JOÃO CABRAL DE MELO NETO: RAZÃO & EMOÇÃO UNAS, INDISSOCIÁVEIS
16 de agosto de 2016

João Cabral de Melo Neto

(O poeta)

Pedra do Frade

(A pedra)

Estrada Real_Diamantina (MG)

(O sertão)
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João Cabral de Melo Neto é um poeta que, em geral, todo poeta gostaria de ser (pelo menos um pouquinho). (Falo por muitos, eu sei.)

Sua poética é enxuta, econômica, e seu português, elegante, com mira certeira ao construir suas imagens pela economia de palavras. Diz-se que, por isso, João Cabral é um poeta também enxuto, econômico, nas emoções; que João Cabral é um poeta apenas “cerebral”.

Eu, na minha humilde percepção, porém convicto, sempre discordei disso. Porque, de fato, João Cabral é um poeta cerebral; “cerebral” no sentido de ter cada palavra milimetricamente pensada & posta no poema. Entretanto, atrelado ao seu trabalho cerebral, o de pensar — pelo recurso da economia — cada palavra milimetricamente posta no poema, vai no verso o que o emociona profundamente no mundo — vide o seu acervo temário.

João Cabral é um homem/poeta de profundezas, que olhou o seu povo de morte & vida severina, lamentou pelo rio de sua terra & infância, o seu Capiberibe, apaixonou-se por Sevilha & suas bailadoras, e admirou a poesia de Joaquim Cardozo, Augusto de Campos, Sophia de Mello Breyner Andresen, W. H. Auden, Marianne Moore, Elizabeth Bishop, Marly de Oliveira, Alexandre O’Neill, Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, entre outros.

Portanto, ao meu ver, o que é cerebral, na obra cabralina, é a formulação técnica da poesia; e o que é posto em verso com “precisão cirúrgica” (com a técnica) é banhado por seu olhar emocionado diante das coisas.

É assim que vejo, sinto, percebo, a obra do João Cabral. É este o João Cabral que me alucina, que me emociona.

Principalmente a segunda parte do poema abaixo, que é das coisas mais lindas do mundo, me serve de exemplo para ilustrar o escrito acima.

Um dos modos de educar-se pela pedra: (nascendo, vivendo) no Sertão: o Sertão & sua paisagem dura, seca, árida, agreste, econômica, muda, paisagem sertaneja que, por dura, seca, árida, agreste, econômica, muda, molda os sertanejos à pedra. No Sertão, a educação pela pedra é de dentro pra fora, isto é, do SERtanejo para o seu hábitat, a educação pela pedra é pré-didática, isto é, a educação pela pedra não é ensinada pela pedra: lá no sertão, a pedra, uma pedra de nascença, entranha na alma.

Como não se emocionar com essa percepção do poeta acerca do Sertão & suas gentes? Como negar o olhar emocionado, aliado ao rigor estilístico, de quem enxerga desta maneira?

João Cabral de Melo Neto é muito cerebral & também emoção sublimada.

E tenho dito.

Beijo todos!
Paulo Sabino.
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(do livro: A educação pela pedra e depois. autor: João Cabral de Melo Neto. editora: Nova Fronteira.)

 

 

A EDUCAÇÃO PELA PEDRA

 

Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, frequentá-la;
captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu adensar-se compacta:
lições da pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la.

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Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse, não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.

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“HOMECOMING”
19 de novembro de 2015

Rio de Janeiro_Vista do avião

(A cidade do Rio de Janeiro, vista do alto de um avião.)
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“Paulo, meu caro.

Às vezes, depois de passar 2, 3 noites acordado, procurando em vão uma solução melhor, uma maldita palavrinha que seja, para um poema, para uma tradução, eu cedo ao desânimo e penso aqui com meus botões: ‘Cara, por que perder tempo com isso, pra que o esforço extra, aliás, qualquer esforço? Ninguém vai notar a diferença mesmo. Ninguém tá nem aí.’

E aí você, Paulo, vem com seu trabalho, com sua leitura precisa, perspicaz, com algo assim, pra lá de generoso, e, embora eu mesmo não possa (nenhum de nós pode) julgar o (meu) próprio trabalho, a única resposta que posso te dar e a única maneira que tenho de te agradecer é dando (mais) duro, não desanimando, não deixando a peteca cair, passando mais noites em claro atrás daquela palavra (porque alguém nota, sim, a diferença) e tentando (com sorte) fazer algo que preste.

Todo mundo — eu também — quer vender 1 milhão de exemplares, encher um estádio com fãs boquiabertos(as) etc., mas o que mantém a gente escrevendo poesia é uma leitura, um feedback como este seu. Obrigado mesmo e um grande abraço, Nelson”.

(Nelson Ascher — poeta, tradutor & crítico literário)

 

 

homecoming: expressão da língua inglesa que pode ser entendida como “regresso à casa”, “retorno ao lar”.

estar em meu país depois de passar uma temporada longe.

estar em meu país é estar em convívio com uma série de características sócio-culturais que diz respeito ao meu país, às pessoas que nele vivem.

e, estando em meu país, por mais que eu consiga, com certa facilidade, identificar determinadas características sócio-culturais que compõem o meu país, que é a minha casa, o meu lar primeiro, há sempre algo que, nessa apreensão, nos escapa, acaba imensurável. há sempre algo para além da linguagem, de árdua captura & designação.

determinadas características sócio-culturais que compõem o meu país: estar em meu país é deduzir, num golpe de vista, quem é o quê (se gay ou se opus dei); estar em meu país é ser, desde o primário, desde os tempos remotos, íntimo de alguém antes de ser-lhe apresentado; estar em meu país é dizer quem faz o quê & o que faria caso pudesse (nas mais variadas situações cogitadas ou experiências do cotidiano); estar em meu país é intuir, sem dúvida, quem é quem, como ver quem quer passar por quem.

determinadas características sócio-culturais que compõem o meu país: estar em meu país é vivenciar pré-conceitos, julgamentos infundados, intimidades forçadas, percepções precipitadas, ainda que haja muitas vezes acerto na primeira impressão sobre alguém ou algo.

no entanto, estar em meu país tem “algo mais difícil” que o dom fácil de identificar algumas das suas características sócio-culturais (como as apontadas acima), e esse “algo mais difícil” de ser apreendido & classificado, rotulado, nomeado, é, simplesmente, estar em meu país, esse “algo mais difícil” é, simplesmente, o que não cabe em nenhuma definição do que seja estar em meu país — a única coisa que cabe onde não cabe definição para o meu país é a pura vivência, é habitar, conviver, desfrutar, aventurar-se, inserir-se na vida do meu país, no seu dia-a-dia & pormenores.

em tudo o que resta & rasteja, há sempre o quinhão do indefinível, do inclassificável, do imponderável, do que escapa à linguagem, do que está à mostra somente quando vivenciado sem racionalizações.

(que tenhamos, sempre, o dom fácil de frustrar qualquer estranho que pense saber tudo o que pensamos.)

beijo todos!
paulo sabino.
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(do site: Youtube. Paulo Sabino recita “Homecoming”, poema de Nelson Ascher. Em 18/11/2015.)


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(do livro: Parte alguma. autor: Nelson Ascher. editora: Companhia das Letras.)

 

 

HOMECOMING

 

Estar em meu país
é deduzir num golpe
de vista quem é o quê,
se gay ou se opus dei,

mas isto ainda é fácil,
algo exeqüível quer
nos parques, quer nos becos
de Osasco ou nos de Osaka.

Estar em meu país
é ser, desde o primário,
íntimo de alguém antes
de ser-lhe apresentado,

mas isto, num país
mais incestuoso até
do que a menor das tribos
perdidas, ainda é fácil.

Estar em meu país
é de antemão poder
dizer quem faz o quê
e o que faria caso

pudesse, mas às vezes
parece (e constatá-lo
é fácil) que não há
ninguém fazendo nada.

Estar em meu país
é tanto intuir sem dúvida
quem é quem como ver
quem quer passar por quem,

embora, a rigor, isto
talvez se deva à idade
e, após alguma prática,
nem chegue a ser difícil.

Estar em meu país,
mais que saber por que
qualquer estranho pensa
saber tudo o que penso,

tem algo mais difícil
que o dom fácil de sempre
frustrá-lo e é simplesmente
estar em meu país.

COISA EM SI
16 de maio de 2015

Ovo
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toda & qualquer coisa é composta de outras tantas coisas.

não existe “coisa em si”.

toda & qualquer coisa forma uma identidade. identidade que se forme, que se molde, que se construa, sem que tenda para alguma coisa, sem que sofra a influência de alguma coisa, sem que penda para algum lado, sem que dependa de alguma outra coisa, não existe.

tudo tende, pende, depende.

tudo, até as palavras: não há nenhuma palavra que exista “em si”, que exista sem que haja, nela, algo que também forme, também molde, também construa, outras palavras: tende / pende / depende.

palavra puxa palavra.

o mar, que molha a ilha, molha o continente.

o ar que se respira traz o que recende, o que exala, o que se espalha. o ar que injetamos nos pulmões é o mesmo que, livre, toca o cheiro das coisas & o traz, de longe, até nós.

tudo é rente, é próximo, é contíguo. tudo é tangente, é tocável, é acessível. tudo é inerente, é dependente, é inseparável.

tudo é rente, tangente, inerente.

tudo, até as palavras: não há nenhuma palavra que exista “em si”, que exista sem que haja, nela, algo que também forme, também molde, também construa, outras palavras: rente / tangente / inerente.

palavra puxa palavra.

não existe coisa assim: isenta, sem ambiente, coisa partida do seu próprio pó, sem mistura, coisa sem sombra na parede, coisa sem margem ou afluente que a alcance, que a toque: as coisas existem & necessariamente, obrigatoriamente, estabelecem inter-relações: não há coração sem mente, não há paraíso sem serpente. não existiria som se não houvesse o silêncio. não haveria luz se não fosse a escuridão.

a vida é mesmo assim: dia & noite, não & sim.

“coisa em si” inexiste.

só existe o que se sente, só existe o que é percebido através dos sentidos. uma coisa, mesmo que exista, se não for sentida por nós, isto é, se não for percebida por nós, essa coisa não existe para nós. para que exista para nós, portanto, as coisas precisam, as coisas dependem, as coisas necessitam, as coisas carecem, existir, antes, para os nossos sentidos.

tudo tende, pende, depende. tudo é rente, tangente, inerente.

não existe “coisa em si”.

a miscigenação, a mistura, a mesclagem, a influência, a tendência, a confluência, sempre foi & sempre será o caminho de toda & qualquer coisa.

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: ET  Eu  Tu. poemas: Arnaldo Antunes. fotos: Marcia Xavier. editora: Cosac & Naify.)

 

 

coisa em si
não existe

tudo tende
pende
depende

o mar que molha
a ilha molha
o continente

o ar que se
respira traz
o que recende

coisa em si
não existe

tudo é rente
tangente
inerente

pedra
assemelha
semente

sol nascente:
sol poente

coisa em si
não existe

mesmo que
aparente

coisa em si
coisa só
partida do seu
próprio pó

sem sombra
sobre
a parede

sem mar
gem
ou afluente

não existe
coisa assim

isenta
sem ambiente

não há coração
sem mente

paraíso
sem serpente

coisa em si
inexiste

só existe
o que se
sente

NOVÍSSIMO ORFEU
11 de novembro de 2014

Orpheus (1894)_Károly Ferenczy (Húngaro)

(Na foto, o quadro Orpheus, 1894, do pintor húngaro Károly Ferenczy.)
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 para Murilo, novíssimo Orfeu, que chegará ao mundo em dezembro

 

 

(do: Dicionário da mitologia grega e romana. autor: Pierre Grimal. editora: Bertrand Brasil.)

 

 

ORFEU. Orfeu é unanimemente reconhecido como filho de Eagro (v. Eagro). As tradições divergem no que respeita ao nome da mãe: passa, mais vulgarmente, por filho de Calíope, que detém a mais alta dignidade entre as Musas; mas por vezes, em vez desta é referida Menipe, filha de Tâmiris. Orfeu é de origem trácia. Como as Musas, habita perto do Olimpo, onde é geralmente representado, cantando, vestido com os trajos dos Trácios. Os mitógrafos fazem dele o rei desta região: dos Bístones, dos Odrísios e dos Macedónios, etc. Orfeu é o Cantor por excelência, o músico e o poeta. Toca lira e “cítara”, instrumento cuja invenção lhe é atribuída. Quando esta honra lhe é negada, admite-se que foi ele que aumentou o número de cordas do instrumento, que não seriam inicialmente mais do que sete e passaram a ser nove, “tantas quanto as Musas”. Seja como for, Orfeu sabia cantar melodias tão suaves que até as feras o seguiam, as árvores e as plantas se inclinavam na sua direcção e os homens mais rudes se acalmavam.

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novíssimo orfeu:

vou onde a poesia me chama, vou onde a poesia me clama.

o amor é minha biografia, o amor é minha história de vida, texto de argila & fogo.

o amor: texto de argila & fogo: de argila, pois, segundo a mitologia cristã, o homem veio do barro, veio da terra, e para a terra retornará, e é na terra que o homem constitui a sua história, a sua biografia; de fogo, elemento que existe a partir da combustão de um corpo, que desprende luz & calor, corpo que arde, que queima, que aquece, que ilumina.

aves contemporâneas, pássaros dos dias atuais, largam do meu peito, alçando vôos & levando recado aos homens, meus irmãos na terra: o amor é dos sentimentos o mais nobre; belezas nasceram para serem complementares & não excludentes; apesar dos pesares, a vida vale o sorriso & o brilho no olhar.

o mundo alegórico se esvai, o mundo repleto de simbolismo & elementos figurados se dissipa, o mundo recheado de mitologias desfalece, o uso da razão & a ciência derrubam as alegorias mundanas & as crenças fantásticas, fica esta substância de luta, real, permanece esta matéria de batalha que travamos por uma existência mais frutífera, menos tacanha, de onde a eternidade se descortina, de onde o tempo se revela.

a estrela azul familiar vira as costas, foi-se embora…

(estrela azul: estrela de luminosidade intensa, de temperatura altíssima, com massa que pode ser até 18 vezes maior que a massa solar, associada, a sua aparição no céu, a épocas de bonança, a momentos de prosperidade, a tempos de mansuetude.)

a estrela azul conhecida, familiar, disse adeus…

mesmo assim, mesmo sem a estrela azul familiar no céu, ainda que esta não mais aponte épocas de bonança, momentos de prosperidade, tempos de mansuetude, a poesia, musa maior na vida, sopra onde quer.

apesar dos pesares, apesar da substância de luta de onde se descortina a eternidade, de onde a realidade se revela, a poesia sopra o seu vento lírico, a poesia sopra o seu vento onírico, a poesia sopra o seu vento alegórico, a fim de que a vida vivida ganhe um brilho ainda mais vívido, ainda mais colorido, ainda mais definido.

salve o sopro sortido & sagaz da poesia!

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Antologia poética. autor: Murilo Mendes. editora: Cosac Naify.)

 

 

NOVÍSSIMO ORFEU

 

Vou onde a Poesia me chama.

O amor é minha biografia,
Texto de argila e fogo.

Aves contemporâneas
Largam do meu peito
Levando recado aos homens.

O mundo alegórico se esvai,
Fica esta substância de luta
De onde se descortina a eternidade.

A estrela azul familiar
Vira as costas, foi-se embora…
A poesia sopra onde quer.

PESSOANA
20 de agosto de 2014

Fernando Pessoa_Jovem

(Na foto, o poeta português Fernando Pessoa.)
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uma poesia, uma apresentação textual, “pessoana”, uma poesia, uma apresentação textual, à maneira de (fernando) pessoa:

quando não sei o que sinto, quando não compreendo o que sinto, quando não consigo apreender um sentimento através da razão, sei que o que sinto é (exatamente) o que sou: só o que não meço não minto.

em mim, só o que não consigo medir, só aquilo que não consigo conter, que não consigo calcular, mensurar, analisar, definir, é o que sou exatamente: pois tudo o que consigo medir, tudo o que consigo conter, que consigo calcular, mensurar, analisar, definir, não é o que eu sou mas a interpretação que faço do que sou, através da razão. sendo o que meço, o que controlo, o que calculo, o que mensuro, o que analiso, o que defino, uma interpretação do que sou & não o que eu sou exatamente, a interpretação que alcanço de mim é já, em si, uma inverdade, uma falsidade, uma mentira:

porque passível de muitos erros. porque toda & qualquer interpretação de toda & qualquer coisa nunca será a “coisa em si”.

a interpretação de um sentimento nunca será exatamente o que o sentimento é.

sem a interpretação, sem o entendimento do sentimento, resta apenas o sentimento em si: sem interpretação, não minto: somente sinto.

mas tão logo identifico, tão logo decodifico, tão logo reconheço, o “não-lugar” onde estou, tão logo identifico, decodifico, reconheço, o tipo de desencontro em que me encontro, decido que ali não fico, decido não mais me encontrar em “determinado” desencontro, pois onde me delimito, pois onde me “determino”, já não sou mais o que sou (só o que não meço, não controlo, não calculo, não mensuro, não analiso, não defino — eu não minto) mas tão-somente me imito.

de ponto a ponto, de lugar a lugar por onde vou, sem planejar, traçando os meus passos ao sabor da simples vontade de caminhar, rabisco o mapa de onde não vou, pois só vou por trilhas que desconheço a rota, só vou por trilhas que não sei onde vão dar, só sigo o mapa que silencia o caminho da mina & do tesouro, ligando de risco em risco, isto é, ligando de perigo em perigo, e também ligando de linha em linha (de versos, de prosa), meus equívocos favoritos (o caminhar a esmo, naturalmente, propõe diversos tipos de perigos, diversos tipos de riscos, de equívocos, de erros, que, com o tempo, acumulo em riscos, acumulo em linhas poéticas, acumulo em linhas de prosa), até que tudo que sou é um acúmulo de escritos, de textos por onde me enxergam os senhores, penetrável labirinto em cujo centro não estou (os textos que escrevo não são exatamente o que eu, paulo sabino, sou) mas apenas me pressinto, apenas me percebo, apenas me desconfio, mero signo, mero fenômeno que representa algo diferente de si mesmo: um simples mito.

e, como todos, eu minto meu mito.

(quando não sei o que sinto, sei que o que sinto é o que sou exatamente, pois não há os erros de avaliações, não há os erros de projeções.)

(e a vida, o caminhar, é pura errância, porque a vida é pura interpretação, a vida é pura linguagem, a vida é pura simbologia…)

(só o que não meço, não controlo, não calculo, não mensuro, não analiso, não defino — eu não minto.)

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Trovar claro. autor: Paulo Henriques Britto. editora: Companhia das Letras.)

 

 

PESSOANA

 

Quando não sei o que sinto
sei que o que sinto é o que sou.
Só o que não meço não minto.

Mas tão logo identifico
o não-lugar onde estou
decido que ali não fico,

pois onde me delimito
já não sou mais o que sou
mas tão-somente me imito.

De ponto a ponto rabisco
o mapa de onde não vou,
ligando de risco em risco

meus equívocos favoritos,
até que tudo que sou
é um acúmulo de escritos,

penetrável labirinto
em cujo centro não estou
mas apenas me pressinto

mero signo, simples mito.

LUZ DO SOL, LUZ DA RAZÃO
4 de setembro de 2013

Luz do sol

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(para o Otto, meu anjo da guarda, que, hoje, completa os seus 7 anos)

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luz do sol, que a folha traga & traduz: a folha traga a luz solar & a traduz em verde novo (a renovação do seu verde, de tempos em tempos), em graça, em vida, em força (o fortalecimento do ser através da luz que é tragada & traduzida em verde novo), em luz (a quem sabe mirar & ad-mirar, robusta, sadia, vigorosa, a beleza natural).

por isso, e mais, tu, sol, é que me alegras. a mim & ao mundo, pois sou eu, paulo sabino, parte integrante da vida mundana.

encaro-te de frente, sol, e, embora tua luz me cegue, ergo meus olhos acima & recebo-a a flux, isto é, recebo a tua luz em grande quantidade.

sonhar é para a noite: quando se está a dormir, sem consciência de si & do entorno: sonhar é como morrer.

sonhar é para a noite: mas para o dia, ver!

sim, ver com ambos os olhos, com ambos devassar os astros & os deuses sobre o altar em que residem, com ambos os olhos devassar, ver onde firmamos os pés & erguemos nossas mãos.

e quer nos montes altos, quer nos terrenos chãos, a terra é sempre amiga se, à luz da aurora, à luz do alvorecer, a terra se erguer.

pois, à luz da aurora, à luz do alvorecer, conseguimos bem ver em que tipo de terreno pisamos — se perigoso porque movediço, ou se seguro porque sólido.

e quer nos montes altos, quer nos terrenos chãos, é sempre bom viver se, ao amor, a vida se erguer.

pois, à luz do amor, à luz de sentimento tão nobre, a vida entrega-se pródiga, a vida permite-se longânime, a vida propõe-se elevada & inventiva.

em toda a parte, as ondas desse mar, infinito no horizonte, por mais que andemos longe, nos podem embalar se tivermos o mar conosco, dentro de nós.

em toda a parte, o peito sente brotar a flux, sente brotar em profusão, e sempre & de maneira farta, a vida…

vida: calor & luz!

nos seixos dessas praias, se o sol lá lhes bater, num átomo de areia, deus pode aparecer: deus pode erguer-se à luz solar: pois se considerarmos real a existência de deus e, a partir da sua existência, a sua presença em todas as coisas (como dizem os que nele crêem), então deus é flores & árvores & mares & rios & céus & bichos & gentes. se assim o é, então intitulemo-lo flores & árvores & mares & rios & céus & bichos & gentes.

desprezos para a terra, como se ela fosse menos que o paraíso oferecido nas alturas?! também a terra é céu! afinal, para quem nele crê, deus está em tudo que há no mundo, deus está nas coisas terrenas (nas flores nas árvores nos mares nos rios nos céus nos bichos nas gentes); e a terra que pisamos, em verdade, está suspensa no espaço sideral, a terra é um componente estelar se avistada de fora (se observada da lua, por exemplo).

a terra mora no céu.

e quem, lá desse espaço infinito denominado sideral, vir a terra brilhar ao longe, dirá que é paraíso & um éden a sorrir.

(o melhor lugar do mundo é aqui & agora. os momentos felizes não estão escondidos nem no passado & nem no futuro.)

há quem propale que este mundo é ruim, nocivo, porque não moramos junto às estrelas no céu; não morando junto às estrelas, para alguns, vivemos “embaixo”.

mas a terra, que é nossa morada, esta habita o céu! portanto: o que é exatamente “embaixo”? e, ainda que consideremos morar “embaixo”, que tem estar “embaixo”, qual seria o problema de morar “embaixo” de alguma coisa?

ninguém nos condenou à eterna noite, ninguém nos condenou à eterna escuridão, ninguém nos condenou à eterna sombra, ninguém!

a luz solar tudo alcança!

não! não há “céu” & “inferno”: divino é quanto é! divino é o existir!

para que a rocha brilhe, basta que o sol lhe dê a sua luz. basta que o sol beije a lua para que ela, apagada nas alturas, se transforme em sol também.

e a escuridão da nossa alma, as trevas que nos povoam, a nossa cerração, como se desbarata, como se dissipa, como se afasta, com a aurora da razão!

a razão crítica pesa & pondera. a razão crítica se informa & estuda. é a razão crítica que nos faz ser o lobo do lobo do homem. é a razão crítica que nos impede de terminar ovelhas no bolso de um pastor.

e se a razão, surgindo, esclareceu, clareou, a nossa alma, também tu, sol, no espaço, surges como razão do céu azul que avistamos na festa das retinas.

por isso é que me alegras o coração, ó luz!

por isso vos estimo, luzes maiores da minha existência: tu, sol, e tu, razão!

(luz, quero luz! mais, quero mais! nem que todos os barcos recolham ao cais, que os faróis da costeira me lancem sinais! arranca, vida! estufa, vela! me leva, leva longe, longe, leva mais!)

beijo todos!
paulo sabino.
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(do livro: Antologia. autor: Antero de Quental. organização: José Lino Grünewald. editora: Nova Fronteira.)
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LUZ DO SOL, LUZ DA RAZÃO

 

Tu, sol, é que me alegras!
A mim e ao mundo. A mim…
Que eu não sou mais que o mundo,
Nem mais que o céu sem fim…

Nem fecho os olhos baços
Só porque os fere a luz…
Ergo-os acima — e embora
Cegue, recebo-a a flux!

Crepúsculos são sonhos…
E sonhos é morrer…
Sonhar é para a noite:
Mas para o dia, ver!

Sim, ver com os olhos ambos,
Com ambos devassar
Os astros n’essa altura,
E os deuses sobre o altar!

Ver onde os pés firmamos,
E erguemos nossas mãos!
E quer nos montes altos,
Quer nos terrenos chãos,

É sempre amiga a terra
E é sempre bom viver,
Se a terra à luz da aurora
E a vida ao amor se erguer!

Em toda a parte as ondas
D’esse infinito mar,
Por mais que andemos longe,
Nos podem embalar!

Em toda a parte o peito
Sente brotar a flux,
E sempre e à farta, a vida…
Vida — calor e luz!

Nos seixos d’essas praias,
Se o sol lá lhes bater,
N’um átomo de areia,
Deus pode aparecer!

Bate-lhe o sol de chapa,
E um deus se vê também
No pó, tornado um astro
Como esses que o céu tem!

Desprezos para a terra?!
Também a terra é céu!
Também no céu a impele
O amor que a suspendeu…

E quem lá d’esse espaço
Brilhar ao longe a vir
Dirá que é paraíso
E um éden a sorrir!

Embaixo! o que é embaixo?
Embaixo estar que tem?
Ninguém à eterna sombra
Nos condenou! ninguém!

Se até nos surdos antros,
Nas covas dos chacais,
Penetra o sol, vestindo-os
Com raios triunfais

Se ao céu até se viram
As bocas dos vulcões…
E têm os próprios cegos
Um céu… nos corações!

Não! não há céu e inferno:
Divino é quanto é!
Para que a rocha brilhe,
Basta que o sol lhe dê…

Basta que o sol lhe beije
As chagas que ela tem,
E a morta d’essa altura,
A lua, é sol também!

E as trevas da nossa alma,
A nossa cerração,
Oh! como se desbarata
A aurora da razão!

Mas se a razão, surgindo,
Nossa alma esclareceu,
Também tu, sol, no espaço
Surges, razão do céu…

Por isso é que me alegras,
Ó luz, o coração!
Por isso vos estimo…
Tu, sol, e tu, razão!

(1865.)