OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (6ª EDIÇÃO) — VÍDEOS: MARIA REZENDE & ELISA LUCINDA
15 de setembro de 2016

(Todas as fotos: Elena Moccagatta.)

dsc_0674-30

dsc_0678-1

(As poetas Maria Rezende & Elisa Lucinda)

dsc_0684-32

dsc_0691-34

(A poeta Maria Rezende)

dsc_0898-55

dsc_0911-57

(A grande homenageada da noite — a poeta & atriz Elisa Lucinda)
______________________________________________________

Aos interessados, 3 vídeos da 6ª edição do projeto “Ocupação Poética”, ocorrido no dia 2 de agosto (terça-feira), no teatro Cândido Mendes (Ipanema – RJ), com a participação estelar de: Elisa Lucinda, Moraes Moreira & Maria Rezende.

Nos vídeos desta publicação, a grande homenageada da noite, a poeta & atriz Elisa Lucinda, lê um trecho do seu mais recente livro — e o primeiro romance — intitulado “Fernando Pessoa, o Cavaleiro de Nada”, finalista do prêmio São Paulo de Literatura 2015, com a poeta Maria Rezende; depois, separadamente, tanto a Maria quanto a Elisa lêem trechos do livro escolhidos por ambas.

Mais vídeos chegarão!

Divirtam-se!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
______________________________________________________

(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [6ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 02/08/2016. Elisa Lucinda & Maria Rezende lêem um trecho do livro Fernando Pessoa, o Cavaleiro de Nada, de Elisa Lucinda.)

 

(trecho do livro: Fernando Pessoa, o Cavaleiro de Nada. autora:Elisa Lucinda. editora: Record.)

 

A noite chegou. Tive a impressão de que a tarde passara e que a minha mãe nem soubera de minha febre. (…) O tempo corria denso, e em meu coração o amor por ela subitamente pareceu ter dobrado de tamanho. Cavaleiro de Nada apareceu no quarto.

(…)

— Tu deverias falar com ela.
— Mas falar o quê?
— Que não queres ficar aqui. Que não podes viver longe dela, que preferirias a morte por febre ou tuberculose como o teu pai e o Jorge, teu pequenino irmão. Vai funcionar, bobo! Ela não suportaria mais essa dor, ainda que fosse em favor do seu casamento. Nenhuma grinalda vale isso.
— E se ela realmente leva-me com ela? Tu irás comigo, Cavaleiro de Nada?

(…)

— Sou teu, meu amigo, a ti pertenço mais do que aquela bola com o desenho de um cão verde, mais do que todos os teus brinquedos. Irei contigo aonde me levares. Agora vai lá. Ela ainda está ao piano. Apura-te.

Abracei com força o meu querido amigo. (…) O piano de minha mãe fazia com que, subitamente, tudo retornasse ao seu lugar de paz. (…) Com o indicador de um menino de 5 aninhos, toquei levemente as costas da minha querida Magdalena. Ela sorriu-me de volta e beijou a ponta do meu dedinho, demorada e carinhosamente. Depois me abraçou:

— Que queres, meu príncipe pequeno? Sabias que está perto de aprenderes o português escrito? Está já a chegar a hora.
— Sim, minha mamã.
— E na escola, percebes? Com os teus colegas da mesma idade, com uniforme e tudo! Vais ficar mais lindo ainda! A escola é um lugar cheio de amigos novos que falam a mesma língua que a gente e que, juntos, aspiram a crescer amando a pátria, o país. Isto tudo é para depois seres um português legítimo, forte e corajoso para a nação e para o mundo. Tu não queres ser esse homem? Hã, meu menino?

Fiquei em silêncio por um tempo no seu colo, minhas costas coladas ao peito dela, a escutar o suspeito batimento do seu coração. Ai, ai… Sabia o fundamento daquele novelo de palavras, percebia-lhe o casco, farejava o rastro das suas intenções, ainda que a doçura encobrisse a cena, aquelas eram palavras de deixar-me. Em meu pensamento, percorri Cavaleiro de Nada: Socorro! Amigo meu, o que é que eu faço? Pois que faça um poema para ela, disse-me ele. Qual? (…) Ele soprou-me ao ouvido, ditando-me as palavras.

(…)

— Acho que fiz uma quadra, posso declamá-la agora, mamã?
— Claro, meu querido, estou aqui e sou tua plateia.

Dito isso, ela saiu do banco do piano disposta a acomodar-se no sofá azul-escuro que acompanhava a família desde que eu me entendia por gente (…). Pus os bracinhos para trás e disparei estes versinhos como se fossem um só buquê oferecido a ela. Embora aparentemente inocente, hoje sei, era um desesperado buquê: À minha querida Mamã: Eis-me aqui em Portugal, nas terras onde nasci. Por muito que goste delas ainda gosto mais de ti. Minha mãe deu-se a chorar como uma criança à minha frente naquele dia. (…) Depois, demorou-se com seus olhos fundos dentro dos meus, como a pedir perdão. “Que linda quadra, meu bem, meu pequeno poeta. Pois está decidido. Tu vens com a mamã, meu amor. Vamos para a África com a mamã e faremos dentro de nossa casa lá a nossa língua, o nosso Portugal. Se te ensinei o francês aqui, ora pois, quem, que circunstância, por desconhecida que seja, ousaria impedir-me de ensinar-te a escrever a nossa língua-mãe? Hein, meu pequeno lusíada?” E passou a fazer-me cócegas, a brincar materna e humana com a sua cria.
_____________________________________________________

(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [6ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 02/08/2016. No 1º vídeo, a poeta Maria Rezende apresenta ao público o trecho que lerá do livro Fernando Pessoa, o Cavaleiro de Nada, de Elisa Lucinda. No 2º vídeo, Elisa Lucinda & Maria Rezende lêem, cada uma, um trecho do livro Fernando Pessoa, o Cavaleiro de Nada, de Elisa Lucinda.)

 

 

(trecho do livro: Fernando Pessoa, o Cavaleiro de Nada. autora:Elisa Lucinda. editora: Record.)

 

(…) Cada um deixa aqui sua história no mais minúsculo dos atos. Quem é Noronha? Li uma vez num jornal americano que um explorador casual, que por ousadia se aventurou por uma garganta intransitável das Montanhas Allegheny, ficou surpreendido com o aparecimento numa parte lisa de um rochedo escuro, de umas breves palavras gravadas. Era impossível que alguém lá antes estivesse estado. O viajante era de raça inglesa, e, como tal, não falava outra língua senão a sua. Desconheceu por isso a língua em que a inscrição estava feita. Copiou-a porém, esperando sem dúvida ter descoberto o indício de qualquer povo primitivo, misterioso e estranho. Porém quando, regressado à planície e à povoação, mostrou a inscrição que copiara, alguém houve que a lesse logo. A inscrição, afinal, era em português; era simples: ESTEVE AQUI O NORONHA. O Noronha não seguiu a rotina, porque a rotina não conduzia a paragens desconhecidas. O Noronha não buscou celebridade, porque então teria deixado ao menos o nome próprio também, para sabermos qual dos numerosos Noronhas é que tinha passado por ali. O Noronha é o exemplo supremo da iniciativa, que tem por prêmio só a mesma iniciativa. Aquela frase simples que o inglês não pôde traduzir dizia, na verdade, aqui esteve o inédito, o Noronha. Por isso, cuida-te. Ama o que fazes e faça-o com tudo o que tens. Qualquer que seja o teu trabalho, põe individualidade nele, esforça-te por lhe pores qualquer coisa de único, de diferente, de teu. Há aventuras até no fazer embrulhos. Há campo para criação até na redação de faturas. Lembra-te do Noronha. Ninguém podia passar pelas gargantas das Allegheny. Foi lá ter o Noronha. Eras capaz de ir lá ter? Sê ao menos capaz de ir ter a um novo modo de redigir cartas, de dobrar circulares, de colar selos. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes. Assim em cada lago a lua toda brilha, porque alta vive. Sê original em qualquer coisa. Vive. Sê gente… Não te deixes ser igual aos outros como se tivesse nascido carneiro. Não faças isso para brilhar. O Noronha não quis brilhar, pois nem sequer disse bem quem era. Faz isso para te sentires homem. Ele deixou o bilhete da visita e é de supor, retornou, se não morreu lá. Mas, seja como for, fez aquilo só porque ninguém o tinha feito. Tanto basta para justificar uma vida. Tudo é encontrar qualquer coisa. Mesmo perder é achar o estado de ter essa coisa perdida. Nada se perde, só se encontra qualquer coisa. Sentir é buscar.
______________________________________________________

(trecho do livro: Fernando Pessoa, o Cavaleiro de Nada. autora:Elisa Lucinda. editora: Record.)

 

Estou pela rua, agora já vindo do Abel. Daquele jeito. Passam rapidamente os anos. Rapidamente passa a vida e não há nisso novidade. Não vem com a tarde oportunidade nenhuma. Quando fiz 38 anos, vi que estava sempre mais próximo de nunca ter realizado coisa alguma na vida, e ainda pensei: Que bom, a realização envelhece-nos. Tudo tem o seu preço; o preço da realização é a perda da juventude. Não me casei e por isso mantive-me livre tanto dos prazeres especiais como dos cuidados próprios dessa espécie de parceria; e o bem e o mal desse estado são igualmente envelhecedores. Nunca fiz um esforço real atrás de coisa alguma, nem apliquei fortemente a minha atenção exceto a coisas fúteis, desnecessárias e ficcionais. Sinto-me jovem porque tenho vivido desta maneira. Dirá o senhor que não prestei qualquer serviço à humanidade. Mas prestei a muitas pessoas o serviço de não estar no seu caminho. Não competi com as ambições de nenhum homem, nem me pus no caminho da grandeza natural de nenhum tolo. Ah, tudo isso é bastante literário, pois sou sempre bastante literário — já que é esta a inclinação certa de um espírito que não tem inclinações. Aqui, neste misérrimo desterro onde nem desterrado estou, habito, fiel, sem que queira, àquele antigo erro pelo qual sou proscrito. O erro de querer ser igual a alguém feliz. Estou a sentir que passo pela rua no horário em que os maridos voltam do trabalho, entram em suas casas, jantam com os seus filhos. Ao passar aqui fora, ouço todos os sons da cena familiar por dentro. Por um momento sou parte daquilo:

— Papai, um dia você me leva às touradas espanholas? Leva, não leva, papai?

(Silêncio)

— Ó Fernando, onde estás com a cabeça? Sou tua mulher. Não estás a ver-me aqui? Não escutas o que teu filho está a pedir-te?
— Não te deixes incomodar com eles, papai, compre um vestido novo para mim porque sábado haverá baile e o meu vestido, o senhor sabe, eu quero que seja o mais bonito. Estás a ouvir-me, meu papá?

(Silêncio)

— Fernando, não escutas a tua filha? Já é uma rapariga linda, e tu nem percebes?
— Ah, seu Fernando, para aproveitar a oportunidade que o senhor está aqui, eu estava a precisar de um aumento, porque o que eu ganho cá não está a compensar, não. Melhor voltar para Trás-dos-Montes, largar Lisboa para trás.

(Silêncio)

— Fernando, tu estás doido, surdo, em estado de choque ou o quê? A Alvina, nossa empregada, está a esperar a tua resposta, aliás como estamos todos!

Felizmente, minha imaginação foi quem me conduziu àquela mesa portuguesa, onde não bebi a açorda nem gostei do que vi. E foi a mesma imaginação que de lá me tirou, graças a Deus! Que maçada, aquele homem, aqueles filhos, aqueles assuntos, aquela família! Não. Não nasci para marido, definitivamente. A pessoa tem que ter vocação para aquilo. A pessoa do Pessoa não tem. Quem escreveria por mim, enquanto eu estivesse a jantar com aquela tribo vestida? Sigo meus próprios passos no breu da rua. Tudo que me cerca é feito de enormes silêncios. Ora, ora, meu verdadeiro clã é feito de palavras, sou o pai delas. É certo que tenho palavras grandes, desenvolvidas, independentes já, mas ainda há aquelas palavras pequenas, eu tenho palavras de colo ainda, palavrinhas. E, se não sou eu, quem há de garantir-lhes o leite? Vivo entre próclises e mesóclises a fazer bacanais indescritíveis e inconfessáveis. E, como sou português, o cardume de ênclises não sai da minha cama! Agora, casado verdadeiramente com uma figura de linguagem: uma Metonímia, uma Hipérbole, uma Metáfora, quem sabe? Também há desconfianças de que andou pela minha casa um tal de Substantivo, sendo que o Adjetivo, este sim não sai de lá. Sou um escravo do Adjetivo. Mas não é nada disso. Não houve nada, são as más línguas. Essa é que é minha gente.

Anúncios

OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (6ª EDIÇÃO) — VÍDEO: PAULO SABINO & ELISA LUCINDA
29 de agosto de 2016

(Todas as fotos: Elena Moccagatta.)

DSC_0546-10

DSC_0561-17

DSC_0578-20

(O coordenador do projeto — Paulo Sabino — & a homenageada da noite — Elisa Lucinda.)
______________________________________________________

Aos interessados, vídeo da 6ª edição do projeto “Ocupação Poética”, ocorrido no dia 2 de agosto (terça-feira), no teatro Cândido Mendes (Ipanema – RJ), com a participação estelar de: Elisa Lucinda, Moraes Moreira & Maria Rezende.

No vídeo desta publicação, um bate-papo com a homenageada da noite, a poeta & atriz Elisa Lucinda, que fala sobre o convite para fazer o seu mais recente livro — e o primeiro romance — intitulado “Fernando Pessoa, o Cavaleiro de Nada”, finalista do prêmio São Paulo de Literatura 2015, sobre a construção da narrativa, sobre o seu contato com o escritor & poeta moçambicano Mia Couto, responsável pelo prefácio do livro, e conta casos divertidos que permeiam a sua vivência com a obra. Ao final, a poeta & atriz recita “Mar português”, poema do grande homenageado da noite, o poeta português Fernando Pessoa.

Mais vídeos chegarão!

Divirtam-se!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
______________________________________________________

(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [6ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 02/08/2016. Bate-papo com Elisa Lucinda & Paulo Sabino a respeito do livro Fernando Pessoa, o Cavaleiro de Nada, de Elisa Lucinda. Elisa Lucinda recita Mar português, poema de Fernando Pessoa.)

 

MAR PORTUGUÊS  (Fernando Pessoa)

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (6ª EDIÇÃO) — FOTOS & VÍDEO DE ABERTURA: PAULO SABINO
11 de agosto de 2016

IMG_3980-1

(Instante antes do início — Foto: Felipe Fernandes)

IMG_3988-3

(Paulo Sabino — Foto: Felipe Fernandes)

DSC_0504-5

(Foto: Elena Moccagatta)

DSC_0514-6

(Foto: Elena Moccagatta)

Paulo Sabino 6ª Ocupação Poética

(Foto: Taís Campos)

DSC_0551-12

(A homenageada: Elisa Lucinda — Foto: Elena Moccagatta)

DSC_0751-36

(Foto: Elena Moccagatta)

DSC_0911-57

(Foto: Elena Moccagatta)

DSC_0892-54

(Foto: Elena Moccagatta)

IMG_4059-37

(Foto: Felipe Fernandes)

DSC_0650-26

(Maria Rezende — Foto: Elena Moccagatta)

IMG_4028-22

(Foto: Felipe Fernandes)

DSC_0772-40

(Moraes Moreira — Foto: Elena Moccagatta)

DSC_0795-44

(Foto: Elena Moccagatta)

DSC_0674-30

(Maria Rezende & Elisa Lucinda — Foto: Elena Moccagatta)

DSC_0678-1

(Foto: Elena Moccagatta)

DSC_0768-38

(Moraes Moreira & Elisa Lucinda — Foto: Elena Moccagatta)

IMG_4039-24

(Foto: Felipe Fernandes)

WP_20160802_22_23_48_Pro

(Paulo Sabino & Maria Rezende — Foto: Rafael Roesler Millon)

WP_20160802_22_24_04_Pro

(Foto: Rafael Roesler Millon)

DSC_0980-1

(Moraes Moreira & Paulo Sabino — Foto: Elena Moccagatta)

WP_20160802_22_23_25_Pro

(Foto: Rafael Roesler Millon)

IMG_3998-8

(O coordenador do projeto — Paulo Sabino — & a homenageada da noite — Elisa Lucinda — Foto: Felipe Fernandes)

DSC_0544-8

(Foto: Elena Moccagatta)

Paulo Sabino & Elisa Lucinda 6ª Ocupação Poética

(Foto: Singoala Luz)

DSC_0554-14

(Foto: Elena Moccagatta)

DSC_0547-11

(Foto: Elena Moccagatta)

DSC_0557-15

(Foto: Elena Moccagatta)

IMG_4013-14

(Foto: Felipe Fernandes)

DSC_0565-18

(Foto: Elena Moccagatta)

DSC_0969-1

(Foto: Elena Moccagatta)

WP_20160802_22_22_31_Pro

(Foto: Rafael Roesler Millon)

DSC_0964-1

(O quarteto fantástico: Elisa Lucinda, Moraes Moreira, Paulo Sabino & Maria Rezende — Foto: Elena Moccagatta)

DSC_0961-1

(Foto: Elena Moccagatta)
____________________________________________________________________

“Meu pretinho, muito obrigada, você é muito querido, espontâneo, foi uma noite mágica. Quero fazer outra o ano que vem, ou quando você puder e quiser, com a obra poética minha. Meu beijo imenso, Paulo, muito obrigada mesmo.”

(Elisa Lucinda)

 

Mensagens de espectadores da 6ª edição do projeto Ocupação Poética:

“Muito bom, ver o trabalho de Elisa Lucinda é sempre transformador, e os convidados Moraes Moreira e Maria Rezende tb colaboraram para florear o ambiente. Parabéns Paulo Sabino”.

“Foi uma noite maravilhosa meu lindo amigo, sou sua fã de seu projeto de carteirinha. Gratidão!”

“Misturar o talento e a luz de Elisa Lucinda com a genialidade de Fernando Pessoa não poderia resultar em nada menos que MARAVILHOSO!”

“Foi demais! Vou devorar o livro nas férias.”

 

 

Só me chegaram registros lindos da 6ª edição do projeto Ocupação Poética, que coordeno no teatro Cândido Mendes de Ipanema, que teve, como homenageada, no dia 2 de agosto (terça-feira), a atriz & poeta & minha diva Elisa Lucinda, que, por sua vez, homenageou o poeta Fernando Pessoa, e as participações para lá de especiais da poeta Maria Rezende & do cantor, músico & compositor Moraes Moreira.

Uma noite linda, descontraída, e cheia de conteúdo.

Todos muito felizes. As fotos traduzem a beleza & a descontração que conseguimos imprimir na apresentação.

Como base das leituras, o mais recente livro — e o primeiro romance — da Elisa Lucinda, intitulado “Fernando Pessoa, o Cavaleiro de Nada”, finalista do prêmio São Paulo de Literatura 2015.

No vídeo desta publicação, a apresentação do projeto, o poema de Carlos Drummond de Andrade em homenagem a Pessoa & o trecho do livro da Elisa escolhido por mim para a minha leitura.

Ao que tudo indica, pela mensagem da Elisa postada acima, teremos a atriz & poeta uma segunda vez no projeto. Elisa já me contou que tem livro inédito de poesia chegando na área; então a idéia é fazermos uma edição focada no seu mais recente livro de poemas! Oba!

Elisa Lucinda merece repeteco! Eu quero Elisa Lucinda mais uma vez na Ocupação Poética!

Agradecer imensamente aos participantes, Maria Rezende & Moraes Moreira, que só fizeram abrilhantar a noite ainda mais!

Mais vídeos desta edição serão publicados! É só aguardar!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
____________________________________________________________________

(do site: Youtube. projeto: Ocupação Poética [6ª edição] — Teatro Cândido Mendes. local: Rio de Janeiro. data: 02/08/2016. Paulo Sabino apresenta o projeto Ocupação Poética, recita As identidades do poeta, poema de Carlos Drummond de Andrade, e lê um trecho do livro Fernando Pessoa, o Cavaleiro de Nada, de Elisa Lucinda.)

 

AS IDENTIDADES DO POETA  (Carlos Drummond de Andrade)

De manhã pergunto:
Com quem se parece Fernando Pessoa?
Com seus múltiplos eus, expostos, oblíquos
em véu de garoa?
Com tripulantes-máscaras de esquiva canoa?
Com elfo imergente
em frígida lagoa?
Com a garra, a juba, o pelo amaciado
de velha leoa?

Quem radiografa, quem esclarece
Fernando Pessoa,
feixe de contrastes, união de chispas,
aluvião de lajes
figurando catedral ausente de cardeais,
com duendes oficiando absconso ritual
vedado a profanos?

Que sina, frustrado destino, foi a coroa
desse Pessoa,
morto redivivo, presentifuturo
no céu de Lisboa?

Que levava (leva) no bolso
Fernando Reis de Campos Caeiro Pessoa:
irônico bilhete de identidade,
identity card
válido por cinco anos ou pela eternidade?

Que leva na alma:
augúrios de sibila,
Portugal a entristecer,
a desastrosa máquina do universo?

Fernando Pessoa caminha sozinho
pelas ruas da Baixa,
pela rotina do escritório
mercantil hostil
ou vai, dialogante, em companhia
de tantos si-mesmos
que mal pressentimos
na seca solitude
de seu sobretudo?

Afinal, quem é quem, na maranha
de fingimento que mal finge
e vai tecendo com fios de astúcia
personas mil na vaga estrutura
de um frágil Pessoa?

Quem apareceu, desapareceu na proa
de nave-canção
e confunde nosso pensar-sentir
com desconforto de ave poesca
e doçura de flauta de Pã?

À noite divido-me:
anseio saber,
prefiro ignorar
esse enigma chamado Fernando Pessoa.
____________________________________________________________________

(trecho do livro: Fernando Pessoa, o Cavaleiro de Nada. autora: Elisa Lucinda. editora: Record.)

 

Abro a janela por onde vejo minha gênese: para revelar que mais tarde eu poderia vir a ser o mais popular, o mais conhecido poeta de língua portuguesa do mundo, nasci numa tarde nítida de fim de primavera quando o sol confirmava três horas e vinte minutos no meio do signo de gêmeos daquela brilhosa hora, no quarto andar esquerdo do número quatro do largo de São Carlos, em frente ao Teatro de Ópera do mesmo bairro. Quem ler o meu mapa astral logo interpretará com facilidade o meu destino mais do que eu fui capaz de fazê-lo. Um mês e uma semana depois houve batizado daquele bebê reluzente ao colo da satisfeita madrinha, tia Anica, na basílica dos Mártires, lá no Chiado. Maria Magdalena Pinheiro Nogueira Pessoa, a minha mãe e primeiro amor de minha vida, minha verdadeira pátria, a quem amei mais do que a minha própria pátria, e o meu pai, Joaquim Seabra Pessoa, funcionário público do Ministério da Justiça durante o dia e crítico musical do Diário de Notícias à noite, encontraram-se. O amor dos dois deu-me este nome porque nasci em 13 de junho, dia de Santo Antônio e também dia de Lisboa. Logo ele que, por batismo, era Fernando de Bulhões, o nome verdadeiro do santo de quem a minha família se afirmava parente mesmo, genealogicamente falando, e do qual reclamava consanguinidade. Pois bem, este homem recebeu, dentro da ordem franciscana, o pseudônimo de Antônio. Assim resultou em mim como Fernando Antônio Nogueira Pessoa, cujo duplo nome havia de gerar várias pessoas, outros eus meus, criados por mim com nome e obra próprios, mas isto é assunto para depois, é outro capítulo. Prefiro que nos detenhamos por agora nesta casa que fica entre uma igreja e um teatro lírico. As cenas de devoção e óperas, eu primeiro as ouvi para depois vê-las. Isto é, depois já de tê-las criado automaticamente em minha imaginação. Êh, êh, êh, êh, minha imaginação, aquela que dá facilmente partida, desde aí, ao pé de fortes impressões sonoras! Veja em que deu tamanha alegórica vizinhança: De um lado, ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia, e cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça. Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso, e as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro. Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidraça e sente-se o chiar da água no fato de haver coro. A missa é um automóvel que passa. Súbito vento sacode em esplendor maior a festa da catedral e o ruído da chuva absorve tudo até só se ouvir a voz do padre água perder-se ao longe, com o som das rodas do automóvel, e apagam-se as luzes da igreja na chuva que cessa. E tudo isto tilintando num coraçãozinho destes como é o meu.

Do outro lado, todo o teatro é meu quintal, a minha infância: o maestro sacode a batuta, aquele dia em que eu brincava ao pé dum muro de quintal, atirando-lhe com uma bola que tinha dum lado o deslizar dum cão verde, ora um cavalo azul com um jóquei amarelo. O teatro é o meu quintal, está em todos os lugares, e a bola vem a tocar a música. Tão rápida gira a bola entre mim e os músicos. O muro do quintal é feito de gestos de batuta. Todo o teatro é um muro branco de música por onde um cão verde corre atrás de minha saudade da minha infância. (…) O maestro agradece, pousando a batuta em cima da fuga dum muro, e curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça, bola branca que lhe desaparece pelas costas abaixo. Prossegue a música, e eis a minha infância.

OCUPAÇÃO POÉTICA — TEATRO CÂNDIDO MENDES (6ª EDIÇÃO) — O TIME COMPLETO
31 de julho de 2016

(Aqui, o elenco completo da 6ª edição do projeto “Ocupação Poética”, coordenado por este que vos escreve.)

Elisa Lucinda

(Elisa Lucinda)

pessoa_entrada1

(Fernando Pessoa)

Moraes Moreira

(Moraes Moreira)

Dani Ornellas_Amarelo Manga

(Dani Ornellas)

Miguel Falabella

(Miguel Falabella)

Maria Rezende

(Maria Rezende)

Geovana Pires & Elisa Lucinda

(Geovana Pires & Elisa Lucinda)

Flyer 6ª Edição

(Divulgação da 6ª edição do projeto Ocupação Poética)
____________________________________________________________________

Anotem na agenda, espalhem a notícia, compartilhem esta publicação!

Dia 02 DE AGOSTO (terça-feira), às 20H: a 6ª edição do projeto OCUPAÇÃO POÉTICA, coordenado por ESTE QUE VOS ESCREVE, no teatro CÂNDIDO MENDES (Ipanema – Rio de Janeiro), com leituras baseadas no primeiro romance da poeta, dramaturga, atriz & cantora ELISA LUCINDA, intitulado “FERNANDO PESSOA, O CAVALEIRO DE NADA”.

A poeta é a primeira mulher (e espero, MESMO!, que Elisa abra alas a outras tantas) a integrar este projeto.

Na noite, prestaremos uma homenagem ao maior poeta da língua portuguesa, FERNANDO PESSOA.

Além da participação da poeta homenageada & da participação deste que vos escreve, o evento contará também com as participações para lá de ESPECIAIS:

— do cantor & compositor MORAES MOREIRA;
— da atriz DANI ORNELLAS;
— do ator & diretor MIGUEL FALABELLA;
— da poeta MARIA REZENDE;
— da atriz & dramaturga GEOVANA PIRES;

 

02 DE AGOSTO (terça-feira), às 20H, no teatro CÂNDIDO MENDES (Ipanema – Rio de Janeiro): a 6ª edição do projeto OCUPAÇÃO POÉTICA.

Coordenação do projeto: PAULO SABINO.

Esperamos todos!

 

SERVIÇO

Ocupação Poética – Teatro Cândido Mendes

Coordenação: PAULO SABINO

Terça-feira (02/08)

Participantes: PAULO SABINO, ELISA LUCINDA, MORAES MOREIRA, DANI ORNELLAS, MIGUEL FALABELLA, MARIA REZENDE, GEOVANA PIRES

Horário: 20h
Entrada: R$ 40,00 (inteira) / R$ 20,00 (meia)
Vendas antecipadas na bilheteria do teatro
End.: Joana Angélica, 63 – Ipanema, Rio de Janeiro. Tel.: (21) 2523-3663.
____________________________________________________________________

(do livro: Fernando Pessoa, o Cavaleiro de Nada. autora: Elisa Lucinda. autor dos trechos selecionados: Fernando Pessoa. editora: Record.)

 

 

 

Sou um pobre recortador de paradoxos, mas possuo a qualidade de arranjar argumentos para defender todas as teorias, mesmo as mais absurdas, e é esta última a habilitação com que me recomendo. Por mim, o meu egoísmo é a superfície da minha dedicação. O meu espírito vive constantemente no estudo e no cuidado da verdade, e no escrúpulo de deixar, quando eu deixar a veste que me liga a este mundo, uma obra que sirva ao progresso e ao bem da humanidade.
 
 
Se eles [os heterônimos do poeta] escrevem coisas belas, essas coisas são belas, independentemente de quaisquer considerações metafísicas sobre os autores “reais” delas. Se, nas suas filosofias, dizem quaisquer verdades, essas coisas são verdadeiras independentemente da realidade de quem as disse. Tornando-me assim, pelo menos um louco que sonha alto, pelo mais, não um só escritor, mas toda uma literatura, quando não contribuísse para me divertir, o que para mim já era bastante, contribuo talvez para engrandecer o universo, porque quem, morrendo, deixa escrito um verso belo deixou mais ricos os céus e a terra e mais emotivamente misteriosa a razão de haver estrelas e gente.
 
 
Da mais alta janela da minha casa com um lenço branco digo adeus aos meus versos que partem para a Humanidade. E não estou alegre nem triste. Esse é o destino dos versos. Escrevi-os e devo mostrá-los a todos porque não posso fazer o contrário, como a flor não pode esconder a cor, nem o rio esconder que corre, nem a árvore esconder que dá fruto. Ei-los que vão já longe como que na diligência e eu sem querer sinto pena como uma dor no corpo. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Flor, colheu-me o meu destino para os olhos. Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas. Rio, o destino da minha água era não ficar em mim. Submeto-me e sinto-me quase alegre, quase alegre como quem se cansa de estar triste. Ide, ide de mim! Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza. Murcha a flor e o seu pó dura sempre. Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua. Passo e fico, como o Universo.

AGRADECIMENTOS: 10ª EDIÇÃO DO SARAU DO LARGO DAS NEVES
24 de dezembro de 2015

Paulo Sabino_Sarau Lgo das Neves_Dezembro 2015 1

Largo das Neves_Igreja

Largo das Neves_Música Sarau Dez 2015
______________________________________________________

“Parabéns pelo conjunto de incansáveis e qualificadas atividades em prol da poesia!”

(Antonio Carlos Secchin — poeta, tradutor, crítico literário & membro da Academia Brasileira de Letras — ABL)

 

 

 

Queridos,

Como descrever as minhas vivências, como definir o encerramento, neste 2015, do sarau do Largo das Neves, que coordeno & organizo com uma turma linda de amigos, no bairro de Santa Teresa (Rio de Janeiro), como agradecer devidamente toda a beleza da noite do evento, ocorrido em 22 de dezembro?…

Começo pela belíssima luz do fim do dia? ou pela dindinha lua, soberana no céu? ou pela quantidade de pessoas comemorando & celebrando a vida com poesia?

Eu realmente não sei… O que sei é que depois de ouvir tanta coisa linda sobre a importância do sarau na vida de algumas várias pessoas, a certeza de que devemos continuar aportou no meu coração, no meu sentimento, de maneira contundente.

Praça lotada, muita gente dizendo poesias lindas lindamente, a generosidade dos mestres do “tambor de crioula” (sim, também teve tambor de crioula!) que pediram a continuidade do sarau por mais tempo, a felicidade estampada nos sorrisos que recebi de cada participante da grande farra literária, o fechamento com o super grupo musical — formado por amigos — que tomou conta do largo fazendo da praça um grande salão de dança ao fim de tudo.

Eu, hoje, sou amor da cabeça aos pés.

Bem-vindos sempre, pessoas queridas, amigos pruma vida inteira, muitíssimo obrigado por fazerem da minha vida algo maior, por ter vocês & a poesia tão presentes.

Presente maior da vida!

Janeiro do ano que chega tem mais!

2015 contente para a poesia!

(Este ano, o “Prosa Em Poema” já alcançou a marca das mais de 103 mil — 103.000 — visualizações!)

O Sarau do Largo das Neves voltará em 2016 com a corda toda, é só aguardar!

No embalo desta alegria que me habita, aproveito para desejar, a todos que festejam, belas noites de festejos.

A minha mensagem aos senhores: mesmo o mundo sendo um grande bocejo, um grande tédio, de tanto que o homem já pesquisou & já apreendeu sobre as coisas mundanas, permitam chegar até vocês a impressentida essência do bem-estar & procurem uma alegria na flor do cotidiano, na beleza & no perfume do dia-a-dia: no vôo de um pássaro & de uma canção: Poesia!

Poesia: a arte, ao meu ver, mais capacitada a nos fazer voar, viajar!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
______________________________________________________

(do livro: Receita de Ano Novo. autor: Carlos Drummond de Andrade. editora: Record.)

 

 

MENSAGEM

 

Todas as coisas foram pesquisadas,
Conferidas, catalogadas em séries.
Não resta mais nenhum prodígio
No seio da Terra, no seio do ar.
O mundo é um bocejo.
Entretanto (como explicar?)
Chega de manso, infiltra-se em nossas paredes
De casa, de carne,
Impressentida essência
(Melodia, memória)
E nos subjuga: Natal.

 

 

PROCURO UMA ALEGRIA

 

Procuro uma alegria
na mala vazia
do fim do ano
e eis que tenho na mão
— flor do cotidiano —
o voo de um pássaro
e de uma canção.

O IMPRONUNCIÁVEL: A FÚRIA DA BELEZA
19 de outubro de 2015

Mãe PB

Jurema Armond aos 72 anos

(A fúria da beleza de Jurema Armond: quando jovem, na primeira foto, e atualmente, aos 73 anos.)
______________________________________________________

hoje, 19 de outubro, aniversário da minha cabocla jurema.

73 anos de muito carinho, 73 anos de muitas delicadezas, 73 anos de muitas histórias da sua infância.

dona jurema armond, minha mãe, adora contar que, na sua infância, havia flores & frutas que são, hoje, raríssimas. como ninguém, quando caminhando pelas ruas, adora identificar os pés de árvores que encontra pela frente: roseiras, goiabeiras, mangueiras, abacateiros, amoreiras, jasmineiros, pés de manacá, onze-horas & dálias. à sua época de criança, tudo isso era encontrado pelos quintais com muita facilidade. e são estas as belezas que a encantam desde sempre. e são estas as belezas que fazem ser furiosa a beleza que encontro em dona jurema armond.

estupendamente funda, a beleza, quando é linda demais, dá uma imagem feita só de sensações, de modo que, apesar de não se ter consciência desse todo, diante de uma beleza tão estupendamente funda, sabemos não nos faltar nada.

é um “pá”, um tapa, um golpe. um bote que nos paralisa, organiza, dispersa, conecta & completa.

estonteantemente linda, a beleza que enxergo em dona jurema armond doeu profundo no peito esta manhã.

penso, às vezes, que vivo para este momento indefinível, sagrado, material, cósmico, quase molecular, o de me deparar com belezas que, de tão belas, chegam a ser furiosas, violentas, intransigentes, incontornáveis.

dona jurema armond, para quem não conhece, como é que me cabe explicar? difícil explicar essa flor que hoje vence as suas 73 primaveras, descrevê-la, conceituá-la cor, pétalas & caule, com seus merecimentos.

a fúria da beleza de dona jurema armond: no fundo, impronunciável. cabe a mim, apenas, percebê-la & intuí-la.

dona jurema armond é assim: é como as árvores & flores que a própria adora identificar pelas veredas em que caminha: furiosamente bela, violentamente encantadora.

a ela, neste 19 de outubro, todos os meus salves & todas as minhas loas!

beijo todos!
paulo sabino.
______________________________________________________

(do livro: A fúria da beleza. autora: Elisa Lucinda. editora: Record.)

 

 

O IMPRONUNCIÁVEL

 

Na minha infância havia flores e frutas fáceis
que são hoje raríssimas.
Roseira e goiabeira no quintal
eram uma coisa normal.
Veludo era uma planta chique, eu achava,
e sei lá de que família.
Tinha Onze-horas, uma florzinha rosinha-roxeada
que abria só por essa hora,
mulherezinhas que fechavam de noite
e abriam de dia.
E Dália, meu Deus?
Se eu não disser Dália
parece que ela desaparece,
parece que a flor nunca mais existirá,
nunca mais será encontrada.
Dália, pra quem não conhece,
como é que me cabe explicar?
Difícil explicar flor.
Descrevê-la, conceituá-la cor pétalas
e caule com seus merecimentos.
Araçá também sumiu.
Uma frutinha pequena, prima da goiaba,
parecida com, mas diferente de.
E Amora? Uns cachinhos delicadíssimos
que a gente, quando vê no rótulo das geléias,
se não conheceu ao vivo,
fica pensando que a gravura é de algum importado
de um país da ficção
frio e longe, um país que nem se sabe pronunciar o nome.
Na minha memória de olfato e imagem
habitam essas cores,
esse colorido ciclone.
Meu Deus, se eu não disser Dália
a palavra morrerá na minha mão,
a palavra morrerá na minha boca.
Dália!
Ai de mim, Dália não é palavra, é jardim.

 

 

A FÚRIA DA BELEZA

 

Estupidamente bela
a beleza dessa maria sem-vergonha rosa
soca meu peito esta manhã!
Estupendamente funda,
a beleza, quando é linda demais,
dá uma imagem feita só de sensações,
de modo que, apesar de não se ter a consciência desse todo,
naquele instante não nos falta nada.
É um pá. Um tapa. Um golpe.
Um bote que nos paralisa, organiza,
dispersa, conecta e completa!
Estonteantemente linda
a beleza doeu profundo no peito essa manhã.
Doeu tanto que eu dei de chorar,
por causa de uma flor comum e misteriosa do caminho.
Uma delicada flor ordinária,
brotada da trivialidade do mato,
nascida do varejo da natureza,
me deu espanto!
Me tirou a roupa, o rumo, o prumo
e me pôs a mesa…
é a porrada da beleza!
Eu dei de chorar de uma alegria funda,
quase tristeza.

Acontece às vezes e não avisa.
A coisa estarrece e abre-se um portal.
É uma dobradura do real, uma dimensão dele,
uma mágica à queima-roupa sem truque nenhum.
Porque é real.
Doeu a flor em mim tanto e com tanta força
que eu dei de soluçar!
O esplendor do que vi era pancada,
era baque e era bonito demais!

Penso, às vezes, que vivo para esse momento
indefinível, sagrado, material, cósmico,
quase molecular.
Posto que é mistério,
descrevê-lo exato perambula ermo
dentro da palavra impronunciável.
Sei que é dessa flechada de luz
que nasce o acontecimento poético.

Poesia é quando a iluminação zureta,
bela e furiosa desse espanto
se transforma em palavra!
A florzinha distraída
existindo singela na rua paralelepípeda esta manhã,
doeu profundo como se passasse do ponto.
Como aquele ponto do gozo,
como aquele ápice do prazer
que a gente pensa que vai até morrer!
Como aquele máximo indivisível,
que, de tão bom, é bom de doer,
aquele momento em que a gente pede pára
querendo e não podendo mais querer,
porque mais do que aquilo
não se agüenta mais,
sabe como é?

Violenta, às vezes, de tão bela, a beleza é!

ESCRITOS AO SOL: FERA MATINAL
14 de julho de 2015

Convite de lançamento_Escritos ao sol_Adriano Espínola

(Na foto, convite para o lançamento da antologia “Escritos ao sol”, de Adriano Espínola — para ampliar a imagem, basta clicar na foto.)
______________________________________________________

Olá Paulo, gostei muito do seu blog, dos poetas e dos poemas. E da sua “proesia”. Legal mesmo, parabéns!  Vamos lá, que “o canto na imensidão/ é ação e movimento”. Grd Abraço.

(Adriano Espínola – poeta & professor)

Olá Paulo! Puxa, o texto que vc escreveu sobre os poemas me emocionou. Vc soube desdobrar em mais e mais poesia as imagens da língua-mãe e do cavalo & o mar. Lindamente. Abração e obrigado, A.

(Adriano Espínola sobre publicação neste espaço, “Língua-mar: o cavalo-marinho & o mar-eqüestre”, com poemas de sua autoria)

Gostei muitíssimo do seu texto-diálogo com o “Elegia 1938”, do CDA! Vertiginoso. Grd Abraço!

(Adriano Espínola sobre publicação neste espaço, “Elegia (1938)”, com poema de Carlos Drummond de Andrade)

 

nesta quinta-feira (16 de julho), a partir das 19h, na livraria da travessa do shopping leblon (rio de janeiro), o professor de literatura & poeta adriano espínola, um mestre da poesia contemporânea brasileira, lança a antologia intitulada “escritos ao sol”, onde o autor reúne alguns dos melhores poemas de sua obra numa edição considerada “definitiva”.

em conversa com o poeta, descobri, para a minha imensa satisfação, que tenho toda a sua obra. e já lhe avisei que levarei ao lançamento todos os meus exemplares para serem autografados, inclusive a antologia, que já tratei de adquirir!

portanto, aos senhores, o convite — acima & abaixo — a um mergulho na poética deste que é um dos maiores poetas da nossa literatura.

salve a poética sempre iluminada de adriano espínola!
salve os seus escritos ao sol!
_____________________________________________________

Arpoador, manhã 23 de janeiro de 2014

(Manhã no Arpoador, Rio de Janeiro.)
______________________________________________________

feito um cão solto, súbito, repentino, inesperado, o sol salta a janela adentro do quarto.

inquieto, agitado, o sol, feito um cão solto, salta a janela adentro do quarto & morde os punhos da rede, derruba a sombra do retrato, lambe o pé sujo lá da parede, fuça a mancha amarela do espelho, late alto & luminoso: “luz! luz!”, e, depois de meter o seu focinho em tudo, se enfia, fiel, no velho par de chinela.

o sol: um cão solto: fera em sua luminosidade violenta.

o sol: um cão solto: uma fera, como também é a cidade lá fora do quarto, presa à alva, presa à clara coleira do novo dia.

um novo dia: a água nova, a água fresca, a água recém-chegada, a água renascida, do dia: o pão, a fruta, a água & a névoa do café: o cheiro, o gosto, o tato ali desperto & posto pelo desjejum, pela primeira refeição do dia, ferindo — deliciosamente — o corpo, que leve aflora na cozinha, enquanto lá fora, o sol, fera em sua luminosidade violenta, a tudo sacia de luz — aurora — e pelas ruas caminha, desnudo em seu pêlo-luz & afeito a quem desejar sua lambida seca a nos molhar de suor.

beijo todos!
paulo sabino.
_____________________________________________________

(do livro: Escritos ao sol. autor: Adriano Espínola. editora: Record.)

 

 

FERA

Feito um cão solto,
súbito o sol
salta janela
adentro do quarto.

Inquieto, morde
os punhos da rede,
derruba a sombra
do retrato,

lambe o pé sujo
lá da parede,
fuça a amarela
mancha do espelho,

late: luz! luz! —
depois se enfia,
fiel, no velho
par de chinela.

(Como a cidade
lá fora, fera,
na alva coleira
do novo dia.)

 

 

MANHÃ

A água nova do dia,
o pão, a fruta, a névoa
do café,

o cheiro, o gosto,
o tato ali desperto
e posto,

ferindo o corpo,
que leve aflora
na cozinha,

enquanto lá fora
o sol a tudo
sacia

de luz — aurora —
e pelas ruas caminha,
desnudo.

REINAUGURAÇÃO
26 de dezembro de 2014

Fogos de artifício sobre o mar______________________________________________________

entre o gasto dezembro, o dezembro desgastado, o dezembro usado, o dezembro que encerra o fim de um ciclo de doze meses, e o florido janeiro, o janeiro em flor, o janeiro repleto de desejos, o janeiro que inaugura o início de um ciclo de doze meses, entre a desmitificação (trazida pelo ano que finda, já gasto) & a expectativa (trazida pelo ano que começa, florido), tornamos a acreditar num futuro melhor, voltamos a ser bons meninos, e, como bons meninos, reclamamos a graça dos presentes coloridos, reivindicamos a dádiva dos presentes desejados.

nossa idade — velho ou moço — pouco importa.

importa é nos sentirmos vivos & alvoroçados mais uma vez, uma vez que ânimo & boa disposição são mais que necessários se se deseja enfrentar a cara feia do mundo cruel, importa é nos sentirmos revestidos de beleza, a exata beleza que vem dos gestos espontâneos, a beleza irretocável que vem dos gestos lhanos, dos gestos sinceros, dos gestos puros, dos gestos verdadeiros, e revestidos do profundo instinto de subsistir, de perdurar, de continuar a existir, enquanto as coisas em redor se derretem & somem como nuvens errantes no universo estável, enquanto as coisas em redor findam & somem — como as coisas têm de findar & sumir.

prosseguimos. reinauguramos. abrimos olhos gulosos a um sol diferente — prenhe de desejos luminosos — que nos acorda para os descobrimentos (“o futuro a deus pertence”, diz o dito popular).

esta é a magia do tempo, esta é a colheita particular, a colheita de cada um, a magia & a colheita que se exprimem no cálido abraço & no beijo comungante da virada do ano, a magia & a colheita que se exprimem no acreditar na vida & na doação de vivê-la em perpétua procura & perpétua criação: prosseguir, reinaugurando-se, reinventando-se, reavaliando-se, com olhos gulosos a um sol diferente, que nos acorda para os descobrimentos, para as conquistas, para as realizações.

assim, desse modo, já não somos apenas finitos & sós: somos uma fraternidade, somos um território, somos um país (tamanha força creditamos em nós & no outro), que começa outra vez no canto do galo de 1º de janeiro & desenvolve na luz o seu frágil, o seu delicado, o seu sensível, projeto de felicidade.

flui a vida como água, pois, como água, a vida se renova, a vida passa & não volta: assim como água, é sempre outra a vida a passar.

se a vida me foge, se de mim a vida parece afastar-se, afago-a em cada esperança nova: prosseguir, reinaugurando-se, reinventando-se, reavaliando-se, com olhos gulosos a um sol diferente, que nos acorda para os descobrimentos, para as conquistas, para as realizações.

sigamos bem. sigamos juntos.

um feliz 2015!

beijo todos!
paulo sabino.
______________________________________________________

(do livro: Receita de Ano Novo. autor: Carlos Drummond de Andrade. editora: Record.)

 

 

FLUI A VIDA COMO ÁGUA

 

Flui a vida como água,
como água se renova.
Se a vida me foge, afago-a
em cada esperança nova.

 

 

REINAUGURAÇÃO

 

Entre o gasto dezembro e o florido janeiro,
entre a desmitificação e a expectativa,
tornamos a acreditar, a ser bons meninos,
e como bons meninos reclamamos
a graça dos presentes coloridos.
Nossa idade — velho ou moço — pouco importa.
Importa é nos sentirmos vivos
e alvoroçados mais uma vez, e revestidos de beleza, a
exata beleza que vem dos gestos espontâneos
e do profundo instinto de subsistir
enquanto as coisas em redor se derretem e somem
como nuvens errantes no universo estável.
Prosseguimos. Reinauguramos. Abrimos olhos gulosos
a um sol diferente que nos acorda para os
descobrimentos.
Esta é a magia do tempo.
Esta é a colheita particular
que se exprime no cálido abraço e no beijo comungante,
no acreditar na vida e na doação de vivê-la
em perpétua procura e perpétua criação.
E já não somos apenas finitos e sós.
Somos uma fraternidade, um território, um país
que começa outra vez no canto do galo de 1º de janeiro
e desenvolve na luz o seu frágil projeto de felicidade.

AUTO-RETRATO FALADO
13 de novembro de 2014

Manoel de Barros 05

Manoel de Barros_Sorriso

______________________________________________________

Hoje, 13/11, aos 97 anos, nos deu adeus aquele que foi, é & sempre será um dos maiores poetas da língua portuguesa, Manoel de Barros.

Desde que tive contato com sua figura física & sua poesia, quis o Manoel para meu avô.

Um mestre, um exímio cantador, o homem das ignorãças, das grandezas do ínfimo, o gramático do chão, o arranjador de assobio, o homem que conhecia o “nada” como ninguém, o guardador de águas, o pantaneiro que se dava concertos a céu aberto para solos de ave, o menino do mato, o fazedor de amanhecer.

Manoel de barro lindo, divino, agora voa que nem passarinho, na asa da sua poesia.

Vivas ao Manoel, vivas à sua existência, vivas à sua obra poética!

Beijo todos!
Paulo Sabino.
______________________________________________________

(do livro: O livro das ignorãças. autor: Manoel de Barros. editora: Record.)

 

 

AUTO-RETRATO FALADO

 

Venho de um Cuiabá garimpo e de ruelas entortadas.
Meu pai teve uma venda de bananas no Beco da
……..Marinha, onde nasci.
Me criei no Pantanal de Corumbá, entre bichos do
……..chão, pessoas humildes, aves, árvores e rios.
Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de
……..estar entre pedras e lagartos.
Fazer o desprezível ser prezado é coisa que me apraz.
Já publiquei 10 livros de poesia; ao publicá-los me
……..sinto como que desonrado e fujo para o
……..Pantanal onde sou abençoado a garças.
Me procurei a vida inteira e não me achei — pelo
……..que fui salvo.
Descobri que todos os caminhos levam à ignorância.
Não fui para a sarjeta porque herdei uma fazenda de
……..gado. Os bois me recriam.
Agora eu sou tão ocaso!
Estou na categoria de sofrer do moral, porque só
……..faço coisas inúteis.
No meu morrer tem uma dor de árvore.

FIBRILAÇÕES: CANTO PARA COMOVER A VIDA
17 de outubro de 2014

Papai_Mamãe_Eu

Jurema Armond_Rosto

Jurema Armond aos 72 anos

(Nas fotos, a grande homenageada: na primeira, aos cinqüenta & alguns anos, entre os dois grandes homens da sua vida; na segunda, aos sessenta & alguns anos; e na terceira, hoje, à beira dos seus 72 anos.)
__________________________________________________________________

daqui a dois dias, isto é, no dia 19 de outubro (domingo próximo), a responsável por trazer ao mundo este que vos escreve vence as suas 72 primaveras, linda como sempre foi, é só olhar as fotos acima.

dona jurema armond, a minha cabocla jurema, não é a grande diva da minha vida apenas por sua beleza física: antes, esta é o reflexo do que vai no seu íntimo. porque dona jurema armond, intimamente, consegue ser ainda mais linda, ainda mais diva.

com ela, aprendi os passos & os caminhos do amor. antes de mais nada, é preciso que se afirme: dona jurema armond nasceu para o amor, dona jurema armond nasceu para o delicado, dona jurema armond nasceu para o pulsar do coração.

(notem que o seu sobrenome, armond, possui as letras que formam a palavra amor.)

sem dúvida, é das pessoas mais amorosas que conheço, se não for a mais amorosa dentre todas.

se hoje sou um homem amoroso, se hoje prezo pelo delicado da vida, se hoje sei que o que mais importa é o que o coração abriga, sou, prezo, sei, por causa dela.

ela é a grande responsável.

o amor que a envolve, o amor que a possui, é das coisas mais fortes & incomensuráveis que conheço.

os diamantes são indestrutíveis? mais é seu amor.

o mar é imenso? seu amor é maior, seu amor é mais belo porque sem ornamentos, porque sem enfeites, mais belo porque puro amor, sem afetações, mais belo do que um campo de flores.

seu amor, o amor de jurema armond, é mais triste do que a morte (minha cabocla, por ser deveras amorosa, sofre deveras de amor), seu amor é mais desesperançado do que a onda batendo no rochedo (minha cabocla, por ser deveras amorosa, sofre ao ver o mundo sofrer, chocando-se contra o indelicado da vida), seu amor é mais tenaz, mais resistente, mais obstinado, que o rochedo (minha cabocla, apesar de sofrer ao ver o mundo sofrer, chocando-se contra o indelicado da vida, preserva, em si, o seu amor ainda mais firme & ainda mais forte que o rochedo, que a pedra no meio do caminho).

o amor de dona jurema armond tanto ama, que, de tão amoroso, nem sabe mais o que ama.

ama tudo que houver para amar. sem restrições.

a ela, a jurema armond, tanto faz: funeral ou festim, tudo é desejo o que nela percute, tudo é desejo o que nela bate com força.

o seu coração, incansável à ressonância das coisas, o seu coração, incansável à reverberação das coisas, o seu coração, incansável à repercussão das coisas, o seu coração bate no compasso das batidas: “amo, te amo, te amo”.

o seu coração só sabe bater & dizer: “amo, te amo, te amo, ó mundo, mundo feito de maldades mas também de lindezas, ó homem, que de tão belo, por toda a riqueza & complexidade de que se constitui o ser humano, me paralisa, me espanta, me sensibiliza”.

e uma língua só, a linguagem do amor, é a que dona jurema armond aprendeu & sabe falar. um só ouvido, não absoluto, um só ouvido sem a capacidade de distinguir os tantos tons do amor, um só ouvido que sabe somente escutar a voz do amor independentemente das suas gradações.

certa erva do campo tem as folhas ásperas, e, ainda que ásperas, “te amo” é o que diz dona jurema armond à aspereza das folhas.

o seu amor pelo mundo, o seu amor pelo homem, o seu amor pelo amor que as coisas têm: o amor causa fibrilações, o amor causa batimentos descompassados no peito, o amor faz estremecer: a relva estremece com o passar do vento. o amor, para ela (para a relva), é a aragem, é o vento que a faz estremecer, que a faz fibrilar.

o amor de dona jurema armond tanto ama, que, de tão amoroso, nem sabe mais o que ama.

ama tudo que houver para amar. sem restrições.

a ela, musa maior da minha vida, às suas 72 primaveras vencidas no dia 19 de outubro, todos os meus salves & todas as minhas loas!

feliz aniversário, mãe! o melhor a você, sempre!

beijo todos!
paulo sabino.

__________________________________________________________________

(do livro: O pelicano. autora: Adélia Prado. editora: Record.)

 

 

PRANTO PARA COMOVER JONATHAN

 

Os diamantes são indestrutíveis?
Mais é meu amor.
O mar é imenso?
Meu amor é maior,
mais belo sem ornamentos
do que um campo de flores.
Mais triste do que a morte,
mais desesperançado
do que a onda batendo no rochedo,
mais tenaz que o rochedo.
Ama e nem sabe mais o que ama.

 

 

FIBRILAÇÕES

 

Tanto faz
funeral ou festim,
tudo é desejo
o que percute em mim.
Ó coração incansável à ressonância das coisas,
amo, te amo, te amo,
assim triste, ó mundo,
ó homem tão belo que me paralisa.
Te amo, te amo.
E uma língua só,
um só ouvido, não absoluto.
Te amo.
Certa erva do campo tem as folhas ásperas
recobertas de pêlos,
te amo, digo desesperada
de que outra palavra venha em meu socorro.
A relva estremece,
o amor para ela é aragem.