zumbis são almas penadas que vagueiam à noite, causando arrepios e, na minha concepção, a definição é devida ao medo que os fazendeiros escravagistas tinham de Zumbi dos Palmares, líder que na calada da noite invadia propriedades e arregimentava cativos.

No Rio de Janeiro e em alguns outros municípios, 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, ou Dia de Zumbi, é feriado.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Flávia Oliveira lê um trecho do livro Barras, vilas & amores, de Martinho da Vila.)

 

Uma importante fase da luta foi a agressão verbal, cujo ícone Abdias Nascimento representou. Doutor em economia, escritor, jornalista, artista plástico, ator, diretor teatral e dramaturgo, Abdias foi o primeiro negro a assumir uma cadeira no Senado, onde causava constrangimento ao acusar a República brasileira de discriminatória, porque nas fotos de posses dos governantes não se veem negros.

Tinha total razão o combatente Abdias. Hoje mesmo — escrevo no primeiro dia do ano de 2015 — saiu nos jornais a foto dos ministros do governo da presidente Dilma, e não vi nenhum preto.

A jornalista Flávia Oliveira escreveu em sua coluna de O Globo, na edição de 4 de janeiro, uma crônica intitulada “Mal na foto”, que em certo trecho declara:

Difícil acreditar que não existam no país um engenheiro negro de pensamento ortodoxo, currículo assemelhado ao de Joaquim Levy, para conduzir a Fazenda pelos caminhos do tripé macroeconômico que Dilma abraçou no discurso de posse. Ou que não haja uma brasileira doutora em economia por universidade americana, como Alexandre Tombini, para assumir o Banco Central. Ou uma médica capacitada em gestão e planejamento para, como Arthur Chioro, comandar o ministério da Saúde. Certamente, o Brasil tem gays, negros e mulheres formados em direito, com mandato na Câmara Municipal, cargo executivo em empresa pública e experiência em assessoria parlamentar para estar à frente dos Transportes, cargo de Antônio Carlos Rodrigues.

(…)

Querido leitor ou leitora!

Se você é contra as ações afirmativas para a inclusão social, como sistema de cotas raciais, aqui vai um dado para pensar. O jornal O Dia de 26 de abril de 2015, no caderno Economia, na Coluna do Servidor, de Alessandra Horto com Hélio de Almeida, foi publicada a matéria “União tem apenas 4% de negros em seus quadros”. E informa que “pouquíssimos estão no Poder Executivo e que, mesmo com curso superior, a maioria dos negros ainda está em funções de nível auxiliar”. O argumento tópico tem mais detalhes e foi baseado no Censo Demográfico de 2010, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (4ª EDIÇÃO) — VÍDEOS: DANI ORNELLAS, MAÍRA FREITAS & WAGNER CINELLI
17 de maio de 2016

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(Dani Ornellas)

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(Maíra Freitas)

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(Wagner Cinelli)
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Aos interessados, 5 vídeos da 4ª edição do projeto “Ocupação Poética”, ocorrido no dia 3 de maio (terça-feira), no teatro Cândido Mendes (Ipanema – RJ), com a participação de um elenco estelar: Geraldo Carneiro, Maíra Freitas, Elisa Lucinda, Zezé Motta, Maria Ceiça, Dani Ornellas, Flávia Oliveira, Wagner Cinelli, Ju Colombo, Maria Gal & Tom Farias.

Nos vídeos desta publicação, leituras dos trechos do livro “Barras, vilas & amores”, do homenageado da noite, o querido & simpático cantor, compositor & escritor Martinho da Vila: nos 2 primeiros vídeos, apresento a atriz Dani Ornellas, que lê um trecho do livro em homenagem a Duas Barras, cidade natal do Martinho; nos 2 vídeos seguintes, a pianista, cantora & compositora Maíra Freitas canta “Alô Noel”, poema-canção de Cláudio Jorge, e lê um trecho do livro em homenagem a Vila Isabel; e no quinto & último vídeo, o desembargador, músico & compositor Wagner Cinelli lê um trecho do livro em homenagem ao primeiro grande poeta da Vila Isabel, Noel Rosa, além de contar histórias divertidíssimas da sua família, que esteve próxima do Noel.

Portanto, aos interessados, 3 assuntos que são grandes paixões na vida do Martinho da Vila: a sua cidade natal, Duas Barras; o bairro de Vila Isabel; e o primeiro grande poeta da Vila, Noel Rosa.

Mais vídeos chegarão!

Divirtam-se!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Paulo Sabino apresenta a atriz Dani OrnellasDani Ornellas lê um trecho do livro Barras, vilas & amores, de Martinho da Vila.)

 

 

A vida dos bibarrenses, qualitativo de quem é de Duas Barras, anda sempre calma como as águas dos rios limítrofes, Rezende e Negro. O tranquilo município da região serrana do Rio de Janeiro tem como bons vizinhos Cordeiro, Cantagalo, Bom Jardim, Nova Friburgo, Carmo e Sumidouro. É a terra de Josuel Wermelingerthal Ferreira, bairrista de quatro costados, como gostava de se definir orgulhosamente.

Eu não sabia, mas descobri que “quatro costados” é uma expressão portuguesa referente à legitimidade, e concluí que pode dizer que é de quatro costados qualquer pessoa que tem orgulho do que é. Assim se sentem os meus conterrâneos de todos os cantos, de Monnerat, segundo distrito, onde fui registrado, à Fazenda do Campo; de Holofote à Vargem Grande; da Rancharia à Fazenda das Flores; do lugarejo da Queda do Tadeu ao da Cachoeira Alta.

(…)

Gostava muito de acompanhar procissões. As que mais apreciava eram as que tinham a participação da banda de música, como as da Ressurreição de Jesus e a de Nossa Senhora da Conceição.

A marcha religiosa mais bonita era a da Ressurreição, que transitava por todas as ruas da cidade. Nas janelas, os moradores estendiam toalhas e outros panos coloridos. Caminhavam até a casa do secretário de Cultura, que tinha um quintal vasto, e ali era rezada uma missa campal com cânticos alegres.

Aqui vale um insight: são fundamentais em pequenas cidades um padre carismático e um secretário de Cultura atuante e festeiro. O prefeito deve ser franco, cordial e se fazer presente em tudo. Dos batizados aos casamentos, dos nascimentos aos velórios. E o delegado tem de ser sorridente e cordial.

Em noite de plenilúnio, daquelas em que o clarão do encantador corpo celeste provoca sombra nos corpos terráqueos, o interessante espaço do mirante Vale Encantado, há poucos quilômetros do centro bibarrense, estava lotado. Zaguinha, arrendatário da lanchonete, de violão em punho entoava serestas, sem uso do microfone. Todos paravam de conversar para ouvi-lo interpretar “Noite cheia de estrelas”, de Cândido das Neves, e muitos o acompanhavam:

 

Noite alta, céu risonho/ A quietude é quase um sonho
O luar cai sobre a mata/ Qual uma chuva de prata/
De raríssimo esplendor
Só tu dormes, não escutas/ O teu cantor
Revelando à lua airosa/ A história dolorosa desse amor
Lua…

Manda a tua luz prateada/ Despertar a minha amada
Quero matar meus desejos/ Sufocá-los com os meus beijos
Canto…
E a mulher que eu amo tanto/ Não me escuta, está
dormindo
Canto e por fim/ Nem a lua tem pena de mim
Pois ao ver que quem te chama sou eu
Entre a neblina se escondeu
Lá no alto a lua esquiva/ Está no céu tão pensativa
As estrelas tão serenas/ Qual dilúvio de falenas/
Andam tontas ao luar
Todo o astral ficou silente/ Para escutar
O teu nome entre as endechas
E as dolorosas queixas/ Ao luar
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Maíra Freitas canta Alô Noel, de Cláudio Jorge. Maíra Freitas lê um trecho do livro Barras, vilas & amores, de Martinho da Vila.)

 

 

Alô Noel
Eu vou cantando o meu samba
E fazendo na vida o meu melhor papel
Bem feliz eu sonho
Ter uma vida tranquila
E morar numa vila
Em Vila Isabel

Pode ser em qualquer rua
Ou na praça Barão de Drummond
E até mesmo num barraco
Naquele macaco do meu coração
Na Teodoro da Silva
Lá nas Torres Homem ou na Souza Franco

Mas a Vinte e Oito é que é o biscoito
Pra ir pro Maraca caminhando a pé
Desfilar de azul e branco
E beber na Visconde de Abaeté

 

Morar no Rio foi uma realização pessoal. Encantado pela cidade, apaixonou-se por Vila Isabel. Gostava de história e foi logo se informar sobre a Barão de Drummond, que deu nome à antiga praça Sete.

É a principal praça do bairro, cujo nome foi dado em homenagem à data da instalação do gabinete do primeiro-ministro visconde do Rio Branco (7 de março de 1871), responsável pela elaboração da Lei do Ventre Livre, a qual determinava a libertação dos nascidos de mães escravas. Emocionou-se ao saber que o boulevard Vinte e Oito de Setembro foi assim denominado em homenagem à data em que foi assinada a Lei do Ventre Livre pela regente princesa Isabel, em 1871. Boulevard origina-se do francês e significa um tipo de via de trânsito, geralmente larga, com muitas pistas, ou dividida em dois sentidos. É nesse logradouro que fica a quadra da Unidos de Vila Isabel, onde assistiu a muitos ensaios, conquistou amizades… Fez muitos amigos na vila onde foi residir, na rua Teodoro da Silva, assim batizada em homenagem a Antonio Teodoro da Silva, que assinou a Lei Áurea com a princesa Isabel.
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(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [4ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 03/05/2016. Wagner Cinelli lê um trecho do livro Barras, vilas & amores, de Martinho da Vila.)

 

Violão ele aprendeu inicialmente com um irmão que dominava categoricamente o instrumento. Estudou também com os métodos de violão publicados nos jornais de modinha. Frequentava os saraus caseiros de Vila Isabel e ouvia com curiosa atenção os músicos que acompanhavam os seresteiros. Pode-se dizer que era um músico de ouvido. Como solista fazia uns acordes difíceis, que parecem errados, mas não são. Noel foi um autodidata e tornou-se um excelente violonista acompanhador. Participou de vários grupos musicais, inclusive o importante Bando de Tangarás, formado por Braguinha, Alvinho, Henrique Brito e Almirante. Tinha muito ritmo, tirava diferentes acordes. Por isso os grandes artistas da época gostavam de serem acompanhados por ele. Era o preferido do Francisco Alves, o mais famoso.

Ele também fez sucesso como cantor. Não era dotado de uma grande voz, mas tinha muito suingue. Participava de shows com os grandes cantores, inclusive fez dupla com Chico Alves, “O Rei da Voz”. O sucesso dele nos palcos não era pela voz, mas pelos trejeitos, pela atração pessoal e pelo repertório que apresentava, composto exclusivamente por composições próprias. As mais apreciadas pelo público eram as bem-humoradas, como “Conversa de botequim”, que cantava quase declamando, como se estivesse conversando com um garçom:

 

Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada
Um pão bem quente com manteiga à beça
Um guardanapo e um copo d’água bem gelada
Feche a porta da direita com muito cuidado
Que eu não estou disposto a ficar exposto ao sol
Vá perguntar ao seu freguês do lado
Qual foi o resultado do futebol

Se você ficar limpando a mesa
Não me levanto nem pago a despesa
Vá pedir ao seu patrão
Uma caneta, um tinteiro
Um envelope e um cartão
Não se esqueça de me dar palitos
E um cigarro pra espantar mosquitos
Vá dizer ao charuteiro
Que me empreste umas revistas
Um isqueiro e um cinzeiro

Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada
Um pão bem quente com manteiga à beça
Um guardanapo e um copo d’água bem gelada
Feche a porta da direita com muito cuidado
Que eu não estou disposto a ficar exposto ao sol
Vá perguntar ao seu freguês do lado
Qual foi o resultado do futebol

Telefone ao menos uma vez
Para três, quatro, quatro, três, três, três
E ordene ao seu Osório
Que me mande um guarda-chuva
Aqui pro nosso escritório
Seu garçom, me empresta algum dinheiro
Que eu deixei o meu com o bicheiro
Vá dizer ao seu gerente
Que pendure esta despesa
No cabide ali em frente